708 CRNICAS MARAVILHOSAS

AUTORIA, PESQUISA, REVISO, ORGANIZAO: JOS CARLOS DUTRA DO CARMO.

Este arquivo uma cortesia de JOS CARLOS DUTRA DO CARMO, que sempre tem por filosofia de vida ajudar o prximo da melhor maneira possvel.

SITE: www.sitenotadez.net, j acessado por mais de 17 milhes de pessoas.

E-MAILs: sitenota1000@gmail.com - sitenotadez@sitenotadez.net

As mais belas crnicas escritas pelos escritores mais consagrados do Brasil.

Ler estimulante e essencial.

A leitura habitual e incessante provoca experincias msticas e rompe muros da mediocridade e da ignorncia, inspirando o esprito a avanar em direo da luz, da sabedoria e do aprendizado ilimitado.

Um texto pode fazer-nos vivenciar pocas de guerras, tristezas e alegrias.

Nada desenvolve mais a capacidade verbal que a leitura de livros, que at nos ajudam a sonhar e a pensar com mais nitidez.

Enfim, a boa leitura enriquece a alma e o esprito.

IMPORTANTSSIMO. Informo aos escritores, seus representantes legais e respectivas editoras, detentores dos direitos autorais dos textos que aparecem neste arquivo, que eles sero imediatamente removidos do SITE caso assim o queiram.

1. ADLIA PRADO. Depois de muita e boa chuva, Clia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de nibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com fora. Ouviu um passageiro falando pra ningum: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelo e zinco, que brotam como grama margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criana e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moa e seu namorado com bota de imitao de peo boiadeiro iam de mos dadas, com certeza casa de uma tia da moa, comunicar que pretendiam se casar. Uma av gorda com seu neto tambm passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Clia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da av, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela av que lhe pegava na mo de um jeito que nem sua me fazia. Desceram trs moos de bermuda e camisa do Clube Atltico Mineiro, e um quarto com grande inscrio na camiseta: S CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda no favorecem a ningum, ela pensou desgostosa com a feira das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela inveno horrorosa. Teve d dos moos que s conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavres e chup-chup com gua de torneira e famlias inteiras se esturricando gozosamente entre po com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenes da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo est certo. Uma criana comeou a chorar muito alto: quero ficar aqui no, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A me parecia muito agoniada e pelo tom do choro Clia achou que ela abafava a boca da criana com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposies. Tudo estava muito bom naquele dia, no sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a me, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o nibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era s platia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra cu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecnica do mundo e muitssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miserveis e os governos no saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em conclio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e no tenhamos mais tempo de atender porta a multido de pedintes. Ainda assim, a vida maior, o direito de nascer e morar num caixote beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um nico dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortnio: vem c, homem, repara se j viu o cu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.

2. ADLIA PRADO. Tenho um pouco de pudor de contar, mas s um pouco, porque sei que vou acabar contando mesmo. porque l em casa a gente no podia falar nem diabo, que levava sabo, quanto mais... ah, no fim eu falo. Coisa do Teodoro, ele quem me contou, voc sabe, marido depois de um certo tempo de casamento fala certas coisas com a mulher. O seu no fala? Pois , e de novo tem um tempo que aconteceu. Lembra aquela histria dos queijos? Igual. Demorou um par de anos pra me contar. O pessoal dele assim, sem pressa. Tem uma histria deles l, que o pai dele, meu sogro, esperou 52 anos pra relatar. Diz ele que esperou os protagonistas morrerem. Tem condio? Mas o Teodoro foi quando a gente mudou pra casa nova teve de ir nas Goiabeiras tratar um marceneiro e passou, pra aproveitar, na casa da tia dele, a Carlina do Afonso, e encontrou l o Gomide. Tou encompridando, acho que s por medo do fim, mas agora j comecei, ento. Ento, diz o Teodoro, que o Gomide tirou do bolso do palet uma trouxinha de palha de milho, cortadas elas todas iguaizinhas e amarradas com uma embirinha da mesma palha. Escolheu, escolheu, pegou uma bem lisa e bem branquinha, tirou o canivete do outro bolso, lambeu a palha pra l, pra c, e ficou um tempo lhe passando firme a lmina, do meio pras pontas, de ponta a ponta, entremeando com lambidas. Depois, ainda segurando a palha entre os dedos, foi a hora de tirar e picar o fumo de rolo bem fininho. Ia picando e pondo na concha da mo. Acabou, guardou o rolo e ficou socavando o fumo na mo com a ponta do canivete. Depois pegou a palha, mais uma lambida e foi pondo nela o fumo, espalhando ele por igual na canaleta formada, pressionando bem pra ficar bem firme. Deu mais uma lambida na parte mais prxima do fumo e com os polegares e indicadores foi enrolando o cigarro devagarinho, uma enrolada e uma lambida, uma enrolada e uma lambida. Com o canivete dobrou uma das pontas para o fumo no escapar, tirou a binga do bolso, acendeu e pegou a pitar. Agora que vem, ai, ai. Teodoro falou que o tempo todo da operao ele no despregava o olho daquilo. Disse que nem sabe o que tia Carlina arengava, s punha sentido no Gomide fazendo o pito. Diz ele que foi uma coisa to esquisita esquisita, no , to encantada que ele ficou de pau duro. isso. Falou tambm que ficou doido pra sair dali, comprar palha, fumo de rolo e repetir tudo igualzinho ao Gomide. Eu entendo. Quando conheci o Teodoro, ele fumava e eu achava muito emocionante. Tenho muita saudade de quando no existia essa amolao de cigarro dar cncer, nem de mulher ser magra. A gente tinha mais tempo para o que precisa, no mesmo? Ser que faz mal mesmo? Colesterol, depois de tanto barulho, esto falando que j tem do bom. Qualquer dia vou pedir ao Teodoro pra dar uma fumadinha, s pra fazer tipo.

3. ADLIA PRADO. E o locutor da festinha continuou empolgado, fazendo bonito pra sua mulher, que deixara, naquela noite, comparecer ao seu trabalho, tendo-lhe adquirido, ele prprio, o convite. ... "porque, alm de militar reformado da PPMG, ainda o proprietrio do animado Bar Central, o av da nossa Lesliene, a feliz aniversariante desta noite. Quando disse "nossa Lesliene, acreditou desapontado que a mulher no salvava sua inventividade narrativa. Arrependeu-se de t-la trazido e insistiu com o moo do vdeo para que filmasse mais esquerda do palco, a mesa da dona da festa. De verdade, queria mesmo que a me de seus filhos no aparecesse no filme; uma mulher que no passava uma sexta-feira sem encher latas e latas de biscoitos e s sabia ir em festa daquele mesmo jeito: saia preta, blusa de seda, por fora, pra disfarar as ancas e arquinho na cabea putisgrila , desse tinha vrios de diversas cores, devia se achar nua sem o arco nos cabelos, logo ele, um homem conhecido, com aquele talento incrvel para animar festas. ... agora, senhoras e senhores, o momento to esperado em que a nossa olhou de novo pra mulher olhando pra ele embevecida, se esquecendo de ficar em p , a nossa festejada Lesliene, a menina-moa da noite, vai apagar as merecidas velinhas. Ai, ser que estava certo dizer merecidas velinhas? Achou timo ser o locutor e estar dispensado de danar com a mulher, que no conseguia terminar o pratinho, bebendo guaran em pequenos goles. Pensou ter sido um erro t-la trazido festa. Se sentia desconfortvel, inseguro dos adjetivos, querendo tirar a gravata e mostrar pras pessoas o que o roqueiro doido mostrou durante um show e acabou preso. Gente do cu, o que est acontecendo comigo? Olhou para o av, da Lesliene. Um filho da me, esse "militar reformado" espancador de presos. Nem que a marica estica eu falo mais o nome dele aqui, E essa Lesliene est me saindo uma perua e tanto. Ento isto salto para uma menina de quinze anos? ... e agora, senhores esqueceu das senhoras , o Toniquinho do Arlindo vai tocar a valsa que a aniversariante danar com o pai dela. No disse "o talentoso msico Antnio Miranda, filho do nosso popular Zico Miranda, tocar a valsa que Lesliene danar com o seu progenitor". Meio escondida por uma coluna do salo, sua mulher ainda no terminara os salgadinhos. Finssima. Lembrou que ela lhe aconselhara trocar de camisa, "voc fica melhor com a de linho creme". Teve vontade de chorar e ao mesmo tempo sentiu raiva daquele amor paciente e silencioso, capaz de morrer por ele. Foram pra casa calados. Quando se virou pro canto, um homem roubado, ela disse: voc fala to bonito, Raimundo! Pois voc fique sabendo que de hoje em diante no pego mais bico de locuo noturna. J tou cheio disso. Vou reabrir minha oficina que melhor negcio. Acho pena, voc fala to bem! Cremilda, se eu te pedir, voc nunca mais pe arquinho no cabelo? D pra sua irm aquele conjunto de saia e blusa? Voc me perdoa? No entendia bem o discurso do marido, estranho naquela noite, mas era uma verdadeira mulher, fez como Nossa Senhora, disse sim ao senhor. E Raimundo fez com ela o que faz um homem competente para deixar feliz sua mulher.

4. ADLIA PRADO. Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e at pudica, uma, ou melhor, um derrire esplendido. No preciso ser homem pra essas avaliaes. Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anguas daquele tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua em falsa pudicicia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos. Eu era mocinha boba e escutei no armazm do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente no vai dar conta daquela ali, no. preciso muita sade. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os tesouros da Oldalisa e ela nem a, toda toda, sobe e desce rua. Exatamente o que era me escapava, s podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar de segredos to excitantes. O Vicente era muito magrinho, no jogava bola, no nadava, "no salientava em nada", o Vicente Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda como o Calixto chamou ela naquele dia gostou. Casaram e tiveram pencas de filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonito e dono de armazm no contou ponto pra ele. Pois , falou o Teodoro, hoje, assim que botou o p em casa: O que a tecnologia, hein? Tecnologia? o avano da medicina. Teodoro falava era do avano do tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, no tem base. T vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A Oldalisa do Vicente? . O Vicente estava junto? No. Estava com duas alianas e um menino, neto dela com certeza. Ser que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que no, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, s mesmo a lisa, magra e murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as agruras do corpo. Teria ele tambm sido um apaixonado da Oldalisa e eu corrido srios riscos? Porque amor no olha idade, no mesmo? Agora, daquela do escritrio eu tive, medo no, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruda e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocncia. Batia mquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem ps. Se chamava Rosiva, a perigosa. Imagina o risco que eu corri.

5. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. O CRONISTA UM ESCRITOR CRNICO. O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crnica. Devia ter eu l uns 16 ou 17 anos. E a fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e So Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de reprter policial a crtico literrio. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crnica sistematicamente. Virei um escritor crnico. O que um cronista? Lus Fernando Verssimo diz que o cronista como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crnicas so como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaos, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula. J andei dizendo que o cronista um estilita. No confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. So Simeo passou trinta anos assim, exposto ao sol e chuva. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista. O cronista isso: fica pregando l em cima de sua coluna no jornal. Por isto, h uma certa confuso entre colunista e cronista, assim como h outra confuso entre articulista e cronista. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idias. O cronista o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu "eu", como o do poeta, um eu de utilidade pblica. Que tipo de crnica escrevo? De vrios tipos. Conto casos, fao descries, anoto momentos lricos, fao crticas sociais. Uma das funes da crnica interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. No tem importncia. O cronista crnico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.

6. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. AMOR-O INTERMINVEL APRENDIZADO. Criana, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portes enluarados se entrebuscando numa aflio feliz de mos na folhagem das anguas. Via-os noivos se comprometendo luz da sala ante a famlia, ante as moblias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado. Se enganava. Se enganava porque o aprendizado de amor no tem comeo nem privilgio aos adultos reservado. Sim, o amor um interminvel aprendizado. Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portes se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospeco de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolbio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, no era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. que fora buscar outro amor, a busca recomeara, pois a fome de amor no sabia nunca, como ali j no se saciara. De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrs da aparente tranqilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmcia, to domstica e feliz, de repente fugiu com um bomio, largando marido e filhos. Ento, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora paream um porto onde as naus j atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas razes j se entranaram, eles tambm no sabem, esto no meio da viagem, e s eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram. Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixes. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados traio daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor. O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava. Ento, pensou: h o amor, h o desejo e h a paixo. O desejo assim: quer imediata e pronta realizao. indistinto. Por algum que, de repente, se ilumina nas taas de uma festa, por algum que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina. J a paixo outra coisa. O desejo no nada pessoal. A paixo um vendaval. Funde um no outro, egosta e, em muitos casos, fatal. O amor soma desejo e paixo, a arte das artes, arte final. Mas reparou: amor s vezes coincide com a paixo, s vezes no. Amor s vezes coincide com o desejo, s vezes no. Amor s vezes coincide com o casamento, s vezes no. E mais complicado ainda: amor s vezes coincide com o amor, s vezes no. Absurdo. Como pode o amor no coincidir consigo mesmo? Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? H um amor dos vinte, um amor dos cinqenta e outro dos oitenta? Coisa de demente. No era s a estria e as estrias do seu amor. Na histria universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente. Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado. No havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado. O amor se aprendia sempre, mas do amor no terminava nunca o aprendizado. Optou por aceitar a sua ignorncia. Em matria de amor, escolar, era um repetente conformado. E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.

7. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. FAZER 30 ANOS. Quatro pessoas, num mesmo dia, me dizem que vo fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma est dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade esto proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem ateno, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave. Antes dos 30 as coisas so diferentes. Claro que h algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar. Fazer 40, 50 ou 60 um outro ritual, uma outra crnica, e um dia eu chego l. Mas fazer 30 anos mais que um rito de passagem, um rito de iniciao, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faa 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que no far jamais 30 anos. No h como obrig-los. No sabem o que perdem os que no querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos coisa fina, comear a provar do nctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a viso e todos os sentidos esto comeando a tirar prazeres indizveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, cair em rea sagrada. At os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissrias. A partir da hora de comear a pagar. Mas tambm se poderia dizer: at essa idade fez-se o aprendizado bsico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminvel, j se foi do primrio ao doutorado. A profisso j deve ter sido escolhida. J se teve a primeira mesa de trabalho, escritrio ou negcio. J se casou a primeira vez, j se teve o primeiro filho. A vida j se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, at das drogas j retornou quem tinha que retornar. Quando algum faz 30 anos, no creiam que seja uma coisa fcil. No simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos cair numa epifania. Fazer 30 anos como ir Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos como o mineiro v pela primeira vez o mar. Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, beira-mar, na Califrnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anis de um tronco, cheio de eus e ns, arborizado, arborizando, ao sol e a ss. Na verdade, fazer 30 anos no para qualquer um. Fazer 30 anos , de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espao. Viver no espao mais fcil e deslizante. mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente. Mas fazer 30 anos como sair do espao e penetrar no tempo. E penetrar no tempo mister de grande responsabilidade. descobrir outra dimenso alm dos dedos da mo. como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraa da casca. Algo, no entanto, mais tnue que uma membrana. Algo como um centro, s vezes mvel, verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes. Aos 30 j se aprendeu os limites da ilha, j se sabe de onde sopram os tufes e, como o nufrago que se salva, hora de se autocartografar. J se sabe que um tempo em ns destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos como uma pedra que j no precisa exibir preciosidade, porque j no cabe em preos. como a ave que canta, no para se denunciar, seno para amanhecer. Fazer 30 anos passar da reta curva. Fazer 30 anos passar da quantidade qualidade. Fazer 30 anos passar do espao ao tempo. quando se operam maravilhas como a um cego em Jeric. Fazer 30 anos mais do que chegar ao primeiro grande patamar. mais que poder olhar pra trs. Chegar aos 30 hora de se abismar. Por isto necessrio ter asas, e sobre o abismo voar.

8. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. A MULHER MADURA. O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos. De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balco. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camels. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aim. H uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdcios da adolescncia, quando se esbanjam pernas, braos e bocas ruidosamente. A adolescente no sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita gua para os lados. Enfim, desborda. A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da gara sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos no de gula ou de concupiscncia. Seus olhos no violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distncia entre seu corpo e o mundo. A mulher madura assim: tem algo de orqudea que brota exclusiva de um tronco, inteira. No um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhs. A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiao que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adgio em suas formas. E at no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um obo sobre a campina do leito. A boca da mulher madura tem uma indizvel sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traio e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimenso de outros corpos. Por isto as suas mos so lricas no drama e repem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril. O corpo da mulher madura um corpo que j tem histria. Inscries se fizeram em sua superfcie. Seu corpo no como na adolescncia uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaas numa intimidade respeitosa. Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados tm que ter condescendncia e me entender. A maturidade tambm vem mulher pobre, mas vem com tal violncia que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza. Na verdade, talvez a mulher madura no se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade tambm algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador. Cada idade tem seu esplendor. um equvoco pens-lo apenas como um relmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e preciso que cada um descubra o fulgor do prprio corpo. A mulher madura est pronta para algo definitivo. Merece, por exemplo, sentar-se naquela praa de Siena tarde acompanhando com o complacente olhar o vo das andorinhas e as crianas a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, est pronta para ir Grcia. Descolou-se da superfcie das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura no ostenta jias. As jias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo. A mulher madura um ser luminoso repousante s quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido no note, perdido que est nos escritrios e mesquinhas aes nos mltiplos mercados dos gestos. Ele no sabe, mas deveria voltar para casa to maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes. Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido no sabem o que perderam em no esper-la madurar. Ali est uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

9. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. ANTES QUE ELAS CRESAM. H um perodo em que os pais vo ficando rfos dos prprios filhos. que as crianas crescem. Independentes de ns, como rvores, tagarelas e pssaros estabanados, elas crescem sem pedir licena. Crescem como a inflao, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preos, os disparos dos discursos e o assalto das estaes, elas crescem com uma estridncia alegre e, s vezes, com alardeada arrogncia. Mas no crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de voc no terrao e dizem uma frase de tal maturidade que voc sente que no pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde e como andou crescendo aquela danadinha que voc no percebeu? Cad aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cad a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversrio com palhaos, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal? Ela est crescendo num ritual de obedincia orgnica e desobedincia civil. E voc est agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela no apenas cresa, mas aparea. Ali esto muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas so as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas. Entre hambrgueres e refrigerantes nas esquinas, l esto elas, com o uniforme de sua gerao: incmodas mochilas da moda nos ombros ou, ento com a suter amarrada na cintura. Est quente, a gente diz que vo estragar a suter, mas no tem jeito, o emblema da gerao. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascenso, as mes, s vezes, j com a primeira plstica e o casamento recomposto. Essas so as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notcias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros. H um perodo em que os pais vo ficando rfos dos prprios filhos. Longe j vai o momento em que o primeiro mnstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. No mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre grias e canes. Passou o tempo do bal, da cultura francesa e inglesa. Saram do banco de trs e passaram para o volante de suas prprias vidas. S nos resta dizer bonne route, bonne route, como naquela cano francesa narrando a emoo do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela. Deveramos ter ido mais vezes cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidncias entre os lenis da infncia, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pil. No, no as levamos suficientemente ao maldito drive-in, ao Tablado para ver Pluft, no lhes demos suficientes hambrgueres e cocas, no lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas. Elas cresceram sem que esgotssemos nelas todo o nosso afeto. No princpio subiam a serra ou iam casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, pscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais comeou a ser um esforo, um sofrimento, pois era impossvel deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exlio dos pais, esse divrcio dos filhos, vai durar sete anos bblicos. Agora hora de os pais na montanha terem a solido que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto a hora do carinho ocioso e estocado, no exercido nos prprios filhos e que no pode morrer conosco. Por isso, os avs so to desmesurados e distribuem to incontrolvel afeio. Os netos so a ltima oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, necessrio fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresam.

10. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. O VESTIBULAR DA VIDA. Um enduro sem moto, um rali sem carro, uma maratona onde, ao invs de atletas, correm paraplgicos, cegos, presidirios, grvidas e doentes em suas macas, esta a imagem que nos deixa este vestibular realizado esta semana, mobilizando centenas de milhares de jovens em todo o pas. Vrias fotos mostram jovens correndo desabalados dentro de seus jeans justos e camisetas palavrosas em direo ao porto da universidade, como se fossem dar um salto trplice. Como se fossem dar um salto sem vara. Como se fossem dar um salto na vida. Ao lado, aparecem parentes incentivando o corredor-saltador, aparecem colegas gritando em torcida. Correi, jovens, correi, que estreita a porta que vos conduzir salvao! E ali est, como So Pedro, um porteiro ou guarda, que vai bater a porta na cara do retardatrio, que chorar, implorar, arrancar os cabelos num ranger de dentes, enquanto, saltitantes, os mais espertos pulam (ocultamente) um muro e penetram o paraso (ou inferno da mltipla escolha). A Telerj declarou que teve que acordar mais de 10 mil jovens pelo despertador telefnico. Carlinhos Gordo, o maior ladro de carros do pas, estava entre os 39 presidirios que, no Rio, fizeram, mesmo na cadeia, o exame. Mais de trinta deficientes visuais tiveram que tatear as 51 folhas em braile. Maria Alice Nunes teve um filho e saiu da maternidade com o recm-nascido no colo para enfrentar o unificado. Um ndio cego o guarani Jos Oado, 24 anos disputa uma vaga em Histria (ou na histria?). Andra Paula Machado, 17 anos, teve que interromper o exame escrito vrias vezes, para o prazer oral do beb que, entre uma mamada e outra, voltava ao colo da av. Dois fiscais que transportavam as provas no caminho de Petrpolis morreram num acidente. Um estudante com rubola fez, num posto mdico, prova ao lado de outro com catapora. Todas as idades ali estavam representadas: Mrcia Cristina da Silva, 13 anos, vejam s!, j comeou a treinar para o vestibular de Medicina em 88, e neste s achou difcil a prova de literatura. Mas l estava tambm Edgar Carvalho, 73 anos, advogado, trocando as delcias da aposentadoria pela idia de se tornar mdico e ainda ser til aos outros. Por isto, discordo da jovem que o interpelou acusando-o de estar tirando a vaga de outro. Socialmente melhor um velho de 73 anos que qualquer dos jovens que faltaram prova porque dormiam, que no foram classificados porque achavam que vestibular era loto e vivem a ociosidade daninha custa de seus pais. Mas, de todos os casos, impressiona mais o de Maria Regina Gonalves, uma enfermeira de 38 anos. Vejam que estria mirabolante. L vai a nossa Maria Regina. Mas no vai simplesmente. Vai grvida. Vai grvida, mas no uma grvida amparada pelo seu marido, mas uma grvida solteira, enfrentando o mundo com sua barriga e coragem. No entanto, hora e meia antes do exame, em So Cristvo, assaltada por trs marmanjos covardes, que tomam dela os documentos, 200 mil cruzeiros, e o pior: lhe do uma poro de safanes, num exerccio de sadismo matinal. Maria Regina poderia depois disto voltar chorando para casa e ficar lamuriando o resto da vida. Fez o contrrio:foi em frente, embora, ao chegar no local, soubesse que uma outra colega, tambm assaltada, desistira do exame. Maria Regina deu um jeito, arranjou at cpia xerox de sua carteira de identidade, fez a prova, comprometendo-se a mostrar os outros documentos mais tarde. Mas, de noite, teve uma hemorragia. Pena que os ladres no pudessem ver a cena, pois ficariam mais felizes. O mdico lhe ordena "repouso absoluto". Ela ali "repousando", mas agoniada, porque a burocracia lhe exigia comprovaes de documentos para validar os exames. Como desgraa pouca bobagem, quatro dias depois morre o pai de seu namorado, da a uns dias ela aborta e teve que ficar mesmo internada. E vede agora, filhinhos e filhinhas do papai, que esbanjais vossos corpinhos sem destino nas praias da irresponsabilidade! Maria Regina foi a primeira colocada (nota 96) no concurso para Enfermagem e Sanitarismo. Tirou primeiro lugar e seu nome no apareceu na lista. Ainda vai ter que provar que existe. Mas j impetrou mandado de segurana. claro que vai ganhar.

11. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. NEM COM UMA FLOR. "At hoje s bati numa mulher, mas com singular delicadeza". Vinicius de Moraes. Um amigo ia passando pela Avenida Atlntica quando viu um homem batendo numa mulher dentro de um carro estacionado. Resolveu parar e chamar a polcia. Mas iam passando pelo calado dois garotes atlticos que vendo o tumulto pararam tambm para saber. Meu amigo ento lhes explica que o sujeito estava batendo na mulher. Mas a mulher no dele? - indagou o garoto. E s porque dele pode bater? - diz o amigo. , nessa voc me pegou, cara. Nesta semana a OAB descobriu que em Imperatriz, no Maranho, nos ltimos cinco anos, maridos mataram 30 mulheres. Mas o fizeram por uma razo muito clara: no queriam pagar penso nem partilhar os bens na separao. Diante desta estatstica da terra de Sarney, os machos da terra de Tancredo ficam humilhados, porque eles s matam mulher por "traio", e, mesmo assim, em menor escala. Mas vou lhes contar outra estria: uma amiga estava em So Paulo numa conversa sobre espancamento de mulheres. De repente, falou-se de um conhecido professor que havia espancado a mulher (coisa, alis, que acontece em vrias faculdades do pas). Reparem bem, estamos falando de gente fina. No se trata de cachaceiros na subida do morro, do sujeito massacrado pela vida que chega em casa escorraando as crianas, ces e mulheres. Estamos falando de gente inteligente, formada, com anel no dedo, que toma coquetis com a gente e cita Marx, Hegel et caterva. Vai da, algum, comentando a razo por que o professor teria batido na mulher, sendo ele uma pessoa clebre, indaga: - Mas, afinal, ele ele, e ela quem ? Na primeira estorinha vocs viram que um acha que a mulher propriedade privada do marido, e por isto pode apanhar. Quer dizer: igual quando a gente tem um cavalo ou co. J na segunda narrativa, a titulao acadmica ou a importncia hierrquica justifica a violncia sobre o mais fraco. E a mulher, do ponto de vista muscular, geralmente mais fraca que o homem. Por isto faz muito sentido quando na favela ao lado ouo as mulheres que apanham gritar:"Covarde! Vai bater num homem". E um garoto esclarecido, que estuda lutas marciais, ao ouvir a estria do professor espancador, observou: "Eu queria ver esse professor crescer para cima de mim".As estorinhas como essas so interminveis. L vai outra. Uma amiga estava dando uma entrevista televiso e o assunto era exatamente o espancamento de mulheres e a necessidade de se criar uma delegacia especial no Rio, como Franco Montoro criou em So Paulo, s para atender mulheres. E l ia explicando o b--b da violncia dos homens sobre as mulheres, lembrando que, quando uma mulher violentada ou espancada, nas delegacias comuns tm que passar por vexames e cantadas, que os homens vem a vtima como culpada, porque nossa sociedade nos convenceu de que a mulher sempre uma Eva pecadora. Lembrava que em alguns pases, alm das delegacias para mulheres, h associaes estruturadas para esconderem as vtimas, porque sabem que se muitas delas voltarem para casa sero at assassinadas. E foi explicando que em alguns lugares dos Estados Unidos existe um tratamento para maridos violentos, em sesses comuns, uma espcie de Associao de Alcolatras Annimos (os Espancadores Annimos), que se curam e se tratam em grupo, porque isto uma doena pessoal e social. Mas enquanto minha amiga dava a entrevista, os cmeras estavam indceis. Parecia que o assunto era com eles. E a, no agentaram, interromperam a entrevista e um disse: a gente trabalha na rua o dia inteiro, chega em casa cansado e a comida no est pronta, o que que h? Ela est querendo apanhar! E a amiga tentou explicar: ento s voc que trabalhou? Ela no batalhou por a em dupla jornada? Imagine se toda mulher fosse bater em marido que traz pouco ou nenhum dinheiro para casa? Os cmeras continuaram resmungando durante a entrevista. No sei o que aconteceu quando eles chegaram em casa. Mas se houvesse na cidade uma delegacia para defender o direito das mulheres certamente pensariam duas vezes. Talvez no chegassem em casa sobraando flores. Mas seguramente chegariam menos arrogantes.

12. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. VELHO OLHANDO O MAR. Meu carro pra numa esquina da praia de Copacabana s 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar distncia. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar distncia. O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma vida solicitao dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforo comecei a imagin-lo quando jovem. um exerccio estranho esse de comear a remoar um corpo na imaginao, injetar movimento e desejo nos seus msculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante. A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que esto ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensao de que ele estava inventando uma estria para me convencer de alguma coisa. No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braos de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado. Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam? Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dana? Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente no tem idade. Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela tambm apresentava uma estatstica segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, s 53% se consideram velhos, 36% acham que so de meia-idade e 11% se julgam jovens. No sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele um almirante aposentado. s vezes, concedo e admito que ele pode ser tambm da Aeronutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana. Mas esses senhores de short e bon branco que passam s vezes em dupla pelo calado, so mais atlticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar. Ele est ali, eu no meu carro, e me dou conta que um nmero crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto uma sndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forosamente me aposentaro. Ento, imagino, vou passear de short branco e bon pelo calado da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m at cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar. Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: no h outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de ns de surpresa." Cada um , para si mesmo, o sujeito nico, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doena, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que est sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente nossa histria, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice um destino, e quando ela se apodera de nossa prpria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, ento? A vida, e eu estou velho", escreve Aragon. Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginao, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritrio transformo o mundo com telefonemas, projetos e papis. Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar distncia, a vida distante. Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar. Neste caso no me importarei que o moo que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreender. Li esta crnica h mais de 10 anos, no Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, se no me falha a memria. Achei-a to bonita que recortei o jornal e guardei num daqueles lugares que s por acaso a gente acaba voltando. Foi o que aconteceu. Mexendo em meus papis, encontrei-a e voltei a me emocionar ao l-la. Apresso-me em divid-la com os amigos do Releituras.

13. ALCNTARA MACHADO. A ELOQNCIA E O BRASILEIRO. A eloqncia marca Sloper que nos desgraa com certeza resultado da preocupao de fazer literatura a muque. Entre ns quase toda a gente pensa que literatura arrevezamento, ginstica verbal, ilusionismo imaginoso, hiprbole sublime. E devido a isso mesmo h no Brasil muitos cavalheiros que falam mas poucos que dizem. Falam at debaixo d'gua. No dizem coisa nenhuma. De tal forma que hoje em dia o conceito de literatura at pejorativo. No presta para nada esse artigo. s literatura. A est. A culpa inteirinha dos que a ela se dedicam, banalizando-a, pondo-a ao alcance de toda a gente, com o objetivo de embasbacar at um limpador de trilhos da Light. Alis para ser franco, ningum se diverte mais do que eu com as asneiras dengues e sonoras dos oradores de minha terra. Sou leitor fantico dos apanhados jornalsticos das sesses no nosso Congresso, na nossa Cmara Municipal, das excurses polticas, das reunies de agricultores, comerciantes e homens de letras, de todas as assemblias, de todas as festanas e comemoraes discursadas. Leitura ainda mais hilariante que a dos livros de Jerome K. Jerome. Nem se compara. Entre os nossos vereadores e parlamentares, principalmente, h cada campeo em matria de retrica edio Quaresma da gente ficar de boca aberta. At entrar mosca. verdade. Pessoal danado para dizer bobagem com nfase. Nunca vi. A idia vem sempre vestida de cores escandalosas, amarrada com laarotes de penteado de negra, toda arranjadinha para dar bem na vista. Todos os discursos tm um trechinho imutvel que eu no me canso de saborear. quando o orador alude humildemente misria cearense dos seus dotes oratrios. assim: O Sr. Sesostris da Cunha Embora reconhea, Sr. presidente, que minha desautorizada voz, to desafeita tribuna, vem quebrar a harmonia (no apoiados gerais). O Sr. Amazonas Neto V.ex. um belo orador. Todos ns o ouvimos sempre com imenso prazer (apoiados gerais). O Sr. Sesostris da Cunha Muito obrigado a v. ex. Como ia dizendo, Sr. presidente, sem embargo... Delicioso. E fatal. Mas, sobretudo, delicioso. Eu sei que estou sendo irritante. Pacincia. Sei perfeitamente que nesta terra o que eu estou fazendo se chama falar mal. Pacincia. sempre melhor do que falar bem. Compreendam-me. Joo Filipe, que foi ministro de Floriano e hoje professor jubilado da Politcnica do Rio, velhinho moo de sarcasmo estupendo, desabafou certa vez comigo: Eles so bestas e no querem que a gente tome nota. Eu tomo, sim.

14. ALCNTARA MACHADO. A SOCIEDADE. Filha minha no casa com filho de carcamano! A esposa do Conselheiro Jos Bonifcio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita misturou lgrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O Conselheiro Jos Bonifcio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque. O esperado grito do clxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritrio para o terrao. O Lancia passou como quem no quer. Quase parando. A mo enluvada cumprimentou com o chapu Borsalino. Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do nmero 259-C sabe:uiiiiia-uiiiiia! O que voc est fazendo a no terrao, menina? Ento nem tomar um pouco de ar eu posso mais? Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado pele, serpejando no terrao. Entre j para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar! Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus! Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista. Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiorra para gritar: Dizem que Cristo nasceu em Belm... Porque os pais no a haviam acompanhado (abenoado furnculo inflamou o pescoo do Conselheiro Jos Bonifcio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais. Os pares danarinos maxixavam colados. No meio do salo eram um bolo tremelicante. Dentro do crculo palerma de mams, moas feitas e moos enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo que ritmava os passos. Sua me me fez ontem uma desfeita na cidade. No! Como no? Sim senhora. Virou a cara quando me viu. ...mas a histria se enganou! As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episdios de farra muito engraados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de culos. Sob a vaia do saxofone:turururu-turururum! Meu pai quer fazer um negcio com o seu. Ah sim? Cristo nasceu na Bahia, meu bem... O sujeitinho de culos comeou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrtico o engasgou. Alegria de vozes e sons. ...e o baiano criou! Olhe aqui, Bonifcio: se esse carcamano vem pedir a mo da Teresa para o filho, voc aponte o olho da rua para ele, compreendeu? J sei, mulher, j sei.

15. ALCNTARA MACHADO. APLOGO BRASILEIRO SEM VU DE ALEGORIA. O trenzinho recebeu em Magoar o pessoal do matadouro e tocou para Belm. J era noite. S se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ningum via porque no havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chamin da locomotiva botava. E os vages no escuro. Trem misterioso. Noite fora, noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam: Vai pisar no inferno! Ele pedia perdo (ou no pedia) e continuava seu caminho. Os vages sacolejando. O trenzinho seguia danado para Belm porque o maquinista no tinha jantado at aquela hora. Os que no dormiam aproveitando a escurido conversavam e at gesticulavam por fora do hbito brasileiro. Ou ento cantavam, assobiavam. S as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito. Noite sem lua nem nada. Os fsforos que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretido feia caa de novo. Ningum estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro j estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Magoar. Porm, aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penltimo banco do lado direito do segundo vago um cego de culos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profisso dera um concerto em Bragana. Parara em Magoar. Voltava para Belm com setenta e quatrocentos no bolso. 0 taioca guia dele s dava uma forga no bocejo para cuspir. Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretrio e puxou conversa. Puxou toa porque no veio nada. Ento principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vo subindo, vo subindo e depois descendo, vm descendo), uma polca, um pedao do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz: O jornal no d nada sobre a sucesso presidencial? O rapaz respondeu: No sei: ns estamos no escuro. No escuro? . Ficou matutando calado. Clarssimo que no compreendia bem. Perguntou de novo: No tem luz? Bocejo. No tem. Cuspada. Matutou mais um pouco. Perguntou de novo: 0 vago est no escuro? Est. De tanta indignao bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim: No pode ser! Estrada relaxada! Que que faz que no acende? No se pode viver sem luz! A luz necessria! A luz o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! E a luz no foi feita. Continuou berrando: Luz! Luz! Luz! S a escurido respondia. Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite: Que que h? Baiano velho trovejou: No tem luz! Vozes concordaram: Pois no tem mesmo. Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem no bicho. Viver nas trevas cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigao de reagir contra os exploradores do povo. No preo da passagem est includa a luz. O governo no toma providncias? No toma? A turba ignara far valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessrio. Brasileiro bom, amigo da paz, tudo quanto quiserem: mas bobo no. Chega um dia e a coisa pega fogo. Todos gritavam discutindo com calor e palavres. Um mulato props que se matasse o chefe do trem. Mas Joo Virgulino lembrou: Ele pobre como a gente. Outro sugeriu uma grande passeata em Belm com banda de msica e discursos. Foguetes tambm? Foguetes tambm. Be-le-za! Mas Joo Virgulino observou: Isso custa dinheiro. Que que se vai fazer ento? Ningum sabia. Isto : Joo Virgulino sabia. Magafere-chefe do matadouro de Magoar, tirou a faca da cinta e comeou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofcio. Cortou um pedao, jogou pela janela e disse: Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse: Quilo e meio de toicinho! Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um servio organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas. Quantas reses, Z Bento? Eu estou na quarta, Z Bento! Baiano velho quando percebeu a histria pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando. Que isso? Que isso? por causa da luz? Baiano velho respondeu : por causa das trevas! O chefe do trem suplicava: Calma ! Calma! Eu arranjo umas velinhas. Joo Virgulino percorria os vages apalpando os bancos. Aqui ainda tem uns trs quilos de colcho mole! 0 chefe do trem foi para o cubculo dele e se fechou por dentro rezando. Belm j estava perto. Dos bancos s restava a armao de ferro. Os passageiros de p contavam faanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada s armas cidados! 0 taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confuso. Tocando a sineta o trem de Magoar fundou na estao de Belm. Em dois tempos os vages se esvaziaram. O ltimo a sair foi o chefe, muito plido. Belm vibrou com a histria. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o ttulo de um: Os passageiros no trem de Magoar amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substitudo porque se prestava a interpretaes que feriam de frente o decoro das famlias. Diante da Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. Dada a queixa polcia foi iniciado o inqurito para apurar as responsabilidades. Perante grande nmero de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vrios passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bblia no bolso. O delegado perguntou: Qual a causa verdadeira do motim? O homem respondeu: A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vages. O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: Quem encabeou o movimento? Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou: Quem encabeou o movimento foi um cego! Quis jurar sobre a Bblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade no se brinca.

16. ANTNIO CARLOS DE FARIA. O futuro de uma cueca de listras. O teatro da escola est repleto de alunos do ginsio. Os garotos acompanham com olhos enormes cada movimento, cada palavra do padre pesquisador de fenmenos paranormais. O sacerdote vai tecendo argumentos cientficos que demolem tudo o que chama de superstio. Trata-se de um homem inteligente. Sabe que nos jovens coraes que o ouvem se enraza uma semente de conflito em relao a qualquer religiosidade. A f no precisa ser obscura, ele repete. Para consolidar sua argumentao, convoca um voluntrio a se submeter a uma sesso de hipnose. O garoto voluntarioso que se apressa em ir at o palco nem se lembra de que naquele dia est usando a odiada cueca de listras que ganhou de uma tia. Depois de ouvir duas ou trs invocaes, fica semiconsciente. Nesse estado, segue as sugestes do hipnotizador. Vira-se de um lado para outro, inclina-se para trs e para frente at que suas calas se desarranjam ligeiramente e revelam o terrvel segredo. Nem os risos da platia o despertam, o que uma consagrao ainda maior para o padre que, ao contar at trs e estalar os dedos, liberta o hipnotizado da submisso. Assim, encerra-se a preleo, pois o sinal para o reincio das aulas j soa. Os demais alunos no arredam p do teatro, mesmo com o terceiro toque fatal que precede a chamada nas salas de aula. Todos esperam com avidez para ver como ser o despertar do hipnotizado. Acordou com o padre perguntando pelo seu nome e querendo saber se ele se lembrava de algo. No, no se recordava de nada sobre os ltimos minutos. Com naturalidade, como algum que apenas se ausentara para ir padaria, ajeitou as calas. Percebeu o afloramento da cueca de listras, mas teve presena de esprito para no a transformar em ator principal de uma farsa involuntria. Esse desempenho neutralizou a sanha dos colegas, que esperavam se divertir um pouco mais com um embarao de sua parte. O padre insistia em perguntar por onde ele teria estado durante a hipnose e, diante da ausncia de respostas, pde concluir que o inconsciente era um manancial de riquezas inexploradas. Um universo de onde brotam as fantasias e, particularmente, as iluses humanas. Mesmo grogue, o menino registrou com interesse essa descrio sobre a fonte do ilusrio. Mais tarde foi aprender como as iluses, inclusive a nica reverenciada pelo padre, tentam tornar suportvel a angstia de se desejar algo que no h. Um desejo que nos torna nicos e especiais, posto que as outras formas de vida apenas vivem, consumindo-se at o fim inevitvel. Essas idias, naquele dia, ainda eram tnues formaes, sem merecer ser centro de ateno do menino. Esse era ento um privilgio ocupado pela cueca de listras. Dela, o menino conseguiu se livrar pouco depois. Quanto s iluses, o processo de libertao vem sendo mais rduo e me exige novos esforos todos os dias.

17. ANTNIO CARLOS DE FARIA. Cardpio existencial. -E se a vida for como um cardpio? A pergunta pegou Rosinha de surpresa. Ela levantou os olhos do menu e se deparou com o marido em estado reflexivo. -Ora, Alfredo, deixe de filosofar e escolha logo o seu prato. Os dois haviam sado para jantar e estavam na varanda do Bar Lagoa, de onde se pode ver um cantinho de cu e o Redentor. -Rosinha, pense nas conseqncias do que estou dizendo. Se a vida for como um cardpio, ns talvez estejamos escolhendo errado. No lugar da buchada de bode em que nossas vidas se transformaram, poderamos nos deliciar com escargots. Experimentar sabores novos, mais sofisticados... -Por que a vida seria como um cardpio, Alfredo? Tenha d. -E por que no seria? Ningum sabe de fato o que a vida, portanto qualquer acepo vlida, at prova em contrrio. -Benh, acorda. Ningum vai aparecer para servir o seu cardpio imaginrio. Na vida, a gente tem que ir buscar. A vida mais parecida com um restaurante a quilo, self-service, entende? -Boa imagem. Concordo com o restaurante a quilo. assim para quase todo mundo. Mas quando evolumos um pouco, chega a hora em que podemos nos servir a la carte. Rosinha, ns estamos nesse nvel. Podemos fazer opes mais ousadas. -Alfredo, se voc est querendo aventuras, variar o arroz com feijo, seja claro. No me venha com essa conversa de cardpio existencial. Alm disso, se a nossa vida virou uma buchada de bode, com quem voc pensa experimentar essa coisa gosmenta, o tal escargot? -Querida, no reduza minhas idias a uma trivial variao gastronmica. Minha hiptese, caso correta, tem implicaes metafsicas. Se a vida for como um cardpio, do outro lado teria que existir o Grand Chef, o criador do menu. -Alfredo, fofo, agora voc viajou na maionese. o cmulo querer reconstruir o imaginrio religioso baseado no funcionamento de um restaurante. S falta voc dizer que nesse seu cu, os anjos so os garons! Nesse momento, dois chopes desceram sobre a mesa. Flutuaram entre as mos alvas, quase difanas, de um dos velhos garons do Bar Lagoa. Alfredo e Rosinha trocaram olhares de espanto e antes que pudessem dizer que ainda no haviam pedido nada, o garom falou com voz grave: -Cortesia da casa. J olharam o cardpio?

18. ANTNIO CARLOS DE FARIA. Ao sentir o afloramento da angstia, a Glorinha no tem dvidas. Vai sempre ao shopping, onde compra um acessrio, algo extremamente essencial, com o poder de tornar sua vida menos faltosa. Daquele tipo que logo depois apenas mais um item suprfluo dentro de casa. O Leopoldo, quando fica angustiado, procura encontrar a cara metade. J a encontrou algumas vezes, tanto que em alguns casos paga penso decidida em Justia, comprovando o quanto a tal metade era cara. Hoje, procura opes mais baratas, mas continua pagando. Quando o Joselito se angustia, toma um porre. Para ele, no cola essa histria de que copo vazio est cheio de ar. Copo vazio deixa o Joselito angustiado. Afinal, no v graa em apenas respirar. O Godofredo zen, ou pelo menos est se esforando para ser. Quem sabe assim arranja um jeito de neutralizar a maldita angstia que o consome. Ele aprendeu tcnicas de meditao e relaxamento. Sua esperana encontrar um mestre iluminado que lhe revele o sentido da dor. Por enquanto s encontrou paliativos, mas ele no desiste. A Lusa j passou dessa fase. Ela no busca mais o mestre. J o encontrou e toda semana vai reverenci-lo em um culto que a deixa em xtase. A sensao dura algumas horas. Quando a angstia volta, ela comea a falar silenciosamente com o mestre. Conversa bastante, para ver se a maldita passa. O Jlio arranjou um jeito de lucrar com a angstia. Quando ela bate, ele pinta um quadro. Quanto maior for a bendita, mais prazer ele destila com os pincis e as tintas. A energia flui dos cantos mais escuros para a claridade da tela. certo que ele ainda no vendeu nenhum quadro. Seu lucro no monetrio. Por enquanto um ganho pessoal, intransfervel. Uma sensao de gozo que perdura na obra artstica. Ele j tentou explicar seu mtodo de relao com a angstia para os amigos. Logo percebeu que esse no um conhecimento que se possa dividir, mesmo com quem se goste. Melhor do que falar, mostrar seus quadros. Alguns amigos no entendem o que Julio pinta. Eles ficam angustiados vendo seus quadros. O pintor se angustia quando os amigos ficam assim. A ele pinta outras telas. De uns tempos para c, o Jlio tambm resolveu escrever crnicas, algumas vezes poesia. Um crtico, que no entendeu nada, disse que o texto do Jlio era hermtico como uma pintura abstrata. O pintor-cronista-poeta ficou maravilhado.

19. ANTNIO CARLOS DE FARIA. No consigo deixar de pensar nisso. -Nisso o qu? -Como teria sido o mundo sem Colombo. Ns nem estaramos aqui nesse botequim bebendo chope e papeando... -Ento, salve Colombo! Deixe de pensar nele. Viva o presente e, principalmente, pague o que me deve. -Voc no entendeu. No estou pensando em Colombo. Estou pensando no que teria sido o mundo sem ele. -Com ele ou sem, os europeus iriam acabar chegando ao Rio de Janeiro e hoje algum iria estar tomando chope em um botequim como esse. Tudo seria mais ou menos igual. At um caloteiro como voc iria existir. -Voc est enganado. Sem Colombo, ns no estaramos aqui. Sem ele, iria prevalecer o mtodo de Portugal, que eram as cabotagens em torno da frica e da sia. Um processo muito mais lento. Em qualquer lugar em que vissem mulher bonita, os portugueses paravam e se punham a fazer versos e a tocar suas guitarras. -Eles estavam certos, quer coisa melhor do que mulher, poesia e msica? -Mas perceba as conseqncias. Seguindo as cabotagens, os portugueses chegariam ao Japo, como fizeram realmente, mas talvez demorassem muito mais para se arriscar em linha reta ao Oriente. Foi a loucura de Colombo que fez os portugueses virem direto para a Amrica. Se dependesse deles, isso poderia ter demorado mais, quem sabe uns duzentos anos. -E da? Um pouco antes, um pouco depois, terminaria tudo como estamos vendo agora. -De forma alguma. Sem as Amricas, no haveria batatas no cardpio da Europa. Sem batatas, a populao europia iria continuar passando fome, crescendo devagar. No haveria o excedente que criou o exrcito de mo-de-obra de reserva, a mais valia. No teria havido a Revoluo Industrial. -Voc no acha que est exagerando um pouco? -Claro que no. Sem Colombo, no teria havido luta de classes e as revolues que balanaram o mundo no ltimo sculo. -Aonde voc quer chegar com essa conversa? -Ora, meu ponto de vista claro. A ousadia de Colombo criou o mundo como o conhecemos. preciso ser ousado, preciso ir alm do convencional. -Ainda no entendi o que quer dizer esse papo todo. -Bom, voc mesmo podia ser mais ousado e fazer um gesto inesperado. Por exemplo, poderia perdoar essa dvida que veio me cobrar. -Tenha pacincia. Est me achando com cara de Jesus Cristo? Essa conversa toda apenas mais uma forma de voc adiar o pagamento. Voc est me enrolando. -Longe de mim essa idia! Mas continuando nosso assunto, como teria sido a histria do mundo sem Jesus Cristo? Voc j pensou nas conseqncias?

20. ANTNIO CARLOS DE FARIA. No consigo deixar de pensar nisso. -Nisso o qu? -Como teria sido o mundo sem Colombo. Ns nem estaramos aqui nesse botequim bebendo chope e papeando... -Ento, salve Colombo! Deixe de pensar nele. Viva o presente e, principalmente, pague o que me deve. -Voc no entendeu. No estou pensando em Colombo. Estou pensando no que teria sido o mundo sem ele. -Com ele ou sem, os europeus iriam acabar chegando ao Rio de Janeiro e hoje algum iria estar tomando chope em um botequim como esse. Tudo seria mais ou menos igual. At um caloteiro como voc iria existir. -Voc est enganado. Sem Colombo, ns no estaramos aqui. Sem ele, iria prevalecer o mtodo de Portugal, que eram as cabotagens em torno da frica e da sia. Um processo muito mais lento. Em qualquer lugar em que vissem mulher bonita, os portugueses paravam e se punham a fazer versos e a tocar suas guitarras. -Eles estavam certos, quer coisa melhor do que mulher, poesia e msica? -Mas perceba as conseqncias. Seguindo as cabotagens, os portugueses chegariam ao Japo, como fizeram realmente, mas talvez demorassem muito mais para se arriscar em linha reta ao Oriente. Foi a loucura de Colombo que fez os portugueses virem direto para a Amrica. Se dependesse deles, isso poderia ter demorado mais, quem sabe uns duzentos anos. -E da? Um pouco antes, um pouco depois, terminaria tudo como estamos vendo agora. -De forma alguma. Sem as Amricas, no haveria batatas no cardpio da Europa. Sem batatas, a populao europia iria continuar passando fome, crescendo devagar. No haveria o excedente que criou o exrcito de mo-de-obra de reserva, a mais valia. No teria havido a Revoluo Industrial. -Voc no acha que est exagerando um pouco? -Claro que no. Sem Colombo, no teria havido luta de classes e as revolues que balanaram o mundo no ltimo sculo. -Aonde voc quer chegar com essa conversa? -Ora, meu ponto de vista claro. A ousadia de Colombo criou o mundo como o conhecemos. preciso ser ousado, preciso ir alm do convencional. -Ainda no entendi o que quer dizer esse papo todo. -Bom, voc mesmo podia ser mais ousado e fazer um gesto inesperado. Por exemplo, poderia perdoar essa dvida que veio me cobrar. -Tenha pacincia. Est me achando com cara de Jesus Cristo? Essa conversa toda apenas mais uma forma de voc adiar o pagamento. Voc est me enrolando. -Longe de mim essa idia! Mas continuando nosso assunto, como teria sido a histria do mundo sem Jesus Cristo? Voc j pensou nas conseqncias?

21. ANTNIO CARLOS VILLAA. QUANDO EU CHEGAR AO CU! Quando eu chegar ao Cu, de manh, de tarde ou de noite, no sei ainda, pedirei para ir biblioteca de Deus, onde curiosamente bisbilhotarei com respeito algumas obras. Quero reler a Inveno de Orfeu, de nosso Jorge de Lima, sofredor, telrico e mstico, homem bom, cirenaico, assim lhe chamou Rachel de Queirz, quando ele morreu, novembro, 15, do ano de 1953. E pedirei, sim, para conversar com Manu, Manuel Bandeira, que se chamava Nenm. Matarei saudades do dentuo Manuel, que foi o melhor ser humano que conheci, neste mundo. E gostaria de conhecer Chiquita do Rio Negro, que recusou casar se com Ataulfo Npoles de Paiva, conviva do baile da ilha Fiscal. Escrevi sobre Chiquita. Li a sua biografia, escrita por Garrigou-Lagrange. Meu Deus, convocaria Jaime Ovalle, o tio Nhonh, que morreu com a idade de Jorge de Lima. Ali, na biblioteca do Cu, conheceria o estupendo Ovalle, o do Azulo, o bbedo mstico, o amigo de Manuel, ntimo de Londres e de Nova York. Por fim, suplicaria para falar com Joo Guimares Rosa, poliglota, com quem to poucas vezes falei. E evocaria a posse do seu sucessor, na Casa de Machado. Esqueci-me completamente dessa posse, ai de mim. E fui. L estava eu, 1968. Um ano depois da morte de Rosa. Mrio Palmrio falou sobre ele, como seu herdeiro. E gostei tanto do discurso, equilibrado, lcido, original. Se me lembro. Foi procurar cartas ntimas de Rosa para grande amigo, mdico e fazendeiro em Minas, Moreira Barbosa. Cartas de outrora. Deliciosas, fraternais, confiantes, de pura entrega. Reveladoras do ser complexssimo, fechado, carente, que gostava de disfarar, despistar, ir e vir, comensal do mistrio. Saudarei a uns e outros na largueza dadivosa do Cu, turbilho de amor, como dizia o insacivel Lon Bloy.

22. ANTNIO MARIA. O pior encontro casual da noite ainda o do homem autobiogrfico. Chega, senta e comea a crnica de si mesmo: "Acordo s sete da manh e a primeira coisa que fao tomar o meu bom chuveiro". Como so desprezveis as pessoas que falam no "bom chuveiro!" E segue o parceiro: "Depois peo os jornais, sento mesa e tomo meu caf reforado". Ah, a pena de morte, para as pessoas que tomam "caf reforado!" E a explanao continua: "Nos jornais, vocs me desculpem mas, a mim, s interessa o artigo de Macedo Soares e as histrias em quadrinhos". Nessa altura o autobiogrfico procura colocar-se em dois planos, que lhe ficam muito bem: o que ele julga de seriedade poltica (Macedo) e o outro, de folgazante espiritual (histrias em quadrinhos). E vai da para outra modesta homenagem a si mesmo: "A, ento, que vou me vestir. Quanto roupa, nunca liguei muito, mas, camisa e cueca, tenha pacincia, eu mudo todo dia". O "tenha pacincia" porque est absolutamente certo de que estamos com a camisa e a cueca de ontem. "Acordo minha senhora, pergunto se ela quer alguma coisa e vou para o escritrio". Gente que chama a mulher de "minha senhora" est sempre pensando que: no acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; no fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel. E vai adiante o mal-feliz:"S a vou para o escritrio, mas nunca antes de passar no jornal, para ver se h alguma coisa". Esse "passar no jornal" um pouco difcil de explicar. Mas todo homem banal tem muita vergonha de no ser jornalista e alude sempre a um jornal, do qual tem duas aes ou pertence a um primo, ou amigo ntimo. Vai por a contando sua vidinha, que termina, melancolicamente, com esta frase: " noite, eu sou da famlia!". Bonito! "Visto meu pijama, janto, deito no sof e vou ver a televiso, com as crianas em cima de mim". Est a o retrato perfeito do cretino nacional. E, o que triste, alm de numeroso, est em toda parte. Que horror me causam as pessoas do "bom chuveiro", do "caf reforado", os de "Macedo Soares e das histrias em quadrinhos"(os que gostam s de Macedo Soares ou s de histrias em quadrinhos so timos), que precisam dizer que mudam camisa e cueca todos os dias, as que citam "sua senhora" e os que "passam no jornal, antes de ir para o escritrio". Nossa maior repulsa, ainda, por quem janta de pijama e deita no sof, com as crianas em cima. Ah, essa gente me procura tanto!

23. ANTNIO MARIA. Esta noite... esta chuva... estas reticncias. Sei l. Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto? Quem seria capaz de contar a histria? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer: Estou me sentindo assim, assim, assim... A humanidade est necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas no sabe onde esto as mos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mos e os deuses so de mentira. Os olhos de todos estaro cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braos, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os que fazeres do sexo. Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas no so importantes. Apenas uma tem importncia. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Voc diria em pblico o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? No, no; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, to proibido como sua nudez (dela). No h diferena. E por que voc no se transforma no homem banal, que se encharca de lcool, para apregoar a desdita? Seria mais fcil. Talvez algum lhe chamasse de porco e voc revidasse com um soco no rosto, um s rosto, de todo o Gnero Humano. Viria a polcia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notcia: "Preso o alcolatra, quando injuriava e agredia a Famlia Brasileira, na pessoa de um scio do Country". H poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escurido, a carncia era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezvel. Preferi esta (escrever), uma opo igualmente piegas, igualmente pfia e sentimental, menos espalhafatosa, porm. A morte, mesmo em combate, burlesca. Uma pergunta, que no tem nada a ver com o corpo desta cano. Quem saberia discriminar o dio do amor? Ningum. Os psicologistas e analistas tm perdido um tempo enorme. Ontem noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, no achei a menor graa. Sara, pela primeira vez, de culos e o porteiro do edifcio me recebeu com esta agradvel pergunta: Que que houve? O senhor est mais velho? Tirei os culos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou: O que que houve? De ontem para c, o senhor envelheceu. Tinha pensado que, sem os culos... No estou escrevendo para ningum gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre:contrabalana, quando nada. Esta noite, esta chuva e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes. S h uma vantagem na solido: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto muito pouco, para quem no tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

24. ANTNIO MARIA. Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havamos bebido e procurvamos um caf aberto, para uma mdia, com po-canoa. Quase todos estavam fechados ou no tinham ainda leite ou po. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um portugus e nos conhecia de nome de notcia. Props-nos, em vez de caf, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao p de Braga". No se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a Jos Manuel Pereira, que nos deu seu vinho. Nesse caf, alm de ns, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. No olhavam para ns e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balco. Ambos disseram palavres, em voz alta. O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavres e o cabea do casal protestou: Pra com isso, que tem senhora aqui! Um dos rapazes dos palavres: No chateia! No chateia o qu? Pra com isso agora! Um dos rapazes do palavro: E essa mulher tua mulher? No , mas mulher de um amigo meu! A briga no foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavres, o casal. Est provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo no tem direito a reclamar coisa alguma.

25. ANTNIO MARIA. Aconteceu na Avenida Copacabana, esquina de Santa Clara. Uma jovem senhora chamou o guarda e apontou o homem, encostado a um poste: Prenda este homem, que ele est se portando inconvenientemente. Era um homem magro, plido, vestido em casimira velhinha. No tinha cara de gente m. Ao contrrio, seus olhos eram doces e mendigos. O policial segurou o homem pela lapela. O homem no se mexeu. Apenas levantou os olhos e perguntou: - Por qu? A senhora estava uma fria e dizia num flego s: H uma hora este cidado me segue. Comeou no lotao. Desceu quando eu desci. Entrei numa loja e ele entrou tambm. Andei um quarteiro e ele andou tambm. Entrei no mercadinho e ele entrou tambm... E lhe disse alguma coisa? No. S olhava. O guarda soltou a lapela do homem. O homem agradeceu. O guarda dirigiu-se ainda mulher: Mas ele s olhava? Sim. Mas olhava de maneira obscena. O guarda perguntou, ento, ao homem: Voc olhava de maneira obscena? Sim. No sei mentir. Mas qualquer um no meu lugar faria o mesmo. 0 senhor j viu ela andar? 0 guarda viu depois, quando a mulher desistiu da priso do seu espectador e foi andando. No se deve explicar muito, mas preciso que se diga: era uma moa brasileira. Uma moa de formato brasileiro, com movimentos brasileirssimos. Dessas que deviam ter, como certos automveis, uma tabuleta s costas, onde se lesse: "Amaciando".

26. ANTNIO MARIA. Quem me dera um pouco de poesia, esta manh, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westflia! uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westflia (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante comea a girar em torno dela. Tudo para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garom e pergunta quem ela . Saber, ento, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de ingls, francs e alemo, mas "uma grande criadora de casos".No preciso perguntar de que espcie de casos, porque, um minuto depois, j a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para comear, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual comea a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta mala e sai l de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, tambm de prata. Por ltimo o prato, a nica pea que no de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garom e manda que leve os talheres e a loua da casa. Um gesto soberbo de repulsa. O garom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amvel, mas ela repele, por considerar (tinha razo) a pronncia defeituosa. E diz, em francs, que uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetculo est agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de gua mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque est cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que est assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignao. Pela descrio, vocs iro supor que essa velhinha insuportvel. Uma chata. Mas no. um encanto. Podia ser av da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. No negocia sua comodidade, seu conforto. No confia nas louas e nos talheres daquele restaurante de aparncia limpssima. Pacincia, traz de sua casa, lavados por ela, a loua, os talheres e o copo de prata. Um dia o garom lhe dir um palavro? No acredito. A velhinha to bela e frgil por fora, magrinha como ela , se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitrio, que sabe o que quer e no cede "isso" de sua magnfica solido.

27. ANTNIO MARIA. Dinheiro Preciso 35 mil cruzeiros emprstimo, boas referencias. Pago no vencimento 50 mil 30 dias. Mas, a gente vai separar por qu? perguntou o marido. A conversa comeou cerca da meia-noite, e eram oito da manh. Marilda s dizia que ia separar e que no ficava mais nem um dia. Na hora de explicar o motivo, se trancava. A pergunta "voc tem um novo algum", Jaribe lhe fizera umas mil vezes. Marilda se arrepiava da cabea aos ps, com a forma "um novo algum". Foi quando Jaribe levantou, foi no armrio e, de urna malinha da Varig, trouxe um Smith Wesson 38, carga dupla. Fala, Marilda. Se no falar eu me mato aqui mesmo. Marilda no sabia daquele revlver. Nunca vira, antes, algum com um revlver na mo. Sentiu uma nusea. A violncia, qualquer espcie de violncia, lhe nauseava. Pediu: Guarde o revlver que eu falo. Jaribe atirou o revlver, de qualquer maneira, no armrio. Vai, fala. Marilda ergueu metade do corpo e recostou no espaldar da cama. Tinha que falar. Um homem nunca se conforma em separar-se sem ouvir, bem direitinho, no mnimo 500 vezes, que a mulher no gosta mais dele, por que e por causa de quem. J mulher, no (pensava). Basta que o homem lhe diga uma vez que quer ir embora, nasce-lhe um brio, um dio poderoso, uma espcie de soberba, to grande, que ela se veste toda, pega um telefone, pede um txi e sai. Mulher (pensara Marilda, a noite inteira) pode no ter muita vergonha nos outros lugares. Mas, na cara, tem. Mulher no se importa de vestir o menor dos biqunis e deixar que a vejam, horas. Mas no consente que o homem que a despreza lhe olhe a cara, um s minuto. Mas tinha que falar, porque homem, enquanto no sabe do pior, no sossega. E comeou, Marilda, sem um segundo de sono (seis "dexas"), recostada no espaldar. Escuta, bem. Voc sabe que eu tenho minhas coisas, no sabe? Fala. Sabe ou no sabe? Mas conta. Voc vai dizer que eu sou louca, se eu disser que, no terceiro ms de casada, no agentava ouvir ou dizer seu nome. Ns estamos casados h dois anos e trs meses, no ? Pois bem, qual foi a ltima vez que voc me ouviu chamar voc pelo nome? Jaribe fez uma rpida busca no tempo e s lembrou de Marilda a cham-lo de "meu bem". Ou, ento, quando no havia ningum perto, falar assim: "hei"!... e dizer o que queria. Marilda continuava: Tentei o seu sobrenome. Voc se lembra que, de junho a agosto do ano passado, eu passei chamando voc de Carvalho? Mas no podia continuar. Mulher chamar marido pelo sobrenome humilhante demais. Mas meu nome tirado da Bblia ... apelou Jaribe. Marilda continuou: Mas no s isto. Voc fala umas coisas que no h mulher que agente. Houve uma pausa, que Jaribe se apressou em quebrar: Por exemplo? Marilda preferia no dizer. Ajeitou-se no espaldar da cama, puxando o lenol acima dos seios, pois naquela posio a camisola no estava dando conta. Mulher no diz nada srio, no assume mesmo a mnima dignidade, se houver qualquer de suas pudcias mostra. Marilda puxou o lenol at o pescoo. Eu estou esperando insistiu Jaribe. E Marilda falou o resto: Outra coisa: voc fala "menas". Como assim? Voc diz muito:"menas gente".Jaribe a amava como um louco. Sentia, por dentro, uma dor enorme. Aquela dor da falta de ginsio. Mas queria saber tudo: E voc tem um novo algum? Marilda botou o rosto dentro das mos e comeou a chorar. Chorava e falava, ao mesmo tempo: Me manda embora! Me manda um ms para fora pra ver se a gente conserta! Deixa eu ficar dois meses no Paran com a famlia da minha madrasta! Vai, arranja um dinheiro e me manda! Depois a gente acerta. Jaribe o que queria era esperana. Como todo homem que sente perder a mulher, queria a esperana de ainda ret-la. Tivesse ou no "um novo algum", ele queria Marilda. Honra? O que honra? Em que parte do corpo est localizada? Com a lucidez dos enganados, Jaribe descobria todas as verdades da vida. Pobre Jaribe! Iria arranjar o dinheiro, custasse o que custasse. Com uns 35 mil cruzeiros, solucionaria o problema. Qualquer agiota lhe emprestaria 35 por cinqenta, em trinta dias. Qualquer um. O prprio contador da Importadora. Se falhasse, era s botar um anncio no Jornal do Brasil. Naquela efuso de suas esperanas, pensou: "Por que ser que a Condessa comprou a Tribuna?". Ps-se de p. Olha, Marilda. Voc vai para o Paran, sim. Depois de amanh. Fica l, descansa, passa o tempo que quiser e depois volta. Faz uma coisa pediu Marilda . Voc me escreve, t? Claro. Voc vai para descansar. E Jaribe foi para o banheiro, alentado por todos os maus alentos. Vigiar-se-ia dali por diante quando falasse. Precisava de Marilda. Ret-la-ia, custasse o que custasse. E, coitado, em tudo o que pensava, no estava mais que estruturando sobre o absurdo.

28. ANTNIO PRATA. QUASE. Como nunca levou jeito para a msica nem para a arte da carpintaria, Osmar dos Santos formou-se advogado profisso que muito lhe convinha, visto que no nascera para outra coisa seno para advogar. Rosinha Carvalho, por sua vez, j aos treze sabia comandar uma casa como ningum: lavava, passava, cozinhava e fazia magnficos arranjos de flores. Certa vez passou por Bauru, onde residia a moa, um amigo do Dr. Carvalho que, abismado com os arranjos, felicitou: "Mas que lindo arranjo de flores, Rosinha!" Dr. Carvalho, bom pai e conhecedor das artes varonis para atingir a cpula, muito prudentemente acertou trs tiros no homem, que morreu ali mesmo. Mas Osmar nunca ficou sabendo do ocorrido, posto que no nascera em Bauru nem nunca por l passara (a bem da verdade, s sara uma vez de sua cidade, indo para So Vicente a trabalho) e, sendo assim, no ficou chocado e pde continuar com sua nobre ocupao sem maiores (nem menores) tormentos. Rosinha chorou um pouco, mas depois resignou-se com a fatalidade e continuou com seus lindos arranjos. Rosinha, bela mooila e prendada como s, j estava em idade de casar. Osmar, advogado com o diploma na parede e a bela tabuleta na porta, tambm. Eis que um dia quis o destino, esse cosedor de histrias, unificador do diverso, carpinteiro da vida, que Rosinha fosse a Piraju, cidade mui bela onde habitava, entre muitos outros, Osmar. Rosinha iria acompanhar a me num encontro com umas primas distantes, a respeito de uma herana deixada por um tio. Antes do ocaso, partiam numa caravana com mais trs capangas e duas mucamas muito limpinhas rumo a Piraju. Em l chegando, foram direto casa das primas, que, com ch e biscoito, as receberam de forma cordial e hospitaleira. Como faltava acar, dona Isaura Carvalho, me de Rosinha, mandou-a mercearia, acompanhada de uma das serviais. Por acaso ou no, ocorreu que, neste mesmo instante, Osmar se deu conta de que havia acabado suas cigarrilhas, to importantes em sua rotina e em sua nobre ocupao, dando-lhe um ar austero que um bom advogado precisa ter. Assim sendo, levantou-se e rumou mercearia, a mesma j mencionada, para onde tambm ia nossa querida Rosinha. Osmar chegou primeiro e pediu as cigarrilhas. Abriu o pacote e pegou uma. Quando j ia saindo, chegava Rosinha. Infelizmente, ocupado que estava em acender seu precioso tabaco, Osmar no avistou Rosinha,tendo ela, portanto, jamais se casado com ele.

29. ANTNIO PRATA. PRIVADA I: O HOMEM E SUA OBRA. "Este dio de tudo o que humano, de tudo o que 'animal' e mais ainda de tudo que 'matria', este horror dos sentidos (...) tudo isso significa (...) vontade de aniquilamento, hostilidade vida, recusa em se admitir as condies fundamentais da prpria vida". Nietzsche. O Homem o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que ramos os nicos na vizinhana que falvamos, fazamos as quatro operaes e conseguamos encostar o dedo no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra trs, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e samos da selva. Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnob-lo e a condenar as atitudes de todos os seus habitantes. Ns ramos superiores! Ns dominvamos a natureza! Ns usvamos ferramentas, meias e fio dental! Novo rico que se preze, no entanto, d bandeira. H sempre um douradinho alm da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltao, um conversvel rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade tambm assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilho de dlares em pesquisa para criar lminas capazes de raspar perfeitamente nossos plos e cubramos toda a crosta da terra com asfalto e carpete sinttico, um ato sempre nos denunciar o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali no tem desculpa, no tem disfarce. A merda nossa ligao perene com a floresta, com o barro de onde viemos. A no tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamandu. Nus como as trutas, acocorados como os ces, expelimos a verdade universal, fisiolgica, cilndrica e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais! Temendo uma reflexo mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqncias que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que necessrio existir, mas no preciso divulgar;marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo. No incio, enquanto vagvamos nmades, a coisa era bem fcil. O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as sujeiras para trs. Estvamos literalmente cagando e andando. Quando os primeiros povos dominaram as tcnicas de irrigao e, portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas. Foi o crescimento da populao e das aldeias que comeou a complicar o processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se sempre o risco de se encontrar um conhecido por l e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mo. Dizem que foi um breto chamado Walter Collins que teve a brilhante idia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cerc-lo por paredes. Em pouco tempo a inveno de Walter, assim como suas iniciais, j podiam ser vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revoluo industrial, o grande xodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia. Talvez tenha sido esse o momento mais difcil da humanidade frente aos seus excrementos, o clmax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso prprio lar. Para que isso fosse possvel, bastava que jamais assumssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para no dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rmel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali. Alm disso, criou-se um arsenal para se disfarar o coc: sprays com odor de rosas, sachs que deixam a gua da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bids e papeis higinicos perfumados. Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o mximo distanciamento possvel. Aps dar a descarga, nosso coc mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vo dar l longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas s uma questo de tempo. Todo esse coc est se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos pases esto boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petrleo e no fim da gua, mas no ser assim que ns morreremos. Numa incerta manh um cidado dar a descarga e, como na piada, ouvir o estrondo: o subsolo, entupido, explodir. A verdade, reprimida por sculos e sculos, emergir. S nesse dia todos percebero o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. E no haver sach nem bom ar que d jeito. Como se sabe, s as baratas sobrevivero.

30. ANTNIO PRATA. ASCENSO. Faz apenas um segundo que Woopy Goldberg terminou de anunciar: "and the Oscar goes to Joo Arlindo, from Brasil! With the film Batuque, mas ele permanece imvel. E com uma ereo daquelas no vai levantar mas nem fodendo me perdoem o trocadilho. Com a cala fininha do smoking alugado, e de cueca samba-cano ento... Seria um vexame sem precedentes, compartido via satlite por mais de um bilho de pessoas de Belford Roxo a Pequim, passando pela casa da tia Conceio, que acaba de dar o primeiro soluo de felicidade, e pelo bar do Pedro, onde nesse instante todos os amigos se levantam das cadeiras e pulam de alegria. Joo ter que tomar alguma atitude. E rpido. Mas qual? J se passaram trs segundos desde que anunciaram seu nome. Trs segundos pouca coisa. E o tempo que leva para a pessoa perceber que com ela, abraar o companheiro do lado, esticar as pernas e comear o longo caminho da poltrona at o palco, tremendo que nem vara de marmelo (segundo dizem aqueles que j viram uma vara de marmelo). E o que demora para a traduo simultnea (que nunca simultnea, e s vezes tampouco traduo) repetir o nome do ganhador, do filme e do pas de origem do filme. Mas depois de seis, oito segundos, a coisa j vai comear a ficar esquisita. Por que o cara no levanta? se perguntar o quase um quarto da humanidade que acompanha o acontecimento. A cmera j est mostrando Joo, e em no mximo dez segundos Rubens Ewald Filho far algum comentrio. A Woopy Goldberg quem sabe? tambm. E a? J se passaram cinco segundos e Joo sente-se como naquelas cenas em que o heri vai correndo pelo per e no sabe se salta ou no salta no barco que zarpa, levando sua amada, ou como o jogador que caminha em direo bola e tem que escolher de que lado bater o pnalti. A situao de Joo ainda pior do que as descritas, porque no se trata de optar entre duas possibilidades, mas de inventar sua prpria sada e ser que existe alguma? 0 tempo que leva um pinto da ereo completa broxada total superior ao que se pode esperar na poltrona, depois que j anunciaram que voc o ganhador do Oscar sem causar estranhamento. Alm do mais, as nicas coisas que passam pela cabea de Joo so os rios de suor que descem, caudalosos, em direo s costas. Sete segundos. Rubens Ewald Filho comenta que Joo Arlindo, "o filho prdigo da cinematografia nacional, est to emocionado diante do primeiro Oscar brasileiro, que mal consegue levantar-se da poltrona!". Mal sabe Rubens que, caso Joo se levante agora, mais olhos vero a sua prdiga ereo do que viram o homem pisar na lua! Nove segundos. 0 corao de Joo est a 210 bps, e o fluxo sangneo s faz perpetuar seu estado de desesperao. Isso o Oscar, meu amigo, no uma festa de debutantes em Mogi das Cruzes! o maior ritual global o circo do Imprio e, na situao em que se encontra Joo ser comido pelo sarcasmo de mais de um bilho de lees-telespectadores! E entrar para a mitologia contempornea como "o cineasta que teve uma ereo no Oscar", e assim ser comentado nas rodas globais: "Oh you mean:that brazilian director who had an erection during the Oscar ceremony? Yes, of course I remember! How could I forget?!" "Hombre, Joo Arlindo es el to aquel de la ereccin, verdad?" "Hein kraft nich ds ereckcionaz, nun?", e durante algumas semanas seu nome ser mais digitado na Internet do que o de Britney Spears, do Michael Jackson e da Madonna juntos. Joo sabe muito bem disso. Onze segundos. Woopy Goldberg vai de novo ao microfone: "Joo, are you there?!". Como conseqncia 1 bilho, 234 milhes, 187 mil e 27 pessoas riem, pois sentem compartilhar a estranheza diante daquele premiado que no se levanta. Essas 27 so os amigos l no bar do Pedro, que ainda se abraam e agora pulam ao som de Aquarela do Brasil, oportunamente colocada pelo prprio Pedro (verso do Canal 100, por Valdir Calmon e sua orquestra). Tia Conceio, por entre um soluo e outro, observa preocupada a demora do Joozinho em sair da poltrona. Rubens Ewald Filho comenta: "Gente, ser que t acontecendo alguma coisa com nosso querido Joo Arlindo?". Antes que Rubens Ewald acabe seu comentrio, no entanto, o cineasta brasileiro j sumiu do enquadramento da cmera que at ento o mostrava: entre o segundo 12 e o 13 Joo Arlindo se atirou da poltrona e estatelou-se no cho do corredor. Agora, sobre o tapete vermelho ele se contrai, esperneia e baba, da forma que sempre ouviu dizer que fazem os epilpticos. Diante do silncio de um quarto da humanidade, da Woopy Goldberg, do Rubens Ewald Filho e da tia Conceio, o primeiro cineasta brasileiro a receber um Oscar retirado de maca. E, a despeito da insistncia do pessoal da emergncia em estic-lo, ele consegue colocar-se de ladinho, e assim, em posio quase fetal, que some pelas coxias do enorme teatro, sem deixar notar a ereo. Tia Conceio no agenta de desespero e morre do corao. O pessoal do bar do Pedro, perplexo, continua abraado e olhando o telo. Ser s no segundo 124 que esboaro um movimento, quando o celular do Serginho, ligado no sistema vibratrio, tremer no bolso de sua cala. Do outro lado da linha, uma voz muito conhecida dir: "Caralho, Serginho, cs no vo acreditar no que me aconteceu!".

31. ANTNIO PRATA. RECEITA. Fazer um texto no difcil. Como tudo na vida, basta que sigamos um mtodo. Depois de muitos estudos sobre o assunto, tendo consultado desde os mais ancestrais pergaminhos ciganos da Checoslovquia at as ltimas pesquisas cientficas norte-americanas, juntei conhecimento suficiente para produzir um pequeno tratado sobre o tema. Se o publico aqui no por vaidade ou capricho, mas porque acho que todo conhecimento deve ser compartido. Dessa forma, tenho esperana, chegar o dia em que todo o saber humano poder ser reunido e centralizado em um nico programa de computador, ou software que o termo correto e vendido a preos mdicos nas bancas de jornal, postos de gasolina ou viro grtis nas compras acima de 50 reais nos supermercados Mambo. A vai, portanto, a minha modesta contribuio. Como escrever um texto. Assim como para fazer uma sopa preciso, antes de mais nada, escolher os ingredientes, para escrever um texto necessrio, primeiramente, selecionar as palavras que vamos usar. Se para os ingredientes da sopa vamos ao mercado, para encontrarmos as palavras recorremos ao dicionrio. Algumas consideraes desnecessrias (porm interessantes). O dicionrio superior ao mercado em muitos aspectos. Em primeiro lugar, porque no dicionrio o preo das palavras no cresce a cada dia como ocorre com os legumes no mercado , posto que todas so de graa. Ademais, os dicionrios podem ser guardados na estante da sala, o que seria impossvel de se fazer com um mercado no por sua forma, muitas vezes retangular como os dicionrios, mas devido ao tamanho (mais provvel seria guardar a estante da sala no mercado, mas isso seria intil tendo em vista que nosso objetivo no dar cabo da estante e sim escrever um texto). H uma diferena bsica entre os mercados e os dicionrios: se nos primeiros os produtos entram novos e saem assim que fiquem velhos, no segundo no se encontra um s artigo novo, pois ser velho condio sine qua non para estarem ali. Apesar das consideraes anteriores, impossvel provar logicamente a superioridade de um mercado sobre um dicionrio ou vice-versa. Prova disso que podemos tanto encontrar dicionrio em um bom mercado, como mercado em um bom dicionrio. Assim sendo, deixemos de lado essas comparaes inteis e voltemos ao tema em questo: como escrever um texto. Agora sim, como escrever um texto, parte I: Ritmo. Tanto os pergaminhos ciganos da Checoslovquia como os cientistas norte-americanos esto de acordo em um ponto: um texto deve ter ritmo. Por isso, uma vez aberto o mercado, perdo, o dicionrio, importante ter em mente que um bom escrito leva um nmero equivalente de palavras pequenas, mdias e grandes. Um mtodo infalvel na hora de separar as palavras , sempre que escolhermos uma curta, como ch, lua ou oi, buscarmos imediatamente uma comprida, como halterofilismo, mononucleose ou antropomorficamente. Assim que voc sentir que j tem em mos um bom nmero de palavras curtas e longas isso depende do tamanho do texto que quiser escrever , parta para a busca de um nmero igual de palavras mdias, tais como sudorese, abobado ou alicate. Aconselha-se anotar essas palavras num papel, com lpis ou caneta, ou datilograf-las num computador ou mquina de escrever, de acordo com as condies infra-estruturais de cada um. (O texto final, no entanto, poder ser escrito de muitas outras maneiras, como com sangue nas paredes, com canivete num tronco de rvore ou com um arco de violoncelo nas areias de Jericoacoara, dependendo no s das condies infra-estruturais como do efeito desejado. Isso fica a cargo do autor.) Parte II: Etiqueta ou bom senso. Se para uma sopa de batatas precisamos de muitas batatas e para uma sopa de beterraba muitas beterrabas, para um texto triste precisamos de palavras tristes, para um texto audacioso de palavras audaciosas e para um texto semi-ertico de palavras semi-erticas. Se o autor tem em vista um texto fnebre, por exemplo, no cairo bem as palavras lantejoula ou meretrizes, assim como num convite de casamento dificilmente se poder usar a palavra excremento (apesar de, todo o apelo que a rima possa ter). sempre bom observar essa pequena, porm importante, formalidade da escrita. Parte III:Pontuao. Nesta altura o futuro autor j tem consigo um bom nmero de palavras, harmoniosamente divididas entre curtas, mdias e longas, anotadas em alguma superfcie de celulose ou cristal lquido. Chegou a hora de condimentar essas palavras. Os pontos so no texto o que os temperos so para a sopa, e importante saber us-los. Para cada cinco palavras, em mdia, o autor dever ter uma vrgula. Para cada dez, um ponto. Para cada 15, uma interrogao e/ou uma exclamao. Algumas dicas: para um texto mais picante, acrescente muitas exclamaes. Nunca use muitas interrogaes se o texto se destina a um grande pblico. Por ltimo, evite as crases, os tremas e o ponto-e-vrgula, pois so de sabor muito forte e devem ser usados com parcimnia, assim como o gengibre ou o curry na culinria. Parte IV: Prosa e poesia. Tendo os ingredientes e os temperos todos frente, chegado um momento muito importante, a hora de se decidir que tipo de texto se quer escrever. H somente dois, prosa e poesia. muito fcil diferenciar um do outro: os de poesia so fininhos e as frases se colocam umas sob as outras, formando pequenos blocos. Ao final de cada um desses tijolinhos, pula-se uma linha e comea-se um novo. Os textos de prosa so mais consistentes, e as linhas ocupam toda a extenso da pgina, desde a margem esquerda at a direita. Se o autor preguioso ou est terrivelmente atrasado para algum compromisso, convm fazer uma poesia. Nesse caso, vale a pena seguir alguns passos. 1 Volte ao dicionrio e busque algumas interjeies como Oh! e Ah!. No economize tambm nas reticncias, exclamaes e interrogaes. So pequenos detalhes, mas muito teis. Mesmo a mais simples das frases, se antecipada por uma dessas palavrinhas e seguida por esses pontos, ganhar um novo alento, uma vaguido que facilmente ser confundida com profundidade, como voc pode comprovar no exemplo a seguir: Antes: Havia casas azuis. Depois: Oh! Havia casas... Azuis?! Caso o futuro autor disponha de mais tempo e motivao, e deseje escrever um texto em prosa, no encontrar grandes dificuldades. Basta pegar todas as palavras previamente selecionadas e disp-las sobre a pgina. No preciso lav-las nem deix-las de molho. Tente sempre mesclar as pequenas, mdias e grandes. Lembre-se de que os pontos, as exclamaes e interrogaes vo sempre ao final das frases, e os acentos em cima das palavras. A cada seis ou sete linhas, termine uma frase no meio da folha e comece outra embaixo, depois de um espao. Isso se chama pargrafo. Os antigos pergaminhos da Checoslovquia demonstram alguma preocupao quanto importncia do sentido e da clareza em um texto. As ltimas pesquisas norte-americanas, no entanto, provam que essas questes so absolutamente irrelevantes. Uma rpida visita a uma biblioteca demonstrar que h textos dos mais absurdos impressos por a, e que nem a clareza nem o sentido so as caractersticas que fazem deles clssicos ou novelinhas baratas, exemplares da Academia Brasileira de Letras ou calo para mesas. Por ltimo, cabe destacar que um texto, ao contrrio de uma sopa, no alimenta, no esquenta, nem pode ser servido com conchas. Assim como at hoje no tive notcias de nenhuma ONG ou instituio beneficente que saia pelas madrugadas frias distribuindo textos e cobertores para mendigos (embora no seja uma m idia). No podemos deixar de mencionar que um texto resulta mais prtico que uma sopa, pois pode ser guardado na estante da sala e no precisa ser resfriado nem muito menos congelado. Apesar das consideraes anteriores, impossvel provar a superioridade de um texto sobre uma sopa ou vice-versa. Mesmo porque, possvel encontrar tanto letras em boas sopas, quanto sopas nas boas letras. Assim sendo, vamos ficando por aqui. Afinal, os textos e as sopas, os mercados e os dicionrios, as palavras grandes, os ingredientes, eu, voc, os cientistas norte-americanos e os pergaminhos da Checoslovquia nos assemelhamos numa nica coisa: todos, em algum momento, chegamos ao fim.

32. ANTNIO PRATA. PRA LUA. No foi assim logo de cara. Claro, seu Julio e dona Neuza j tinham reparado numa coincidenciazinha aqui, uma sorte acol, mas s foram perceber que Julinho tinha mesmo um dom especial no vero de 1984, em Caraguatatuba, assim que o moleque acabou de chupar o quinto picol, de manga. Quinze minutos antes, ao acabar o primeiro sorvete, um Fura-bolo, Julinho pulou de alegria: o palito viera premiado, dando direito a mais um. At a, nada de mais... Acontece que o segundo sorvete (um Esquim) tambm dava direito a outro, assim como o terceiro (de coco), o quarto (tangerina) e provavelmente todos os que chupasse se, no quinto picol a barriga do garoto j estava parecendo uma tela do Pollock, tantas as gotas de diversas cores que escorriam em direo sunga verde-limo, o sorveteiro no tivesse dado com a tampa de isopor em sua cabea e sado soltando os palavres mais cabeludos, cujos significados Julinho s viria a descobrir muitos anos mais tarde, na perua do colgio, numa tarde de maio o que no vem, absolutamente, ao caso. O que nos interessa que nessas frias Julinho ganhou trs quilos e o respeito de toda a crianada de Caragu, com quem trocava os palitos premiados por pipas, baldinhos de areia, favores e at uma bicicleta com buzina, cestinha e farol. (A bicicleta, infelizmente, teve que ser devolvida assim que uma me apareceu no guarda-sol da famlia, trazendo um filho choroso numa mo, 45 palitos premiados na outra e exigiu a anulao da troca.) Apesar de j saberem que ali tinha coisa, foi s quando Julinho estava na quinta srie, na poca que surgiram as Raspadinhas, que seus pais realmente se deram conta do potencial econmico de seu dom. Enquanto a maioria dos mortais gastava tubos do dinheiro naqueles cartes lotricos e, na melhor das hipteses, ganhava 50 centavos gastos em mais uma Raspadinha que, claro, no dava em nada , Julinho sempre tirava a sorte grande: era s raspar a camada prateada e sair pro abrao. Em alguns meses, a famlia comprou uma cobertura, casa na praia, carro importado e jet ski. No fosse o processo promovido pela Associao Brasileira dos Donos de Casas Lotricas que deu queixa na polcia dos prejuzos causados pelo gordinho que aparecia sempre chupando um picol, comprava uma Raspadinha e limpava os caixas dos estabelecimentos e a famlia, em pouco tempo, entraria nas listas das mais ricas do Brasil. Em entrevista ao vivo no programa do Gugu, logo aps serem absolvidos no processo com o acordo de que Julinho jamais jogasse em qualquer tipo de loteria federal , seu Julio, o pai, disse que no tinha truque nenhum: "O garoto assim, desde pequeno: rabudo. Pede par, sai quatro, mpar, d cinco e, no amigo secreto do Natal, sempre tirado pelo tio Lencio, meu cunhado, que d os melhores presentes." Dona Neuza, a me, acrescentou orgulhosa: "Hum-hum..," Desde o lance das Raspadinhas, seu Julio e dona Neuza j no trabalhavam: como os pais de um craque ou de um desses cantores mirins, dedicavam-se exclusivamente a desenvolver o talento do filho. Passavam o dia colocando tampas de margarina e embalagens de chocolate em envelopes e respondendo a perguntas tipo qual o sabo que deixa limpo"; "a bateria que nunca arria"; "o refrigerante que faz splash" ou "o absorvente da executiva moderna". Toda manh, antes de ir para a escola, Julinho punha as cartas no correio: eram casas, caiaques, home theatres, frias em estncias hidrominerais, fins de semana em hotis-fazenda, um ano de supermercado grtis e outros prmios que no acabavam mais. Dona Neuza ps botox, silicone, clareou os cabelos e entrou numas de Feng-Shui; seu Julio fez implante capilar, montou um bar espelhado na sala da cobertura e fazia churrasco todos os domingos;Julinho tinha um minibugue, f-clube, todos os bonequinhos dos Comandos em Ao, Passaporte da Alegria vitalcio no Playcenter e a Tilibra estava prestes a lanar uma linha de cadernos com sua foto na capa. Apesar de todo o sucesso, Julinho estava entediado. No havia nada que quisesse que no conseguisse:quando jogava futebol, para qualquer lugar que chutasse, a bola entrava; todo dia tropeava com carteiras cheias de dinheiro e, quando ficava doente e perdia uma prova na escola, o professor faltava. Era muito fcil. Alm do qu, no agentava mais chupar picol. Sem uma dificuldade, por menor que fosse, um empecilhozinho qualquer, as coisas perdiam a graa. Andando de l para c com seu minibugue pelas ruas do condomnio, Julinho lamentava: "Se ao menos eu tivesse que preencher algum formulrio, ou pagar uma mensalidade, ou fazer duzentas abdominais toda manh, eu sentiria que estou tendo algum trabalho, mas assim, do nada, no tem graa!". Tudo o que ele queria, como sempre nesse tipo de histria, era ser como as outras crianas. Mas como? Foi por acaso, caminhando pelo Centro de So Paulo, num dia desses em que o cu cinza parece apenas a metfora que um escritor previsvel criou para espelhar a nossa nublada configurao interna, que Julinho deu de cara com o lugar mais impressionante que seus olhos j haviam visto, um mercado onde se podiam encontrar ovos de dinossauros vietnamitas, videocassetes chineses, mmias maias, DVDs pornogrficos da Hungria, parentes distantes, lana-msseis russos e at amor verdadeiro a galeria Paj. E foi ali, entre um Rolex falsificado e um cachorrinho de pelcia (que era ao mesmo tempo dicionrio eletrnico, liquidificador e chapinha para cabelos), que Julinho encontrou a lmpada rabe. Haddad, o vendedor, garantiu que a preciosidade era do sculo XIII e havia sido roubada pessoalmente do Museu de Bagd, durante a invaso americana. Julinho, contando, como sempre, com a prpria sorte, no vacilou. Assim que chegou em casa e comeou a lustrar a lmpada com a manga da camisa, o ambiente encheu-se de fumaa, ouviu-se uma exploso e, depois de uma chuva de purpurina e lantejoulas, l estava ele, translcido e obeso, pairando a um metro do cho: o gnio da lmpada! amo querido, me libertaste da terrvel priso! Como recompensa, concedo-te trs pedidos. Diz-me apenas quais so teus desejos e logo os satisfarei! Julinho nem pestanejou: Primeiro eu queria ser como os outros, no ter tanta sorte: me dar bem s vezes, mal em outras, ter que me esforar para conseguir o que quero. Segundo, j que a sorte me abandonar, quero apenas garantir uma regalia: que todas as mulheres que posam para a Playboy queiram fazer sexo comigo at o fim da vida. Terceiro, desde criana que penso nisso:por que chamam esse objeto dourado de lmpada, se ele mais parece um bule? O gnio, com aquela cara sria e atenta que gnio faz nessas horas, respondeu: Meu amo: teus desejos so uma ordem! Mais fumaa, mais chuva de purpurina e lantejoulas e, quando tudo se acalmou, no lugar que antes o gnio sobrevoava, havia um bilhete: Caro amo, temo avisar-te que ocorreu uma falha na execuo de teus desejos. Acontece uma vez a cada mil anos o que ns, gnios da lmpada, chamamos de paradoxo retroativo. Teu primeiro desejo foi imediatamente aceito e teu azar, portanto, comeou ali mesmo, fazendo com que os efeitos desse gnio no tenham efeito nenhum. Em outras palavras: tudo continuar como antes, tu continuars sortudo. Se fizeres sexo com playmates ou descobrires por que esse bule uma lmpada ser porque nasceste virado para a lua, no por conta de meus servios. Agora, devo ir-me, haver uma conveno de gnios da lmpada no Rotary Club de Ribeiro Preto e no posso perd-la por nada. Adeus e obrigado." Julinho, desesperado, resolveu jogar a toalha. E a toalha, no caso, era ele mesmo: olhou seu quarto pela ltima vez, derramou uma lgrima de despedida e saltou pela janela da cobertura. Enquanto caa, pensava no infortnio de no ter nenhum infortnio, na desgraa da graa a ele concedida e, sabe-se l por qu, num short amarelo de que gostava muito quando era pequeno. Vinte e cinco andares e sete segundos depois, para surpresa dos pedestres, l estava ele, vivo e consciente, estatelado sobre uma Kombi azul. Naquele momento, ainda zonzo por causa da queda e surdo com o esporro do japons, que reclamava dos estragos causados ao veculo e perguntava como era que ele ia fazer agora para trazer o shimeji de Cotia todo dia, Julinho compreendeu sua sina: era imortal, sortudo demais para morrer. Uns dizem que foi o tombo, outros comentam que a coisa j vinha de longe, que ele sempre teve um parafuso a menos, mas o fato que todo dia, desde o salto, Julinho tenta, inutilmente, tirar a prpria vida. Depois de beber cianeto (estava vencido), cortar os pulsos (a faca quebrou), enforcar-se (a rvore tombou) e tentar todos os outros mtodos conhecidos e desconhecidos de suicdio chegou at a alimentar-se por uma semana s de detergente de ma , Julinho perdeu de vez o juzo. Vaga doido pelo mundo, magro, descalo e barbudo. De vez em quando, engole espadas, caminha sobre brasas, deixa jamantas passarem por cima de seu corpo e faz cooper em campos minados de Angola, sempre em vo. Para piorar, uma multido de fiis o segue aonde v, acreditando ser a volta de Jesus Terra. Alguns rabinos discutem se ou no o messias, as playmates no lhe do sossego e produtores de televiso ligam todo dia, insistindo em fazer um documentrio para o Discovery Channel. Agora, por exemplo, Julinho est em Foz do Iguau, chorando arrependido da remota manh em que foi pedir aquele maldito Fura-bolo em Caraguatatuba. Em instantes se atirar do alto da mais alta das cataratas de onde ser resgatado, alguns minutos depois, vivo e limpinho, pelos bravos homens do Corpo de Bombeiros do Brasil.

33. ANTNIO TORRES. POR UM P DE FEIJO. Nunca mais haver no mundo um ano to bom. Pode at haver anos melhores, mas jamais ser a mesma coisa. Parecia que a terra ( nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massap) estava explodindo em beleza. E ns todos acordvamos cantando, muito antes do sol raiar, passvamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pr-do-sol desmaivamos em qualquer canto e adormecamos, contentes da vida. At me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar. Os ps de milho cresciam desembestados, lanavam pendes e espigas imensas. Os ps de feijo explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantao parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podamos desejar? E assim foi at a hora de arrancar o feijo e empilh-lo numa seva to grande que ns, os meninos, pensvamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braos seriam bastantes para bater todo aquele feijo? Papai disse que s amos ter trabalho da a uma semana e a que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijo e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonana. No faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqenta, outros falavam em oitenta. No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho tambm fazia os meus clculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Da para mais. Era s o que eu pensava, enquanto explicava professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podamos ir, sa correndo. Corri at ficar com as tripas saindo pela boca, a lngua parecendo que ia se arrastar pelo cho. Para quem vem da rua, h uma ladeira muito comprida e s no fim comea a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraa do mundo: o feijo havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do cho para o cu, como um arroto de Satans na cara de Deus. Dentro da fumaa, uma lngua de fogo devorava todo o nosso feijo. Durante uma eternidade, s se falou nisso: que Deus pe e o diabo dispe. E eu vi os olhos da minha me ficarem muito esquisitos, vi minha me arrancando os cabelos com a mesma fora com que antes havia arrancado os ps de feijo: - Quem ser que foi o desgraado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido? E vi os meninos conversarem s com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que no dizia nada e de vez em quando levantava o chapu e coava a cabea. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha me falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca. tardinha os meninos saram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha me continuava balanando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado. Fui o primeiro a ter coragem de ir at l. Como a gente podia ver l de cima, da porta da casa, no havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando. - Ainda temos um feijozinho-de-corda no quintal das bananeiras, no temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, no temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, no temos? Como se diz, Deus tira os anis, mas deixa os dedos. E disse mais: - Agora no se pensa mais nisso, no se fala mais nisso. Acabou. Ento eu pensei: O velho est certo. Eu j sabia que quando as chuvas voltassem, l estaria ele, plantando um novo p de feijo.

34. ARMANDO NOGUEIRA. PELADA DE SUBRBIO. Nova Iguau, quatro horas da tarde, sbado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um claro de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chcara silenciosa, de muros altos. A bola, das brancas, nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas to humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstrao de uma vitria. Um chute errado manda a bola, pelos ares, l nos limites da chcara, de onde devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chcara, de onde voltou lanada com as duas mos por um velhinho com jeito de caseiro. Na terceira, a bola ficou por l; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do brao de um homem gordo, cabeludo, vestido numa cala de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chcara. A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, ps a bola no cho e, quando os dois times ameaavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revlver e disparou seis tiros na bola. No campo, invadido pela sombra da morte, s ficou a bola, murcha.

35. ARMANDO NOGUEIRA. PELADAS. Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, uma bab que passa, empurrando, sem afeto, um beb de carrinho, um par de velhos que troca silncios num banco sem encosto. E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho:"eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu no jogo, t com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrs: entrou aqui, j sabe." Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha. Oito de cada lado e, para no confundir, um time fica como est; o outro jogo sem camisa. J reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, um ser muito compreensivo que dana conforme a msica:se est no Maracan, numa deciso de ttulo, ela rola e qui com um ar dramtico, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos ps de Grson ou nas mos de um gandula. Em compensao, num racha de menino ningum mais sapeca:ela corre para c, corre para l, qui no meio-fio, pra de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calada. Parece um bichinho. Aqui, nessa pelada inocente que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma nmero cinco, cheia de carimbos ilustres: "Copa Rio-Oficial", "FIFA - Especial." Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecoraes por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepo do Itamarati. No entanto, a est ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada at, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha. Racha assim mesmo: tem bico, mas tem tambm sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura. Nova sada. Entra na praa batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licena, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo est vazio, o mundo est vazio. No deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas. O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e d-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola comea a sangrar. Em cada gomo o corao de uma criana.

36. ARMANDO NOGUEIRA. MXICO 70. E as palavras, eu que vivo delas, onde esto? Onde esto as palavras para contar a vocs e a mim mesmo que Tosto est morrendo asfixiado nos braos da multido em transe? Parece um linchamento:Tosto deitado na grama, cem mos a saque-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os cales. Sei que total a alucinao nos quatro cantos do estdio, mas s tenho olhos para a cena inslita: h muito que arrancaram as chuteiras de Tosto. S falta, agora, algum tomar-lhe a sunga azul, derradeira pea sobre o corpo de um semi-deus. Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, tambm, na hora em que o desvario pretendia deixar Tosto completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhes de telespectadores do mundo inteiro. E l se vai Tosto, correndo pelo campo afora, coberto de glrias, coberto de lgrimas, atropelado por uma pequena multido. Essa gente, que est ali por amor, vai acabar sufocando Tosto. Se a polcia no entra em campo para proteg-lo, coitado dele. Coitado, tambm, de Pel, pendurado em mil pescoos e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixo coletiva. O campo do Azteca, nesse momento, um manicmio:mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria. Agora, quase no posso ver o campo l embaixo: chove papel colorido em todo o estdio. Esse estdio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura pe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado corrida de touros. Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lgrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correo dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma s expulso. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, msculo a msculo, corao a corao, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que ho de se encontrar, novamente, em Munique 74. Choremos a alegria de uma campanha admirvel em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmos em todos os continentes. Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, o mais vibrante universo de paz que o homem capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis pases em luta ardente, durante vinte e um dias ningum morreu. No h bandeiras de luto no mastro dos heris do futebol. Por isso, recebam, amanh, os heris do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do ptio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a anlise fria do jogo. Mas final assim mesmo: as tticas cedem vez aos rasgos do corao. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratgias. Final sublimao, final pirmide humana atrs do gol a delirar com a cabeada de Pel, com o chute de Grson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final antes do jogo, depois do jogo nunca durante o jogo. Que humanidade, seno a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstrao de um gol, a cerimnia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campees mundiais em volta olmpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos ns, brasileiros? Ternamente, o capito Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorvel peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em esprito, no Jalisco de Guadalajara. Sorve nela, amiguinho, a glria de Pel, que tem a fragrncia da nossa infncia. A taa de ouro eternamente tua, amiguinho. At que os deuses do futebol inventem outra.

37. ARNALDO JABOR. SINAIS DOS TEMPOS. Tem uma pedra no meio do caminho... Essa pedrinha na praia de Marrocos o pretexto para a exploso, conflitos antigos... J existe tenso em Ceuta, uma cidade de 70 mil habitantes na costa de Marrocos, h uma briguinha em torno de Melila, tambm na costa. Essa guerra da pedrinha a caricatura perfeita desse falso mundo global, onde rabes e judeus lutam por pedaos de deserto, onde ndia e Paquisto vivem rosnando, depois do Kuwait, Bsnia etc. Ser que a Espanha est com medo de outra invaso dos mouros? Ser que influncia do atual preconceito contra rabes na sndrome internacional de Bush? Ou ser que o desejo de guerra anterior aos motivos? Eu acho que a causa s se explica pela frase de Nlson Rodrigues: s h duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana, e mesmo assim tenho minhas dvidas sobre o Universo.

38. ARNALDO JABOR. OCIDENTE "ORIENTAL". O Ocidente inventou a "soluo". O Oriente inventou o Maktub, "tinha de ser assim". O Ocidente quer "resolver as coisas. O Oriente acha que a vingana um prato que se come frio. O Ocidente quer o progresso. O Oriente no sabe o que isso. O Ocidente fala em liberdade, em indivduo. O Oriente so formigueiros pobres com um s rosto. Para o Ocidente, a morte a pior coisa. Para o Oriente, a morte quase igual vida. Ou seja, nosso primeiro passo tem de ser a desesperana. S com muito dinheiro jorrando l, com muita diplomacia, talvez se possa minorar o terror. Mas, pela lgica da doutrina Bush, teramos de atacar tambm a Indonsia, a Sria, a Lbia, o Ir, de modo a raspar do mapa 3 bilhes de islmicos. A soluo s comear se acabarmos com a idia de soluo. O Ocidente ter de ser mais Oriente e conviver pacientemente com essa tragdia do sculo XXI.

39. ARNALDO JABOR. BOLA DE CRISTAL. Em geral, a bola de cristal para ver o futuro. Mas nestas questes do adultrio entre a coisa pblica e privada, Sudam, Sudene, briga de ACM e Barbalho o desejo dos envolvidos apagar o passado. As frases de defesa so sempre as mesmas: meu passado ilibado... eu nunca... jamais fiz... como se no tivesse havido passado. Ningum estava l... eu no era eu... Desde as capitanias hereditrias, desde o imprio, dinheiro pblico e empresrio privado deu em assalto ao povo e ao pas. Agora, ver o futuro muito difcil. Mesmo com bola de cristal, quem poderia prever que Jder Barbalho, aquele humilde vereador de esquerda, seria to poderoso e rico no futuro? Quem poderia prever que ele seria presidente do Senado? Quem poderia prever que no sculo XXI o Brasil estaria paralisado por antigas questes como essa? Nosso presente tem sido um passado que no acaba nunca.

40. ARNALDO JABOR. MAIS REALISTA QUE O REI. H muitos anos, os brasileiros revoltados com a poltica j elegeram um rinoceronte votadssimo chamado "Cacareco". S que o Cacareco no arrastou consigo hienas, macacos ou tamandus para o poder. Mas o Enas, aquele homem que parece estar de cabea pra baixo, trouxe consigo vrios bichos que no foram votados nem por suas mes. E pior... Dos novos deputados, s 33 foram eleitos cara a cara. O resto, foi por legenda ou carona. E no se consegue reformar a lei eleitoral, porque ningum quer fidelidade partidria, nem poucos partidos, nem voto distrital. A maioria prefere o atraso, porque facilita a malandragem. E o absurdo que talvez... Talvez se consiga cassar os dois Cacarecos apenas por causa de um detalhe... De residncia. Contra a m f eleitoral no se pode nada, pois as anomalias polticas esto bem protegidas pela Constituio de 1988, que por medo de uma nova ditadura, criou uma democracia engessada e sem defesas.

41. ARNALDO JABOR. QUEM EXPLICA? A verdade simples. A mentira enfeitada. Assistimos a repetio bvia da verdade de dona Regina e os rebolados verbais de Arruda e ACM para encobri-la... Na verso dos senadores, dona Regina seria uma louca, que sem ordens, sem pedido, s por consulta reuniu uma equipe e passou a madrugada violando o painel para dar de presente a... ningum... orque nem ACM, nem Arruda teriam pedido nada... D uma sensao de absurdo, ver o Brasil paralisado diante deste circo. A pergunta que eu gostaria de fazer :por qu? Um senador, ou deputado rouba na Sudam, tudo bem, entende-se... Mas painel? Por qu? Foi rivalidade poltica de Arruda contra Lus Estevo? Ou foi ACM querendo controlar a mente dos senadores? Foi puxa saquismo de Arruda? Ou foi pura delinqncia? Ter sido o desejo de ACM de se autodestruir? Ser que foi o prazer perverso de sabotar a democracia? Por que fizeram isso? Como disse o jornalista Carlito Maia: Freud explica? No. Fraude explica.

42. ARNALDO JABOR. MISRIA E RANCOR. O que mais choca nessa guerra suja a eficincia dos traficantes, comparada com o desencontro dos agentes da lei, que ficam batendo cabea uns nos outros. A anormalidade nisso tudo no est apenas do lado do crime. Eles so fruto de dcadas de misria e rancor. A anormalidade est tambm nos rgos que no conseguem nem bloquear celulares. Os incapazes somos ns, aprisionados em burocracias, em tradies corruptas, em velhas tticas. A sociedade no fez nada quando as favelas e periferias eram pequenas. A misria era dcil, podia ser ignorada. Agora, o combate ao crime passa primeiro pelo reconhecimento de nosso fracasso. Precisamos de novas formas de luta. O crime deixou de ser apenas um caso de polcia. A experincia prtica das polcias tem de ser unida ao poderio estratgico das Foras Armadas. O crime no Brasil virou um problema de estado maior.

43. ARNALDO JABOR. NO BASTA INDIGNAO. Estamos indignados. Mas o perigo da indignao que ela nos purifique e nos alivie. Que nos faa esquecer que a tragdia tem dois lados. Nossa tragdia a incapacidade total que temos demonstrado para combater o crime. O inimigo no s o trfico. O inimigo tambm a desorganizao, a falta de verbas, de armas, a falta de vontade poltica e de imaginao para lutar essa guerra suja, porque uma guerra. O crime no Rio e em So Paulo no se combate com batidas policiais, espasmos que cessam quando passa a crise do momento. Assim nunca ganharemos. O crime tem as verbas do p, das armas, o crime rpido - tem a vantagem de no ter burocracia. No adianta s subir morro. A soluo comea pela vigilncia das fronteiras, passa por uma imensa estratgia policial. E militar. O tamanho do problema exige uma imensa soluo. Precisamos de um estado maior contra o crime. Que assuma que uma guerra j foi declarada.

44. ARNALDO JABOR. A MO INVISVEL DO MERCADO. Como explicar esta onda de erros que desmoralizam os Estados Unidos, desde que Bush assumiu? Esse senhor j foi eleito naquela esquisita contagem de votos... Parecia que a Amrica era um curral eleitoral subdesenvolvido. A, o homem entrou e s aprontou roubadas!? Conseguiu unir o mundo rabe todo contra a Amrica. Foi contra o protocolo de Kyoto, na base do dane-se a poluio mundial. Fechou as fronteiras a produtos emergentes, na base do dane-se a Amrica Latina. Agora, nem a economia americana, dona do mundo, escapa? Ditaram-nos regras de rigor contbil, equilbrio fiscal, e agora vm com esses escndalos? A explicao talvez seja a seguinte: a mesma sensao de onipotncia que faz o Bush ignorar o mundo e errar tanto na poltica faz as grandes corporaes institurem a corrupo descarada. a doena dos grandes imprios, que caem por se sentirem inatingveis. A queda de Roma comeou assim... Estamos em pnico: a tal mo invisvel do mercado deu para bater carteiras assim... (O comentarista faz o tpico gesto usado para roubos.)

45. ARNALDO JABOR. PASSOS PARA TRS. J tivemos a queda do muro de Berlim, quando acabou o comunismo. Ahhh... bons tempos, ingnuos, viva a democracia! Mas logo descobrimos que havia outras guerras frias escondidas. O muro a cara dos impasses insolveis de hoje. a cara do Bush e sua arrogncia imperial, a cara da poltica de direita de Sharon. Ai que saudades das portas abertas de Rabin e de Barak. Eles nos ensinaram que s os pases poderosos como Israel podem acabar com conflitos, por benevolncia e at por superioridade cultural, mas a estupidez da poltica interna no deixa. Por isso, pensando bem, temos de ser "modernos". Boa idia, os muros, j temos. A muralha da China, h 3 mil anos, contra os mongis. Poderia haver muro entre a ndia e Paquisto, entre o Ir e o Iraque. Pode ter um entre Mxico e USA para no entrar chicano imigrante. At aqui podiam pintar muros em volta das favelas, contra o trfico. Quem est fora no entra e quem t dentro no sai. , o sculo 21 est andando para trs...

46. ARNALDO JABOR. FANATISMO NO SE COMBATE COM FANATISMO. A Amrica uma inveno do cinema. A moda, o amor eterno, o happy end... So invenes de Hollywood para exportar cultura e poder para o mundo todo. At que, no 11 de setembro, o filme catstrofe inspirou Bin Laden, mudando o Ocidente com um final trgico. Pensamos que a Amrica ferida ficaria mais humilde. Ao contrrio, o filme de guerra e vingana de Bush o grande sucesso h mais de um ano. Mas j surgem outras produes. A Amrica inteligente, humanista, est acordando. O mal de Saddam e o sinistro bem de Bush vo criar uma nova era crtica, como nos anos 60. Os americanos vo descobrir que fanatismo no se combate com fanatismo. S a tolerncia dissolve a loucura. O faroeste de Bush, com o mal de um lado e o bem de outro, ser um fracasso de bilheteria. As marchas vo crescer nas universidades e ruas da Amrica, e o mundo poder ter um happy end, se a direita fantica de l ou de c no continuar a fazer novos filmes de terror.

47. ARNALDO JABOR. CONSEQNCIAS E CAUSAS. Existem conseqncias e existem causas. Esses dados do IBGE mostram dados sobre nossa misria que no servem para absolutamente nada. Apenas ficamos deprimidos por ouvirmos o que j sabamos. A grande pesquisa que o IBGE ou a ONU deviam fazer seria outra. Por exemplo: quantos milhes de dlares so sonegados no Brasil por bancos e empresas que no pagam Imposto de Renda? Quem so eles? Por que no se consegue prender esses homens? Como planejar um pas com oligarquias regionais que impedem qualquer planejamento central? Por que no se conseguiu fazer a reforma da Previdncia que nos tasca 60 bilhes por ano? Quanto foi roubado do povo em obras superfaturadas nos ltimos cinco anos? Quantos bilhes so tirados do tesouro pela indstria de liminares? E por a vai... A gente precisa de estatsticas sobre as elites, as oligarquias, sobre a riqueza. Dos que amam o atraso porque ele d lucro. Essa a pesquisa que precisamos conhecer. No adianta nos chocarmos com a pobreza sem conhecer e atacar os mecanismos que a produzem.

48. ARNALDO JABOR. VERDADEIRA GUERRA FRIA. A Amrica tem trs mtodos de negociar: dividir para mandar, fato consumado e bode na sala. Esse acordo com o Chile busca dividir os latinos em relao a qualquer poltica de bloco, como o Mercosul. O segundo ponto o fato consumado. Conseguem o interesse principal e depois se "revem os pontos mais polmicos", como reza o acordo com o Chile. o fato consumado. E tem o bode na sala. Criam-se exigncias terrveis e depois cedem um pouco. Se voc pe um bode na sala berrando e cheirando mal, quando voc tira, os bobos tm um alivio: ah, tudo melhorou, e aceitam as regras. Por trs de tudo isso, a Amrica s tem uma idia fixa. Controlar a economia do hemisfrio. O perigo da Alca no so tarifas assim ou assado, so as regras que impedem os estados de criar restries aos capitais estrangeiros. No h na mente americana a idia de toma l d c. S existe "imprio". E ns? Eles so to fortes, que se jogarmos duro, quebramos a cara, se aceitarmos tudo... Quebramos a cara tambm. Como diria Lenine, o que fazer, Lula?

49. ARNALDO JABOR. VEM A UMA NOVA REFORMA CULTURAL. O Bush d Amrica um novo objetivo. Revoltas estavam fora de moda... Nos anos 90, achvamos que o mundo ia dar certo e que protesto era coisa de maluco ou comunista. Mas, graas a Bush e sua direita, a face real do reacionarismo blico, a pior face da Amrica est aparecendo. Para Bush, a globalizao apenas a imposio dos valores republicanos ao mundo. Mas, graas a ele, as marchas j comearam. A jovem Amrica, que aperfeioa a democracia, despertou, e j marcha, e canta... E no s contra a guerra, mas pela ecologia, pelo respeito a outras culturas. Vai surgir na Amrica uma nova reforma cultural, sem a ingenuidade hippie e utpica do paz e amor. Agora, a luta ser pela democracia real, pois j sabemos que o mal e o bem do mundo passam pela economia. Ningum agenta mais esse mercado sangrento. E isso vai mudar nossas vidas. Pois, na verdade, s a poderosa Amrica muda a Humanidade. Quem diria? Bush vai causar um progresso cultural sem querer, com a contribuio de seus erros absurdos.

50. ARNALDO JABOR. O PREO DO PODER. Voc sabe o que um pato manco? o nome que os americanos do a um presidente que acabou o mandato mas ainda no saiu do cargo. Ningum liga mais pra ele. E ele fica por ali, mancando... Qummm... Quem... O pas esteve esse ano todo sob suspense, e, agora, est sem chefia clara. Apesar da transio democrtica comandada por FHC, que no quer ser s um pato manco. Mas um pato cooperativo... Vemos que sobra um perigoso vazio para picaretas e sabotadores. Parlamentares j querem aumento. A nova oposio at do neo-PFL prepara vingancinhas contra Lula, como no salrio mnimo, o governo tambm aproveita para medidas chatas como o aumento de gasolina. E mesmo boas notcias no se explicam. Por que os meninos de Wall Street baixaram o risco-Brasil? Porque quiseram. O Lula descobre que os poderes sobre o pas so muitos. Dentro e fora, de fisiolgicos a especuladores. Estamos vendo que entre o pato manco e o sapo barbudo h muito poder oculto. Governar no Brasil pular armadilhas e evitar cascas de banana.

51. ARNALDO JABOR. DIFCIL, MAS POSSVEL. Poltica e poesia. Razo e emoo. No dia do centenrio do poeta Carlos Drummond de Andrade, Arnaldo Jabor tenta mostrar que essa equao de opostos ainda possvel. Drummond era o poeta da desesperana, mas hoje no h s a fome de comida no Brasil. H uma fome de esperana tambm. O Brasil est faminto de emoo. FHC traou um mapa racional, lgico, que tem de ser percorrido. FHC foi talvez a razo. Lula comea como corao, essa onda de f talvez possa acionar uma grande vontade poltica e conseguir reformas, que apenas a lgica e a tcnica no conseguiram. Talvez entremos num perodo novo, em que as duas pocas se fortifiquem. Lgica e amor. Pois, como dizia Drummond: que pode uma criatura seno entre criaturas amar? Amar e esquecer, amar e mal-amar, amar, desamar, amar? Esse o nosso destino:amor sem conta, distribudo pelas coisas prfidas ou nulas, a doao ilimitada a uma completa ingratido. E na concha vazia do amor, a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.

52. ARNALDO JABOR. A SERVIO DE OSAMA. A grande guerra que est sendo travada hoje entre um mundo em que muitos pases opinem ou um mundo em que s o mais forte manda. Bush quer provar que destri Saddam, o que o pai no conseguiu. Mas no s isso. Bush tambm quer afirmar seu poderio contra um multilateralismo que ele no entende. Bush obedece mquina de guerra da indstria que o elegeu. So 500 bilhes de gastos militares. As armas precisam de uma guerra. As bombas desejam explodir. Bush est frustrado com esse gesto de Saddam. Pois a guerra sua salvao na poltica americana. Sua mediocridade s pode ser oculta sob a capa de um cowboy vingador. O Osama deu a ele em 11 de novembro o pretexto de ser uma vtima. Com essa desculpa, ele tem executado sua poltica irracional. Bush quer desmoralizar a ONU, a Europa e afirmar que esse papo de democracia internacional acabou. Ou seja, Bush esta fazendo tudo que o Osama mandou: vai botar o mundo contra a Amrica e pode destruir o Ocidente. Bush o mais obediente homem-bomba de Osama.

53. ARNALDO JABOR. TEM DE PARAR TUDO. Voc sabia que no Rio j morreu mais gente na guerra do trfico do que na guerra Israel-Palestina? Pois , comentar o qu, se o poder pblico no consegue nem bloquear celular na priso? Basta botar aquelas telas de arame de galinheiro em volta, sabiam? Comentar o qu, se no conseguem nem prender um preso dentro da priso? O Fernando Beira-Mar est preso, comando chacinas de dentro da Bangu I. Por que no seguram ele? Porque ele tem milhes de dlares? Comentar o qu? E ainda no Colmbia no. Comentar o qu? Todo mundo sabe o que fazer, polcia, Justia, governo... No fazem por qu? Por que a burocracia impede aes emergenciais, o por que no querem? Por que ainda no calaram Fernandinho, nem que seja no celular? Por que ningum quer matar a galinha dos ovos de ouro? Tem de parar tudo. Governar, hoje no Brasil, reformar a polcia, s isso. O resto pode esperar. Comentar o qu? O nosso 11 de setembro esse s que nossas torres de comando j caram h muito tempo.

54. ARNALDO JABOR. PINGUE-PONGUE DE SANGUE. O maior feito de Osama foi que ele deflagrou uma onda de loucura no mundo. Ele deu uma idia simples aos loucos e ressentidos do Oriente e da misria: a morte como um cachorro louco e invisvel em todas as esquinas. A morte vinda de lugar nenhum. E o que mais exaspera o Bush e todos nos a perda do controle sobre a vida social. O Ocidente sempre achou que podia prever, organizar a sociedade. Agora isso impossvel. H dois bilhes de homens no Isl, e a grande maioria nos odeia, mesmo os pacficos consideram os terroristas heris. Como controlar isso? E a onda de violncia contamina a todos, do maluco de Washington, aos traficantes do Rio e So Paulo, que dizem assim: boa idia! Virou... Moda. E vamos nos acostumando aos corpos despedaados nas discotecas e em Gaza. E nossas vinganas tambm sero cada vez mais banais. Breve haver grandes massacres aqui e l. Podemos organizar sistemas de vigilncia. Mas a idia de soluo... J era. Soluo no h mais. S o problema. Teremos de conviver com esse pingue-pongue de sangue para sempre.

55. ARNALDO JABOR. A CHANCHADA CONTINUA. Jos Lewgoy era mais que um ator. Era uma personagem brasileira. Fazia parte do trio de ouro da chanchada. Grande Otelo era o neguinho safado, Oscarito, o branquelo malandro e Lewgoy o eterno vilo, milionrio malvado, traficante, bandido de Faroeste, mgico de turbante, grego de camisola. Seu perodo de grande fama foi nos anos 50, quando o cinema brasileiro fazia o pastiche dos musicais e americanos, quando no tnhamos um cinema prprio e ficvamos na caricatura do cinema dos outros. Nesses atores havia uma cor brasileira profunda, de um tempo sem TV, com rdio e cinema, mas que marcou os fundamentos do moderno teatro e cinema no Brasil. Mas Jos Lewgoy era muito mais que um cmico. Ator de fina formao, foi de Carnaval no Fogo at Shakespeare, e ajudou a definir o moderno cinema brasileiro. Era um homem bom e s fazia papel de canalha. E se foi. Devemos chorar a morte deste bandido to querido. Pois tantos outros de verdade ainda ficaram por aqui. Lewgoy foi para o cu, mas a chanchada continua...

56. ARNALDO JABOR. SAUDADES DE EVITA. Evita surge e morre justamente no incio da decadncia da riqueza da Argentina no incio do sculo XX. Era uma riqueza sem base, passageira, que contaminou a conscincia argentina com uma iluso irrealizvel. Sonhando com Evita, que pregava justia pela caridade e assistencialismo, a Argentina passou os ltimos 50 anos sem se preparar para uma democracia real, produtiva. De certo modo, Evita parece a prpria Amrica Latina. Ela o mito substituindo a verdade poltica, ela a esperana infundada num milagre, ela o desejo de justia secular sem os instrumentos para realiz-la, ela e Peron eram o substitutivo paternalista e populista de uma democracia que jamais vinga entre ns. Hoje, depois de uma vaga euforia democrtica dos ltimos anos, mergulhamos de novo no populismo e no milagre impossvel. Hoje, como h 50 anos, estamos na mesma. Sem base. Sem cultura poltica. Sem dinheiro. No temos de chorar mais por Evita. Temos de chorar pela permanncia do seu mito. Santa Evita a santa padroeira da tragdia latino-americana.

57. ARNALDO JABOR. PERNAS DE PAU EM ECONOMIA. Afinal de contas em quem acreditar nesta ciranda financeira? O Sr. John Taylor, sub-secretrio do Tesouro americano, diz: no h motivo para se preocupar com a economia do Brasil. As polticas fundamentais esto certas." Tambm o porta-voz do FMI, Thomas Dawson, diz: o desempenho do Brasil tem sido bom. Mas, a, a senhora Lisa Schineller, da Standard & Poor, diz: o Brasil um perigo!" Por que? Essa senhora quer nossa caveira? No. que ela trabalha numa empresa para aconselhar as velhinhas do Kentucky e os aposentados que investem aqui. Claro que as agncias sempre julgam pelo pior, para no errar e perder fregus. E como os USA esto na maior crise, com escndalos e calotes, eles falam para as velhinhas: "vende Brasil, para cobrir os prejuzos daqui". Ns pagamos o pato do vexame americano. E o pior que os fracassomanacos daqui tambm acreditam nos ndices e apostam tudo contra o Brasil. S se esquecem que o Brasil tambm so eles. , gente, somos craques no futebol e pernas de pau em economia.

58. ARNALDO JABOR. ESTAMOS VIRANDO A FICO. Assistindo a essas reportagens... O que me espanta que a gente se espante. H uma normalidade profunda na vida desses traficantes e suas ligaes com a policia. Por que nos espantamos? tudo to normal, to previsvel... preciso que os poderes parem de considerar o trfico apenas um caso de polcia. A tese assim: o traficante um homem que caiu em pecado, transgrediu a lei e tem de ser punido pelos homens de bem. Isso apenas a metade da verdade. As velhas verdades no bastam mais. Novos conceitos tm de surgir para dar conta dos fatos novos. O mundo do trfico, do crime nas periferias, j um novo pas, uma nao desgraada onde o nico comrcio lucrativo o p. Esse pas tem leis prprias, moral prpria, associaes entre pobres de farda e pobres no crime. A soluo s poder vir pelo reconhecimento desta nova ptria miservel. Ou pela legalizao das drogas, ou ento por uma guerra profunda, feita de armas, fronteiras vigiadas e mais importante: o saneamento da misria. Porque a verdade que esse novo pas est virando a realidade. E ns estamos virando a fico.

59. ARNALDO JABOR. AS COISAS QUEREM A GUERRA. Ningum quer a guerra. Nem a ONU, nem a Europa, ningum. Nem o Bush que quer a guerra, so as coisas. a indstria blica, a lgica dos canhes, das bombas inteligentes. H uma mquina desejante nos USA querendo, melhor dizendo, precisando guerrear. O prprio Bush filho dessa mquina que o elegeu, que o desejou, a mquina da indstria de armas, a mquina do tabaco, a maquina do ao. Essa mquina comea no antigo desejo de domnio que os americanos tm desde seu nascimento como pas. O mercado como guerra. a mesma mquina que deseja o lucro total, o domnio econmico. Hoje as coisas mandam mais que os homens. Bush obedece as coisas. Provavelmente atacar perto do 11 de setembro. Mas no apenas como resposta ao ataque do Osama. A mquina tambm precisa mostrar ao mundo todo seu poder imperial. A guerra no vai adiantar nada. S vai unir o Oriente todo contra ns. O mundo entrou numa fase onde nenhuma palavra basta, nem razo, nada. S a lgica das coisas. O desejo das coisas. E as coisas no falam, mas as coisas podem destruir o mundo.

60. ARNALDO JABOR. A VERDADE VAI TER DE APARECER MAIS. No primeiro turno, todo mundo era contra o governo, inclusive o Serra. melhor ser contra, d mais voto. Serra no podia bater muito no Lula para no deixar subir o Garotinho. Lula, absoluto, no bateu muito no FHC, para ter alianas futuras. Por isso, Serra foi governista light. Por isso, Lula foi oposio light. No segundo turno, a verdade vai ter de aparecer mais... Agora, vai haver polarizao de novo. Lula vai ter de ser mau com o governo. Serra vai ter de defender o governo,. Mas... Se Lula ficar revolucionrio demais, perde, se ficar light demais, perde, tambm se Serra ficar contra o governo perde voto. Se ficar muito a favor, perde tambm. Serra, que foi seco no primeiro turno, vai ter de sorrir e ser emocional. Lula, que foi emocional, vai ter de ser mais racional. O problema que os dois pensam parecido. Os dois querem mudana. Os dois tm origem de esquerda. O Lula fundou o PT. O Serra fundou a AP - Ao Popular. Ambos querem poltica industrial, desenvolvimento, um novo nacionalismo. Os dois so parecidos... A diferena na maneira de agir. A soluo seria um mix dos dois. Razo e emoo para o bem da democracia.

61. ARNALDO JABOR. BUSH E SHARON ODEIAM A DEMOCRACIA. J vejo em minha bola de cristal: o Iraque vai ser atacado, o Arafat assassinado, a Europa vai se rearmar e a China vai virar real perigo atmico. Osama deve estar rindo: Sharon e Bush fazem tudo o que ele quer. Vo destruir o ocidente por ele. A verdade que tanto o Bush quanto Sharon querem acabar com a ONU. Acabar. Querem enterrar a ONU feito sapo de macumba. Por qu? Porque a ONU a democracia internacional, a igualdade das naes diante da razo. E tanto o Bush quanto o Sharon, que uma espcie de genrico do Bush, odeiam democracia e razo. O que eles querem um mundo impossvel, sem rabes, sem diferenas, um mundo habitado por bilhes de bushes e sharons. Um mundo igual a eles - violentos e irracionais. Isso s vai mudar quando comearem a chegar os cadveres dos jovens americanos, e esses loucos se saciarem de sangue e de erros. Um dia a opinio pblica da prpria Amrica vai frear isso, como fez com o Vietn, expulsando esse imperador louco. Ate l, o lema dessa poca ser aquele do general fascista: abaixo a inteligncia, viva a morte!

62. ARNALDO JABOR. EUA QUEREM SER DITADORES INTERNACIONAIS. Fica meio ridculo falar sobre o Iraque. Ningum vai ouvir, nem o Sadam, nem o Bush vo ouvir, nem o Osama, que est no fundo da caverna. S interessa saber o que essa guerra suja pode mudar em nossas vidas, com essa poltica de ao preventiva do caubi Kid Bush. Que isso? a poltica do valento paranico que diz assim:"vou dar uma porrada naquele cara ali antes que ele bata em mim."Bush pode decretar, por exemplo, que a Colmbia e o Brasil esto na rota do terror e do trfico e transformar a Amrica Latina num novo teatro de guerra. E como para eles guerra e mercado so quase a mesma coisa, os EUA podem um dia decidir que a Alca tem de sair do jeito que eles querem e que quem se opuser terrorista. Ao preventiva sentena sem julgamento, ditadura internacional. Mas que pas latino pode botar o dedo na cara do Bush e berrar:como que ? Vai encarar? Ns estamos quebrados, sob o FMI, sem armas. , mas mesmo assim vem a um novo nacionalismo. Com esse conto do vigrio da globalizao, o Bush est nos obrigando a isso.

63. ARNALDO JABOR. COMENTARISTA FANTASMA. Boa noite. Eu sou comentarista poltico, mas ningum me conhece, eu sou o comentarista fantasma, mudo de emissora quando quero, eu posso dizer qualquer coisa, pois ningum me v, eu posso fingir iseno, posso fazer picaretagens. E no posso nem ser despedido nem cassado, pois eu no tenho rosto... assim que se comporta a maior parte dos deputados desse pas, pois s 33 tm rosto. A maioria da Cmara no tem rosto. Bloqueia, exige, cria crises e no responsvel por nada. Tudo sempre culpa do Executivo. Poucos foram eleitos cara a cara com o eleitor. Como cobrar alguma coisa de parlamentares que no foram eleitos? Nenhum tem fidelidade partidria, mudam de partido segundo as convenincias. A maioria no tem nem culpa, nem nada. S interesses. Vai ser fogo o Lula governar com esses fantasmas. E sem as medidas provisrias, que os fantasmas destruram, para paralisar a presidncia. Deus... Ser que um dia haver uma reforma eleitoral no pas? S uma grande reforma poltica, com parlamentarismo, poderia evitar essa vergonha que nos paralisa. No. No permitiremos. Seremos eternamente os fantasmas contra a democracia...

64. ARNALDO JABOR. TUDO PELA SATISFAO. H muitos anos saiu num jornal popular uma manchete famosa: matou a me sem motivo justo. E o que chocou nessa notcia que parecia haver um motivo justo pra se matar a me... E nosso pas ultimamente virou o carnaval dos psicopatas. Suzane mata os pais. Empregada espanca velhinha. E agora esse Gustavo mata a av a facadas... Parece que os assassinos esto encontrando motivos pra matar parentes. No h motivos, claro, mas h um estmulo no ar para esses crimes. A sociedade de consumo nos ordena satisfao o tempo todo. Coma, beba, vista, ame, transe. S que impossvel realizar tantos desejos. E o consumo foi virando uma espcie de droga. S muito doido como o Gustavo pode se dar conta do desejo infinito. O excesso de ofertas nos deixa sempre insatisfeitos. E, pior, tudo que seja frustrao a desejos tem de morrer. Some-se a isso o espetculo banal da violncia, e temos o tal "motivo justo". Quase um slogan: mate quem impedir seu desejo. ... Um amigo meu falou que s dorme de porta trancada:"sei l o que meus netos esto aprontando"...

65. ARNALDO JABOR. SOBRE A VERDADE. Quando a dona Regina mentiu, na primeira vez... ela estava mostrando a verdade de seu medo. Depois, por medo, disse sua verdade. Quando Arruda mentiu, mostrou a verdade de sua esperteza poltica. Capaz de mentir com verdade... Quando depois ele confessou em lgrimas sua verdade, disse que dona Regina, sem ordens, por gentileza, saiu correndo e lhe trouxe a lista graciosamente. Ser verdade? ACM... Mentiu no depoimento inicial. Hoje disse que mentiu por amor...amor ao Senado e para proteger a pobre dona Regina... Qual a verdade? Toninho Malvadeza ou Toninho Bonzinho? A verdade que se no houvesse o laudo tcnico provando a violao do painel as mentiras seriam as verdades. As verdades vieram pelo medo!!! E pela metade, pois reparem que cada um empurra a culpa para o inferior. ACM ferra Arruda que ferra dona Regina. A verdade que o Brasil esta parado no meio de uma crise mundial e o Congresso nesta palhaada. A verdade que nesta guerra de vaidades e sabotagens... Esses polticos querem que o Brasil se dane, para ver triunfar suas mentirosas verdades.

66. ARNALDO JABOR. SURPRESA? O que espanta essa surpresa toda com a roubalheira da Sudam. Todo mundo soube sempre que onde o governo d grana subsidiada para empresrios haver roubo... E pior que roubo o falso progresso, o atraso social e econmico que ele provoca. Nesse pas paraltico no adianta a gente achar que a roubalheira e a imoralidade so acidentes de percurso, so "crimes num mundo honesto". importante que a gente entenda que a Sudam j foi planejada para isso, assim como a Sudene...a antiga Sunamam, tantas outras... H 400 anos que o Brasil foi planejado para ser esse casamento sujo entre empresrios e dinheiro pblico. O mecanismo funciona porque as leis foram feitas para no punir, assim, vale a pena apostar na lentido da justia... Ningum tem medo da lei. Outra causa o equvoco de que o estado tem de subsidiar empresrios... O governo tem de sanear a economia para que com juros baixos os bancos privados financiem verdadeiros empresrios e no esses vagabundos impunes que povoam o Brasil todo. Sempre que houver o nome superintendncia de desenvolvimento, ali haver mentira e atraso... Roubo no Brasil no acidente. norma...

67. ARNALDO JABOR. A DIREITA NO PODER. Boa idia! Se tem franco atiradores no teto, a gente bombardeia o hotel onde h centenas de jornalistas. Bummmm!!! Ahhh... Foi sem querer... No leva a mal, no... A inteno era boa... O problema que a inteno no era boa. No foram gafes. Foram desejos, o desejo de bombardear a Al Jazeera tambm: "vamos arrasar a TV Globo do deserto". Vitoria Clark, a porta-voz bodeada do Pentgono, comentou:", cobrir a guerra perigoso... Quem mandou? A gente avisou..." E o general porta-voz da coalizo disse: "os EUA estavam sendo atacados do hotel". verdade, os jornalistas estavam atacando-os com a liberdade de opinio. Essa direita americana quer matar a informao, fora e dentro da Amrica... Bush tambm morde e assopra. Esse papo de Estado Palestino que ele prope para adoar-nos a boca. O Sharon j disse: "nem pensar em tirar os assentamentos de Gaza". Mais grave que a guerra o mundo que querem criar. No respeitam culturas nem diferenas, s querem nosso choque e nosso medo. O mundo vai sofrer com violncia e trapalhadas. O imprio americano ser uma mistura de cowboys e homens-aranha com os Trs Patetas.

68. ARNALDO JABOR. O CMULO DO EGOSMO. Houve muitos fatos positivos nesse governo. Fim da inflao. Melhorou educao. Melhorou a sade. E por que a distribuio de renda ruim? Culpa do governo? No. A culpa de alguma coisa anterior e acima desse governo e de qualquer governo que entre. A culpa de um tipo de "rico" brasileiro. Mas no dos ricos que trabalham, criam empregos, e crescem junto com o pas. No. Eu falo do rico que vem desde a colnia, h sculos. o rico que preda e mama no estado. o rico que no produz., o rico financeiro que acumula, no investe e manda bilhes para fora. o rico que no paga Imposto de Renda nem imposto nenhum. o rico parasita. o rico que corrompe o estado para seus interesses privados e impede qualquer planejamento srio. o rico que paralisa at os ricos que querem produzir. Esse rico brasileiro no capitalista. Ele vive do nosso atraso, que lhe d lucro. o rico e suas ricas famlias que mandam num estado, as famosas oligarquias. Nem revoluo acaba com eles. S a democracia pode desfazer as oligarquias brasileiras e os donos do poder sujo. A m distribuio de renda culpa deles.

69. ARNALDO JABOR. NOVIDADE POLTICA. A frase mais profunda que houve foi:"a esperana venceu o medo". A era FHC teve um importante papel para o dia de hoje. FHC comandou uma tecnologia poltica moderna, combatendo salvaes demaggicas e preservando a democracia debaixo de grande crises econmicas e polticas. FHC acertou e errou. Mas, mesmo seus acertos no foram bem entendidos, pois seu governo esqueceu que havia uma populao querendo participar. FHC no fez nem um honesto populismo, deixando a populao fora da viagem de seu governo. Com medo das armadilhas da fisiologia e da economia, na era FHC a poltica virou uma arte para poucos especialistas, praticada na solido dos conchavos de Braslia. Por isso, e alm do povo, FHC ficou tambm desamparado. Viramos um pas de nmeros e estatsticas e de... Medo. Medo de ousar. Com medo das utopias loucas, acabamos com medo da esperana. Com a vitria de Lula, o povo se sente no poder, com um lder igual a ele. Se Lula e o PT mantiverem a esperana respeitando a complexidade tcnica que FHC praticou, Lula poder ser uma 4 via, um grande governo popular e democrtico. Se isso acontecer, o governo de Lula pode virar um novidade poltica para o mundo todo.

70. ARNALDO JABOR. O BRASIL VIROU UM SANDUCHE. Quem e qual o curriculum do secretrio do tesouro americano, Paul O'Neill? As respostas, com Arnaldo Jabor. O Brasil virou um sanduche. De um lado, brasileiros apostando no dlar e torcendo pelo prprio fracasso: "oba, tomara que o Brasil quebre para eu ganhar grana!" Do outro, as declaraes estpidas dos direitistas do Bush. ONeill o rei da grossura. Quando houve gestes para ajudar a frica miservel, ele disse: nem me falem de compaixo. Pela frica, essa nova gafe do O'Neill devia ser dirigida para dentro da prpria casa. Quem est desviando dinheiro so as empresas que ele, Bush e Cheney protegeram. E os trs so acusados tambm de maracutaias. Bush est exterminando com a poltica de globalizao. Os EUA fazem o contrrio do que dizem, s pensam neles e j abandonaram qualquer amabilidade, partindo para um bruto imperialismo militar e econmico. Vo usar o Iraque para que esqueam seus roubos internos. Essa declarao do O'Neill revela a viso de mundo do governo americano: s existimos ns; o resto so os brbaros". A nica globalizao que esto conseguindo a globalizao do dio dos "brbaros" contra a Amrica.

71. ARNALDO JABOR. PARA SENTAR E CHORAR. Arnaldo Jabor critica os que sempre vem na ideologia mais em voga a cura para todas mazelas do mundo. A realidade acaba sempre os desautorizando. Os idiotas sempre esperam a chegada de um mundo bom. Eu sou um deles. Primeiro acreditamos no socialismo, na justia e igualdade. Mas tudo acabou numa mistura de falncia e corrupo. A os idiotas acreditaram no capitalismo salvador. A globalizao e o mercado vo resolver a vida dos subdesenvolvidos. Deu zebra: os pobres s pioraram e no teve colher de ch para pas pobre, emergente. "ɔ, pensamos ns, os idiotas, mas os EUA so um pas tico e confivel!!!" Outro bode: a Enron roubou, a World Com roubou, outras roubaram e agora a Merck meteu a mo grande. Mas, ainda com esperana, os idiotas pensam: ahhh, mas amanh o Bush vai TV fazer um discurso indignado contra esses crimes!!! Outra zebra: a imprensa norte-americana mostrou que o Bush tambm enriqueceu assim. Ele e o vice dele, o Dick Cheney. Os dois ficaram ricos com informaes privilegiadas em suas empresas, a Harken e a Halliburton, na dcada de 80. Quer dizer, o capitalismo onipotente faz o que quer no mundo e no plano tico os EUA esto virando a Nigria. A, ns, os idiotas da esperana, sentamos no meio fio e choramos lgrimas de esguicho.

72. ARNALDO JABOR. TUDO IGUAL. Existem dois tipos de tragdia: tragdia sbita e tragdia preparada. Existe um avio que explode, um piano que cai sobre tua cabea, um infarto fulminante. Mas existem as tragdias brasileiras preparadas. Qual a receita para essas tragdias? Bem... Pegue-se um ingrediente bsico, a misria. Junte-se a ignorncia, a inconscincia do perigo numa balsa cheia ou numa encosta deslizante. Adicione uma pitada de desrespeito do poder pela vida dos pobres e pummmm! Temos exploses no shopping, mortos no fogo e na gua. Depois temos mes chorando, bombeiros procurando corpos e as autoridades falando em "tomaremos providncias enrgicas". Depois no se fala mais nisso. Eram tragdias evitveis, mas foram preparadas como um bolo maldito. Vocs se lembram de Vila Soco, em Cubato? Centenas de pessoas foram fritas como torresmo ou batatinhas pelos canos de petrleo. Essas cenas se repetem todos os anos. Nem precisa mandar reprter para filmar os mortos. Basta pegar no arquivo. tudo igual. Talvez num dia sujo do futuro isso nem mais seja notcia. Ai que chatas essas desgraas montonas, que se repetem sempre. A nica tragdia que no foi prevista pelos podres poderes foi a violncia. Ningum contava com que um dia os miserveis teriam armas e dinheiro da cocana. E a, pela primeira vez, as elites esto sentindo o arrepio do perigo.

73. ARNALDO JABOR. GOVERNO SURPRESO? Surpresa? Como o presidente da Repblica diz que foi pegado de surpresa? inacreditvel, doentio que um governo com trs agncias de energia no soubesse do perigo. O que aconteceu? Um governo preocupado s com ajuste fiscal e com reformas desconstrutivas no se preocupou com o desenvolvimento de infra-estrutura. Um governo que nunca soube se explicar opinio pblica ficou com medo de dar notcias ruins e resolveu se auto-enganar, tipo, tudo bem, Deus brasileiro... a sndrome do marketing, das pesquisas de opinio, da imagem. No desejo de combater o crnico pessimismo brasileiro, o governo inventou a bandeira tucana do otimismo irresponsvel... O tradicional desprezo do brasileiro pelas questes tcnicas. No pas s temos bacharis, literatos e idelogos que odeiam o mundo real. Houve tambm o inferno das sabotagens da oposio e o inferno dos conchavos dos coronis e fisiolgicos, que no deram um dia de trgua a FHC. At ACM teve culpa, enfiando um ministro como Tourinho, que passou dois anos dizendo: racionamento? Nem me falem nisso... E houve tambm o monetarismo frio do ministrio da fazenda, desestimulando investimentos, gastos pblicos vetados pelo maravilhoso deus FMI. A nica vantagem deste apago descobrirmos que esse papo de Brasil moderno furado. Continuamos um gigante com ps de barro.

74. ARNALDO JABOR. BUSH A CONTRAGOSTO. George Bush sonhava em governar de frente para os americanos e de costas para o mundo. Mas, atropelado pelo onze de setembro, se lanou a uma cruzada contra o terrorismo. A contragosto, teve que se envolver no conflito no Oriente Mdio e j tem um plano para derrubar o ditador iraquiano, Saddam Hussein. Isso sem falar nas brigas compradas no cenrio internacional, sendo que a mais recente foi a rejeio ao tribunal permanente para julgar crimes de guerra. Arnaldo Jabor. Depois do 11 de setembro, achamos que o golpe terrorista provocaria mais humildade na Amrica do Norte. Ficariam menos arrogantes e isolacionistas. Engano. Ficaram mais imperiais. Por isso, os USA esto contra qualquer repartio de poder. Devem um grano a ONU, para desmoraliz-la. Querem mandar na Otan, na OEA, deram a gafe de apoiar o golpe frustrado na Venezuela. Dai, no apiam o Tribunal Penal Internacional. Eles tm medo que crimes americanos possam ser julgadas por outros pases. Pois o Bush no decretou h pouco que os USA so o bem? E ns? Somos o qu? Os USA querem uma Guerra Fria qualquer que os absolva e justifique. E nisso Bush no pra de errar. Est unindo o mundo rabe e os emergentes contra os USA. Alis, ontem o Bush acusou Cuba, Sria e Lbia de fabricao de armas biolgicas. Cuba? Ali nos trpicos, debaixo de bloqueio h trinta anos? Difcil. Lembrem que se provou que aquele antrax terrvel era produzido na Amrica do Norte. E mais: por que os USA conseguiram expulsar da Opaq da ONU o brasileiro Bustani? Porque ele queria tratar os usa democraticamente apenas com um membro da organizao e no como o dono do mundo. Bill Clinton, onde est voc, agora que precisamos tanto de um democrata?

75. ARNALDO JABOR. O SAPO E A COBRA. Acho que um "choque de capitalismo" pode nos arrancar do atraso sim, acho que a "instantaneidade" do mundo de hoje pode fazer algum bem ao caos paraltico do Brasil patrimonialista. Mas entre remdio e veneno h quase nada. Ignorantes de direita e de esquerda no vem isso. Saudosistas da utopia sabotam as reformas e se agarram ao passado, enquanto deslumbrados liberais abrem as pernas e anseiam pelo estupro do futuro. A verdade bvia, solar, que o plano da Alca traz embutido o nosso destino - feito por eles. Isto o fato histrico mais grave, mais assustador para nosso futuro. A sensao que tenho a estria do sapo e da cobra. J viram como se alimentam as jibias e as jararacas? Joga-se um sapinho na jaula. O bichinho pula de pnico pra todo lado e a cobra fica imvel, olhando. Ele pula daqui, pula pra l e acaba hipnotizado, seduzido, entrando obediente na boca aberta da serpente. Tenho pavor de que isso nos acontea. Nossos 500 anos de dependncia, deslumbramento e ignorncia apontam para isso. Claro que h uma conscincia difusa do perigo, claro que dentro e fora do Itamaraty se fala em nossos "interesses comerciais", em "integrao com Europa e sia", em "defesa do Mercosul", mas o perigo imenso porque os brasileiros no sabem negociar e, por abstratos, bacharelescos e molengas, se perdem em bravatas vazias para compensar medo e despreparo tcnico. Corremos o grave risco da "sndrome do sapinho", de morrermos seduzidos pela boca da cobra, at vagamente honrados com a devorao. O essencial considerar a Alca o problema n 1 do pas, nosso terremoto, nosso dilvio, nosso perigo de extino. fundamental que o Itamaraty (e todos) se toquem para o assustador horizonte e no empurrem nosso destino histrico com a barriga. O ministro Celso Lafer obtemperou:"A Alca no destino; opo". Espero que sim. Negociadores, diplomatas progressistas, uni-vos! Temos tudo a perder.

76. ARNALDO JABOR. FREUD EXPLICA MUITAS POSIES POLTICAS. A psicanlise uma grande arma para a cincia poltica. Principalmente no Brasil, beira das eleies, com todos os dios e neuroses aflorando. Por trs das ideologias e certezas de cada um, jaz o trauma, pulsando como uma velha ferida - a neurose, o sintoma. H uma doena manchando a bandeira poltica de cada um. Imaginemos uma sesso de anlise de grupo. No centro, um psicanalista de charuto e barba. Em volta, intelectuais pensando o Brasil. Psicanalista - o que fazer diante da realidade brasileira? O Amante do Povo - Doutor... to terrvel ver a misria deste pas... Eu sofro tanto com isso... Psi - O senhor miservel? - No... ganho at bem... Psi - O senhor luta por eles? - No; s choro. Psi - Essa 'dor' pelos pobres lhe traz muito lucro. Sente-se 'bom'. Eles no ganham nada com isso. O prximo!... O Erudito - Eu sei tudo, doutor. Inclusive do seu Freud. Eu li tudo. No h sada... s me resta ficar aqui na universidade pensando na aporia (bem sem sada) histrica em que estamos, no h um 'telos' (luz no fim do tnel) possvel... Como filsofos, no podemos sacrificar nossa 'gravitas' (seriedade) com uma 'praxis' (prtica-terica) que seja apenas um 'ersatz' (quebra-galho) da verdadeira revoluo... Psi - 'Acabou o tempo da reflexo; comea a ao (Marx)'... O senhor tem inveja de quem vai luta... A filosofia para o senhor apenas um mecanismo de defesa. O Radical Duro - Temos de encarar os problemas do pas radicalmente, sem frescuras. Essas complexidades democrticas modernas, ambigidades polticas so coisas de veado! Psi - O senhor tem medo da complexidade ou medo de ser veado? O prximo!... A Vtima - S eu estou certo! Apanhei muito em 69. Tortura, porrada. Psi - O senhor acha que se santificou no pau-de-arara? Nunca o senhor se sentiu to puro e nobre como durante a ditadura, no ? Orgulhe-se da luta, no das porradas. Mesmo um grande heri torturado pode errar politicamente. O Limpinho - Doutor... Eu tenho nojo desses polticos, desta sordidez... Como artista e pensador, eu me mantenho longe desse lixo todo, deste horror brasileiro... Eu sonho com um Brasil novo, puro... Psi - O senhor lava as mos a toda hora? No olha as prprias fezes? Sexo e beijo de boca aberta nem pensar, n? O Infeliz - Doutor, eu estou chorando assim porque minha vida uma frustrao... Ser a favor dos pobres nos leva ao fracasso. Eu poderia ter ganho dinheiro, mulheres, sucesso, mas sou de esquerda. Psi - O senhor fracassou porque de esquerda ou de esquerda porque fracassou? O Sonhador - S amo as utopias, doutor... Este governo vive no administrativismo, na poltica do possvel... Essas reformas podem funcionar na prtica; na teoria no funcionam. S amo o sonho... Sem sonho, no ganhamos nada e, se ganharmos, perdemos o sonho... Psi - O senhor ainda mora com sua me, no? O Paranico - O mundo atual um conto-do-vigrio em que camos. H uma conspirao poltica a fora para nos destruir... Tudo que parece ser, no . Querem me pegar desprevenido pelas costas. Psi - O senhor gay? - Se disser isso de novo, eu lhe mato!!!... E vocs?!... Esto me olhando por qu? (foge gritando). O Anal - Este pas no tem jeito. S uma grande catstrofe, uma tempestade de merda consertava isso a... S depois de uma grande cagada poltica, a, sim, purificados, teramos a bonana... Psi - Seu pai lhe batia muito, quando voc se sujava nas calas? O Mrtir Imaginrio - Tiradentes foi esquartejado... Frei Caneca enforcado... Como belo o martrio dos que morreram pela salvao do Brasil... Grandes heris mortos... Psi - O senhor acha a vitria uma 'coisa de burgus'... No ?... Se o senhor fizesse sucesso, seu pai falido lhe castraria? O Nostlgico - Ahhh... como era verde o meu vale!... Ai, como era bom antigamente... Vida mais simples, todos se amavam... A chegou o neoliberalismo e estragou tudo. Psi - O senhor ama a utopia em marcha r? Deve ter sido uma criana mimada, filho nico... A, nasceram os irmozinhos, no foi? O Imutvel - Pode mudar o mundo. Eu no mudo um milmetro em minhas idias... H valores de que no abdico! Psi - O senhor tem medo de mudar de sexo? De virar mulher?... ("Arghh!" - mais um que foge gritando). O Militante do Ar - Avante povo! Para as barricadas! Revoluo ou morte! Psi - O senhor j pegou em armas? Ahh, no? Fica em casa de pijama torcendo pelo 'povo' como quem torce pelo Palmeiras? um caso de quixotismo preguioso ou militncia imaginria... O 'Bode Preto' - Tudo uma bosta... Tudo cronicamente invivel... Beco sem sada... No h luz no fim do tnel... Psi - O senhor paulista? Se tudo uma bosta, sobra apenas o senhor - o nico que presta... Isso narcisismo de paulista engarrafado no caos urbano da cidade... Tome Prozac e v para a Bahia!... Eu estou a dentro... E voc, leitor intelectual e neurtico, 'meu semelhante e irmo', onde voc se enquadra?

77. ARNALDO JABOR. O QUE AS MULHERES SERO PARA AS GERAES FUTURAS? Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constatao: t dominado, t tudo dominado!!! S d funk! O "neo forr" tenta uma reao, mas suas letras no so cafajestes e no trazem a "alegria compulsria" que o brasileiro tanto gosta. A no d, n, p?! Como que o cara quer fazer sucesso sem tratar mulher como lixo?! Esses forrozeiros, vou te contar... A indstria do CD pirata vai tratar de enfraquecer esse negcio, mas o jab e a televiso devem insistir na onda por um bom tempo. Xuxa, Luciano Huck, Raul Gil, Gugu, enfim, toda essa gente boa vai se virar pra ganhar em cima. A Bandeirantes at j vai lanar um programa semanal com duas horas de durao dedicado ao funk. Isso, claro, at o "Tigro", a mente por trs do "movimento", ser domesticado, o que, em termos mercadolgicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo. O "Tigro", alis, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de maro. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a nvoa de ignorncia (por parte do pblico) que encobria alguns aspectos do "movimento". Vejamos: em determinado trecho da entrevista, "Tigro" diz: "...As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se voc analisar, as letras nem so to pesadas. Elas tm duplo sentido, at porque o pblico infantil ouve funk". Muitas coisas interessantes nessas sentenas! Ento vamos por partes: "...se voc analisar, as letras nem so to pesadas". Eu analisei e ele est certo. Quem, em s conscincia, poderia achar pesada a letra do funk "Mquina de Sexo", que diz: "Mquina de sexo, eu transo igual a um animal / A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal / Chatuba come cu e depois come xereca / Ranca cabao, o bonde dos careca"? Nota-se a leveza de termos como "sexo anal", "cu", "xereca" (!) e "cabao". "Elas tm duplo sentido...". Procurei demais e no achei o duplo sentido no funk "Barraco III": "Me chama de cachorra, que eu fao au-au / Me chama de gatinha, que eu fao miau / Goza na cara, goza na boca / Goza onde quiser". Ah, agora entendi! "Goza na cara" porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas costas. A ela diz "Goza na cara!". Que coisa... "...at porque o pblico infantil ouve funk". Eis uma verdade e a preocupao do "Tigrao"se justifica. Foi pensando nas crianas que o garoto Jonathan, de 7 anos (ele mal tem coordenao motora para reproduzir a coreografia) foi incentivado a gravar o funk "Jonathan II", de edificante letra: "De segunda a sexta, esporro na escola / Sbado e domingo, eu solto pipa e jogo bola / Mas eu j estou crescendo com muita emoo / E eu j vou pegar um fil com popozo". 7 anos!!! 7 anos!!! P, foi mal... A culpa minha, gente grande, feia e besta, que no entendo. Ento, vamos l, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de auditrio: todo mundo junto, um, dois, trs e j: "A malcia est na cabea do adulto, a criana s quer se divertir. Onde j se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crianas que passam fome na rua ningum fala nada...". Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do auditrio. bom que se diga que as crianas que passam fome nas ruas so um srio problema social, cuja resoluo deve ser uma das prioridades mximas de qualquer governo (detalhe sem importncia: os funks da moda no passam nem perto dessa questo. Mas, beleza, vamos l...). S que um problema do governo, a gente no tem nada com isso, no mesmo? Ao invs disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a "pegar um fil com popozo". Afinal, nunca cedo demais pra mostrar pro papai que se um garanho, que no deixa passar nenhuma cachorra. Isso que uma infncia saudvel! E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo "Bambalalo", "Stio do Pica-Pau Amarelo" e ouvindo aqueles discos da "Turma do Balo Mgico". Ao invs disso podia estar por a, transando umas cachorras... Enquanto a gente d risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher no passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que s um tapinha no di. Se "s um tapinha no di", o primeiro deveria ser dado no popozo dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas. Depois a gente no entende o motivo do aumento dos ndices de violncia contra a mulher e porque ela to desrespeitada na sociedade. Ser que no bvio? Voc, cadela... quero dizer, mulher que est lendo isso, levante-se e lute! No seja uma cachorra! Um tapinha di, sim! Exija respeito antes que ns, homens, acreditemos que isso mesmo que vocs querem. Deponham as Xuxas, Carlas Perez, Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Internticas,Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikachu de seus reinados de misria intelectual! Conto com vocs!!! E lembrem-se sempre da cada vez mais pertinente frase de Oscar Wilde:"Todo crime vulgar, assim como toda vulgaridade criminosa."

78. ARNALDO JABOR. O OCIDENTE ESQUECEU HIROSHIMA E NAGASAKI. H 57 anos, no dia 8 de agosto de 1945, um piloto americano pintou na fuselagem de seu avio o nome de sua me querida: "Enola Gay." Depois, voando sobre o Japo, num belo dia de sol, despejou a bomba atmica que derreteu em 30 segundos cerca de 100 mil pessoas, em Hiroshima. Ele viu com prazer e espanto o cogumelo em chamas se erguendo ao cu e, contente da misso cumprida, voltou base, sendo que, no dia seguinte, outro aviozinho matou mais 100 mil e transformou tambm Nagasaki num deserto de metal derretido. Nunca esqueceremos o Holocausto que matou milhes de judeus, mas fugiu-nos da lembrana Hiroshima e Nagasaki, com seus fulminantes tornados de fogo. Por qu? - se a extino em massa dos japoneses to apavorante quanto os fornos alemes, pois fez em um minuto o trabalho de anos dos nazistas? O que mais me choca na bomba de Hiroshima a rapidez anglo-saxnica do feito, a eficincia tecnolgica, sem trens de gado humano, sem prisioneiros magros sofrendo, sem a linearidade suja dos nazistas, sem pilhas de cadveres capazes de nausear at o Himmler. A bomba americana foi um "feito tecnolgico", uma "vitria" da cincia, o fruto sujo de Einstein. Hiroshima foi o incio da ps-modernidade tcnica, guerra limpinha, do alto, prefigurando a Guerra do Golfo. Os nazistas eram loucos, matavam em nome de um ideal psictico e "esttico" de "reformar" a humanidade para o milnio ariano. A bomba americana foi lanada em nome da "Razo". Foi uma bomba de "democratas"do bem, raspando da face da Terra os ltimos "japorongas", seres oblquos que, como dizia Trumam em seu dirio secreto: "So animais cruis, obstinados, traidores, fanticos." Eram considerados inferiores seres de olhinho puxado, que podiam ser fritos como "shitakes" na frigideira. O Holocausto judeu nos horroriza pelo dia-a-dia burocrtico do crime, pelo seu cotidiano "normal", com burocratas contabilizando pacientemente quantos culos sobraram nas cmaras de gs, quantos dentes de ouro... A bomba A foi rpida e eficiente como uma nova forma de detergente, um potente "mata-baratas". Ainda hoje fascinante ler a racionalizao dos americanos para justificar a morte de dois "Maracans" cheios, como se desinfetassem um shopping center. A bomba de Hiroshima explodiu diante da humanidade j anestesiada pela banalizao de 20 milhes de mortes na 2. Guerra e pelo massacre dos judeus - foi o coroamento pavoroso das trincheiras da 1. Guerra. A bomba explode quase como um alvio, como escreveu Truman:"Eu queria nossos garotos de volta ("our kids") e ordenei o ataque para acelerar essa volta." Outra "razo" era que Hitler estaria prximo de conseguir uma bomba A, argumentaram generais falces e cientistas, como Einstein (antes, para Roosevelt) e Oppenheimer. A destruio de Hiroshima e Nagasaki no era "necessria". O mundo no estava em perigo diante da invaso de ETs, como era a opinio dos milicos sobre os "japs"; o Japo estava de joelhos, se rendendo, querendo apenas preservar o imperador Hiroito e a monarquia instituda. A "razo"real era que o presidente e os "falces" queriam testar o brinquedo novo. Truman escreve em seu dirio, depois do primeiro teste da Bomba, como um garoto entusiasmado com um "Lego": " incrvel! o mais destruidor aparelho j construdo pelo homem! No teste, fez uma torre de ao de 60 metros virar um sorvete quente!" A outra grande "razo"americana para o ataque era a vingana. Os USA tinham de vingar Pearl Harbour. As duas bombas caram "de surpresa", exatamente como fora o ataque japones, anos antes. Alm disso, queriam intimidar a Unio Sovitica e Stalin, pois a guerra fria j assomava no horizonte. E, por fim, queriam dar tambm um show de som e luz para o mundo todo, uma superproduo a cores que enfeitasse a marcha do imprio. Assim como os nazistas elaboraram uma "normalidade" burocrtica para a "soluo final", os americanos criaram uma lgica "cientfica" para seu crime. Por isso, Hiroshima no sujou o nome da Amrica tanto quanto o Holocausto manchou para sempre o nome dos alemes. At hoje, quando se fala em alemo, pensa-se em Hitler, enquanto Hiroshima quase soa como uma catstrofe "natural", inevitvel, um brutal remdio no calor da guerra. O crime dos alemes justificou e absolveu o crime americano. E como os americanos saram limpos dessa? Creio que, naquele momento infame do Ocidente, no havia conceitos disponveis para condenar esse crime; o mundo pensante estava todo dentro de um grande lixo, numa vala comum de detritos humanistas. A poca estava morta para as palavras, no havia mais sentido diante dos fatos. S restou, na Europa, o desalento, a literatura do absurdo, o existencialismo, o suicdio filosfico, o niilismo em meio s runas. Enquanto, na Amrica, longe de tudo, da sia e da Europa, s aconteceu a euforia do papel picado caindo na 5. Avenida, sobre os heris da "vitria" da democracia. Era o incio de uma era de prosperidade e esperana, dos musicais de Hollywood, pois o "eixo do mal" estava vencido e derretido. Alegria que durou at 1949, quando os comunas explodiram a bomba H, quando comeou a guerra fria.

79. ARNALDO JABOR. O SAPO ENTRA SOZINHO NA BOCA DA COBRA. O Congresso americano acaba de aprovar o "fast track" para o Bush poder negociar com "independncia" as regras da Alca. No entanto, no texto da TPA (o nome desta autorizao) esto mantidos no texto mecanismos que permitem ao Congresso monitorar negociaes para produtos considerados sensveis, que so justamente os que mais interessam ao Brasil. Por isso, me pergunto: por que o Brasil tem de continuar aceitando a inevitabilidade da Alca? Claro... bem sei das injunes polticas e econmicas de um pas que tem de negociar com o FMI e o Tesouro americano, sei de nossas fragilidades do momento, de nossa dependncia de suas polticas imperiais e do medo por sanes no-explcitas que eles podem nos aplicar. Mas, isso no pode justificar a poltica do "sapinho e da cobra", como escrevi num artigo de um ano atrs:"A sensao que tenho a estria do sapo e da cobra. J viram como se alimentam as jibias e jararacas? Joga-se um sapinho na jaula. O bichinho pula de pnico pra todo lado e a cobra fica imvel, olhando. Ele pula daqui, pula pra l e acaba hipnotizado, seduzido, entrando obediente na boca aberta da serpente. Tenho pavor de que isso nos acontea." Acho que um "choque de capitalismo" pode nos arrancar do atraso, sim, acho que a "instantaneidade" do mundo de hoje podem fazer algum bem ao caos paraltico do Brasil patrimonialista. Mas, entre remdio e veneno h quase nada. A verdade bvia, solar, que o plano da Alca traz embutido o nosso destino - feito por eles. Isto o fato histrico mais grave, mais assustador para nosso futuro. Por isso, cito aqui tambm um artigo antigo do embaixador Rubens ??Ricupero, onde ele diz: " preciso vigilncia reforada na negociao de normas gerais de comrcio, se queremos no futuro evitar sofrimentos como este que amargamos no momento. E jamais aceitar de novo sob qualquer pretexto delegar a organizaes de que no fazemos parte a tarefa de definir para ns as regras que devemos seguir. (...) Com os subsdios proibidos hoje pela OMC, nem o Delfim Neto poderia ter estimulado a exportao de manufaturados ou, se JK ressuscitasse, no poderia mais implantar a indstria automobilstica..." E repito um trecho de entrevista de outro embaixador corajoso, Samuel Pinheiro Guimares, que o Itamaraty encostou por "inconvenincia": "Com a Alca, os Estados Unidos realizariam seu desgnio histrico de incorporao subordinada da Amrica Latina a seu territrio econmico e sua rea de influncia poltico-militar.(...) No h, na poltica e no direito internacional, nenhum processo de negociao, em nenhum foro, em nenhuma regio, em nenhuma organizao, que tenha de ser aceito passiva e de forma submissa pela sociedade como irreversvel." Quando falo da "cobra e do sapinho", porque me assusta a fragilidade tradicional dos brasileiros em negociaes com os gringos, com sua tradio francesa de punhos de renda, sem a objtividade rude dos americanos quando querem conseguir uma concesso de algum emergente. H algum tempo o diretor da CIA declarou que a agncia existe hoje para fazer espionagem industrial e comercial. A meta atual dos Estados Unidos fazer do Ocidente uma grande economia sem fronteiras, com exceco das fronteiras deles, claro. Para ns, a diplomacia a arte do meneio; para eles, uma linha reta, bruta, mercantil. Americano trabalha com a poltica do "bode na sala", como me disse o embaixador Pinheiro Guimares. Eles colocam uma exigncia absurda, lutam por ela, e quando recuam, apenas chegaram aonde queriam desde o incio. Exemplo? Fingiram forar a Alca para 2002 e acabaram "concordando" com a Alca em 2005, onde sempre esteve. Ns achamos que foi uma "conquista". o "bode na sala". Quando tiram o bode, o alvio parece uma vitria. Por essas e outras, corremos o grave risco da "sndrome do sapinho", de morrer seduzidos pela boca da cobra, at vagamente honrados com a devorao. Para os americanos, protestantes, amantes do lucro e da riqueza, a vitria orgulho. Para ns, a vitria traz culpa, medo. Eles amam o sucesso. Ns, catlicos e ibricos educados para a obedincia e dependncia ao Rei, cultivamos o fracasso. Os americanos inventaram o mito do pan-americanismo, da "boa vizinhana", de que estamos "no mesmo barco" do Ocidente, mas na verdade tm um grande desprezo por ns. Ocultam isso e sabem, como ningum, cooptar nossas elites deslumbradas, tanto as comerciais como as intelectuais. Americano considera o comrcio uma atividade militar. Na crise asitica, quando o Japo imaginou criar uma espcie de FMI regional, Robert Rubin e Larry Summers voaram correndo num jato militar para impedir esse ganho de poder para os japorongas. Eles trabalham como um time, e tm a coalizo de formigas. Para eles, o detalhe to importante quanto o todo. Mas, para ns, dividem as questes com grande formalismo jurdico, dividem sempre, para provocar disperso. Ex.: "Abram o mercado", eles dizem. "S se vocs acabarem com sobretaxas", dizemos. "Ah... uma coisa no tem nada a ver com a outra", retrucam... Dividem os temas para nos dividir. So craques. Como j escrevi: "Para negociar com os americanos, precisamos urgentemente aprender a negociar como os americanos." Nosso destino est em jogo. Podemos morrer na praia do sculo 21. E se me repito hoje, citando-me, porque ningum mudou. Nem eu (quem sou eu, pobre de mim?...) nem os USA nem o Brasil, que pode agir como o sapinho entrando na boca da cobra.

80. ARNALDO JABOR. O CRIME CRESCENTE UM FRUTO DO PROGRESSO. Afinal de contas, o que est acontecendo? Parece que tudo se move a direo do abismo. De repente, a morna vida brasileira comea a correr em alta velocidade, como um grande ventilador de excrementos. O Brasil assim: ou nada acontece ou tudo acontece. E diante da angstia do incontrolvel, corremos em busca de "sentido". A mdia congrega e acentua nosso pnico, na esperana de uma explicao, nem que seja do apocalipse. A, sentimo-nos dentro de uma conspirao de demnios: dengue, seqestros, assassinatos, escndalos, tudo se soma num grande esqueleto estruturado para nos apavorar. A conscincia anda mais devagar que as coisas. Nosso entendimento vem sempre depois, quando j tarde demais. impossvel entender o que est rolando no Brasil, se nos aferrarmos a pontos de vistas imutveis. Os fatos esto alm das interpretaes. H algo em comum entre a globalizao desumana e a violncia catica: ningum sabe o que fazer. Mudou tudo no Pas. Foram se acumulando dcadas de desleixo e preguia, pequenos crimes, pequenas loucuras administrativas, pequenos movimentos ssmicos e, de repente, o que era uma realidade vira outra. As quantidades viraram qualidade. Para pior. Houve no Brasil um "salto qualitativo" para baixo na defesa pblica. O crime crescente no fruto da misria; fruto do progresso. Do progresso tecnolgico e empresarial de um pas torto. O trfico de cocana uma megaempresa e o contrabando de armas e os seqestros so derivados dos bilhes de dlares que giram sob a lama das favelas. O trfico capitalizou a misria. Antigamente, havia trs ou quatro marginais romnticos: Z da Ilha, Cara-de-Cavalo, Mineirinho. Hoje, populaes inteiras vivem custa do nico emprego que pintou nas periferias: droga. Antes, havia corrupes de ninharias; hoje, que policiais ganhando merrecas agentam ver passar intocados quilos dourados de p? Que adianta prender ps-de-chinelo? H que atacar os Conselhos de Administrao globalizados da cocana. Eles jantam nos Jardins. No temos conceitos adequados para o pas que explode nossa frente, estamos desamparados com nossas velhas palavras, velhas idias, velhas leis. Enquanto o ritmo do crime, da misria, da loucura voam com imensa liberdade, ns nos arrastamos no passo preguioso dos polticos burgueses. O Executivo e o Congresso so incapazes da emergncia. Resolveram analisar os 200 projetos contra o crime s a partir de abril. O ritmo do Judicirio tambm feito pela protelao, pelo arreglo, sem instncias terminativas, libertando assassinos e ladres, atrasando mais ainda, do alto de seus palcios de mrmore, as polcias sem armas e sem dinheiro. A primeira vontade diante do imprevisto correr para trs, em busca de antigas certezas. Infelizmente, no h nada de til nos velhos bas. No h mais caminho racional em uma sociedade de mil camadas, de labirintos dentro de labirintos, se anulando, se bifurcando. A realidade brasileira (e os discursos sobre ela) se parece cada vez mais com as vielas das periferias. A favela com seus becos, buracos, armadilhas, socaves e desvos a cara da vida nacional. Os criminosos pensam e vivem assim: pela linguagem dos labirintos, das "quebradas", sem nenhuma esperana de soluo, de futuro. E ns, os "limpinhos", diante desse quebra-cabea, esperamos "solues" lineares. Que "soluo"? No h mais soluo. Chorem, esperanosos iluministas, chorem donas de casa sonhando com o aniversrio de casamento, chore neoliberal acreditando na "mo" do mercado, uivem comunas empedernidos que acreditam em planejamento cnetral, berrem romnticos clamando por uma era de grandezas, danem-se filsofos embrenhados em tautologias e ressentimentos. Ainda olhamos o presente atravs de um espelho retrovisor. Temos de esquecer a velha idia do "conjunto", acabou a utopia de um mundo coerente. Temos de criar uma poltica em leque, em "rizomas", em muitas frentes, e os instrumentos so muito mais a imaginao, a inveno. No h mais unidade a ser "re-feita" (se que j existiu...); s h "unidades", mdulos, favos de fel, ilhas do mal, buracos quentes, becos escuros, como nas favelas. A maneira de combater a violncia, a corrupo policial, armas, todas essas "novidades" do crime global no ser por grandes discursos nem por gestos totalizantes. Ao contrrio, temos de quebrar correntes sucessivas, linhas contnuas, sucessividades. Temos de "quebrar" e no de "re-cobrar", salvar, recolar. Nunca vai-se restaurar o velho sonho de harmonia de classe mdia. Temos de quebrar os cintures de misria nas periferias pela invaso de ncleos de emprego e batalhes de saneamento e educao, invadir as periferias com bilhes de dlares subtrados do FMI para criar ilhas de indstrias, de cooperativas, de centros de produo. isso: custa bilhes de dlares sim - e da? Bem menos que o roubo dos bancos. No adianta mais a racionalidade sobre o bvio. Chega, basta de diagnsticos perfeitos que no levam a nada. Todo mundo sabe da doena. Faltam os remdios. Temos de trabalhar com erros e tentativas, com riscos ideolgicos, com imaginao, com alianas esprias, at com mentiras estratgicas. Temos de derrubar nossos parnasos, esquecer ideologismos que consolam e levam preguia com boa conscincia e ao nada. A eficincia e o pragmatismo dos criminosos nos ensinam o ritmo da ao. Se bobearmos, viramos Colmbia.

81. ARNALDO JABOR. TODOS NS QUEREMOS SER CANIBAIS. Eu ia escrever uma artigo sobre o atual canibalismo poltico no Brasil, sobre o campeonato de denncias para saber quem mais ladro, ao som de procuradores sapateando em fitas como bailarinas espanholas mas... cansei e resolvi ir real thing e escrever sobre o canibal Hannibal, criao luminosa do Anthony Hopkins, agora no filme de Ridley Scott. O filme ruim, mas bom de ver, se que me entendem. Hoje, s me interessam as informaes "filmolgicas" das fitas; qualidade, se houver, um brinde casual. Por "filmologia" refiro-me disciplina dos anos 60, criada pela turminha do Gilbert Cohen-Sat (quem ainda se lembra?), de modo a entender tendncias sociais que o cinema revela. O que me interessa nesse filme a extraordinria personagem do canibal dr. Hannibal Lecter. Ele uma rica metfora da gelada tica que se instala no mundo. Hopkins criou uma figura que nos fascina como poucas no imaginrio desta fronteira de milnios. Hannibal um achado e a razo de seu sucesso no somente a qualidade do ator. Os oscars recebidos, o estouro de bilheteria mostram que Hopkins acertou na mosca, trouxe luz algum desejo difuso no ar do tempo. Hannibal inteligentssimo, amante do belo, com uma extrema elegncia culta. E o grande achado que a pessoa mais civilizada do mundo tambm um canibal. Ningum comete crimes com mais finesse que ele. Hannibal busca quase uma forma de arte, praticada com inveno e maestria na devorao e no assassinato. H em Hannibal um eco da perverso iluminista de Sade, com a preciso dos cortes, a geometria da crueldade, o rigor esttico do mal. H, como em Sade, o desejo de refutar a moralidade de um "antigo regime", de ir alm do permitido, de provar a mediocridade da piedade, da hipocrisia do bem. H quase uma "bondade" na crueldade de Hannibal. Hopkins (alcolatra e famoso perverso ingls) criou uma personagem exemplar e contempornea. Diante de Hannibal, todos nos sentimos meio babacas, antigos, caretas. Na literatura do horror, Hannibal um marco novo; vai alm dos vampiros e "drculas", figuras ilustres do romantismo. O vampiro era uma homenagem ao amor sublime, a uma sexualidade idealizada e agnica, quando os escravos da paixo ansiavam pelo xtase da dentada no pescoo. Com Hannibal no h a nostalgia triste dos vampiros. Ele um "reformador de costumes". Hannibal quer exterminar os medocres e, espantosamente, sonha com um mundo belo. Ele despreza suas vtimas e o nico perigo que corre o de se apaixonar pela policial Clarice Starling, ex-Jodie Foster e atual Julienne Moore. A cndida policial o emociona e Hannibal v em Clarice uma beleza que desejaria para o mundo todo. "No te devoro porque o mundo fica mais bonito com voc...", diz ele no "O silncio dos inocentes". Hannibal ps-moderno (arrghh!...). Ele nos acena com um delicioso futuro primitivo, com uma volta animalidade perdida, depois de tantos sculos de cincia. como se ele dissesse: "Nenhum saber, nenhuma tica, nenhuma religio vai apagar o animal feroz que h em ns. A humanidade um caso perdido e eu sou a prova disso..." Cada vez somos mais como ele, no darwinismo social que se instala. J somos mais sozinhos, mais avessos compaixo, mais frios. Para sobreviver, precisamos "no ver" o sofrimento dos outros, a injustia e a desigualdade. Queremos ser tocados pela graa da impiedade. Da, o fascnio do assassino. Nada mais atraente que a psicopatia elegante. Todos queremos ser como Hannibal. Alm disso, Hannibal nos d a rara oportunidade de, no escurinho do cinema, torcer pela vitria do perverso, pelo triunfo do mal. Isso nos excita como a mais louca liberdade. A vitria do crime liberta secretamente nosso canibalismo secreto de milnios. Schwarzenegger, Van Damme, Mel Gibson estariam lutando "pelo Bem", pela sociedade civil. A violncia nesses filmes hipcrita, exibida como chamariz comercial, mas dissimulada pela boa ao dos heris da lei. O sangue, as exploses de corpos so mostrados como os "horrores do mal" e assim faturam bilhes, pagos por nosso sadismo enrustido. Com Hannibal, podemos nos repastar na perverso, sem barretadas ao bem, feito sexo sem pecado... Na realidade, Hannibal um cone da guerra narcsica do mundo atual. Estamos cada vez mais sozinhos como Hannibal. O canibalismo social est por baixo de nossos desejos. Queremos amar sozinhos, vencer sozinhos, devorar o mundo como devoramos sushis em balces yuppies, queremos nos apropriar da vida ferozmente, sem competidores. Em "American Psicho", o criminoso uma anomalia. Hannibal sofisticado e invejvel em sua inteligentssima frieza. Quando falamos em "comer" mulheres ou homens, sonhamos com uma sexualidade canibal livre dos problemas do amor. Acabamos de ver as escolas de samba, com mulheres se oferecendo completamente nuas e um grande supermercado de corpos, como pedaos de comida em prateleiras. H dez anos, na estria do "O silncio dos inocentes", escrevi o seguinte: "Os crimes frios so o prenncio dos futuros extermnios de massa. Como ficou arcaica a compaixo, queremos ser tocados pela graa da frieza. (...) O que nos fascina na personagem de Hopkins que ela parece estar mais alm de uma moral antiga e que ela contempla, do outro lado do Bem, uma nova realidade. Hannibal parece saber mais do que ns, que ainda vivemos mergulhados em dvidas morais e culpas. O canibal e doutor Hannibal Lecter nos olha do futuro.

82. ARNALDO JABOR. REALITY SHOWS MATAM FOME DE VERDADE. Ah... ? Querem show de realidade, reality show? Pois aqui vai um artigo-realidade, com todas as suas dvidas, informe rascunho, sujo texto, tudo que me passar pela cabea enquanto escrevo. Ser a verdade de minha mentira ou a mentira de minha verdade? Besteira, deixa de filosofias baratas... Deixa eu ver... Nelson Rodrigues dizia que a novela era importante para satisfazer nossa fome de mentiras. O show de realidade para satisfazer nossa fome de verdade. O Paulo Emlio, o grande crtico de cinema, dizia que vamos ao cinema como ao bordel - em busca de iluso. isso a... s que a televiso no no escurinho do cinema, que tem algo de secreto, de fuga, algo que ficou no fundo dos anos 30-40. No; a TV com luz acesa, a TV uma vitrine na tua sala, com ofertas de sabonete e de amores. TV no vende iluso; vende desejos e os desejos crescem. A fico, no cinema e na TV, no est dando conta do horror da realidade, do real-espetacular de hoje. Que filme teve mais impacto que o reality show do Osama Bin Laden no dia 11 de setembro? Nunca a fico foi to real. As notcias e a iluso se uniram em quatro avies caindo do cu americano, porque, como sabemos, a TV dividida em dois mundos: "The news is bad, the ads are good", como disse algum. (Quem? McLuhan, Daniel Bell? "As notcias so ms, os anncios so bons" - (NB: 'news' singular mesmo...) Naquele dia, o sonho explodiu. Naquele dia, descobrimos que a realidade no estava morta e que ela se movia com o timing ideal dos filmes... e tudo num curta-metragem de 20 minutos. Portanto, depois do 11 de setembro, como 'entreter', como fazer um desgraado esquecer do mundo que estoura l fora, que iluso se pode ter, quando o horror no te deixa dormir no sonho e na mentira? E no s os deliciosos horrores que te satisfazem o rancor, mas tambm que iluso te aquecer para voc esquecer o que viu na TV, a maravilha que poderia ser tua vida, quando voc apenas um excludo, sem grana para pagar um reles tnis ou uma srdida geladeira? (Misturo 'tu' com 'voc', oh... gramticos, como na vida real) Alm disso, nos dias de hoje, voc no se deixa mais enganar com musicais romnticos, voc no mais amansado por Fred Astaire e Cid Charisse danando no escuro, voc est indcil, querendo existir. A, Hollywood saca isso e resolve te dar mais "entretenimento", aumenta a dose da droga, mais na veia, mais, e porradas a granel e efeitos especiais e mais sexo, sexo, sexo... Mas, no adianta muito, porque... at onde pode ir um filme pornogrfico, at onde?At o interior do corpo, at o intestino pelo olho do nus, pelas vaginas a dentro para achar a alma? E voc tambm no tem como comer aquelas gatas de seios siliconados, musas virtuais, e tuas punhetas se encerram num triste jato de nada na mo molhada. No meu delrio terico, eu pensei: "Ahh... o reality show atende a um desejo do homem comum de ver a prpria concepo, a 'cena primria', como dizem os psicanalistas, ver pelo buraco da fechadura, edipicamente, papai e mame transando na cama sagrada do drama burgus." Mas, no. mais que isso, mermo. Isso apenas 'faz parte'. Voc quer mesmo invadir a TV como os assaltantes invadem uma casa. Voc quer ver o que acontece no mundo dos que amam, dos que consomem, dos que existem. Voc quer 'ver'; no sabe bem o qu ainda, mas quer ver o que te escondem, ver algo que te negado. Voc quer estar onde tem tudo: iogurte, carro do ano, Jade, cerveja com mulher boa, carros sport, luxo no shopping virtual da tela, voc quer morar l dentro como uma rosa prpura do Cairo." Mas, a, voc bateu na tela de vidro e no entrou, na emissora o porteiro te barrou, e voc viu que teu sonho era impossvel. Foi ento que as televises do mundo perceberam tua desesperada vontade de existir e te disseram: "Voc pode entrar se for selecionado e sair daqui com corpo e alma, com identidade, voc pode nascer como o Bam Bam nasceu para a vida!"O reality show o quebra-galho do sonho do socialismo que morreu, onde todos seramos multides cantantes. O reality show democracia de massas cobrando ingresso. Mas, a, nova surpresa. O SBT quis mostrar a verdade cotidiana de gente famosa, de personagens 'de fico' da mdia. Enquanto isso, a Globo mostrou a aura que pode aflorar de annimas e banalssimas pessoas. E o ibope subiu ao avesso. Descobriu-se que voc no quer ver famosos e gostosas, como a Tiazinha e a Feiticeira revelando aos poucos sua 'verdadeira' face ou mesmo sua verdadeira bunda. Voc no quer ver a Tiazinha lavando roupa e a Feiticeira varrendo a casa. No. Voc quis ver os annimos florindo e brilhando. Voc quis ver uma beleza que vai aparecendo na convivncia de gente boba como voc, gente que chora sem motivo, gente que fala com boneco, gente que vomita. Mais do que ver 'sacanagem' ou 'cena primria', voc descobre (e as TVs tambm) que quer ver o vazio, o nada do cotidiano, descobre que quer o alvio da informao e o vazio da verdade. A verdade vazia, no-transcendental, a verdade est na pausa, no tdio, na falta de assunto, voc quer o alvio do nada. O sucesso do Big Brother esteve na verdade que se infiltrou quando nada acontecia, entre os momentos em que mentirosamente eles fingiam sofrer ou amar. O sucesso se deveu ao nada, ao tempo morto. Ali, no irrelevante, arde uma verdade profunda, sem nome, sem efeitos. Naqueles instantes, nasce alguma coisa que se parece com tua vida. Voc quer ver o que acontece quando nada acontece. Na verdade, voc quer ver quem voc. Qual ser tua prxima fome?

83. ARNALDO JABOR. MULHERES PENSAM E FALAM COM O CORPO. Afinal de contas, o que quer a mulher? - perguntou o Freud, segurando seu charuto flico. Bem, a mulher no quer nada porque ela no existe, respondeu o Lacan. Tem razo - existem as mulheres, com data, geopoltica, classe social. E aqui na TV, janela virtual do Brasil, surgiram agora quatro mulheres falando do que "querem" na televiso. Elas esto no canal GNT, no programa Saia Justa: Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth e Monica Waldvogel. O programa est batendo todos os recordes da TV a cabo, comemoram Letcia Muhana, diretora da GNT, e Suzana Villas Boas, produtora-executiva do show das quatro meninas que, alis, ao vivo, quase um reality show. As razes do sucesso total? Acho que sei. O mundo masculino est cansando as pessoas; no toa que Roseana bateu alto nas pesquisas, que Rita Camata chamada para vice, que Marina Silva, a corajosa e sensual seringueira, pode vir a ser vice de Lula. Ningum agenta mais aqueles sujeitos de terno, com seus bigodes e gravatas, decidindo os destinos mais finos da nao. A viso da mulher poder ser mais democrtica, mais tolerante, mais sutil nesta poca to dura de transio para uma democracia social - se que ela vir... O que h de novo no Saia Justa que, normalmente, se convocam as mulheres para mostrar que esto "integradas"no mundo atual. Nesse programa, ao contrrio, as mulheres esto "estranhando" o mundo. Essa a diferena. As mulheres se integram no mercado, muitas imitam perfeio os homens no trabalho, com seus tailleurs e invisveis bigodes, mas em geral so vistas com uma curiosidade desdenhosa pelos machos oficiais da mdia. Saia Justa um territrio livre. Rita Lee aquele luxo. Faz um low profile defensivo, mas ns sabemos que So Paulo no seria a mesma cidade se ela no existisse. Sob a capa de roqueira, ela uma mulher poltica, faz uma anlise cultural do Pas, desde os Mutantes. A escritora Fernanda Young a ps-modernidade se expressando, uma mistura de me punk com intelectual pop, ostentando uma autopardia na cara da gente, como arma crtica. Marisa Orth, a anti-Magda, inteligentssima, destri a caretice e a peruce, tanto como atriz quanto como personagem, e Monica Waldvogel, sensata e doce, com o crivo da razo jornalstica, faz o copidesque que orquestra um sentido para as idias que explodem no belo cenrio de Carla Caff, sob a luz de cinema de Rodolfo Sanchez. Em Saia Justa, as mulheres pensam com o corpo;suas reflexes so sempre repassadas de uma subjetividade emocionada de onde sai um pensamento no-flico, no definitivo. Novalis escreveu que "a mulher o ponto de transio do corpo para a alma". Nessa impreciso est a sua riqueza, principalmente nestes tempos submissos a um "pensamento nico". s vezes, escrevo sobre as mulheres no Brasil de hoje. Mas sou um pobre macho perplexo. Por isso, aqui vo algumas perguntas s meninas do Saia Justa: Vocs no acham que as brasileiras comuns desconhecem a liberdade sonhada pelas feministas? O que vemos aqui uma libertao da "mulher-objeto". Elas no esto virando "sujeitos" livres, mas querem ser mercadorias sedutoras, como um BMW, uma Ninja Kawasaki... O "objeto" feliz, no sofre. As mulheres querem a felicidade das coisas. Querem ser disputadas, consumidas, como um bom eletrodomstico. Verdade ou mentira? A gente viaja pelo mundo e v que as europias ou americanas no ficam apregoando uma sexualidade berrante pelas ruas. Por que as brasileiras se exibem tanto como gostosas, peitos de silicone, coxas lipoaspiradas, bunda soerguida, vagina indomvel, sorriso largo e debochado? Ser isso prova de liberdade ou de fragilidade? Elas tm de oferecer sua carne nua o tempo todo porque so inseguras? Elas no prometem carinho; prometem "funcionamento". No por acaso que so chamadas de "avio" ou de "mquina"... As mulheres brasileiras so amigas ou inimigas dos homens? Por serem oprimidas, vlido que a brasileira use uma estratgia de controle sobre os machos, a seduo pela histeria, pela fragilidade fingida, pela dissimulao da competncia? Pode a brasileira "viver sem mentir"? O que a perua? A perua seria uma conseqncia disso? Quais as categorias de peruas? A perua malvada o "outro" do macho?... E a bunda? No merece uma reflexo? As bundas esto virando uma utopia. No h mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram to nuas no Brasil... J mostraram o corpo todo, as vaginas, o interior delas... S restar, um dia, os intestinos... O que mais? A revoluo feminista no Brasil ser apenas esse strip-tease geral, essa dana da garrafa? O sexo total que nossas gostosas prometem impossvel. Os peitos de silicone esto cada vez maiores, esto virando depsitos de leite venenoso. A libertao da mulher no Brasil de hoje uma vingana conservadora? Sim ou no? Ou "sei l"? Ou no nada disso e minhas crticas no passam do medo de um machista metido a fino? Ser que toda essa loucura feminina, essas capas de revista, essas roupas de mau gosto em coquetis e Caras, esses falsos brilhantes, essas gargantilhas com nome de marido, essas "ladies"querendo ser prostitutas e vice-versa, essas multides de meninas lindas querendo se salvar pela passarela ou bordel, ser que tudo isso, no fim das contas, no vai adoar uma ordem excludente e discriminatria de sculos, por uma doce miscigenao de costumes e loucuras? Ser que isso tudo no bom? Talvez esteja surgindo no Pas, com vices e danas do ventre, uma nova poltica atravs de olhos femininos. Os homens tm destroado tudo. S as mulheres podem nos responder. E salvar. Talvez.

84. ARNALDO JABOR. ENTRE O CELIBATO E O CASAMENTO, O CORAO BALANA. Outro dia, d. Paulo Evaristo Arns declarou-se a favor do celibato opcional para os padres. Mas, seria difcil a vida de um padre casado. Alm de servir a Deus, ter de cuidar do lar. Imaginemos um padre casado. - Chegou tarde hoje, hein! - disse d. Silvaneide, mulher do padre, morena, seios fartos, fogosa, ex-danarina de pagode, depois arrependida, depois beata, acendedora de velas do altar e amante do proco, hoje casada com ele. - Meu anjo... esta poca de Natal difcil... mais de 30 confisses... - Confisso, o cacete!... Voc fica ouvindo aquelas sacanagens ali no confessionrio e depois vai se encostar naquela filhinha de Maria que ajuda na sacristia... a tal de Abigail, com aquela carinha de sonsa, beijando sua mo... No sou cega no, meu filho... - Estava trabalhando por dinheiro... mulher... j entrei no cheque especial... o bispo me prometeu um extra por confisses em cascata... incrvel... os pecados esto mudando... o que tem de corrupo, de cheques sem fundo... No h mais pureza ou arrependimento... s sexo sem culpa... - a que voc gosta, no ?... Se excita mais com a "santinha" da sacristia... - Meu bem, nem tenho foras... s penso em voc... e nas contas a pagar... - (Chorando) Voc no me ama mais... (ela se ajoelha, lgrimas jorram). - Meu amor... nada disso... olha... vamos sair... se eu tivesse dinheiro te levava ao Crazy Love, aquele motel novo... mas... olha, vou mostrar que te adoro, agora!... Vai pro quarto! Prepara-te para receber o sagrado sacramento do matrimnio!... - (Debochada) Que milagre esse? A gente no transa desde a Pscoa... Agora no quero. Nosso problema dinheiro... Voc podia pegar umas esmolas daquele cofrinho; o sacristo no fazia isso? - Eu sou um servo de Deus! Quer que eu seja ladro? Acordo s 5 da manh... s 6 j estou rezando missa. A igreja est quebrada; com a crise, ningum d mais esmola... Eu tenho de varrer a sacristia... Vou comprar as flores mais baratas l no Jacarezinho, de nibus, para enfeitar os casamentos e batizados, que so as nicas graninhas que eu descolo... e ainda tenho de ouvir os xingamentos do bispo, que est com mal de Alzheimer e pensa que eu sou o Sat... Vive me exorcizando...Voc pensa que fcil? Pensa? Me d at vontade de voltar ao celibato, ficar trancado na clausura, vendo a Xuxa na TV e chorando pra Jesus... melhor... Olha, Silvaneide, eu me orgulho de ser honesto!... - Voc no honesto, no... Voc burro. Vamos acabar na rua da amargura... No estamos mais na poca de So Francisco no... mercado global, meu filho... Era do espetculo... - Por que os evanglicos esto com esse sucesso todo?... Porque so espertos... descolam aqueles 10 por cento ali dos otrios... numa boa... cantam... danam... Show business! - Ontem mesmo, teu filho falou que... - alis, ele anda com uns caras estranhos, cabea rapada, tatuagem... - ele diz que "anjo do inferno"... Sei l o que ... Mas ele disse assim, na minha cara:"Papai otrio... Veja o bispo Macedo... tem TV... milhes... tudo... Eu vou entrar para a igreja evanglica... D um grano...!" A nica pessoa que tem dinheiro aqui a tua filha... que, alis, vive em baile funk... diz que popozuda... no sei onde ela arranja tanta grana... (O padre cai chorando na poltrona esfarrapada com a mola aparecendo). - Deus do cu!... Isto um inferno!... (soluando) Ontem cheguei... e a empregada estava cantando uns pontos de macumba com a cozinha cheia de velas... Umbanda na casa do padre? E a vizinhana ouvindo: "Evm, evm, Oxossi atravessando as matas!" Tem cabimento? Despede ela j! - Eu? Despedir?... Nunca!... Empregada boa difcil de achar... Depois, sei l, roga a uma praga... (Ele chora mais alto; ela se condi). - Meu querido... no quero te humilhar no... mas, voc tem de ter ambio... Quer ver uma idia boa? Vamos abrir uma lojinha de objetos sacros... reliquiazinhas... gua benta... a gente compra as garrafinhas e voc benze... voc no pode benzer? Ai, que lindo... a gente ganhava um dinheiro... santinhos... gravuras... CDs de msica... - Minha filha... eu no sou comerciante... - Ahh... imagina, querido... uma lojinha linda, cheia de velinhas e, na porta, o nome: "Presentes de Deus". Ou ento... o nome em ingls, mais moderno: "God's Gifts"... ahh... Voc subiria na carreira; j imaginou voc bispo ou... oh, sonho louco!... voc, cardeal... Ns dois em Roma... Voc todo de vermelho... chiqurrimo... Ns, ntimos do papa?... - Silvaneide... ouve... ouve bem... eu tenho um segredo para te contar... Eu pensei muito, passei noites em claro e resolvi... - Resolveu o qu, vai me largar?... - No, querida, ouve! (O pobre sacerdote comea a danar, com os braos para cima e dando pulinhos pela sala). - Que isso? Enlouqueceu? - Silvaneide... minha filha... bata palmas para Jesus!!! (chorando e rindo) Palmas para o Senhor, Silvaneide... Aleluia!! Estou aprendendo a dancinha do padre Marcelo Rossi!... Olha s... (O proco-marido pulava e batia palmas, berrando) "Palmas para Jesus... ... palmas pro Senhor!" A Abigail, que voc odeia, est me ensinando... olha s... (E pulava feito uma perereca do Senhor) Palmas para Jesus!!! E, ento, d. Silvaneide, ex-pagodeira arrependida e ex-beata apaixonada, viu de novo o seu amor ali, pulando e cantando e agarrou-se feliz ao corpo do padre amado. - Meu amor!... este meu homem! Vamos vencer! J te vejo pulando diante de milhares de fiis... vou fazer uma batina dourada pra voc, com uma capa de roqueiro... Meu Rossi, meu Ozzy Osbourne, meu Xandi, meu Zeca Pagodinhho... Deus mais!!! , d. Paulo, talvez o celibato seja mesmo melhor que o casamento.

85. ARNALDO JABOR. PEDOFILIA NA IGREJA CONSEQNCIA DO CELIBATO. No velho colgio de padres onde estudei, a entrada dos alunos j era um desfile de velada pedofilia. O padre reitor - ah... tempos antigos de batinas negras, rosrios nas mos, panos roxos nos ombros, tristeza infinita nas clausuras - postava-se imvel, na porta do colgio, numa pose paternal e severa, com os braos erguidos e as mos oferecidas para os alunos que chegavam. Passavam por ele duas filas de dezenas de meninos, beijando servilmente suas mos abenoadas. Havia algo de veadagem naquilo, aquela negra batina imvel, divina, como um manequim, as mos beijadas com chilreios e devoo por mais de 500 meninos de calas curtas. Eu ainda me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe no dorso cabeludo da mo do padre. Centenas de meninos de pernas nuas eram pastoreados por tristes novios e "irmos leigos". S se pensava em sexo naquele colgio. Eu via as mes dos alunos, lindas, com seus penteados e decotes imitando a Jane Russel ou Ava Gardner, fazendo charme para os padres na fora de seus verdes anos, enlouquecidos pela castidade obrigatria. E eu me perguntava: "Meu Deus... por que padre no pode casar?" Lembro-me do tremor dos jovens padres, excitados pelas madames pintadssimas, indo se trancar em negras clausuras, entregues ao "vcio solitrio", indo depois bater no peito e chorar sua culpa diante das imagens silenciosas. E esses mesmos padres nos diziam: "Cada vez que voc se masturba, morrem milhes de pessoas que iam nascer. um genocdio!" E ns, alm do pecado, soframos a vergonha de ser pequenos "Hitlers" de banheiro. Eu pensava: "Por que tanta onda sobre nossos pobres pintinhos, por que essa energia que sinto em minha carne feia, criminosa?" Vivamos ajoelhados em confessionrios, ouvindo envergonhados a voz e o hlito do triste sacerdote nos sentenciando a dezenas de Ave-Marias e Padre-Nossos. Tudo era sexo no colgio; essa palavra terrvel estava em toda parte, como uma ameaa vermelha;o Diabo nos espreitava at detrs das estatuas de Santa Tereza em xtase, nas coxas dos anjinhos nus, nos seios fervorosos das beatas acendendo velas. A pedofilia na Igreja conseqncia direta do celibato. bvio que se a fora mxima da vida esmagada, a Igreja vira uma mquina de perverses. Claro. E de homossexualismo, visvel em qualquer internato religioso. Outro dia, o Contardo Calligaris escreveu com preciso que a pedofilia no est s na carne do jovem assediado; a pedofilia mais geral, abstrata, no prazer do domnio sobre os mais fracos, na pedagogia infantilizante das jovens "ovelhas" - como nos chamam os pastores de Deus - imoladas em sua inocncia. Eu vi o Diabo naquele colgio: rostos angustiados, berros severos e excessivos nas aulas, castigos sdicos, perseguies a uns e carinhos protetores a outros. Eu mesmo fui assediado por um padre famoso (que muitos colegas meus da poca se lembram) que era notrio comedor de menininhos; ele fazia mgicas e teatrinhos, para ser popular entre os meninos e, um dia, tentou me beijar num canto da clausura. Criado na malandragem das ruas, fugi em pnico. E falei disso em confisso com outro padre, que mudou de assunto, como se fosse uma impresso minha, como se a pedofilia fosse uma prtica necessria manuteno do celibato, exatamente como os cardeais americanos esto fazendo hoje. O problema da Igreja com o sexo leva-a a uma compreenso quebrada da vida, leva-a a aceitar a Aids, a condenar o aborto, o controle social da natalidade e a outros erros maiores - superestruturas dessa falncia originria, desse vazio fundamental. Lembro-me da descrio da eternidade no inferno, onde queimaramos para sempre, sob o garfo dos Diabos, condenados por uma reles punhetinha: "Imaginem que o planeta seja um grande diamante, o metal mais duro do universo. De cem em cem anos, um passarinho vem voando e d uma bicadinha na Terra. O dia em que toda a Terra for esfarinhada pelas bicadinhas, esse a durao da eternidade." E eu sofria, me esvaindo nos banheiros, pensando naquele passarinho que bicava o mundo, enquanto eu acariciava o outro medroso passarinho se preparando para uma vida de traumas e medos. O prazer era um crime. A partir da, tudo ficava poludo, manchado de culpa; a alegria virava falta de seriedade, a liberdade era um erro, as meninas eram seres inatingveis com seus peitinhos e bundinhas. At hoje, vivo dividido entre as santas e as "impuras"; quantas dores senti na vida pelo cultivo desses ensinamentos, que transformava as mulheres em perigos horrendos, Liliths demonacas, to ameaadoras quanto o imenso desejo que tnhamos por elas. A mulher, como Eva, era a origem de todos os males. Delas saam a vida e a morte, delas saa o prazer pecaminoso, o mal do mundo. Esta base criminal gera desde a burca at o strip-tease, numa anttese simtrica. Hoje piorou. O mundo virou uma incessante paisagem de bundas e seios nus, de pornografia na publicidade, que nos espreita no trnsito, nas ruas, na TV. J imaginaram esses padres vendo a Feiticeira e a Tiazinha, de tero na mo, trancados em escuras celas, sob o voto de castidade? Essa a minha idia de inferno. Uma das grandes desvantagens da Igreja Catlica diante de outras religies o celibato. Da, em cascata, surgem problemas que justificam a queda do prestgio da Igreja na era do espetculo e da desconstruo de certezas. Rabinos casam, pastores protestantes casam. Budistas "do it", xintostas "do it", hindus "do it", mesmo muulmanos "do it". "Let's do it", pobres padres trmulos de desejo, no meu remoto passado jesuta e no presente do sexo massificado.

86. ARNALDO JABOR. EU J FUI O INIMIGO PBLICO NMERO 1. Vocs j foram o inimigo pblico um do pas? No? Eu j fui. Em 97, meu chefe sempre presente, Evandro Carlos de Andrade, pediu-me para comentar a festa do Oscar, ao vivo. Fi-lo. E quase fui linchado, como contarei adiante. Em minha pobre vida, tive a experincia de ser cineasta. Passei anos lendo os Cahiers du Cinma e o Positif, no tempo do "cinema de autor" dos anos 60, poca em que criticvamos a linguagem careta de Hollywood e as ciladas que se escondiam por trs dela. Para ns, o cinema americano era o supremo inimigo, agente do imperialismo, correio de mensagens colonizadoras sobre nossa mente, vendedor de produtos de sua indstria, narrador superficial dos movimentos da alma, propagandista do sonho americano, sonegador da verdade da existncia pelo happy end obrigatrio, maniquesta do sim e no, do bem e do mal, do bad guy e do good guy. Passaram os anos... e eu continuo pensando a mesma coisa. Apenas relativizei o lado "maligno ideolgico" deles. O que eles sempre quiseram dinheiro, do nosso mercado interno, claro. O resto eram fantasmas da guerra fria. De modo que, quando o Evandro me chamou para comentar o Oscar, eu disse: "Vou esculhambar... hein." E ele: "Fale o que quiser."Podem perguntar a ele pelo e-mail interestelar. E l fui eu comentar o Oscar, para todo o territrio nacional. Ao vivo. Trancados numa salinha da TV Globo, amos comentando, Renato Machado, Rubens Ewald e eu. Nossos nicos espectadores visveis eram os tcnicos, os cameramen nos olhando. Comecei dizendo que achava o Robin Williams um canastro de quinta. Os tcnicos riam e faziam sinais de "positivo" com o polegar. Pensei: "Estou agradando, estou conscientizando o povo brasileiro sobre as mentiras da linguagem de Hollywood." A, fui me animando e resolvi tacar fogo na festa das estrelas. Sentia-me onipotente, desconstruindo a macia propaganda americana, vingando Glauber contra o monstro ianque. Debochado, falei que o Titanic, que estava ganhando todos os prmios, era um abacaxi, que o filme s merecia o Oscar de melhor engenharia naval, falei que o Leonardo DiCaprio era meio babaca e afrescalhado, que aquela menina do filme era gordinha e chata. Os neges da tcnica rolavam pelo cho e eu nem percebia a sombra de preocupao nos olhos de Renato Machado. E fui em frente, cada vez mais ousado. Falei que o nico filme que merecia algo era o Kundum, do Scorcese, filme chatrrimo, mas "de arte", falei que o James Cameron era ridculo quando berrou "I am the king of the world", em suma, me embalei na funo "revolucionria" de salvar a mente dos brasileiros que estavam em casa, tomando cerveja, de bermudas, com os amigos, deliciados com a festa mxima do luxo yuppie no dourado pavilho Dorothy Chandler, o Olimpo do sucesso universal invejado por todos, onde as estrelas cintilam, diante das bocas abertas de fascinados brasileiros. E critiquei tudo, o Billy Cristal, as piadas felizes de um povo rico, enquanto o Ewald me olhava com a condescendncia sombria que dedicamos a bbados arruaceiros. Acabou o programa e eu, heri, me ergui, feliz de minha tarefa "desalienante". Eu estava vingado daqueles que tomavam nosso mercado e no compravam nossos filmes. Foi quando comearam a chegar os e-mails para a Globo. O mais respeitoso comeava com "Ao canalha Jabor..." Ainda assim, me sentia um Sanso atacado por filisteus feridos de morte. "Os inteligentes me saudaro", pensei. Mas os e-mails, telefonemas, faxes aumentavam, todos numa assustadora unanimidade crtica. "Amanh serei elogiado nos jornais...", pensei, enquanto Ewald e Renato se enfiavam pelos corredores, plidos. Ainda assim, fui para casa na madrugada com a agridoce sensao de ser um polmico artista dividindo as opinies do povo. No dia seguinte, oscilavam torres de e-mails na redao, vindos do Pas inteiro, dirigidos at a famlia Marinho, todos pedindo minha cabea: "Despeam o sem-vergonha, ponham esse rato no olho da rua!""Como pode ele chamar o grande Robin Williams de canastro?" Esse era meu supremo crime. Parecia que eu tinha dito que Cristo no era filho de Deus. Eu era o inimigo do povo, de Ibsen, eu era Al Capone, o Cara de Cavalo, eu era o Collor no impeachment. Nas ruas, transido de vergonha, me esgueirava por becos e esquinas. Os mais tmidos apenas me apontavam de longe. Um sujeito grando se aproximou, me segurou pelo brao: "Cara, eu tenho cara de burro?" "No...", balbuciei. "Ento tu vai me explicar por que o Titanic uma bosta..." Descobri aterrado que o "espectador brasileiro" no existia mais. Todos eram americanos. Corro para casa e vejo no computador que tinham aberto um site chamado: "Eu odeio o Jabor." Corri a amigos meus, minhas filhas, mas percebia que, sob as palavras de consolo, rolava uma vaga hipocrisia, jazia a concordncia com a opinio geral. Eu me consolava pensando: "Essa depresso boa para diminuir meu narcisismo... Bem-feito, seu mascarado!..." At hoje, de vez em quando, algum toca nessa ferida aberta. Por isso, jamais comentarei o Oscar. Direi apenas, do fundo de minha misria, meus favoritos do Oscar. Eu vos escrevo do passado. Hoje sabado e vocs esto me lendo na terca-feira, a no futuro. Vamos ver se eu acertei. Melhor filme: Moulin Rouge, apesar do clima de clipe. Melhor ator: Sean Penn, perverso, rico, profundo. Melhor atriz: Judy Dench. Melhor diretor: David Lynch, por Muholland Drive. Ser que acertei algo? Acho difcil. Afinal, eu no passo de um invejoso cineasta comuna dos anos 60, de um pobre pas importador de imagens e exportador de ao, laranjas e sapatos sobretaxados nos Estados Unidos.

87. ARNALDO JABOR. GLAUBER: A ROCHA QUE VOA NUM LABIRINTO. H 21 anos, Glauber Rocha nos deixou, no dia 22 de agosto. Eu nunca tinha visto algum morrendo, nunca vira o momento misterioso da passagem. Em volta da cama de sua agonia, os amigos se agarravam como nufragos nas bordas de um barco que ia partir. Estvamos assustados, porque o Glauber era o pulmo por onde respirvamos, o corao que batia por ns e que agora fraquejava. Ele estava ali, ignorando-nos, concentrado no sei em que filme interior, em que roteiro para as estrelas. Parecia mesmo um astronauta, coberto de fios e tubos de respirao. Subitamente, Glauber se ergueu, como se fosse acordar, ressuscitar, como num milagre. Mas era a ltima convulso e ele se aquietou e flutuou para longe. Vocs, jovens que me lem, podem pensar: "Deixe de idealizaes com esse tal de Glauber... Afinal de contas, todo mundo morre..." Mas, no literatura; morria ali a mais rica sntese das idias de uma poca brasileira:melancolia com esperana, a romntica fome de salvar o Pas, unindo poesia e poltica. Esta semana surgem dois filmes sobre o nosso "profeta alado": o filme de Silvio Tendler, O Labirinto Glauber, e o documentrio de seu filho, Eryk, A Rocha Que Voa. Neles se v muito dessa fome de entendimento e salvao, que os garotos de hoje no tm mais, por sabedoria e... ignorncia. "O sujeito que morre fica logo desinformado...", pensei, ao sair da Clnica Bambina, quando ele morreu e eu vi que o "incessante e vasto universo" continuava mudando, ali em Botafogo, menos o Glauber, coitado. Glauber, desinformado como todo morto, no soube da democratizao de 85, no soube de Tancredo, nem de Sarney, nem de Collor, nem daquele que Glauber apelidara de "nosso Errol Flynn", FHC, "o prncipe da sociologia", com uma ponta de ironia. Glauber preferiu morrer, porque sacou que seu desejo de absoluto era impossvel. Ele percebeu que no ia suportar o mercadinho em que nos vendemos, no ia suportar a mediocridade anunciada em suas antenas de profeta. "Ahh... loucura..." - diro os analistas -, "ele tinha um narcisismo patolgico, fazia uma idealizao da revoluo..." Tudo bem... mas ele conseguiu momentos em seus filmes em que a arte parece tocar o real na tela. Em Deus e Diabo e Terra em Transe ele conseguiu explicar o Brasil. H o momento seminal de Terra em Transe, onde ele sintetiza as foras brasileiras que esto alm da mera luta de classes, as oligarquias com sua cobia e sua estupidez. Ali, no clmax da zona geral, o povo dana e canta entre ladres, pelegos , demagogos, polcia, Igreja, bacharis, prostitutas, todos num emaranhado barroco que culmina com o Jardel Filho tapando a boca de um sindicalista burro e falando para a tela:"Vocs j imaginaram o 'povo' no poder?" Foi a maior porrada na sociologia simplista dos derrotados de 64, o que lhe valeu o dio eterno daqueles que vem os pobres como uma divindade intocvel e no como destitudos e manipulados. Daquela seqncia, saram o teatro de Z Celso e o tropicalismo, se bem que Caetano j era um prenncio ps-moderno e Glauber, o ltimo dos torturados "modernistas". Naquela seqncia de Terra em Transe, estava o Pas de hoje, nessa suja orgia pr-eleitoral. Seus filmes trouxeram a idia da complexidade contra os dualismos fceis. Ele no era o guerreiro radical que pensam hoje. Ele trouxe a sobredeterminao, a dvida para as certezas fceis, o choque dos contrrios. Quem fez isso antes? Ele foi o primeiro a apontar as razes da derrota em 64, ele foi o primeiro a falar em alianas, e teve a coragem de tentar (oh, ingnuo patriota...) cooptar o poder militar para um projeto nacional. Desesperado com a burrice das esquerdas, paralisadas por dogmas, tentou o saudvel sacrilgio de imaginar uma adeso de militares para a abertura que vinha com Geisel, para alm de qualquer vitimizao rancorosa e masoquista. As patrulhas s faltaram empal-lo como 'reacionrio', 'adesista', logo ele, que buscava uma sada qualquer para a ditadura e o subdesenvolvimento. O que morreu com o Glauber? difcil explicar para os jovens do mercado. Antes, lutvamos contra uma realidade complexa (que subestimvamos), sonhando com uma soluo utpica e totalizante. Era o 'uno' contra o 'mltiplo'. Hoje, o contrrio; esboa-se entre neo-revolucionrios uma luta que diversificante, contra o totalitarismo das corporaes capitalistas. Hoje, a luta para dissolver, no para unir. Agora, os novos combatentes no sonham com o absoluto; sonham com o relativo. So defensores do vazio, da ecologia, da cultura no-descartvel, do intil, do que no 'mercvel'. Eles lutam contra inimigos sem rosto: a eficincia corporativa, a abolio do humano pela mquina (a mquina como o homem produtivo perfeito). Hoje, o inimigo principal no mais a 'burguesia' gorda e fumando charuto; o inimigo um mtodo empresarial. Antes, as esquerdas pensavam em unidade. Hoje, o capitalismo corporativo que almeja uma 'unidade'. Glauber no desejava uma revoluo simptica, para dar comidinha aos pobres. Ele queria um terremoto pico, cheio de som e fria, com exploses de tragdias e apoteoses, ele queria uma revoluo que esmagasse a mediocridade, uma celebrao do impossvel e no a prudente organizao social apenas. Hoje, o Brasil est parecidssimo com Terra em Transe. Glauber era uma espcie de Rimbaud, buscava uma felicidade social imensa, queria, como ele, "olhar o cu e ver praias infinitas cobertas de brancas naes em jbilo!". Por isso, no havia lugar para ele no mundo. O protagonista de Terra em Transe diz: "A poesia e a poltica so demais para um homem s." Mas, mesmo sabendo disso, Glauber tentou at o fim. E morreu disso.

88. ARNALDO JABOR. GOLPISTAS QUEREM PROVAR QUE DEMOCRACIA IMPOSSVEL. Diante do golpismo descarado que assola o pas, eu te digo: se o projeto de reformas administrativas e tcnicas que este governo tentou implantar no se concluir, se a sabotagem chamada "oposio" conseguir reverter a busca de um mnimo de racionalidade econmica, dentro de algum tempo, estaremos beira de uma ruptura institucional, com a destruio dos fundamentos da economia e a volta da velha zona geral brasileira. Em psicanlise, sabe-se que a dificuldade de curar um neurtico que ele "deseja" o mal que o aflige. Estamos assistindo a um caso de brutal "resistncia" ao projeto do governo FHC, que quis fazer uma revoluo possvel nas estruturas absurdas do Estado brasileiro. O dio vai mais alm de FH. Odeiam a agenda que ele pretendeu e que, talvez, morra na praia. O precrio imaginrio poltico brasileiro, a soma de seus cacoetes, iluses, preconceitos, esse imaginrio feito de restos de getulismo, de um udenismo-leninista em coalizo com o fisiologismo das oligarquias, esse ensopadinho ideolgico est deflagrado num vale-tudo contra a mudana de um pas patrimonialista em um pas mais moderno. contra isso, contra seu programa, e no apenas contra o presidente, que se insurge o golpismo atual, com a opinio pblica manipulada pelos lderes e a mdia espetaculosa. O smbolo dessa reao ACM, que chega a ter a importncia sociolgica de ser a sntese viva da resistncia patrimonialista. ACM comanda h meses (com sucesso) a transformao do pas numa "chacrinha". H meses, estamos paralisados, assistindo s diabruras desse delinquente tardio. E ele expressa com clareza o que desejam os seus seguidores: permanncia do coronelismo, provocao democracia, cooptao da ignorncia do povo contra qualquer racionalidade reformista. incrvel, mas ele disse, h pouco, literalmente: "Esperem para ver o que vou fazer com esse pas...". E, mesmo assim, visvel nas entrelinhas que vrios jornalistas tm uma fascinao secreta pelo seu autoritarismo machista. O que eu acho assustador que ningum se toca para a delicadeza do momento histrico que vivemos. Ningum pensa no fio de navalha econmica em que andamos, entre crises nossas e dos outros, como Argentina, Alca, Turquia... Falam de politica como se cuidssemos da substituio de um gabinete por outro, como se estivssemos na Sucia. O grave que os fundamentos de nossa economia que esto em jogo. A desinformao popular, alimentada pelos golpistas, acha que o problema do governo a "corrupo", existente h 400 anos e que s a democracia fez aparecer. Dizem que nosso problema "moral", tudo "culpa do FHC", esquecendo-se do Congresso, do Judicirio e das burocracias. Fazem o alarmismo de bobagens, s apontam detalhes "micro" para impedir qualquer mudana "macro". O vexame simplista da menina presidente da Ubes, mostrando a bunda (provavelmente posar para "Playboy"), emblemtica: "Mostrei a bunda para mandar o governo para o espao". A oposio est conseguindo isto: caar o FHC, concentrar tudo nele, para esconder que o alvo seu projeto. Entrementes, o cartola paulista e ex-secretrio de Justia do Qurcia (!), este Approbato da OAB, usa o protocolo para insultar um homem decente, para aparecer e tambm porque os advogados esto irritados com as MPs, pois elas prejudicam os gordos honorrios das desapropriaes contra o Tesouro. Enquanto isso, o "Jeca Tatu" fascistide Itamar avisa que vai pedir moratria de novo, para inviabilizar a economia;enquanto isso, o PT, numa "bandeira" explcita, mostra seu desejo e programa no horrendo filmete "ratos roendo o Brasil"; enquanto isso, os acadmicos ressentidos vo saindo da toca para babujar trusmos sobre "neoliberalismo e correlao de foras", e um professor como Francisco de Oliveira, de pijama em casa, acusa Jos Serra de ser ligado a "esquemas internacionais", ele, que acaba de vencer batalha na ONU sobre o poder americano dos remdios, reconhecido como vitria pelos jornais do mundo todo. E, extraordinrio: sabota-se durante anos o governo, infernizando-o com provocaes sem fim, para fazer soobrar qualquer tentativa de racionalidade e, quando o governo comea a soobrar, acusam-no de "soobrar"... Eu achava que o perodo Collor nos teria ilustrado para a necessidade de reformar estruturas que estimulam o caos, a loucura de um Estado falido e ineficiente. No. Compreendem-no apenas como uma vitoria da "moralidade". As foras da "frente nica oligarquias-ideologias" esto lutando para reconstruir o mesmo Brasil que permitiu o surgimento de Collor, que permitiu a anomia flcida com inflao de 80% ao ms do governo Sarney e, antes, o golpe de 64. Querem a volta do Brasil iludido, sem projeto, porque atraso e zona do lucros ideolgicos e fisiolgicos. E melhor para roubar o Estado e propagar utopias ridculas. H no golpismo instalado mais do que o dio a FHC. H o desejo de provar que a democracia impossvel aqui. Repito o que disse no incio: se no houver adequao do Brasil realidade econmica mundial, se a racionalidade que este governo tentou for substituda por um nacionalismo jeca ou pela burrice ideolgica das oposies sem programa, em pouco tempo teremos a quebra do pas e a volta de um autoritarismo de direita, como foi em 64. E, como ningum segura a fora da economia mundial, veremos que, fragilizados, falidos, nossa possvel adaptao crtica ao mundo globalizado ser substituda por uma dependncia imposta, uma satelitizao do pas ao capital dominante e a, sim, a veremos (oh, babacas do meu Brasil!) o que o neoliberalismo selvagem e a desconstruo de uma nao.

89. ARNALDO JABOR. O AMOR ATRAPALHA O SEXO. Sbado, fui andar na praia em busca de inspirao para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calado do Leblon. "Teu artigo sobre amor deu o maior au..." - me diz uma delas. "Aquele das mulheres raspadinhas tambm... Alis, que que voc tem contra as mulheres que 'barbeiam' as partes?" - questiona a outra. "Nada... - respondo - acho lindo, mas no consigo deixar de ver ali nas 'partes' dessas moas um bigodinho sexy... no consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney - lembram um sarneyzinho vertical nas mmodelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo..." Uma delas (solteira e lrica) me diz: "Sexo e amor so a mesma coisa..." A outra (casada e prtica) retruca: "No so a mesma coisa no...""Sim, no, sim, no" - nasceu a doce polmica ali beira-maar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo gua-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas sua opinio. Ningum sabe direito. As duas categorias se trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ningum sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais "sutis"defendem o amor, como algo "superior". Para os mais prticos, sexo a nica coisa concreta. Assim sendo, meto aqui minhas prprias colheres nesta sopa. O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo. Sexo contra a lei, no fundo de tudo. O amor depende de nosso desejo, uma construo que criamos. Sexo no depende de nosso desejo; nosso desejo que tomado por ele. Ningum se masturba por amor. Ningum sofre sem teso. O sexo um desejo de apaziguar o amor. O amor uma espcie de gratido posteriori pelos prazeres do sexo. O amor vem depois. O sexo vem antes. No amor, perdemos a cabea, deliberadamente. No sexo, a cabea nos perde. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha; s as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redeno. O sexo s pensa em proibies; no h fantasias permitidas. O amor um desejo de atingir a plenitude. Sexo o desejo de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. J o contrrio no acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos. Amor propriedade. Sexo posse. Amor a lei; sexo invaso de domiclio. Amor o sonho por um romntico latifndio; j o sexo o MST. O amor mais narcisista, mesmo quando fala em "doao". Sexo mais democrtico, mesmo vivendo no egosmo. Amor e sexo so como a palavra farmakon em grego: remdio ou veneno. Amor pode ser veneno ou remdio. Sexo tambm - tudo dependendo das posies adotadas. Amor um texto. Sexo um esporte. Amor no exige a presena do "outro"; o sexo, no mnimo, precisa de uma "mozinha". Certos amores nem precisam de parceiro; florescem at mais sozinhos, na solido e na loucura. Sexo, no - mais realista. Nesse sentido, amor uma busca de iluso. Sexo uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes uma masturbao. Sexo, no. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de ns. O sexo vem dos outros. No somos vtimas do amor; s do sexo. "O sexo uma selva de epilpticos" (Nelson Rodrigues) ou "o amor, se no for eterno, no era amor" (NR). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral tambm do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridculo, de pattico, principalmente nas grandes paixes. O sexo mais quieto, como um caubi - quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: "Faa amor, no faa a guerra." Sexo quer guerra. O dio mata o amor, mas o dio pode acender o sexo. Amor egosta; sexo altrusta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte est ali, nas bocas... O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas no se explica. O sexo sempre existiu - das cavernas do paraso at as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provenais do sculo 12 e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita crist. Amor literatura. Sexo cinema. Amor prosa; sexo poesia. Amor mulher; sexo homem - o casamento perfeito do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produo, sexo selvagem uma ameaa ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a nica maneira de control-lo program-lo, como faz a indstria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias. No h "saunas relax" para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um "amorzinho" para iniciar. O amor est virando um hors-d'oeuvre para o sexo. O problema do amor que dura muito, j o sexo dura pouco. Amor busca uma certa "grandeza". O sexo sonha com as partes baixas. O perigo do sexo que voc pode se apaixonar. O perigo do amor virar amizade. Com camisinha, h "sexo seguro", mas no h camisinha para o amor. O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor a lei. Sexo a transgresso. Amor o sonho dos solteiros. Sexo o sonho dos casados. A (O) amante sacia nossa fome de verdade, mata nossa nostalgia da animalidade. Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor s se sente no cime (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor de direita. Sexo de esquerda (ou no, dependendo do momento poltico. Atualmente, sexo de direita. Nos anos 60, era o contrrio. Sexo era revolucionrio e o amor era careta). E, por a, vamos. Sexo e amor tentam mesmo nos afastar da morte. Ou no; sei l... e-mails de quem souber para a redao.

90. ARNALDO JABOR. OS CANIBAIS QUEREM SER RICOS E COMER BEM. No agentei e fui ver o filme Drago Vermelho, com o meu querido canibal Anthony Hopkins. O filme ruim, claro, bem pior que o timo Silncio dos Inocentes. Mas o Hannibal Lecter um ponto luminoso da moderna galeria de personagens; no s pela idia de um canibal civilizado mas com o valor agregado pela personalidade de Hopkins, que conhece a milimtrica arte de parodiar a sofisticada frieza dos atores ingleses, da sinistra gentileza, do inquietante aristocratismo do mal. Fui ver o filme tambm porque sinto no ar uma moda de psicopatia, na onda de criminosos que est rolando no Brasil. E no falo dos crimes sujos, "explicados" pela misria e ignorncia; falo dos crimes "limpos", como os de Suzane e de Vilma ou dos rapazes que alegremente assassinaram o garom ou dos outros que mataram o patax, ou dos cruis Avelinos ou de tantos outros. O que nos fascina no Hannibal o que nos exaspera em Suzane ou na Vilma do Pedrinho. Nos dois casos, o crime praticado sem resqucios de sentimento de culpa, planejado com carinho e no conseguimos entender como agiram sem sofrer. Suzane no est chorando pela me e pai; est chorando por si mesma, chorando pela vida infernal que ter. Vilma, pelo que mostra a polcia, organizou uma famlia como se fosse ao supermercado, pegando bebs na prateleira, para conquistar um marido. Todos no hesitam em matar ou roubar para viver bem, conquistar filhos, maridos ou heranas. Os canibais querem viver bem. No Brasil, os psicopatas esto na moda, est na moda a glida contemplao da morte, ignorando-se totalmente a existncia do "outro". Por isso, Hannibal Lecter uma rica metfora da tica fria que se instala no mundo. Hopkins criou uma figura que nos fascina como poucas no imaginrio neste sculo 21 que alvorece. Hannibal inteligentssimo, ningum comete crimes com mais finesse que ele. Hannibal busca quase uma forma de arte, praticada com maestria na devorao e no assassinato. Diante de Hannibal, todos nos sentimos antigos, caretas. Ele tem algo de Sade, de sua perverso iluminista, a geometria da crueldade, o rigor esttico com o mal. H, como em Sade, o desejo de refutar a moralidade tradicional, de ir alm do permitido, de provar a hipocrisia do bem. Os filmes violentos so em geral hipcritas na sua defesa do bem. Os brutamontes que lutam pela nossa moralidade, como Van Damme e outros, so hipcritas, pois seus filmes so oportunistas que, a pretexto de denunciar o mal, propagam-no com sangue jorrando, com o prazer americano pela violncia, mas que, em geral, acaba em happy end moralizante. E o mal denunciado pelo bem acaba gerando milhes nas bilheterias do mundo. Hannibal ama o mal e, de certa forma, nos denuncia no escurinho do cinema, onde temos a rara oportunidade de torcer pela vitria do perverso. H at mesmo um "reformismo" moral na crueldade de Hannibal. Hoje, no temos mais medo de fantasmas e mmias, nem o pavor fascinado pelos vampiros gticos, personagens do romantismo. O vampiro era uma homenagem ao amor sublime, a uma sexualidade agnica, quando os escravos da paixo ansiavam pelo xtase da dentada no pescoo. Com Hannibal no h a nostalgia triste dos vampiros. Hannibal quer exterminar os medocres e, espantosamente, sonha com um mundo belo. Ele despreza suas vtimas, em geral idiotas e sicofantas, mas Hannibal sempre corre o perigo de se apaixonar por algum, que ele poupa por uma estranha "piedade" culta. A leve carcia que ele fez atrs das grades, na mo de Jodie Foster, no Silncio dos Inocentes, um brevssimo e belo gesto de amor. Hannibal terrivelmente contemporneo;ele como um prenncio do homem que vir no sculo 21, como uma fresh mutation, a mutao de uma moralidade feita de impiedade e pragmatismo. Ele nos acena com um terrvel futuro primitivo, que nos d medo e desejo pela volta de uma animalidade perdida. como se ele dissesse: "Nenhum saber, nenhuma tica, nenhuma religio vai apagar o animal feroz que h em ns. A humanidade um caso perdido e eu sou a prova disso. E isso nos d um alvio cnico." Estamos cada vez mais sozinhos, como Hannibal. Somos cada vez mais pequenos canibaizinhos light, na corrida desumana de devorar concorrentes e de consumir sem parar. O canibalismo social est por baixo de nossos desejos. Queremos amar sozinhos, vencer sozinhos, devorar o mundo como devoramos sushis em balces yuppies, queremos nos apropriar da vida ferozmente, sem competidores. Quando falamos em "comer" mulheres ou homens, sonhamos com uma sexualidade canibal livre dos problemas do amor. Homens e mulheres s valem por seus corpos e no mais por seus sentimentos e ficam se oferecendo completamente nus como pedaos de comida em prateleiras. Cada vez somos mais como ele, no darwinismo social que se instala. Para sobreviver, precisamos "no ver" o sofrimento dos outros, a injustia e a desigualdade. Queremos ser tocados pela graa da impiedade. Da, o fascnio do assassino que Hopkins inventou. Nada mais atraente que a psicopatia elegante. Todos queremos ser como Hannibal, tocados pela graa da frieza, longe de uma arcaica compaixo. O que nos fascina no personagem de Hopkins que ele parece estar mais alm de uma moral antiga e que ele contempla, do outro lado do Bem, uma nova realidade. Hannibal parece saber mais do que ns, que ainda vivemos mergulhados em dvidas morais e culpas. O canibal e doutor Hannibal Lecter nos olham do futuro. Os crimes frios so o prenncio dos futuros extermnios de massa. Que esto a caminho.

91. ARNALDO JABOR. O APAGO PODER NOS TRAZER ALGUMA LUZ. Nossa iluso de Primeiro Mundo nos caiu por terra. No tivemos guerra, no tivemos revoluo, mas teremos o apago. O apago vai ser uma porrada na nossa auto-estima, mas ter suas vantagens. Com o apago, ficaremos mais humildes, como os humildes. A grande onda narcisista da democracia liberal ficar mais cabreira, as gargalhadas das colunas sociais ficaro menos luminosas, nossas dentaduras menos brancas, nossos flashes menos gloriosos. Baixar o astral das estrelas globais, dos grandes comedores, as bundas ficaro mais tmidas, os peitos de silicone menos arrebitados, ficaremos menos arrogantes dentro da escurido que se abater em nossas vidas de classe mdia. H algo de castigo de Deus nesta porra toda, pois ficaremos mais parecidos com as periferias, para quem sempre houve o apago de vidas e sonhos, haver algo de becos escuros, de becos sem sada, de favelas tristes, haver um baque em nosso egosmo, nossas peruas e nossos cafajestes tero de maneirar um pouco. A euforia de Primeiro Mundo falsificado cair por terra e dar lugar a uma belssima e genuna infelicidade. O Brasil se lembrar do passado agropastoril que teve e que, escondidamente, ainda tem; teremos saudades do mato, do luar do serto, da Rdio Nacional, do acendedor e lampies de rua, dos candeeiros, das lmpadas de carbureto dos carrinhos de pipoca, lembraremos das tristes noites dos anos 40, como das noites dos blackouts da Segunda Guerra, mesmo sem os submarinos, sem os navios alemes, apenas sinistros assaltantes nas esquinas apagadas. O apago nos lembrar dos velhos carnavais: 'tomar que chova trs dias sem parar' ou:'Rio, cidade que nos seduz, de dia falta gua, de noite falta luz!' Lembraremos dos velhos discos de 78 RPM, dos cantores com som precrio, das TV's preto e branco, de um Brasil mais micha, mais pobre, cambaio, troncho, mas bem mais brasileiro em seu caminho da roa, que o Golpe de 64 interrompeu, que esta mania prostituda de Primeiro Mundo matou a tapa. H algo de maldio nisso tudo, castigo pela destruio de Sete Quedas, o preo a pagar pelos demnios ecolgicos de Itaipu, de Tucuru, do tal "Brasil-Potncia", das grandes hidreltricas arcaicas j na poca que se sabia da melhor utilidade das pequenas usinas e de outras fontes de energia. Lembraremos de Geisel, de Mdici, dos milicos que nos marcam a vida at hoje, nos entregando uma democracia de caixa quebrada, nos lembraremos tambm dos canalhas que pilharam o Tesouro, com sua fome de 20 anos, dos corruptos, das instituies vagabundas que nos ajudaram a falir, nos obrigando a um ajuste fiscal desumano, nos obrigando a uma governana miservel, sem desenvolvimento, sem projeto, limitada a arrumar as contas da falncia. O apago nos mostra que somos subdesenvolvidos sim, que toda esta superestrutura de delrios modernizantes est em cimade ps de barro. O apago um upgrade nas periferias, nos "bondes do Tigro", no mundo funk, nos lembrando da escurido fsica e mental em que eles vivem, do lado de fora de nossas cercas e avenidas iluminadas. O apago nos far mais pensativos, mais metafsicos, mais conscientes de nossa pequenez no mundo. No temos terremotos e vulco, mas temos o apago. Seremos mais poticos, olharemos as noites estreladas e pensaremos: "a solido dos espaos infinitos nos apavora", como disse Pascal ou ainda, se mais lricos, recitaremos Victor Hugo: "a hidra-universo torce seu corpo cravejado de estrelas..." O apago nos far pensar em Deus; no este "deus" das classes mdias, da missa de domingo, sempre pedindo amor, sade e dinheiro, nem do "deus" das universais dos 10% para os bispos da TV, mas o Deus-natureza que tem uma vida prpria, um ritmo seu, o Deus-universo que despreza nosso progresso dependente. O apago nos dar medo de um grande flagelo que poder nos fazer migrar das grandes cidades, deixando para trs as avenidas paulistas secas e mortas. O apago nos far entender a vida dos flagelados do Nordeste, que sempre olharam o nosso lindo cu de anil como uma ameaa. O apago nos far contemplar o azul sem nuvens, pois aprendemos o que a natureza quando no obedecida e respeitada. O apago nos far mais parcimoniosos, mais respeitosos, mais pblicos, e acreditaremos menos nos arroubos de auto-suficincia. O apago vai dividir nossas vidas de novo, em dia e noite. As noites e os dias sero ntidos, sem esta orgia de luzes que a modernidade celebra para nos fascinar como diamantes sobre o pano negro de sujeira, que nos fazem esquecer as cidades que, de perto, so feias e injustas. Vai diminuir a ferie do capitalismo enganador. Vamos dormir melhor com o apago, talvez amemos mais a verdade dos dias e menos a mentira das noites. Acabar a iluso de clubbers e plyaboys que tero medo dos "manos" em cruzamentos negros e talvez o amor fique mais recolhido, mais sussurrado, mais trmulo e desamparado. Talvez o sexo se revalorize como prazer calmo e doce, talvez fique menos rebolante e varaz. Talvez aumente a populao, com a diminuio das diverses eletrnicas noturnas. O apago nos far mais inseguros na rua mas, talvez, mais amigos dos lares e bares. Estaremos de volta a nossa Idade da Pedra, aos fundos de caverna onde ns, macacos, nos protegamos, mais solidrios, com pavor das grandes feras. Finalmente, o apago nos far masi perplexos, pois descobrimos que o Brasil mais absurdo que pensvamos, pois nunca entenderemos como, com trs agncias cuidando da energia, o governo foi pego de surpresa por essas trevas to longamente anunciadas. S nos resta o consolo de saber que, no fim, o apago vai nos trazer alguma luz sobre quem somos.

92. ARNALDO JABOR. O DIA EM QUE O RIO DE JANEIRO SE SUICIDOU. Agora, o mal j est feito. O Estado do Rio elegeu Rosinha para o governo, Srgio Cabral e Mrio Crivelllo para o Senado e na Assemblia Estadual pulularo os mesmos micrbios populistas e corruptos de sempre. No adianta chorar pelo chopinho derramado, como fazem sempre os cariocas. Seremos governados por um casal "peronista" tardio, misturado a um Jesus poltico, enquanto em Braslia o neochaguismo nos representar no Senado. Assistiremos agora, reclamando do destino, destruio do Rio. Por que esse tradicional "dedo podre" dos cariocas para o voto? Lembrem da lista de nossos governadores dos ltimos 30 anos. Como explicar isso, se somos os "malandros", os bons de cintura, os "bambas do samba"? Por que, em So Paulo, o Maluf foi expelido, Qurcia tambm, por que ris Resende, Collor, Newto, Gilberto Mestrinho, Augusto Farias e tantos outros foram jogados para correr e o Rio ficou com o atraso? Por que a elite pensante do Rio, os cientistas polticos que vivem com o olho grudado no Bobbio ou no Bourdieu no viram nada? Ningum acionou o alarme? Acho que o Rio uma "cidade partida" sim, tambm na conscincia poltica. No mundo da periferia, o carioca vive mergulhado na ignorncia e na pobreza. Coitados - como vo entender os demagogos que lhes do esperanas, como vo saber dos fariseus? Como? Mas, a outra parte a dos "inocentes do Leblon", dos garotos de Ipanema. Esses que permitiram a "resistvel ascenso de Rosinha", somados ao grande rebanho de uma classe mdia de gravata que vive clamando por um vago udenismo, trmula de medo e de insegurana, com ideologias ralas que no vo alm de "o governo culpado" ou "tudo isso a uma vergonha..."Ningum sabe nada de poltica que se resume aqui, no "sal cu sul", num vago Fla x Flu de botequim. Deve ser a velha tradio cartorial, de funcionrios pblicos da velha capital da Repblica, onde a poltica se traava nos balces mercantilistas, nos interesses dos negreiros e cafeicultores, na simbiose patrimonialista dos donos do poder, criando esse desalento, esse desinteresse pela luta poltica, porque o clientelismo a tornava inglria. Ficou esse cacoete da Repblica Velha, uma estirpe de burocratas oportunistas enrolando os cidados, ficou a viso de que poltica atividade "deles", dos poderosos do "caf com leite". Foi-se a capital da Repblica e s ficou a pose de um antigo poder que se esvaiu, sem base concreta. A poltica como oposio de interesses em luta, como defesa social, no atrai a populao. Os grandes gestos abstratos sim, as bandeiras utpicas, passeatas hericas, tudo bem, isso fazemos, mas sempre a posteriori, depois das causas perdidas. No Rio, tambm, o capitalismo ralo; no tem a seriedade produtiva e voraz de So Paulo, que gerou inclusive o PT, no seio das fbricas do ABC. Onde o nosso ABC? A resistncia a Rosinha surgiu num botequim, o Bracarense (com bom chope e empadinhas, sem dvida), num movimento tardio. A, no adiantava mais. Fazemos poltica de botequim, o que me lembra a frase de Oswald, que parafraseio por ser apropriada para ns: "No Rio, o contrrio da burguesia a boemia; em So Paulo, o proletariado." Fomos a ptria da esquerda festiva, do intelectual de bar, dos assinantes de manifestos inteis. Estamos sempre prontos para marchas pela paz, todos de branco, gritando "Viva Rio!", apelando para quem? Para Deus? Para Iemanj? Quem? Para a cordialidade dos criminosos? Assim como temos uma viso idlica da cidade, temos uma viso pejorativa da poltica - "coisa do povo". Os homens espertos como Garotinho e, antes dele, como Chagas Freitas, vo se banhar nesse piscino de votos desesperados das periferias. A desateno do carioca com a poltica real tanta que somos pegos de surpresa em golpes como fomos em 64, comemorando a "vitria" do socialismo meia hora antes da chegada dos tanques de direita de Minas. A, choramos. A facilidade com que a Rosinha foi eleita igual facilidade com que um boato fechou a cidade. De repente, nos descobrimos desamparados, medrosos, desunidos por um boato. O fato poltico surge como um acidente, um susto na paisagem. E, agora, estamos diante de um projeto de desconstruo da cidade, com a porta aberta para a entrada de um neopopulismo srdido, que pode desestabilizar o resto do Pas no futuro. inacreditvel que os intelectuais, acadmicos, artistas e formadores de opinio, preocupados apenas em manter limpas suas conscincias ideolgicas, tenham se esquecido de combater essa terceira via terrvel do populismo carioca, essa grave anormalidade sociolgica que nos acometeu. Esqueceram-se de ajudar a Benedita, essa mulher corajosa que fez as nicas aes eficazes contra o trfico. A desconhecida Solange (que o PSDB apoiou de afogadilho para o Serra ter palanque) e o plido Jorge Roberto se ocuparam em atac-la, deixando o cabelo chapinha de Rosinha intocado. Agora, chegou a hora do lamento, dos porres pessimistas: "O Rio no tem mais jeito... Ahhh... Vamos beber!" Sempre vemos as tragdias "depois" , como s agora descobrimos as favelas, que eram "lricas" e esquecidas no passado, ao som do samba, sem armas. Agora, elas tm emprego: a cocana. Tarde demais, doces malandros otrios. A paisagem nos aliena, a praia nos aliena, a beleza cultural nos aliena. Ns nos achamos "acima" do Pas, donos de uma ginga superior. S pensamos em polcia, nunca em poltica. E o trfico um caso de poltica. Beira-Mar sabe bem disso. Quem precisa de educao poltica no so os populares pobres que elegeram o neopopulismo; so os privilegiados da zona sul que nada fizeram para impedi-lo. Os alienados somos ns, gente boa...

93. ARNALDO JABOR. OSAMA DIZ: MANDEI O BUSH DESTRUIR O OCIDENTE. Meus queridos irmos: aqui, reunidos nessa caverna, podemos conversar em paz, em nome de Al, que nos deu a felicidade de travar essa guerra santa contra os ces infiis do mundo todo. Estamos no caminho certo, queridos irmos, pois Al me deu a luz de uma grande idia: lancei os avies americanos contra a prpria Amrica e agora estou lanando o Bush para destruir o Ocidente. Al seja louvado, pois o Bush est fazendo tudo que eu quero, de certo modo ele me obedece, pois, com a ajuda de Al, ele segue direitinho o meu script, minha ordens. Obcecado por se vingar de mim, ele est, na verdade, hipnotizado por meus desejos. Bush meu escravo. meu homem-bomba. Ele vai atacar o Iraque e lanar o caos no mundo todo, abrindo as portas do inferno na sia e depois na Europa. Irmos: com a ajuda de Al, eu consegui jogar a nao mais poderosa do mundo, com 400 bilhes de dlares em armas, contra o nada. Eles vo atacar o vazio, assim como venceram "nada" no Afeganisto, pois nossos irmos talebans esto em toda parte, se reorganizando e ns, felizes e seguros, estamos planejando novos ataques em nossas caverninhas com ar condicionado. De que vale tanto poder blico contra nossos mrtires? Se quisermos, nem precisamos nos aporrinhar em atacar de novo os USA. Basta nosso silncio assustador. Eles no tero mais sossego. O silncio ser sinnimo de perigo. Por isso, no adianta atacar o Iraque. Digamos que ele mate Sadam. Novos Sadams e milhes de novos combatentes vo surgir no Oriente Mdio, fortalecidos. Nunca uma nao humana ser to odiada como a Amrica. Bush vai trazer o caos ao mundo. E no seremos ns os atingidos. Bush vai desorganizar todas as conquistas iluministas do Ocidente, do sculo 18 para c: razo, tolerncia, democracia. Bush vai apagar os ltimos vestgios dos princpios democrticos que orientaram seus "pais fundadores". Bush est entregando o pas para a indstria da guerra, que nunca faturou tanto como agora. Exatamente como eu quero, irmos. A Amrica uma mquina desejante de guerra. Eu s fiz acirrar esse desejo. H milhes de armas que "desejam" ser usadas. As bombas desejam explodir. Suas armas no foram feitas para serem usadas na guerra; eles faro uma guerra para usar as armas. Todas as finuras da transcendncia, da beleza, do multilateralismo europeu, da "globalizao democrtica" que eles trombetearam pelo mundo, sero destrudas. Bush vai arrasar com a esperana da Europa que, depois de um sculo de brutalidades, de duas guerras mundiais, est no caminho de uma soluo pacfica de convivncia, de uma paz feita de comrcio, diplomacia e tolerncia. Os americanos sempre odiaram os europeus afrescalhados, que falam em coisas profundas, humanistas, metidos a "superiores". Fingiam que tinham ideais iguais Europa, mas nada... Amrica e Europa no tm nada em comum. A Amrica republicana acha que esse papo de multiculturalismo coisa de fracos, irmos. Agora, a coisa est clara. Bush voltar aos tempos do faroeste, caubis e xerifes mandando no mundo. Bush e sua turma o que h de pior na Amrica;eles s acreditam em mercado, domnio e porrada. Bush marca o incio da era da estupidez, a vitria dos imbecis no poder. Forrest Gump, o idiota vencedor, j era um indcio da "beleza da estupidez", como Bush declarou em Yale:"Eu sou a prova de que ningum precisa estudar para ser presidente dos USA." Bush um neurtico completo, como dizem l no Ocidente. Julga-se impotente e desprezado pelo pai, e quer provar fora, superando o velho que quebrou a cara com o Sadam. Ele perfeito para meus planos. Nada mais perigoso que a estupidez com armas; o fascismo a burrice no poder... Nada melhor para ns, irmos, louvado seja Al... Em 11 de setembro, eu dei Amrica o pretexto para se sentir vtima - tudo que o Bush precisava, assim como Hitler tambm era "vtima" da humilhao da Alemanha depois da Primeira Guerra. E, no fundo, Bush me ama pelo avesso, pois eu o salvei politicamente; o que seria dele sem o WTC? Eles caram na minha isca e vo fazer tudo que eu quis, irmos... Comea agora uma nova e longa "guerra fria", com o "terrorismo" no lugar do "comunismo". Com essa poltica, eles vo desmoralizar a ONU de uma vez por todas, vo acabar com a Otan, vo trair os acordos antinucleares como o ABM, vo ignorar o Tribunal Penal Internacional, seus aliados vo romper com eles, a guerra Israel-Palestina vai virar uma endemia para sempre, vo transformar a Europa num continente horrorizado e antiamericano, vo se meter em toda parte, da sia Colmbia, para dio de todos. A verdade essa: a Amrica jamais aceitar ser igual aos outros pases; eles s disfaravam, para no serem chamados de boais. Agora, Bush poder gritar, cercado daqueles idiotas "falces": "Eu sou mais eu! Ns somos a nao indispensvel, sim!" Eles acham que esto me combatendo, irmos, mas ns somos invisveis; eles esto combatendo e destruindo seus amigos e a si mesmos. Quando a mquina da boalidade se desencadeia, ningum segura mais a produo de erros. Eu despertei o Leviat! Eu estou obrigando os USA a serem uma potncia solitria, uma mquina guerreira isolada para sempre, pois eu vou obrig-los a destruir a democracia a pretexto de defend-la, com o apoio de 70% dos ignorantes do pas. E a arrogncia unilateral pedir mais arrogncia, mais fora, mais confronto. A Europa vai se rearmar, a China e a Rssia vo relubrificar seus msseis e uma grande nuvem atmica poder destruir o mundo todo, irmos!... Mas, no temam, irmos, pois ns no vamos sofrer nem perder nada, pois, no martrio nuclear que vir, iremos todos para o paraso em meio s nuvens de fogo, ao encontro de Al, o nico deus, sendo Maom, e agora eu, os seus profetas!

94. ARNALDO JABOR. O AMOR IMPOSSVEL O VERDADEIRO AMOR. Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo. Os dois artigos mexeram com a cabea de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo:"Mas... afinal, o que o amor?" E esperam, de olho muito aberto, uma resposta "profunda". Sei apenas que h um amor mais comum, do dia-a-dia, que nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as dcadas, o amor prtico que rege o "eu te amo" ou "no te amo". Eu, branco, classe mdia, brasileiro, j vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romntico, um sonho poltico, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um "desregramento dos sentidos". Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriao indbita do "outro". O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistrio impalpvel. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar na produo. A cultura americana est criando um "desencantamento" insuportvel na vida social. O amor a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos tm, naturalmente. Por isso, permitam-me hoje ser um falso "profundo"(tratar s de poltica me mata...) e falar de outro amor, mais metafsico, mais seminal, que transcende as dcadas, as modas. Esse amor como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exlio da natureza. um amor quase como um rgo fsico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar:o amor algo "feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrs de dezenas de milhares de manhs/ e noites estreladas/ como um pudo aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma leso oculta onde ningum sabe". Pois, senhores, esse amor existe dentro de ns como uma fome quase que "celular". No nasce nem morre das "condies histricas"; um amor que est entranhado no DNA, no fundo da matria. uma pulso inevitvel, quase uma "leso oculta" dos seres expulsos da natureza. Ns somos o nico bicho "de fora", estrangeiro. Os bichos tm esse amor, mas nem sabem. (Estou sendo "filosfico", mas... tudo bem... no perguntaram?) Esse amor bate em ns como os frmitos primordiais das clulas do corpo e como as fuses nucleares das galxias; esse amor cria em ns a sensao do Ser, que s perceptvel nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor uma reproduo ampliada da cpula entre o espermatozide e vulo se interpenetrando. Por obra do amor, samos do ventre e queremos voltar, queremos uma "reintegrao de posse" de nossa origem celular, indo at a dana primitiva das molculas. Somos grandes clulas que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. ("Sexo" vem de "secare" em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensao de que a "mquina do mundo" ou a mquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrana remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : "A arte no a imitao da vida. A vida que a imitao de algo transcendental com que a arte nos pe em contato." E a arte no a linguagem do amor? E no falo aqui dos grandes momentos de paixo, dos grandes orgasmos, dos grande beijos - eles podem ser enganosos. Falo de brevssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistrio que subitamente parece revelado. H, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das rvores ou entre as tranas da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, no se decifra nunca, como a poesia. Como disse algum: a poesia um desejo de retorno a uma lngua primitiva. O amor tambm. Melhor dizendo: o amor essa tentativa de atingir o impossvel, se bem que o "impossvel" indesejado hoje em dia; s queremos o controlado, o lgico. O amor anda transgnico, geneticamente modificado, fast love. Escrevi outro dia que "o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossvel sua grande beleza. Claro que o amor tambm feito de egosmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor h um terrvel sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes". Mas, o fundo e inexplicvel amor acontece quando voc "cessa", por brevssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que e o outro contemplado em sua total solido. Vemos um gesto frgil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em ns uma espcie de "compaixo" pelo nosso desamparo. Esperamos do amor essa sensao de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haver juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistrio da "falha"humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos "no-saber" que vamos morrer, como s os animais no sabem. O amor uma iluso sem a qual no podemos viver. Como os relmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o cu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor no nos faz virar "anjos", no. O amor no da ordem do cu, do esprito. O amor uma demanda da terra, o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse "absoluto", que est na calma felicidade dos animais.

95. ARNALDO JABOR. VIVA A CATSTROFE! OS BONS TEMPOS VOLTARAM. Sempre que h uma catstrofe nacional, irrompe uma euforia de cabea para baixo. como se a opinio pblica dissesse: "Eu no avisei? Bem que eu falei, no adianta tentar que sempre d tudo errado...". H um grande amor brasileiro pelo fracasso. Quando ele acontece, um alvio. O fracasso bom porque nos tira a ansiedade da luta. J perdemos, pra que lutar? A plataforma afundando suavemente nos d uma sensao de realidade. Parece o Brasil indo a pique - o grande desejo oculto da sociedade alijada dos podres poderes polticos, que giram sozinhos como parafusos espanados. No uma ameaa de CPI, no um perigo de crash na Bolsa. morte, gs e fogo. E nossa vida fica mais real e podemos ento, aliviados, botar a culpa em algum. Chovem cartas de leitores nos jornais. Todas exultam de indignao moral, todas denotam incompreenso para com o programa do governo de reformar o sistema, programa muito "macro", mal explicado, "muito cabea" para a populao. Nada como um desastre ou escndalo para acalmar a platia. E a oposio, aliada oligarquia, usa bem isso. Danem-se as questes importantes, dane-se a crise externa, dane-se tudo. Bom fofoca e denncia. A finalidade da poltica impedir o pas de fazer Poltica. Nada acontece, dando a impresso de que muito est acontecendo. H uma tradio colonial de que nossa vida um conto-do-vigrio em que camos. Somos sempre vtimas de algum. Nunca somos ns mesmos. Ningum se sente vigarista. O fracasso nos enobrece. O culto portugus impossibilidade famoso. Numa sociedade patrimonialista como Portugal do sculo XVI, onde s o Estado-Rei valia, a sociedade era uma massa sem vida prpria. Suas derrotas eram vistas com bons olhos, pois legitimavam a dependncia ao Rei. Fomos educados para o fracasso. At hoje somos assim; s nos resta xingar e desejar o mal do pas. Quem tem coragem de ir TV e dizer: "O Brasil est melhorando!", mesmo que esteja? Ningum diz. feio. Falar mal do pais uma forma de se limpar. Sentimo-nos fora do poder, logo normal sabotar. A plataforma da Petrobras afundando derreteu feito bala de acar na boca dos golpistas. O fracasso uma vitria para muitos. No fui eu que fracassei; foi o governo, o neoliberalismo. O maior inimigo da democracia a aliana entre o ideologismo regressista e a oligarquia vingativa. Nossos heris todos fracassaram. Enforcados, esquartejados, revoltas abortadas, revolues perdidas. Peguem um heri norte-americano: Paul Revere, por exemplo. Cavalgou 24 horas e conseguiu salvar tropas americanas na Guerra da Independncia. Foi o heri da eficincia. Aqui, s os fracassados vero Deus. "Seja marginal, seja heri". O fracasso legal, a vitria careta. A vitria d culpa; o fracasso um alvio. A vitria burguesa. A crise, a catstrofe, o bode preto tm um sabor de "revoluo". como se a exploso "revelasse" algo, uma tempestade de merda purificadora. Alm disso, para os carbonrios, depois de tudo arrasado, a pureza renasceria do zero. Assim pensava Pol Pot. A crise brasileira atual comeou com um procurador maluco, uma fita mal gravada e tudo foi coroado com a plataforma afundando. O que moveu Luiz Francisco e ACM foi a esperana do caos. Luiz Francisco se acha o missionrio da catstrofe. Ele o idelogo da exploso de furnculos. Ele acredita no pus revelador. ACM quer levar em seu declnio o pas todo com ele, cair destruindo, numa espcie de triunfo ao avesso. Ele o ltimo bastio do patrimonialismo tradicional, resistindo ao capitalismo impessoal. Espalhou-se a teoria de que o problema do Brasil "moral". Este "bonde"funk de neo-udenismo psictico, este lacerdismo tardio, este trenzinho de "janismo" com "collorismo" visam impedir a modernizao do pas, sob a capa do "amor". So a favor da moralidade, mas contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esta onda de moralismo delirante busca impedir a reforma das instituies que estimulam a imoralidade. ACM, tocando trombone sob um telhado de vidro, o grande exemplo. Luiz Francisco, com boquinha de nus e vozinha de padre, outro. Nossos intelectuais se deliciam numa teoria barroca da "zona" geral. O Brasil visto como um grande "bode" sem soluo, o paraso dos militantes imaginrios. Quem quiser positividade traidor. A misria tem de ser mantida in vitro, para justificar teorias e absolver inaes. A Academia cultiva o "insolvel" como uma flor. Quanto mais improvvel um objetivo, mais "nobre" continuar tentando. O masoquista se obstina com f no impossvel. H um negativismo crnico no pensamento brasileiro. Paulo Prado contra Gilberto Freyre. Para eles, a esperana srdida; a desconfiana sbia: "A tem dente-de-coelho, alguma ele fez...". Jamais perdoaro ao FHC ter abandonado a utopia tradicional e aderido real politik. Quase nenhum "progressista"tentou ajud-lo nesta estratgia. Quem tentou foi queimado como ulico ou traidor, pela pliade dos canalhas e ignorantes. Talvez tenha sido um dos maiores erros da chamada "esquerda", talvez a maior perda de oportunidade da histria. Agora, os corruptos com quem FHC se aliou para poder governar querem afog-lo na lama. A real politik virou shit politics. Assim como o atraso sempre foi uma escolha consciente no sculo XIX, o abismo para ns um desejo secreto. H a esperana de que no fundo do caos surja uma soluo divina... "Qual a soluo para o Brasil?", perguntam. Mas a prpria idia de "soluo" um culto ao fracasso. No lhes ocorre que a vida seja um processo, vicioso ou virtuoso, e que s a morte soluo. Vejam como o Brasil se animou com a crise atual. Dlar alto, plataforma afundando, Jader x ACM, tudo parado. Oba! o velho Brasil descendo a ladeira! Viva! Os bons tempos voltaram!

96. ARNALDO JABOR. O GRANDE SUCESSO DO HERI SEM CORAO. "Eu quero, eu desejo, eu preciso, eu no me conformo de ficar olhando a vida de fora, feito um espectador de TV, eu quero tnis, eu quero Rolex, eu quero carro, eu quero lancha, eu quero cartes de crdito e aqueles smokings lindos que o James Bond usava debaixo do neoprene mesmo quando mergulhava, eu quero a elegncia total, sorriso nos lbios, pisando em mrmores de hotis, tomando drinques beira da piscina ou nos pianos-bares, com uma louraa a meu lado ouvindo eu tocar, eu, campeo mundial de piano, como todos sabem... Eu quero poder escolher entre a Mercedes da hora e o Jaguar do ano, eu quero ter o corpo perfeito, malho muito e de noite eu fico horas pensando em mudar meu corpo, como se eu fosse nascer de novo, como se eu fosse fazer o parto de mim mesmo. Eu me imagino inteiramente liso para iniciar o parto, como algum raspado antes de uma cirurgia e, de dentro de meus membros, comea a surgir um outro corpo, como a borboleta saindo de dentro da crislida, meus ps, midos e novos, saem de dentro de meus velhos ps, minhas pantorrilhas rompem a casca da pele e aparecem fortes para jogar um futebol de campeo, eu, que sempre era barrado nas peladas de rua, mas que hoje j tenho os braos fortes como os de Charles Bronson, me preparando para o grande momento que vai chegar. Eu sonho h anos com esse dia, pois sempre soube que viria um bonde legal, uma parada legal que eu no sabia qual era, mas que viria... Aproxima-se a hora da liberdade, a hora em que eu vou quebrar todos os recordes e pular para uma outra vida. Depois disso, ningum me segura mais... Como segurar um homem como eu, com minha macheza gloriosa, meu pnis campeo que tem uma tatuagem de seta para lembrar minha mulher qual o caminho da adorao religiosa, quando eu fico em p na cama e ela reza, olhando para mim como o seu Deus? Ela est entranhada em mim como uma tatuagem e nem que arranque a pele ela se livra do meu amor. Parece que somos um s. Ela me disse um dia: "Eu sou voc!..." Pois, est chegando a hora H, quando eu terei tudo a que tenho direito, como motocas Electra Glide ou Kawasaki, terei um apartamento em cima de uma pedra em frente do mar, em frente das altas ondas que eu, campeo havaiano de surfe em maremotos, cavalgarei e meu apartamento vai ser todo de mrmore, cheio de controles remotos, de onde eu vou comandar os garons que servem caviar e champanhe nas noites de festa que eu vou dar, com pagodes e com a Ivete Sangalo ou a Daniela Mercury cantando para meus amigos da revista Caras, eu vou mandar em tudo porque serei o mais poderoso, o mais forte, o mais rico, falando ingls, francs, russo, alemo, latim, e todo mundo vai me respeitar e gostar de mim, porque eu vou ser legal com quem for legal comigo, mas se no for legal comigo ser esculachado, porque eu no vou dar colher de ch para traidor e porque nunca mais vou ser humilhado por aquele patro que me expulsou da loja dizendo que eu era ladro de camiseta e de tnis, s porque eu fui ao show da Negritude Jr. com o tnis fosforescente que chegou do Paraguai e com a camiseta do Robocop. Nunca mais vou ser fraco de alma, inclusive porque eu estou fazendo musculao por dentro do corpo; por fora, eu j estou com uma potncia de soco de um Volks a 80 km por hora, mas, por dentro, meus msculos da alma esto cada vez mais duros, meu corao mais seco, nico caminho para o sucesso, como nos ensina a cara dos polticos na TV. Esta a receita do sucesso: corao duro, nem um pisco, nem um tremor de mo, nem um olho aguado, nada. Eu quero mesmo ser de pedra, alis, eu quero ser uma "coisa", eu queria ser uma "12" de cano serrado ou uma espada de samurai. J pensou se o Beira-Mar fosse bonzinho? Ele seria um joo-ningum. Eu sou duro, at j treinei outro dia com o gato no microondas, os miados e os olhos de pavor na janelinha. Quero corao duro para satisfazer todos os meus desejos, como manda o meu amigo secreto que conversa comigo de noite, o "Velho", que aparece quando vou comeando a dormir e me diz:"Vai fundo, bota para quebrar, no vai morrer pobre feito eu!" Como eu vou explicar para ele, se eu amarelar? Eu j estou pronto para a ao. No bolso, o meu discurso de posse, prontinho para o dia em que vou receber o Grande Prmio na Academia dos Heris. J sei at de cor, vou repetindo baixinho enquanto subo a escada: "Eu queria agradecer inicialmente ao Bruce Willis, ao Chuck Norris, ao Escadinha e a todos os heris do cinema e da barra-pesada o muito que me ensinaram. S eu sei quanto lutei para chegar at aqui, para ganhar este prmio. Quero agradecer tambm aos olhos azuis de minha amada, que tanto me incentivaram a ter coragem de ser feliz"... Acho superlegal o meu discurso de posse na Academia e j vejo os super-heris me aplaudindo. Bem, eu j estou pronto. Cabelo raspado feito o Ronaldinho, msculos desenhados e duros feito o Bruce Lee. Meu corpo est tremendo por dentro, mas sei que no medo no; teso, a alegria de conquistar a vida nova. Parece que tem outro homem dentro de mim, eu, o chefe da equipe mundial de carat, eu, maior sucesso em breve nas revistas dos chiques e famosos, eu, que quebro 20 telhas com um soco, eu que serei o novo dolo dos jornais, eu sinto que o mundo vai se abrir para mim feito um shopping center e eu s irei pegando as mercadorias e colocando na Ferrari vermelha onde minha mulher me espera para fugirmos. A chave da vida nova j est aqui na minha mo: esta barra de ferro que mata em silncio, enquanto subo a escada, na maior adrenalina, com meu irmo atrs de mim, feito um ninja de mscara negra, agora que vamos abrir o quarto e comear a festa. Eles dois esto dormindo. Se a barra de ferro no resolver logo, estrangulo."

97. ARNALDO JABOR. AS FORAS ARMADAS TM DE ESTAR PERTO DE NS. Eu sou um pobre aspirante a oficial-da-reserva, de segunda classe, do Exrcito brasileiro, da herica arma da Cavalaria. Apesar das agruras do servio militar, no nego que, muita vez, vibrei com minha arma, como no dia em que cavalguei, com a lana embandeirada, na orgulhosa escolta do general-comandante Justino Alves Bastos, no tendo, infelizmente, desfilado depois na parada de 7 de Setembro pela maldade de um tenente que me fez montar a gua negra Epopia, muito temida no regimento, pois empinava e se jogava para trs ("boleava") , tendo assim quebrado meu brao - eu, um desastrado e trmulo calouro. Mas, lembro com emoo dos tambores e clarins, do passo firme dos batalhes, da sensao de unidade, de ser um soldado num mar verde-oliva, o que apaga a solido e consola a alma. Escrevo estas coisas remotas como rplica a uma carta do general Luiz Cesrio da Silveira Filho, chefe do Centro de Comunicao Social do Exrcito, a propsito de meu artigo da semana passada, na qual ele me aponta como "denegridor" da boa imagem do Exrcito. Ao contrrio, general, considero o Exrcito uma das poucas instituies decentes do Pas e meu artigo, ao imaginar uma eventual participao militar na luta contra o trfico, visava um pouco (confesso-o) a provocar nossos "milicos" e a suscitar respostas e explicaes. E fico orgulhoso de poder, hoje, at questionar o Exrcito sem sentir medo. Sei das dificuldades da instituio num pas semiquebrado por sculos de oligarquias e dependncia, talvez at por ser filho de um brigadeiro-do-ar que morreu duro num apartamento de dois quartos em Copacabana. Ademais, quem sou eu para criticar o Exrcito? No entanto, penso que talvez o Exrcito devesse ter mais contato com a opinio pblica brasileira. H uma curiosidade, que no s minha, que se pergunta qual o papel dos militares brasileiros no mundo da globalizao e das mudanas no velho Estado-Nao, da democracia de massas e suas mazelas. Muita gente diz: "Tem de botar o Exrcito na rua contra o trfico!" Outros: "Pra que serve o Exrcito?" Fique claro que no acho que o Exrcito tem de "sair e botar para quebrar". No sou o homem mais burro deste pas (meus inimigos diro: "Olha a modstia..."); por isso, me pergunto: no seria oportuna uma atuao das Foras Armadas, em alto nvel estratgico, coordenada com a experincia concreta e "suja" das polcias, de modo a romper essa cadeia de p e armas, que comea l fora, invade fronteiras, sobe favelas e acaba no nariz da burguesia? No podemos continuar considerando esses crimes apenas como um "desvio da norma" ou como um pecado diante do "Bem". O crime do trfico e da misria armada j tem outros nomes, j uma "mutao social", j uma forma de vida, um mercado de trabalho, um desafio aos poderes pblicos. Esse neocrime no se combate mais com castigo e priso; trata-se de uma Outra Sociedade, criada na lama e na fome, e s ser vencido por uma conjuno de instrumentos que vo desde a represso at o saneamento, que vo desde a guerra explcita at uma reeducao das comunidades perifricas. O trfico no Rio e em So Paulo no s um problema de polcia, pois no nasce cocana na favela nem l se fabricam metralhadoras, como disse o Zuenir; tudo comea como uma invaso do territrio nacional. Por que as Foras Armadas no podem agir, em nvel de Estado maior, da ESG, etc.? Sabemos que, no Rio, grande parte do p entra pela Baa de Guanabara. Por que a Marinha no pode policiar essas guas? Outro dia, li a entrevista muito lcida de um brigadeiro que reclamava da ausncia da "Lei do Abate" na Amaznia. Os jatos da Aeronutica perseguem os avies cheios de cocana, do ordem de descida, mas eles nem ligam, pois proibido abat-los. Os pilotos clandestinos chegam a fazer gestos obscenos para os militares e continuam seus vos impunes, em direo aos "cafungueiros" do Pas. Como leigo, pergunto se as Foras Armadas no devem se repensar em funo das mudanas econmicas e polticas do Pas, se "enxugando", ficando mais eficazes, com melhores armas e homens bem pagos. Se alguma crtica posso fazer a imagem do Exrcito, em relao a uma mentalidade meio "napolenica", de "foras maiores", acima do cotidiano nacional, defendendo abstraes como "civismo", "renncias", "anseios patriticos". Hoje, o inimigo mudou e no podemos continuar a combat-lo com formaes do sculo19. Agora, o inimigo vem de dentro do atraso nacional, de dentro da tecnologia veloz, vem do fanatismo, da loucura, da misria armada. Acho que um dos erros de comunicao das Foras Armadas um ocultamento diante da populao. Por qu? Ser que ficaram com complexo de culpa por terem cedido tentao autoritria , h 30 anos? Isso j passou. O Exrcito no pode aparecer muito ou sumir muito, espera de um "grande acontecimento" histrico. No h mais "grandes acontecimentos". A guerra hoje minimalista, ttica, misturada vida social, at invisvel. Os americanos amam seu Exrcito. Quantos filmes j fizeram louvando seus soldados? Por que ignoramos os nossos? Ser que s culpa de nosso ibrico e colonial medo do "poder"? Ou no haveria tambm da parte do Exrcito uma fobia, uma timidez em se assumir como importante instituio nacional? Gostaria de ver o Servio de Comunicao, prezado general, aparecendo "antes", nos informando e no reclamando de injustias. O Exrcito grande demais para isso e eu sou pequeno demais. Sou apenas um aspirante de segunda classe, mas minhas dvidas so de brasileiro e patriota pois, como diz o nosso hino da Cavalaria, no evento de uma guerra contra a Ptria, quero que "o Sol, sem eflvios, sem luz e sem calor, me encontre no solo a morrer, do que vivo sem te defender..."

98. ARNALDO JABOR. SUZANE, 19 ANOS, BELA E RICA, MATOU POR AMOR. Quando os irmos entrarem em cana, provavelmente sero mortos, pois matador de pai e me eles no perdoam. Mesmo no mundo do crime h uma tica a preservar, mesmo o pior criminoso tem um interdito moral. Nesse caso, no. O crime de parricdio e matricdio premeditado durante o sono mais que um crime; uma viagem ao desconhecido, o desejo de atingir um recorde supremo. No h nada pior. Nenhuma tica se salva, nada pode atenuar o feito. O qu? Que delito Suzane e seus cmplices poderiam considerar mais hediondo? Suzane est no topo, nada h alm dela. Ela nos aterroriza com sua crueldade brutal. Os dois monstros boais ainda d para entender: queriam grana, motocas e tatuagens, filhos desta gerao de shoppings e violncia. Ela, no. Precisamos encontrar explicaes para ela, seno ficamos ameaadssimos. O crime sem motivo nos desorganiza, pois nos coloca nas mos da loucura. Se ela, jovem, bela e rica, matou, que ser de ns? O crime sujo da favela apenas nos d medo. O crime limpo e rico nos desampara, nos d vertigem, pois perdemos o balizamento da tica e da razo. Suzane nos leva beira da loucura, mas ela no louca. Ento, ela matou por qu?, perguntamo-nos. Isso que fascina e apavora no psicopata: ela toca num mistrio que tentamos esquecer. Vizinhos e amigos sempre dizem deles:"Eram doces, educados, tmidos..." At a hora em que metralham espectadores num cinema ou matam pai e me dormindo. Por isso, os psiquiatras buscam "causas", como se a vida social fosse um contrato de bom senso, como se fssemos animais racionais e a loucura um "desvio". o contrrio; a sociedade que um desvio. No adianta ter dio dela; no h punio que apague o seu crime, no h como pagar sua dvida. O inferno cotidiano que ela ter no explica aquele momento metafsico, sempre alm de qualquer entendimento. Mas, mesmo os psicopatas precisam de uma razo maior para justificar o crime. "Matei por amor...", diz a menina de 19 anos, fina, linda, universitria. No entanto, esse amor que a menina invoca outro "amor". Ela e todos ns precisamos "justificar" esse crime, para no ressuscitarmos a clebre manchete do jornal carioca O Dia:"Matou a me sem motivo" - ou seja, deve haver um motivo para se matar a me. Ela precisa de um motivo, pois ela no sente culpa porque matou. Ela matou para preencher um grande vazio em seu mundo interno, matou para atravessar um deserto afetivo, matou porque no sentia culpa, matou por vingana de no sentir culpa, matou at para tentar sentir alguma culpa, sentir at algum... amor. Por isso, sua declarao nos apavora: "Matei por amor!" Matou, sim, por amor, para conseguir um pavoroso amor por que ela ansiava. Que estranho amor esse? Eu acho que ela buscava o "amor"da hora. o amor que nos grita de dentro do comrcio, de dentro do consumo, que nos chama de dentro de um narcisismo impossvel que todos proclamam, o amor imaginrio feito do desejo de posse exclusiva sobre a liberdade, sobre o corpo do outro, um amor que consome tudo, querendo uma felicidade quantitativa, uma infinita conquista para abolir todos os vnculos, todas as barreiras do dipo, todos os deveres sociais. Suzane quis fazer um gesto imperdovel para sempre, absoluto, livre para sempre da condio humana, quis o sangrento incesto invertido com os pais deitados na cama onde ela foi (talvez?) feita. Depois do crime cometido, ela poderia se livrar da origem, do passado, da horrenda obrigao de conviver e, ento, se dedicar a um amor sem "outro", sem objeto, uma espcie de conquista de Poder, sim, um poder de estar acima dos sentimentos, da Justia, um poder de viver sem sociedade em volta, um poder maluco que vemos anunciado nas entrelinhas das ideologias de hoje, nas gargalhadas sem remorso nas revistas, na abolio descarada da compaixo. Esse crime me lembra o mistrio fnebre da pea de Shakespeare Macbeth, o poder de liberdade crua que Suzane almejou me lembra o poder que os Macbeth conquistariam, depois de "assassinarem o sono", como grita o poeta. A frase da pea que mais me aterroriza quando lady Macbeth, preparando-se para o crime, grita a Deus (ou ao Demnio): "Unsex me!"(Dessexualize-me!!) Ou seja: "Tire de mim a bondade feminina, transforme-me no num homem, mas tire o sexo de mim, para que eu seja um homem-mulher, um ser livre da diferena, livre da condio humana dividida, sexed, e me transforme num ser monobloco, com um desejo s." Como seria o amor de Daniel e Suzane, Romeu e Julieta ao contrrio, se tudo tivesse "dado certo"? Com os pais mortos, grana no bolso, garupa de motocicleta, os dois teriam uma espcie de fuso, de orgasmo contnuo, acima da vida, acima do cotidiano, pois ningum mais poderia existir - s eles. A nica explicao que pode vagamente explicar o acontecido sabermos que a sociedade est to narcsica, to excludente de qualquer solidariedade, to brutal no seu desejo de satisfao total, que contamina at os privilegiados. A pulso de morte anda solta. Vivemos atacados pela brutalidade do noticirio, pelos homens-bomba, pela estupidez da cultura que gera batalhes de rapazes criminais, sem camisa, obcecados por uma felicidade de consumo impossvel. A violncia das periferias influencia a classe mdia at com gestos, grias e armas. Estamos pagando o preo por nosso descaso com a misria durante dcadas, nosso desinteresse pela desumanizao da vida. No somente as balas nos atingem, mas tambm a imensa boalidade da cultura. Suzane psicopata, mas nossa sociedade tambm o . No h explicao para esse crime. No adianta procurar causas, traumas. Esse crime ficar sempre em aberto. Misterioso, como nosso destino.

99. ARNALDO JABOR. O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR... Fui ver o lindssimo filme do Pedro Almodvar, o Fale com Ela, e sa pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as rvores, as nuvens... Nesse grande filme de Almodvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixo, como uma "doao ilimitada a uma completa ingratido", como escreveu Drummond, alis, o poeta do amor impossvel, que o nico e verdadeiro amor. A vitria do Lula tambm foi uma fome de amor poltica contra a era da tcnica racionalista. Seu governo pode virar at um crime passional ou um folhetim melodramtico, mas, hoje, um grande desejo de happy end para todo o povo. Por isso, pergunto: onde anda o amor? At isso o mercado estragou? Sim. O amor j teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, j foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum. Hoje, o amor, como tudo, est perdendo a transcendncia. No existe mais o amante definhando de solido, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, no existe mais o amor nos levando para uma galxia remota, no existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixo pelo outro, de proteo pessoa amada. Isso est acabando. O amor j foi analisado por todas as cincias, a psicanlise mapeou as loucuras que esto sob sua potica, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistrio impalpvel. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produo. Por isso, o filme de Almodvar to belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denncias. Se eu, um dia, filmar de novo, ser para celebrar o silncio dos amantes ou a beleza do intil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que no sentem mais. O amor no tem mais porto, no tem onde ancorar, no tem mais a famlia nuclear para se abrigar, no tem mais a utilidade do sacrifcio pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. No temos mais msicas romnticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de Fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes "tutti tremanti", nem o formicida com guaran. No se diz mais:"Deus sabe quanto amei!...", mas "Deus nem sabe quantos (as) amei..." A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo" ("Shell que j'aime"), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. H uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossvel de cumprir. Como comer todas as moas da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si s, levaria a uma assexualizao desrtica. A sexualidade finita, no h mais o que inventar. J o amor, no... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossvel sua grande beleza. Claro que o amor tambm feito de egosmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor h um terrvel sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes. Amor e sexo. Mas, hoje o mercado exige a satisfao total no amor ou o dinheiro de volta. Como isso impossvel, deriva para o sexo ou para a seduo. O amor passa a buscar no mais uma entrega, mas um domnio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescncia programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espcie de adoante para justificar, legitimar uma teso ou uma conquista. Os amores duram trs edies de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rpido e quantitativo. As prprias mulheres esto virando dom-juans. Vejam o priplo de jovens atrizes que vo comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingveis para plidos quixotes romnticos. Estamos com fome de amor corts, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrvel bombardeio que a cultura americana est fazendo nos sentimentos invisvel, mas pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana est criando um desencantamento insuportvel na vida social. Tudo tolervel, num arrasamento de mistrios. Vejam a arte tratada como algo desnecessrio, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com nmeros - basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na poltica, no sexo. Por isso, o filme de Almodvar, cheio de compaixo sussurrada, apoiada na trmula beleza dos bals de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicvel de alguma coisa que existe aqum, antes da vida. Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questo poltica. Hoje, podemos tudo, podemos casar at com jacars ou macacas, sem escndalos, desde que no prejudique a produo. Mas, o que invisivelmente est virando uma nova necessidade poltica o amor e seus subprodutos: compaixo, paz, justia. Aposto que vir a um novo "desbunde", um novo movimento hippie, sem utilidade, mas sem melancolia autodestrutiva, vm a marchas pelo amor, porque ningum est agentando mais somente "utilidade" e "desempenho", poder e sucesso. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as rvores, as nuvens, at chegarmos a ns mesmos... E acho que isso vai surgir na Amrica, como foi nos anos 60 - a luta pelos direitos civis ser agora a luta pela beleza da inutilidade.

100. ARNALDO JABOR. CONFISSES SINCERAS DE UM LADRO BRASILEIRO. "Gosto de ser ladro, doutor. Esta palavra tem uma conotao feia, mas a origem dela 'laterones', os sujeitos que ficavam na 'lateral', ao lado dos reis e prncipes. Minha origem , portanto, ilustre. No sou um ladro de galinhas, mas confesso que roubava galinhas do vizinho e at hoje sinto o cheiro das penosas que eu agarrava, prendendo-lhes o bico para evitar cacarejos e ficou-me o gosto do terror do vizinho aparecer e acho que virei ladro pelo prazer desse medo. J fui dono da CAG Ltda., que era da viva de meu ex-scio que, em circunstncias misteriosas, apareceu assassinado no Motel Crazy Love e que, antes de morrer, que Deus o tenha, j tinha transformado a CAG em subsidirias com sede em Miami, a ASS & HOLE Inc., a COCK & DICK participaes, geridas por uma 'holding' em Barbados. Hoje, no roubo por necessidade, doutor; prazer mesmo. Nunca fui pobre, mas preciso da adrenalina que me acende o sangue na hora em que a mala preta voa em minha direo, cheia de dlares, quando vejo os olhos covardes do empresrio me pagando a propina, sua mos trmulas me passando o tutu, ou quando o juiz me d ganho de causa, ostentando honestidade, e finge no perceber minha piscadela cmplice na hora da emisso da liminar, todos sabujos diante de meu poder burocrtico. Adoro a sensao de me sentir superior aos otrios que me 'compram', eles se humilhando em vez de mim. Roubar sexy, doutor. D teso. Semelhante um pouco s brincadeiras no poro onde eu e menininhos 'troca-trocvamos' com pnico de um pai aparecer; roubar tambm me liberta, eu explico, me tira do mundo dos obedientes e me traz quase um orgasmo quando embolso uma bolada, o senhor j conheceu a alegria de andar com 300 mil dlares distraidamente dentro de uma ingnua pastinha e deix-la de propsito ali no balco da lanchonete, tomando um cafezinho sob a ignorncia de transeuntes e pedintes que mal suspeitam que a salvao de suas vidas estaria ali, ao lado do aucareiro? E o prazer de sentir o espanto de uma prostituta, se voc lhe arroja mil dlares entre as coxas, e v sua gratido imediatamente acesa, fazendo-a caprichar em carcias mais sacanas? Conhece, doutor, a delcia de rolar em notas de 100 dlares na cama de um hotel vagabundo, de madrugada, sozinho, comendo castanhas e chocolatinhos do frigobar, em uma cidade remota, onde rolou mais um financiamento de grana pblica? Conhece a delcia de ostentar honestidade em sales, para caretas inconscientes que te xingam pelas costas, mas que te invejam secretamente pelas experincias que imaginam que voc teve? Sabe do deleite de ver suas mulheres te olhando como um James Bond ao contrrio, excitadas, pensando nos colares de brilhantes que poderiam ganhar de mim, o Arsne Lupin, 'charmeur', sorridente, pois todo bom ladro feliz e delicado, principalmente com as damas? O senhor no tem idia, nessa sua obstinada integridade, do orgulho que temos, mesmo quando roubamos verbas de remdios para criancinhas, de agentar o sentimento de culpa que bate em nossa conscincia como mariposas numa janela e conseguir dominar a vergonha e transform-la na bela frieza que faz o grande homem? O honesto triste, doutor, a virtude d lcera, o honesto anda de cabea baixa com baixos proventos, com uma vida limitada, sem conhecer o corao disparado, o gosto cido da aventura, o honesto no sabe da santidade da sordidez, de onde contemplamos o mundo careta com desprezo. Eu sou especializado em bens pblicos, doutor, o que me d mais teso, saber que estou roubando todo mundo e ningum, um dinheiro tradicional que j foi de tantas oligarquias. No Brasil, h dois tipos de ladres, na elite claro, no falo de 'carandirus'. H o ladro extensivo e o intensivo. O primeiro aquele que vai roubando ao longo da vida poltica e ao fim de 30 anos j tem Renoirs, lanches, helicpteros, esposas infelizes e adquire uma respeitabilidade por seu roubo difuso, ganha uma espcie de ttulo de baro ou conde e que, depois, pode se limpar nas artes ou na filantropia. Eu prefiro ser 'intensivo', doutor, me d mais adrenalina, mais p-pum, mais relmpago, uma delcia, doutor, roubar como vingana contra passadas humilhaes, dores de corno, porradas na cara no revidadas. E o prazer da lealdade entre criminosos, doutor, conhece? A telepatia das piscadas, dos cdigos, a delcia do conto-do-vigrio em dupla, quando um diz 'mata' e o outro 'esfola'? J viu, doutor, um capanga seu, um 'armrio' mau quebrando o dedo de um devedor dentro da sala, sob teu olhar, proibindo-o de gritar, enquanto o dedo estala sob a manopla do crioulo? E o dilogo oblquo com algum assassino de aluguel, acertando os detalhes de um prefeito ou empresrio a apagar? E o xtase maior de ver uma execuo, ver as splicas de pavor, enquanto os matadores passam o fio de nilon em volta da garganta do boneco e puxam at ele cair, eu confesso que tive uma ereo vendo essa cena num terreno baldio, debaixo de uma placa de financiamento pblico, e depois tive a maravilhosa sensao de liberdade de chegar em casa no absoluto segredo do crime e beijar meus filhos vendo desenho animado na TV, indo depois tomar um grande banho na Jacuzzi, protegido de tudo. Olhe para mim, doutor. Eu estou no lugar da verdade. Este pas foi feito assim, na vala entre o pblico e o privado. H uma grandeza insuspeitada na apropriao indbita, florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias. A bosta no produz flores magnficas? O que vocs chamam de 'roubalheira', eu chamo de 'progresso', um progresso portugus, nada da frieza anglo-saxnica. So Paulo foi construda com esse combustvel, Braslia foi feita de lindas ladroagens. Tudo que belo e bom nasceu da merda. Esta a tradio do Brasil, doutor..."

101. ARNALDO JABOR. ADORO SEPULCROS CAIADOS E LGRIMAS DE CROCODILO. Eu adoro a esttica da corrupo. Adoro a semiologia dos casos cabeludos sob suspeita, adoro a reao dos implicados, adoro o vocabulrio das defesas, das dissimulaes, as carinhas franzidas dos acusados na TV, ostentando dignidade, adoro ver ladres de olhos em brasa, dedos espetados, uivos de falsas virtudes e, mais que tudo, lgrimas de crocodilo. Todos alegam que so srios, donos de empresas "impecveis". Vai-se olhar as empresas, e nunca nada rola normal, como numa padaria. As empresas sempre so "em sanfona", uma dentro da outra, "en abme", sempre tm "holdings", subsidirias, so firmas sem dono, sem dinheiro, sem obras, todas vagando num labirinto jurdico e contbil que leva a um precioso caos proposital, pois o emaranhado de ladres dificulta apuraes. Me emociona a amizade dentro das famlias corruptas, principalmente no Nordeste. Ohh, Deus! L, creio eu, h mais amor do que entre picaretas paulistas ou cariocas. L existe uma simbiose maior no parentesco, mais calor humano, mais "fio de bigode". So inmeros os primos, tios, ex-scios, ex-mulheres que assumem os contratos de gaveta, os recibos falsos, todos labutando unidos, como Ali-Babs sincronizados. Baixa-me imensa nostalgia de uma famlia que no tenho e fico imaginando os clidos abraos, os sussurros de segredo nos cantos das casas avarandadas, o piscar de olhos matreiros, as cotoveladas cmplices quando uma verba liberada pela Sudam em 24 horas, os charutos comemorativos; tenho inveja dos vastos jantares nordestinos, repletos de moquecas e gargalhadas, piadas, dichotes, sacanagens to jucundas, to "coisas nossas", to "alagoas", que me despertam ternura pela preciosidade antropolgica de imagens como a piscina verde em Canapi, a barriga de Joozinho Malta (lembram?), a careca do PC Farias e as sobrancelhas de Jader. Esses signos e smbolos muito nos ensinaram sobre o Brasil real. Adoro tambm ver as caras dos canalhas. Muitos so bochechudos, muitos tm cachaos grossos, contrastando com o "style" dos populares magros de sEca, de fome, proletrios chics, elegantrrimos pela dieta da misria. Todos acumulam as mesmas riquezas:piscinas, fazendas, lanches, Miamis, todos tm amantes, todos tm mulheres desprezadas e tristes, com filhos oligofrnicos, deformados pelas doenas atvicas dos pais e avs. Aprecio muito os bigodes e bigodinhos. Nas oligarquias, les no usam a bigodeira severa de um Olvio Dutra, babando severidade, com um eco de stalinismo e machismo gacho, no. Os bigodes corruptos so matreiros, bigodes que ocultam origens humildes criadas farinha d'gua e batata-de-umbu, na clara ocultao de um racismo contra si mesmos, camuflando os ancestrais brancos cruzados com ndios e negros, raquticos por sculos de patrimonialismo. Tambm gosto muito do vocabulrio dos velhacos e tartufos. delicioso ver a ciranda das caras indignadas na TV, as juras de honestidade, delicioso ouvir as interjeies e adjetivos raros :"ilibado", "estarrecido", "despautrio", "infmias", 'aleivosias"... So palavras que ficam dormindo em estado de dicionrio e s despertam na hora de negar as roubalheiras. So termos solenes, ao contrrio das gravaes em telefone, onde s rolam palavres: "Manda a grana logo para o F.d.p. do banco, que um grande #@, seno eu vou #@ a me deste #&@." Outra coisa maravilhosa nos canalhas a falta de memria. Ningum se lembra de nada nunca: "Como? D. Sirleide, aquela mulher ali, loura, popozuda, de minissaia? No me lembro se foi minha secretria ou no." E o aparente descaso com o dinheiro? Na vida real, eles cheiram a grana como perdigueiros e, no entanto, se justificam:"Ihhh... como ser que apareceu um milho de reais na minha gaveta? Nem reparei. Ahhh... essa minha memria!..." Adoro tambm ver as fotos das placas da Sudam. Sempre aparece um terreno baldio com a placa da Sudam e o nome pomposo da empresa fantasma, onde, s vezes, ao longe, um burro pensativo pasta... E o objetivo "social" dos financiamentos da Sudam, Sudene? Nunca uma empresa para desenvolver algo; so ranrios de 10 milhes, fbricas de componentes para piscinas, empresas de ursinhos de pelcia, ou essa maravilhosa Usimar, que ia custar 1 bilho de reais para fazer peas de carro, mais cara que trs Generais Motors na caatinga. Amo tambm ver o bal jurdico da impunidade. Assim que se pega o gatuno, ali, na boca da cumbuca, ali, na hora da "mo grande", surgem logo os advogados, com ternos brilhantes, sisudos semblantes, liminares na cinta, cnica serenidade de cafajestes e, por trs deles, vemos as faculdades malfeitas, as chicaninhas decoradas, os diplomas comprados. E logo acorrem os juzes das comarcas amigas, que do liminares e mandados de segurana de madrugada, de pijama, no slido apadrinhamento oligrquico, na cordialidade forense e freguesa, feita de protelaes, dasaforamentos, instncias infinitas, at o momento em que surge um juiz decente e jovem, que condena algum e logo chamado de "exibicionista"... Adoro as imposturas, as perfdias, as tretas, as burlarias, os sepulcros caiados, os cantos de sereia, as carcias de gato, os beijos de Judas, os abraos de tamandu. Adoro tudo, adoro a paisagem vagabunda de nossa vida brasileira, adoro esses exemplos de sordidez descarada, que tanto nos ensinam sobre o nosso Brasil. Sou-lhes grato pelas sujas lies de antropologia, verdadeiros "Gilbertos Freyres" da endmica sem-vergonhice nacional. S um sentimento me atormenta o corao: no sei por que, tambm me passa pela cabea a imagem dos corruptos chineses condenados e ajoelhados no cho, com o soldado alojando-lhes uma bala de fuzil na nuca. Penso nessas cenas e sinto uma grande inveja da China? Por que ser?

102. ARNALDO JABOR. AMOR DOS ANOS 60 DEIXAVA MUITO A DESEJAR. Eu sou do tempo em que as namoradas no davam. . Estou enojado dos dias de hoje, nesta torpe funo de comentarista, em que as notcias batem-me na cara como pedras. Estou cansado. Volto ao passado, sugado por um tnel de flash-backs. Pois ; as namoradas no davam. A plula foi a maior revoluo cultural dos anos 60, pois as meninas, com pavor de engravidar, deixavam quase tudo menos o principal e os rapazes iam para casa com dor nos rins e perpetravam masturbaes fericas, ejaculando nos banheiros como foguetes Lua. Os meninos de hoje vivem em harns. Estes "pequenos canalhas" que eu tanto invejo torcem o nariz para deusas de 18 anos, entediados, enquanto, no meu tempo, quantas meninas eu tentei empurrar para dentro de apartamentos emprestados, ficando elas empacadas na porta, quantas unhas quebradas em soutiens inacessveis, quantas palavras gastas em cantadas interminveis, apelando para Deus, para Marx, para tudo, desde que as saias cassem, as blusas se abrissem, as calcinhas voassem. No havia motis, ento. Namorvamos em qualquer buraco: terrenos baldios, cantos da praia de noite; eu confesso que j "amassei" uma namorada dentro de uma grossa manilha encalhada na Praia de Ipanema. Os carros eram poucos e deixavam um rastro de silncio depois que passavam. Havia menos gente. Aconteciam menos coisas. As pessoas eram mais individualizadas - fulano, sicrano, rua tal, nmero tal, bar tal, comida tal, um dia depois do outro... Havia tempo para o tempo passar. Mas, deixemos de filosofias e fiquemos na sacanagem. Minha primeira namorada no era mais virgem. Era uma raridade. Era uma morena febril, agressiva que dirigia uma Rural Willis do pai. Eu, que vivera at ento na horrenda diviso entre puteiros e romances lricos, entre lgrimas e baldes de despejo, achei que ia comear meu primeiro amor adulto. Mas, acontece que minha namorada resolvera reconstituir sua virgindade, recusando-se a perpetuar comigo seu "erro" do passado. Arrependera-se de ter cedido uma nica e sangrenta vez ao "canalha" que me antecedera e, depois de lgrimas em confessionrios, resolvera manter sua pureza intacta. Para mim, foi um calvrio de desejo insatisfeito. Na Rural Willis do pai dela, quase tudo era permitido, mas tudo sfrego, apavorado, desespero e gozos no ar, ejaculaes no painel - nada terminava. O apartamento era a grande esperana; se a menina entrasse, depois era mole. O problema era entrar. "No, no adianta, Arnaldo, a eu no entro!..." Eu, jovem comuna, tinha a chave de um "aparelho"secreto do Partido, ali na Rua Djalma Ulrich, com um sof-cama rasgado com o algodo aparecendo, para onde eu, da "base" cultural da UNE, tentava levar, sem sucesso, menininhas de esquerda, com triplo medo: sentimento de culpa, medo de broxar e de ser apanhado pelos comunistas "caxias". "No. A eu no entro!", gemia minha namorada. Eu tentava argumentos que iam de Sartre e Simone at a revoluo. "Mas, meu bem... deixa de ser 'alienada'... A sexualidade um ato de liberdade contra a direita..." E ela: "No entro! Isso seria tambm uma indisciplina pequeno-burguesa.""Mas, meu anjo - eu suplicava -, no h essncia, s existncia... Inclusive - disparei - voc tem que assumir que no mais virgem!" E ela, com boca de nojo: "Eu sabia que voc ainda ia jogar isso na minha cara!!!" E fugia pelas escadas. O medo era a barriga, medo que a plula matou anos depois, mas era medo tambm de um labirinto de liberdades assustadoras, de apego a vestidos de debutantes, organdi branco, a vus de noiva esvoaando nas almas romnticas. Ningum dava. As poucas que o faziam eram apontadas pelos rapazes, com fascnio e suspeita, um respeito desconfiado. Quantos teriam coragem de casar com elas? Lembro de uma menina da universidade que entrava num transe meio epilptico, de olho virado em alvo, que "dava" num sacrifcio ritual de gritos e choros do qual acordava sem lembrar de nada... Era um sucesso entre comunas caretas, uma espcie de "louca da aldeia". Por isso, homens falando em "liberdade"viviam em "rendez-vous" e em aventuras com mulheres casadas, infelizes matronas (uma que levei ao "aparelho" chorava pelo marido militar e gemia de vingana: "Ele odeia comunistas... ahh... se ele soubesse..."). Ou ento eram pobres empregadas carentes, "lmpens" de rua (como se dizia); um companheiro nosso papou at uma cega do Instituto Benjamim Constant. E havia tambm o recurso a mulheres turistas e estrangeiras. Um comuna amigo meu "traou" uma funcionria do consulado americano, a quem ele obrigava a cham-lo de "Fidel Castro" (esse j foi at ministro...). Tudo era complicado, proibido, ao som do rock e bossa nova. ramos assim em 1962. Aos poucos, melhorou... Em 63, conheci minha primeira grande paixo, minha vertigem e cegueira, pois, antes da plula e sem recuos, ela tinha adentrado gloriosamente o "aparelho"secreto do Partido na Rua Djalma Ulrich e, em meio a livros da Academia de Cincias da Unio Sovitica, sob um pster de Lenin e uma reproduo dos Girassis de Van Gogh, "dera" para mim com amor e coragem. Foi um raio de triunfo em minha juventude. Lembro at hoje que, l embaixo, na loja de discos, tocava o sucesso da poca, "Chove Chuva Chove sem parar...", com Jorge Ben (ou seria Bicho do Mato?) No sei. Mas, at hoje guardo na alma aquela tarde mgica e revolucionria de 63, com msica do Jorge ao fundo, com a mulher com quem vivi at 69, ano em que ela resolveu me abandonar por outro, quando o grande sucesso musical era tambm de Jorge Ben: "Sou flamengo e tenho uma nega chamada Thereza...", o que fazia esse jovem comuna chorar pelas ruas, ao ouvir seu nome nos rdios e nas esquinas...

103. ARNALDO JABOR. VIOLNCIA VIROU PROBLEMA DE ESTADO-MAIOR. Sempre que escrevo sobre a violncia me d uma sensao de inutilidade. Quando vejo os movimentos de solidariedade, bandeiras brancas, pombas da paz, atores nas ruas, burgueses falando em cidadania, me d uma sensao de perda de tempo. Ns tratamos os criminosos como se fossem "desviantes" de nossa moral, como gente que se "perdeu" da virtude e caiu no "pecado", no "mundo do crime". No nada disso. Eles so os novos empregados de uma multinacional. O nico emprego que lhes foi oferecido no ltimo sculo:a megaempresa da cocana. Ela trouxe o poder sobre as comunidades que, somado ignorncia e misria, criou a crueldade sem limites, a bruta guerra animalesca. Os bandidos violentos so quase uma mutao da "espcie social", fungos de um grande erro sujo do qual ns somos cmplices. Hoje, ns que ficamos caretas diante deste mundo perifrico que no se explica, gerando outra tica, funrea, sangrenta. A misria armada uma outra nao, no centro do Insolvel. Essa gente era annima; esto ganhando notoriedade na mdia. So vazios objetos de uma corrente de p; ns, pequeno-burgueses, que vamos neles at uma vaga conscincia "poltica" de marginais. Achamos at que eles querem calar a imprensa. Nada. Mataram por matar, chamaram o Tim de X-9 e "j era" - disseram eles. Ns que estamos lhes fornecendo uma "ideologia". Mas, no quero ficar deitando sociologia barata sobre a violncia. Quem sou eu? Mas, vejo com um mnimo de bom senso que os viles tambm somos ns. Eles so a prova de nosso despreparo. Os incapazes somos ns, ainda crentes de leis inteis, de coeres superadas, de polcias falidas. Ns no fizemos nada quando as favelas eram pequenas. A misria era dcil - podia ser ignorada. Agora, se no agirmos, isso vai virar uma endemia eterna. A lei no consegue nem instalar anticelulares nas cadeias e fica encenando comboios para a mdia, com cem policiais pra levar o Beira Mar para outra cadeia. Ningum consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pblica esto engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que so facilmente superados pela eficincia "ps-moderna" dos bandidos, diretamente ligados ao ato, ao fato, instantaneidade do mal, e sem freios ticos. Eles tm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, cincia, democracia e, a, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o "shopping center". Eles so uma empresa moderna. Ns somos o Estado ineficiente. Eles agilizam mtodos de gesto. Eles so rpidos e criativos. Ns somos lentos e burocrticos. Eles lutam em terreno prprio. Ns, em terra estranha. Eles no temem a morte. Ns morremos de medo. Eles so bem armados. Ns, de "trs-oito". Eles ganham muita grana. (Um "aviozinho" de 15 anos ganha mais por semana que um PM por ms). Eles esto no ataque. Ns, na defesa... Ns nos horrorizamos com eles. Eles riem de ns. Ns os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaos. Eles so protegidos pela populao dos morros, por medo ou vizinhana. Nossas polcias so humilhadas e ofendidas por ns. Ningum suborna bandido. Eles compram policiais mal pagos. Um cara que ganha 700 paus por ms no tem nimo para combater ningum. Eles no esquecem da gente nunca, pois somos seus fregueses. Ns esquecemos deles logo que passa uma crise de violncia. A droga e as armas vm de fora. Eles so globais. Ns somos regionais. Alguma vitria s poder vir se desistirmos de defender a "normalidade" de nosso sistema, pois no h mais normalidade nenhuma;precisamos de uma urgente autocrtica de nossa ineficincia. O combate ao crime passa pelo combate ao nosso descaso e incompetncia. A luta contra o trfico, bvio, comea l longe, nas fronteiras. Por l entram as armas e o p. No adianta subir e descer de morros. Temos de fechar fronteiras. A luta contra o crime no mais uma luta policial; no mais a Lei contra o Pecado. No. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de Estado-Maior. Sim. Trata-se de uma luta poltica e, mais que isso, uma luta policial militar. Acho que tem de haver sim uma sria articulao das Foras Armadas com as polcias. Tem de haver generais estudando estratgias e logsticas de cercos e ataques. Meses de estudo, planos secretos, dinheiro, muito dinheiro e milhares de homens com armas modernas. E tudo isso coordenado com campanhas de esclarecimento e de proteo s comunidades que eles "protegem". "Ahh... - alguns vo gritar - o Exrcito no foi treinado para isso!" Pois, que seja treinado. Trata-se de uma guerra. Ou no? No combateram a guerrilha urbana, com implacvel ferocidade e competncia? Aposto que outros diro: "O Exrcito no para crimes comuns; para guerras maiores..." Para qu? A invaso da Argentina? A guerra que se anuncia subversiva no pior sentido. No aspira a uma ordem nova. S quer uma vingana obtusa e a manuteno da misria como refgio. No fundo, muitos no admitem a ao das Foras Armadas, porque desejam ocultar a derrota de um sistema legal e policial. A guerra reconhecimento do fracasso da poltica. Pois que seja. Nosso fracasso tem de ser assumido. Do contrrio, continuaremos atrs das grades de nossos condomnios, dizendo: "Que horror!" para sempre. Crime hediondo que isto no seja uma prioridade nacional. A tragdia das periferias brasileiras me lembra um terremoto ignorado, para o qual ningum enviou patrulhas de salvamento. J houve a catstrofe e todos ns tentamos esquec-la, trmulos de medo, blindados, com os "socialites" cheirando o p malhado de otrios, perpetuando esse poder paralelo, que tende a crescer.

104. ARNALDO JABOR. NAS PERIFERIAS, A 'PS-MISRIA' CRIA OUTRO PAS. Voc j foi periferia? J pisou na lama - no nas poas-d'gua dos Jardins - mas nas avenidas de lama, casas de lama, j visitou um buraco quente de noite, quando as luzes mortias no iluminam teus passos trmulos, em ruas onde no h um resqucio de beleza ou esperana? No falo tanto das favelas cariocas, barra-pesada, sem dvida; mas, no Rio, ainda temos a msica, uma cultura popular, uma ginga, uma tradio de malandragem, h a paisagem que te coopta, h o crack, o terror, tudo, mas h o mar ao longe, h um certo orgulho de se ver temido nos sinais de trnsito, h um certo charme na desgraa. Falo mais da periferia de So Paulo, onde nada mitiga o horror da mesma paisagem se estendendo por vilas e bairros, a mesma cor, a mesma casa, a mesma merda, os mesmos tijolos sem calia, o mesmo infinito labirinto sem cultura ou amor. H quatro filmes importantes saindo agora, sobre a mesma tragdia social das periferias: O Invasor, de Beto Brant, Estao Carandiru, de Hector Babenco, Cidade de Deus, de Fernando Meireles e Katia Lund, e O Homem do Ano, de Jos Henrique Fonseca. Os quatro filmes mostram esse novo mundo que cresce como um cncer nossa volta e do qual s queremos distncia e segurana. Mas os cineastas esto esfregando em nossa cara estas 'cisjordnias do lixo', estas faixas de Gaza mortas, estes 'talibans' que surgem de suas frestas. No filme O Invasor j d para sentir seu impacto raiando como um sol negro sobre ns. O Invasor excepcional pela maneira de ver esse mundo 'sujo' que subitamente invade a tranqila sordidez de uns burgueses criminosos. Neste filme no se retratam mais os pobres como uma espcie de 'decadncia' dos ricos, como se os excludos fossem seres 'aqum' de nosso conforto. No h mais a idia de 'proletrios' ou de 'infelizes' ou de 'explorados'. Eles nos mostram o Insolvel, perplexos com o mistrio da misria. Eles no sabem o que fazer com isso, eles no se comprazem mais na denncia de uma injustia. Eles esto diante de uma espcie de Ps-Misria. Isso. A 'ps-misria' est gerando uma nova cultura, se que esta palavra se aplica vida esmagada tentando existir. Na minha gerao, a misria era um contradio do capitalismo, a ser minorada pela justia social. Romnticos, ns soframos com a misria... dos outros, claro. Ns viramos com a 'revoluo' (ahh bons tempos...). Mas, a misria era 'l', nos morros, na seca, longe e gerava o crime como um desvio do comportamento 'normal'. O crime casual legitimava nosso mundinho 'bom'. Hoje, o crime nos envolve, nos incrimina. No h mais inocentes. Hoje, ns que ficamos caretas diante deste mundo perifrico que no se explica, gerando outra tica, funrea, sangrenta, muito diferente da nossa 'bondade' de privilegiados. A misria era nosso problema existencial. Hoje, a misria uma outra nao, no centro do Insolvel, intocada pela salvao e pela esperana poltica. Voe de helicptero durante meia hora sobre um mundo de lama e atraso e me diga como resolver esse problema, como acabar com isso? Como? Como, PT? Como, tucanos? 'Isso' ficou tanto tempo ignorado, que j virou 'aquilo'. Isso no est mais no campo de nossos poderes. E no falo da violncia. Falo da 'normalidade' , de uma cultura bruta e nova. Antigamente, pobres e assassinos pareciam no ter vida interior. A TV, a comunicao democratizante do consumo, fez surgir uma massa miservel, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de desejo, a violncia como fome de expresso. No mais inferioridade; diferena. Na poca do Cinema Novo, a causa era a 'estrutura social'; depois, na contracultura dos anos 70, havia uma atrao fatal pelos marginais-heris e, hoje, temos o mistrio da 'anomia', do nada. Deus morre ali, Marx morre; eles que esto elaborando a prpria 'teoria'. No filme de Beto Brant, h uma cena antolgica, quando o 'rapper' negro Sabotage - que existe de verdade - faz o papel dele mesmo e canta um 'rap' num escritrio de burgueses perplexos. Ali, o documento invade a fico. um ET contra os 'brancos' e, se h desamparo ali, dos branquelos. Antes havia uma 'esperana' terica; hoje h o absoluto impasse. H 40 anos talvez houvesse uma soluo higinica, assistencialista. Hoje no adianta mais o papo de luta de classes, de conscientizao, cidadania... Eles se conscientizaram sozinhos, em outra direo. Tarde demais, polticos egostas, trata-se de um muro de chumbo, com razes fundas. Quem resolve? Com que verbas, com que direito, com que poderes? E quem disse que eles ainda querem que ns os 'salvemos'? J virou 'science fiction' de misria, j um Blade Runner de lama. Eles ainda tm muito a tirar de nosso mundo:granas, assaltos, vinganas. Ns somos a riqueza deles, sua mina. E ns, o que temos a tirar deles? O trabalho mal pago de empregadas e biscateiros? Bem... no vale mais a pena. Nosso prejuzo maior; o trade off nos desfavorvel. Restam-nos coisinhas existenciais; eles nos ensinam a convivncia com a tragdia do mundo, com opacidade da vida, um existencialismo emergencial, sangrento. Assusta-me o dio difuso que eles nos dedicam; vocs j repararam que no h um s muro, uma reles parede em So Paulo e no Rio sem um grafite imundo e ilegvel? Assusta-me a perda de energia de milhares de jovens na madrugada, dedicados a se vingar da cidade, emporcalhando-a. As pichaes so a literatura da periferia que nos denuncia. Para entender o Brasil de hoje, para qualquer ao de governo, o fundamental entender as periferias. nosso problema mais profundo e urgente. Que vamos fazer, burgueses escravistas de 500 anos? Estes novos filmes so importantssimos. No para nos fornecer certezas nem consolos de boa conscincia. Mas para nos mostrar que ns somos os 'excludos' deles. Eles no so nosso problema; ns que somos o problema deles.

105. ARNALDO JABOR. NIBUS 174 UM FILME GENIAL SOBRE NOSSO DESTINO. O Lula tem de ver este filme: nibus 174, um documentrio de Jos Padilha, montado com os fragmentos assustadores da TV, no dia em que o nibus 174 foi seqestrado no Rio por um rapaz muito doido, sobrevivente da chacina da Candelria. o filme mais importante dos ltimos tempos! Mais que um filme: uma aula de Brasil para todos os que querem mudana. O pobre-diabo no ia matar ningum mas, triturado nos dentes da misria carioca, entre prises e cola cheirada, entre crack e porrada e sangue e bosta, viajou at o clmax do seqestro, fechando um roteiro de filme trgico, com princpio e fim. Ele gritava o tempo todo na janela do nibus, (lembram-se?): "Isto no filme no! pra valer!!!" Era. Um filme sobre ele mesmo em que ele atuou, visto por 60 milhes de brasileiros. Todos, jovens, velhos, donas de casa, chefes de famlia, todo mundo tem de ver esse filme. J. L est escrito o nosso destino. Todos tm de v-lo para entender por que somos inocentes e culpados. Trata-se do retrato do Brasil de hoje, com todas as conexes do horror que se montou nas periferias do Rio e So Paulo: a falta de preparo da polcia, a misria dos equipamentos, a estupidez poltica que impede a eficincia pblica, a massa imunda de egosmo, desateno, escravismo e capitalismo selvagem que criaram a insolvel encruzilhada em que nos encontramos. Como deixamos isso acontecer? Qualquer governo estadual ou federal tem de criar um programa para acabar com isso. E no tem mais papo de "prioridades oramentrias"... A pera sangrenta de misria e crime tem de ser prioridade nacional. Os filmes como o extraordinrio Notcias de uma Guerra Particular, Cidade de Deus ou Carandiru (que vem a) mostram que a realidade no Brasil muito mais incrvel que qualquer fico. No vou fazer literatura aqui no. Dane-se este artigo, este meu texto intil, mas esse bode das periferias mais urgente que a dvida externa, que o supervit primrio, mais urgente que petrleo, produto interno. Tem de haver um urgente pacto social, seminrios de especialistas para se encontrar uma soluo, com muita verba. vergonha demais que no haja um Congresso srio liderado por gente como Yvonne Bezerra e cientistas polticos para tirar as crianas da morte em vida na rua, impedir que uma me grvida de gmeos seja degolada na frente do menino, como foi a me de Sandro, o seqestrador do nibus 174. Tentem qualquer coisa, qualquer plano serve, mesmo que errado. Alguma coisa tem de ser tentada. sujo demais o que acontece debaixo de nossos olhos fechados de medo. O governo federal tem de imediatamente alocar verbas para isso. Arrocho fiscal? Dane-se. Tem de arranjar grana, no pode continuar o horror de nossas prises, masmorras pr-medievais, como mostra uma das mais espantosas cenas do nosso cinema, quando os presos gritam que morrer seria melhor que ficar naqueles calabouos. Nossa infncia pobre no pode continuar sendo tratada como um caso de polcia ou como um "desvio da norma", como fala a linguagem jurdica pomposa, como se eles fossem cidados que "escolheram" o "pecado", o "crime". No. Eles no so cidados, pois s so tratados assim na hora do julgamento; so pobres animais feridos e loucos, so aberraes que ns criamos, so nossos filhos com o demnio, nossos dejetos que criamos por 400 anos. cruel demais que no haja nem que seja uma soluo assistencialista, qualquer coisa para proteger essas crianas de rua. Esse filme mostra um terremoto ignorado para o qual no mandamos patrulhas de salvamento. Eu escrevi no dia do seqestro: "A verdade que estamos impotentes diante dos fatos, no s no crime como na poltica, pois as coisas passaram a mandar nos homens e os governos ficaram ficcionais. O seqestro-pastelo foi um exemplo claro dessa impotncia. Os fatos esto muito alm das interpretaes. S dispomos de adjetivos e a realidade se move com duros substantivos." S temos protestos ticos, expresses de horror e nojo diante de um labirinto de coisas concretas que, como uma favela de substantivos, se estende insoluvelmente pelo Pas. Esta tal "violncia" no tem soluo. S seria resolvida por uma conjugao de mudanas sociais, polticas, que nenhum governo tem condies de efetuar. Esse pobre-diabo quis nos chocar com sua misria insuportvel, sua bravata pobre, com a ilgica de seu comportamento. Ele quis nos ensinar alguma coisa, mostrar que era um estorvo sim, um trambolho, um "bode preto" em nosso sossego. To ridculo era aquele menino seqestrando um nibus sem motivo que todos ansivamos por v-lo morto, como uma barata, um rato que estragava a linda tarde carioca, para que acabassem logo com aquela chateao, aquela zoada, e restaurassem o nosso sentimento de "normalidade". Assistimos a um show de peripcias sangrentas: marginal muito louco contra policiais babacas sem equipamento, sem comando, sem treinamento. Tudo formal, tudo adjetivo, tudo de mentira - polcia de mentira, criminoso de mentira e mulher morta de verdade. S isto aconteceu: um nada com final sangrento. Esta nossa angstia; mais que medo, estamos com vergonha do absurdo de nossa mentirosa e fracassada organizao social. Em tudo fica provado que o principal defeito brasileiro a ineficincia, deixar as coisas pela metade, errar o alvo constantemente. Nunca nos importamos com as favelas. Agora, com o medo, pouco a pouco ao menos, est crescendo a conscincia de nossa misria insuportvel. nibus 174, alm de ser um dos melhores filmes de nosso cinema, um crescimento para nossa conscincia poltica. Vejam esse filme, vejam esse filme, chorem com ele! Falem para todos que no d mais p vermos o show da misria que comea com menininhos fazendo malabarismos nos sinais de trnsito e termina tratando-os como ratos mortos nossa frente.

106. ARNALDO JABOR. OS TERRORISTAS QUEREM MATAR O AMOR E A ALEGRIA. A discoteca explodiu em sangue em Bali e eu pensei, com dio, por um segundo:"Por que no jogamos logo uma bomba atmica em Meca e torramos aqueles milhes de rabes sujos?" assim que comea a avalanche do irracionalismo. O 11 de setembro foi um ataque ao mercado e ao trabalho; Bali foi um ataque ao prazer, foi um ataque a tudo que amamos: a alegria, o sexo, a msica, a liberdade, a beleza. Para eles, ns somos uns ces infiis a destruir. E no tem negcio, no tem papo-vaselina nem diplomacia, estamos condenados. Isso muda nossa vida, cultura, poltica, porque agora o mundo no se v diante de um problema; o mundo se v diante do Insolvel. Um problema pressupe soluo; mas, no h mais soluo. O problema somos ns, os demnios que impedem o Califado eterno de Al. E no s o terrorismo que no tem soluo. A migrao de excludos na Europa no tem soluo, no h soluo para o Iraque, para o duelo Sharon-Arafat, no h soluo para ndia-Paquisto nem para a frica nem para o trfico, no h soluo nem no Rio nem na Colmbia, no h soluo para a misria, para a imbecilizao pela cultura de mercado para as massas. A prpria idia de "soluo" Ocidental, do sculo 18. Para o Isl, no h nem problema - tudo estava escrito. Os americanos, que vivem em funo de "resolver" as coisas, esto desesperados, pois tero de viver sem soluo - o inferno dos obsessivos... E da? Bem, amigos leitores, vamos encarar: o mundo sempre foi uma bosta. S que, agora, parece que todos os tumores esto vindo a furo, todos os conflitos esto explodindo. E tudo, de repente, como um ataque epiltico. De uma forma repugnante, a verdade atual apareceu, pois nem lembrvamos da existncia do Isl. O terror insolvel talvez nos torne mais humildes diante da vida. Teremos de ficar mais "orientais", mais "fatalistas", mais conformados com o erro do mundo. Acaba a idia de que, um dia, chegaremos "l". L, aonde? A uma sociedade boa, justa, pacfica? "Nonada", jamais. Acabou a idia de uma grande "ptria" ocidental-americana, organizando a sociedade como um parque temtico, um supermercado ou uma disneylndia. A globalizao s conseguiu "globalizar" o terrorismo, emprestando tecnologia misria. Mandamos os McDonald's; eles nos mandam homens-bomba. O terror trouxe de volta uma neoguerra fria: o medo, a face da morte que andava escondida, sublimada nos filmes, na gargalhada infinita do "entertainment". O terror acabou com nossa idia de "finalidade", de "projeto". Nosso projeto foi reduzido a controlar os fanticos da Al-Qaeda, os bodes pretos da misria e da superstio. Nosso projeto localizar bueiros com bombas e cartas venenosas. Esvaziou-se nosso desejo de tudo controlar, a busca do destino sem acontecimentos, sem sustos, sem morte sbita. Acabou o happy end, a lgica, o princpio, o meio e o fim. A cultura de massas tenta controlar a morte por sua transformao em espetculo. A fico dos filmes catstrofe sublimava nosso medo. Agora, a morte no mais estar num leito burgus com extrema-uno e famlia chorando, a morte ser um cachorro pelas ruas, atacando de repente. Como o filme realista que Osama fez. Vai acabar aos poucos o sentimento ocidental de superioridade, acaba a fleugma, a displicncia "debonnaire", acaba a "coolness", pois o homem-bomba desbancou o homem-cool; surgiu o horrendo "outro", sujo e mortfero, suicidando-se s gargalhadas. O terror est nos fazendo viajar no tempo. Em 30 minutos, fomos jogados de volta Idade Mdia, terminando com o ritmo veloz do progresso e instalando a pacincia oriental, a lentido da vingana fria. Acabou o drama, esse "banho-maria" da infelicidade. Agora, ou teremos tragdia ou chanchada. A arte ficou intil, quase ridcula diante das "instalaes" terroristas, os defensores dos direitos humanos ficaram de mos abanando, acaba a melancolia diante da realidade bruta, o surrealismo virou piada diante das ondas de antrax, o mito do indivduo livre e indivisvel dar lugar ao indivduo esfacelado por bomba, coberto de pizzas sangrentas, os mortos cados sob a msica "tecno" em Bali, no mais belo lugar do mundo, assassinados por um DJ suicida. Acabaram os frutos produtivos da reforma protestante do sculo 16. Osama nos joga de volta ao ano 700, quando surge o guerreiro Maom para iniciar uma guerra desigual que rola h 2 de mil anos, sem quer percebssemos - uma guerra desigual: o Deus ocidental passivo diante do violento Maom, armado at os dentes. Os fanticos do Isl no querem construir nada. J esto prontos. J chegaram l. J vivem na eternidade. Querem apenas destruir o Demnio - que somos ns. A guerra assimtrica no s pelos absurdos exrcitos carssimos contra um s homem invisvel, mas tambm porque s a Amrica tem uma ideologia. Eles tm a teologia. Tanto o socialismo como o capitalismo surgiram do racionalismo ocidental. O Isl chega e acaba com a filosofia; fica s vida contra morte. O Isl transcendeu o poltico h muito tempo. Suas multides jazem na misria felizes, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dvida e do medo. Sua obedincia ao Coro lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas at como matar "ces infiis". Os miserveis amam a prpria misria. Sua f sem limites a grande alegria e sossego das classes dominantes teocrticas e petrolferas. Albert Camus disse: "O suicdio a grande questo filosfica de nosso tempo" e no sabia que estava sendo proftico. Descreveu tambm o mito de Ssifo, o homem condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra morro acima. o nosso novo destino. O nico jeito sermos felizes assim mesmo. Como ele escreveu: " preciso imaginar Ssifo feliz..." Nossa felicidade ter a morte sempre do lado. "Il faut imaginer Sysiphe heureux..."

107. ARNALDO JABOR. OS HOMENS DESEJAM AS MULHERES QUE NO EXISTEM. Est na moda - muitas mulheres ficam em acrobticas posies ginecolgicas para raspar os plos pubianos nos sales de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e no mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, cus!...) me fazem pensar em... Hitler. Silicone, plos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depresso, me sinto mais s, diante de tanta oferta impossvel. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrncia grande para um mercado com poucos consumidores, pois h muito mais mulher que homens na praa (e-mails indignados viro...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e s vejo paisagens; no vejo pessoas com defeitos, medos. S vejo meninas oferecendo a doura total, todas competindo no mercado, em contores erticas desesperadas porque no tm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram to nuas no Brasil; j expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, nus. O que falta? rgos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistvel? Muitas tm boquinhas tmidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carcias, de romance!..." Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doura com loucura e todas ostentam uma falsa teso devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem. Ostentam um desejo que no tm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a no incomodar com chateaes os homens que as consomem. A pessoa delas no tem mais um corpo;o corpo que tem uma pessoa, frgil, tnue, morando dentro dele. Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraso de mercado, ltimo andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas so o coroamento de um narcisismo yuppie, so as 11 mil virgens de um paraso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens? Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocs j viram essa moa? a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrtica, perfeita, a imensa boca rsea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solido e me pergunto: "Onde est a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde est ela?" Ela deve ficar perplexa diante da prpria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez at com um vago cime de seu prprio corpo. Daniela to linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..." Queremos percorrer as mulheres virtuais, visit-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde esto elas? Tanta oferta sexual me angustia, me d a certeza de que nosso sexo programado por outros, por indstrias masturbatrias, nos provocando desejo para me vender satisfao. pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moas existem, realmente. Elas existem, para alm do limbo grfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, no estariam nas revistas sexy, pois no h mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, so to perfeitas que parecem dispensar parceiros, esto to nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos harns virtuais inventados pelos machos. Elas tm de fingir que no so reais, pois ningum quer ser real hoje em dia - foi uma decepo quando a Tiazinha se revelou tima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva. Infelizmente, impossvel t-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeioando a cada ano. A cada mutao ertica, elas ficam mais inatingveis no mundo real. Por isso, com a crise econmica, o grande sucesso so as meninas belas e saradas, enchendo os sites erticos da internet ou nas saunas relax for men, essa rplica moderna dos harns rabes. Essas lindas mulheres so pagas para no existir, pagas para serem um sonho impalpvel, pagas para serem uma iluso. Vi um anncio de boneca inflvel que sintetizava o desejo impossvel do homem de mercado: ter mulheres que no existam... O anncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa a utopia masculina: satisfao plena sem sofrimento ou realidade. A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Iluso toa. A "libertao da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". isso a. E ao fechar este texto, me assalta a dvida: estou sendo hipcrita e com inveja do erotismo do sculo 21? Ser que fui apenas barrado do baile?

108. ARNALDO JABOR. EST ROLANDO O CORO DESAFINADO DOS CANDIDATOS. Lula curvou a cabea sobre o prato e orou: "Que Jesus nos d sempre o po..." - sob o olhar paternal do bispo Rodrigues, do PL e da Igreja Universal. Enquanto rezava, Lula pensava: " dura a vida de um revolucionrio. Terei de me aliar a estes exploradores da f para ser eleito. Oh... que contradio... deve ser a tal 'contradio secundria' de que falava Mao e que o Genono cita tanto. Tudo bem. Eu me uno ao PL e, depois, no poder, eles que se danem..." Enquanto ele orava, o bispo Rodrigues do PL pensava:"Esse comuna acha que nos enrola. Ele est fazendo essa cara de bonzinho, mas nos acha um 'mal necessrio'. Mas, no poder, ele vai ter de nos dar, no mnimo, o Ministrio das Comunicaes, algo assim, para a gente ferrar o Roberto Marinho e ampliar a Igreja Universal. Lula nem pense que somos uns babacas religiosos. Somos empresrios ateus que resolvemos industrializar Deus. Nada mais lucrativo do que a misria e a ignorncia, inventamos o imenso mercado da misria e dos 10 por cento. Se ele bobear, a gente chama ele de 'Satans' de novo. E Lula falava com seus botes: "Quando eu surgi na poltica, eu no queria saber desses intelectuais babacas, dessas professoras da USP que queriam dar para mim, porque eu era um smbolo sexual operrio. Eu era a renovao ideolgica, a crtica da crtica velha. Hoje, esses idelogos que me paparicam me achavam 'primitivo', 'um simplista que precisava ser educado pelos marxistas'. Mas agora, chega. No vou perder pela quarta vez. Preciso desses bispos da Igreja Universal e dane-se que o PL apoie no Acre a turminha do esquartejador Hildebrando e em Alagoas, a gang do Collor..." E o d. Marcelo da CNBB soube e reagiu: "Virgem Maria!... O Lula nos enrascou. Como vou fazer propaganda do PT com ele agarrado nos bispos Macedo e Rodrigues? O Lula est criando uma situao cheia de complexidades, como se fosse um tucano... Para ns, da igreja poltica, os simplismos do PT caam-nos como uma luva: 'a justia injusta'; 'o pobre pobre...' A sagrada ignorncia poltica da Igreja no pode se ater a meros detalhes como 'realpolitik', 'condies objetivas', etc... Somos o bem contra o mal, Deus contra o Diabo na terra dos desinformados. Lula est com Jesus do Macedo ou o nosso?" E o filsofo do PT meditou: "Ohhh... o Lula quer estragar meu sonho... passei os ltimos 30 anos de minha vida estudando Marx, Lenin e Gramsci; h dcadas eu cultivo a beleza das impossibilidades, vivo com o doce 'frisson' da 'boa conscincia'. Eu que sempre amei a utopia impossvel como um Esprito Santo das esquerdas. Eu, aqui no meu cardig de cashmere, sonhando com um mundo irreal, uma repblica imaginria, onde o Z Dirceu distribuiria bens a todos 'segundo suas necessidades e capacidades', e vem o Lula sujar minha lucidez dialtica? Que vou dizer na pizzaria utpica?" E os sectrios do PT choraram: "Meu Deus... eu sou do PT e sempre me agarrei na 'pureza' para justificar meus fracassos. E eu sempre pude erguer a fronte suada de dignidade e bradar nos bares e churrascarias: 'Eu sou puro! Eu sou tico!' Sou a favor do Povo, mesmo que eu nunca tenha feito nada para o 'povo', esta entidade mstica que adoramos... Agora, estou sem rumo... Eu que sempre quis perder eleies pois s o fracasso enobrece, o doce fracassso, a surra, a sova, a santificao da derrota, o manto sagrado do naufrgio. Eu, que sempre vivi de meu radicalismo, agora sou obrigado a me defrontar com essas manobras do Lula..." E o Garotinho esperneou - "E eu? Eu... que teci uma ideologia populista de direita disfarada de centro-esquerda, eu que finjo h anos que acredito em Deus e que sou 'evanglico' para captar os votos desses idiotas, eu que consegui enganar os cariocas, que se pensam malandros mas que so otrios deslavados, eu que refundei um neo-chaguismo, eu que nunca parei para administrar nada e que s penso na Presidncia como um 'Oscar' para minha mediocridade, eu que transformei minha Rosinha na Evita Peron dos descamisados de Campos, e vem agora esse sapo barbudo querer comer na minha horta, rebolando para meus evanglicos? Vingana!" E o cientista poltico amargurado pensou:"Santo Weber!... As gafes que o Lula tem aprontado so o retrato da atual mixrdia ideolgica do PT. As gafes so exemplares: elogiou o boal do Hugo Chvez que tem algo de Guevara misturado a leo-de-chcara de bordel. No imaginrio de Lula, ele um 'macho bolivariano'. Depois, Lula baba diante de Fidel e elogia os agricultores franceses que nos destroem, s porque eles tm uma aura nacionalista. O rocambole ideolgico do Lula vai de um vago terceiro mundismo da guerra fria variando para um arremedo grosso de 'realpolitik' tucana, com as barretadas ao PL, ao Qurcia, a tudo. A viso aliancista do PT apenas um 'noivado com traio'. Eles nunca entendero que a aliana necessria no s para ganhar, mas para dar conta da complexidade dos desejos do Pas. Nunca entendero que o Brasil uma frgil mquina formada em sculos oligrquicos e que no pode ser desativada apenas com um el de ruptura, um machismo 'revolucionrio' porque, a, a mquina se quebra e nada mais funcionar. Se isso acontecer, seremos a Argentina de amanh." Roseana - "Sinto-me fraca... por qu? Sou legal, estudei Histria, mas sinto atrs de mim uma corte de oligarcas, uma multido de interesses nordestinos se acotovelando, com a fome de mil sudenes, mil sudams; sinto-me uma Joana d'Arc na frente de um exrcito que quer se vingar de So Paulo." Serra - "Meu Deus... Passei 14 anos no exlio estudando; todo mundo diz que eu sou o melhor candidato, preparado para o governo e me boicotam. Acabo tendo de ir ao programa do Ratinho..." Ciro - "Sou bonito, fui bom governador e agora estou ao lado de Roberto Jefferson e no colo do Brizola... Devia ter ficado no PSDB..." Itamar - "Arrrghhhhh....babb buub....bu..."

109. ARNALDO JABOR. BRASIL SEMPRE TEVE A CULTURA DO DESRESPEITO. Agora, todo mundo entende de violncia. o que vejo nos jornais, revistas e nos papos de bbados em bares. Todo mundo que tem o privilgio de ter projetos de vida, de construir futuro e famlia, acha que diplomado em violncia. o chamado 'bom senso de gravata'. Por outro lado, quem vive alm da segura fronteira entre a morte e a vida (nica fronteira) fica mais quieto, descrente. Daqui a pouco, como uma exploso se perdendo no horizonte, o clamor pblico deve amainar. O Brasil assim - manaco e depressivo; depois da grita, vem o lamento, depois o esquecimento. Vamos ver se agora muda. Ningum consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pblica esto engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que so facilmente superados pela eficincia 'ps-moderna' dos traficantes e seqestradores, diretamente ligados ao ato, ao fato, instantaneidade do mal, favorecida pela ausncia de freios ticos ou piedosos. A mesma instantaneidade narcsica do consumismo moderno atingiu os criminosos. 'Fast food, fast buy, fast fuck, fast love, (e, agora) fast crime'. Eles tm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, cultura, cincia, democracia e, a, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o 'shopping center'. Quanto mais complicada a democracia e suas redes de proteo, mais protegido estar o criminoso. Quanto mais estrangeiro a nossos pudores, mais rpido o bandido - bastam a 'mo grande', a raiva acumulada, a ausncia de esperana, de virtudes. E continuamos a achar que h uma 'soluo' que no aplicada por falta de vontade, apenas. Continuamos a sonhar com um futuro de harmonia - um dia, conquistaremos uma harmonia funcional liberal: pobres em seus barraquinhos, riquinhos em seus barquinhos, virtudes de um lado e vcios do outro, 'playboys' nos Jardins e 'manos' na periferia, talvez ajardinada para ficar mais legalzinha, mais palatvel, com casinhas pintadas. Basta dar uma voadinha de helicptero pela periferia de So Paulo ou pelo Complexo do Alemo, no Rio, e ver que no h 'soluo'. O labirinto de impossibilidades se soma ao labirinto de incapacidades, falta de dinheiro, ao inferno dos interesses e tudo se paralisa, se aniquila diante da singeleza minimalista do crime, que sempre encontra uma brecha para entrar. A verdade que o Brasil sempre teve a 'cultura do desrespeito' Lei. Nossa sociedade foi montada na transgresso ordem, no horror coisa pblica, horror aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de maus pagadores, de sonegadores de impostos, de pequenos psicopatas 'light' do dia-a-dia, uma sociedade de malandros cariocas ou bigodudos paulistas espertos. Nossa violncia difusa, herdeira do escravismo, est nos quartos de empregada, no trato com os pobres, no egosmo endmico dos burgueses. Nossa violncia simblica tambm visvel em toda parte; basta ligar a TV com controle remoto: clic, pastor evanglico srdido engana desesperados, clic, jovem anda de quatro com biquni fio dental, clic, feiticeiras rebolam as bundas, clic, ratinhos humilham aleijados, clic, mau gosto geral, grossura geral, clic, tudo cercado pelas maravilhosas mercadorias nos comerciais. Este o caldo de cultura onde nasce a prtica do desejo criminoso. Horror lei A verdade que nunca tivemos amor nossa polcia. Nunca amamos nossos policiais como os ingleses que se orgulham dos 'bobbies' e da Scotland Yard, como os americanos que louvam os heris policiais em seus filmes. A polcia sempre foi tratada aos pontaps em nossa cultura. Houve mesmo um tempo em que os marginais e criminosos eram vistos pela 'cultura crtica' como primos da 'revoluo', como heris coadjuvantes de Guevara ou ento como gals de um 'desbunde politizado', na base do 'seja marginal, seja heri'. Eram primitivos contestadores do 'sistema'. Vingadores da misria. O 'mal' lutava pelo 'bem'. Enquanto isso, os policiais eram os 'agentes do mal', agentes das elites, da propriedade privada. Assim, eram vistos pelos intelectuais: como fascistas e vendidos. E, pelos burgueses eram considerados incompetentes e inteis ces de guarda, que no cumpriam seus deveres do extermnio de sangue. At hoje vemos esta diviso: os exigentes brutais e os delicados. Os 'malufinhos' e 'afansios' que berram: "ROTA na rua!" E os que falam em 'causas sociais'. Claro que ganhando merrecas entre nuvens de p e sangue, partiram para a simbiose com bandidos... Agora, surge uma nova sociedade feita de fome e 'funk', de rancor e desejo de consumo. E so estranhos frutos do desenvolvimento e da democracia. H uma terceira coisa crescendo a fora, como um monstro Alien que se esconde nas brechas da tecnologia e da prosperidade. No podem mais ser chamados de 'marginais', pois se constituem com contratos sociais, siglas e bandeiras. Surge um sujo pas sangrento ao nosso lado, que pode levar zonas dominadas, como na Colmbia. O paradoxo do progresso excludente gera essa violncia, antes invisvel. H pouca inteligncia objetiva na enxurrada de opinies na imprensa. Uma exceo o texto do coronel reformado da PM de So Paulo, hoje pesquisador do Instituto Fernand Braudel, Jos Vicente da Silva Filho: "No podemos enfrentar o crime do sculo 21 com uma polcia do sculo 19. (...) Os governos consideram o policial como um funcionrio qualquer, esquecendo que nenhuma funo pblica rene tantos fatores estressantes como o trabalho policial. Sem investir na capacitao, em condies de trabalho, em salrios decentes, direitos especiais como aposentadoria diferenciada, no se pode ter combatentes aptos contra o crime" (Veja). Gente como ele, criada na linha de fogo, enxerga o bvio:" preciso se orgulhar da polcia, fortalecer a polcia." Esse cara devia ser chamado para consultas.

110. ARNALDO JABOR. FHC E BUSH FALAM E PENSAM DE OLHOS NOS OLHOS. Vou tirar os culos para voc ver melhor meus olhos - disse FHC para Bush. (Ser que eu devia dizer isso? No Brasil, minhas piadas viram gafes... mas essa boa pra relaxar e marcar posio...) - Ha... ha... ha... - gargalhou Bush... (Ser que esse brasileiro veio aqui pra me gozar? Ontem eu disse que ia olhar nos olhos dele para intimid-lo, mas ele hbil...) Entre mim e o presidente... (Como se pronuncia o nome dele, my God?) entre mim e... aqui... o nosso amigo do Brasil... h um dilogo proveitoso...Teremos relaes frutferas!... (Esse brasileiro me encabulou... no consigo parar de olhar nos olhos dele... ser que ele vai pensar que eu sou bicha?...) - Conheci seu pai, presidente Bush, e estou muito feliz de ver como o senhor ... (Olhos tristes, boquinha carente...) - (Pronto, j comeou a falar do papai... Quando serei eu mesmo?) uma honra dar as boas-vindas ao chefe de um pas to importante e que tambm um bom homem - balbuciou Bush. - Obrigado... Mr. Bush. (Como sabe ele se eu sou um "bom homem"? Bem "texano", isso. "Bom homem" o cacete!) O senhor tambm um homem bom e eu acho que os EUA e o Brasil tm de estar prximos, e no apenas em termos de comrcio ( a nica porra que importa, cacete...) mas tambm pela segurana no hemisfrio. - Isso mesmo, mr. Hendrik Cardoso: democracia na Amrica do Sul. ( Eu devia era falar da Alca, mas o Colin Powell e a Condolezza mandaram eu ficar calado - por que botei esses crioulos na Casa Branca?) Mais importante que negcios a defesa dos direitos humanos! (Ohh... bullshit!) - ... mas, para o senhor, primeiro vem o interesse americano, claro... Para mim, primeiro vem o interesse brasileiro... ( Ha ha... xeque-mate!) - Claro... mr. Cardoso, temos de unir nossos interesses... (Esse latino bem folgado... Parece estar me fazendo um favor...) - As discordncias so normais, mas saberemos resolv-las... (D-lhe, Fernandinho... Ha ha... a primeira vez que no estamos lhe lambendo o saco!... O Bush que est pedindo nossa cooperao para a Alca sair!) - Claro, mr. Cardoso, com um mercado aberto e frutfero, o futuro do Brasil ser glorioso! (Tenho que dobrar esse cara para a Alca...) - Claro, mr. Bush... Nossas relaes sero sempre fruitful, frutferas!... (Ser que ele sacou a "indireta"? "Frutferas" so nossas laranjas que vocs vetam, seus sacanas, com suas sobretaxas hipcritas... Eu no sou babaca no, estudei "O Capital" com o Gianotti em 58. Pensa o qu?) - H um belo futuro em nossas relaes, mr. Cardoso... (Ai, que saco! Bons tempos do big stick, do "belo sorriso na boca e um porrete na mo". Esses latinos tm mais que abrir esse mercado e parar com esse papo de indstria, de informtica... Exportem matria-prima, porra... Ele no presta ateno no que eu falo... Esse sorriso tem uma ponta de mofa... Ele deve preferir o Clinton...) - Quando eu estive aqui, mr. Bush, nesta mesma cadeira, com mr. Clinton... - (Viu, eu no disse? Ningum me ama...) Sim, eu me lembro... Vocs foram para Camp David... ( disseram-me que ele tambm fumou maconha, mas no tragou... So dois narcocriptocomunas!) - ... pois eu falei ao Bill (ai, que intimidade...) que as Amricas teriam um futuro slido e um projeto... - "Frutfero"!... (My God,... s me ocorre esta palavra...) O Brasil, mr. Cardoso, um pas muito bom e seguro para se investir dinheiro... (Ihhh, cacete!... Por que a Condolezza me fuzilou com os olhos? Ihh... acho que amanh as aes brasileiras vo estourar na Bolsa mundial! O Cardoso est deliciado com este marketing gratuito que fiz!...) - isso a, Bush! O Brasil timo pra investimentos... Ns pagamos mais de 15 por cento ao ano em renda fixa... quem d isso? Ningum. E com uma boa carteira de aes... (Ihhh! Cala-te, boca! O Celso Lafer j me olhou... Eu no posso fazer propaganda, no sou corretor, porra...) Nossa economia est consolidada... Com os EUA e o mundo teremos relaes comerciais maduras e... - ..."Frutferas", Mr. Cardoso. (Shit! De novo!... Vou mudar de assunto) Precisamos combater o narcotrfico, pois a Colmbia est perto do Brasil... - ... mas so mais de mil quilmetros de distncia... mr. Bush... Se os narcotraficantes ousarem atravessar nossa fronteiras, tero o tratamento que merecem (Cruzes! Como estou corajoso! Mas, que Colmbia o cacete... eles querem criar um bafaf armado, um incmodo estratgico na regio... Querem gerar turbulncia capaz de atrasar nossa integrao poltica e o Mercosul...). - Isso, mr. Cardoso! As drogas so terrveis!... Temos de combater o Narcosul... isto , o narcotrfico... (Ihhh, cacete, fiz um "ato falho". Mercosul, sucker... Ainda bem que a Argentina come na nossa mo e vai trair... o Chile est no papo. Com a Colmbia, eu encurralo de tabela aquele escroto do Chavez e acabo com a mania de independncia desta putada, que quer negociar com a UE.) - Nosso secretario para Amrica Latina... o Otto Rich... est atento para o problema.... - Ahh... o Otto Rich... legal... (Eis a idia que esse cara faz da gente, nomeando aquele verme de direita. E a?... Esse cara no vai falar da Alca? a nica coisa que eles querem...) - Nosso encontro muito importante... Somos dos amigos... mi mujer es mejicana... (Por que no posso falar da Alca, das patentes, da indstria farmacutica que pagou minha eleio? O Colin Powell no quer... Diz que minha funo hoje s sorrir... OK, depois eu mando a tropa de choque dos negociadores de elite.) - Si... yo s... usted habla espanol muy bien, mr. Bush... (Espero que os itamaratecas depois no abram as pernas para os negociadores deles...) - La lengua brasilea, el espaol... es muy linda... - Claro, mr. Bush... (Que besta!... No digo nada... minha funo apenas sorrir). Tenho certeza, mr. Bush, que nossas relaes sero muito amigas, duradouras e... - Frutferas, mr. Cardoso... (oh... shit!) - Frutferas, mr. Bush... (ha... ha...).

111. ARNALDO JABOR. VALE A PENA VER DE NOVO A ZONA GERAL DO PAS? Meninos, eu vi... Eu vi as empregadas gritando, a cozinheira chorando, o rdio dando a notcia: "Getlio deu um tiro no peito!"; eu, pequeno, imaginava o peito sangrando - como que um homem sai da Presidncia para o nada? Meninos, eu ouvi, anos depois, no estribo de um bonde: "O Jnio renunciou!" Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biquni, briga de galo e de dar uma medalha para o Che, eu vi a histria andando em marcha r e eu entendi ali, com o Jnio saindo, que os bons tempos da utopia de JK tinham acabado, que alguma coisa suja e negra estava a caminho como um trem fantasma andando pra trs; depois, meninos, eu vi o fogo queimar a UNE, onde chegaria o "socialismo tropical", em abril de 64, quando fugi pela janela dos fundos, enquanto o general Mouro Filho tomava a cidade, dizendo:"No sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!" Eu vi, meninos, como num pesadelo, a populao festejando a vitria do fascismo, com velas na janela e rosrios na mo ; vi a capa do O Cruzeiro com o novo presidente da Repblica de bon verde, baixinho, feio, quem era? Era o Castelo Branco e senti que surgia ali um outro Brasil desconhecido e, a, eu vi as pedras, os anncios, os nibus, os postes, o meio-fio, os pneus dos carros, como um filme de horror;eu, que vivera at ento de palavras utpicas, estava sendo humilhado pela invaso do terrvel mundo das coisas reais. Depois, vi a tristeza dos dias militares, Brasil ame-o ou deixe-o, a Transamaznica arrombando a floresta, vi o rosto pattico de Costa e Silva, a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso, vi e ouvi Jorge Curi na TV, numa noite imunda e ventosa de dezembro lendo o AI-5, o fim de todas as liberdades, a morte espreitando nas esquinas, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em cmera lenta, criminosos na prpria terra; depois, vi o rosto terrvel do Medici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, muito magra, infeliz, vi tudo misturado com a Copa do mundo de 70, Pel, Tosto, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros hericos e loucos, eu sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Exrcito com estilingues; no vi, mas muitos viram meu amigo Stuart Angel morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, na frente dos pelotes, enquanto, em So Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicitrios enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do "milagre" brasileiro, enquanto as cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente; depois eu vi os rgos genitais do general Figueiredo, sobressaindo em sua sunguinha preta, ele fazendo ginstica, nu, para a nao contemplar, era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o Pas falido aos paisanos, para ns pagarmos a conta da dvida externa, vi as grandes marchas pelas "diretas" e vi, estarrecido, um micrbio chegando para mudar nossa histria, um micrbio andando pela rua, de galochas e chapu, entrando na barriga do Tancredo na hora da posse e matando o homem, diante de nosso desespero, e eu vi ento a democracia restaurada pelo bigodo de Sarney, o homem da ditadura, de jaqueto, posando de oligarca esclarecido; vi o fracasso do Plano Cruzado, depois eu vi a volta de todos os vcios nacionais, o clientelismo, a corrupo, a impossibilidade de governar o Pas, a inflao chegando a 80 por cento num nico ms, meninos, eu vi as maquininhas do supermercado fazendo tlec tlec tlec como matracas fnebres de nossa tragdia, eu vi tanta coisa, meninos, eu vi a inflao comer salrios dos mais pobres a 2% ao dia, eu vi o massacre de miserveis pela fome, ou melhor, eu no vi os milhes de mortos pela correo monetria, no vi porque eles morriam silenciosamente, longe da burguesia e da mdia, mas vi os bancos ganhando bilhes no over e no spread, dlares no colcho, a sensao de perda diria de valor da vida, eu vi a decepo com a democracia, pois tudo tinha piorado, eu vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em direo a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os otrios da nao, que entraram numa onda poltica "aveadada", dizendo: "Ele macho, bonito e vai nos salvar...", eu vi o Collor tascar a grana do Pas todo e depois a nao passar dois anos "de quatro", olhando pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, para saber o que nos esperava, eu vi Rosane Collor chorando porque o presidente tirara a aliana, eu vi a barriga de Joozino Malta, irmo da primeira dama, dando tiros nas pessoas, eu vi a piscina azul no meio da caatinga, eu vi depois a sinistra careca de PC juntando o bilho do butim, eu vi Zlia danando o bolero com Cabral em cima de nossa cara, eu vi a guerra dos irmos Collor, Fernando contra Pedro e, depois, como numa saga grega, eu vi o cncer corroendo-lhe a cabea, eu vi o impeachment, eu vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por acaso, por mero acaso, por uma paixo de Itamar, eu vi o FHC chegar ao poder, com a nica tentativa de racionalidade poltica de nossa histria num antro de fisiolgicos e ignorantes e, a, eu vi a maior campanha de oposio de nossa poca, implacvel, sabotadora, eu vi a inveja repulsiva da Academia contra ele, eu vi a traio de seus aliados, todos unidos contra as reformas, uns agarrados na corrupo e outros na sobrevida de suas doenas ideolgicas infantis. E agora eu vejo o estranho desejo de regresso ao mundo do atraso, do erro e das velhas utopias. Vejo a direita se organizando para cooptar a oposio, comendo-a , vejo um exrcito de oligarcas se preparando para a vingana, vejo ACM, Barbalhos e Sarneys prontos para tomar o Congresso de assalto, para impedir qualquer mudana e voltar aos bons tempos da zona geral. Meninos, vocs viram tambm, mas acho que esqueceram.

112. ARNALDO JABOR. CIDADE DE DEUS DESMASCARA NOSSA CRUELDADE. No. Cidade de Deus no um filme, apenas. um fato importante, um acontecimento crucial, um furo na conscincia nacional. Fui ver o filme e sa modificado. Tenho a impresso de que esse filme no se diluir como um espetculo digervel. Ns no vemos esse filme; esse filme nos v. Com essa epopia da guerra dos miserveis que nasceram no livro de Paulo Lins, sentimo-nos desamparados na platia. Nossa vida de espectadores, com roupas e comidas, com namorada do lado, com pizza depois, ficou ridcula. Cidade de Deus faz balanar nossa sensao de "normalidade". No d mais para acreditarmos apenas que o crime tem de ser combatido para que a "ordem" seja mantida. Destri-se nosso "ponto de vista" e viramos uma platia de culpados. Esse filme agrega uma descoberta opinio pblica do Pas que nunca mais poder ser ignorada. Enquanto a misria era dcil, ningum se preocupava com ela. Nossas empregadas surgiam de manh, sumiam de noite, nossos faxineiros, copeiros e engraxates eram seres abstratos. Os pobres pareciam no ter vida interior. Podamos romantiz-los, rir deles, paternaliz-los, tudo. Mas, a TV, a comunicao democratizante do consumo fez surgir uma massa miservel, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de expresso, a violncia como fome e linguagem. A indstria cultural estimulou o desejo e a cocana e o trfico de armas trouxeram os meios para sua possvel realizao. Depois que a cocana despejou milhes de dlares sobre o mundo da misria, o contentamento letrgico da excluso virou fome de consumo, a aceitao da escravido disfarada de "emprego" virou uma invaso do pas "branco". No mais inferioridade; diferena. Agora, pau a pau. Existimos ns e eles. Um outro mundo est aparecendo, no como decadncia ou ameaa, mas como sinistra cultura, pavorosos valores, tudo sob o manto sombrio da morte. Estamos enfrentando agora a morte no olho. A tragdia das periferias brasileiras sempre foi um terremoto ignorado, para o qual ningum enviou patrulhas de salvamento. J houve um terremoto e todos ns tentamos esquec-lo, subindo grades em nossas casas, com os socialites cheirando o p malhado de otrios e perpetuando essa misria. Sempre tivemos uma conscincia epidrmica dos problemas do crime. E s sabamos dizer "que horror!", mas esse filme nos faz entrar dentro dos lamaais, dentro das chacinas, dentro de tudo que sempre detestamos ver. Cidade de Deus no o retrato condodo das favelas; no tem um s trao de sentimentalismo. Ele tambm o nosso retrato, a 24 quadros por segundo, com nossos rostos aparecendo por trs dos meninos de 10 anos se matando com metralhadoras e fuzis. Ali esto visveis todas as pistas de nosso caos, que levam sordidez de nossas classes dominantes, s mentiras polticas, s falsas bondades, aos retricos ideais nacionais. O filme prova nosso despreparo para resolver as tragdias sociais, mesmo que houvesse vontade poltica. O filme no conta o que aconteceu; o filme mostra o que est acontecendo agora, sem parar, enquanto o assistimos ou lemos estas linhas. O filme nos revela que houve uma "mutao social", tica, fsica. Ao sair do cinema, tive vontade de gritar nas ruas: "E a? Ningum vai fazer nada? H milhares de crianas se matando e vamos continuar falando em criminalidade como um caso de polcia?" E logo depois penso: "Fazer o qu? Com que verbas, com que bilhes de dlares, com que vontade poltica, com que aparelhos do Estado, se o Estado est sendo tragado para dentro da misria armada? Os fatos esto mais adiantados que a lei. No adianta esta eterna guerra triste de policiais mal pagos e corrompidos (justamente) contra miserveis lutando por existir. Aquelas crianas armadas esto acima do bem e do mal, sim. Precisamos de novos conceitos para entender este problema de Estado e da sociedade. Filme e fato so um retrato da sinuca de bico em que est o Pas todo. Em Cidade de Deus, o documento invade a fico. Antes, havia uma "esperana" terica; hoje h o absoluto impasse. H 40 anos talvez houvesse uma soluo higinica, assistencialista. Hoje, no adianta mais o papo de luta de classes, de conscientizao, cidadania. Eles j se "conscientizaram" sozinhos, em outra direo. Tarde demais, polticos egostas; trata-se agora de um muro de chumbo, com razes fundas. Quem vai resolver? Com que verbas, com que direito, com que poderes? E quem disse que eles ainda querem que ns os "salvemos"? O filme de Fernando Meirelles, co-dirigido por Katia Lund, extraordinariamente bem produzido, bem dirigido, bem fotografado. Uma obra-prima; mas, no se trata de dizer na sada: "Gostei ou no gostei." No se qualifica a descoberta de uma doena. Cidade de Deus fura as leis do espetculo normal, trai a indstria cultural e joga em nossa cara no uma "mensagem", mas uma sentena. Estamos condenados a viver com essa tragdia, ela vai continuar crescendo como um tumor e no estamos preparados para cur-lo, porque fazemos parte dele, com a polcia vendida, a lei vendida, os negociantes envolvidos, aqui e nas fronteiras. Esse filme vai ser visto pelo Pas todo, num terror fascinado. Creio que vai provocar mudanas na conduta poltica, pois faz parte de um processo de conscientizao que ningum pode mais deter, dentro e fora do cinturo da misria. Qualquer projeto nacional teria de passar prioritariamente pela salvao das periferias. Infelizmente, os "projetos nacionais"chegam sempre depois. Cidade de Deus j foi vendido para o mundo todo. Ser um sucesso planetrio e vai revelar para sempre nosso segredo: somos um dos pases mais cruis do mundo. Cidade de Deus mostra que o inferno aqui, atrs de Ipanema ou dos Jardins. Esse filme nos desmascara para sempre.

113. ARNALDO JABOR. UM ESPERMATOZIDE QUE MUDOU A HISTRIA. A Histria tem, de vez em quando, uns ataques epilpticos - me disse outro dia o Cac Diegues. Aquilo me tocou como uma fasca. Estamos em pleno ataque epilptico, desde que Bill Clinton saiu do poder. Me diro os cientistas polticos: isso babaquice; no h conjuno astral na Histria. Mas, h. Eu estava nos Estados Unidos durante o governo de Clinton e eu vi, vi as coisas se armarem para culminar nesse caos que vemos agora. Tudo comeou com um "blow job"de Monica Lewinsky no Bill Clinton. Um fato isolado, idiota, irrelevante, se for casado com o momento certo (ou errado), pode deflagrar uma mutao na poltica e na vida de todos. Como Pandora, a mulher mtica que abriu a caixa maldita de onde saram os males do mundo, o amor "tiete" de Monica canalizou todos os dios da direita fascista americana contra o primeiro presidente "cool" da Histria. Clinton sempre foi uma bofetada nos velhos puritanos da velha Amrica seca e dura, aqueles rostos terrveis sados do clebre quadro do Grant Wood, American Gothic. Clinton era tudo o que eles odiavam. Era bonito, sorria demais, tocava sax, gostava de mulheres, pecava, era um "baby boomer", foi contra o Vietn e, com uma vitalidade tolerante e agradvel, tinha uma viso ampla da responsabilidade da liderana da Amrica com o mundo. Clinton era sexy. Eu vi uma entrevista coletiva em que mulheres perguntavam se ele usava cuequinha zaz ou "samba-cano". Ele disse que era zaz, para gudio das jornalistas. Havia em torno dele uma euforia de astro, de ator de cinema... Clinton tinha seu lado filisteu, claro, mas era bacana e exercia um poder de calmante sobre a humanidade. Me diro os cientistas de novo: ele apenas cavalgava uma fase positiva da economia. Tudo bem, mas Clinton tambm "animava" essa tendncia, no era um puro objeto da prosperidade - dava um rosto a ela. Clinton foi o Gorbachev de uma pretensa "perestroika" americana e, do mesmo modo que o bom russo foi expelido e substitudo pelo bbado do Yeltsin, tivemos o filhote do Busho, aquele que vomitou no banquete japons, aquele que armou o Talib no Afeganisto; ganhamos o menino-problema Bushinho que idealizava o pai e que tentava curar-se da castrao enchendo a cara torturadamente. Os canalhas estavam s esperando um "vacilo" do Clinton para destru-lo e, mais que isso, toda a idia de liberdade e alegria que ele encarnava. A, chegou a Pandora Lewinsky, gordinha, republicana, histrica moradora no edifcio Watergate (!) em Washington, com os lbios que iam deflagrar uma revoluoo mundial. J havia outras denncias de sacanagem de Bill, como a horrenda Paula Jones, em Arkansas, mas Monica foi a musa da desgraa. Muitos diro que isso astrologia poltica, mas h detalhes assustadores nos fatos que comearam a rolar como uma locomotiva golpista a partir da descoberta de que o presidente tinha uma amante dentro da Casa Branca. Tudo virou um relgio perfeito com todas as peas em sincronismo, para derrub-lo. O lider era o procurador da repblica Kenneth Starr (lembram-se?), a figura mais bvia do reacionrio e puritano, boneca enrustida rancorosa. Todos diziam que o que incomodava a Amrica de direita era a mentira que ele pregou, negando tudo. No foi. Foi o sexo, foi a imagem do presidente de calas arriadas no Salo Oval, de madrugada. A conspirao foi perfeita: as fitas gravadas pela terrvel mocria Linda Tripp, com as conversas telefnicas de Monica e, suprema armadilha previdente de Linda, o vestido manchado de esperma que ela mandou Monica guardar, pois "ela poderia precisar dele, um dia..." O vestido ficou dentro de um plstico at o dia em que o Ken Starr conseguiu o exame de DNA e Clinton foi pego em mentira flagrante. Eu nunca vira um calvrio to humilhante. Ser apanhado pela esposa na cama j um bode, imaginem pela nao toda... Esse espermatozide mudou a Histria. Clinton resistiu ao impeachment, mas o estrago estava feito. O Watergate sexual dos democratas desmoralizou a Amrica. As eleies foram perdidas porque o Al Gore, babaca e careta, teve medo de defender o Clinton em sua campanha. Sexo - o grande bode americano que ou idealizado ou aparece em torturados sadomasoquismos. O crime de Clinton deu gs direita crist. Diante de democratas fragilizados pelo escndalo, Bush e seus asseclas tiveram o arrojo cnicio de partir para a fraude na apurao dos votos. E a imprensa democrtica, que sabia dos escndalos de Bush na Harkem, ficou caladinha, acoelhada, muito mais leniente do que fora com o caso Whitewater que infernizou Clinton por cinco anos. A vingana de Nixon comeou ali, 25 anos depois do Watergate, ali cresceu com preciso sinistra a vingana dos falces contra o filho dos direitos civis e da revoluo sexual. E, no mundo, tudo comeou a andar para trs... Qualquer esperana de paz no Oriente Mdio acabou, com o apoio explcito de Bush ao assassino Sharon, a recesso econmica que estava no horizonte chegou, as corporaes aceleraram a roubalheira em seus balanos, a Amrica Latina e frica foram deixadas de lado, gafes vieram em sucesso, at que o Bin Laden veio salv-lo com o ataque s torres, virando-o no caubi do "bem" contra o Oriente, que agora o odeia e a todos ns, os "kafir", ces infiis. Acabou a poca da esperana e comearam os impasses insolveis. Eu, idiota, achei que a porrada das torres ia trazer para os americanos uma humildade dolorida; mas, ao contrrio, Bush se sentiu livre para soltar todos os cachorros da direita tradicional. A Amrica descobriu a guerra sem o contraponto sovitico e agora est pronta para atacar o Iraque, obsesso de filho onde o pai falhou. A Amrica resolveu assumir a unipolaridade, uma guerra quente contra todos, contrariando a frase do presidente Madison de que a "Amrica tinha de ser tolerante e se ver pelos olhos dos outros pases". Agora, ao contrrio, todos teremos de viver pelo nico olho do cclope americano, burro e violento.

114.ARNALDO JABOR. A DEMOCRACIA ABRIU NOSSOS OLHOS SOBRE O BRASIL. O bode est virando moda. Nosso destino manipulado por agncias estrangeiras que nos do nota como no colgio, olhamos o dlar e a bolsa como um jogo de bzios, para ver quando iremos para o buraco. Falamos do Brasil como de um doente terminal. E como a gente confunde governo com Estado, com nao, tudo que aconteceu de bom nos ltimos anos virou p-de-mico, nada, zero. O pessimismo na cultura brasileira virou uma espcie de "sabedoria" triste, uma vacina contra a decepo. E, no entanto - eu devo estar maluco -, eu vejo que muita coisa boa rolou depois da democracia instalada. Muita coisa melhorou sim no Brasil, filhos do bode, cegos ideolgicos, com a democracia, que permitiu que inmeras verdades viessem tona. Desculpem meu otimismo - que eu sei que visto com desconfiana ("ahhh... alguma coisa ele est querendo...") -, mas aqui vai uma lista de coisas boas que nos aconteceram. A quebra do Estado brasileiro, no meio dos anos 80, foi ruim e boa. Deu-nos uma "orfandade" diante do gigante quebrado, mas despertou mais vontade de autonomia na sociedade. Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e no o contrrio, como ainda hoje. A sociedade civil, na falta de nome melhor, ganhou conscincia de sua importncia. A sociedade j pensa em "ns" e no em "eles" apenas, os remotos donos do poder. Apesar dos populismos, j deixamos de ser "vtimas" e passamos a ser "cmplices". J est na conscincia da populao a diferena entre estatal e pblico. O "apago", a crise de energia foi causada por um descuido estatal, que foi consertado por uma ao pblica. J raiou a noo de responsabilidade civil e fiscal. J entrou em nossa conscincia de coloniais "exilados em sua prpria terra" a idia de que no se gasta mais do que se tem, em finanas. O mesmo vale para a vida social e poltica: no se pode projetar um pas para alm de suas possibilidades concretas. A idia do "possvel", em vez da velha bravata das utopias. E muitos j entenderam que isso no covardia ou omisso; sabedoria e prudncia. A globalizao da economia um bonde carregado de problemas novos? Sim. Pode nos jogar num vazio de excludos, sem nichos l fora? Pode. Mas, teve a vantagem de nos colocar mais perto da verdade nacional, rompendo as paredes da "taba imaginria", uma ilha ibrica de esperana v e futuro maravilhoso. A globalizao nos trouxe o contato com mtodos de gesto e administrao mais anglo-saxnicos, trouxe dinamismo para empresas, trouxe nova tica empresarial, contbil. Hoje, j podemos pensar em um novo nacionalismo sem cairmos nos antigos esquematismos. Ao contrrio do simplismo de ver tudo por uma tica "macro", ideolgica, generalizante, as mudanas na economia mundial nos fizeram ver a importncia dos detalhes "micros", das pequenas causas que podem derrubar um universo inteiro. Trouxe a idia de "eficincia" contra o delrio ideolgico, que dispensa estudo e viabilidade. Muito mais importante que apontar causas para a pobreza descobrir formas de combat-la. A tal "mo invisvel do mercado" pode nos dar bananas, claro. Sabemos como hipcrita a viso americana de nos recomendar aberturas, enquanto eles se protegem. Contudo, o conceito de "mercado" dinamiza a auto-regulao da vida social e econmica do Pas, sim. "Mercado" como termmetro dos perigos da injustica, mas tambm como sensor dos desejos sociais, "mercado" como amenizador de certezas burras, "mercado"como relativizador de um poder pblico totalitrio. No imaginrio poltico do Pas, "heri" ou "amigo do povo" sempre foi o sujeito que arrebenta com as dificuldades pela adoo de um simplismo que corte caminhos e ampute variveis e epifenmenos. J sabemos hoje que "parte" e "todo" se imbricam. Isso desmonta a velha idia de acharmos uma "soluo". Em lugar disso, temos o "processo". Isso diminui nosso amor ao voluntarismo salvacionista. A democracia dos ltimos anos nos ensinou sobre a idia de "aliana" para governar. Aliana, no como oportunismo nem com aliados sendo "otrios cooptados", mas sim como necessidade para o bom governo. J sabemos que o Brasil esse pas que est a, com suas deficincias e com polticos atrasados. No h um outra nao over the rainbow. Mudar o Pas tem de ser por dentro e no uma interveno mgica, ditatorial ou golpista. Vimos encantados que a democracia, em sua prtica, vai expelindo os micrbios que a atacam. A democracia tem anticorpos, glbulos vermelhos que vo limpando seu organismo contra os inimigos autocrticos. Uma das grandes vitrias dos ltimos tempos foi o enfraquecimento das resistncias oligrquicas de gente como ACM, Sarney, Jader, que perderam energia diante da fora modernizadora da liberdade. Populistas como Maluf j foram expelidos tambm. Faltam alguns, mas j um comeo. Ficou visvel como nunca o absurdo do atual "poder judicirio", arcaico, corrupto e lento. Por outro lado, houve um maior imprio da lei. O advento de corajosos e modernos procuradores da Repblica, de juzes jovens e honestos, com um Ministrio Pblico ativo, conseguiu encurralar gente que, h pouco tempo, era invulnervel. Ningum vai em cana, ainda, mas, ao menos, j sofrem um vexame pblico, um descrdito poltico, com suas vergonhas estampadas na mdia. Podemos esperar que, um dia, haver uma reforma no Judicirio e teremos uma lei para todos. Ainda no entendemos direito, mas j percebemos que os problemas do Brasil so muito mais complicados do que uma mera questo de injustia social, a ser resolvida apenas pela dinmica de uma "luta de classes". A injustia endmica e de tal modo paralisante que inviabiliza at um embate de classes. A m distribuio de renda no causa; conseqncia de uma secular estrutura autocrtica, de um Estado patrimonialista que tem de ser reformado. A democracia melhorou muito nossos olhos. Estamos vendo mais. Espero que no nos ceguem de novo... Feliz futuro!

115. ARNALDO JABOR. SOMOS MILHARES DE HOMENS-BOMBA NAS PERIFERIAS. - Voc traficante? - Sou. Mas sou tambm um sinal de novos tempos. Como sou sujo e pobre, vocs nunca me olharam durante dcadas. Eu era inofensivo, uns roubos, uns assaltos mas, tudo bem... Vocs at me romantizavam... o Mineirinho, o Cara de Cavalo... Na poca, era mole resolver o problema da misria... O diagnstico era bvio: migrao rural, seca, desnvel de renda... A soluo que nunca vinha... Os Mendes de Morais, os Lacerdas, os Negres de Lima, os Chagas, os Brizolas... que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para ns? Ns ramos invisveis... Quando havia um desabamento, algo assim, ramos, no mximo, manchete de jornal e motivo de angstia para uns intelectuaisinhos como voc. Agora, arranjamos emprego na multinacional do p... E vocs esto morrendo de medo... Danem-se... Ns somos o incio tardio de vossa conscincia social... H, h... - Mas... a soluo seria... - Soluo? A idia de "soluo" j um erro. No h mais soluo, cara... J olhou o tamanho das 450 favelas do Rio? J andou de helicptero por cima da periferia de So Paulo? O mximo que vocs podem fazer so esses movimentosinhos pela cidadania... Cad os bilhes de dlares para uma "soluo" profunda? S que, agora, vocs no tm mais a grana... Est tudo reservado para manter a estabilidade fiscal, que pode ir para o brejo a qualquer momento... Vocs esto com um bode por fora e outro bode por dentro. O capital financeiro fora e ns dentro. E os bodes vo se encontrar no infinito sujo de vosso destino... Gostou da frase? Sou culto; ouve outra:"Capitalismo selvagem gera revolta primitiva." Alis, tomara que quebre tudo... Vai ser mais fcil pra ns pilharmos vossas runas... h, h... - Voc no tem medo de morrer? - Estamos no centro do Insolvel, "mermo"... Vocs no "bem" e eu no "mal" e, no meio, a fronteira da morte, a nica fronteira. Vocs tm medo de morrer, eu no. Ns somos homens-bomba. Na favela tem 100 mil homens-bomba... ... J somos uma outra "espcie", j somos outros bichos, diferentes de vocs. A morte para vocs um drama cristo numa cama, no ataque do corao... A morte para ns o "presunto" dirio, desovado numa vala... Vocs, intelectuais, no falavam em "luta de classes", em "seja marginal seja heri?" H, h... a est... Vocs nunca esperavam esses guerreiros do p, n? Esse "parangol" todo, n? Vocs deviam era expor a gente na Bienal, como "instalao"... - O que mudou nas periferias? - A gente hoje tem uma coisa chamada Poder... Por que transferiram o Beira-Mar para a Bangu 1? Pois ... l ele manda... Voc acha que quem tem 40 milhes de dlares no manda? Com 40 milhes a priso um hotel, um escritrio... Qual a polcia que vai queimar essa mina de ouro? Pelo amor de Deus... nego chama ele at de "doutor", t ligado? - Se voc fosse polcia, agia como? - Quer um "toque"? A burocracia policial segura tudo, por desorganizao e de propsito. Ns somos uma empresa moderna. A gente no tem de arranjar ordem judicial, a gente no dividido em municipal, estadual e federal; tudo rpido, enxuto... Se funcionrio bobeia, despedido no "microondas"... H, h... estamos ligados na tecnologia, na internet, nos armamentos sofisticados... E tem mais: se vocs tentarem acabar com a burocracia, com os atrasos administrativos, at se quiserem informatizar uma reles delegacia, vo danar... sabe por qu? Porque a polcia "quer"o atraso... o atraso d lucro... A polcia feita de feudos, corporativa, delegados donos de pedaos da cidade... ningum quer se modernizar, t ligado?... bom aquele clima de 1930, de carros quebrados, sem arquivos eletrnicos... Se impessoalizar, modernizar estraga a muamba... Alm disso, estamos virando superstars da mdia. A imprensa d idias, sugestes, enche nossa bola do crime... Vocs esto nos dando uma ideologia, sem perceber... J tem nego a querendo armar esquema com a Al-Qaeda, podes crer... Outro toque: por que no pegam os "bares" do p? Tem deputado, senador, tem generais, tem at ex-presidente do Paraguai nessa parada de armas e cocana... Essa que a mina de ouro, nas fronteiras... Mas, no tem polcia pra enfrentar esse poder internacional, no... A gente mixaria... A verdadeira Guerra do Paraguai vocs esto perdendo agora, t ligado? - Esto pensando no Exrcito... - Ah... cara... Voc acha que os generais vo querer acabar com aquele dia-a-dia dos quartis, pra subir em morros de lama? Que isso, meu? Eles ficam jogando aquele basquete de tarde, marcham, tocam os clarins, cantam hinos... Mas, ir luta com o PCC e o CV? Com risco de darem vexame? Pra qu? Eles dizem que so treinados para causas maiores, guerra profundas... S se for com a Argentina... E tambm a gente j tem at foguete antitanques... Se bobear, vo rolar uns Stingers a... J imaginou a gente daqui a uns dez anos? Pra acabar com a gente, s jogando bomba atmica nas favelas... Alis, a gente acaba arranjando tambm umazinha, daquelas sujas mesmas... J pensou? Ipanema radioativa? Bomba atmica uma boa... Vocs arrasam tudo e depois as favelas se valorizam, viram bons terrenos para vender pros ricos... belas vistas... bons ares... podem at fazer Centros Culturais no Complexo do Alemo e na Mar... legal? Se no, a gente vai virar pases estrangeiros... Vou fazer frase: "A misria armada uma outra nao, no centro do Insolvel!"Gostou? Olha, meu chapa, s generais sados da favela, da lama, com a mesma fome de vida e morte, com o mesmo dio que ns temos, poderiam nos vencer... Ns samos do lixo, no temos nada a perder... Pra vencer, vocs tinham de comear reconhecendo sua derrota policial e administrativa. A guerra o reconhecimento do fracasso da poltica... isso a.... A bandidagem perdeu o respeito pela polcia... Agora, no tem mais jeito... Pra ganhar esta guerra, vocs tm de comear o Brasil de novo... Falei? - Falou...

116. ARNALDO JABOR. MEU PAI FOI UM MISTRIO EM MINHA VIDA. J escrevi sobre meu av. Semana passada, escrevi sobre minha me. E as pessoas me dizem: "E seu pai? E seu pai?" Meu pai foi um mistrio em minha vida; no nos comunicvamos bem, inibidos um com o outro. Meu pai era o perigo de castigos, o Supremo Tribunal que julgava meus erros. Por isso, ao escrever este artigo, sinto seu olhar por cima de meu ombro. Sempre quis ser aprovado por ele, receber um elogio, um beijo espontneo que nunca vinha. Ele parecia saber de algum crime que eu cometera, mas no dizia qual era. Eu sofria:"O que foi que eu fiz?" Meu pai no ria, como se o riso fosse um luxo, mas eu me empolgava quando ele chegava num avio de combate, coberto de dragonas douradas no uniforme da Aeronutica, ele, meu heri que conquistara o Pico do Papagaio como jovem alpinista e que fazia acrobacias de cabea pra baixo nos aviezinhos do Correio Areo. Quando peguei coqueluche, ele me levou num avio bimotor a quatro mil metros de altura, pois diziam que isso curava a tosse renitente. O avio subiu com meu pai pilotando, um sargento e minha me num casaco de pele com o cabelo preso num "coque" alto chamado "bomba atmica", cruel homenagem da moda destruio de Hiroshima. De repente, a porta do avio se abriu a quatro mil metros e eu quase fui chupado para fora, no fosse a rpida ao do sargento. At hoje, no sei se isso realmente aconteceu, mas meu pai sempre me trazia fantasias de extino. Ele era um rabe alto, nariz de guia, bigodinho ralo, cabelo luzente de Glostora, culos Rayban, sapatos de borracha da Polar. Hoje, entendo que ele queria fazer de mim um homem pela severidade implacvel, silncios indecifrados, olhares acusadores (de qu, Deus?), hoje sei que ele queria de mim um homem, dando-me um exemplo de espartana resistncia, de chorar sem lgrimas. Claro que virei artista, por "formao reativa", claro que enquanto ele me deu um livro nunca aberto sobre minerao de carvo eu ia ler Rimbaud e escrever poesias. Se eu bobeasse, podia estar hoje cantando boleros, com codinome Neide Suely. Minha vida foi se pautando para ser tudo aquilo que ele no era - uma maneira de obedec-lo em revolta, de competir com ele sem arriscar a castrao, o pau cortado. Ele era moralista? Eu defendia sacanagens e palavres. Ele era da UDN? Entrei para o PCB aos 18 anos. Ento, comecei a despert-lo da letargia desatenta a mim, provocando-o, esculhambando americanos e militares, culpando a Aeronutica pelo suicdio do Getlio. A, eu conseguia berros na mesa de jantar, com minha me plida sussurando: "Olha os vizinhos!..." Isso era uma forma de t-lo vivo diante de mim. Queriam-me diplomata? Ah... hoje eu poderia ser um pobre itamarateca alcolatra... Fui ser nada, maluco, comuna da UNE; depois, por acaso, acabei cineasta... O tempo foi passando. Papai aposentou-se cedo demais e aquele projeto de "picos de papagaio", de avies em parafusos, de um herosmo guerreiro virou um silncio aterrador no apartamentozinho de Copacabana, onde o tempo parecia parar. Entre as poltronas dos anos 40, entre os vasos de flores de minha me, a presena de meu pai era quase abstrata, lendo revistas, vendo TV de tarde, de pijama, em meio a minhas visitas, quando eu tentava alguma coisa que mudasse aquela paraltica tragdia, aquele relgio do av que batia o pndulo em vo. Todos os dias eram iguais; s minha me mudava, cada vez mais perto da senilidade, visitando a mdium "linha branca" que lhe dava conselhos com voz grossa de caboclo. Eu queria que alguma coisa acontecesse, queria v-los dentro da vida da cidade, mas s saam para comer num sinistro restaurante a quilo, de frmica rosa e amarela. Um dia, nasceu-me a primeira filha. Foi um momento de vida e luz mas, logo depois, meu pai caiu doente, com uma enigmtica infeco pulmonar, que no passava. Mdicos se sucediam: tuberculose, enfisema? O qu? Foi uma revoluo cultural no apartamentinho de Copacabana: aquele rei silencioso, de repente, estava cado no div, cuspilhando, febre permanente, precisando de ajuda. Ento, a fora estava fraca? O pai virara filho? Minha me pirou mais ainda, sem saber lidar com tanto poder que ganhara, tanta liberdade sbita. Eu tambm estranhava aquele tit cado. Um dia, o mdico decretou:"Est muito anmico... Precisa de transfuso de sangue." Fui lev-lo Casa de Sade S. Jos, onde minha primeira filha tinha nascido, pouco antes. Deixo meu pai na cama de um quarto, com a bolsa de sangue pingando-lhe nas veias e, para evitar o silncio triste diante da lenta transfuso, sa pelos corredores, para dar uma volta sem rumo. De repente, ouo dois tiros. Sim, dois tiros de revlver. E foi a que minha vida comeou a mudar. Pela porta do quarto ao lado, olho e vejo dois homens cados no cho branco de frmica, boiando em duas imensas poas de sangue. Um j estava morto e o outro agonizava de boca aberta, emitindo um soluo com um assobio assustador, como um peixe morrendo fora d'gua. Enfermeiros acorreram e eu soube que tinha sido um crime passional. Um mdico matara o outro e suicidara-se em seguida. Nada mais fora de lugar que um assassinato no hospital. Tudo se juntava, meus fantasmas acorriam todos, num clmax de vida e morte. Vi, espantado, que um deles era o ginecologista que tratava de minha me e que estava ali, boiando no prprio sangue, no hospital onde acabara de nascer minha filha. A transfuso acabou, as ambulncias levaram os corpos e ficamos eu e meu pai assustados, sozinhos ali no quarto. O mundo tinha mudado. Ento, no sei por que, comecei a sentir um imenso carinho por meu pai, ali, fraquinho, cabelo branco. Ajudei-o a se arrumar, fechei-lhe o palet e voltamos para casa, como cmplices mudos de um crime, de um jorro de morte que destruiu nossa melancolia, e nos uniu de uma forma misteriosa. Nunca entendi bem o que aconteceu, mas s sei que no houve mais silncios tristes entre ns dois.

117. ARNALDO JABOR. A CASA DE MINHA ME NUNCA FICOU PRONTA. Ando com vontade de ligar para minha me. Mas, minha me j morreu. Meu filhinho me perguntou hoje: "Cad sua me, aquela que mandou seu mico embora porque ele mordeu seu dedo?" "Ela j foi para o cu..." - respondi-lhe com o velho lugar-comum. "E seu papai, aquele que andava no aviozinho que ia at a Lua?" "Tambm foi para o cu...", repito pensando que um dia ele vai descobrir que vamos para baixo e no para cima. Mas, tenho mesmo vontade de ligar, pois, talvez, no telefone, possa haver um milagre e sua voz soar em meu ouvido: "Al? 28-4858?" "Mame?" Na poca desse nmero remoto do Mier, sua voz era jovem e feliz. Depois, foi enfraquecendo por outros nmeros, at o tempo em que, j velhinha, atendia triste e doente o 47-8378: "E a, meu filho, tudo bem?..." Como seria bom o telefone me salvar e algum me chamar de "meu filho..." Seria bom entrar pelos fios do passado e fugir das dores que sinto com o Pas, o mundo e comigo mesmo. Confesso que, em momentos de desespero, eu j liguei escondido para nmeros antigos. Ouvia a voz annima e falava: "Desculpe, engano...", com a sensao de, por instantes, ter visitado minha velha casa. Minha me era linda. Parecia a Greta Garbo. Um dia, meu av bateu nuns vagabundos que mexeram com ela, ainda mocinha, na base do "Tem garbo mas no tem greta" e outras sacanagens de poca... Meu av, malandro e macho, pegou a bengala e cobriu-os de porrada. A vida de minha me foi a tentativa de uma alegria. Sorria muito, trmula, insegura e, nela, eu vi a histria de tantas mulheres de seu tempo tentando uma felicidade sufocada pelas leis do casamento, pela loucura repressiva dos maridos. Meu pai, que era um homem bom e amava-a, nunca conseguiu sair do esprito autoritrio da poca e, inconscientemente, se enrolou numa infelicidade que oprimia os dois. Na classe mdia carioca dos anos 50, cercados de preconceitos, medos e cimes nas casas sombrias, os casais estavam programados para tristezas indecifradas. Eram cenrios estreitos para o amor: a casa do subrbio, o apartamento micha de Copacabana, onde vi minha me enlouquecer pouco a pouco, tentando manter um sonho de famlia, tentando manter a cortina de veludo, a poltrona coberta de plstico para no gastar, os quadros de rosas e marinhas e a eterna desculpa para os raros visitantes: "No reparem que a casa no est pronta ainda..." (isso, com 50 anos de casada). A casa nunca ficou pronta, como ela, Greta Garbo do subrbio, sonhou: a casa feliz, com bolos decorativos nas festas, seu orgulho, a nica coisa que ela sabia fazer; eram bolos em frma de avio, para homenagear meu pai piloto, em frma de livro, para me fazer estudar, ou em frma de piano para minha irm tocar, naqueles aniversrios em que os sofs de cetim marron e branco eram descobertos com discreta vaidade. Na juventude, minha me era infeliz e no sabia, pois todas as suas foras eram convocadas para esquecer isso. Cantava foxes, para desgosto de meu pai e ria com medo - se bem que ningum era feliz naquela poca. No havia essa infelicidade esquizofrnica de hoje, mas era uma infelicidade tristinha, com lmpada fraca, uma infelicidade de novela de rdio, de lgrimas furtivas, de incompreenses, de conceitos pobres para a liberdade. Eu via as famlias; sempre havia uma ponta de silncio, olhos sem luz, depois dos casamentos esperanosos com buqus arrojados para o futuro que ia morrendo aos poucos. No era a tristeza da pobreza; dava para viver, com o Ford 48 sendo consertado permanentemente por meu pai sujo de graxa nos domingos com o rdio narrando o futebol, dava para viver com uma empregadinha mal paga, dava, mas era uma tristeza obrigatria, quase uma "virtude" que as famlias cultivavam, sem horizontes. Toda minha vida consistiu em fugir daquela depresso e em tentar salv-los. Eu queria dizer: "Saiam dessa, h outras vidas, outras coisas!" - logo eu, que achava que ia descobrir mundos luminosos feitos de revolues e de prazeres, eu que achava que viveria numa vertigem de alegrias modernas, do sexo que se libertava, da bossa nova, da arte, iluses que foram logo apagadas pelo golpe de 64 que, com apoio do meu pai, restaurou a luz mortia das famlias, das esposas conformadas em seus cativeiros. Minha gerao se achava o "sal da terra", tocada pela luz da modernidade. Mal sabamos do outro desamparo que viria; no a melancolia do rdio aceso no escuro, no a televiso Tupi ainda trmula, no as esquinas cheias de mistrio, no o apito do guarda-noturno, mas a nossa impotncia diante do excesso de acontecimentos, do inferno das expectativas, das informaes sem conhecimento. Hoje, vivemos essa liberdade desagregadora, com a esperana de paz da classe mdia destruda, vivemos o medo das ruas, das balas perdidas, que no havia, quando mame ia visitar a mdium de "linha branca" que lhe prometia progresso e alegria nas cartas. Antes, minha me e meu pai tinham a iluso de uma "normalidade". Hoje, todos nos sentimos sem pai nem me, perdidos no espao virtual, dos e-mails, dos contatos breves, da vida rasa sem calma. O que vai nos acontecer neste mundo de Bush e Osama, neste pas de crimes e de riscos-Brasil, onde nada se soluciona, onde tudo impasse e encrenca? Ser que nunca mais teremos sossego? Sinto imensa saudade da linearidade, do princpio, do meio e do fim das vidas, e tenho medo de ter morrido e de no perceber. Por isso, me d essa vontade profunda de pegar o telefone e discar, no num celular volvel, mas num aparelho preto, velho, de ebonite, discar e ouvir a voz de minha me, entrar pelo fio e aparecer na salinha de mveis "chippendale" e Lus XV falso e v-la sempre querendo ser feliz, mas com vergonha das visitas: "No reparem que a casa no est pronta..." Na verdade, tenho vontade de discar, mas para saber quem sou eu. E quando disserem: 'Quem fala?" pensarei: " o que me pergunto..." Mas, sei que vou desligar, dizendo: "Desculpe, engano..."

118. ARNALDO JABOR. ENFIM SS, CLINTON E FHC ABREM O CORAO. - Poxa, Fernando Henrique, enfim ss... Agora, podemos conversar em paz, aqui nesta salinha do Alvorada... - Seems like old times , hein, Clinton? Desde de Camp David.. Parece que foi h muito tempo... Como o mundo se caretizou depressa! Mas voc t com a vida que pediu a Deus: 200 paus por palestra... E eu, aqui... com baixos ndices de popularidade.... - ... Fernando... Mas acho que vamos terminar iguais: nenhum de ns elegendo um sucessor... - Somos muito parecidos, Bill... - ... Somos smbolos da "terceira via"... Voc, eu, o Tony Blair... somos a tal de "globalizao com justia"... - ... Somos bonitinhos, com sorrisos democrticos... - ... mas a "terceira via"ningum achou at hoje... Fernando... - A nica "terceira via" a boca da Monica Lewinsky... - Qu, qu, qu!! Essa boa! Vou contar pro Vernon Jordan... - Qu, qu, qu!... Somos iguais... ambos fumamos maconha... - Mas sem tragar!... Somos iguais... Eu amei em voc o presidente latino culto, fino... Mas eu te seduzi mais do que voc a mim, Fernando... - Poxa, Clinton, voc quer o qu? Voc era presidente dos USA, impossvel no ser tiete de uma superpotncia...Voc podia tomar um porre e destruir o mundo... - Tem razo... Eu tentei humanizar a globalizao da economia, tentei fazer da Amrica uma potncia hegemnica, mas benevolente... buscando uma poltica interdependente... - Oh... cut the bullshit, Bill! (Corta essa, Bill). Estamos a ss... - Tem razo... qu... qu... Interdependncia, my ass !... Capitalismo quer domnio e era a plula dourada... - "Interdependncia"... Ningum sabe que porra essa, Clinton! Americano no entende, latino no confia... Capitalismo no mole... como voc convence a IBM ou a Ford a ter "meio lucro", "meia voracidade"? - ... Fernando... Minha obra que eu era sexy numa Amrica reprimida, eu era cool num pas careta... Eu sou a Madonna da poltica, qu, qu, qu... Minha nica obra foi esta: eu questionei o puritanismo com minha fama de sem-vergonha... Eu fui o salvador charmoso depois da era Bush Pai... Eu toco sax, gosto de jazz, de negros... eu dei aos USA a conscincia de que havia mundo l fora... Eu s errei com aquela histrica da Monica... inacreditvel! O presidente tendo de fazer sexo em p, no Oval Office, de madrugada... - Voc podia ter uma garonnire... - Como? A Hillary comprou os seguranas... Era ali ou nada... Poucas pessoas no mundo foram humilhadas como eu... Ser flagrado em adultrio j uma bosta; imagine todo o planeta te pegar... Eu fui o Cristo do blow job ! - Qu, qu, qu!...Te pegaram com a "botija na boca"! Qu, qu! - A minha salvao foi bombardear o Iraque... Se no, eu morria castrado... Cada foguete era uma afirmao flica... - Saddam salvou tua sexualidade...Agora, c entre ns, Bill... ela "boa" mesmo? - Ela o maior "servio de sopro" da capital... Entre os polticos, ela era o "consenso de Washington"... Qu, qu, qu!... Mas no foi mole... O sistema puritano e republicano caiu de pau em cima de mim. Aquela bicha do Kenneth Starr... meu Deus, tudo isso to remoto... Mas minha grande obra que eu fiz o pas falar em "esperma", em pnis... E isso foi uma revoluo moral... Eu tambm inaugurei a mentira pblica... Menti, sim - por que no? Mentir nos USA revolucionrio... O nico bode que talvez minha didtica sem-vergonhice tenha legitimado a roubalheira na eleio do Bush, tipo "ladro que rouba ladro"... Mas eu relativizei a infalibilidade do presidente dos USA, para o mundo todo. Pensando bem, eu era um utpico, com a utopia dos anos 60 revisitada... - isso a, Bill! E, no Brasil, meu discurso foi desconstrutivo, anti-utpico... - Eu dei esperana aos Estados Unidos... - E eu... tirei esperana do Brasil... Foi o que eu fiz de melhor. Vocs, americanos, precisam da utopia. Mercado s no d. Vocs tm fome de "transcendncia", de "futuro". J os brasileiros precisam de "presente", de desiluso para parar de acreditar em "salvadores". Minha melhor obra a decepo dos brasileiros... Eu sou o anti-Messias... O problema que so to burros que agora esto famintos de populismo: Itamar, Garotinho... - Quem? - Little Boy, mais uma caricatura nacional... Mas eu espero ter deixado algum contraveneno, um hbito democrtico qualquer... Eu ensinei ao povo que no h soluo - s processo. Eu fui frio, mas educativo sobre o desinteresse dos governantes. Eu devolvi as queixas sociedade civil, que tem de depender menos do governo... Minha ironia e meu descaso foram minha melhor aula. Outro grande feito meu foi me aliar escoria poltica do pas... Nunca entenderam minha grandeza em assumir o Brasil real, nossa imunda verdade poltica... Meu patriotismo foi agentar o Jader, o ACM... - E eu, que agentei o Trent Lott, o Newt Gingrich... - ... mas eu sou um nefelibata (ver Aurlio)... Tenho horror de me comunicar com caipiras... Meu amor ao progresso muito mais pela beleza da razo que por compaixo pela misria... Sou vaselina, sim, que eu chamo de realpolitik. A verdade poltica de hoje est na vaselina... - Qu, qu, qu, Fernando, youre the top, youre Mickey Mouse!... - Tenho volpia de decepcionar os romnticos. Eu desconstru certezas. C entre ns, Bill, a poltica acabou; ns somos atores... - Qu, qu, qu! Mas no espalha... Eu, ao menos, mostrei ao mundo que o poder americano ridculo, que uma vagininha histrica muda o mundo... Qu, qu, qu... E voc, Fernando, a tua Monica Lewinsky foi a Argentina e o "apago"... - Qu, qu, qu! Bill, estou sentindo um alvio!... Descobri minha importncia histrica! Eu sou a desconstruo das expectativas voluntaristas... Eu sou o Derrida dos trpicos!... - Quem? - Derrida... um francs veado... - Ah... - E voc, hein, Bill, faturando 200 mil por palestra!... E a? - me diz - tem comido muita gente? - Chove mulher... - E este baseado? Gostou, Bill? Esse do bom, paraguaio... - Qu, qu, qu!... - Podes crer, Bill, "do bom", do Mercosul... - Awesome, Fernando!... - Qu, qu, qu!!!

119. ARNALDO JABOR. O CHATO ANTES DE TUDO UM FORTE. Est tudo to chato no Brasil, que vou escrever sobre os chatos. Voc chato? Nunca saber. O chato no se sabe como tal, ou melhor, sabe sim, mas sempre tem a esperana de sair da categoria e ser aceito como no-chato. Por isso, chateia todo mundo. O chato , antes de tudo, um carente. Ele vive do sangue dos outros, do ar dos outros, o chato precisa de voc para viver. Sozinho, o chato no existe. Existem vrios tipos de chatos. O mais famoso o chato de galochas, que eu pesquisei e descobri que a origem do termo. Fala do cara que sai de casa com chuva torrencial, pe as galochas e vai na tua casa para te chatear. H chatos masoquistas e sdicos. O primeiro aquele que gosta de chatear para ser maltratado: Porra, no enche, cara! Adora ouvir essa frase, para remoer um rancor delicioso que valoriza sua solido: No me entendem, logo sou especial! O chato sdico, no. Ele quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos para te azucrinar: Poxa... sua me morreu ontem, mas ouve meu problema com minha mulher... Eu no vou fazer aqui um tratado geral dos chatos, como j fez o Guilherme Figueiredo, alis um livro chato. Como lutar contra eles? Por exemplo, o Tom Jobim, uma das maiores vtimas de chatos, ensinou-me um truque: Use culos escuros. O chato fica desorientado quando no v teus olhos. O chato adora ver o prprio rosto refletido em teus olhos desesperados. Com voc de culos escuros, ele desiste e vai embora. O chato gosta de ver teu sofrimento, por isso no adiantam as respostas malcriadas, resmungos. Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperana de que ele parta. No h soluo. Se bem que a reza ajuda. O chato est falando e voc ali lembrando a Ave Maria. Te acalma como um mantra e Deus pode vir em tua ajuda. Outra tcnica que funciona muito chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele pergunta: Por que voc no volta a fazer cinema? E voc retruca: Que voc est achando do PMDB? Faa-o falar, como o Freud agia com as histricas. O chato falador mais suportvel do que o chato perguntador. Depois que eu comecei a falar na TV, virei um papel-de-mosca para chatos. No quero bancar o famosinho mas, veja bem (como dizem os chatos), o sujeito te v na TV, no quarto onde ele est transando com a mulher e voc na tela, falando sobre o Chavez... O cara fica ntimo teu e te agarra na rua, no shopping e gruda, como um colega conjugal. Uma vez, tinha um chato no celular (grande tipo novo, o chato do celular) e eu tomando um cafezinho no aeroporto, oito da manh, indo para Porto Velho, com conexes. Ihh... meu amor... sabe quem est aqui ao meu lado?... O Jabor... ... quer ver? Se vira para mim e: Fala aqui com minha namorada... o nome dela Eliette. Esse primo do chato-corno: Minha mulher te ama; d um autgrafo pra ela... Escreve: Te amo, Marilu... (O chato-mala nunca tem caneta ou papel): Escreve aqui mesmo neste guardanapo molhado... Temos tambm o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20. Entra um cara e me olha. Eu, precavido, j estou de cabea baixa. H uns momentos tensos de dvida: Ele ousar falar? eu penso. Falo com ele? ele pensa. Passam uns andares. Ele no vai agentar eu penso. No d outra. Voc no aquele cara da TV? Sou... ha ha... digo, plido, fingindo-me deliciado. S que eu esqueci teu nome... Como teu nome mesmo? Arnaldo, digo eu, querendo enforc-lo na gravata de bolinhas. No... outro nome... ah... ... Jabor... isso... porra, claro... E voc mesmo que escreve aquelas coisas...? E eu penso, sorrindo simptico: No; a tua me que me manda l da zona. Tem o chato-mala, sempre no ataque. Outro dia, tambm no aeroporto, eu subindo uma escada, com duas malas e o cara berrou: Eiii, me d um autgrafo! Todo mundo olhando e eu com duas malas. No me leve a mal, mas estou pegando o avio... E ele: Poxa... tu t ficando muito mascarado, cara! Um dia, houve o clmax, a apoteose do chato do autgrafo. Fazia eu um modesto xixi num banheiro de cinema, aquele xixi triste e pensativo, quando o cara chegou: Me d um autgrafo? Fiquei uma arara: Estou fazendo xixi... porra... tu quer o qu? E ele: Qual a tua? T pensando que eu sou viado? Enfia esse autgrafo... Tem muitos tipos. Tem o chato crtico. Ele te agarra na rua e comea com elogios rasgados: Voc o mximo; aquele teu artigo foi demais, mas... (trata-se do chato do mas...)...mas, voc disse uma besteira horrvel, outro dia o PIB da China no aquele que voc falou... Um chato muito encontradio o chato da Ponte Area... Ele fica espreita na sala, atrs de uma coluna. Voc entra... ele te v de longe... Voc pensa: Ser que ele me viu?. Voc finca os olhos no jornal, trmulo de medo e esperana. Dali a pouco, passos a teu lado, uma maleta pousando no cho e ele gruda: Posso lhe dizer uma coisa...? E pela lei de Murphy, em geral ele estar na poltrona ao lado no avio. Tem o chato da foto: Posso tirar uma foto com voc? Pronto. L estou eu na rua, abraado a um idiota de bigode, com todo mundo olhando. Flash! E o cara some num segundo, com um rpido obrigado. Esses s querem nos roubar a imagem... O chato da foto sempre me deixa carente... H muitos tipos. O chato-altissonante, por exemplo. Grita no bar, de longe: Ei, Jabor, que que tu t achando da guerra Israel-rabe? Um altissonante uma vez me berrou na sada de um teatro:Adoro voc... (eu sorri, rubro de modstia)... mas tu precisa parar de falar besteira sobre o Lula, hein...! Olha, por isso o Ferreirinha aqui te odeia! (Ao lado dele, est o ajudante de chato, rindo com deboche). Tem todo tipo. E agora tem os e-chatos na internet que, alis, botaram na rede artigos boais e maniquestas, que eu nunca escrevi, assinados com meu nome. J puseram um em que eu esculhambava a Adriane Galisteu. E agora tem outro rolando, chamado Faz parte, onde o falso eu humilha aquele rapaz que ganhou o Big Brother. Alm de e-chatos, esses so canalhas e burros.

120. ARNALDO JABOR. AS CARAS DOS POLTICOS EXPLICAM NOSSO DESTINO. Podemos ler a histria do Brasil na cara dos polticos. Meu Deus, como so feios nossos polticos, como so inatuais, de mau gosto, seus rostos e caretas mostram como ser difcil modernizar esta terra. Darwin tem um livro chamado "A expresso das emoes no homem e nos animais". Ali esto catalogadas as expresses fisionmicas dos chimpanzs, dos cachorros e dos homens. So baseadas no "princpio de anttese", nome que Darwin criou, explicando, por exemplo, que um cachorro expressa amor ao dono por uma mutao corporal, facial e rabeal absolutamente negadora de qualquer agressividade, amolecendo as costas, abanando o rabo, babando-o na mo, etc. Mas Darwin no previu a cara dos polticos brasileiros. O "princpio de anttese"dos nossos polticos, ao contrrio, visa a esconder o que sentem, pela negao de seus reais motivos. Assim, o canalha ostenta bondade, o ladro apregoa honradez, o assassino, delicadeza. Era assim, mas at isso est mudando. Assistindo ao show de horrores da poltica recente, concluo que no s se perdeu a idia de vergonha na cara, como ela foi substituda por um certo orgulho, um certo enlevo em ostentar a prpria sordidez como um galardo. Antigamente, o canalha se escondia pelos cantos, rodo de vergonha; hoje, ele apregoa, com uma tabuleta na testa: "Roubei, sim. E da?!" A alma do negcio era o segredo. Hoje, espanta-nos a visibilidade dos estelionatos, conjugada sublime ejaculao das mentiras. Penso, claro, na fascinante fisionomia de Barbalho, que um verdadeiro mapa da politicada do Par, esse Barbalho sublime que nos seduz com suas sobrancelhas a la diable, com sua boquinha devoradora de tartarugas, cheques e TDA's, com sua resistncia impvida diante das provas cabais de suas malfeitorias. Barbalho impressiona pela limpidez de seu cinismo, pela cara lavada, intocada pela dvida e pelo sentimento de culpa. Olhando bem, veremos que suas bochechas so at banhadas por um tnue, mas impudente sorriso. fascinante a confiana que esta gente tem na lenincia da Justia. Como eles navegam bem nos foros e nos arquivos, fazendo sumir processo como no caso do Banpar! maravilhoso v-los em "retido", "ptria", enquanto as rs coaxam no campo de concentrao da mulher de Barbalho. Sim, eu j fui fascinado pelo queixinho de Maluf, erguido a la Mussolini, capaz de falar em "honra" com a evidncia de desvios nas obras superfaturadas, j fui hipnotizado pela tranqilidade carismtica de Qurcia, cantando Carinhoso num programa de TV, enquanto ele quebrava o Banespa, aplaudido pela sua gang de socilogos "progressistas", j sofri, no passado, com as carrancas da ditadura, quando surgiu o ano verde-oliva Castelo Branco, menor que o prprio quepe, depois com a car de bulldog de Costa e Silva, iluminado pelo sorriso deslumbrado de Yolanda, a Lady MacBeth brega que mandou baixar o AI-5, depois com a cara de Drcula de Garrastazu Mdici, silencioso vampiro, sofri tambm com a viso das coxas e da barriga de Figueiredo, fazendo ginstica de sunguinha para a nao ver, num strip-tease populista. Depois, lembro-me com pavor do surgimento do nico bonito (por fora), o Collor, eleito num clima "gay" que se apossou dos eleitores ("Ele macho!" - diziam - "ele lindo, comeu fulana, luta carat..."), mas agora estou maravilhado diante do Gilberto Mestrinho. Chego a pensar que o Senado est nos sacaneando, acho que Renan Calheiros quis fazer um gesto revolucionrio, nos horrorizando para conscientizar a nao da prpria desgraa. Porque o Mestrinho no Conselho de tica do Senado, arrastando um rabo sujo de processos e evidncia de assaltos a cofres, com o sambdromo de Manaus superfaturado e desabando, me traz um sentimento de pesadelo cmico. Na cara de Mestrinho mora o impasse nacional. Mestrinho declarou em entrevista que nunca distribuiu uma moto-serra, que nunca desmatou, nunca matou jacar, chegando ao inefvel de dizer que no pinta o cabelo, ali na fotografia, com sua franjinha asa de grana. Sua carinha maquilada, seu bigodinho lustroso, seus olhinhos vorazes lembram-me Akim Tamiroff em "A marca da maldade". J vivamos com a conformada aceitao da nossa desgraa, mas Mestrinho a apoteose de nosso horror. Outros polticos, com seu visual didtico, j nos ensinaram muito sobre nosso destino. ACM, por exemplo, tem um rosto at bonito, com seu bigodinho branco e um passado de sensualidade. Seu corpo que conta a histria: lento, pesado, marchando como um orich entre baianas e puxa-sacos, com um vago rebolado de poder que (ou era) o smbolo puro do coronelismo secular. Itamar Franco tem o carisma da vtima, um eco mineiro de Jnio Quadros, o caspento, o vesgo, o despenteado no poder. O povo excludo, humilhado, pode vir a se impressionar com seu rostinho de injustiado, sua bobeira, sua caipirice populista. Itamar encarna a nostalgia de um povo pela prpria ignorncia, Itamar pode vir a ser a vingana contra os "intelectuais pernsticos"como FH, na mesma raia onde corre o rosto gordinho e infantil de Garotinho, que mal aparece no palcio para despachar e viaja aplaudido por milhes de pirados evanglicos. Santo Deus... uma fartura de tipos: os olhos verdes de Requio, o charme epileptide de Pedro Simon, a gordura truculenta de Eurico Miranda, a fria elegncia yuppie de Lus Estevo, a alma gordurosa de Newto, o teatro de Lalau, amparado por policiais, indo para casa comer pizza, todos, sem falar no inesquecvel rosto ptreo de Jos Osmar Borges, o scio de Barbalho, que, preso, algemado, no camburo, exalava tranqilidade total, ignorando as cmeras, olhando para o lado, como se dissesse: "Vocs, a imprensa, vocs no existem..." E foi solto, como o grande Naya. Talvez no existamos mesmo... Sinto que, ao apagar das luzes do governo FH - que, apesar dos pesares, trouxe-nos um charme francs, com sorrisos sociolgicos e uma aristocrtica tolerncia com nossa breguice - estamos voltando para trs. Assanha-se o velho museu de cera da escrotido nacional. Mestrinho e Jader so os vanguardeiros desta grande marcha r.

121. ARNALDO JABOR. ESPELHO MEU, QUEM O IMPERADOR DO MUNDO? No sei por que mas, sempre que desejo meditar, venho aqui para esse banheiro da Casa Branca, com espelhos em paralelo, que me multiplicam ao infinito. Preciso me ver refletido, milhes de 'bushes', como um exrcito de 'eus'. Aqui me sinto calmo. Gosto de ficar nu, olhando-me de todos os ngulos. Ergo a mo, milhes de mos...Viro de bunda, milhes... Gosto de gritar: "Kiss my asses!"("Danem-se!") Ha ha... Estou vivendo os melhores momentos de minha vida... Sinto-me potente. Vou derrotar meus inimigos. Eles no so somente o Bin Laden, nem o Sadam. Meus inimigos so tambm aqueles que me humilhavam quando eu era o 'Little Bush', o burrinho, que s tirava zero na faculdade... Eu queria ser livre, leve e solto, feito meus colegas dos anos 60, doides, que fumavam maconha contra o Vietn. Eles gostavam de Rolling Stones e eu do Ray Conniff, qual o problema? Eu queria desbundar feito eles, mas meu pai no deixava e, a, eu s enchia a cara de 'Jack Daniels' e atropelava latas de lixo no Texas, onde fui detido por alcoolismo. Eu bebia para diminuir a angstia, pois papai sempre preferiu o Jed... Meus inimigos so tambm aqueles intelectuais de bosta que riam de meus planos para a poltica da Amrica, s porque eu pertencia 'Skull and Bones Fraternity', uma espcie 'light' da gloriosa 'Ku Klux Klan'. Eram uns intelectuais babacas, puxa-sacos dos europeus, fascinadinhos pela Frana e Itlia. Eu nunca fui a esses lugares na juventude... Para qu? Para enfraquecer minha f na Amrica? Diziam que eu era burro... Por isso, uso sempre essa expresso de seriedade, como se eu estivesse pensando em coisas profundas sobre o mundo. Cara 1: preocupao com o 'mundo livre'. Cara 2: 'cowboy vingativo'. Chamam-me de 'Forrest Gump', mas s eu sei da grandeza insuspeitada do homem mdio. H um bom senso profundo no republicano radical como eu. Um amor s coisas bvias, famlia gordinha, mame e filhinhos de olhares inocentes, mas atentos ao 'Mal', com seus hambrgueres, o bacon, a 'root beer', o 'barbecue', o futebol americano, o charme da 'old religion', a 'country music', o horror ao estrangeiro, o amor linha reta, ao princpio, o meio e o fim de tudo, a valentia em resolver problemas, sem atentar para complexidades afrescalhadas, resolver, arrasar, desde os ndios at o Noriega. Assim, fizemos a maior nao do mundo - e no foi com dvidas europias no; foi com a crueldade em nome da bondade, com a pureza do 'self interest', da conquista de mercados; assim, criamos esse grande pas, com f em Deus, na fidelidade ptria de Cristo e na fidelidade conjugal, e no nos 'blowjobs' daquele canalha do Clinton. Tenho orgulho de ser um 'Forrest Gump', pois ele tem a sabedoria da estupidez, a pureza dos imbecis, a santidade da burrice. Os 'gumps' que fizeram a maior nao do mundo, sem se dobrar a multilateralismos de bosta dos europeus; isso coisa de quem no tem exrcitos. Querem nos controlar com papos de ecologia, de ONU, de Tribunal Penal Internacional para nos julgar... Ningum vai nos julgar mais. Esses intelectuais de quinta querem que eu deixe as maiores reservas de petrleo do mundo com o Sadam? Tenho de atender o Dick Cheney, velho petroleiro amigo dos que nos financiaram... Tenho de atender tambm nossos gnios militares, que nos fazem invencveis... H coisa mais bela que um avio 'Stealth', bombas inteligentes, a aerodinmica dos jatos no cu, balas tracejantes, nuvens de fogo? Eu no lutei no Vietn, papai arranjou-me um pistolo na Guarda Costeira, mas eu acho bela a guerra... Ahh... a beleza do herosmo, at mesmo a beleza do martrio dos jovens que voltaro mortos, com funerais sob salvas de canho. Eu sou o verdadeiro americano, sem frescuras importadas. A Europa nos despreza, e eu vou ficar puxando o saco daqueles babacas? Museuzinhos, catedraizinhas, filosofias, artezinhas, um papo de transcendncia, de tradio milenar? tudo 'bullshit'; eu acredito no mercado, preo, lucro, utilidade. Humanismozinho coisa da veados; humanismo mercado... Tem cabimento a maior nao do mundo se igualando queles idiota da ONU: Nigria, Costa Rica, Brazil? Ora, 'give me a break'. No existe essa tal de 'poltica internacional'; s interesses internos e privados, como disse aquela crioula, a Condoleeza Rice. A crioulinha fera... ha ha... tenho at de segurar ela... seno taca fogo em tudo... E ainda tenho de aturar aquele Colin Powell, metido a pombinha... Tudo bem, tive de botar esses afro-neges no poder para mostrar que no sou racista, apesar de ter torrado vrios na cadeira eltrica do Texas... ah ah... um crioulo falco e um pombinha; um lambe e o outro esfola. Mas, eu vou criar um mundo maravilhoso, tenho certeza. J vejo os rabes tremendo de medo de mim, o petrleo jorrando nos postos de gasolina barata, abastecendo o ritmo do sonho americano, a Europa toda mudada, os Estados sem exrcitos fortes, os Estados sem iniciativa, simblicos, como monumentos vazios de outros tempos. J vejo uma grande economia sem governos, todas dominadas por ns, a Amrica Latina dominada, tudo dominado com a grande Alca regendo aqueles macacos. S restar um grande mercado, limpo, sem pases reais. Quero voltar a Amrica para trs, antes dos hippies, dos negros, dos direitos civis... Ento, nossa ptria sera a nao indispensvel, com nossos cus cobertos por um grande guarda-chuva de satlites da 'guerra das estrelas', msseis batendo no teto, com estrelas chinesas e russas, com nosso povo comendo hambrgueres e olhando para cima, rindo dos foguetes domados. E, se a barra pesar muito, pau nos chineses que viro e nos russos e rabes tambm! Ser o Juzo Final, mas s para eles. Ns ficaremos sozinhos na Amrica, como eu aqui nesse banheiro de espelhos... J imagino Meca derretendo, com aquela praa cheia de rabes sujos... Ha... ha... eu posso apertar um boto e acabar com essa porra! Viva eu! Sempre que penso nisso, tenho uma ereo... Meu Deus... o melhor afrodisaco a nuvem atmica! God! So milhes de pintinhos de 'bushinhos' se erguendo gloriosamente nos espelhos infinitos!... Aleluia! Finalmente, eu sou feliz!...

122. ARNALDO JABOR. O BRASIL EST FICANDO COM SAUDADES DA BURRICE. FHC cometeu a burrice de no ser burro. Acreditou demais na razo, achou que a inteligncia lhe abriria um caminho fcil, tanto aqui como no corao do Primeiro Mundo. L fora, ele achou que a complexidade do processo seria entendida e que os donos do Poder Ocidental seriam razoveis com sua terceira via tropical. Na prtica, FHC aprendeu que a globalizao de mo-nica, que os estrangeiros lhe do ttulos honoris causa, mas mantm suas implacveis regras comerciais. Aqui dentro, ele no esperava a bruta resistncia da estupidez e da corrupo a seu projeto iluminista. Conseguiram virar sua complexidade em ininteligvel complicao. E a era FHC pode passar Histria como o governo que desmoralizou a inteligncia. Dentro de um mundo que glorifica o fragmentrio, o parcial, s as grandes corporaes tm o direito lgica linear dos seus interesses; no mundo da democracia, s elas podem ser autoritrias. Aqui e l fora, a sociedade est faminta de simplismo. Surge na poltica a restaurao alegre da burrice, com a sombra da direita por trs. Forrest Gump, o heri-babaca, foi o precursor; Bush seu efeito. Ele se orgulha de sua burrice. Outro dia, em Yale, disse: Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidente dos EUA. a vitoria da testa curta, o triunfo das toupeiras. Aqui, vemos tambm esse cansao, depois das trapalhadas (e da urucubaca) deste governo, aqui vemos uma grande fome de simplismo de resultados (leia-se autoritarismo) de dois e dois so quatro, de o vov viu a uva. Inteligncia chato; traz angstia, com seus labirintos. Inteligncia nos desampara; burrice consola, explica. Os tucanos foram bichos hesitantes, cheios de se e de talvez. Os candidatos no horizonte vo trazer a mensagem tranqilizadora do po-po-queijo-queijo, desde o populismo de direita ao populismo de esquerda, do obreirismo iluminado ao voluntarismo de classe mdia, todos buscando bandeiras fceis de engolir. Temos infinita saudade da burrice. S OS POBRES VERO DEUS. Existe na base do populismo brasileiro uma crena, de raiz lusitana, contra-reformista, de que o simplismo a moradia da verdade. Em nossa cultura, achamos que h algo de sagrado na ignorncia dos pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a mentira inteligente do mundo. S os pobres de esprito vero Deus, reza nossa tradio. A cultura lusitana estimulou a derrota social. Cada fracasso da sociedade fortalecia o Rei, tranqilizava a Igreja e mantinha em p a coluna hierrquica que ia dos servos at Deus-Pai, logo acima da Coroa. O bom asno bem-vindo, enquanto o pernstico inteligente olhado de esguelha. A burrice sim ou no. Na burrice, no h dvidas. A burrice organiza o mundo: princpio, meio e fim. A burrice no tem fraturas. A burrice alivia o erro sempre do outro. A burrice d mais ibope, mais fcil de entender. A burrice at d mais dinheiro; mais comercial. Neste Brasil apagado, pr-eleitoral, pinta uma fome de regressismo, de voltar para a taba, para o casebre com farinha, paoca e violinha. Da simplicidade viria a solidariedade, a paz, num doce rebanho ideolgico que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes, da violncia do poder. a utopia de cabea para baixo, o culto populista da marcha a r. Outro dia, vi na TV um daqueles bispos de Jesus de terno-e-gravata clamando para uma multido de fiis: No tenham pensamentos livres; o Diabo que os inventa!. Fiquei chocado, mas entendi que a liberdade uma tortura para esses homens desamparados pela falta de cultura. Claro que o povo no burro; tem sensibilidade para perceber o erro de um governo que, em nome da razo, ignorou a comunicao com ele. Sente um enorme vazio com a democracia, difcil de entender com suas ambivalncias. O perigo que os espertos vo manipular a ignorncia da populao para transform-la em burrice. A burrice a ignorncia ativa, a militncia dos desamparados sem informaes. A burrice a ignorncia com fome de sentido. A DEMOCRACIA CHATA. Populismos de vrios matizes rondam as eleies de 2002. Itamar quer ser a cara do povo trado, do povo vtima. Como j escrevi, Itamar passa, em caricatura, o mesmo clima de Hitler, que dava a sensao de que sofrera alguma injustia, ele e a Alemanha, ambos clamando por vingana. Itamar tambm. Com seu beicinho choroso e seu topete ao vento, ele nos faz sentir culpados, insinuando que estamos em dvida com ele. Ele o smbolo do bom otrio, do mineiro que comprou o bonde, do Jeca que caiu no conto-do-vigrio e foi humilhado pelos intelectuais. Ele se diz trado por Collor, por FHC, por Lilian Ramos, em sua ingenuidade de bonzinho. Itamar de poca; ele o defensor de nossas velhas convices erradas, de nossa incompetncia quase doce. Itamar a classe mdia com saudades do passado medocre. Ciro Gomes inteligente, bonito, com mulher bonita. Ciro deve abordar a massa pelo seu lado macho, tudo que FHC no deu (pelo que, acusam-no de Collor 2). Ciro faz um discurso moderno, mas ainda est dividido entre si mesmo e seu guru, o Mangabeira, um professor Pardal com sotaque, que faz ardentes conclamaes a uma mobilizao da classe mdia, onde se sente o sabor de um voluntarismo vagamente totalitrio. Ciro ainda est dividido entre uma agenda moderna e uma prtica messinica. Lula tenta se modernizar, mas tem o rabo preso com a choldra burra do PT, que no consegue se livrar da idia de revoluo clssica, como um tumor inopervel. Ainda acham que vo tomar o poder, no ser eleitos. A classe mdia ainda teme os petistas. S lhes resta virar PSDB hard ou adotar um populismo esquerda de Itamar. O extraordinrio Garotinho, nosso Tony Blair evanglico, quer ser um juscelininho dos idiotas, um sub-brizolinha pentecostal, um Qurcia honesto, todos os populismos avalizados por Jesus. Seu apelido passa uma aura de menino maluquinho realizador, mas sua bochecha nos lembra mesmo a moleza dos bombons Garoto. No tem a menor chance, mas uma caricatura didtica do perigo que nos ronda. A verdade que a democracia est decepcionando as massas. A liberdade chata, d angstia. A burrice tem a vantagem de simplificar o mundo. O diabo que burrice no poder chama-se fascismo.

123. ARNALDO JABOR. A histria de minha vida poltica sempre oscilou entre dois sentimentos: esperana e desiluso. Cresci ouvindo duas teses divergentes, uma dupla mensagem: ou o Brasil era o pas do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nesta encruzilhada, eu cresci. Alm disso, dentro desta dvida, havia outra: UDN ou PTB? Reacionrios da elite ou povo? Brigadeiro ou Getlio, finesse ou sujeira? Comecei a me interessar por poltica quando votei em Jnio. Confesso. Eu tinha 18 anos e no consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoo duro. Jnio me fascinava com sua figura dramtica, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impresso de que ele, sim, era de esquerda, doido, off . Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouo: Jnio tomou um porre e renunciou!. Foi minha primeira desiluso. Tinha sido eleito esmagadoramente, e largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do Praia Vermelha, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da poltica, mais forte que slogans e programas racionais. J na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice Jango, que a direita queria impedir. O exrcito do Sul, com Brizola frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabea que, com uns militares legalistas e com heris de esquerda, finalmente o Brasil iria ascender a seu grande futuro. Nos dois anos seguintes, vivi a esperana de um paraso vermelho que iria tomar o pas todo, numa rplica da rumba socialista de Cuba, a revoluo alegre e tropical que iria acabar com a misria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, sem inimigos visveis, com o presidente e sua linda mulher fundando a Roma tropical como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo iria cair sem resistncia. No dia 31 de marco de 64, estou na UNE comemorando a vitria de tudo. Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, comemorando a vitria do socialismo. Um amigo me abraou, gritando: Vencemos o imperialismo americano;agora, s falta a burguesia nacional! Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. Diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manh, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu tinha acordado de um sonho para um pesadelo. No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrtico mnimo, que at serviu para virilizar nossa luta poltica. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistncia cultural rica e frtil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingnuo pr-64. As idias e as artes se engrandeceram na maldio. Com muita esperana, as passeatas foram enchendo as ruas, num herosmo democrtico que acreditava que os militares cederiam presso das multides. Era iluso. Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o Gama e Silva lia o texto do Ato 5 na TV, virando o pas num sinistro campo de concentrao. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca lady Macbrega Yolanda, fechou o pas por mais 15 anos. Esperana-desiluso. Vieram os batalhes suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do milagre brasileiro, os jovens romnticos ou foram massacrados bala ou caram no desespero da contracultura mstica, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos milagres de So Paulo. O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsesso. Quando vier a liberdade, tudo estar bem!, dizamos. S pensvamos na democracia e ningum reparou que ela foi voltando menos pelos comcios das diretas, e mais pelas duas crises do petrleo que criaram a recesso mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a liberdade na hora de pagar a conta da dvida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falncia do Estado e entregaram-no aos paisanos eufricos com a vitria de Tancredo. Nova esperana! Pois, justo a, veio um micrbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa histria. E a comea a grande desiluso. Com a volta da democracia, no perodo Sarney, tudo piora. Apavorado, vi que a democracia s existia de boca, no estava entranhada nas instituies, que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e polticos que tomaram o poder, todos nobres vtimas da ditadura. Da para frente, s desiluso e dor: inflao a 80% ao ms (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da Repblica, vergonha e horror. Depois, nova esperana com o impeachment; depois, mais esperana com o Plano Real, vitria da razo reformista com FHC, logo depois do Brasil no tetra, cu azul, esperana sem inflao. Nunca acreditei tanto na vida. Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Temos o mistrio Ciro, um maverick em busca de partidos, voz no deserto, com tintas voluntaristas inquietantes. Temos a oligofrenia oportunista de seres sinistros como Itamar agarrado em Qurcia e Newto, e temos este flagelo de Deus que o Garotinho, apoiado pela superstio e pela misria popular. H a esperana de que o PT , se chegar ao poder, no caia no delrio leninista desconstrutivo e regressista. (Oh, Deus, mostre-lhes o mundo real!...) O trgico que, para alm das ideologias, existe no Brasil a maldio do Mesmo, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso, que deseja a gelia geral, que odeia projetos racionais sejam do PT ou do PSDB, que quer um destino sem rumo, por ser mais lucrativo para corrupo e privilgios. uma fome de amor ao atraso, paralisia, que seis anos de FHC no conseguiram apagar. A grande chance histrica da razo pode ter sido perdida. Toda tentativa de racionalidade naufraga sistematicamente em nossa vocao para toupeiras e ratos. Vem a pas do futuro ou uma zorra? Mistrio. Nem esquerda, nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.

124. ARNALDO JABOR. Se voc acordou mal hoje, melhor no ler este artigo. Est um bode preto. Sei que a tristeza no comercial, como me disse um deprimido que ria o tempo todo para no ficar impopular. Mas, fazer o qu? o artigo sobre a loucura de hoje. (No falo da loucura dos miserveis; falo dos que vivem o luxo de ter projetos existenciais). J vivi vrios tipos de loucura. Conheci o delrio esperanoso pr-64, quando achvamos que o Brasil ia virar magicamente uma grande Ipanema, o que culminou com a porrada de 64 e 68, quando a represso da ditadura disparou a psicose como ideologia na pequena-burguesia jovem que pensava o pas. Ningum sabe o que foi a porrada de 68. Voc podia morrer, se risse alto de militares num cinema, voc podia ser torturado se um sndico general cismasse com sua cara. O desespero da juventude nesses anos irreproduzvel. S quem viveu. A mistura de angstia, drogas, misticismo, contracultura sem flores hippies, perigo de morte gerou ao menos uns sete anos de horror. Outro dia vi um filme underground da poca que se passava todo dentro de um chiqueiro, com o ator comendo excrementos. Esse era o esprito do tempo... o zeitgeist de merda. A, a ditadura acabou, voltou a democracia, venceu o mercado, somos todos livres e, no entanto, qual a loucura de hoje? A loucura de hoje imperceptvel. Este clima geral dispersivo, pagodeiro, gargalhante, desreprimido parece liberdade, mas no . Depois da ditadura, chegamos a uma liberdade para desejar o qu? Bagatelas, micharias. Uma liberdade vagabunda, para nada, para rebolar o rabo nas revistas, para a iluso de um narcisismo sem peias, uma liberdade fetichizada, transformada em produto de mercado e at mesmo disfarada de revoltas de festim, xtases volveis, visveis em clubbers e punks de butique, em raves sem rumo. Temos liberdade para escolher besteiras, somos livres dentro de um chiqueirinho de irrelevncias, buscando ideais como a bunda perfeita, recordes sexuais, prteses de silicone, sucesso sem trabalho, substituio do mrito pela fama. No precisa fazer nada; basta aparecer. Se antes havia excesso de ideologias, hoje somos todos um bando de ignorantes e frvolos, patetas, como crianas brincando dentro de um shopping. O amor est deixando muito a desejar. As paixes passaram a durar o tempo entre duas reportagens de Caras. Est desidealizado, isolado, um pretexto para a orgia de troca-trocas narcisistas. O casamento virou um arcasmo careta. O sexo, uma competio de eficincia. Onde est a sutileza calma dos erotismos delicados? Onde, o refinamento potico do xtase? Nada. No sexo e no sucesso, o desejo virar mquina e atingir o desempenho perfeito, na busca do orgasmo definitivo e de um paraso automtico e sem sofrimento. At criticar o erro do mundo ficou ridculo. A arte ficou ridcula, incua, pregando num deserto de instalaes melanclicas que ningum v. O cinema virou um titanic, um video game, com guetos de independentes queixosos. Os artistas no tm mais nem o consolo do pessimismo clarividente, do absurdismo iluminista de um Beckett ou Camus. No h esperana nem na desesperana crtica.O absurdo ficou bvio demais para ser condenado. A democracia em pas analfabeto trouxe a fabulosa ascenso livre da cretinice nacional; viramos um grande pagodo e no adianta racionalizar e dizer que legal. No . uma bosta. A literatura est dividida em best-sellers e tediosos bisnetos de Joyce, patticos e ignorados. Tudo fica gratuito, diante da irrelevncia de qualquer ao humana sobre a sociedade. A razo cnica do pode tudo um disfarce para o consumo indiscriminado de produtos. As coisas j mandam em tudo. A invaso das salsichas gigantes tomou conta de nosso destino, como um mau filme B de terror. No temos mais futuro. O futuro virou uma promessa de aperfeioamento de produtos, com uma velocidade que fez do presente um arcasmo em processo, uma espcie de passado ao vivo em decomposio. O velho passado um museu de inteis curiosidades histricas. Tudo tem de ser novo, sem tempo de envelhecer. Tudo morre jovem. A isso, soma-se a sensao de que a nao no controla mais seu destino, de que somos barquinhos deriva no mar das corporaes, de que a vida um subproduto do balano das companhias. E, ainda por cima, aqui no Brasil, temos a brutal resistncia do atraso, do Mesmo. H seis meses, o Senado discute o ACM e o Barbalho, para que as grandes questes nacionais continuem intocadas, com a permanncia da misria. Estamos nos acostumando a isso. Pior que a violncia o acostumamento com a violncia. O mal ficou banalizado e o bem, um luxo ridculo, quase uma vaidade, um hobby. No nem cinismo; tdio. H um sentimento difuso de que no somos participantes de nada, o que gera o sucesso dos evanglicos e o perigo de populismos fascistides. Itamar e Garotinho esto por a, rondando. E todos acham tudo normal. Todos rindo, danando, felizes. A racionalizao da boalidade, da peruce, do cafajestismo, slida. No nos sabemos loucos. Somos livres. Em meu delrio, chego a desejar que alguma catstrofe acontea, para nos despertar desta suja esperana, desta srdida alegria. Por exemplo: se os pases emergentes fizessem uma reunio e decidissem no pagar mais as dvidas externas, a sim o mundo mudaria realmente e o capitalismo teria de repensar sua arrogncia. Mas no adianta; venceu o sistema da Babilnia e o garom de costeleta... como escreveu Oswald. E se algum leitor zeloso chegou at aqui, eu pergunto: e a, meu semelhante e irmo, preferes cianureto no champanhe ou formicida no guaran?

125. ARNALDO JABOR. Meu av foi um belo retrato do malandro carioca. Meu artigo de hoje sobre ningum. Meu av no foi ningum. No entanto, que grande homem ele foi para mim. Meu pai era severo e triste, mal o via, chegava de avies de guerra e nem me olhava. Meu av, no. Me pegava pela mo e me levava para o Jockey, para ver os cavalinhos. Foi uma figura masculina carinhosa em minha vida. Se no fosse ele, talvez eu estivesse hoje cantando boleros no Crazy Love, com o codinome Neide Suely. Mas por que escrevo sobre meu av? Porque, h pouco, bateu o telefone e meu primo dr. Claudio Acylino de Lima me disse de cara: Voc est me devendo um artigo sobre vov. Escrevo sobre vov porque esta poltica suja, girando em torno de Barbalhes, est me corroendo as entranhas. Literalmente. Estou internado com uma doena histrica, a diverticulite, que levou Tancredo para o belelu e mudou o curso da histria. Alis, acabo de saber que serei operado hoje. No farei histria, mas se eu no voltar, leitores amigos, tomem cuidado com o populismo que ameaa o Brasil. Meu av, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 40/50. Era um malandro carioca em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de prola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex, o chapu-palheta, o relgio de corrente, seu Patek Phillipe to invejado, em volta dele ressoava a lngua carioca mais pura e linda, com velhas grias (Essa matula do Flamengo turuna!...). Meu av era orgulhoso de viver nesta cidade baldia e amada, o Rio que soava nos discos de 78 RPM, nas ondas do rdio, o Rio precrio e potico, dos esfomeados malandros da Lapa, das mulheres sem malho e de seus sofrimentos romnticos, entre varizes e celulite. Antes de morrer, ele me olhou, j meio lel, e disse a frase mais linda: chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou Avenida Rio Branco. Ali, onde ele me levava para tomar refresco na Casa Simpatia, era o centro de seu mundo. Os polticos canalhas populistas que esto hoje a querem a volta do passado apenas pelo lado sujo do atraso. Mas havia tambm uma potica do atraso na Lapa, no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas, fabricava uma urbanidade pobre, bela e democrtica. Ele tambm me dava aulas de sexo. Contou-me uma vez que a melhor mulher que ele teve na vida tinha sido um joo. Que era joo? Esse termo, ainda escravista, designava as pretinhas to pretinhas que tinham o pixaim da cabea ralo, quase carecas. Eram as joo. Pois ele me disse: Foi no terreno baldio, ali na General Belfort... foi o melhor nick fostene que eu tive... (inventara esse nome de falso ingls de cinema americano para designar a cpula, sendo a palavra acompanhada pelo gesto vaivm de bomba de Flit: Nick Fostene ...) Contava isso a um menino de 10 anos, a quem ele dava cigarros e ensinava (a mim e ao Claudio Acylino) a pegar bonde no estribo, andando. Me apresentou sua amante, uma mulher ruiva chamada Celeste, que me beijava trmula e carente como uma av postia e que, sendo de boa famlia (ele me falava disso com uma ponta de orgulho), nunca se metera em sua vida familiar oficial. Isso ele dizia com os olhos machistas molhados de gratido. Ou seja, ele me ensinava tudo errado e com isso me salvou. Quase analfabeto, vivera grudado com a turma dos intelectuais da Colombo, babando com os trocadilhos de Emilio de Menezes, Olavo Bilac, Agripino Grieco nos anos 20, o que lhe deu um fascinado amor s letras que no lia, mas que lhe fez trazer-me sempre um livro novo, da Rio Branco, junto com a goiabada casco e o catupiry. Uma vez, j mais tarde, eu namorava uma moa lindssima e virgem (claro) mas burrinha. Reclamei com ele. Resposta: Ah, burrinha? Voc quer inteligncia? Ento vai namorar o Santiago Dantas! Quando fomos aos sinistros rendevus, de onde nos floresceram as primeiras gonorrias, nossos pais severos bronquearam: Vocs so uns porcos! J nosso vov riu, sacaneando: Poxa... boas mulheres hein...? Vov nos ensinava a conversar com as pessoas, olho no olho. Na minha famlia de classe mdia, celebravam-se as meias palavras, o fingimento de uma elegncia falsa, de uma finesse irreal. S meu av falava com os vagabundos da rua, com os botequineiros, com os mata-mosquitos. Enquanto minha famlia toda votava histericamente na UDN, em pleno delrio golpista, meu av pegou o chapu, e foi votar. Eu fui atrs dele... Votar em quem? No Getlio, seu Arnaldinho... ele gosta do povo e eu sou povo. E eu sou povo tambm, vov? perguntei. Ele riu: Voc no; voc tem velocpede... Ele me levava ao Maracan, ele me levava em seu ombro para ver a estrela de non da cervejaria Black Princess (at hoje me brilha esta supernova na alma), ele, uma vez, deixou-me ver um morto na calada, navalhado no peito (Parecia a fita do Vasco da Gama, ele disse) no me escondeu a tragdia. Me ensinou tudo errado e me salvou... Meu av adorava a vida e usava sempre o adjetivo esplndido, to lindo e estrelado. A laranja chupada na feira estava esplndida, a jabuticaba, a manga-carlotinha, tudo era esplndido para ele, pobrezinho, que nunca viu nada; sua nica viagem foi de trem a Curitiba, de onde trouxe mudas de pinheiros. Esplndidos... No fim da vida, j gag, eu o levava ao Jockey para ele conversar com o Ernani de Freitas, o amigo tratador de cavalos, que lhe dava um carinho condescendente com sua gagazice , falando de cavalos que j haviam morrido. Hoje corre a Tiroleza ou a Garboza?, perguntava. A Tiroleza est machucada, Arnaldo... Velho gag, deu para dizer coisas profundssimas. Uma vez, j nos anos 70, celebrei para ele as maravilhas lisrgicas do LSD que eu tomara. Ele me ouviu falar em delrio de cores, lucy in the skies e comentou: Cuidado, Arnaldinho, pois nada s bom... Outra vez, vendo passar um super -ripongo sujo, bicho-grilo brabo, comentou: Olha l. Um sujeito fingindo de mendigo para esconder que realmente ...! H dois anos, na exumao de um parente, o coveiro colocou vrias caixas de ossos em cima do tmulo. Numa delas, estava escrito a giz: Arnaldo Hess. No resisti e levantei de leve a tampa de zinco. Estavam l os ossos de vov. Vi um fmur, tbias, que eu toquei com a mo. Vocs no imaginam a infinita alegria de, por segundos, encostar em meu av querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o cu azul do Rio. Meu av no era ningum. Mas nunca houve ningum como ele.

126. ARNALDO JABOR. No me esqueo do ataque de riso que tive, muitos anos atrs, quando vi a autocrtica de um alto dirigente do PC da China, durante a Revoluo Cultural. Quem foi? Lin Piao? No me lembro. A autocrtica um dos velhos hbitos dos comunas, uma espcie de confisso catlico-vermelha, s que aos berros diante das massas. O dirigente comeou sua autocrtica assim: Eu sou um co imperialista, eu sou o verme dos arrozais da China, eu sou a vergonha do comandante Mao... Eu adorava ver essas manifestaes da auto-anulao individual dos comunas pois, como me diziam os marxistas, o individuo uma iluso. Hoje, a autocrtica, para o PT no poder, se transformou na prtica cotidiana, usual, do desmentido. Todo mundo dando gafe e depois desmentindo. O desmentido o arrependimento do se colar, colou. Exemplo: Dirceu diz que vai arrombar as portas e aprovar PPPs ou diz que o Ministrio Pblico a gestapo de Hitler, ou que vai dar um tiro no peito de Tasso. A, desmente no dia seguinte. O Lula diz que jornalistas so covardes e depois desmente. Mas a verdade a gafe do primeiro dia. o que lhes vai pela cabea, to reprimidamente que pinta o ato falho. A, o sujeito desmente, numa fingida autopenitncia, e todos aceitam. Eu, no, eu quero que voltem as autocrticas do tempo de Mao. Quero ver o Gushiken bater no peito e berrar: Eu sou a praga do cerrado, eu sou um co bolchevista fingindo de democrata... Muitas vezes o elemento petista no se sente obrigado a desmentir nem a fazer autocrtica, pelo uso matreiro de outro vcio capital: a mentira revolucionria. A Secom do Planalto acaba de fazer isso com o trecho do discurso do Lula apoiando Marta que foi cortado por pegar mal ou o trecho atribudo a Gilberto Gil, por uma companheira j demitida, sem nome, que teria distorcido as palavras do ministro cantante. Quem essa irresponsvel burocrata do povo? J ter sido estrangulada ou s est em desgraa num gulag qualquer das cidades-satlites? Ou no houve moa nenhuma? Stalin apagava das fotos os membros do partido que ele expurgava; portanto, nunca existiram. Tudo absolvido pela mentira revolucionria, porque ela vem por uma boa causa. Outro vcio capital dos comunas velhos a sagrada prtica da luta interna. Ah... como eles se refocilam nesse embate. A luta interna com base ideolgica exercida deliciosamente, pois todas as maldades, traies, intrigas, tapetes puxados, cascas de banana, tudo vlido, pois so agruras justificadas pelo bem do Partido. Ningum estaria brigando por inveja, rancor, parania ou por problemas sexuais. Esses seriam vcios pequeno-burgueses. Eles brigam por motivos maiores, revolucionrios: aventureirismo, sectarismo, revisionismo... Os perdedores se aquietam, quase felizes, pois foram esmagados pelo bem de todos, contra o inimigo principal, ou seja, quem no do PT. Quando o Palocci saiu na capa da Veja, elogiado pela burguesia, eu pensei: T frito... Semana seguinte, comeou a ciumeira disfarada de desenvolvimentismo. Outro vcio tpico do anedotrio petista o que saudades da KGB ou como era doce meu DIP. Como os petistas no sabem sair da encruzilhada infernal entre responsabilidade fiscal e monetria e desenvolvimento (como alis ningum sabe ainda...), eles se dedicam parte espiritual da velha ideologia: controle, fiscalizao, tutela, espionagem e censura. Agora, estamos assistindo ao vcio do baixo clero do PT: a porrada revolucionria, com os militantes atacando os comcios do Jos Serra para a prefeitura. Todo jogo tem porrada, sabemos. Mas ali diferente. H o zelo dos pees, dos ps-de-poeira da Marta, h uma misso blica para impedir que os burgueses do PSDB ganhem a prefeitura. Os brutamontes da militncia se acham imbudos de uma misso sagrada: Eu taquei um p nos cornos daquele tucano filho de uma gua, esfreguei a cara dele no cho at ele gritar Viva a Marta!. E eu arrebentei a cara daquele ali! isso que chamam de golpe de esquerda, Manelo? Quase todos esses cacoetes derivam de um sentimento: Somos superiores. Quando eu era estudante, um dirigente do PC dizia sempre: No estamos com a doutrina certa? Ento... s aplic-la. Discutamos infinitamente para chegar a uma concluso da qual partamos. Ideologia isso. Essa certeza superior encontradia em homens-bomba, em bispos vermelhos, em padres de passeata como o Frei Betto, e encontramos tambm em Bush e seus fascistas... em muita gente. O autoritarismo e a truculncia no so privilgio de radicais de direita. Entre os vcios do PT eu adoro um deles especialmente: o militante imaginrio. Essa expresso do pf. Gianotti. Perfeita: o sujeito nunca fez nada, nada pelo povo, nada pelo pas, mas se considera um militante pelo bem da tal esquerda imaginria que ele cultiva dentro da cabea, como um canteiro de marias vagabundas. O sujeito de esquerda como se Flamengo ou Corinthians. So contra tudo isso que est a. So freqentadores de bares do Rio e de universidades paulistas. Todo partido tem a turminha do trabalho sujo, interface entre o partido e o mundo torpe dos conchavos. No PT tambm: so os canalhas revolucionrios, mas suas aes so toleradas por serem um mal necessrio para a revoluo. Os canalhas revolucionrios agiram em Santo Andr, no prprio Planalto, como foi o caso do inefvel Waldomiro. Recentemente, temos os milhares de sigilos quebrados pela CPI, feito atribudo ao Jose Mentor, para compor um belo arquivo para o futuro, talvez para os dias do justiciamento . Canalhas revolucionrios so protegidos pelo Sistema. No posso afirmar nada contra a honestidade de pessoas como o amigo de Lula, Roberto Teixeira, nem sobre o Sr. Cipriani, da Transbrasil. Mas as cortinas de fumaa impedem qualquer aprofundamento. E tudo em nome do socialismo que vir, pois como recomendou Stdile a seus sem-terra: Tenham filhos; eles vo conhecer o socialismo....

127. ARNALDO JABOR. Croc croc croc coaxam as rs.Rs do meu querido Brasil!... No reparem em minhas lgrimas... Fugi da mdia e vim para o mato. Com vocs eu posso ser sincero, pois, afinal, vocs so as rs mais caras do mundo, vocs j custaram mais de R$ 9 milhes aos cofres pblicos... Oh, doces rzinhas!... Vocs no me entendem, mas me olham, empilhadas nos tanques, com as patinhas prontas para me aplaudir... Ha ha... Vocs esto mais famosas que as rs do Aristfanes... Vocs so as rs do Barbalho, as minhas ltimas correligionrias... Rs: Croc croc croc... Eu nunca quis ser uma r, como vocs. Esta a histria de minha vida. Um homem ambicioso como eu, nascido na Amaznia, est perdido, pode ter vida de r. Tudo que eu sempre quis foi fugir da condio desses bichos escondidos na lama. A floresta come tudo, come nossos raros ideais... a sndrome de Belm e Manaus... H uma estranha metempsicose na floresta. Se a gente bobeia, a alma dos bichos entra na gente. Eu nunca quis ser r. Queria ser um bicho mais prestigiado como as sucuris ou as piranhas... As piranhas foram meu ideal-de-eu! Aqui as pessoas ficam com cara de bicho. Meu scio Jos Osmar Borges parece um jacar cnico, impassvel, prestes a dar o bote. Minha mulher (que ela no me oua...) tem cara de r. Alis, foi por isso que eu tive a idia de financiar-lhe um ranrio. Ha!... ha!... Meus suplentes e sucessores tm alma e cara de bicho. O Mestrinho parece uma tartaruga maquilada; meu vice, o Edson Lobo, um bicho mais do seco do Maranho, parece um calango faminto... a metamorfose amaznica... Rs: Croc croc... Mas eu venci, senhoras rs... Eu consegui fugir da vossa gosma! Em pouco tempo eu sa de um fusca velho e de um casebre da periferia e hoje... bem... hoje eu sou... era... uma potncia! Comecei com discurso de esquerda, de vereador populista... Era moda na poca... Foi um sucesso. Da para frente, o poder me veio comer na mo. Prefeito, governador, ministro da reforma agrria... ahhh... foi um show de bola...TDAs vendidas... desapropriao de fazendas imaginrias... Que lindo!... Eu era um fazendeiro do ar... Ahhh... a volpia de dispor da coisa pblica, que no de ningum, esse dinheiro abstrato, sem dono... ahhh... E quanto mais perigoso o trambique, mais teso... Eu tinha tanta paixo pelas tranquibrnias, pelas tramias, que at deixei pistas, o rabo de fora de propsito, por tara mesmo... Ahh... cheques voando, fantasmas, laranjas, contas secretas... ahhh... que gozo quase sexual... E tem mais! Estes hipcritas que me perseguem no falam, mas sabem que sem trapaas, sem velhacarias, sem os doces superfaturamentos no h obras, no h nada... O Brasil se move pela mola dos interesses sujos... Esta a verdade, no Sul, no Leste. S os bisbrrias e os pilantras alavancam o progresso!! E eu no pensava s em mim... pensava no bem do Par! Eu lutei por esta floresta de tesouros... Tanta gente veio de fora para roubar aqui, na Zona Franca, nas superintendncias... E eu ficava revoltado: Isso aqui terra nossa! Viram, seus paulistinhas peculatrios e ladrezinhos do Sul, isso aqui tem dono! Eu fui a defesa da Amaznia, eu, Mestrinho, Amazonino, tantos heris, to grandes como Plcido de Castro... Eu sou um exemplo, um cone da tradio fisiolgica florestal!... Eu devia ser preservado como uma ararinha azul e no caado como uma ratazana grvida!... aiii, aiii... uhhhhh!... Croc croc croc. Ai... ai... uhhh!... Este Brindeiro que me denunciou parece um sagi assustado, piscando de medo e me acusando aos urubus de capa preta do STF... Todos so bichos, ou bichas... ha ha... No Sul-Maravilha, todos falam da Amaznia com orgulho:Nosso pulmo verde! No sabem do baixo-astral que a vida na selva: piranha comendo jacar, jacar comendo bezerro, sapo comendo minhoca, jibia comendo sapo... A poltica toda aqui assim... mais que em Braslia... Em nossa tradio escravista e patrimonialista, a coisa pblica um prato de comida... Se um no comer, o outro come... E estes hipcritas me fizeram um smbolo da imoralidade nacional... E o resto do Congresso? Tirando meia dzia de bobos, o Congresso um inferno verde... Estes canalhas querem me extinguir... Eu sou um mico-leo-dourado e querem me substituir por novas formas de corrupo global, anglo-saxnica... A, em vez de rs, teremos grandes insetos falando ingls... Eu sou a preservao da grande linhagem do espertalho folclrico... Eu sou Macunama contra o Mr. Smith... Luis da Cmara Cascudo me defenderia... Eu sou material de cultura popular... Eu sou um pirarucu... uma piranha vencedora!! Croc... Ohh... minhas rzinhas... coitadinhas... Graas a Deus, vocs no entendem meu discurso, porque vocs so umas desgraadas... Vocs me lembram um campo de concentrao, onde so mortas por choque e decapitao, o massacre mais caro da histria, 9 milhes... ha ha!... horrvel, mas confesso que me d um certo teso... Vocs mortas parecem pequenas mulheres de perna aberta... Aquela fila de mulherzinhas nuas... E esse holocausto acaba em restaurantes finos... Oh, ironia... Esses gr-finos que vo comer vocs, provenal, nada sabem da vossa tragdia amaznica, nem da minha... Ai, aiiii, uhhhh... Eu sempre vivi na lama dos rios, na beira dos alagados e, hoje, eu tenho orgulho de mim: eu tenho piscinas, fazendas, helicptero, barrigo, eu tenho Mercedes, jatinhos... eu... eu croc eu... eu... eu croc eu... minha honra... croc... croc... urghhhht... que isso? Sinto uma gelada gosma me cobrindo... Meus braos esto mais finos... meu Deus... meu corpo est oleoso, minhas sobrancelhas caram... Estou ficando verde.. meu... arghhh... croc croc... Senhoras rs... vocs... me salvem... eu no quero... sou gente... eu sou o senador... croc... croc... o senad... croc... Rs: Idiota! R no fala!... Croc.

128. ARNALDO JABOR. Vinte e cinco anos atrs, o cinema brasileiro estava decolando: filmes com dez milhes de espectadores D. Flor, Xica da Silva, Lucio Flvio dando tanto lucro quanto os tubares e exorcistas. O pblico abarrotava as salas com filmes brasileiros. Por isso, alarmado, mr. Jack Valenti, o capo do cinema americano, voou correndo para o Brasil, para impedir nosso progresso. Veio falar com Geisel, fazer ameaas. Hoje, quando estamos melhorando, com a criao do Gedic (Grupo Executivo da Indstria Cinematogrfica), um novo programa de regulamentao para o cinema, Jack Valenti volta a ameaar. Ele e seu funcionrio local, Steve Solot, esto despachando arrogantes cartas-bomba para o governo, com ameaas de retaliao comercial e preparando lobbies para intimidar e comprar deputados, de modo a destruir nosso projeto de ter um mercado interno. H 25 anos, escrevi um poema-protesto contra Valenti. Hoje, com 79 anos, ele no mudou nada; nem ele nem os americanos, que falam em mercado aberto para enganar otrios. Meu poema, enxugado, continua atual. O sangrento coquetel de Hollywood. Hoje, quando j se fecha a plpebra do american dream/ e comea a grande noite de perigo no Sunset Boulevard, hoje,/ quando a democracia global j motivo de ironia nos bares/ elegantes de Nova York se bem que todos suportam a misria do mundo como um mal necessrio delcia de viver/ e ningum joga fora, com sentimento de culpa, seus rubros bloody maries / neste instante,/ Jack Valenti, com seu sorriso republicano,/ gravata de estrelas/ e slido rosto com/ traos de Dick Tracy/ George Wallace, Liberace e Billy Graham,/ e tantos outros robs da gargalhada infinita,/ neste momento,/ com a slida valise dos objetivos indestrutveis/ com o topete que nossa Dvida Externa deu aos executivos internacionais,/ Jack Valenti descer do seu avio de guerra/ no pas das promissrias vencidas. Em Braslia,/ Mr. Valenti dar entrevistas sobre livre mercado,/ e nos far veladas ameaas, com/ seus dentes brancos, seu shake hands , sua gua-de-colnia envenenada,/ que intimidaro nossos chefes-de-gabinete/ hipnotizados pelas luzes da Broadway,/ e ento,/ sob os sapatos no-brasileiros de Valenti,/ os tapetes rubros de nossa cordialidade deslizaro sob seus ps/ e ningum ver no ar os crimes do cinema americano,/ ningum ver os corpos de nossas pobres mentes mortas/ ningum reconhecer as leses,/ no h legista que descubra as marcas de livores em nossa alma,/ ferida roxa, ferida rosa, ferida de arco-ris,/ poeira de estrelas em nossos olhos,/ homens tatuados que ns somos/ pelas mil aventuras de Hollywood,/ queimaduras de Eastmancolor/ amarelo-kodak de nossa fome. Ento, Mr. Valenti tirar da mala de desgnios indestrutveis/ os valores mais sagrados do Imprio ocidental: a simetria, a continuidade,/ o princpio, o meio, o fim, o happy end ,/ e sua viso mercantil de liberdade./ Ns fugiremos,/ mas, de sua pasta de desgnios indestrutveis/ sair o King Kong de nosso Inconsciente/ e ele crescer/ a cada ruflar de dedos/ ele crescer/ ele, o monstro de papier mach de nosso desejo colonizado,/ esse gnio da lmpada com pernas de Ben Hur,/ cara de Esttua da Liberdade/ seios de Marilyn Monroe/ lbios de Las Vegas/ olhos de Las Vegas/ vaginas luminosas de Las Vegas,/ bocas de beijos infinitos/ na tela do sonho paranico de Hollywood. E, como um leite venenoso do grande seio da Califrnia,/ nossas antenas de TV mamaro para sempre/ a mais infernal mentira j montada pelo homem,/ e eles viro/ com seus dentes de celulide,/ eles viro com coxas de Rachel Welch,/ eles viro com seus olhos de Carrie, a estranha espalhando morte nas salas/ eles viro ao coquetel sangrento de Jack Valenti/ eles viro com seus figurantes sonmbulos,/ mas no traro as aves-do-paraso de Busby Berkeley,/ nem as asas de Fred Astaire/ nem a doce cicatriz de Gene Kelly.../ eles viro e vir o chumbo grosso das metralhadoras de Tom/ e o fino punhal de Jerry/ e vir o grande tubaro branco/ com as sedas de Jean Harlow sangrando entre os dentes/ eles viro ao funeral de nossa cultura/ e viro os seus cineastas covardes, obedientes,/ caminhando com as muletas roubadas/ dos velhos Hawks, Ford, Hitchcock e Vidor,/ enquanto Nicholas Ray cai de porre numa viela de Carmel/ e Orson Welles faz comercial de usque em Amsterd,/ eles viro nos vender seus ltimos peixes/ eles viro no fim do sonho americano/ na ltima bobina do sonho americano/ eles viro vender os ltimos retalhos de seus mitos remendados/ os manequins rotos, olhos cados,/ a paina esfiapada de seus bonecos falsoso ferro-velho dos estdios,/ eles viro para o Baile da Ilha Fiscal da nacionalidade/ e faro seus titanics explodir nas piscinas dos milionrios,/ e Linda Blair vir rodando a cabea aos quatro ventos/ e viro todos maquilados/ brancos de gesso, sorridentes/ casacas fosforescentes, porrete na mo,/ para nos vender os ltimos resqucios da esperana/ de Carmen Miranda,/ mas no traro Carmen Miranda cada morta/ nem Judy Garland drogada pelos executivos/ nem Marilyn flutuando na piscina envenenada do seu ltimo teste/ nem as cenas cortadas de Greed de Stroheim,/ nem o cadver de James Dean,/ nem nada,/ quem vem a ltima gerao binica,/ Jack binico/ corao de celulide,/ brilhantina de napalm/ unhas de Nixon. E, quando a orquestra dos cubancheros brasileos / tocar em suas maracas Thats entertainement,/ todas as colunas sociais vo danar/ capas de Vogue vo danar,/ modelos magros jorrando marshmallow pelas bocas/ esqueletos com rosas entre as vrtebras/ todos vo danar com deputados comprados/ gr-finas deslumbradas,/ enquanto do lado de fora, o avio de Valenti, flutuando nos cus do Brasil,/ leva para o Norte os bilhes de dlares de ingressos vendidos aqui/ sob o olhar dos brasileiros cegos para o prpio rosto. (Imperialismo americano no muda; os cineastas sabem disso...)

129. ARNALDO JABOR. A histria de minha vida poltica sempre oscilou entre dois sentimentos: esperana e desiluso. Cresci ouvindo duas teses divergentes, uma dupla mensagem: ou o Brasil era o pas do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nesta encruzilhada, eu cresci. Alm disso, dentro desta dvida, havia outra: UDN ou PTB? Reacionrios da elite ou povo? Brigadeiro ou Getlio, finesse ou sujeira? Comecei a me interessar por poltica quando votei em Jnio. Confesso. Eu tinha 18 anos e no consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoo duro. Jnio me fascinava com sua figura dramtica, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impresso de que ele, sim, era de esquerda, doido, off . Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouo: Jnio tomou um porre e renunciou!. Foi minha primeira desiluso. Tinha sido eleito esmagadoramente, e largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do Praia Vermelha, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da poltica, mais forte que slogans e programas racionais. J na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice Jango, que a direita queria impedir. O exrcito do Sul, com Brizola frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabea que, com uns militares legalistas e com heris de esquerda, finalmente o Brasil iria ascender a seu grande futuro. Nos dois anos seguintes, vivi a esperana de um paraso vermelho que iria tomar o pas todo, numa rplica da rumba socialista de Cuba, a revoluo alegre e tropical que iria acabar com a misria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, sem inimigos visveis, com o presidente e sua linda mulher fundando a Roma tropical como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo iria cair sem resistncia. No dia 31 de marco de 64, estou na UNE comemorando a vitria de tudo. Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, comemorando a vitria do socialismo. Um amigo me abraou, gritando: Vencemos o imperialismo americano; agora, s falta a burguesia nacional! Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. Diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manh, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu tinha acordado de um sonho para um pesadelo. No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrtico mnimo, que at serviu para virilizar nossa luta poltica. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistncia cultural rica e frtil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingnuo pr-64. As idias e as artes se engrandeceram na maldio. Com muita esperana, as passeatas foram enchendo as ruas, num herosmo democrtico que acreditava que os militares cederiam presso das multides. Era iluso. Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o Gama e Silva lia o texto do Ato 5 na TV, virando o pas num sinistro campo de concentrao. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca lady Macbrega Yolanda, fechou o pas por mais 15 anos. Esperana-desiluso. Vieram os batalhes suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do milagre brasileiro, os jovens romnticos ou foram massacrados bala ou caram no desespero da contracultura mstica, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos milagres de So Paulo. O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsesso. Quando vier a liberdade, tudo estar bem!, dizamos. S pensvamos na democracia e ningum reparou que ela foi voltando menos pelos comcios das diretas, e mais pelas duas crises do petrleo que criaram a recesso mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a liberdade na hora de pagar a conta da dvida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falncia do Estado e entregaram-no aos paisanos eufricos com a vitria de Tancredo. Nova esperana! Pois, justo a, veio um micrbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa histria. E a comea a grande desiluso. Com a volta da democracia, no perodo Sarney, tudo piora. Apavorado, vi que a democracia s existia de boca, no estava entranhada nas instituies, que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e polticos que tomaram o poder, todos nobres vtimas da ditadura. Da para frente, s desiluso e dor: inflao a 80% ao ms (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da Repblica, vergonha e horror. Depois, nova esperana com o impeachment; depois, mais esperana com o Plano Real, vitria da razo reformista com FHC, logo depois do Brasil no tetra, cu azul, esperana sem inflao. Nunca acreditei tanto na vida. Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Temos o mistrio Ciro, um maverick em busca de partidos, voz no deserto, com tintas voluntaristas inquietantes. Temos a oligofrenia oportunista de seres sinistros como Itamar agarrado em Qurcia e Newto, e temos este flagelo de Deus que o Garotinho, apoiado pela superstio e pela misria popular. H a esperana de que o PT , se chegar ao poder, no caia no delrio leninista desconstrutivo e regressista. (Oh, Deus, mostre-lhes o mundo real!...) O trgico que, para alm das ideologias, existe no Brasil a maldio do Mesmo, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso, que deseja a gelia geral, que odeia projetos racionais sejam do PT ou do PSDB, que quer um destino sem rumo, por ser mais lucrativo para corrupo e privilgios. uma fome de amor ao atraso, paralisia, que seis anos de FHC no conseguiram apagar. A grande chance histrica da razo pode ter sido perdida. Toda tentativa de racionalidade naufraga sistematicamente em nossa vocao para toupeiras e ratos. Vem a pas do futuro ou uma zorra? Mistrio. Nem esquerda, nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.

130. ARTHUR AZEVEDO. DE CIMA PARA BAIXO. Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente mandou chamar o diretor-geral da Secretaria. Este, como se movido fosse por uma pilha eltrica, estava, poucos instantes depois, em presena de Sua Excelncia, que o recebeu com duas pedras na mo. Estou furioso! exclamou o conselheiro; por sua causa passei por uma vergonha diante de Sua Majestade o Imperador. Por minha causa? perguntou o diretorgeral, abrindo muito os olhos e batendo nos peitos. 0 senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeao sem o nome do funcionrio nomeado! Que me est dizendo, Excelentssimo?... E o diretor-geral, que era to passivo e humilde com os superiores, quo arrogante e autoritrio com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida: verdade! Passou-me! No sei como isto foi... imperdovel esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe um pouco mais de ateno os atos que tm de ser submetidos assinatura de Sua Majestade, principalmente agora que, como sabe, est doente o seu oficial-de-gabinete! E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu: Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial: ouvi palavras to desagradveis proferidas pelos augustos lbios de Sua Majestade, que dei a minha demisso!... 0h!... Sua Majestade no o aceitou... Naturalmente; fez Sua Majestade muito bem. No a aceitou porque me considera muito, e sabe que a um ministro ocupado como eu fcil escapar um decreto mal copiado. Peo mil perdes a Vossa Excelncia protestou o diretor-geral, terrivelmente impressionado pela palavra demisso. 0 acmulo de servio fez com que me escapasse to grave lacuna; mas afirmo a Vossa Excelncia que de agora em diante hei de ter o maior cuidado em que se no reproduzam fatos desta natureza. 0 ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo: Bom! Mande reformar essa porcaria! 0 diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3a seo, que o encontrou fulo de clera. Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. Ministro! Por minha causa? 0 senhor mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionrio nomeado! E atirou-lhe o papel, que caiu no cho. 0 chefe da 3a seo apanhou-o, atnito, e, depois de se certificar do erro, balbuciou: Queira Vossa Senhoria desculpar-me, Sr. Diretor... so coisas que acontecem... havia tanto servio... e todo to urgente!... 0 Sr. Ministro ficou, e com razo, exasperado! Tratou-me com toda a considerao, com toda a afabilidade, mas notei que estava fora de si! No era caso para tanto. No era caso para tanto? Pois olhe, Sua Excelncia disse-me que eu devia suspender o chefe de seo que me mandou isto na pasta! Eu... Vossa Senhoria... No o suspendo; limito-me a fazer-lhe uma simples advertncia, de acordo com o regulamento. Eu... Vossa Senhoria. No me responda! No faa a menor observao! Retire-se, e mande reformar essa porcaria! 0 chefe da 3a seo retirou-se confundido, e foi ter mesa do amanuense que to mal copiara o decreto: Estou furioso, Sr. Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do sr. diretor-geral! Por minha causa? 0 senhor um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigvel! Este decreto no tem o nome do funcionrio nomeado! E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense. Eu devia propor a sua suspenso por 15 dias ou um ms: limito-me a repreend-lo, na forma do regulamento! 0 que eu teria ouvido, se o sr. diretor-geral me no tratasse com tanto respeito e considerao! 0 expediente foi tanto, que no tive tempo de reler o que escrevi... Ainda o confessa! Fiei-me em que o sr. chefe passasse os olhos... Cale-se!... Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas atribuies?!... No, senhor, e peo-lhe que me perdoe esta falta... Cale-se, j lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!... 0 amanuense obedeceu. Acabado o servio, tocou a campainha. Apareceu um contnuo. Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seo! Por minha causa? Sim, por sua causa! Se voc ontem no tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, no teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado! Foi porque... No se desculpe: voc um contnuo muito relaxado! Se o chefe no me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa seria sua! Retire-se! Mas... Retire-se, j lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia queixar-me de voc!... 0 contnuo saiu dali, e foi vingar-se num servente preto, que cochilava num corredor da Secretaria. Estou furioso! Por sua causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas! Por minha causa? Sim. Quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que te demoraste tanto? Porque... Cala a boca! Isto aqui andar muito direitinho, entendes? Porque, no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro ests no olho da rua. Serventes no faltam!... 0 preto no redargiu. 0 pobre diabo no tinha ningum abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agresso do contnuo; entretanto, quando depois do jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontap no seu co. 0 msero animal, que vinha, alegre, dar-lhe as boas-vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os ps. 0 co pagou pelo servente, pelo contnuo, pelo amanuense, pelo chefe da seo, pelo diretor-geral e pelo ministro!...

131. ARTHUR AZEVEDO. AS BARBAS DO ROMUALDO. O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educ-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exrcito, e, depois de obtida a sua baixa, contnuo de secretaria. Releva dizer que o Romualdo s deixou crescer as barbas depois de contnuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capito pelo menos. Mas que contnuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suas brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um jri sensacional, e essa iluso s se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prospia do "povo da lira". Calado era um juiz; falando, um capadcio. Os praticantes amanuenses e mais funcionrios do chefe de seco para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocrticas ainda no eram eltricas. As de hoje so menos humilhantes, no sei se devido eletricidade, se ausncia do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritrio. Era, em verdade, pelo menos desagradvel para um funcionrio rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: Leve este ofcio portaria. O Romualdo no ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartio, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguo da secretaria, de culos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tmida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o realidade da sua situao de subalterno. Era o mesmo que se no tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e no to baixo que o no ouvissem: Pois sim!...toca p'r'a!...scia de vadios!...no tm mais que fazer seno dar ao badalo!... Tlin! tlin! tlin!... Toca, toca, meu menino!...estou bem aqui!... Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabea do funcionrio incipiente...e impaciente: Ento, seu Romualdo? H uma hora que estou a tocar! O contnuo erguia a cabea, tirava os culos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentido o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas: Que temos? Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicao! O amanuense no se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidado conspcuo. Em casa, depois que deixara crescer as suas, o Romualdo poderia dizer-se orculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos uma que era clamoroso estar ali um simples contnuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartio de primeira ordem. Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou polticos, e dando sobre cada um a sua opinio individual. Nessas ocasies s dizia parvoices, mas a famlia ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas. Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o no conhecia, porque a sua figura solicitava a considerao e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem ser aquele figuro? Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contnuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo. Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que no fosse a exibio das suas barbas, captou a confiana e at certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majesttico. Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartio, o ministro queria o contnuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda no havia telefone. No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contnuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez at ps as suas gloriosas suas ao servio da boa harmonia administrativa. O caso conto como o caso foi. O ministro andava, no sei porque, s turras com o diretor da Estrada de Ferro, e j o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se no soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, no fosse to agarrado pasta. Um dia o alto funcionrio precisou falar ao ministro sobre matria urgente de servio, e, no o achando na secretaria, foi ter sua casa. Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira. O ministro est? Est, sim, senhor. V dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgncia. O Romualdo, que j se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe: Est a o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obsquio de lhe conceder alguns minutos de ateno para assunto urgente. O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu: Diga a essa besta que no estou para o aturar, e que no me amole! O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionrio: O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obsquio de procur-lo noutra ocasio, porque neste momento est muito ocupado, e sente no poder prestar a v. ex. toda a ateno que v. ex. merece. O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando: Pois digalhe que v para o diabo que o carregue! O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou : O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurar v. ex. na secretaria. Com aquelas suas, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?

132. AUGUSTO NUNES. Enfrentemos os nostlgicos da escurido. Lula parece no saber quem o chefe supremo das Foras Armadas. Viegas um ministro sem coragem para esmagar o ovo da serpente. Embora seja necessrio esclarecer a origem das fotos e os motivos da divulgao inesperada, tem importncia secundria a identificao do ser humano que aparece naquelas imagens ultrajantes. Seja o jornalista Wladimir Herzog, seja o padre Lopold D'Astous, ali est um homem - um homem brutalizado por torturadores a servio da ditadura militar. No Brasil de 2004, j distante da noite autoritria, iluminado pela restaurao da democracia republicana, afiguram-se bem mais graves certos desdobramentos do episdio, sobretudo duas notas subscritas por autoridades militares. A primeira morde, a segunda sopra. Ambas esbofeteiam a Constituio. A primeira foi atribuda ao general Antnio Gabriel Esper, chefe do Centro de Comunicao do Exrcito. Na forma e no contedo, lembra a arrogncia enfurecida dos velhos senhores dos pores ao longo dos anos de chumbo. A segunda, subscrita pelo general Francisco Albuquerque, comandante do Exrcito, desautoriza a anterior no tom indulgente de quem recomenda cautela ao filho brigo. Mas o ministro da Defesa, Jos Viegas, gostou. "O caso est encerrado", decidiu. No est. S estar depois de punidos os subversivos fardados. A Constituio informa que o presidente o chefe supremo das Foras Armadas. Lula o n 1 tambm nos quartis. Na ordem hierrquica vigente, ao presidente se seguem o ministro da Defesa e o comandante do Exrcito, tambm agredidos pelos subversivos. Viegas considerado por dezenas de oficiais uma flor de pusilanimidade. Merece. O Brasil que no merece esse ministro incapaz de impor-se a supostos subordinados, comeando pelo general Albuquerque. Induzido por recordaes de tempos que no voltaro, Lula comportou-se com o tipo de prudncia que se confunde com o medo. Um erro grave. Ele precisa, e com urgncia, demitir Viegas, trocar o chefe do Exrcito e enquadrar todos os envolvidos no motim. Os remanescentes do serpentrio tm de aprender que a era das quarteladas acabou. Informado de que os soldados brasileiros em servio no Haiti, incorporados fora de paz formada pela ONU, tambm esto cuidando do controle de favelas conflagradas em algumas cidades daquele pas exposto a ondas sucessivas de violncia, o Cabco Perguntad ficou bastante confuso. Quando algum ressuscita a idia de engajar tropas militares no esforo conjunto para pacificar os morros do Rio de Janeiro, generais, polticos e juristas argumentam que no esse o papel das Foras Armadas. O Cabco Perguntad quer saber: se pode no Haiti, ento por que no pode aqui? A taa est com Pudim. Entusiasmado com o tamanho da fila de eleitores em busca do sonho prometido pela governadora Rosinha - distribuir casas ao preo de R$ 1 se o novo prefeito de Campos for Geraldo Pudim -, o candidato apoiado pelo casal Garotinho j ganhou ao menos a taa da semana. A frase premiada: "Na ordem dos escolhidos, claro que ter preferncia quem votar em mim". Os jurados do Yolhesman Crisbelles particularmente impressionados com a esperteza da inverso: em Campos, o prato principal s ser servido ao populacho depois de engolida a sobremesa. Garganta prova de quedas. Reproduo de TV. Nem mesmo quedas espetaculares afetam a loquacidade de Fidel Castro. Antes mesmo de erguer-se da calada em Santa Clara, ainda empapado de suor, o ditador cubano empunhou o microfone para dirigir-se nao estremecida. Reproduo de TV. Eu lhes peo perdo por ter cado, discursou. Tenho uma fratura no joelho e talvez uma no brao, mas estou inteiro. Maravilha. Falta agoraz encontrar o agente da CIA que infiltrou aquele degrau traioeiro no caminho do Comandante. Falta um Duda a Duda. Marqueteiro-mor do governo federal, Duda Mendona talvez contrate algum para melhorar a prpria imagem. O arranho mais recente acabou por afast-lo da chefia da campanha de Marta Suplicy. Na quinta-feira, preso pela Polcia Federal numa rinha do Rio da qual scio, o criador de galos de briga apaixonado pelos combates ferozes entre as aves deixou a cadeia, horas depois, no papel de indiciado. "O Brasil inteiro sabe que meu hobby esse", alegou. Certo. "No estou fazendo nada de errado". Engano. O que Duda chama de hobby um crime ambiental que pode dar cadeia. Pelo menos o que diz a lei. Foi Maluf quem fez. A ltima do Maluf superou todas as proezas do velho recordista: ele acaba de materializar o "caminho de acusaes", hiprbole que at agora s existia na retrica agressiva dos palanques eleitorais. As pilhas de papel na carroceria do veculo amontoam documentos com denncias e acusaes envolvendo Maluf, que teve bens bloqueados. Nem Marta Suplicy nem Jos Serra trataram do que a foto mostra. De olho nos votos de malufistas irredutveis, os candidatos a prefeito de So Paulo optaram por cruzar o segundo turno em silncio esperto. Daqui por diante, esto ambos proibidos de fazer crticas ao campeo. O QUE VAI POR A. Frase pinada do discurso feito por Lula no Rio, ao abrir uma reunio da Associao Brasileira de Agentes de Viagem (Abav): "Problemas existem e tm que ser tratados com seriedade, mas o que no serve para a promoo do turismo no deve ser tratado com displicncia". Ningum entendeu, mas todos aplaudiram. Se o presidente continuar decidido a produzir discursos de improviso, o governo ter de nomear um tipo de assessor ainda por ser inventado: o "explicador simultneo". Pare, Romrio. Continue, Schumacher. Alarmadas com sucessivas ameaas annimas, vivas dos quatro fiscais do Ministrio do Trabalho assassinados em Una no comeo do ano pedem socorro ao governo federal. Os mandantes do crime devem ter achado pouco. Oficiais das Foras Armadas vivem reivindicando a substituio do ministro da Defesa, Jos Viegas, por algum integrante do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Os motivos no so claros, mas entre eles decerto no est o interesse na divulgao dos documentos sobre a guerrilha do Araguaia. O movimento foi organizado pelo PCdoB, que tampouco pretende reabrir a questo. Os motivos tambm no so claros. John Kerry, como notou Arnaldo Jabor, tem cara de dvida. J George Bush no homem de hesitar: vai logo tomando a deciso errada. Esquea essa histria de reeleio e volte para o plenrio, Joo Paulo Cunha. Para quem chegou de Osasco nem faz tanto tempo, dois anos na presidncia da Cmara dos Deputados j esto de bom tamanho.

133. AUGUSTO NUNES. A arrogncia irm da impunidade. Norberto Mnica, o "rei do feijo", lidera o grupo dos acusados de planejar o massacre dos fiscais em Una. Animados com o triunfo do candidato a prefeito Antrio Mnica, suspeito de integrar o grupo de mandantes do massacre de quatro funcionrios do Ministrio do Trabalho ocorrido no comeo do ano, alguns nativos de Una passaram a exibir a arrogncia dos impunes frente a cobranas reiteradas por homens de bem. O pretexto a preservao da imagem de um celeiro de trabalhadores exemplares, fustigada por jornalistas irresponsveis. Conversa fiada. Querem mesmo impedir que as investigaes avancem at o completo esclarecimento de um crime especialmente torpe. Consumou-se em 28 de janeiro de 2004, com a execuo de quatro funcionrios do Ministrio do Trabalho. Numa estrada do municpio, foram assassinados a tiros os fiscais Nelson Jos da Silva, Joo Baptista Lages e Erasttenes de Almeida Gonalves, alm do motorista Ailton Pereira de Oliveira. Morreram por acreditar que a lei vale para todos. Em 27 de julho, a Polcia Federal divulgou a captura de seis indivduos envolvidos no episdio. Todos haviam participado diretamente da ao de extermnio, apertando gatilhos ou manobrando veculos mobilizados para o cerco mortal. "O crime foi quase desvendado", ressalvou um delegado. Era essencial a ressalva: sobravam evidncias de que o massacre fora encomendado por fazendeiros irritados com a teimosia dos fiscais em mult-los por agresses lei. Entre os possveis mandantes reluzia Norberto Mnica, o "rei do feijo", chefe de uma famlia muito influente e lder do bando de poderosos inconformados. Desde o fim da dcada de 90, o fiscal Nelson Jos da Silva vinha punindo Mnica com multas que somavam, em janeiro de 2004, quase R$ 2 milhes. Quase todas decorriam de violaes da legislao trabalhista, ignorada com histrico desembarao pelos donos das terras. Eles decidiram acabar com a audcia dos fiscais. A entrada em cena da famlia Mnica, se ajudou a iluminar a histria, tambm provocou a subida ao palco de personagens decididos a embaralhar o enredo e confundir a platia. A mobilizao amiga aumentou quando as investigaes chegaram a Antrio Mnica. Lanado pelo PSDB do governador Acio Neves, o candidato a prefeito tinha o apoio ostensivo do vice-presidente Jos Alencar, de deputados bem votados na regio e at do PT de Una. Estava bem no retrato. Preso em setembro, o favorito se tornou imbatvel. Vitorioso com mais de 72% dos votos, virou heri municipal. Um mrtir, crucificado por jornalistas inescrupulosos vinculados esquerda radical. Na segunda-feira passada, um certo Jos Nieto enviou coluna a nota, includa no site que explora, inspirada no texto publicado na vspera pelo JB. Segue-se, transcrito sem correes, um trecho bastante revelador:"O senhor Augusto Nunes tem o raro poder de clarevidncia, sendo capaz de substituir as polcias investigativas, o Judicirio da Repblica e os eleitores. Pelo menos tem sua vaga certa no comitern literrio tupiniquim. Onde ser que anda se informando? Ou ser que capaz de publicar textos digitados por espritos?" Sosseguem os vassalos a servio de assassinos: no so necessrias fontes misteriosas. Basta o acesso s investigaes da Polcia Federal. Mas mensagens psicografadas seriam bem-vindas. Se os mortos falassem, Una demoraria a dormir.Ao receber no Vaticano a nova embaixadora do Brasil, Vera Machado, o papa abenoou o Fome Zero, que no conhece. Em nome dos evanglicos, a ex-governadora Benedita da Silva abenoou a candidatura a prefeito de Nova Iguau do petista Lindberg Farias, ateu de carteirinha. At por ser brasileiro, Deus merecia ser poupado do vale-tudo por um voto. O QUE VAI POR A.O vice-presidente Jos Alencar foi at Moscou s para ouvir das autoridades russas que ser mantido o embargo importao de carne bovina do Brasil. Os antigos fregueses invocam razes de ordem sanitria, como testemunharam os quase 30 integrantes da comitiva. Em compensao, pores do caviar do Bltico continuaro ausentes das cestas bsicas distribudas pelos programas sociais do governo Lula. O senador Herclito Fortes (PFL-PI) foi com cinco amigos passar o feriado de 12 de outubro em Barreirinhas, na regio dos Lenis Maranhenses. s margens do Rio Preguia, recepcionou-o Fernando Barbosa de Oliveira Jnior, juiz da comarca e disposto a conferir o boato: o grupo levava na bagagem dinheiro para a campanha do adversrio do candidato prefeitura pelo PT, Miltinho. Agressivo e beligerante, o juiz estava acompanhado no de policiais, mas do prprio Miltinho e oito companheiros armados. Constataram que nas malas no havia dinheiro nenhum. O senador exigiu do juiz um atestado formalizando a ocorrncia e detalhando seu desfecho. Documento prometido, o doutor achou mais sensato sumir. Herclito pediu providncias ao Senado presidido por Jos Sarney, cujo cl d as cartas na regio. Melhor esperar sentado. Fale menos, Gilberto Gil. E cante mais. O jornal americano The Washington Post informou que o MR-8, grupo brasileiro que posou de esquerdista at cair na vida, pegou parte dos US$ 11 bilhes usados por Saddam Hussein para conseguir cmplices dispostos a ajud-lo a driblar o bloqueio comercial. At agora, ningum se moveu para investigar o tamanho da negociata. No deixem de ler Getlio, romance do excelente Juremir Machado da Silva lanado h pouco pela Editora Record. um grande livro. Articule menos, Jos Dirceu. Com um beijo e uma lgrima, a coluna registra a partida do timo Fernando Sabino. Grande escritor, grande figura. Lula da Silva ainda cuida de selecionar os eleitos para o vo de estria do avio presidencial. Na viagem para o Japo, todos podero desfrutar das comodidades do aparelho, pronto para decolar. Permanece num hangar nos EUA para evitar que, na brigalhada do segundo turno, os ressentidos de sempre afirmem bastar uma escala no Palcio do Planalto para que toda humildade se desmancha nos ares. Rosinha leva taa. A frase campe, pinada do Informe JB de sexta-feira, garantiu a taa da semana governadora Rosinha Garotinho. No discurso que celebrou a inaugurao de obras de asfaltamento custeadas pelo Estado, Rosinha incluiu crticas ao candidato do PT Prefeitura de Niteri e uma ousada comparao: "Sou como Jesus Cristo, que veio Terra para ajudar os doentes". Os jurados do Yolhesman Crisbelles acham que Rosinha merece o prmio tanto pelo que disse como pelo que evitou dizer. No fez nenhuma aluso, por exemplo, a mercadores dos templos. Desafinao na parceria.Ao indicar o deputado Gilberto Kassab para completar como vice a chapa de Jos Serra, o PFL estava querendo ajudar ou atrapalhar o candidato a prefeito? A pergunta muito pertinente. Entre tantos nomes, o partido escolheu justamente um ex-secretrio de Planejamento do inesquecvel Celso Pitta. O PT acusa Kassab, que ficou um ano no cargo, de ter planejado todos os erros de Pitta. Resta a Serra repetir a frase usada por Rui Falco, vice de Marta Suplicy, para explicar a aliana com Maluf: "Acusado ou indiciado no culpado". Espontneo e espantoso. sada do prdio da Polcia Federal, no feriado do dia 12, o incomparvel Paulo Maluf irritou-se com a inesperada presena de jornalistas. Mas partiu para o drible: "Vim aqui para depor espontaneamente". Apesar da boa vontade, avisou ao delegado, de sada, que no responderia a pergunta nenhuma. Tambm achou melhor fingir que nem ficou sabendo do comentrio pesadamente irnico do senador do PFL (e ex-policial federal) Romeu Tuma: "Nunca vi ningum aparecer espontaneamente em qualquer delegacia s para ser indiciado". No ano passado, quando o presidente Lula autorizou o plantio de sementes de soja transgnica, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, passou um tempo amuada. Consumiu algumas horas chorando no gabinete. Agora, indignada com a reincidncia do chefe, que assinou medida provisria favorecendo a turma do transgnico, Marina abriu o berreiro outra vez. Mas preferiu, de novo, chorar no Planalto. O Cabco Perguntad, que vive ouvindo histrias sobre a coragem da ministra acreana, anda intrigado. Quer saber por que Marina no renuncia ao cargo e troca a choradeira pela crtica aberta.

134. AUGUSTO NUNES. Ancorada h quase 30 anos no municpio de Una, Minas Gerais, a famlia Mnica vem cintilando com brilho crescente no universo que jornais do interior qualificam de "melhor sociedade local". So oito irmos, todos grandes fazendeiros. Lidera-os o mano Norberto, mais conhecido como "o rei do feijo".De maneiras rudes e linguagem tosca, Norberto comanda o cl com a energia de antigos monarcas. Os Mnica hoje tm muita terra, muito dinheiro, muita fora. No podiam prescindir da influncia eleitoral indispensvel a famlias decididas a mandar no Brasil. Norberto resolveu que o brao poltico seria o irmo Antrio, agora com 49 anos. E o escalou para assumir o cargo de prefeito. O plano enfrentaria imprevistos, tropeos e sobressaltos. A mais pontiaguda das pedras no caminho irrompeu com a chegada regio, ainda em 2003, de fiscais do Ministrio do Trabalho dispostos a revogar a histrica indulgncia reservada aos fazendeiros do lugar. Punidos com multas e sanes, como ocorre nas naes civilizadas com criminosos crnicos, os Mnica e seus comparsas decidiram replicar ao desafio. Numa reunio presidida por Norberto, expediu-se a sentena de morte. Em janeiro, quatro fiscais foram assassinados. Investigaes da Polcia Federal desvendaram pormenores da trama homicida. Na noite da execuo, os assassinos utilizaram um carro pertencente a Antrio, que participara da reunio dos mandantes. quela altura, o poltico da famlia j figurava entre os concorrentes prefeitura. Fora lanado pelo partido do governador Acio Neves, o PSDB. Era um candidato em campanha. E candidato continuou, mesmo depois da priso em setembro, que se seguiu captura do rei Norberto. Alm do apoio do partido do governador, conseguiu a adeso ostensiva do vice-presidente da Repblica, Jos Alencar. Mineiro fiel aos aliados, Alencar presenteou o suspeito com os votos dos amigos do PFL e, mais grave ainda, uma declarao formal de apreo. Tamanha demonstrao de fora, protagonizada pelo homem recolhido cadeia de Contagem, parece ter causado forte impresso entre os eleitores da cidade fundada em 1943, a 165 quilmetros de Braslia e 350 quilmetros de Belo Horizonte. Hoje, com quase 70 mil habitantes, Una abriga 46.163 portadores de ttulos de eleitor. Se tanto o partido de Acio quanto Jos Alencar em pessoa queriam Antrio no cargo, por que contrariar os figures? A bordo da vontade popular - 72% dos votos -, Antrio acaba de deixar a cadeia. Com cara de vtima e pose de prncipe, convalesce das festas pela vitria enquanto prepara a cerimnia de posse. Espera que, at l, em Braslia o irmo Norberto saia da gaiola. Merece comandar uma Secretaria de Segurana. Professor e Profeta. O vencedor da semana o Professor Luizinho, lder da bancada do PT na Cmara dos Deputados. Os jurados do Yolhesman Crisbelles decidiram homenage-lo depois de confirmado o contedo proftico da frase que produziu: "Lula faz poltica por msica". No dia seguinte, reunido no Planalto com prefeitos petistas vitoriosos no primeiro turno, o presidente da Repblica ensinou aos companheiros de que modo atrair para Marta Suplicy mais nordestinos eleitores em So Paulo: "Em vez de comcios com o Zez di Camargo e o Luciano, vamos fazer forrs". Fica provado que Luizinho mais que Professor. um Profeta. O endurecimento do governo em relao Vasp, que continua voando baixo e com as contas em atraso na estratosfera, deixou o Cabco animado: quem deve tem mesmo de pagar. Ele agora anda perguntando se tambm a Transbrasil, at agora tratada com suspeita indulgncia pelo poder federal, vai enfim entrar na dana. Que tal investigar sem medo a turma que tungou a empresa e desviou milhes de dlares para o exterior? No meio do bando existem figuras que entram sem bater nos melhores gabinetes do Planalto, certo. Mas o Capito Dirceu tem repetido, caprichando no sotaque, que o atual governo "no rba nem deixa robar". Esse genuno Genoino. "Eu quero o voto do Maluf!", proclamou o presidente do PT, Jos Genoino, no tom enftico que exige pontos de exclamao. No pensava assim em outubro de 2000, quando escreveu o seguinte: "Maluf usa expedientes esprios em sua guerra abjeta: ataques pessoais, insinuaes, calnias, inverdades e notcias falsas", afirmou Genoino. Que acusou de corrupto o homem cujo voto hoje implora. Uma trinca absolvida. Reproduo Rede Globo. As imagens do arrasto contra turistas no Leblon, ainda percorrendo o planeta pelas rotas da internet, s reafirmam que o Rio se transformou numa cidade sem lei. Por culpa da Unio, do Estado e da prefeitura. E sobretudo por culpa dos cariocas, que assistem passivamente imploso do sistema de segurana. Lula segue bem no retrato. Garotinho sonha com a Presidncia. E Cesar Maia se reelegeu. Palmas para o trio. O teste da imortalidade. Na montagem, a atriz e modelo Luana Piovani submete a exame de alto risco alguns membros da Academia Brasileira de Letras. Integrantes da Academia Brasileira de Letras continuam a discutir a questo: foi ou no imoral a performance de Luana Piovani sem calcinha na festa de entrega do Prmio Austregsilo de Athayde? A inquietao impertinente. No sculo passado, a Casa de Machado foi palco de ocorrncias, estas sim, decididamente obscenas. A mais atrevida talvez tenha sido a concesso de uma vaga, em 1941, ao ditador Getlio Vargas, que ainda no havia escrito um nico livro. Sobram casos parecidos. Em 1970, por exemplo, deu-se a sagrao do general Aurlio de Lyra Tavares, ex-ministro do Exrcito e chefe da junta militar que, com a morte do presidente Costa e Silva, cuidara da escolha do sucessor Emlio Mdici. Premiado com a embaixada em Paris, os ulicos acharam pouco. Que tal uma cadeira na Academia para o autor de obras como Histria da arma de engenharia? Seria um sucesso e tanto se as estrebarias, alm de baias, tivessem estantes. O general tambm produzia versos, assinados com um pseudnimo extraordinariamente inventivo: "Adelita". No nome de mulher?, debocharam os sardnicos de sempre, alheios evidncia de que Adelita o resultado de uma fuso perfeita: A de Aurlio, de de de, li de Lyra, ta de Tavares. Adelita. S essa maravilha j lhe valeria a imortalidade, que saboreou at ser convocado para a viagem derradeira. Viagem da qual escapou quem se exps ao teste da noite de Luana. Descompassos cardacos, excitaes perigosamente extemporneas e outros riscos espreitaram imortais de cabelos nevados. A festa, curiosamente, tambm homenageava o mesmo Austregsilo que sempre abominou a presena de mulheres naquele templo. A ousadia de Luana superou em tempo e temperatura o cruzar de pernas de Sharon Stone no filme Instinto selvagem. Se toda a platia tivesse visto o espetculo, dezenas de vagas hoje estariam disponveis na velha Academia. COISAS DO BRASIL. Frei Betto tem circulado pela ustria, onde a misria acabou faz tempo, entretido em palestras sobre "o sucesso do Programa Fome Zero". Evita comentar a derrota da candidata do PT Prefeitura de Guaribas, uma das duas cidades piauienses escolhidas para o lanamento do projeto. Ex-deputado federal pelo PDT do Rio, agora vereador eleito pelo PP em So Paulo, o cantor-poltico (ou poltico-artista) Agnaldo Timteo revelou o primeiro ponto do seu plano de ao: fazer shows em todos os municpios do Estado. O publicitrio Duda Mendona gaba-se de ter melhorado a votao de Marta Suplicy ao conseguir colar a imagem da prefeita de Lula. Vicentinho, que concorreu em So Bernardo pelo PT, ficou colado em Lula at na hora de votar: foram juntos sesso eleitoral. Mas no chegou a 30% dos votos. Pelo visto, o "efeito Lula" s funciona quando a agncia de Duda Mendona que cuida da campanha. Oficialmente embaixador do Brasil na Itlia, Itamar Franco informou que continuar em Juiz de Fora neste ms, engajado na campanha do deputado Custdio Mattos, candidato a prefeito pelo PSDB. Longe de Roma desde julho, Itamar considerado por adversrios o operrio-padro de 2004.

135. AUGUSTO NUNES. Compreensivelmente dividida no campo das preferncias eleitorais, a nao brasileira esbanjou unidade na sagrao de autnticos representantes do povo identificados margem das urnas. O primeiro alvo dessa aclamao nacional foi o maratonista Vanderlei Cordeiro, ganhador da medalha de bronze na Olimpada de Atenas. O Brasil vai afinal aprendendo a celebrar tambm segundos e terceiros lugares. provvel, assim, que o franzino corredor nativo fosse merecidamente ovacionado ao escalar o pdio. Mas circunstncias especialssimas iluminaram o episdio: a volta de Vanderlei prova depois daquele ataque do irlands aloprado, a alegria contagiante do corredor injustiado. Nunca houvera nada parecido. A imensa maioria dos brasileiros jamais ouvira falar daquela figura extraordinria. E nada sabia sobre um singularssimo nadador chamado Clodoaldo Silva, potiguar de 25 anos, que sofreu durante o parto uma paralisia cerebral que virtualmente lhe subtraiu os movimentos das pernas. A natao entrou em sua vida como mtodo teraputico. Assim comeou a gestao de um genuno heri do esporte. Na Grcia, clmax da trajetria comovente, ele ingressaria no panteo dos fenmenos da histria dos Jogos Paraolmpicos. ''Clodogua'', como o chamam os companheiros de equipe, voltou de Atenas com seis medalhas de ouro e uma de prata. Sonha com recepes festivas no pas que ajudou a engrandecer, mas j prepara a retomada da rotina difcil. Para deslocar-se do bairro perifrico onde mora at o local de treinamento em Natal, o gnio das piscinas toma oito nibus todos os dias. Sobrevive com a bolsa de R$ 4 mil concedida pelo Comit Paraolmpico Brasileiro. O Comit alega que a verba recebida do Ministrio do Esporte pouca. O ministro Agnelo Queiroz (que no voltou a Atenas para ver os paraolmpicos) diz que o governo no tem dinheiro para ajudar mais o esporte. Que o pas ao menos saiba deixar claro que Clodoaldo, ele sim, um real representante do povo brasileiro. Um heri. Pastel e roqueiro desafinam. Pastel e roqueiro desafinam Sempre espontneo, o roqueiro Supla exibe a expresso que muitos polticos so obrigados a disfarar na hora de engolir certos pastis de feira. Enquanto o senador Eduardo Suplicy e a prefeita Marta, candidata reeleio, fingem conversar sobre iguarias, o filho deixa claro que comeu e no gostou. Informado de que a cantora Gloria Trevi foi absolvida por tribunais mexicanos, o Cabco Perguntad ficou s vigiando como reagiriam trs instituies brasileiras: a Justia, responsvel pela priso da artista no meio de uma excurso, a Polcia Federal, que a manteve encarcerada durante dois anos, e a imprensa, que deu curso a gravssimas acusaes e divulgou infmias sem qualquer sustentao. Diante do silncio coletivo, o Cabco pergunta:Gloria ser indenizada pelo governo? Como punir os carcereiros-estupradores? E a imprensa, vai criar vergonha? Dois em um. Como dirigente sindical bancrio, Luiz Gushiken vivia buscando a greve at a vitria, com o pagamento dos dias parados. Acaba de ser arquivado o discurso do jovem esquerda. Avana a ladroagem. Pesquisa encomendada pelo Banco Mundial informa que o Brasil vai avanando vigorosamente no campeonato da corrupo planetria: dirigentes de mais da metade das empresas do pas revelaram j ter pago algum tipo de propina a funcionrios federais. (As restantes devem estar recebendo todos os dias visitas ou telefonemas de fiscais decididos a tomarlhes algum.) Mas o Capito Dirceu avisa: este governo no rba nem deixa roubar. Hoje dia de festa. Velhos pilantras seguiro no palco, em companhia de meliantes emergentes. Entre vitoriosos na disputa de prefeituras e vagas na Cmara, no faltaro rematados finrios. Homens de bem cedero suspeita de que o povo no sabe votar. Nada disso pode anular o essencial: s se aprende a votar votando, e assim se refina o processo de escolha. Sejam quais forem os resultados, qualquer eleio livre reafirma a consistncia da democracia brasileira. O domingo vale muitos brindes. Uma lenda na sala de jantar Ele chegou noitinha. O comcio na praa principal estava comeando, mas o astro s entraria em cena no final apotetico. O governador Jnio Quadros, em campanha para fazer de Carvalho Pinto seu sucessor, foi para a pausa na casa do meu pai, prefeito e paj municipal da tribo da vassoura. Os carros da comitiva arquejavam havia horas nos caminhos de terra, mas Jnio chegou esbanjando energia. Naquele vero de 1958, ele tinha pouco mais de 40 anos. Tinha, sobretudo, a Presidncia pela proa. Invadiu a sala escoltado pela procisso de devotos nativos. Distribuda a platia em crculos, o mito sentou- se cabeceira. Para comer e, sobretudo, beber. Enquanto jantava, traou meia garrafa do velho Palhinha com o prazer sensual de quem derruba o melhor conhaque francs. Instalados nas cadeiras da fila do gargarejo, os parentes mais velhos viram tudo de perto. No havia vagas para moleques de oito anos. No meio do povo, fiz o possvel para seguir a performance do artista que via ao vivo pela primeira vez. Achei-o um tanto maluco, mas optei pelo silncio. Terminado o jantar, Jnio fez minha me um pedido. Descontados o sotaque e linguagem empolada, era idntico ao dos pedintes que aportavam o dia inteiro na varanda do prefeito: A carssima primeiradama oderia preparar-me m sanduche de mortadela? reivindicou a dona Biloca. bituada a convivercom polticos, achava que a odos faltavam parafusos. Ouvira falar do truque do sanduche, inveno do grande populista. Mesmo assim, no conseguiu disfarar a surpresa: Jnio acabara de jantar (e muito bem). Como podia pedir um sanduche? E alm do mais de mortadela? E logo depois da sobremesa, sem vestgios de constrangimento? Mas tratou de providenciar a encomenda, entregue ao visitante embrulhada num guardanapo de papel. Ele enfiou a prenda no bolso direito do palet amarfanhado. Despediu-se entre mesuras e mesclises. Caminhou para o palanque na praa, a meia quadra de distncia, e subiu por trs. Um burburinho crescente avisou que o Homem acabara de chegar. Assumiu o lugar de honra, na linha de frente, quando discursava o deputado Emlio Carlos. O excelente orador, que costumava preceder o chefe, interrompeu a fala para que a aclamao explodisse. A torcida foi loucura, diria um locutor esportivo. Jnio comeou a acenar canhestramente, j com os cabelos em desalinho emoldurando o sorriso que lembrava um esgar. Fez sinal para que Emlio Carlos prosseguisse. Capturou o sanduche de mortadela e, com expresso faminta, devorou-o com poucas dentadas. Estava pronto para encerrar o comcio. Falou bonito. Insultou meiomundo, elogiou-se com adjetivos hiperblicos. E anunciou a Era da Vassoura. Meu pai voltou para casa eufrico. O homem j presidente, comentou. Mas doido ponderou dona Biloca. Os dois estavam certos.

136. AUGUSTO NUNES. Bonito, o amor. o que certamente escreveria o colunista Zzimo Barrozo do Amaral sob uma foto do casal formado por Marise e Antnio Celso Cipriani. Paixo arrebatadora isso a. Em 1978, ele era apenas um dos investigadores do Departamento de Ordem Poltica e Social, o medonho Dops, quando o diretor Romeu Tuma o designou para uma misso na Transbrasil. Ali conheceu o dono da empresa, Omar Fontana. E conheceu Marise, a filha do dono. Coisa de cinema: perdido de amor, Cipriani abandonou a mulher, casou-se com a herdeira e foi festa, nas asas da Transbrasil. Logo virou presidente da empresa. Enquanto sobrevoava nuvens de dlares, mantinha sob estreita vigilncia espaos no solo muito promissores. Tambm graas ao emprego de investigador, tambm levado pelas mos providenciais de Romeu Tuma, Cipriani conhecera em 1978 o sindicalista Luiz Incio da Silva. Comi muita r com o Lula, gaba-se o agora milionrio amigo do presidente. Bonito, o afeto fraternal, poderia registrar a legenda da foto reproduzida acima. Mostra Cipriani no comcio que celebrou em So Paulo a ascenso ao poder central do candidato do PT. Sorri o sorriso largo dos justificadamente felizes. O jovem policial que vigiava palanques de sindicalistas suspeitos subira ao palco da festa puxado por outro amigo de valor imensurvel: Roberto Teixeira, advogado, hospedeiro e ntimo de Lula. Um discreto figurao da Nova Era. A fora de Teixeira acaba de ser reafirmada, desta vez na CPI do Banestado o vastssimo painel de abjees de um pntano que os caciques do Congresso agora acham conveniente drenar. Na edio de domingo passado, em duas pginas, O Estado de S. Paulo publicou o resumo da pera. As rias em que ecoa a voz de Cipriani clamam por tmpanos aguados. Quando seu nome irrompeu na lista dos suspeitos, Teixeira incumbiu o relator Jos Mentor de evitar a quebra do sigilo bancrio do ex-investigador. Interveno oportunssima. O jornal comprova que, enquanto implodia a Transbrasil, Cipriani ampliava a fortuna em terra. Marise administra nos EUA, por exemplo, negcios imobilirios espantosamente lucrativos. Talvez tenha havido um caso de amor. Hoje caso de polcia. Lula precisa reler Luiz Incio.Antes que o chefe de governo, aborrecido com a onda grevista, produza outro improviso desastrado, convm reler a edio de junho de 1978 do jornal dos metalrgicos de So Bernardo. Presidente do sindicato e diretor da publicao, Luiz Incio da Silva (o Lula seria incorporado ao nome s mais tarde) usava, disfarado de Joo Ferrador, argumentos muitos parecidos com os invocados pelos bancrios hoje em greve. Cabco Perguntad.Ao saber que o publicitrio Duda Mendona paga R$ 20 mil por ms ao primeiro-marido Luiz Favre, para trabalhar na campanha pela reeleio da prefeita Marta Suplicy, o Cabco Perguntad ficou intrigado e esperanoso. Comovido com a generosidade de Duda, quer saber quanto ganham os profissionais da agncia que efetivamente entendem de eleio. E pergunta se h vaga para um sobrinho, no momento desempregado, que toparia comear como servente de salrio mnimo. O currculo ainda curto, mas o tio avisa que o garoto leva jeito:at j namorou a prima de um suplente de vereador em Vassouras. Enigmas da economia. No custa lembrar de vez em quando: o trofu Yolhesman Crisbelles, inscrio celebrizada na faixa de abertura dos desfiles da Banda de Ipanema, foi criado para homenagear autores de declaraes pronunciadas com pompa e circunstncia, mas impenetrveis. A taa da semana vai para o ministro Antonio Palocci, que usou, para explicar outra barretada ao FMI, a seguinte sopa de letras: O pas est preparado para ter um sistema anticclico de supervit primrio. Mas ainda no estamos implantando esse sistema. Celebrao da corda na casa do enforcado. Cada vez mais empolgado com o clima de palanque registrado no centro do poder, o chefe da Casa Civil, ministro Jos Dirceu, vem aumentando a freqncia e os decibis de seus pronunciamentos. Fantasiado de Capito Dirceu, retoma com veemncia o velho discurso do oposicionista sem mcula, exemplo do Homem Novo gerado no tero do PT. Nesses momentos ressurge a figura que enxergava pecados s em partidos inimigos e toda semana reivindicava a instalao de alguma CPI. Este governo no rouba nem deixa roubar, recitou na semana passada. (O Capito diz rba, como o ministro.) E vai acabar com a corrupo. A cruzada trata com mais brandura amigos de f e antigos assessores, como Waldomiro Diniz. Comprovadamente metido em bandalheiras, o brao direito do ministro combinou com cabeas federais que pediria exonerao do cargo. Oficialmente, no foi demitido: afastou-se do emprego por vontade prpria. Tem tempo de sobra para caminhar pelas vastides de Braslia, fazer compras sem pressa em supermercados e planejar o que far com a fortuna furtada. Decerto no coisa pouca. Na semana passada, emergiram mais evidncias de que Waldomiro, j no Planalto, manteve encontros suspeitos com a turma das loterias. Pingos nos is, Capito. Falta verba e falta pano. Aborrecido com tanta confuso na grande rea, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, prometeu reorganizar de vez programas federais como o Bolsa-Famlia e o Fome Zero, alm de outras fices supostamente subordinadas pasta. A coluna sugere a Patrus, que tem at um chefe de cerimonial, a comear a reorganizao pelo prprio guarda-roupa. Como avisa a foto, o ministro anda usando gravatas que lembram detetives de filme americano dos anos 50. O pano acaba bem antes do umbigo. MILAGRE. Numa entrevista em Campos, Anthony Garotinho prometeu que o governo estadual construir 20 mil casas caso o prefeito eleito seja Geraldo Pudim. E jurou que cada unidade custar ateno R$ 1. Deve ter acertado uma parceria direto com Deus. RESSALVA. Embora tenha sido presidente do Banco Central e ministro da Fazenda, Ernane Galvas tem emprego regular, vai ao trabalho todos os dias e vive do salrio. No Brasil, isso equivale a medalha de ouro.

137.AUTRAN DOURADO. OS MNIMOS CARAPINAS DO NADA. No Ponto, na farmcia de seu Belo, no armazm de secos e molhados de seu Bernardino, mesmo no final das tardes de conversao distinta do Banco Duas Pontes, no gabinete do nobre de alma e de gestos Vtor Macednio (o belo varo, bem-nascido e gentil-homem), que reunia em torno de si (ali se servia do melhor conhaque francs) os potentados do caf como o coronel Tote ou ilustres desocupados como seu B P. Lima, maledicente e boa-vida, mas de bero, enfim nas vrias goras da cidade onde se comerciava a novidade, a imaginao, o cio e o tdio... Nas janelas das casas terreiras de grandes e pesadas janelas de marco rstico, baixo e retangular, junto das caladas, onde se ficava sabendo de tudo pelos passantes que iam e vinham (como era bom se debruar e bater dois dedinhos de prosa ou fugir para dentro, se quem apontava na esquina era um maante), de tudo se sabia sem carecer de estafeta e selo, as notcias e novidades: quem andava pastoreando quem, aquela que tinha cado na vida e agora era carne nova, estava de rapariga na Casa da Ponte, na testa de quem apontara o broto de futura e soberba galhada... Mesmo nas nobres sacadas de ferro, nas janelas de ricos sobrados, podia-se ver a qualquer hora do dia, no enovelar lento do tempo, os carapinas do nada, ocupados na gratuita e absurda, prazerosa ocupao. Eram os carapinas do mnimo e do nada, os devoradores das horas, insaciveis Saturnos, dizia o sapientssimo, alambicado, precioso dr. Viriato. Quem no tem o que fazer, faz colher de pau e enfeita o cabo, vinha por sua vez o proverbial, memorioso, eterno, pantemporal noveleiro Donga Novais, uma das poucas pessoas a no se entregar inteiramente ao vcio e paixo da cidade. porque para ele a entidade metafsica do tempo no existe (como para os platnicos que, ao contrrio dos hebreus, no tinham o senso da historicidade, lidavam com o puro universal), passado, presente e futuro so uma coisa s, retrucava o dr. Viriato sbito espantosamente aderindo fiao e tecelagem dos nossos mitos. Ele que era um cientista exaltado, um agnstico convicto, de dialtico linguajar maneirista que demandava precioso raciocnio, imaginao, dicionrio. No que o dr. Viriato tivesse as mos ocupadas no admirvel passa-tempo (santo remdio para a ansiedade e a angstia), que demandava habilidade, preciso e pacincia, a que se dedicavam aristocraticamente potentados e pingantes que s tinham de seu serem bem-nascidos. To alto-crtico ele era, jamais se permitiria aquela vamos dizer arte, paixo antiga de Duas Pontes. De uma certa maneira ele colaborava era na criao de nossos mitos, mesmo negando-os, racionalista que ele se dizia e era. Quando, quem inventou to sublime vamos dizer desocupao e alvio do esprito, perguntava o dr. Viriato a seu Donga Novais, sapincia viva do nosso tempo e histria, os fabulosos, inconclusos e areos anais. Voc, Donga, o Scrates da nossa plis. No sei, dizia desapontando gente o nosso macrbio cidado Donga Novais: amor e cio so maus negcios. Eu acho que deve ser inveno de ndio, que enfeitava caprichosamente as suas flechas que, partidas do arco, no voltavam mais. Mas eles no esto enfeitando nada, dizia por sua vez o dr. Viriato. Os puristas, os cultores do absoluto, os escribas da idia, dos prottipos e arqutipos ideais, os minsculos carapinas do nada. Seu Donga ficou um tempo parado, assuntando, ideando. No que o senhor tem razo, dr. Viriato? Sim, dizia o mdico, porque a finalidade mgica dos bises e demais caas pintadas nas cavernas pelo homem de Cro-Magnon... Seu Donga desatou a rir, no tinha mesmo jeito aquele dr. Viriato, comia brisas com piro de areia. Porque havia trs categorias de livres oficinas que se dedicavam nobre arte de desbastar e trabalhar a madeira com o simples canivete e um ou outro instrumento auxiliar feito as latinhas que faziam as vezes do compasso. Trs, porque no se podia considerar como cultores da Idia, do sublime e do nada, os carpinteiros e marceneiros, que se utilizavam da madeira e de instrumentos mais eficientes como o formo, o cepilho, as brocas, e tudo sabiam de sua arte, ofcio e meio de vida. So os nossos sofistas, dizia o dr. Viriato, que pensavam ser possvel ensinar a arete e recebiam pelo seu trabalho e tinham as mos calosas. A primeira categoria quase se podia, se no fosse o nenhum pagamento, considerar uma corporao de operrios, que faziam de sua tcnica e imaginao um ofcio. Se vendiam o produto, no eram bem vistos pelos autnticos carapinas do nada, os sublimes; podiam comear a receber encomendas como qualquer trabalhador, o que se considerava degradante. No h dvida que o elogio uma forma sublimada de remunerao e s se remunera operrio, o que nem de longe se podia dizer deles (se ofendiam) que nunca pegaram no pesado. Eles e seus ancestrais, patriarcas absolutos, sempre estiveram do lado do cabo do chicote. Eram os fabricantes de carrinhos de bois, caminhes, mobilinhas, monjolos de sofisticada feitura e perfeita serventia, usados para compor prespio. Em geral exerciam a sua ocupao ociosa em casa, se serviam de instrumentos caseiros para auxiliar o trabalho do canivete, e chegavam a utilizar outros materiais que no a madeira, como espelhinhos, pregos, folhas-de-flandres. A segunda categoria, os marceneiros da nobre arte. Era exatamente aquela, sem metfora ou imagem, de que falou o sbio e intemporal rifoneiro Donga Novais - os que literalmente enfeitavam cabo de colher de pau. s vezes se dava o caso de que a colher ficava to bem-feitinha e artstica, com delicado e sutil rendilhado, labirntica barafunda, de quase absoluta nenhuma serventia, que a pea passava de mo em mo por toda a parentela, vizinhos e mesmo estranhos. Os elogios que recebiam valiam por uma paga ao artista, que acabava por consentir (queriam) que a mulher ou a filha colocasse a colher na parede, para nunca ser usada. O perigo dessa categoria era o autor, por vaidade ou outro motivo subalterno, gravar o seu nome na concha ou no cabo da colher. Como o primeiro artista da antiguidade que gravou numa obra sua a frase "Felix fecit", inaugurando assim o culto da personalidade, to contrrio aos artistas do gtico, que nunca tinham a certeza de verem concludas as catedrais que iniciavam, e eram annimos, seno humlimos oficiais. O coronel Sigismundo era exemplo tpico dos oficiais da segunda categoria. Era no s meio destelhado e quarta-feira, mas verdadeira alimria. Dele constavam dos anais fantsticas proezas nos seus carros sempre novos e lustrosos, se dando ao luxo e extravagncia de s vezes vestir a sua brilhosa e engalanada farda da Guarda Nacional, que no mais existia, e passear de carro pela cidade. Tudo se desculpava no coronel Sigismundo, por respeito ou medo. Ele se deu ao mximo, como nos tempos de casa-grande e senzala, de oferecer no uma colher de pau, mas palmatria de manopla por ele rendilhada, verdadeiro instrumento de suplcio, ao major Amrico, diretor e dono do Colgio Divino Esprito Santo, de terrvel e acrescentada memria, capaz de desasnar a prpria alimria. O velho major da Guarda Nacional recuou, os tempos agora eram outros. O gesto de ofertar e a utilidade do produto desqualificavam muito o coronel Sigismundo. Podia-se argumentar em seu favor que uma colher de pau finamente trabalhada para remexer panela, o bom dela, aps o trabalho do artista, era no servir para coisa nenhuma, puro deleite. E agora se apresenta a pura, a sublime, a extraordinria terceira categoria. S aos seus membros, peripattica academia, se podia aplicar estes qualificativos: divinos e luminosos, aristocrticos artfices do absurdo. Eram como poetas puros, narradores perfeitos, cepilhando e polindo as vazias estruturas do nada. A terceira categoria era o ltimo estgio para se atingir a sabedoria e a salvao. s vezes se dava o caso de que o artista (e isso no se ensina, ao contrario do que afirmava os sofistas, dizia o Dr. Viriato, emrito terico do vazio e do absoluto) vinha diretamente da primeira categoria, e alcanava a plenitude do nada , era um dos amados dos deuses, para os quais o grande, seno nico pecado a ignorncia. No se atingia essa categoria (era rarssimo o caso de um jovem a ela pertencer; falta juventude cio e pacincia) seno a velhice, quando se alcanava a plenitude da arte. Vov Tom era um desses casos raros do artista que passa veloz e diretamente da primeira terceira categoria. Atribuem a sua proeza e sua mestria no ofcio ao sofrimento, que uma das vias para se atingir o absoluto e a glria. Ele os alcanou, e isso consta dos anais do vento, na ltima velhice, quando atingiu, de apara em apara, cada vez mas longe e mais longas e mais finas, enroladinhas que nem cabelo de preto, o etreo e o que lhe restou na mo foi um minsculo pedacinho de pau. Na mesa, a sue lado, no crculo de luz do cone do abajur, um monte de finssimas aparas , nenhuma delas partida. Uma obra divina, foi o que disse o famigerado artista B P. Lima, quando viu o tiquinho de nada que restou. Falou quem pode, disse seu Donga Novais da sua area fantstica e insone janela, almenara da cidade. Um mestre e guru nirvntico, acolitou o Dr. Viriato. Para atingir esse estgio, o novio carece de muita pacincia, aplicao, humildade, modstia. preciso enfrentar a maledicncia dos ocupados, vence a delicadeza e timidez, correr o risco de se ferir. O mais elevado ideal dos membros dessa categoria era se dedicar a to sublime ocupao sentado numa roda, prestando ateno no desenrolar da conversa vadia e mesmo dela participando com um ou outro aforismo ou ponderao, sem despregar os olhos da mecnica ocupao. Conta-se a fantstica proeza de um dos sacerdotes do culto, o inefvel seu B P. Lima, que comeou desbastando um grande pedao de madeira e foi indo, de caracol, sem pressa, preciso, cuidando do seu gratuito ofcio, o ouvido porm atento a conversa, que esquentava, e seu B no queria perder nada, cujo tema principal era comportamento de certa dama de nossa cidade. E de repente se suspendeu a conversao, todos voltados para ele. Seu B se aproximava do fim, faltava-lhe uma ltima e mnima apara para atingir o nada. O prprio seu Belo veio l de dentro do laboratrio e ficou espera. Ento aconteceu. No se podia dizer se o que ficou na mo de seu B fosse ou no minsculo caracol que ele soprou. Como num circo ou num concerto, aps sustenida ateno, a respirao suspensa, a roda prorrompeu num coro de palmas. Seu Vtor Macednio, que passava pela farmcia, diante do silncio da roda, parou. No se dedicava ao nobre ofcio, mas vendo a ateno de todos, tambm ele aderiu rodada de palmas. Seu B , me faa o favor de comparecer no banco l pelo fim da tarde, para comemoramos o evento. Mais do que o normal, ele seria generoso com seu conhaque francs. Acredito com os outros que o mvel inicial que levou vov Tom nobre ocupao de pica-pau tenha sido o sofrimento. O suicdio de tio Zzimo, a loucura mansa de tia Margarida, um desastre econmico de papai que o obrigou a vender a Fazenda do Carapina para que no lhe tomassem a casa. Mas muito antes da terrvel morte do tio Zzimo ele j se ocupava em fazer a canivete um ou outro objeto de alguma serventia. A gratuidade mesmo de magnficos caracis ele s viria a atingir depois da morte por enforcamento de tio Zzimo. Mas antes mesmo do primeiro desses tristes acontecimentos vov Tom j se dedicava a manter as mos ocupadas. Acredito em parte que foi a tentativa de manter as moos ocupadas para vencer a opresso e a angstia que o levou a se dedicar a pequena tarefas caseiras. Porque no lhe bastava fazer um longo, caprichando e lento cigarro de palha, tarefa em que era perito. Os outros podem estar certos, e eu mesmo recuaria no tempo (no conhecia seno de crnica vov Z Mrio, pai de vov Tom), se pudesse contar a historia que num dia de maior solido e sufocamento, sob a maior promessa de sigilo, me contou vov Tom. Mas um caso longo no para agora. No , no foi s isso. Havia um lado menino muito bom em vov Tom. Eu me lembro do entusiasmo em que ele ficava quando da chegada de um circo nossa cidade, mesmo que fosse circo de tourada. E eu muito criana ia com ele, ficava no seu camarote. S depois que o abandonei para estar com meus amigos mais velhos l no alto das arquibancadas. Me lembro( e isso mame e vov Naninha confirmam) dos primeiros passos de vov Tom na arte de picar pau. Eu estava sentado no cho de tbuas lavadas e secas da sala, cortando umas figuras de umas revistas velhas. Eram de uma coleo de tia Margarida. Quando vov Tom viu e me chamou. Joo, deixa isso de banda, guarde as revistas onde voc tirou, venha comigo, tive uma idia. Vamos ao armazm de seu Bernardino buscar material. Ele me deu a mo e eu estava muito feliz. No era meu aniversrio quando, como fazia com os netos e afilhados, ele nos levava ao armazm de seu Bernardino para comprar um sapato de ver Deus. No armazm, depois de uma conversa breve e formal com seu Bernardino, vov perguntou se ele podia nos arranjar um caixote vazio. Seu Bernardino se espantou com o pedido, vov ainda no era da confraria. Quer que eu mande levar, perguntou seu Bernardino. Se me fizessem a bondade... Eu tive um mpeto, disse pode deixar que eu levo. Seu Bernardino olhou pra min, olhou para vov Tom, e disse com ficamos, seu Tom? Mande levar, disse vov. E o preo da pea e do carreto, por favor. Seu Bernardino disse brincando nem o preo de uma das suas fazendas bastaria. Ento lhe mandarei no fim da safra, uma saca do melhor caf tipo sete. Ora, seu Tom, e eu ia acreditar?! No pelo caixote, por nossa velha amizade, disse vov Tom. Aprendi ento um dos preceitos do seu cdigo de aristocracia rural. Eu e ele no podamos fazer qualquer trabalho manual, a nossa posio nos vedava. O primeiro foi (como esquecer!) quando soube que o delegado seu Dionsio tinha mandado dar uma surra num preso para ele confessar. Em homem no se bate, melhor matar, por respeito sua condio de homem, mais digno. Outro preceito do seu cdigo de honra aprendi muito menino, quando uma vez, a mando de mame, lhe fui tomar bno. Ele me recusou a mo, disse homem no beija mo de homem. Era um comportamento raro em Duas Pontes, cidade de velhos patriarcas. Nem bem chegamos em casa e veio o empregado com o caixote. Era um caixote de madeira branca que, pelos dizeres e pelo cheiro, se viu que tinha servido para embalar bacalhau, madeira das estranjas. Vov tirou o palet, desabotoou o colete, afrouxou o colarinho e comeou a fazer um caminhozinho para mim. Para quem parecia estar usando as mos pela primeira vez, no estava mal. No final da tarde, a obra estava pronta. Tinha ficado um tanto rstica, mas eu no disse nada a vov Tom, para no atrapalhar a sua satisfao. No outro dia dei com vov Tom aparando pachorrentamente um pedao de pau. Qu que o senhor est fazendo, perguntei. Uma colher de pau para Naninha, ela me pediu, disse ele meio envergonhado, talvez pela sua utilidade domstica. O senhor parece que no est gostando, no , perguntei. Para lhe ser franco, no, disse vov. O que gostaria de fazer, um monjolinho, indaguei. No, gostaria de fazer nada, disse ele. Nada, toa? Disse eu meio desapontado. No, fazendo absolutamente nada, quer dizer, ir aparando vagarosamente a madeira at no restar mais nada. Assim feito seu B, perguntei. Vov riu, achava muita graa nas bestagens de seu B P. Lima, nas histrias obscenas que ele contava, quando no tinha menino por perto, na presena de menino e de mulher ele fechava a cara, metia a viola no saco, se dava ao respeito. B um artista do nada, por isso um homem feliz, disse. E vov Tom foi ficando um perito na arte dos caracis. Demorava muito o aprendizado, ele porm no tinha pressa. Pra qu? dizia, no falta matria-prima neste mundo. E brincando, haja povo na terra para desbastar a floresta amaznica. s vezes fico imaginando o povo todo do mundo picando pauzinho. Seria a paz e a unio dos homens. Eu tinha um certo medo de que vov enjoasse do gratuito ofcio e virasse um terico do no fazer nada, absolutamente nada. Seu B, por exemplo, no tinha dessas cogitaes, apenas ia aparando as suas fitas e caracis. Vov no tinha a pachorra e a tranqilidade de seu B. Era exigente, ia ao armazm de seu Bernardino escolher as melhores madeiras, havia uma certa qualidade de pinho que era em si uma beleza. A madeira no podia ter olhos nem veios muito acentuados, nem mistura de tons. Quanto mais lisas e uniformes, melhor. Quem tem pressa no faz nada, dizia ela j agora conceituoso. Ele tinha a sua potica, a diferena entre ele e seu B que seu B no tinha potica nenhuma, era um puro artista do nada. Com o passar do tempo, vov Tom viu que se aprende at certo ponto, depois desaprender de tal maneira que cada dia se tenha diante de si o puro nada. E os anos passaram e eu me afastei de vov Tom. Fui para Belo Horizonte, onde fiz o meu curso superior sustentado por ele. com remorso que me lembro de que lhe escrevi apenas umas minguadas cartas. Em nenhuma delas perguntei como ele ia na sua velha arte. Fiquei sabendo por uma carta de vov Naninha que ele tinha morrido. Voltei imediatamente a Duas Pontes. Vov Naninha disse que ele morrera de p, feito queria, sem curtir leito de doente, grande mesa da sala de jantar, tirando um enorme caracol. Tinha encontrado o seu nada. Vov Naninha me deu o seu canivete preferido. No sei o que fazer com ele, de outra maneira que procuro o meu nada.

138. BARO DE ITARAR. Logo que Santo Ivo morreu, encaminhou-se ao Cu e bateu porta, que So Pedro no se atreveu a abrir, subestimando as razes do bom santo. Fao o que quiseres repetia o porteiro do Cu , mas no acho que deva permitir a entrada a um advogado, no s porque nem um tem assento entre os santos, mas tambm porque; muito ao contrrio, juraria que se encontram no inferno todos os de tua profisso. Santo Ivo no se desconcertou; antes, como bom advogado, teve to convincentes razes para rebater as de So Pedro que este lhe permitiu finalmente entrar no Cu, mas com a condio de permanecer junto porta. O hspede entrou calmamente, sentou-se no lugar indicado por So Pedro, que foi participar a Nosso Senhor o sucedido... Fizeste mal! Muito mal, Pedro! respondeu Deus, quando acabou de escut-lo. Havia resolvido que nenhum advogado entraria no Cu, e tinha c minhas razes para isso. Mas j que est, deixa ficar; sem embargo, no deixes que ele se misture com os outros santos, pois do contrrio acabaro no Cu a paz e a boa harmonia. No o deixes passar alm da porta. Aborrecido e cabisbaixo, voltou So Pedro aonde estava Santo Ivo e comunicou-lhe as ordens dadas pelo Senhor. O Santo advogado encolheu os ombros e, guisa de passatempo, comeou a entabular conversa com So Pedro. Que posto ocupas aqui no Cu? No sabes? Sou o porteiro. Por quanto tempo?... Para todo o sempre. Deixa disso. S se tiveres algum contrato firmado... No h contrato nem coisa que o valha, e para dizer a verdade no h necessidade disso. Como assim? Ento no ests vendo, grande ingnuo, que qualquer dia Deus pode ter a idia de te destituir, sem mais nem menos, do cargo que com zelo vens desempenhando h tanto tempo, sem que possas fazer valer teus direitos? So Pedro coou a orelha, e, mais amofinado que antes, foi novamente falar com Deus. Vamos l, que que pensas? Preciso de um contrato em que se declare que sou o porteiro do Cu para todo o sempre. At hoje temos deixado as coisas andar vontade; mas se vos der na idia, qualquer dia me destitus do cargo que com tanto zelo... No te dizia eu? Tudo isso so trapaas daquele advogadozinho que tens na porta e que soube encher-te a cabea. E ajuntou depois, tomando uma resoluo: Anda, Pedro, corre e manda-o entrar imediatamente, pois prefiro t-lo perto de mim a v-lo junto porta. Eis como entrou no Cu o primeiro advogado.

139. BARO DE ITARAR. Joaquim Rebolo estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situao ainda mais se agravava pelo fato de ter que dar assistncia a um filho, rapaz inexperiente que tambm estava no desvio. Joaquim Rebolo, porm, defendia-se como um autntico leo da Nbia, neste deserto de homens e idias. O seu crebro, torturado pela misria, era frtil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graa; aos quais sempre se saa galhardamente das aperturas dirias com que o destino cruel o torturava. Naquele dia, o seu grude j estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimnia, em homenagem a um alto figuro que estava necessitando de claque. Mas o nosso heri no estava satisfeito, porque no conseguira um convite para o filho. hora marcada, porm, Rebolo, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salo, onde se celebraria a cerimnia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto: Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu tambm tomes parte no festim. J estavam todos os convidados sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao comear o brdio, Rebolo se levanta .e exclama: Senhores, em vista da ausncia do Sr. Vigrio nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Esprito Santo! E o filho? perguntou-lhe um dos convivas. Est na porta responde prontamente. E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritrio e enrgico: Entra de uma vez, menino! No vs que estes senhores te esto chamando?

140. BERNARD SHAW. PEQUENO BREVIRIO SHAWIANO. No h amor mais sincero que o da comida. Cabe mulher casar-se o mais cedo possvel e ao homem ficar solteiro o mais tempo que pode. A minha especialidade ter razo quando os outros no a tm. Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever. Quem nunca esperou no pode desesperar nunca. Uma vida inteira de felicidade? Ningum agentaria: seria o inferno na terra. O pior crime para com os nossos semelhantes no odi-los, mas demonstrar-lhes indiferena: a essncia da desumanidade. H duas tragdias na vida: uma, a de no alcanarmos o que o nosso corao deseja; a outra, de alcan-lo. Os ingleses nunca ho de ser escravos: eles so livres de fazer tudo o que o Governo e a opinio pblica lhes permitem fazer. (Jogo de xadrez). um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiosas acreditem que esto fazendo algo muito inteligente, quando esto apenas perdendo tempo. O lar a priso da moa e o hospcio da mulher. O martrio... a nica maneira de ganhar fama sem ter competncia. Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele. No faas aos outros o que queres que te faam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus. Neste mundo sempre h perigo para aqueles que o temem. H apenas uma nica religio, embora dela exista uma centena de verses. Nunca espero nada de um soldado que pensa. Sou abstmio apenas de cerveja, no de champanha. No gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro. De uma pequena tolice e uma enorme curiosidade resultam muitos casamentos. Um homem sem endereo vagabundo; com dois endereos libertino. Quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que est cumprindo um dever. O dever de qualquer mulher casar o mais cedo possvel; o de todo homem, continuar solteiro pelo tempo que puder. Os melhores reformistas do mundo so os que comearam por reformar-se. Quem sabe faz; quem no sabe, ensina. De quanto mais coisas um homem se envergonha, mais respeitvel se torna. A juventude to maravilhosa que chega a ser criminoso desperdi-la em crianas. H duas tragdias na vida. Uma no fazer o que o corao deseja. A outra fazer. "Frases de cabeceira": Dirigir uma empresa no v-la como ela ... mas como ela ser (John Teets). Algo s impossvel at que algum duvida disso e acaba provando o contrrio (Einstein). O crebro como um pra-quedas. S funciona quando est aberto (Sir James Dewar). Ter idias fechadas e s aprender com o tempo, a pauladas, o preo corriqueiro que se paga em toda a parte pela tranqilidade de no pensar (Roberto Mangabeira Unger). Deus contra quem faz a guerra, mas fica do lado de quem atira bem (Voltaire). O poder como violino. Toma-se com a esquerda e toca-se com a direita (Esperidio Amim). Quem vai na frente bebe gua limpa (Ulysses Guimares). Se grito resolvesse, porco no morria (pra-choque de caminho). Quando voc aponta uma estrela para um imbecil, ele olha para a ponta de seu dedo (Mao Ts-Tung). Posso resistir a tudo, menos tentao (Oscar Wild). Deus est nos detalhes (Mies Van Der Rohe). Notei que estava ficando velho quando o locutor da FM disse "flash back" e tocou uma msica que eu no conhecia. (Cao Hering). Nunca me preocupo com o futuro. Muito em breve ele vir. (Albert Einstein). As mulheres gostam de bunda de homem porque fica perto da carteira. (Eugnio Mohallen). Ter medo no ajuda a viver. (Ivo Pitanguy). Nada impossvel para quem no tem que resolver o problema ele mesmo. (L. A. Dias da Silva). O mundo perigoso no por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que vem e deixam o mal ser feito. (Albert Einstein). No conheo seu ex-marido, mas j comeo a me solidarizar com ele. (L. A. Dias da Silva). Na vida, quem no sabe escrever sessenta sempre obrigado a preencher dois cheques de trinta. (Paulo M. Cerqueira). Se voc inteligente, cede. At se tornar num idiota. (Frida Berg). Quem tem muito dinheiro pode ser burro o quanto quiser. (Ovdio). O hlito faz o longe. (Cao Hering). Um homem com mais de 55 anos acha que no faz mais besteiras. Isso o que ele pensa. (Maurice Chevalier). Um quadro como um homem. Se voc consegue viver sem ele, no h sentido em mant-lo. (Lila Wallace). uma coisa solitria estar certa. (Mary Tylor Moore). A receita de um mdico como um bilhete de loteria - de repente d certo. (Schopenhauer). Todas as grandes idias so perigosas. (Oscar Wilde). Sempre que uma mulher faz o melhor que pode, deve fazer duas vezes melhor que o homem para ser considerada apenas 50% sua altura. Ainda bem que no difcil. (Charlotte Whitton). Os homens so ensinados a se desculpar por suas fraquezas. As mulheres, por sua fora. (Lois Wyse). O processo de morte comea no momento em que voc nasce, mas se acelera consideravelmente durante os grandes jantares. (Carol Matthau). O homem melhor que sua experincia. (Adorno). O melhor marido que uma mulher pode ter um arquelogo. Quanto mais velha ela fica, maior o interesse dele. (Agatha Cristie). Eu no sou to pacifista a ponto de no entrar numa guerra pela paz. (Madeleine Stark). Sou incapaz de fazer mal a uma formiga. Bem que tentei, mas no entrava. (Eugnio Mohallen). Ao homem tudo, porque nada peca; mulher, nada, porque tudo peca. (Ditado cigano). Minha filha de 23 anos mais velha do que eu. (Betty Lago). bom lembrar que todos os psicanalistas so ex-malucos. (Serge Andr, psicanalista francs). J vi maiores. Mas tambm j vi menores. O dele era apenas bonitinho. (Divine Brown). Nem todos os peitos olham para cima a vida toda. (Carla Camurati). Eu li todos os volumes de O Capital, de Marx. Mas no entendi quem que casa com quem no final. (Marcelo Arago). Calcinha e suti me do falta de ar. (Snia Braga). Cansei dessa histria de ficar feia para provar o meu talento. (Cludia Ohana). Deus criou o mundo em seis dias e, no domingo, descansou; quando criou a mulher, na segunda, ningum mais descansou. (Jos Simo, o Macaco Simo). No fazer barulho j fazer muito. (Juvenal de Souza Neto). Metade da humanidade passa fome e metade faz regime. Resumindo, a humanidade inteira passa fome. (Paulo M. Cerqueira). S dois tipos de pessoas querem se casar atualmente: bichas e padres. (Plnio Marcos). O Rio foi assolado, nos ltimos tempos, por uma sucesso de infortnios: Chagas, Brizola, Moreira, Brizola... Nem a Sua ficaria de p. (Paulo Cesar Amorim). Eu seria um louco se dissesse que me sinto seguro no Rio de Janeiro. (General Euclimar da Silva, ex-secretrio da Segurana). Alguns divrcios so amigveis, mas todo casamento litigioso. (Eugnio Mohallen). Palavras cruzadas so o chicle do crebro. (Pitigrilli). Quando o homem casa, ou trai sua natureza ou trai sua mulher. (Guime Davidson). A era das belas frases acabou. (Theodor Fontane). O sol nasceu para toldos. (Sylvio Abreu). Na meia idade, as emoes se tornam sintomas. (Irvin S. Cobb). Em traseira de burro, dianteira de padre e cabea de juiz no se pode confiar. (Ney Maranho). A diferena entre a verdade e a fico que a fico faz mais sentido. (Mark Twain). O preo da justia est no canhoto do meu talo de cheque. (Srgio Naya). Livros de frases so timos para pessoas sem instruo. (Winston Churchill). O melhor do susto esperar por ele. (Mrio Quintana). melhor morrer de vodca do que de tdio. (Vladimir Maiakovski). Narcisista uma pessoa mais bonita que voc. (Gore Vidal). A histria mostra que a gente agrada a Deus fazendo o que o diabo gosta. (Raul Seixas). Pitanguy, um pioneiro na reciclagem do lixo. (Anacleto Neves). A lngua a ltima coisa que morre numa mulher. (Hipcrates). No chame de honesto um homem que nunca teve a oportunidade de roubar. (Ditado idiche). Sempre imaginei que o paraso fosse uma espcie de livraria. (Jorge Luis Borges). Roses are red, violets are blue, I'm schizophrenic, and so am I. (Frank Crow). O avio ainda o meio mais seguro, rpido, sofisticado e caro para se chegar atrasado em qualquer lugar (Ozires Silva). Ironia a higiene da mente. (Elizabeth Bibesco). Um homem apaixonado confunde espinha com covinha. (Provrbio japons). Eu fumo porque, na minha idade, se no tenho algo em que segurar, eu caio. (George Burns). Para evitar o estresse, evite excitao; passe mais tempo com sua esposa. (Robert Orben). Mostre-me um bom perdedor que eu te mostro um idiota. (Leo Durocher). No saio com mulheres famosas porque nunca pago acima da tabela. (Tim Maia). O mundo est to confuso que o Papa faz discurso e o Fidel d sermo. (Claudio Lembo). Noventa por cento do que escrevo inveno. S dez por cento mentira. (Manoel de Barros). No Brasil, a dvida externa que governa. Quer dizer, o rabo que abana o cachorro. (Pedro Malan). Nem que seja para ganhar a eleio, no como buchada. (Ciro Gomes). A m informao mais desesperadora que a falta de informao. (Charles C. Colton). O Tiradentes devia ser o padroeiro do Brasil; t todo mundo com a corda no pescoo! (Jos Simo). Para mim, mulheres so como elefantes timas de olhar, no de ter. (W. C. Fields). Somos todos escritores. S que uns escrevem, outros no. (Jos Saramago). Deus a resposta. Mas qual era a pergunta? (Grafite nova-iorquino). O psiquiatra a primeira pessoa com quem voc deve falar depois que comea a falar sozinho. (Fred Allen). Nada bastante para quem considera pouco o suficiente. (Confcio). As fontes de todos os problemas so trs: barra de ouro, barra de terra e barra de saia. (Tancredo Neves). Jesus no agradou a todos. No eu que vou agradar. (Carla Perez). O que os presidentes no fazem com suas esposas acabam fazendo com o seu pas. (Mel Brooks). Pra gacho esse tal de Viagra overdose. (Leonel Brizola). Estou apaixonado pela mesma mulher h quarenta e um anos. Se minha esposa descobrir, vai me matar. (Henry Youngman). Com alguns deputados, s conversando na sauna, e pelado. (Srgio Motta). Se voc se parece com a sua fotografia de passaporte, sem dvida precisa viajar. (Sir Angus Wilson). Uma ex-mulher para sempre. (Joo Fernando Camargo). A nica coisa necessria o suprfluo. (Oscar Wilde). Amor e tosse no d para esconder. (Provrbio romano). Quem decide pode errar. Quem no decide j errou. (Herbert Von Karajan). No compro bilhetes. J ganhei na loteria quando nasci. (Roberto Irineu Marinho). Eu sei que quem ama sempre muito escravo, mas no obedece nunca de verdade. (Guimares Rosa). O sexo a fonte da vida, mas que deixa a gente morto, deixa. (Srgio Maldonado). A lesma lenta. Ainda bem. J pensou se esse bicho nojento corresse? (Srgio Maldonado). A meleca a melhor amiga do motorista solitrio. (Joo Empolgao). O nico homem que no pode viver sem mulheres o ginecologista. (Arthur Schopenhauer). Eu vejo catstrofes. Pior: eu vejo advogados. (Woody Allen). Conheci vrias mulheres melhores que um PC, mas nenhuma melhor que um Mac. (Guime Davidson). No pergunte o que seu pas pode fazer por voc. Ele pode responder. (Justine Esprito Santo). No d para acreditar num pas que comprou o Acre. (Eugnio Mohallen). S porque voc vai para jantar com algum, no quer dizer que tem que ser a sobremesa. (Dora Bria). Diplomata um indivduo cuja cor predileta o arco-ris. (Millr Fernandes). No me lembro do que ele morreu. S me lembro que no era nada srio. (Carlos Leonam). Quem gosta de pau duro viado; mulher gosta de cheque. (Neil Ferreira). Mestre no quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. (Guimares Rosa). A nica coisa do planejamento que as coisas nunca ocorrem como foram planejadas. (Lcio Costa). A mentira uma verdade que se esquece de acontecer. (Mrio Quintana). Maior que o impulso sexual o impulso de mexer no texto alheio. (Claudius Ceccon). A bicicleta ergomtrica uma viagem sem ida. (Casseta & Planeta). impossvel ser ridculo dentro de um Mercedes. (Nelson Rodrigues). A lei como uma cerca quando forte a gente passa por baixo; quando fraca a gente passa por cima. (Coronel Chico Herclito). Brincar condio fundamental para ser srio. (Arquimedes). A gente s diz sim ou no no casamento e, ainda assim, s vezes erra. (Itamar Franco). A bomba atmica o Viagra dos energmenos. (Alfredo Sirkis). Hippie algum que parece o Tarzan, caminha como a Jane e cheira como a Chita. (Ronald Reagan). No interessa se o remdio ou no farinha, o que cura a bula. (Luis Fernando Verssimo). Gostaria de criar home pages, mas no sei o que elas comem. (Annimo da Internet). Se no fosse o Van Gogh, o que seria do amarelo? (Mrio Quintana). Criar filho como jogar videogame: a fase seguinte sempre mais difcil. (Silvio A. D. da Silva). No tenhamos pressa, mas no percamos tempo. (Jos Saramago). Pessoalmente nada sei sobre sexo. Sempre fui uma mulher casada. (Zsa Zsa Gabor). H pessoas to chatas que nos fazem perder um dia em cinco minutos. (Jules Renard). Quem no se ocupa, se preocupa. (Otto Lara Resende). Salve as baleias, destrua um spa. (Gisela Rao).

141.BERNARDO LIS. NHOLA DOS ANJOS E A CHEIA DO CORUMB. Fio, fais um zio de boi l fora pra nis. O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabea, e no terreiro, debaixo da chuva mida e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o p, riscando com o dedo uma circunferncia no cho mole outra e mais outra. Trs crculos entrelaados, cujos centros formavam um tringulo eqiltero. Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou: Pronto, v. O rio j encheu mais? perguntou ela. Chi, t um mar d'gua! Qu v, espia, e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi at a porta e lanou a vista. Para todo lado havia gua. Somente para o sul, para a vrzea, que estava mais enxuto, pois o brao do rio a era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo cho, feito um cachorro, cadela, alis:era entrevada. Havia vinte anos apanhara um "ar de estupor" e desde ento nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram. Comeou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doena fatal. O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroa, que a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha. Me, o vau t que t sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajud, nis se muda. Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da gua escorrida da cala de algodo grosso. A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele comeou a tirar, com a colher de pau, o feijo quente da panela de barro. Era um feijo brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e ps-se a fazer grandes capites com a mo, com que entrouxava a bocarra. Agora a gente s ouvia o ronco do rio l embaixo ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrneo. A cala de algodo cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha, como se pegasse fogo. J tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do Capivari no Corumb. O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos baixos e paludosos. A casa ficava num tringulo. de que dois lados eram formados por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da vrzea era rasa e podia-se vadear perfeitamente. No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o av de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formao geogrfica construra um excelente apartador. O gado, porm, quando o velho morreu, j estava quase extinto pelas ervas daninhas. Da para c foi a decadncia. No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas. " Este ano, se Deus ajud, nis se muda." H quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princpio fora seu marido: " Nis precisa de mud, pruqu seno a gua leva nis". Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho;a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado. A chuva caa meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava gua, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podrido gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas, o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo inundao, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote. Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. No havia cu, no havia horizonte era aquela coisa confusa, translcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das guas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relmpago. A noite era feito um grande cadver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia. No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado. Oc bota a gente hoje em riba do jirau, viu? pediu ela ao filho. Com essa chuveira de dilvio, tudo quanto mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no cho no. Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta. Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com gua. Pulou do jirau no cho e a gua subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no corao e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do lquido. Uma luz cansada e incmoda, que no permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar. L fora o barulho confuso, subterrneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro. Adonde ser que t o chulinho? Foi quando uma parede do rancho comeou a desmoronar. Os torres de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caam ngua com um barulhinho brincalho tchibungue tibungue. De repente, foi-se todo o pano de parede. As guas agitadas vieram banhar as pernas inteis de me Nhola: Nossa Senhora d'Abadia do Muqum! Meu Divino Padre Eterno! O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcanar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaos de madeira, cuias, coits, trapos e a superfcie do lquido tinha umas contores diablicas de espasmos epilticos, entre as espumas alvas. C, nego, c, nego Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a gua. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pelo molhado, trmulo, e comeou a lamber a cara do menino. O teto agora comeava a desabar, estralando, arriando as palhas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplcio. Pelo vo da parede desconjuntada podia-se ver o lenol branco que se dilua na cortina difana, leitosa do espao repleto de chuva e que arrastava as palhas, as taquaras da parede. os detritos da habitao. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos bolus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho tambm ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por embiras. Quelemente nadou, apanhou-a, colocou em cima a me e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejo, e l se foram derivando, nessa jangada improvisada. E o chulinho? perguntou o menino, mas a nica resposta foi mesmo o uivo do cachorro. Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim de alcanar as rvores. A embarcao mantinha-se a coisa de dois dedos acima da superfcie das guas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso era alcanar a vargem, agarrar-se aos galhos das rvores. sair por esse nico ponto mais prximo e mais seguro. Da em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, at cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrrio, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira. o mato? perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite. Sim. O mato se aproximava. discerniam-se sobre o lquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondvel deviam ser as copas das rvores. De sbito, porm, a sirga no alcanou mais o fundo. A correnteza pegou a jangada de chofre, f-la tornear rapidamente e arrebatou-a no lombo espumarento. As trs pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis. mas um tronco de rvore que derivava chocou-se com a embarcao, que agora corria na garupa da correnteza. Quelemente viu a velha cair ngua, com o choque, mas no pde nem mover-se:procurava, por milhares de clculos, escapar cachoeira. cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentado enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira. A velha debatia-se, presa ainda jangada por uma mo, despendendo esforos impossveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada j no suportava trs pessoas. O choque com o tronco de rvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha no podia subir. sob pena de irem todos para o fundo. Ali j no cabia ningum. Era o rio que reclamava uma vtima. As guas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, no havia fora capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente trepar novamente para os buritis. arrastando as pernas mortas que as guas metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforo da velha estava fazendo a embarcao perder a estabilidade. Ela j estava quase abaixo das guas. A velha no podia subir. No podia. Era a morte que chegava. abraando Quelemente com o manto lquido das guas sem fim. Tapando a sua respirao, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua boca de gua, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho que era perrengue e estava grudado nele. Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa ainda borda da jangada, os olhos fuzilando numa expresso de incompreenso e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d' gua espirrou no escuro. Aquele ltimo coice, entretanto, desequilibrou a jangada, que fugiu das mos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio. Ao cair, porm, sem querer, ele sentiu sob seus ps o cho seguro. Ali era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O diabo da correnteza, porm, o arrastava, de to forte. A me, se tivesse pernas vivas, certamente teria tomado p, estaria salva. Suas pernas, entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo. Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, no teria dado dois coices na cara da velha, no teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ningum se afogaria se a jangada afundasse... Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no cho, as pernas escorrendo ao longo do rio? Quem sabe ela no tinha rodado? No tinha cado na cachoeira. Cujo ronco escurecia mais ainda atreva? Me. . me! Me, a senhora t a? E as guas escachoantes, rugindo, espumejando. refletindo cinicamente a treva do cu parado, do cu defunto, do cu entrevado, estuporado. Me, , me! Eu num sabia que era raso. Espera a, me! O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo por ele a dentro. A gua barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo de fantasmas, timbres de me ninando filhos doentes, uivos speros de ces danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre tmulos. Me! l se foi Quelemente, gritando dentro da noite, at que a gua lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos voz da me que no respondia, e foi deix-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.

142. CAIO FERNANDO ABREU. LINDA, UMA HISTRIA HORRVEL. PARA SRGIO KEUCHGUERIAN. "Voc nunca ouviu falar em maldio nunca viu um milagre nunca chorou sozinha num banheiro sujo nem nunca quis ver a face de Deus." (Cazuza: "S as mes so felizes"). S depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente prpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro agora, que cor? e ouviu o latido desafinado de um co, uma tosse noturna, rudos secos, ento sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, trs dias. Meteu as mos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta. Enquadrado pelo retngulo, o rosto dela apertava os olhos para v-lo melhor. Mediram-se um pouco assim de fora, de dentro da casa , at ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois. Tu no avisou que vinha ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele no compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-voc ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inbil. Abraou-a, desajeitado. No era um hbito, contatos, afagos. Afundou tonto, rpido, naquele cheiro conhecido cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha h anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mo, para dentro. A senhora no tem telefone explicou. Resolvi fazer uma surpresa. Acendendo luzes, certa nsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho. Sai, Linda ela gritou, ameaando um pontap. A cadela pulou de lado, ela riu. S ameao, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma intil, sarnenta. S sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte. Que idade ela tem? ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trs do jeito azedo, das flores roxas do robe. Sei l, uns quinze. A voz to rouca. Dizque idade de cachorro a gente multiplica por sete. Ele forou um pouco a cabea, esse era o jeito: Uns noventa e cinco, ento. Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar: O qu? A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos. Ela riu: Mais velha que eu, imagina. Velha que d medo. Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. Quer um caf? Se no der trabalho ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta. As costas dela, to curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armrios, dispor xcaras, colheres, guardanapos, fazendo muito rudo e forando-o a sentar enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. Pas mergulha no caos, na doena e na misria ele leu. E sentou na cadeira de plstico rasgado. T fresquinho ela serviu o caf. Agora s consigo dormir depois de tomar caf. A senhora no devia. Caf tira o sono. Ela sacudiu os ombros: Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrrio. A xcara amarela tinha uma ndoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o caf, sem vontade. De repente, ento, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. At algum txi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, at a outra vida de onde vinha. Annima, sem laos nem passado. Para sempre, para nunca mais. At a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alvio, vergonha. V dormir pediu. muito tarde. Eu no devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora no tem telefone. Ela sentou frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de caf. Que que foi? perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plstico frio, velhos morangos. Nada, me. No foi nada. Deu saudade, s isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo. Ela tirou um mao de cigarros do bolso do robe: Me d o fogo. Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mo dele, toque spero das mos manchadas de ceratose nas mos muito brancas dele. Carcia torta: Bonito, o isqueiro. francs. Que isso que tem dentro? Sei l, fluido. Essa coisa que os isqueiros tm. S que este transparente, nos outros a gente no v. Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o lquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu no notar, encantada com o por trs do verde, lquido dourado. Parece o mar sorriu. Bateu o cigarro na borda da xcara, estendeu o isqueiro de volta para ele. Ento quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem. Ele fechou o isqueiro na palma da mo. Quente da mo manchada dela. Vim, me. Deu saudade. Riso rouco: Saudade? Sabe que a Elzinha no aparece aqui faz mais de ms? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, s se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho? Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada: Tambm moro s, me. Se morresse, ningum ia ficar sabendo. E no ia dar no jornal. Ela tragou fundo. Soltou a fumaa, crculos. Mas no acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xcara. sina disse. Tua av morreu s. Teu av morreu s. Teu pai morreu s, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa to grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xcara. E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria. J faz tempo, me. Esquece ele endireitou as costas, doam. No, decidiu: naquele poo, no. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. No sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa grande demais pra uma pessoa s. Por que no vai morar com a Elzinha? Ela fingiu cuspir de lado, meio cnica. Aquele cinismo de telenovela no combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim. E agentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, s se eu fosse sei l. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. Bateu o cigarro. E como se no bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto? Embaixo da mesa, ao ouvir o prprio nome a cadela ganiu mais forte. Tambm no assim, no , me? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo boa gente. S que. Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns culos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada. Deixa eu te ver melhor pediu. Ajeitou os culos. Ele baixou os olhos. No silncio, ficou ouvindo o tic-tac do relgio da sala. Uma barata mida riscou o branco dos azulejos atrs dela. Tu ests mais magro ela observou. Parecia preocupada. Muito mais magro. o cabelo ele disse. Passou a mo pela cabea quase raspada. E a barba, trs dias. Perdeu cabelo, meu filho. a idade. Quase quarenta anos. Apagou o cigarro. Tossiu. E essa tosse de cachorro? Cigarro, me. Poluio. Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela tambm olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trs das lentes dos culos, subitamente muito atentos. Ele pensou: agora, nesta contramo(*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe at o colo. Mas vai tudo bem? Tudo, me. Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem plo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele: Sade? Dizque tem umas doenas novas a, vi na tev. Umas pestes. Graas a Deus ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mos tremiam um pouco. E a dona Alzira, firme? A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trs dele. No tempo, no no espao. A cadela apoiara a cabea na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros: Coitada. Mais esclerosada do que eu. A senhora no est esclerosada. Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? Esperou um pouco, ele no disse nada. A Cndida, lembra dela? negrinha boa, aquela. At parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cndida, Cndida. Onde que tu te meteu, criatura? A me dei conta. A Cndida morreu, me. Ela tornou a passar a mo pela cabea da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem. Pois , esfaqueada. Que nem um porco, lembra? Abriu os olhos. Quer comer alguma coisa, meu filho? Comi no avio. Ela fingiu cuspir de lado, outra vez. Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plstico. Lembra daquela vez que eu fui? Ele sacudiu a cabea, ela no notou. Olhava para cima, para a fumaa do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solido. Fui toda chique, parecia uma granfa. De avio e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ningum acredita. Molhou um pedao de po no caf frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. Sabe que eu gostei mais do avio do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como que tu agenta? A gente acostuma, me. Acaba gostando. E o Beto? ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos at encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele. Se eu me debruasse? ele pensou. Se, ento, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrs dela. A barata tinha desaparecido. T l, me. Vivendo a vida dele. Ela voltou a olhar o teto: To atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ningum tinha feito isso. Apertou os olhos. Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo. Casserole, me. La Casserole. Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. Foi boa aquela noite, no foi? Foi ela concordou. To boa, parecia filme. Estendeu a mo por sobre a mesa, quase tocou na mo dele. Ele abriu os dedos, certa nsia. Saudade, saudade. Ento ela recuou, afundou os dedos na cabea pelada da cadela. O Beto gostou da senhora. Gostou tanto ele fechou os dedos. Assim fechados, passouos pelos plos do prprio brao. Umas memrias, distncia. Ele disse que a senhora era muito chique. Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. Ela riu, vaidosa, mo manchada no cabelo branco. Suspirou. To bonito. Um moo to fino, aquilo que moo fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem no tem bero, a gente v logo na cara. No adianta ostentar, t escrito. Que nem o Beto, aquela cala rasgadinha. Quem ia dizer que era um moo assim to fino, de tnis? Voltou a olhar dentro dos olhos dele. Isso que amigo, meu filho. At meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo. A gente no se v faz algum tempo, me. Ela debruou um pouco, apertando a cabea da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiados. Embora cega, tambm parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportvel, entre a fumaa dos cigarros, cinzeiros cheios, xcaras vazias os trs, ele, a me e Linda. E por qu? Me ele comeou. A voz tremia. Me, to difcil repetiu. E no disse mais nada. Foi ento que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao cho como um pano sujo. Comeou a recolher xcaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a loua, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, to curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os culos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e como quem quer mudar de assunto, e esse tambm era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo disse: Teu quarto continua igual, l em cima. Vou dormir que amanh cedo tem feira. Tem lenol limpo no armrio do banheiro. Ento fez uma coisa que no faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beij-lo no na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansao, velhice. Mais qualquer coisa mida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espcie de amor. Amanh a gente fala melhor, me. Tem tempo, dorme bem. Debruado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada at o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha. Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do av rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da me e tambm os dele, heranas. No meio do campo, pensou, morreu s com um revlver e sua sina. Levou a mo at o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de usque rolaram pelos cantos da boca, pescoo, camisa, at o cho. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, lngua tateando para encontrar o lquido. Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criana. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E comeou a desabotoar a camisa manchada de suor e usque. Um por um, foi abrindo os botes. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, comeou a acariciar as manchas prpura, da cor antiga do tapete na escada agora, que cor? , espalhadas embaixo dos plos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoo. Do lado direito, inclinando a cabea, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos at o cho. Deus, pensou, antes de estender a outra mo para tocar no plo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais s do tapete gasto da escada, iguais s da pele do seu peito, embaixo dos plos. Crespos, escuros, macios. Linda sussurrou. Linda, voc to linda, Linda.

143. CAIO FERNANDO ABREU. AQUELES DOIS. HISTRIA DE APARENTE MEDIOCRIDADE E REPRESSO. PARA ROFRAN FERNANDES. A verdade que no havia mais ningum em volta. Meses depois, no no comeo, um deles diria que a repartio era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excludo. E longamente, entre cervejas, trocaram ento cidos comentrios sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereo de cartomante, clips no relgio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plstico. Num deserto de almas tambm desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou. No chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efuses, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porm que no tinham preparo algum para dar nome s emoes, nem mesmo para tentar entend-las. No que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenas entre eles no se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, trs anos e nenhum filho. Saul, de um noivado to interminvel que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. S rostos, com enormes olhos sem ris nem pupilas. Raul ouvia msica e, s vezes, de porre, pegava o violo e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam. Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas no se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidncia. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde est pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no mximo, s sextas, um cordial bom fim de semana, ento. Mas desde o princpio alguma coisa fados, astros, sinas, quem saber? conspirava contra (ou a favor, por que no?) aqueles dois. Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas dirias, com intervalo de uma para o almoo. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para no sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justific-los ou, ao contrrio, justificando-os plena e profundamente, enfim:que mais restava queles dois seno, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. To lentamente que mal perceberam. Eram dois moos sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste e com isso quero dizer que esse detalhe no os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma me, um amante. Eles no tinham ningum naquela cidade de certa forma, tambm em nenhuma outra , a no ser a si prprios. Diria tambm que no tinham nada, mas no seria inteiramente verdadeiro. Alm do violo, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rdio e um sabi na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televiso colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reprodues de Van Gogh. Na parede do quarto de penso, uma outra reproduo de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tbuas do assoalho, colocado na parede em frente cama. Deitado, Saul tinha s vezes a impresso de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o prprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasies que desenhava. Eram dois moos bonitos tambm, todos achavam. As mulheres da repartio, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, to altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretrias. Ao contrrio dos outros homens, alguns at mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papis oito horas por dia. Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, to adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frgil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracis midos, olhos assustadios, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moas. Um doce de olhar. Sem terem exatamente conscincia disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia. Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto garrafa trmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam s suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou j tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul. At um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado at tarde assistindo a um velho filme na televiso. Por educao, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro no se sentisse mal chegando quase s onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da mquina e pergunto: que filme? Infmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ningum conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ningum conhece? eu conheo e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um caf e, no que restava daquela manh muito fria de junho, o prdio feio mais que nunca parecendo uma priso ou uma clnica psiquitrica, falaram sem parar sobre o filme. Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e to naturalmente como se de alguma forma fosse inevitvel, tambm vieram histrias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperana e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele n, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na penso, que o sbado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manh de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um caf. Assim foi, e contaram um que tinha bebido alm da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manh, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido. Atentas, as moas em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princpio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histrias interminveis. Uma noite, Raul pegou o violo e cantou T Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho at os txis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigncias mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, ss, donos de suas prprias vidas. Embora, isso no disseram, no soubessem o que fazer com elas. Dia seguinte, de ressaca, Saul no foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho T Me Acostumbraste, entre inmeros cafs e meio mao de cigarros a mais que o habitual. Os fins de semana tornaram-se to longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o nmero de seu telefone, alguma coisa que voc precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoo, Saul telefonou s para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sbado. Foi dessa vez que, cidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. H quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tmido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfdia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, T Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a m como una tentacin llenando de inquietud mi corazn. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi. Na segunda, no trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao caf. As moas em volta espiavam, s vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoaram juntos na penso de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas noite, mas faltavam cinco para as duas e o relgio de ponto era implacvel. Saam e voltavam juntos, desde ento, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televiso de Saul, Raul entrou escondido na penso, uma garrafa de conhaque no bolso interno do palet. Sentados no cho, costas apoiadas na cama estreita, quase no prestaram ateno no filme. No paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reproduo de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho to pequeno. Parecia sinceramente preocupado. No triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma. Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava vezenquando El Da Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda , Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. s vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sof. Dia seguinte, chegaram juntos repartio, cabelos molhados do chuveiro. As moas no falaram com eles. Os funcionrios barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois no saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou trs piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saram juntos, altos e altivos, para assistir ao ltimo filme de Jane Fonda. Quando comeava a primavera, Saul fez aniversrio. Porque achava seu amigo muito solitrio, ou por outra razo assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No comeo do vero, foi a vez de Raul fazer aniversrio. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo no tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reproduo de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversrios, aconteceu alguma coisa. No norte, quando comeava dezembro, a me de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que no vinha, tentando em vo concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. noite, em seu quarto, ligava a televiso gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartio, todas de preto, acusadoras. exceo de Raul, todo de branco, abrindo os braos para ele. Abraados fortemente, e to prximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele que devia estar de luto. Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartio pedindo a Saul que fosse v-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invs de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da me eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e no cantou. Quando Saul estava indo embora, comeou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mo e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraaram-se fortemente. E to prximos que um podia sentir o cheiro do outro:o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colnia de barba, talco. Durou muito tempo. A mo de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracis midos do cabelo do outro. No diziam nada. No silncio era possvel ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mo ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender. Afastaram-se, ento. Raul disse qualquer coisa como eu no tenho mais ningum no mundo, e Saul outra coisa qualquer como voc tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes ningum, mundo, sempre e apertavam-se as duas mos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e lcool. Embora fosse sexta e no precisassem ir repartio na manh seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel at que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por qu, comeou a chorar sentindo-se s e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas no tinha fichas e era muito tarde. Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartio. Raul deu a Saul uma reproduo do Nascimento de Vnus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando ateno no pedacinho que dizia at nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou. Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taa e brindou nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam at quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse voc tem um corpo bonito. Voc tambm, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrs do guarda-roupa, outro no sof. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demnio de olhos incendiados. Pela manh, Saul foi embora sem se despedir para que Raul no percebesse suas fundas olheiras. Quando janeiro comeou, quase na poca de tirarem frias e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro ficaram surpresos naquela manh em que o chefe de seo os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas annimas. Recusou-se a mostr-las. Plidos, ouviram expresses como "relao anormal e ostensiva", "desavergonhada aberrao", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardio da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em p. Parecia muito alto quando, com uma das mos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputao-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores esto despedidos. Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoo, sem se olharem nos olhos. O sol de vero escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem ris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de caf, a letra de T Me Acostumbraste, escrita mo por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silncio. Mas quando saram pela porta daquele prdio grande e antigo, parecido com uma clnica ou uma penitenciria, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifcio. Depois apanharam o mesmo txi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, algum gritou da janela. Mas eles no ouviram. O txi j tinha dobrado a esquina. Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no cu, ningum mais conseguiu trabalhar em paz na repartio. Quase todos ali dentro tinham a ntida sensao de que seriam infelizes para sempre. E foram.

144. CARLITO MAIA. A VOLTA POR BAIXO. De dom Jos Cavaca, humorista inesquecvel: "Criminosos brasileiros brilham na Inglaterra, cuja polcia s est preparada para crimes inteligentes". Verdade: somos especialistas em crimes burros, irreparveis; tal a grandeza das perdas que acarretam. Sem falar da impunidade. Crimes contra a Ptria, contra o povo, contra a Humanidade. Como no tempo da Inventona de 1 de abril de 64, quando a ditadura militar deitou e rolou, sem que os criminosos fossem punidos e, em muitos casos, sequer identificados. Caso de Sete Quedas, hoje s uma saudade para os que conheceram aquela maravilha da Natureza, que foi por gua abaixo, literalmente, porque os milicos no poder (e bota poder nisso) assim o quiseram. Resolveram (resolviam tudo) fazer a hidreltrica de Itaipu, de parceria com os donos do Paraguai, e mandaram alagar tudo. O fim da picada. Em nome do sinistro binmio "segurana & desenvolvimento", que os levou tambm loucura das usinas atmicas, feitas s para salvar da falncia a indstria nuclear alem, jogando fora (boa parte na Sua) bilhes de dlares. Os jovens que me honram com a sua leitura no fazem idia do que foi aquele tempo, embora estejam sofrendo como todo mundo as conseqncias do desvario do "Brasil potncia". Ou onde vocs acham que teve incio a rebordosa em que estamos, heim? E o pior que a pusilanimidade aqui reinante botou uma pedra em cima da imundcie e nunca mais se tocou no assunto. Outro crime monstruoso, e igualmente irreparvel: a morte de Henfil. Paradigma da dignidade, da coragem, do patriotismo, Henfil foi assassinado. Hemoflico, como seus irmos homens, submetia-se a freqentes (e carssimas) transfuses de sangue para sobreviver. Numa dessas em busca da salvao encontrou foi a morte. Injetaram nele sangue contaminado pela Aids. Tambm em Chico Mrio e Betinho, seus manos. Mas a viva de Chico Mrio acaba de ser reconhecida pela Justia, que condenou a Unio e o Estado do Rio pelo seu desaparecimento. E, claro, tambm pelo de Henfil. Mas o juiz teve uma recada e no reconheceu o direito de Lcia Lara, brava e digna companheira de Henrique por mais de dez anos, impedindo-a de fazer jus a indenizao pela brutal perda sofrida. A verdade que Lucinha no cogitou jamais de receber dinheiro em troca da vida de Henfil, o que no o traria de volta. Mesmo que num acesso de loucura, dando uma de amoral nato exigisse a execuo dos responsveis pelo crime nefando, no teramos de novo o exemplar cidado. Crime irreparvel e, portanto, impunvel. Mas Henfil acaba de dar a volta por baixo, se deu! Henfil vive! "Se no houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se no houver flores/ valeu a sombra das folhas/ E, se no houver folhas, valeu a inteno da semente". Suas lies no sero esquecidas jamais. Valeu, Henfil!

145. CARLOS COQUEIJO. JORGE OXOSSI AMADO. No alto mastro da Repblica Independente do Rio Vermelho tremula, invicta, a bandeira de Iemanj, a dos cinco nomes. No peji, os deuses que vieram da frica comeam a se inquietar. Exigem o tam tam dos grandes atabaques, porque o dia hoje. O Pai Branco de no sei quantos capites de areia, saveiristas, gente da beira do cais, capoeiristas, amigos de Rosa Palmeiro, de Besouro irmo, vai sair do seu terreiro para batizar novos filhos que ele deu Grande Cidade, onde vo morar, correr, gargalhar, roubar, sofrer, amar no areal do cais, onde as negrinhas so derrubadas nas noites estreladas e perdem a sua virgindade sem muitos ais de amor. L vai ele, o Pai, que filho de Ina e habita as terras de Aiok, onde acena a bandeira de Janana, a que Maria. Vai carregado de alegria e com ele vo todos os que saram dos seus livros, como os Orixs que nasceram do ventre de Iemanj, numa noite de temporal terrvel. E desde ento Ina nunca mais teve sossego, seu filho Orungan perseguindo-a sem piedade. Vo para a Cidade Alta, onde vivem os que sorriem a boa vida e se divertem s custas de Pedro Bala, do Sem Pernas, de Joo Grande, do Gato, e nem se lembram que a bexiga roeu Almiro, mesmo com as rezas do Querido de Deus e com a bondade do Padre Jos Pedro. Eles no sabem porque Volta Seca quer retomar ao cangao para o seu "padrim", seu heri que vinga os meninos das malvadezas da Polcia tirando a vida e o couro dos macacos do serto, nem conhecem as estrias que contam a valentia de Joo de Ado e enchem as noites de lua dos capites de Areia, que so os donos da Cidade. O cortejo j engrossa, o chefe branco vai na frente, batendo pernas com eles por essa Cidade que s deles. Mas ainda h muita gente para aumentar as fileiras desse povo sofredor, que ama nas noites da Bahia como Iemanj ama os seus filhos do mar. preciso no esquecer Jubiab, o pai preto, que tem o poder nas mos, todo o mistrio das rezas, dos filtros de amor, das benzeduras que curam tudo. Com ele iro Antnio Balduino, sem as suas luvas de box, que nessa hora ele no mais escravo do empresrio Luigi, e Z Camaro, que lhe ensinou os segredos dos rabos de arraia e do violo. Augusta das Rendas diz que est vendo lobisomem mas vai sem medo. E Felipe o Belo, o Gordo sempre rezando, o Sem Dentes, o Ano Viriato, saem todos da "Lanterna dos Afogados", sob o comando do Capito de Longo Curso Vasco Moscoso de Arago, e se unem ao grupo. Do cais partem os que no podem faltar festa do Grande Pai que os gerou na Cidade da Bahia. Guma e Lvia esto de mos dadas, tanto amor enche seus coraes, mas ele vai escrabriado, porque seu peito di quando v Rufino, e sente na carne o pecado daquela noite em que Lvia morte no quarto, ele no cho da sala se perdia na carne de Esmeralda. Rosa Palmeiro deixou suas armas no cais, no leva a navalha no cs da saia nem o punhal no seio, porque hoje dia de festa, no de lutar pelos seus direitos e de seus irmos perseguidos. Vm tambm o invencvel Besouro, o velho Francisco, o misterioso Lencio, que chegou s para a grande data, o Dr. Rodrigo, com sua maleta de mdico, seu Manoel e Maria Clara cantando aquelas cantigas que embalam o saveiro nas viagens disparadas. Todos vieram do "Farol das Estrelas"onde combinaram encontro, tomaram um trago e quem pagou foi Quincas Berro d'gua, para quem "o impossvel no h". Esto todos com o olho da piedade bem aberto, que hoje dia de festa no peji de Dmeval, na rua da Ajuda, novos irmos vo nascer nas estrias de d. Flor e suas complicaes com os dois maridos. Vo todos se misturar no mundo mgico que Oxossi do Rio Vermelho, o de corpo fechado pelas mandingas de Jubiab, criou para eles.

146. CARLOS HEITOR CONY. A sede e a gua. O ditado antigo. Recebeu a confirmao, o veredicto dos sculos. Nunca se deve dizer:"Desta gua no beberei", na vida de cada um de ns, no dia a dia de nossos desafios e deslumbramentos, o bom senso e a experincia, a nossa e a alheia, recomendam cuidado a respeito da gua que em dado momento desdenhamos, achando que nunca beberemos dela. Nunca se sabe o dia de amanh. O deputado Jos Genono, presidente do PT, no passado e at recentemente, preferiria morrer de sede, no mais escaldante dos desertos, a aceitar a gua de Paulo Maluf, no suculento osis criado pelo segundo turno das eleies na capital paulista. Em princpio, no se devia estranhar a opo que o partido dos trabalhadores ser obrigado a engolir. Faz parte do jogo poltico formar e aceitar alianas pontuais. Acontece que entre o PT e Maluf o fosso no apenas poltico nem ideolgico. pessoal, visceral, integral. Evidente que Genono, Marta Suplicy, todo e qualquer petista de So Paulo e do resto do Brasil, garantiro que o partido no firmar nenhum acordo com Maluf, no lhe dar qualquer compensao em caso de vitria. Afinal, quem ficou sem opo foi o prprio Maluf, que ter de apoiar um ou outro de seus adversrios. Se Marta vencer a parada, Maluf ter um argumento poderoso no para pleitear qualquer coisa do governo municipal petista, mas para engrossar a sua crtica com mais autoridade. Dir que a prefeita traiu o eleitorado, traiu inclusive a Maluf e aos malufistas que nela votaram, esperando um governo bom e decente, e, no entanto, etc etc. E no adiantar a Marta alegar que nada pediu a Maluf. Ela s chegar ao segundo mandato se beber aquela gua que jurou nunca beber.

147. CARLOS HEITOR CONY. Lio de humanidade. Vi o documentrio sobre o desastre com o Concorde, em Paris, que matou mais de 100 pessoas, em no me lembro mais qual ano. Foi o incio do fim do primeiro supersnico disponvel na aviao comercial. Pouco depois, os Concordes que sobraram foram retirados de circulao e parece que destinados a museus e exposies. No foi o custo do aparelho nem o alto preo das passagens para se voar nele que motivaram a sua aposentadoria. Tampouco o desastre em si, uma vez que qualquer homem e qualquer coisa por ele produzida esto disponveis ao desastre. O que espantou os especialistas foi a insignificncia da causa que provocou a catstrofe. Ao rolar na pista para a decolagem, um dos pneus do aparelho foi cortado por uma pequena pea metlica, de 40 centmetros, desprendida de um outro avio que decolara pouco antes. O piloto do Concorde no poderia ver objeto to pequeno e aparentemente to inofensivo. A pea fez explodir um dos pneus das rodas que estavam sendo recolhidas. Um pedao do pneu bateu com violncia na asa esquerda, fazendo um furo, pelo qual saiu o combustvel, logo inflamado por uma fagulha. Menos de dois minutos aps a decolagem, mais de cem mortos, a poucos quilmetros do aeroporto De Gaulle. A desproporo entre a causa e o efeito me horrorizou. As criaes mais slidas do homem, que parecem indestrutveis, perfeitas, costumam ir para o brejo por motivos banais, como o iceberg que afundou o Titanic. No caso do Concorde, a tecnologia da poca era bem mais adiantada. Mas o resultado foi o mesmo. Os dois casos so uma lio de humildade que habitualmente esquecemos no apenas na vida pblica, mas na vida pessoal de cada um de ns.

148. CARLOS HEITOR CONY. No tenho nem pretendo ter procurao das louras para defend-las das acusaes de burrice e cafonice, que esto se avolumando nos ltimos tempos contra elas. Leio num jornal que as louras no esto com nada, nem no cinema, na TV, nem na vida em geral. As deusas de alguns anos atrs esto com dificuldade para renovar contrato e j no causam gritos e sussurros por onde passam. Pior: uma caadora de talentos, dessas que do dicas para empregos de futuro, recomenda que as pretendentes faam as unhas, usem vestidos comportados, falem s o essencial mas em hiptese alguma sejam louras, nem naturais nem artificiais. "O qu que isso?" - era o bordo de famoso locutor esportivo do passado, quando via jogadas violentas que mereciam carto vermelho. o que me pergunto: "O qu que isso?" Onde est a lei que pune a discriminao, seja a discriminao que for? No aceito a teoria de que a onda contra as louras possa ser atribuda ao despeito, inveja. O furo deve ser mais em cima. O que h de morena burra tambm no mole. Quanto beleza em si, h gosto para tudo. Helena de Tria, segundo a tradio, a mulher mais bonita da histria e da lenda. Segundo a tradio, era loura, diferenciando-se de outras mulheres do Mediterrneo que costumam ser morenas. E a mulher mais inteligente que conheci era loura, uma loura at suspeita, parecia artificial, no detestvel estilo de "amarelo ovo". No chegava a ser feia mas no era bonita, embora no merecesse ser jogada fora. Herdei de meu pai um ditado esquisito: "Fugir de gato que faz him e de mulher que sabe latim". Esta loura no sabia latim mas sabia tudo da vida e o pouco que me ensinou foi o bastante. Se no cheguei l, a culpa no foi dela.

149. CARLOS NASCIMENTO SILVA. DESCONCERTO. Papai Noel no existe disse Ninico, baixinho, concentrado no fundo do copo de conhaque Napoleo. J eram onze horas da noite e os quatro, em volta da pequena mesa de tampo de mrmore mal polido, terminavam a quinta rodada, um pouco sonolentos, meio nostlgicos pelo passamento da data, o bar vazio de fregueses, o Joaquim da Maria a cabecear cochilos sobre o alto banco de madeira, por trs do balco. O qu que voc disse? assustou-se Feliciano, levantando a cabea para olhar o amigo Que Papai Noel no existe? O que voc quer dizer com isso? Ele quer dizer que Papai Noel no existe confirmou Mariano, tautolgico, os olhos vidrados, mirando de esguelha a luz amarelada do poste, no outro lado da rua Ora, voc no sabe que o Ninico adora afirmaes controvertidas? Ele sabe muito bem que no pode provar isso. E s provocao. No... eu acho mesmo que no existe. No polmica, no, s que ele no existe confirmou Ninico mansamente, ainda olhando o fundo do copo. Deixa de bobagem, isso voc sabe desde os cinco anos! Feliciano, terra a terra, evitando a armadilha da filosofia barata de Mariano. T bom, se vocs querem passar a noite de Natal dizendo coisas sem sentido, por que no? Mariano, cansado. Eu no tenho ningum me esperando em casa; nem vocs. S o Joo. Mas vocs tm que concordar comigo que no se pode provar isso: nem afirmar, nem negar. No de forma consistente concluiu exato, taxativo. Como voc coloca, em termos puramente lgicos, claro que no. Mas voc tambm vai ter que concordar que, nesses termos, o que se pode discutir muita pouca coisa. Afinal, se voc descarta o que no passvel de prova, o que se pode discutir? O que est provado? Mas isso, por definio, no d margem opinio, portanto, discusso Feliciano, perdendo a pacincia com Mariano. De mais a mais, isso uma conversa, s isso, uma discordncia entre duas pessoas que tm diferentes opinies. Mariano ia responder aporia absurda, mas emburrou, e caiu um silncio incmodo sobre a mesa. Amigos antigos, aquilo no era anormal em sua convivncia diria. Cada qual conhecia, demasiadamente bem, o pensamento do outro, havia mais de vinte anos, o que permitia um entendimento rpido entre eles. Os desacordos eram conhecidos, paredes intransponveis de h muito reconhecidas, respeitadas, ou talvez, apenas toleradas, meras impossibilidades interpessoais: convices vivenciais, definiria Feliciano. E foi, com surpresa, que os trs ouviram Joo Pedroso dizer: No, Ninico, voc est errado. Todos vocs esto errados. No s ele existe como pode ser provado. Quero dizer, eu posso provar, e outros, talvez, tambm. Ninico tirou os olhos do copo, lentamente, discordante, suspeitoso. Os dois outros olharam o amigo sorrindo, suspicazes. No era discordncia, mas incredulidade ou, talvez, a expectativa de uma brincadeira do Joo. Mas o rosto do amigo estava srio, vincado. Ah! Pra com isso, Joo! Voc tambm? exclamaram ambos, rindo, com pequenas variaes de palavras, mas a mesma significao. Joo Pedroso olhou cada um dos amigos com o rosto tenso, amargurado, e no se deu ao trabalho de responder a qualquer deles, o pensamento vagueando por um mundo antigo, perdido, passado. Eu nunca contei isso a vocs. Nunca falei disso a ningum, alis. S de pensar, j me faz sentir mal, como uma nuvem escura de tempestade, um certo mal-estar, algo maligno. O ambiente da mesa mudara. A descontrao da conversa se fora, deixando uma tenso progressiva nos corpos, no ar. A prpria iluminao no bar, na rua, mudara, como que enfraquecida por uma queda de voltagem to comum naquela cidadezinha. Ninico contraiu os msculos dos ombros, os intercostais, sem se dar conta. Os demais, mexeram-se nas cadeiras, incomodados, sem saber com o qu. Eu devia ter uns sete anos, por a, e o colgio j se tinha encarregado de tirar algumas iluses que minha me alimentara por toda a meninice. Esta no foi, certamente disse Joo Pedroso com o ar sonhador de quem relembra a primeira infncia a ltima delas. Ele j no se lembrava mais das circunstncias exatas, das causas ou do motivo que o levara a fazer o comentrio com a me, mostrando a sabedoria que adquirira longe do ninho que, afinal, o enganara com aquela mentirinha. Eu estava me mostrando, para minha me, orgulhoso de como eu j estava crescido, virando homenzinho. No era uma recriminao a meus pais, nem nada parecido, e fiquei muito assustado com sua reao violenta, seus gritos que s terminaram com minhas lgrimas, abraos, beijos e pedidos de desculpa. Joo Pedroso virou o resto do conhaque e olhou os amigos buscando encorajamento. Em resumo, minha me disse que o Natal s existia para quem acreditava nele. Era pegar ou largar, simples assim. Quem era bom, obedecia aos mais velhos e acreditava no que o Natal significava era recompensado com os presentes, mimos e doces que eu sempre conhecera. Em caso contrrio, nada feito: a escolha era de cada um. E esse era o motivo pelo qual muitos meninos no acreditavam em Papai Noel, ou o inverso, como queiram. Joo Pedroso pediu mais uma rodada de bebida, nesta altura muito bem-vinda, e contou que relatara aos colegas de colgio o que ouvira da me. Vocs podem imaginar como fui alvo das mais cruis caoadas no grupo escolar. Foi uma experincia bastante dura, dada minha idade. No s riam de mim, me apontavam, no ptio da escola, como aquele que acreditava em Papai Noel e isso resultou num forte isolamento dentro do grupo. claro que o menino havia procurado diminuir o atrito insuportvel. Naquela altura, a apostasia de suas crenas era o que menos o preocupava, mesmo que ele desconhecesse a palavra. Alm disso, sua confiana na me estava abalada. Vocs entendem? No era apenas uma questo de coragem moral, o que j bem difcil para adultos quanto mais para uma criana pequena. Mas uma ruptura entre meu mundo primeiro, materno, e minhas crenas grupais, etrias, se vocs quiserem, enfim, do meu mundo, ou do mundo que se armava, no s minha volta mas com minha participao, j que eu era parte integrante, ativa, dele. A diviso era profunda, no pela questo em si, apenas, mas por tudo que significava. Afinal, aos sete anos no se tem senso crtico, e a ciso se tornou funda, sem termo mdio que a diminusse. De mais a mais continuou Joo Pedroso a forma como minha me colocara a questo, ou seja, em termos de crena, tornou impossvel uma deciso. Claro, hoje eu posso ver isto com algum distanciamento. Mas naquela idade, eram pontos irreconciliveis, um abismo de incerteza e indeciso que no podia ser aproximado. Enfim, uma polaridade insuportvel que se estendia a toda matria tica, esttica, religiosa, abrangendo, mais tarde, todas minhas convices sociais, polticas, econmicas. Em resumo, o mundo das idias e das aes, como vocs mesmos colocavam o assunto, ainda h pouco. E ento perguntou Ninico, com seu jeito manso como voc saiu dessa? No sa. No havia como sair, e do meu ponto de vista infantil no s a questo no era ntida como seria a causa do mais completo desastre, dada a importncia que o Natal tinha para mim, naquela poca. Acho que minha averso data vem da. Reparem nas implicaes:ou me tornava um pria social, isto , dentro da minha sociedade, a escola, meus amigos, ou minha me saberia de minha descrena, j que o Natal nada me reservaria, se ela tivesse razo. Mas o pior ainda no estava a: no importava o que eu declarasse a uns e outros, a diviso permaneceria, interna, dentro de mim, mesmo que eu "quisesse" aceitar uma ou outra opinio, uma ou outra crena, j que era disto que se tratava. E ento, a angstia foi excessiva e adoeci. Meu Deus, Joo, por que voc no falou com sua me? Obviamente no tinha sido esta a inteno dela apartou Feliciano. Ou mesmo seu pai, um tio, av. A criana tem sua lgica prpria. A reao dos dois lados, minha me e os amigos, foi to oposta que o assunto se tornou, tabu, proibido, para mim. Joo Pedroso contou, ento, como sua doena veio diminuir o conflito. Chegavam os primeiros dias de novembro e o mdico o proibira de qualquer esforo, o que inclua sua ida escola. Em casa, filho nico, acamado nos primeiros dias pela febre nervosa, Joo Pedroso teve que enfrentar muitas horas de solido e decorrente ensimesmamento. Filho obediente, ele queria muito acreditar no que a me lhe dissera, o que foi facilitado pela ausncia dos colegas e amigos. Outra vez no ninho materno, a adequao ao movimento da casa, seus tempos, suas prticas, permitiram finalmente ao menino o retorno cultura materna, matriarcal? E a doena se evaporou, como se jamais se houvesse instalado. A seqncia das frias consolidou seu melhor estado de sade, e mesmo a aproximao do Natal no lhe trouxe maiores sobressaltos, uma vez que sua diviso interior quase desaparecera. Cerca de meio sculo depois, Joo Pedroso saiu para o alpendre elevado, aonde raramente ia, tanto pelo vento cortante dos dias frios, como pela inclemncia da luz, que galgava os cus, fronteira fachada do sobrado nos dias de vero, e dirigiu-se terceira coluna de tijolos ingleses envernizados. Contou sete blocos, de baixo para cima e, lentamente, sacou o pequeno tijolo, no silncio da casa ainda adormecida. Apanhou algo que meteu no bolso da cala e voltou a encaixar o bloco em seu lugar, bem justo, sem deixar qualquer irregularidade que o diferenciasse dos demais. A construo esquinada cavalgava um outeiro que lhe permitia sobrever, da rua em cotovelo que subia esquerda, as casas menores, pouco acima do peitoril de suas janelas, enquanto direita, telhados e beirais acompanhavam a ngreme descida. A quem passava, na rua, pouco mais lhe era permitido notar que a alta estante de livros, quase a atingir o teto de um dos cmodos, quando as pesadas cortinas no estavam corridas. Joo Pedroso herdara do pai, na dcada de sessenta, o que a cidadezinha preguiosa gostava de considerar sua mais bela construo, produto da corretora de caf, ento localizada no rs-do-cho do prdio, amanhada com proficincia e algum descortino comercial, desde os anos trinta. Diferentemente do pai, Joo Pedroso nunca tivera a mesma capacidade, ou sua habilidade no jogo do comrcio atacadista. Compras infelizes e vendas precipitadas tinham dilapidado o capital diligentemente acumulado, e a dcada de setenta viu a runa do rendoso negcio paterno. No que Joo Pedroso trabalhasse pouco ou mal. Ao contrrio, a poca adulta fora um nunca findar de trabalhos, esforos e preocupaes cujos resultados, sempre negativos, haviam aportado no naufrgio mais completo. "Quase como uma maldio", repetia ao correr da vida, como um refro ominoso, um dobre de finados. E ento seu pensamento voltava ao pequeno pedao de papel, cuidadosamente dobrado, metido sob o tijolo da stima fileira da terceira coluna do alpendre. Foi quando Joo Pedroso comeou a jogar, na esperana de equilibrar o oramento da casa, j que ao da firma no restava qualquer esperana. Da loteria estadual ao bingo, e deste ao bookmaker da cidade mais prxima, foi uma evoluo to rpida quanto danosa, desastrosa. A tentativa de sonegao fiscal da corretora de caf, por um desses acasos improvveis, redundou numa multa que montava a quase dez vezes o valor do imposto, como uma p de cal sobre a firma paterna. A venda da parte inferior do prdio e suas instalaes evitou mal maior, permitindo a Joo Pedroso manter a moradia no sobrado, embora o passadio fosse escasso e fortemente controlado. Mveis, roupas, enfim, qualquer despesa era eternamente, ou quase, protelada, ao custo de muito cuidado no uso de cada objeto, sentindo-se mesmo, na casa, a falta de qualquer comodidade que no viesse dos bons tempos. Ternos, gravatas, camisas sociais de colarinho engomado, o vinco das calas de tropical, os sapatos engraxados, tudo era alvo do trabalho cotidiano da mulher e duas pretas, retaguarda domstica raramente entrevista entre o corredor e as reas de servio, partes da casa sem forro, construdas em telha-v. O Joo Pedroso dos amigos era, por assim dizer uma ponta de iceberg, mostrurio, vitrina da vida do sobrado e, por ele, a cidadezinha jamais saberia do real estado das finanas familiares. E assim ele arrastara os ltimos anos, vivendo de pequenos expedientes, de despesas inexistentes. Mas naquela manh da vspera de Natal Joo Pedroso no estava preocupado com isto. No dormira bem, rolando na vasta cama de casal que fora dos pais, ora puxando as cobertas at o pescoo, com arrepios de frio, ora empurrando-as para longe do corpo, em calores inusitados. E to logo a luz cinzenta da manh se filtrou pelas venezianas de madeira azul-claras, saltou do leito e, de camisolo e chinelas, dirigiu-se ao alpendre em silentes passos de gato. De posse do objeto demandado e, talvez porque o no tivesse tocado por mais de cinqenta anos, meteu-o no vasto bolso sem lanar-lhe uma nica mirada, dirigindo-se ao banheiro, para as ablues matinais. Durante o caf, enquanto passava uma vista ao jornal, Joo Pedroso sentia o pequeno papel um bilhete? como um objeto morno, no bolso do palet, a pesar-lhe incomodamente o peito, e perguntou-se por que o pegara, aps tantos anos, e com que finalidade. Bem, foi ento que Alberto chegou disse Joo Pedroso, baixinho, dando uma bicada no conhaque, sem mesmo se aperceber. Que Alberto, o Gaguinho da Maria Preta? interrompeu Feliciano, mal contendo a curiosidade. No, no do tempo de vocs. O Alberto Monteiro era meu primo, por parte de pai. Moleque traquinas e malcriado, o Alberto era o terror de minha me e das criadas. Um ano mais velho que eu, era sempre quem inventava os malfeitos, as travessuras, quem comeava as brigas e brincadeiras brutas, maldosas. Vocs sabem, cuspir, do sobrado, na cabea dos passantes, prender barata viva entre a xcara e o pires da mame ou amarrar os cadaros dos sapatos da negrinha, por baixo da mesa. Toda a casa ficava em polvorosa, entre os malfeitos e as zangas e castigos. E, como no podia deixar de ser, em muitos eu embarcava, mesmo a contragosto. Enfim, mesmo assustado com sua ousadia, eu admirava o Alberto e me divertia, como qualquer criana, com as traquinadas que ele inventava. Quando a Maria Preta correu como alma penada pelo meio da casa, embrulhada no lenol, por causa do calango que o Alberto colocara debaixo de seu travesseiro, a mame perdeu a pacincia e nos decretou trs dias de castigo, presos no quarto grande, sem revistas ou brinquedos. Saamos s para as refeies, na sala de jantar, com papai e mame de cara feia e voltvamos para o "retiro espiritual", como ela dizia, a fim de que "pusssemos a mo na conscincia", como "meninos de famlia" e no "bugres do mato".Faltavam poucos dias para o Natal, mas no foram dias muito amargos, mesmo com a liberdade perdida, j que Alberto no sossegava, nem mesmo preso num quarto. Arremedava a mame, imitava a Maria Preta, tecia planos mirabolantes para quando sassemos da "priso", jurava vingana contra a negrinha que, segundo ele, fora a delatora, no episdio do lagarto. Enfim, apartou Mariano uma criana normal. claro, normal sorriu Joo Pedroso pela primeira vez, desanuviado pela lembrana do primo mas duvido que voc ainda o classificasse dessa forma, caso ele passasse um dia em sua casa. Enfim, contei isso para vocs terem idia de como era o Alberto, naquela poca. E assim, ao final do segundo dia de castigo e como minha me mencionasse manhosamente o Natal a meu pai durante a refeio, quando voltamos ao nosso castigo contei ao Alberto o que ela me dissera sobre assunto to palpitante. Alberto quase engasgou de tanto rir, de minha credulidade. , Joo, Papai Noel so nossos pais! Ela te contou essa histria pra voc ser um bom menino, ficar quietinho e no encher a pacincia dela. Ela me acha um bom menino? Eu acredito em Papai Noel? Ento como voc explica que eu ganhe presentes de Natal todo ano? A bola de futebol, a bicicleta, como voc explica isso? Bem, intil dizer o quanto essa terceira guinada nas minhas crenas, em to curto perodo de tempo, mexeu com a minha cabea. Ento ela tinha mesmo me enganado Pensei na vergonha que eu passara na escola, nas caoadas, nos meus esforos para acreditar nela, nas minhas boas intenes e prometi, a mim mesmo, nunca mais ser to crdulo, nem mesmo com meus pais. Prometi, tambm de mim para mim, sem nada dizer ao Alberto que, quando sassemos do maldito quarto, ele no seria o nico a inventar maldades. S que eu teria mais cuidado, muito mais cuidado do que ele. Alm de fazer as travessuras, eu cuidaria para no ser implicado nelas. E ento meu prazer seria duplo, j que o castigo cairia sempre sobre outra pessoa. E por que no a negrinha que me fizera ficar trancado por trs dias? Assim, o ltimo dia de castigo foi o mais prazeroso deles. Alberto, cansado de no fazer nada, se calara, emburrado, num canto, enquanto eu aproveitava para imaginar um monte de pequenas maldades com todos da casa mas, principalmente, como evitar que se pudesse saber a autoria do malfeito. Aquela semana de Natal foi muito atribulada, l em casa, para eles e para ns, e mame acabou telefonando ao tio para que fosse buscar o Alberto, pois que, com dois, ela j no estava agentando. O primo se foi e, livre dele, eu pude armar meus libis com mais facilidade. Ningum entendeu como tanta coisa saa errado sem causa aparente. E foi um Natal realmente atabalhoado. E nunca te pegaram? perguntou mansamente Ninico. Voc quer dizer algum l de casa? Mame, papai, as empregadas? No. Segundo eu pensava, eu j tinha sido apanhado, no mesmo? E s podia me vingar no pagando pelo malfeito que viesse a cometer; esse era meu primeiro e ltimo cuidado, ou no haveria vingana. Algum mais, qualquer um, devia pagar o preo, desde que no fosse eu, ou as contas no seriam acertadas. Lembrem-se, eu me sentia credor de um mau pagador. O equilbrio s viria no caso de, tendo sido mau, eu receber meu presente de Natal, como Alberto dissera que receberia. Em resumo, atravs de aes, no de palavras, voc discutia tica com sua me definiu Mariano. No creio que tenha sido apenas isso retrucou Feliciano. J no se tratava apenas de "provar" a existncia ou no de Papai Noel, ou do esprito de Natal, como querem alguns, mas o valor prtico do comportamento tico como fonte de justia. A vingana, que equilibraria a balana, nos fora a entrar no terreno da justia, como compensao ao bem e ao mal, se entendi bem a sua reao infantil. E agora j no mais estamos no terreno da filosofia, mas da religio ou, como voc disse no incio da histria, da crena. Mas eu creio que se tratou sempre disto, no? Quero dizer, a histria de Joo. A discusso tica foi sempre uma ferramenta, no um fim em si mesmo raciocinou Ninico em sua voz mansa desde que eu disse que Papai Noel no existia. S no entendo como voc pretende provar a existncia dele. Bem, me deixem terminar a histria e vocs vo entender retrucou Joo Pedroso, com rosto amargurado. As lembranas infantis das traquinadas j estavam longe, como ficou claro para todos,e o ambiente tenso voltou a tomar conta dos amigos, do bar, da noite. A noite de Natal chegou e eu fui me deitar cedo, cheio de expectativa, como vocs podem imaginar. No sem antes, no entanto, realizar todos os ritos anuais ensinados por minha me. E deles fazia parte uma grande meia pendurada, smbolo da gratido, a mo aberta oferenda. Escolhi a maior de todas, a meia de futebol de que eu tanto gostava e prendi-a em um prego na parede da sala. Custei muito a pegar no sono em meio a tanta excitao. Afinal, tratava-se mais do que de um simples Natal. Por trs daquilo, houvera muito sofrimento. Aos sete anos, porm, no h insnia que dure mais de cinco minutos, e eu dormi como um anjo at manh alta, o sol entrando pelas venezianas, zangado por ter que se espremer tanto, como minha me dizia, me chamando de preguioso. J acordei pulando da cama, desinsofrido, e corri descalo, de pijama, sala, onde ficava a rvore de Natal. No havia nada para mim sob a rvore enfeitada. Eu no pude acreditar e olhei, ento, para onde deixara a minha meia de futebol. Mas tampouco ela estava l. Ficou apenas um pedao de papel, espetado no prego da parede, com um poema cujo texto o seguinte: Os bons vi sempre passar, no mundo graves tormentos; E para mais me espantar, os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos. Cuidando alcanar assim o bem to mal ordenado, fui mau, mas fui castigado: Assim que, s para mim anda o mundo concertado. O Desconcerto do Mundo gritou Ninico a mensagem de Cames clara: no h justia no mundo, exceto para ele, paranico que era. Como vocs vem, eu estava certo. Papai Noel no existe gargalhou triunfante. Neste caso gritou Feliciano, acima da risada de Ninico quem espetou o bilhete no prego e levou a meia? Voc se ateve ao significado do bilhete, no sua existncia! Sua anlise foi parcial, ento Papai Noel existe! concluiu vitorioso. Pronto, voltamos discusso maluca! Mariano, cada vez mais ctico. Que importa quem colocou o bilhete no prego? E se foi a me ou o pai de Joo, como castigo por seus atos? Ou seja quem for? Como deduzir da a existncia de Papai Noel? Pelo prprio bilhete, meu amigo. Ele est escrito num dialeto esquim oriental que, segundo o lingista da universidade, s falado em determinada regio do Plo Norte disse Joo Pedroso cansado, o rosto tenso, colocando o papel amarelado pelo tempo sobre o mal polido mrmore do tampo da mesa do caf.

150. CARLOS SUSSEKIND. O ANTI-NATAL DE 1951. No documento emitido pelo Juizado de Menores l-se o seguinte: "Requisito-vos" (ao agente da Estao D. Pedro II, no Rio de Janeiro) "duas passagens de ida e volta em 1 classe dessa estao at a Estao Presidente Franklin Roosevelt, em So Paulo, para o Dr. Loureno Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, e um menor, que viajam a servio deste Juzo".Muito atencioso, o agente-ajudante que me atende na Central. No me faz esperar. Mas, depois de carimbar a requisio, objeta-me que s amanh poder dar as passagens, pois o regulamento ferrovirio exige antecedncia de trs dias, no de quatro. Adiantei-me, pois. Evito discutir, para que no surjam obstculos futuros. A idia de fazer essa viagem na companhia unicamente de meu filho, tendo eu me comprometido a no desvi-lo de suas leituras nem durante o percurso nem durante o dia inteiro (25 de dezembro) que passaremos em So Paulo, corresponde satisfatoriamente nossa concepo (minha e dele) do anti-Natal. Atravessaremos a vspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 estaremos de volta. No daremos nem receberemos presentes. O nico presente tolerado essa viagem de graa, que, a bem dizer, no um presente, um direito que me d o cargo de Curador de menores. Doutor Loureno e o filsofo Lourencinho estaro na deles, numa boa. Verifico que, se fosse de noturno, com leito de luxo, no "Santa Cruz", em cabine individual de dois passageiros, a viagem de ida e volta custaria ao Estado o triplo do preo desse trajeto feito em poltrona comum. Sairamos do Rio s 22:30 do dia 24 e chegaramos a So Paulo s 9 da manh de 25. Magnfico, sem dvida. Mas repugna minha conscincia abusar da requisio, proporcionando-nos esse luxo nababesco que ficaria documentado para sempre. Basta a fraude de dizer que eu e o Lourencinho vamos "a servio do Juzo". Tentarei, em todo caso, combinar ida em noturno e volta em diurno, numa ltima homenagem ao meu escrpulo. O abuso j no ser tanto, nem deixarei de proporcionar a meu filho uma viagem repousada. Se tiver de ir e vir de diurno o que seria a hiptese mais econmica , a conscincia ficar mais leve, mas no sei como se comportariam o fgado dele e os meus rins. Enfim, veremos. Precipitado no meu otimismo, fao, depois do jantar, uma descrio para a famlia toda reunida de como o trem encantado em que viajaremos os dois. Vages de ao inoxidvel. As poltronas forradas de camura. Giratrias. Ningum em p, todos acomodados, de fisionomias risonhas. A composio move-se deslizando, sem nenhuma trepidao, nenhum rudo, no entra p, o ar que circula como o do cinema Metro, trem de cinema, primeiro voc pensa que por causa do dia chuvoso, mas deixe chegar uma estao, abrir-se a porta e ver que como se se abrisse uma fornalha. a temperatura que faz l fora. Dentro do carro, no entanto, a mesma inaltervel e suavssima ambincia! Moas e rapazes falam-se aos beijos. Quando no se beijam, cantam. Um sonho! Diante da minha expanso, Lourencinho tem o comentrio desalentador de que s vai a So Paulo para me acompanhar, e que no sabe, afinal, se isso de anti-Natal funcionar mesmo. Se nem o anti-Natal o seduz, meu Deus, que se pode esperar desse rapaz? Deve ser a perspectiva da viagem fatigante. Mas no s isso, no. Quando lhe falo no que faremos para conhecer a cidade, onde no piso desde 1920 h mais de 30 anos, portanto , adverte logo: Desista disso de querer mostrar parques e avenidas e monumentos e pessoas! Iremos cada qual para seu lado. Vou buscar as passagens na estao. Outro subagente. Atencioso, como o de ontem. Entretanto, fez-me esperar 25 minutos para verificar se a assinatura era mesmo do juiz de menores, um desaforo. Conclui dizendo, amabilssimo, que s amanh, 22, poder me dar os bilhetes, pois o regulamento fala em "trs dias antes da viagem": sendo esta no dia 24, os trs dias contam-se 22, 23 e 24. Considera 24 como sendo ao mesmo tempo o dia da viagem e a vspera! Evito discutir etc. Risadas do homenzinho quando lhe falo em "noturno" e "Santa Cruz". A requisio menciona apenas "passagem de 1". Sem especificar "noturno", s se pode subentender "diurno". A fim de no dificultar a interpretao favorvel em So Paulo, para a volta, escreve "tarifa noturna", o que permitir que eu cogite de noturno de l para c. Mas, noturno em "trem de madeira", sem leito de qualquer espcie. Nem, sequer, poltrona. A poltrona, mesmo para o diurno, tem de ser paga parte. So 60 para a ida e outros 60 para a volta. Quer dizer que a requisio do Juzo de Menores s me deu o direito de andar dentro do trem at So Paulo e de So Paulo aqui. Custar isso ao Estado 568 cruzeiros redondos. Acho infinita graa, agora, na minha ingenuidade de falar em "escrpulo"de pleitear coisa melhor... O Governo sabe com quem lida. As bandalheiras no se fazem assim, com recibo. Elas se aninham noutras dobras. Volto no dia seguinte, o guich das passagens est se abrindo, sou o primeiro passageiro atendido. Entretanto, no posso ter os assentos que peo, na sombra. "Ns aqui desconhecemos os lugares que so no sol e os que ficam na sombra. As ordens so para destac-los automaticamente, sem interveno de quem quer que seja". Conformo-me. Ele l a requisio. O outro funcionrio, ao dat-la, ps certo 21.12.1951; mas, quando se referiu ao dia da viagem, escreveu, sabe-se l por que, 24.12.1952, equvoco palpvel, evidente. Mas S. Exa. o bilheteiro do guich n 1 acha que deve ser retificado. Atendo-o, ainda nisto. No guich n 5 j est outro funcionrio, diverso do "amabilssimo" com quem falei ontem. Objeta-me que a retificao no da sua competncia, e que o funcionrio que poderia faz-la s comear a trabalhar s 4 da tarde. No posso tolerar semelhante absurdo. Volto ento ao agente substituto. Ouve-me em silncio. Manda chamar o bilheteiro. Fala-lhe. E se volta para mim, austeramente: O funcionrio tem razo. Ele no pode retificar um erro que no cometeu. Mas o senhor, tambm, no vai pagar pelo que se fez sem sua culpa. Atenda-o, portanto, Sr. Freitas. Se o algarismo puder ser modificado, modifique-o. Se no puder, extraia outro passe. E d-me as costas. O algarismo no pde ser modificado. Depois de ajustar pachorrentamente os carbonos e de "experimentar"noutro papel, de rascunho, Freitas pega solenemente o lpis, calca-o, descobre o carbono e diz: No deu certo. Espero, pois, 15 minutos para que ele extraia novo passe. Seria justo que minha odissia terminasse a. Mas no terminou. Vou para o bilheteiro do guich n 1. Examina os novos passes, pede-me a carteira funcional e me diz secamente: 60 cruzeiros pelas duas poltronas. Dou-lhe o dinheiro, mas pergunto: Que que essas poltronas tm de mais? Ele no demora na resposta: Nada. Ento por que se paga parte? Se eu no pagasse, iria em p? O homem ajusta os culos ao nariz, fita-me serenamente, reflete no que vai dizer. Responde-me: Iria. Quer dizer: um funcionrio, viajando a servio do Estado, tendo sua passagem requisitada pelo Juzo de Menores, em nome do Ministro da Justia, no tem direito sequer a viajar sentado nas 11 horas do percurso. Mas ainda h mais. Pergunto, delicadamente, ao ditador que tenho pela frente, se as poltronas 37 e 38 do carro "B" ficam, ou no, na sombra. Com uma irritao mal disfarada em calma "superior", responde-me: Meu caro senhor, quer um conselho? Pea a Deus que sejam na sombra, porque s Ele pode decidir. Ali a justia divina j est feita de antemo. Qualquer dos lugares igual nos benefcios e nas desvantagens. Em 11 horas de viagem, de 7:25 s 18:25, quem tiver sol pela manh no o ter mais tarde, e quem, pela manh, gozar da sombra, escaldar com o sol de depois do meio-dia. Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providncias que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, j esto tomadas.

151. CARMEN ROCHA. ISABELA, FUGITIVA DO PASSADO. Aquela confisso transtornou a minha vida... A tempestade desabou, e as imagens voltaram fortes em seu esprito atormentado, daquele longnquo ano de 19..., e, meu marido do outro lado do leito, dando-me as costas, confessava em desespero, em gemidos contundentes, como ela, Isabela, o amara, tanto e to apaixonadamente como s se pode amar uma primeira vez... E o quanto tentou corresponder-lhe: Isabela, Isabela - soluou ele, quase como um fantasma - sua silhueta me vinha atravs do espelho, e sua tristeza... envolvia-me. Como conseguiste tocar-me assim!- continuou em devaneio - o meu amor to forte e verdadeiro. "Eu irei para to longe, amado" ele sussurrava por ela, em memrias - sentiu-a em sua imagem fantasmagrica, perdido em lembranas, e lgrimas desceram de seu rosto - "farei tudo para melhorar e voltar para ti, prometa no me esquecer, vamos prometa-me, pois ficarei to s... e est to frio..." - Sim, sim, eu te prometo... - meu marido engasga-se em sua dor, e s ouo sua respirao entrecortada. Suas lembranas eram to claras, to verdadeiras, que eu prpria vertia lgrimas. Virei-me mais um pouco. Sabia que a imagem que via, pois refletida, era a sombra do desespero daquele homem, totalmente tomado pelo passado tenebroso, que no percebia o meu desalento, nem minha dor, talvez nem minha presena... Claro que prometo, irei esper-la at sua cura ... - continuou dolorosamente em lembranas - nunca imaginei o que isso mudaria a minha vida... voltou-se um pouco para mim. e num desabafo, partilhando... Que desgraa, meu Senhor, onde andaste Tu? - voltou-se um pouco mais, - Ela escrevia-me a cada dois dias. Eu de nada sabia, pois minha tia escondia suas cartas. No entanto, sofria calado, e em total desespero, imaginando sua dor, perdoando o que achava a precariedade dos seus sentimentos, por no escrever-me. Passava fome e frio... para ofertar-lhe em paixo, pois compartilhava tudo o que sentia. Suas febres... suas dores... sua fragilidade... nunca desconfiei da verdade - continuou. Foi quando veio a funesta notcia. Ela exps-se morte, em desespero, por amor a mim. Imaginou que eu a abandonara. Pobrezinha! Nunca pde saber como foi amada... - estendi-lhe a mo penalizada, mas no pude toc-lo. Por sua confisso, minha prpria vida se desmoronava naquele mesmo instante... naquele dia fatal - continuou sua confisso, em total alucinao, como se contasse para ele prprio- ela levantara-se do leito e arrastando-se ficara janela do imenso corredor. Nada se fechava ali. Era norma dos sanatrios, nem portas ou janelas, para que o ar se conservasse o mais puro possvel, e se renovasse noite... - e - continuou com a voz enfraquecida - naquela nsia de me vislumbrar na noite tenebrosa, pois assim foi em nossa despedida, ela se nutriu daquela friagem suicida, como se pudesse me absorver inteiro. A carta... - voltou-se para mim - chegou dias depois, e esta sim, minha tia fez questo de mostrar-me, como se quisera pr fim minha paixo e minha vida. Seus olhos opacos mostravam-se, doloridos, enquanto punha sua desdita a nu. E ento eu soube. Aquela vida de sofrimento louco, no era por mim, sua esposa... mas por outra mulher cujo amor fra to forte, que o acompanhou vida afora, em nossa vida, chegando agora, atravs daquela imagem refletida a incomodar-me, a insultar-me, anos e anos aps aqueles acontecimentos inslitos. Meu marido, em sua louca lembrana, num desafogo irracional, vertia lgrimas, para meu espanto, e soluava, de forma incontida e sem pudor, pela pessoa que tanto amara num passado-remoto, e cuja imagem o matava aos poucos e marcava seus dias to tristes e vos - sua mo desabou exausta. Sentei-me desajeitada no leito e voltei-me mais para o espelho acusador, quase encobrindo a imagem de meu marido, para evitar seu rosto-reflexo-dor. Queria o meu, isso sim, a minha imagem, com ousadia, para enfrentar essa realidade que, de repente, me revelada, dessa forma abrupta. Virei-me mais. Olhei-me de frente. Que silhueta triste. Quo pouco fora amada... ah... quo pequeno fora o meu papel na vida desse homem. Ele no partilhara da minha. Ele nunca me pertenceu. Essa mulher, paixo pungente, em forte imagem transformada e presente em reflexos vigorosos e doloridos, de lembranas to poderosas, destruiu sua vida e at mesmo a minha. Ah, meu Deus! Ser a vida uma realidade, ou apenas uma lembrana... Quem fui eu na vida desse homem? Vive-se ou imagina-se que vive? Senti uma vertigem. Eu sim, em sua vida, fra apenas um reflexo.

152. CARMEN ROCHA. O HOMEM QUE V A VIDA. ...ele precisou muito amor para se resolver... Bom humor est no ar, nesta bela manh - puro cheiro de mato, dos arvoredos do Morumbi. Assobio. So sete e meia da manh. Tiro o carro da garagem e em velocidade moderada fao o curso rotineiro para o escritrio. Tudo em sossego. Alegria. Mas estranhamente aos poucos, meu corao acelera suas batidas conforme ritmos insolentes de garotos na idade das danceterias. Sinto um tnue dj vue. E consigo respirar com certa dificuldade. Coisas diferentes estavam me acontecendo? Continuao de sonho mal? Como se fora caso de vida ou morte... esses fatos futuros, que eu achava que desconhecia, j estavam me abalando... E de repente, minha cabea comea a latejar horrivelmente. Seria outro dia maluco, como tinha sido algum tempo atrs, quando coisas estranhas comearam a dar sinal? O que estaria acontecendo aos meus olhos. Estaria eu tendo alguma doena desconhecida? Resolvi reagir a toda essa loucura que estava me tomando, me torturando, como se eu fosse um rob e devesse obedecer a no sei l o qu, ou no sei a quem. Perceberam? Alguma coisa estava tomando conta de mim. Isso mesmo, comandava meus olhos, e eu via. Via o qu? No, vocs no podem imaginar o que eu via! Engreno a primeira e rpido breco para no atropelar a moa que atravessa em minha frente, vira-se para mim, e um brilho estranho emanado de seus lbios. Mais percebo do que vejo. Intrigado, fico toda a vida olhando pelo espelho retrovisor para entender. Ento, escuto o apito do guarda de trnsito arrebentando os tmpanos e percebo o brilho: idiota! - que fica flutuando a certa distncia. O carro pra quase na esquina, e percebo a sua silhueta quase minha frente. Tento fechar os olhos, mas como guiar? Torno a abri-los e l vem... preciso mostrar servio... vou multar esse bobalho... se ele avanar... - aparece a frase brilhante de sua boca. Seguro o carro, para no andar um milmetro sequer, abre o sinal, continuo. O suor poreja minha fronte. Na quadra seguinte... o homem do caminho: Passo em cima desse idiota. Como segura o trnsito! - Aperto a direo do carro. Estou pssimo e realmente tudo se embaralha em minha vista e s vejo o que no quero. Contorno e deso para a garagem, estaciono. O manobrista se aproxima sorridente e amavelmente me diz:Bom dia! - E horrorizado vejo em luz forte - como estaciona mal. ...se esse idiota no der minha gorjeta... - fecho os olhos e tateio o elevador. Subo para o 3andar. Cumprimento a moa da recepo. Bom dia, senhor... Como feio! Tem cara mesmo de pastel, eu hem?... O suor escorre pelo meu pescoo. Meu sossego foi quebrado definitivamente. Meu olho esquerdo comea a tremer, dando aviso de estranho, estranho... Sigo apreensivo, tentando manter a calma. Passo pela secretria rapidamente. Fecho-me em minha sala. Viro-me daqui e dali procura de paz, de calma salvadora minha frente. Respiro fundo. Minha secretria bate porta Entre, Eunice - po duro, quando vir o aumento? - Tento fechar imediatamente os olhos. Bom dia! O senhor no passa bem? - pergunta assustada. Reanimado pelo tom corts abro os olhos e vejo claramente, escrito em seus lbios, com todas as letras... se esse cara chato bater as botas, fico sem emprego... - Saia, Eunice, eu chamo depois. Senti profunda falta de ar, e a iniqidade do ser humano. Tentando disfarar, chamo o boy e peo com certa urgncia - V ao primeiro camel que encontrar e compre uns culos grandes, curvos e bem, bem escuros, maiores que este, est bem? T bem, chefe - o diabo que te carregue, acabei de tomar caf, no tenho sossego, ache! - Estremeo. Finalmente, sento-me e pego os papis empilhados esquerda e comeo a despach-los, sem prestar muita ateno. Minha irritao e meu susto so to grandes que necessito recompor o flego em grandes respiraes. O boy entrega-me o embrulho. Abro. Suspiro. Horrivelmente grande e negro, como pedi. Quando vou p-los... quase nos olhos, a secretria adianta-se e assustada pergunta apontando meu rosto: Patrozinho o que isso? - mais parece uma coruja, coitado, como feio! - Acabo de coloc-los rpido. Deu certo, e passo a us-los. Quase sorrio de alegria... a mais pura, aquela que pode me tirar daquele mal-estar insano, pois passo a ver somente umas luzinhas na boca das pessoas. Volta o flego. - Tem recado? Sim, a Cobrana. Ah! A D. Marieta telefonou! Diga-lhe que no estou bem e que hoje irei direto para casa, PAM! - dando um murro na mesa - ela estremece. O mal humor correu o andar todo at a mulher do bolinho-para-acompanhar-o-caf e transbordou at o andar de baixo. Comeam instintivamente a andar nas pontas dos ps. Acho melhor tirar de uma vez os culos. Ser que a besta vai se vingar em nis - brilhou na boca da mulher da limpeza. Ponho os culos. Protegido pela grossa e escura armao desse enorme visor, quase me acalmo, pois no percebo mais os pensamentos do pessoal piscando em minha frente. Respiro. Assim o dia passa, e eu em atitude submissa no encaro mais ningum. Aposento os culos, at que minha secretria pergunta:- Sr. Chato! Precisa de mais alguma coisa, patrozinho? - Estremeo. Dou sinal que ela pode ir. Que v logo. Recoloco os culos. Respiro fundo e retorno a casa, quase feliz, pois usando os especiais made in camel, sinto um quase sossego. No outro dia, a secretria amvel: Patrozinho, hoje seu dia, no ? Mais um aninho, hem? - Uau, como disse? Como voc sabe? Bem, parece que... foi a D. Marieta, aquela moa italiana que falou que ia dar uma festa surpresa. Ai!, j falei, agora no ser mais surpresa! - tampou a boca, vexada. Moa, nem pensar nisso. D uma desculpa, e fale que eu, mais tarde passo na casa dela e s. Afasto-me de todos e principalmente de Marieta, minha amada, pois no poderia suportar sequer pensar em ver seus pensamentos. A semana passa assim, assustadora. Alguns dias depois, na verdade, no sei quantos, pois fui perdendo a noo do tempo, mal agentando a realidade espantosa que virou a minha vida. Eu estava vendo o invisvel! O invisvel da nossa vida suja. Eunice pergunta-me se para mandar convites para a minha namorada e os outros, pois, no meu aniversrio, costumo convidar o meu pequeno mas seleto grupo de amigos. Eu no poderia! Amigos? At que ponto? J no sabia dizer, meu deus! E de repente, assusto-me. Teria que enfrentar uma festa? J estou afastado deles h quase um ms. Como sair desta? Nada de festa, pronto, dessa vez no tenho mesmo nada para comemorar. Comemorar a verdade das coisas que me so apresentadas de maneira to crua? O ser humano em sua dimenso real, percebendo uma realidade de forma to clara e cruel? Meus olhos estupefatos captando essa realidade? Quem agentaria? Viver essa vida totalmente iludido? Encarar? Mais tarde dou uma desculpa, me embebedo e tchau. E pronto o telefone toca e l vem novamente o convite para o sbado prximo. Estavam com saudades. Queriam fazer a minha festa na casa de Marieta, e confirmar o dia para a comemorao! Passaram-se trs dias. Foram os dias mais insuportveis da minha vida. Nele eu imaginei qual seria a verdade que iria enfrentar de cada um dos meus pseudo-amigos, agora sabia. Realidade dura, trilha infame, mundo co. Descubro cada vez mais a baixeza, a vida crua e a duplicidade do ser humano. Era essa a revelao, afinal? Como conviver com ela? Onde os pensamentos amistosos, sinceros, cordiais? Eu, pobre mortal, me contentaria com algum deles, somente. A alegria pura, a amizade sincera... No sou exigente, compreendo a fraqueza humana... Mas o que tem se passado em minha vida?! Insuportvel, simplesmente insuportvel. Nunca contei a ningum sobre tudo o que suportei da raa humana nesses dias. Para que contar? A sordidez, ao exp-la teria que admiti-la. No poderia. E esse processo estranho? O que estava se passando comigo? At quando? De que forma surgiu? E principalmente, para que serviria, eu conhecer toda a maldade do homem? Para qu? Um banho relaxante, uma TV, uma cachaa temperada, toca o telefone. Marieta, com seu sotaque, abre o jogo: Venha, caro mio, estamos todos reunidos para uma champanha. Toda a turma! Incrusive o seu chefe, t bem, belo? Puxa, pensei, era melhor fazer uma fora e ir. T bom, logo mais estou chegando. Um bacio, me esforcei. Arrumo-me para a festa com o maior esforo. Tomo uns bons drinques para enfrentar essa realidade que eu no supunha to obscena... Como estava acostumado, vesti-me com apuro, colnia discreta, um toque de seda na lapela. Uma gravata italiana, presente da amada, apanho os sedutores culos. Dirijo-me para o conversvel amarelo ovo, j meio-meio alegre, sem esquecer a mquina filmadora, especial para boas fotos. Num salto gil pulo para o carro, reajusto a direo conforme minhas medidas e dou uma arrancada. Aps vinte minutos, rodeio o jardim da residncia, estaciono ao lado da porta, apanho a mquina, coloco os lindos culos e esquecido das mgoas, aproximo-me rpido da porta. Nem bem bato a belssima aldrava de bronze, as portas se escancararam e um coral de mais de vinte amigos com o Parabns a Voc. Apesar do susto, rpido, empunho a mquina e filmo a cena toda. Beijinhos, abraos, aquele grupo animado conseguiu alegrar-me. Por que os culos? Meus culos? Desculpas. Bem uma ligeira inflamao. Olhem! Nada de mais. No, no posso tirar. Os champanhes espocam. Muitas risadas. Comeo a perceber as luzinhas na boca de todos. Desvio o pensamento. Alegria, presentes, tapinhas nas costas. Se soubessem! A festa foi correndo amistosa, afvel, alegremente, com muita emoo, vibrante! Vinhos e deliciosos canaps. Esqueo-me de tudo, e viajo naquele sonho de felicidade, apesar de muitas luzinhas ao falar com meus amigos e principalmente com a querida Marieta. Finjo para mim mesmo, e a noite corre feliz. Petiscos deliciosos e bebidas. Tudo em paz, nada mais me aborreceu. Consegui tornar-me quase feliz. Dei volta ao drama, e no final, me sentindo atordoado, no podendo mais esticar, aps belas despedidas e beijos retorno a casa,bbado eu sei, mas alegre e penso que tudo era um sonho, querendo fugir dessa duplicidade to pouco suportvel. Entro. Meio bbado. Vou para a TV para passar a filmagem. As imagens perfeitas... A entrada festiva... As pessoas sorridentes. Nos lbios, as luzes tremelicando. Meu amigo: como petulante; meu vizinho: aturar esse cara o ano inteiro, ufa! meu chefe: como burro, talvez eu o despea; minha amada: transo com outro e esse imbecille no percebe... Deixei-me cair no div estupefato. Ao revelar a filmagem, para o meu pavor, revelo mais uma vez o mundo srdido, infame que j supunha. Em cada boca, que na festa me cumprimentou e me beijou, em cada boca, leio a sentena de morte que agora a est estampada e que ir selar a minha vida. Pobre Marieta, como voc me amaldioou nesses ltimos meses. Mas... sempre sorrindo... Sim, darei descanso a todos, no mais imporei esta presena to odiada a vocs, queridos amigos! por isso que agora, tiro os meus culos escuros e abro os meus olhos. J no importa. No entanto, peo desculpas, mas preciso entender a vida, a vida maior, no o significado obtuso desta, pois essa realidade no a real, impossvel. Preciso da outra, mais verdadeira. Parto, queridos amigos, com um grande abrao amoroso e fraternal, prova de quaisquer olhos muito abertos. A culpa com certeza no desse mundo, nem de vocs. Por que me indignar tanto? Talvez a resposta aqui, nem seja necessria. O difcil entender porque fui eu o escolhido para passar por essa desastrosa realidade. Est bem, eu me ofereo em sacrifcio para descobrir a resposta.A verdadeira resposta. Quero entender o lado de l, quero realmente entender, preciso ver o que esta alm dos fatos. A vida, agora eu sei, uma iluso!Qual a minha realidade, a realidade de todos? Eis a revelao. Eu sempre intu esse lado mau. Mas por que eu? Por que fui escolhido? Todos sabem, mas ningum enfrenta isso com tanta clareza, nem lhes revelado com tanta crueldade. Eis a verdade dessa vida suja. Que calor insuportvel nesse meu corpo frgil. Saber dos pensamentos mais ntimos e verdadeiros das pessoas que eu quero bem! Nossa, comeo a tremer e a suar. Sinto-me muito mal, infinitamente triste. Vou tirar o casaco... a gravata... Que gravata colorida Marieta me deu! Verde! com certeza a cor da esperana... Terei alguma? Como conviver com isso? No, no posso ir adiante. No posso. Ah, desespero! Sim, essa seria uma bela sada... O banquinho tombou.

153. CECLIA MEIRELES. Muita gente me pergunta se deixei de escrever o meu sobrenome com letra dobrada devido reforma ortogrfica; e quando estou com preguia de explicar, digo que sim. Mas hoje tomo coragem, abalano-me a confessar a verdade, que talvez no interesse seno aos meus possveis herdeiros. A verdade nunca simples, como se imagina. E em primeiro lugar, devo dizer que o meu sobrenome simplificado s vale na literatura. Nos documentos oficiais prevalece a forma antiga, e eu por mim gosto tanto da tradio que no me importava nada carregar um psilon, um th, todas as atrapalhaes possveis que enrugam e encarquilham um idioma. Por outro lado, as reformas ortogrficas so sempre to arrevesadas que j perdi as esperanas de estar algum dia completamente em condies de escrever sem erros, descansando assim no tipgrafo e no revisor, que so os grandes responsveis pelas nossas faltas e pelas nossas glrias. No foi, portanto, por afeio s reformas que sacrifiquei uma letra do meu nome. A histria mais inverossmil. Todos na vida atravessamos certas crises. Dever-se-ia mesmo escrever sobre a gnese, desenvolvimento, apogeu e fim das crises. Se uma pessoa est sem emprego, o natural que se empregue. Se est doente, o natural que morra ou se cure. Mas o fenmeno da crise importante precisamente por ser o contrrio do natural. De modo que se a pessoa est desempregada, no h maneira de arranjar emprego, e se est doente no h maneira de se curar, etc... As crises so muito variadas. H crises sentimentais, econmicas, de inspirao, de talento, de prestgio e o povo classifica essa situao, que ele, em sua sabedoria, j observou, com o fcil nome de azar. O azar no lgico. Isso que o torna desesperador. A pessoa sai de casa, bem com a sua conscincia, com as faculdades mentais em perfeita ordem, os msculos, os nervos, tudo bem governado, atravessa a rua como um cidado correto, observando o sinal, e quando chega do outro lado, apanha na cabea um tijolo que um operrio, inocente, deixou cair do stimo andar de uma construo. Naturalmente, todo o mundo tem refletido sobre as razes secretas dessas coisas inexplicveis. E foi assim que, com o correr do tempo, se chegou caracterizao de um certo nmero de fatos e objetos que servem de prenncio ao azar: espelhos quebrados, relgios parados, sal entornado na mesa, sapato emborcado, tesoura aberta, gato preto, mariposas, sexta-feira dia treze, ms de agosto, gente canhota e estrbica, vestido marrom, para s falar dos principais. Penetrando mais no estudo de todas essas supersties, pessoas entendidas tm procurado explic-las pelas correlaes existentes com as crenas do paganismo, estas por sua vez baseadas no empirismo e na ignorncia dos nossos antepassados, e assim por diante, o que no impede que as pessoas ainda hoje se benzam, quando bocejam, para que o Demnio no lhes entre pela boca; e no cruzem a mos, quando se cumprimentam, para no atrapalharem algum matrimnio, e no se deitem com os ps para a rua, e no faam muitas outras coisas, s pelo medo das suas conseqncias ocultas. Outras pessoas, igualmente entendidas, do rumo diverso aos seus estudos, descobrem o entrelaamento das causas e efeitos universais, chegam at a afirmar que tudo quanto nos acontece nesta encarnao fruto remoto de encarnaes anteriores, e respeitam o que diz um provrbio oriental que o simples roar da roupa de um passante, na nossa roupa, indcio de alguma proximidade de vidas, em tempos imemoriais. E h os que seguem o caminho dos astros, e com uma circunferncia, umas retas, uns planetas, uns clculos, dizem e predizem os nossos destinos, com todas as suas inesperadas trajetrias. E h os que lem nas linhas das mos, e contam as nossas viagens, os nossos padecimentos de fgado, o que vamos fazer daqui a vinte anos, e o minuto em que empalidece a nossa estrela... Est claro que creio em tudo isso. Eu justamente creio em tudo. Creio at no contrrio disso. A minha faculdade de crer ilimitada. No compreendendo por que as pessoas crem numas coisas e noutras no. Tudo crivei. Principalmente o incrvel. No estou fazendo paradoxo. A vida que j por si mesma paradoxal, desde que seja vista no apenas pela superfcie. Ora, uma vez, todas as coisas comearam a correr contra mim. Fazendo a mais profunda e leal introspeco, estou bem certa de que no merecia tanto. Se punha roupa branca, chovia; se precisava ver a hora, o relgio estava parado; muitas coisas pequenas, assim e outras maiores, j com interveno humana, e que, por isso, no necessrio contar. Ento, considerando que tal concordncia de acontecimentos desagradveis devia ter uma razo secreta, pus-me a procur-la. Ao contrrio do que geralmente se faz, comecei por atribuir a mim mesma a razo dos meus males. certo que todos temos muitos defeitos. Mas nunca me dei ao luxo de ter tantos que justificassem a conspirao que se fazia contra mim. Admitida a minha inocncia, passei ao exame das circunstncias que por acaso estivessem sob a minha responsabilidade. Nem espelho partido nem vestido marrom nem gato preto nem nmero fatdico na porta. E assim descendo de observao em observao, e consultando algum conhecido e os nossos conhecidos sempre sabem essas coisas ocultas e se no nos ajudam com as suas luzes pela timidez em no acreditarem o momento propcio passei a analisar o meu nome. Esqueci-me de dizer que estava disposta a todos os despojamentos. Se a culpa fosse de algum mau sentimento, de alguma ao malvada, eu me castigaria energicamente. E at para me estimular recordava o exemplo daquela senhora americana que arrancou um olho e cortou a mo, convencida de que esses dois fragmentos do seu corpo estavam estragando a sua alma.Foi nessa ocasio que me explicaram o valor cabalstico das letras, e a razo por que muitas pessoas mudam de nome, trocando aquele que lhes foi dado por outro em que haja uma combinao de valores mais favorvel aos seus destinos. Todos os conhecimentos tm uma profunda seduo. Quem conseguisse saber tudo ficava igual a Deus. Por isso que muitos so de opinio que se saiba o menos possvel, para no se ter a mesma sorte de Eva, que logo no princpio do mundo estragou o Paraso com o pecado do saber. Digo isto porque um tratado de biologia me atrai com a mesma fora que um volume de cincias ocultas, e os nmeros e as letras me parecem to organizados, to sensveis, to vivos, to poderosos, enfim, como um animal, uma planta, um tomo. Naturalmente, desmontei o meu nome, pea por pea, calculei, pesei, refleti, devo ter chegado a alguma concluso de que j no me lembro, e no tenho a impresso de que os meus clculos fossem assim desfavorveis. Mas pelo sim, pelo no, como havia uma letra disponvel, achei melhor sacrificar essa letra. H os que sacrificam os filhos, os carneiros, as aves, e h os que sacrificam o seu corao. Sacrifiquei o meu. Porque eu gostava de todas as minhas letras, fervorosamente. Ter de cortar uma, no foi assim coisa to fcil como as reformas ortogrficas ordenam. Uma letra um signo, uma coisa misteriosa que as geraes vm carregando consigo, modificando de longe em longe, por mo inexperiente, por sbito esquecimento, por ignorncia de algum escriba emprestado. Deu-me um trabalho muito grande, ficar sem essa letra. Quando olhava para o meu nome sem ela, sentia como se me faltasse um pedao, como se estivesse realmente mutilada, sem a mo ousem o olho. Consolava a letra perdida. Escrevia-a sozinha, do lado, sorria-lhe, contava-lhe coisas, para distra-la. Tudo era muito infantil e muito triste. A pobrezinha ficava para trs, e dava-me saudade. Recapitulando estas coisas, sinto-me entristecer, e preciso recobrar a minha fora de vontade para no alterar outra vez o sobrenome. Afinal, como ltimo trabalho convincente, estabelecemos este acordo. A letra no ficaria perdida: seria usada nos documentos oficiais, nesses lugares respeitveis em que a firma a garantia da nossa pessoa recebendo e pagando os lugares que nos vemos que merecem a consagrao e a estima unnimes dos nossos colegas humanos. Quanto s coisas literrias, essas efmeras coisas pelas quais vamos morrendo dia a dia, no so assim de tal modo graves que precisem da firma autntica, daquela firma por que os juzes nos podem perguntar um dia, brandindo um papel pavoroso e fulminante:"Dize, bandido, foste tu que assinaste este documento?" No, as coisas literrias no chegam a esse ponto. O mais que nos pode acontecer tirarem o nome que escrevemos no fim e substiturem-no por outro, sem juiz, sem fulminao, sem defesa... Isto posto, a letra abandonada e eu nos abraamos ternamente, e nos separamos. Como era uma letra suave, ter querido dizer com o seu romantismo: "Quero apenas que sejas menos infeliz. Acompanhei-te durante tanto tempo! Tiveste tanta dificuldade em aprender a escrever-me... Pensavas com inocncia no mistrio das letras dobradas... Sentias orgulho, na escola, por essa letra dobrada no nome... Mas talvez eu esteja pesando demais na tua vida. No fiques triste. Adeus." Fiquei muito triste. Faltava-me a letra. J no era como se me faltasse um pedao de mim, mas, um parente, um amigo extraordinrio. A minha vida, porm, mudou tanto que, por mais saudade que me venha dessa letra perdida, no me animo a faz-la voltar. E est feita a confisso. Como se v, uma histria longa, que no se pode repetir a cada instante. Principalmente porque uma histria ntima, e ningum deve cortar as letras do seu nome s por ter visto outras pessoas faz-lo. E fica explicado para sempre que assino deste modo por motivos sobrenaturais, fantsticos, como quiserem, mas no pela reforma ortogrfica, alis muito cautelosa com os nomes prprios, respeitando-os tanto quanto me parece deverem ser respeitados, principalmente pelos mistrios que dentro deles vo navegando.

154. CECLIA MEIRELES. A tardezinha de sbado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece no possuir nada de muito particular para ningum. Os automveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produo de sanduches e cachorros-quentes. Apesar da fresquido, as mocinhas trazem nos ps sandlias douradas, enquanto agasalham a cabea em echarpes de muitas voltas. Tudo isso rotina. H um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Po de Acar l vai cumprindo o seu destino turstico, e moos bem falantes explicam, de lpis na mo, em seus escritrios coloridos e envidraados, apartamentos que vo ser construdos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestbulos de mrmore, tanto de entrada, mais tantas prestaes, sem reajustamento o melhor emprego de capital jamais oferecido! Em alguma ruazinha simptica, com rvores e sossego, ainda h crianas deslumbradas a comerem aquele algodo de acar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E h os avs de olhos filosficos, a conduzirem pela mo a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos. Andam barquinhos pela baa, com um raio de sol a brilhar nas velas; h uns pescadores carregados de linhas, samburs, canios, muito compenetrados da sua percia; h famlias inteiras que no se sabe de onde vm nem se pode imaginar para onde vo, e que ocupam muito lugar na calada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delcia infinita. Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. H risos, pulseiras que brilham, anis que fascam, muita alegria: pois no h mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pago. E depois so as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos. Por uma rua transversal, est chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que no se pode ver, pois est coberta de cascatas de vus, como se viajasse dentro da Via-lctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela a misteriosa dona dessa tardezinha de sbado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moa que vem, com a alma cheia de interrogaes, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. uma transio de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela no ter que pensar nisso. Ela mal se lembra que sbado, que o dia de seu casamento, que h padrinhos e convidados. E quando a cerimnia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem : separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

155. CECLIA MEIRELLES. Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. L ningum celebra o Natal como o aniversrio do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenas, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperana, o consolo, a certeza do Bem, da Justia, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos prprios" e se escreviam com letras maisculas. L, elas continuam a ser denominadas e escritas assim. Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova mas uma roupinha barata, pois gente pobre apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Alm da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque ns, humanos, quase sempre associamos alegria da alma um certo bem-estar fsico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porm, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja muito sbria.Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ningum ofende o seu vizinho antes, todos se sadam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial:"Boas Festas! Boas Festas!"E ningum, pede contribuies especiais, nem abonos nem presentes mesmo porque se isso acontecesse, Jesus no nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguido? Ningum pede nada. Mas todos do qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade no pedir nem receber: a felicidade dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... como se a Ilha toda fosse um presepe. H mesmo quem d um carneirinho, um pombo, um verso! Foi l que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o corao repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias s esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dvida sobre a vitria das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, v-se a luz gloriosa do Cu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lgrimas nos olhos.Na Ilha do Nanja assim. Arvores de Natal no existem por l. As crianas brincam com. pedrinhas, areia, formigas: no sabem que h pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. L tambm ningum l histrias em quadrinhos. E tudo muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, rene, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa s. assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

156. CECLIA MEIRELLES. Com estas florestas de arranha-cus que vo crescendo, muita gente pensa que passarinho coisa s de jardim zoolgico; e outras at acham que seja apenas antigidade de museu. Certamente chegaremos l; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma rvore. Bom ser que essa rvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palcio verde podem morar muitos passarinhos. Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com caninds e araras, tuins e sabis, maracans e "querejus todos azuis de cor finssima...". Ns esquecemos tudo: quando um poeta fala num pssaro, o leitor pensa que leitura... Mas h um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele est para acabar. E pena, pois com esse nome que tem e que a sua prpria voz devia estar em todas as reparties e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presena. Seria um sobressalto providencial e sob forma to inocente e agradvel que ningum se aborreceria. O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi so as mudanas que comeo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as trs slabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: "...te-vi! ...te-vi", com a maior irreverncia gramatical. Como dizem que as ltimas geraes andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que tambm os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano. Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmo como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? animou-se a uma audcia maior No quis saber das duas slabas, e comeou a gritar apenas daqui, dali, invisvel e brincalho: "...vi! ...vi! ...vi! ..." o que me pareceu divertido, nesta era do twist. O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol que se no h de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da famlia e mudam os lemas dos seus brases? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razo nenhuma no primeiro indivduo que encontram. Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: "Bem-bem-bem...te-vi!" Pensei: " uma nova escola potica que se eleva da mangueira!..." Depois, o passarinho mudou. E fez:"Bem-te-te-te... vi!" Tornei a refletir: "Deve estar estudando a sua cartilha... Estar soletrando..." E o passarinho:"Bem-bem-bem...te-te-te...vi-vi-vi!" Os ornitlogos devem saber se isso caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianas, que sabem mais do que eu, e vo diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: "Que engraado! Um bem-te-vi gago!" (: talvez no seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira...)

157. CHICO ANYSIO. Andando h 40 anos por este pas, catando dinheiro para levar pra casa, eu aprendi a acreditar. Acreditar na terra, no homem, na chuva, na beno, na semente, no fruto, no corao, na mente na inteligncia. Aprendi, com o meu povo, que quando uma coisa est muito sria, o melhor que se faz brincar com ela. E, naquelas tardes terrveis, sozinho num quarto de hotel, esperando a hora do show, eu comecei a desenhar o pais dos meus sonhos. Um pas onde cada lavrador tenha um par de bois para puxar seu arado e que de tarde, ao voltar para casa, encontre um par de filhos o esperando e noite quando for dormir, tenha um par de pernas para amar; no pas dos meus sonhos, todo pobre vai comer, todo hospital ter remdios, todo aluno ter colgio, todo professor ganhar um salrio decente e todo policial apenas prender os bandidos, em vez de os ajudar a matar e a roubar; no pas dos meus sonhos todo cego vai ver, todo surdo vai ouvir e todo mudo vai ver e ouvir coisas to lindas que nem ser preciso dizer nada; no pas dos meus sonhos a integrao do homem com a natureza ser tanta que eu chego a imaginar uma rvore dizendo a um homem: Voc me tratou to bem, foi to legal comigo, que eu gostaria de me transformar na mesa da sua casa, nas cadeiras onde sua famlia sentar, no bero do seu filho. No pas dos meus sonhos, o homem branco, afinal, vai descobrir que o corao do negro do tamanho do seu e o sangue da mesma cor. O pas dos meus sonhos um dia ser verdade. E ele ser to feliz que nem vai precisar de mim para fazer rir um pouco. No faz mal. Eu perco o emprego, mas no perco o meu sonho. Boa noite.

158. CHICO ANYSIO. Houve um tempo, no Rio de Janeiro, que cada bairro tinha o seu valento. Era o Frederico em Copacabana, o Raul na Urca, o Waldemar no Catete, o Silvo no Cosme Velho. Tudo no bairro tinha que acontecer dentro do desejado por eles, de acordo com a vontade do valento. O interessante que todos se respeitavam e ningum soube, nunca, de um ter que encarar o outro numa disputa, uma briga, fosse por que motivo fosse. O fato de mandar na sua circunscrio era mais que suficiente para todos eles. No Leme, o valento era o Chave Inglesa. Ningum sabia o seu nome de batismo, mas no Rio no havia quem no soubesse da existncia do Chave Inglesa, mandando e comandando do Leme at o Lido. Chave Inglesa morava na Ladeira Ary Barroso que naquela poca chamava-se Ladeira do Leme, numa casa de madeira, pobre, mas isto no interessava para ele. Tinha segundo se dizia apenas um amigo, o ex-salva-vidas China, tambm morador da Ladeira e que mantinha um Centro Esprita em sua casa. China foi um dos primeiros banhistas do Rio e professor da maioria deles. Mas o fato de ser amigo do China no aliviava ningum de uma presso do Chave, se este fosse o desejo dele. Ao China ele respeitava at mesmo pela idade, mas ser amigo do China no livrava a cara de ningum. Um dia um jovem casal, sado da praia, dirigia-se para seu carro e passou pelo Chave que conversava com um amigo perto do Sachas, cheio de palavres. O rapaz deixou a moa um pouco afastada e veio at o Chave e seu amigo, muito gentil:- Oh, amigo eu estou passando aqui com a minha menina e o senhor a com a boca cheia de palavres O amigo do Chave foi quem respondeu: - Esquece isso e vai embora, garotinho, porque esse aqui o Chave Inglesa e ele faz o que quiser. O rapaz, que era faixa-preta de jiu-jitsu, segurou com o polegar e o indicador nas banhas da cintura do Chave e, enquanto apertava o que podia, foi falando, mansamente: - E ento ? Sendo o Chave Inglesa at um motivo mais forte para ter a boquinha limpa, porque vamos que eu me aborrea e resolva lhe dar uma surra. Vai ficar bonito para o famoso Chave Inglesa apanhar feito boi ladro de um garoto que ningum sabe quem aqui, na casa dele ? Passe a tomar conta do que fala, para no apanhar e muito quem sabe at sem ter conserto. OK? E como apertava mais a cada frase falada, Chave Inglesa, no final, j estava todo retorcido. O rapaz soltou as banhas dele e foi embora com a namorada, enquanto Chave Inglesa levantou a camisa e, dando massagem naquela poa de sangue da cintura, comentava com o amigo: - Rapazinho forte

159. CHICO ANYSIO. Eu sou da safra de 31. Uma boa safra. Muita gente de boa categoria desta safra. No digo os nomes deles por no ter certeza de que eles no se aborrecero por terem sido citados, mas gente de importncia. S que eu tenho comigo um problema muito esquisito. Apesar de ter nascido em 1931 12 de abril a minha certido de idade de 1929. Seria impossvel eu ter nascido em 29, porque eu sou de abril e minha irm de julho. Ela, nascida em 1929. Minha me, apesar de ter sido uma pessoa especialssima, jamais poderia ter um filho em abril de 29 e 3 meses depois uma filha. que a minha certido de idade no veio de Maranguape, mas de Maracana e eu a recebi e, sem olhar, imediatamente a entreguei ao colgio. S nos demos conta do erro quando o exrcito me convocou para servir. Eu tinha 16 anos. Fomos verificar e ali estava o grande grilo: eu oficialmente era de 29. Apresentei-me ao exrcito com dezesseis anos. claro que seria impossvel eu ser aceito, porque a minha magreza era algo fora do comum. Basta dizer que, aos 10 anos, eu pesava 18 quilos e calava 39. Eu era um L. No quartel onde me apresentei, em So Cristvo, as pessoas chegavam a rir de mim. Fui gozado e apresentado a todos como uma figura mparMeu certificado de reservista ficou sendo de terceira categoria, e o capito que me deu este documento fez questo que eu ficasse em sua companhia por mais algum tempo, o que no me criou problema algum. Acabou que eu tive o prazer de ser convidado por ele para almoar com os oficiais. Eu havia me transformado numa espcie de talism daquele quartel, eu acho. E foi a, na hora da refeio, que eu presenciei algo de que nunca mais me esquecerei. Um soldado chegou ao capito com um prato e o mostrou ao oficial. - Por favorcapito. O que isso? O capito olhou, deu uma ligeira provada, cuspiu de lado e disse de modo definitivo. - Ora, soldado. Isto piche. E o soldado: - Pois , capito O cozinheiro quer convencer a gente de que isso tutu. Nesta hora eu dei graas a Deus pelo certificado errado que me enviaram de Maracana.

160. CHICO ANYSIO. Quando o Carlos Manga, na Excelsior, me deportou para So Paulo, para que eu trabalhasse numa emissora que tinha um nico estdio e duas cmeras, talvez pensasse que estava decretando a minha morte; o negcio que, ao mesmo tempo, ele me deu o direito de escolher um diretor e eu escolhi Daniel Filho. O Manga riu muito ao saber que meu escolhido era o Daniel e disse uma frase ao telefone que eu de longe escutei: - Vai no primeiro avio. O Daniel foi, e o Edson Leite, diretor geral da Excelsior, resolveu nos ajudar. Alugou um equipamento de externas, uma unidade mvel e o Daniel e eu, com a ajuda do Irvando Luiz e do Marcos Cesar, escrevemos programas a serem gravados em externa. Tudo in loco. Uns oficina era gravado numa oficina, (essa frase est meio truncada, meu primo) um colgio num colgio real e um dia combinamos com a direo e o treinador e foi escrito um programa para ser gravado na concentrao do Santos. Quando, na tera-feira, o caminho de externa e o nibus com os atores chegaram Vila Belmiro, s 7.30 da manh, o porteiro nos informou que, como o jogo de quinta era considerado fcil, o Lula (o tcnico) havia cancelado a concentrao. Eu, imediatamente, fui casa do Pel, de quem durante muito tempo fui vizinho. Dona Celeste me atendeu sempre gentil e, ao saber do caso, sugeriu que eu o acordasse. Fui ao quarto do rei e - PelPel Ele acordou num pulo e tomou um susto ao me ver. - Que aconteceu ? Eu contei o caso e ele, sem titubear: - Me espera a. Eu vou tomar um banho e vou acordar os jogadores e mandar todos eles pra Vila. Eu sei onde eles moram. 15 minutos depois ele saiu, e eu voltei para o estdio. Daniel j comeou a posicionar as cmeras e preparar tudo para filmagem. Meia hora depois comearam a chegar os craques do Santos: Orlando Peanha, Rildo, Menglvio, Dorval, Coutinho, Pepe, Zito Ao meio-dia chegou o Pel. De txi. - Mandei um cara com o meu carro a So Paulo buscar o Gilmar e o Mauro. A que horas eu posso chegar ? Daniel disse que ele poderia chegar apenas noite, pois a cena dele era a ltima. O programa terminava com o Pel e eu trocando cabeadas e eu sugeri que eles me levantassem e sassem comigo, como se me fosse jogar na piscina. O Pel com a camisa do Santos e eu com a do Palmeiras. Tudo bem. Eles me levantaram o Daniel gritou: Corta. O programa acabou. Pel chegou para o Daniel e pediu: - Por favor, no pe no ar esta cena da gente levantando o Chico. - Por qu? - Eu manjo esse safado. Ele vai dizer que isto o Santos reconhecendo a superioridade do Palmeiras. Nem pude reclamar, porque era exatamente isso que eu iria dizer. Por causa dessas coisinhas que igual ao Pel ningum. Ou nadie- como diria o Maradona.

161. CHICO ANYSIO. Cada um de ns tem o seu conceito de feira e isto um assunto bastante discutvel. H pessoas que so feias na sua opinio e que na minha no so, assim como muitas a quem eu considero horrveis, vivem cheias de namorados que se encantam com elas. H ainda a no ser esquecido aquele papo de que "quem come cara bexiga" e, diante disto, uma mulher no deve ser medida pelo que o rosto promete ou deixa de prometer. Mas somos obrigados a reconhecer que h as irremediavelmente feias, porque mulheres cujas feiras so absolutas e nada tm de relativo. Feira total. Roberinha nem era assim to feia, mas parece que ficou combinado que era. verdade que ela nasceu feia. Contam que o mdico que a aparou ao se deparar com a carinha de Roberinha, passou-a para os braos da enfermeira e saiu em desabalada carreira. Roberinha nasceu no interior e, quando o pai a levou para ser batizada o padre a olhou, examinou bem e disse: -Sr. Gonalves, vamos combinar o seguinte: o senhor leva a menina para casa. Se dentro de trs dias ela no latir, o senhor traz de volta que eu batizo. Roberinha, aos quatro anos vinha com seu pai a cavalo, sentadinha ali junto ao Santo Antonio da sela e uma vizinha convidou o pai para um caf. -Bom dia, Seu Gonalves. Suba at aqui. Venha tomar um caf... Sr. Gonalves subiu para a entrada da cozinha, apeou do cavalo e tirou Roberinha de sela, segurando-a no colo. O vizinho, que se aproximava... -Sua filha ? -Sim. Roberinha. Bonitinha. E o pai: -Liga, no, filha. Ele est falando isso s pra te agradar. Roberinha sempre soube que era feia e, por esta razo, no se aborreceu ou se surpreendeu quando, ao contar a uma autoridade o que sabia de um assalto havido na rua, o homem disse ao policial. -Eu vi tudo. Ele assaltou a mulher e depois botou a mulher dentro de um carro e sumiu com ela. -E como era a mulher ? -Feia. Assim como essa mocinha aqui. A mocinha era Roberinha. Mas depois de casar, ou melhor, depois de ter conseguido casar, Roberinha parou de aceitar esta discriminao. E sua deciso inclua o prprio marido. Assim, quando ela perdeu o avio que a levaria para Roraima e s havia outro no dia seguinte, ao voltar para casa e entrar, dizendo... -Perdi o avio. Na hora em que Cludio, seu marido, a olhou exclamando feliz por t-la de volta ao lar: -Mas que beleza !...Roberinha rebateu. -Vai pra... E deu o endereo de um lugar para onde ele ir.

162. CHICO ANYSIO. Acho que todos sabem que eu morei dois anos nos Estados Unidos e foi l que eu descobri uma coisa interessante:os americanos inventaram o automvel mas esqueceram de inventar a garagem. Em Manhattan, corao de New York, que corao dos Estados Unidos, no adianta ter carro, porque no h onde o guardar. Os prdios super-novos esto construindo garagens nos 3 primeiros andares, mas nos antigos impossvel, porque se furar o cho para fazer uma, d no metr. E os prdios continuam sendo construdos sem quarto de empregada. Assim, primeira vista, parece um erro, mas no , porque l muito difcil algum ter empregada. As empregadas tm os latinos, acostumados a este luxo. Mas ser que luxo,mesmo? Os apartamentos americanos so mnimos, inteiramente diferentes dos daqui que, muitas vezes, tm quatro sutes, trs salas, trs quartos de empregada e seis vagas na garagem. Mas numa coisinha o negcio continua absurdo: o tamanho do quarto de empregada. Uma mulher que tenha um metro e setenta no pode tentar este emprego, a no ser que concorde em dormir em p. Cama, num quarto de empregada, o mximo que pode ter de tamanho um metro e sessenta e cinco. Ali, ento, voc coloca um armrio de uma porta e fim. No cabe mais nada. Janela, nem pensar. Basculante de uma folha e, vizinho, um banheiro que se a porta abrir para dentro no d para a empregada entrar. A porta abre para fora, ela entra e o seu banho tem que ser tomado sem que ela queira se dar ao luxo de virar de frente ou de costas para a gua que cai nela, no vaso, na pia de palmo e meio, na parede geral e na porta, alm da toalha, claro. Um dia, os engenheiros vo chegar concluso de que empregada domstica um ser humano e vo construir quartos e banheiros de servio pelo menos SUPORTVEIS. Estou falando deste assunto, porque uma empregada maravilhosa que eu havia encontrado, ontem foi embora. Achei que era por uma questo de salrio e lhe propus um aumento, mas ela recusou e me deu a explicao numa frase que achei muito interessante: -O problema o banheiro, Sr. Francisco. -Qual o problema ? -Quando tomo banho, o papel higinico fica encharcado, e papel higinico molhado, o senhor sabe: no serve para cumprir sua finalidade.

163. CHICO ANYSIO. Eu comecei cedo a trabalhar no rdio, num tempo em que eu ainda estudava e tinha, portanto, minhas obrigaes escolares a cumprir. Isto me obrigava a escrever seis programas semanais, alm de ser locutor, narrador, rdio-ator, enfim essas tantas, as minhas obrigaes, me impediam de inventar um tempo para ir ao Ministrio do Trabalho cuidar da minha carteira profissional. Por uns trs anos (primeira na Guanabara e depois j na Mayrink Veiga) eu consegui driblar o homem do Departamento do Pessoal, que vinha pelo menos duas vezes por semana com a mesma reclamao: - Anysio, sua carteira profissional. - Esta semana eu estou em provas, Sr. Varela, mas na prxima o senhor pode ficar descansado que Era uma poca em que ningum podia ficar descansado. A diminuio do dinheiro na Mayrink a obrigou a diminuir o elenco e, de uma hora para outra, eu escrevia treze programas semanais, atuava em todos e estudava. Um dia o Sr. Varela no agentou mais minhas transferncias e, sem briga ou aborrecimento, me deu o bilhete azul. Eram trs e quinze da tarde. s trs e meia eu j estava empregado. Ronaldo Lupo, com quem me encontrei no saguo, com um telefonema para o Sr. Arnaldo Pinto, no Recife, me colocou na Rdio Clube de Pernambuco, a gloriosa Pioneira da Avenida Cruz Cabug, no Recife. Era um contrato de trs anos e eu estava, numa tera-feira, escrevendo o meu programa de estria que aconteceria na sexta quando o Luiz Maranho, diretor do rdio-teatro, entrou na sala e me pediu para fazer um papel (uma pontinha de um captulo s) na novela Trs Vidas do Amaral Gurgel. - Est aqui o papel. No precisa nem ensaiar. Na hora o contra-regra vem lhe buscar. - OK. Eu fao. Era um monlogo, onde um homem contava a uma mulher, em pleno Times Square de New York, uma aventura que lhe acontecera. O contra-regra me chamou, eu fui e entrei no estdio onde no conhecia ningum e ningum me conhecia. Estava no intervalo comercial. Eu disse um algeral, em cumprimento e recebi de volta um gemido total. A cena abria com o meu monlogo, e a mulher para quem eu contava o caso era desse tipo de atriz que gostava de falar uma coisinha nos vazios. - Voc nem imagina o que me aconteceu. - Sim(Ela falou sem estar escrito). Ao perceber isto eu j fui deixando os brancos para os murmrios que ela adorava. At que cheguei ao final do monlogo: - devolvi a carteira a ele na casa dele e imagine que ele me deu, de presente, dois mil dlares ! E ela, pernambucana de Casa Forte, nordestina da gota, cachorra da mulesta, vivendo o papel de uma americana, em Times Square: - Arre, gua ! Sa do estdio mijado. Era o nico modo de segurar o riso.

164. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. A CASA DO OSCAR. A casa do Oscar era o sonho da famlia. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do prprio, havia a promessa de que um belo dia iramos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impacincia porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira. Senti-me trado, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o brao contra minha me e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: s volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginsio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquale casaro do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a So Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: l em casa tenho um canudo com a casa do Oscar. Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha msica sai boa, penso que parece msica do Tom Jobim. Msica do Tom, na minha cabea, a casa do Oscar.

165. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. ANDANDO COM TOM. Eu era um garoto que, como os outros, amava a Bossa Nova e o Tom Jobim. Queria ser um compositor igual ao Tom Jobim. No gostava mais das canes desesperadas. S queria aquela msica que era toda enxuta, porque derramada para dentro. Queria tocar piano igual ao Tom Jobim. Como nada me sasse direito, eu disse "este piano uma droga" e fugi de casa. Queria contar histrias igual ao Tom Jobim. Fui dar na casa de Tom Jobim em Ipanema. Aloysio de Oliveira me apresentou a ele e eu mostrei meu samba no violo. Tom olhou. Noutro dia, inventou um acorde para o meu samba, ficou repetindo o acorde dele e dizendo "voc um craque". Quando o Tom entra com um acorde dele, parece que abriram a janela. Foi para Nova Iorque, gravou com Sinatra e o pessoal disse "poxa". Voltou porque sentiu saudade dos chatos. Se mudou para o Leblon, mas continuou no bar de Ipanema. Me deu parceria, um pouco para se vingar de Vincius, que estava saindo muito com Baden e Edu. Nossa Sabi foi vaiada no Maracanzinho e ele chorou um pouquinho no tnel Rebouas. Me telefonou de Londres para Roma, preocupado com a poluio do ar. Desligou 50 minutos depois. Me acordou de madrugada porque se lembrou que a poluio no ar tambm coisa grave. Esteve comigo em Roma, mas no gostou da cerveja. De volta ao Rio, passeamos bastante. Bebemos usque no Antonio's, no Luna Bar, na sauna, no Caneco, depusemos juntos no Dops. Vi guas de Maro sendo rabiscada. s vezes, acho que o samba mais bonito do mundo. Me deu dois dicionrios de espanhol, um de ingls, me emprestou The wast land em italiano, me releu Drummond, me emprestou seu feiticeiro, me ensinou arquitetura. Gostava do meu pai. Me falou do seu pai e um dia me levou para a sua sesso de anlise, mas isso foi muito antes. Me ajudou a comprar um piano e me explicou que eu no levo jeito para pianista.

166. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. PASQUINO. O Departamento de Pesquisas decidiu inaugurar suas atividades em Roma rebuscando as origens remotas do PASQUIM. Seu generoso arquivo de amizade informara-lhe que a palavra pasquim deriva de Pasquino, personagem que habitou e abalou a Roma do Sculo XV. Partindo desse dado o Departamento passou a desemaranhar os livros e as ruas desta cidade para, aps cuidadoso e exaustivo exame, salvar de traas e runas o servio que segue abaixo. Mestre Pasquino teria sido o barbeiro predileto dos figures da corte e do clero. Corta daqui, apara dali, e a nobre clientela fofocando. Pasquino fazia-se de surdo e bobo, mas na manh seguinte os vcios dos ilustres j eram do conhecimento pblico. Outras verses sustentam que Pasquino foi um alfaiate ou, ainda, proprietrio dum restaurante. Uma ltima fonte classifica-o "literator seu magister Iudi (vide Carmina qua ad Pasquillum fuerunt posita in anno MCCCCCIX)", coisa que o Departamento de Pesquisa no pode constatar por absoluta ignorncia do latim. De um modo geral, porm, as indicaes coincidem na imagem dum Pasquino intimamente ligado classe dominante, da qual gozava os melhores favores e publicava os piores segredos. O privilgio da informao direta e o talento para o verso satrico valeram-lhe uma reputao que lhe sobreviveu. Ainda depois de morto, Pasquino continuou a desacatar autoridades atravs de manifestos pendurados numa esttua de origem obscura. Escondidos sob o prestgio e o estilo do mestre, seus "secretrios" compuseram clebres pasquinadas, muitas delas impublicveis, que atacaram desde os papas do renascimento at os lderes do fascismo. Com o tempo, Pasquino ficou sendo nome da esttua que servia de mural s pasquinadas. E esse monummento, que na verdade ningum sabe o que representa, acabou por superar a reputao do mestre. Tanto que, em 1500 e tantos, o Papa Adriano VI, ficou fulo da vida e resolveu destruir a esttua, ordenando que se a mutilasse e atirasse no Tibre. Torquato Tasso, com muita sabedoria, dissuadiu o Papa afirmando que, mesmo no fundo do rio, Pasquino contaria com a voz das rs para espalhar o vituprio. Como testemunha da Histria e das lendas, sobra apenas um rosto desfigurado sobre um tronco de mrmore corrodo. Trata-se da outrora implacvel esttua de Pasquino, encostada discretamente na pequenina praa do mesmo nome. Ultimamente Pasquino tem andado quieto, protegido ou censurado por uma cerca de um guarda civil. Entretanto, graas fotografia de Arajo Netto e ousadia dum alpinista eventual, o Departamento de Pesquisa conseguiu reanimar a velha esttua em verso tropical. Desafiando a polcia, eis o fruto da temvel pasquinada: um papagaio de Copacabana, uma aluso ao rato televisivo, um exemplar do Pasquim e o boneco Fio travestido em tricolor.

167. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. PRIMEIRO ANIVERSRIO. Outro dia completei um ano de Roma. Triste aniversrio, um frio de co. A cidade chuvosa e sem assunto, igual a quando cheguei e com um Vincius a menos. Os amigos italianos s pensam em San Remo. Glauber Rocha, que, felizmente, nada tem com San Remo, est montando um leo de sete cabeas que no quero incomodar. Os jornais tm omitido os fatos brasileiros, com exceo do milsimo gol, e do Apolo 12. Enfim, a gente acaba aqui isolado, apavorado com a idia de virar estrangeiro. Nisso aparece Jorge Ben e o Trio Mocot, vindo do "Midem" de Cannes e j de sada para So Paulo. o tempo de jantarmos juntos, o que me d muita alegria, apesar de Nereu Mocot misturar gua com acar no vinho italiano. Jorge Ben, que eu praticamente s conhecia de samba, a cara de seus sambas. Pertence a outro mundo, outro critrio. S ele tem direito a cantar uma mulher de nome Domingas. Pode dizer tranqilamente que " olmpica a sua beleza" ou que "sambaby, eu sou um menino de mentalidade mediana". Pode at, imaginem s, afirmar que Flamengo sem arriscar vexame. Um conhecido meu andou tentando julgar friamente os versos de "Domingas", "Pas tropical", "Crioula", "Silva Lenheira", etc. Isso de julgar samba friamente como extrair raiz quadrada com excessivo calor humano, quase sempre d errado. Mas Jorge e seus Mocots partiram depressa sem explicar direito como foi o negcio l em Cannes, no festival do "Midem". Agora c est o jornal italiano que no me deixa nem exagerar. "O Pranto de Jorge Ben" a manchete. "No sempre que a gente v - diz o jornal - um grande negro de calas escarlates chorar to desconsoladamente como chorava esta noite o cantor brasileiro. Seus prprios acompanhantes pareciam preocupados, embora continuassem sorrindo ao pblico para tranqiliz-lo. Jorge Ben chorava sobretudo com o nariz que se lhe dilatou e inchou..." e vai por a afora. O enorme sucesso de sua msica, para o jornalista europeu, de menos, estava previsto. Indita a sinceridade, a ingenuidade de Jorge chorando, enquanto sua cotao subia tantos pontos e seu nome era cogitado, cochichado, pechinchado, revendido e valorizado no mercado internacional do disco. O que parece melanclico, mas timo, de morrer de rir. de mand o pl peg o tutu, compr outro fu, machuc as esc e belisc o mocot das cri do pa-tro-pi. Mudando de pato pra ganso, deixa dizer que recebi do Brasil um caderno escolar da "Coleo Pra Frente" com minha fotografia sorridente na capa. At muito bem. Aproveito inclusive para agradecer ao layouter que teve a delicadeza de me limpar a nicotina dos dentes. O diabo a contracapa, onde resolveram imprimir e atribuir a meu nome uma espcie de poema intitulado "Jovem estudante". A honestidade profissional obriga-me a confessar que no sou autor de tal obra. Eu no poderia, no seria capaz. Portanto, peo desculpas ao jovem estudante, mas nunca me passou pela cabea exort-lo a "amar at mesmo os sonhos, acordado", ou a "nutrir na alma uma vontade enorme de vencer". Peo, enfim, o perdo do poeta, o autor verdadeiro, que to humildemente sacrificou seu nome em meu favor.

168. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. BRASILEIROS EM ROMA. Jornalista Arajo Netto garante que Roma a cidade mais bonita do Brasil. No sei no, ser? Vejo Rio, Bahia, Ouro Preto e no encontro termos de comparao. Vamos l que seja Roma a cidade brasileira onde se ouve o melhor samba de rua, exceo feita ao carnaval carioca. Em nenhum outro lugar, em nenhum outro agosto, voc pode assistir a um bom sambinha grtis como o que Toquinho, ao violo, e Gluber Rocha, caixinha de fsforos, balanaram na Piazza Santa Maria in Trastevere. Juntou tanta gente que a polcia interveio, desconfiada de maconhas e mulheres nuas que ali no havia. E a cantoria seguiu at o dia seguinte. Por outro lado, pelos Alpes, vinha chegando Antnio Carlos Jobim. Mais descia no mapa e mais o desnorteava a familiaridade crescente, na paisagem, nos homens. O trem fazendo mais barulho, o calor, o milho vadio invadindo os trilhos, a gravata arreada do cobrador de passaporte, a senhora gorda ocupando o lugar errado, enfim Roma, o chofer de txi falastro, a minha casa, a feijoada, e uma batida de limo. Espiando pela janela, Tom olhou bem no capinzal do terreno baldio: - Pois , Chiquinho, e eu certo que voc tinha deixado Brasil. - Que nada, Antnio, continuo por aqui. Vamos jantar no Moro, sede da melhor mais legtima cozinha romana. No restaurante para turista, lgico. S tem brasileiro. Entre outras vantagens, no Moro voc pode pendurar a conta no cabide a em frente. - Que bom que voc veio, diz Odette Lara a Tom Jobim. Assim eu aproveito e fao a entrevista que O PASQUIM me pediu. - Como? - Sou correspondente d'O PASQUIM em Roma, diz Odette. Muito ofendido, este reprter vai protestar mas interrompido. Juca Chaves, que est noutra mesa, Maristella Denner, mete o nariz na conversa: - Diga a O PASQUIM que eu no disse nada do que disse contra eles. - O Carlinhos de Oliveira que est do contra, diz uma terceira mesa lendo O Jornal do Brasil. A todas as mesas comeam a falar ao mesmo tempo, na maior animao. S quem parece triste o Grande Otelo, por causa de seu enorme sucesso em Veneza: - Estou com 54 anos, que vantagem... - O poeta um ressentido, diz Tom Jobim. No gosto de entrevista porque vivo citando o Drummond, e cito certinho, depois vem aqule copy-desk e resolve corrigir. Ento fica feio, sabe como , e o Drummond vai acabar com raiva de eu ficar errando os versos dele por a. Carlos Leonam aparece na porta e pergunta por Hugo Carvana, mas este j se mandou na Ponte Area para o Rio. - Senta a que ele no deve demorar. Cac Diegues est muito satisfeito com a acolhida de Os Herdeiros no recente festival de cinema: - mas preciso vender o filme em Paris. Aqui difcil, o mercado limitado. Nara Leo acompanha o marido na viagem e na satisfao: - O filme foi muito bem recebido. Pena ter cado no mesmo dia do Fellini. O Fellini fez a maior onda, mil promoes, essas coisas de brasileiro. Brasileiros continuam entrando e saindo pelo ladro. -Oi, bicho. Oi, meu querido. Como vai essa fora? genial! Aqule abraco. Caio Mouro distribui amuletos s senhoras e explica: - So chifres. Ponha os chifres de molho at amarelar e assim eles ficam com cara de chifre velho. -Conversa vai, conversa vem, o tempo passa e fecha o restaurante. L fora bate o primeiro ventinho frio e o grupo vai-se dissolvendo. Amanh vai esfriar de verdade. A gente vai usar sapato pesado, palet pesado, sobretudo, luva de l. Ningum vai falar portugus, muito menos cantar samba na praa. claro, que bobagem, o Brasil fica longe pra burro, cada vez mais longe. - Vamos tomar ltima no bar que fecha tarde? - Que nada, bicho, deixa eu puxar um ronco que no sou leo.

169. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. NOSSOS CRAQUES SO TODOS MAIS ARTISTAS. PARIS Sou veterano em Copas. Posso dizer que assisti no Pacaembu a um Brasil e Sua pelo Mundial de 50, embora mal me lembre do jogo. Na verdade, s me lembro do uniforme dos suos, a camisa vermelha com a cruz branca no peito, e quando eles entraram em campo pensei que fossem os salva-vidas. Talvez eu fizesse pouco da partida por causa do Pacaembu, que j estava enjoado de ver aos 6 anos de idade. E a vedete daquele Mundial no era Zizinho ou Ademir, mas o Maracan recm-concludo, o maior estdio do mundo. Fora o Rio Amazonas, era a primeira coisa maior do mundo que faziam no Brasil, e a molecada enchia a boca para falar "Maracan". De modo que a verdadeira Copa, para quem morava em So Paulo, chegava pelas ondas da Rdio Panamericana. Mais que o locutor, era o eco do Maracan quem narrava o jogo. O estdio fazia "", e era jogada de efeito. Fazia "", bola raspando a trave. Fazia "hhhhhhhhhhhhhhh", Brasil de novo no ataque. Gol, e o Maracan explodia, e a gente cantava as Touradas de Madri pulando na cama. No dia em que perdemos a taa para o Uruguai, claro que desliguei o rdio e taquei a culpa no Maracan. Eu tinha razo. Batendo o recorde mundial de pblico, e portanto cheio de si, o Maracan no via motivo para se preocupar com a seleo brasileira. A seleo, por sua vez, qualquer um sabe que estava nas mos do Maracan. E quando os jogadores mais precisaram do Maracan, o Maracan emudeceu. Quer dizer, a estdio de futebol no se pode dar confiana, lio que calou fundo em nossos atletas a partir de 50. Anos a fio, se eram recebidos com fanfarra e foguetrio, fechavam a cara. Alinhavam-se para as fotos, cinco agachados e sete em p, contando o massagista gordo, mas dava para notar que posavam de m vontade, olhando cada qual para um lado, e todos para lugar nenhum. Bola rolando, seguiam alheios torcida, que se esgoelava, e quanto mais alheios seguiam, mais se esgoelava a torcida. A turba fazia "", "", "hhhhhhhh", e nossos heris viravam as costas. Na hora do gol, a sim, comemoravam. Mas comemoravam entre si, com efuso, com estardalhao, com pirmides humanas, com mos nas bundas, que era mesmo para tripudiar sobre o adversrio. E o grande adversrio, evidentemente, era o estdio de futebol. Com o tempo veio uma espcie de anistia, prescreveu a culpa do Maracan, e as novas geraes no guardavam ressentimentos. Quebrou-se o gelo, ou aquilo que em teatro se chama a quarta parede, separando atores de platia. A parede de vidro, suspeito agora que foi o Pel quem a espatifou a socos, no gesto que aos nossos olhos desentendidos parecia solto no ar. E a impulso com que Pel celebrava o gol chegava a superar aquela, j extraordinria, com que subira para cabecear. Era como se, na celebrao do gol, o homem saltasse de dentro do atleta. No s com a alegria, mas sobretudo com o orgulho que fez falta a Garrincha, Pel impunha-se ao estdio, antes mesmo que o estdio o aclamasse. Ou coroava a si prprio, como Napoleo ao deixar o Pala de mos abanando. O ltimo centroavante introvertido que vi jogar chamava-se Oxmoro. Jogava no Bonsucesso e retirou-se com a chegada da televiso, para quem o artista importa mais que a sua arte. Hoje, num espetculo que prescinde da bola, muitos artilheiros j excedem Pel, pois at gol de pnalti festejam com saltos mortais. E correm para as arquibancadas, danam para as arquibancadas, trepam no alambrado e querem abraar o pblico, ou se imolar por ele. Consciente de seu papel, a platia em peso tambm no tarda a se levantar, levando os braos ao cu numa formidvel onda, ou ola. E durante aquele minuto em que as cmeras do a volta completa do estdio, fica evidente que os povos so fraternos, que a humanidade generosa e tudo mais. Ou nos enganamos redondamente, e o jogo l embaixo que est um tdio. A seleo brasileira conta nesta Copa com o estmulo de sua imensa torcida e o crdito dos expertos internacionais, apesar de tudo. Mesmo entre os donos da casa, deu numa pesquisa que ela tem 80% das simpatias, e no sempre que se encontra um francs 80% simptico. Pela qualidade de seu elenco, possvel que o Brasil chegue final no Stade de France recm-concludo, o mais elegante coliseu do mundo. Ostentando-se em tarde de gala para um bilho de telespectadores, o estdio estar inchado. Mas nem assim h de inibir os nossos craques. No que eles recordem a lio do Maraca, ou tenham mais arte que Zizinho e Ademir. Mas porque agora, sem dvida, so todos mais artistas.

170. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. UM LUGAR AO SOL. Chico conta a longa luta de um brasileiro em Capri querendo um lugar ao sol. O vosso correspondente em Roma no se encontra em Roma. Em Roma no h ningum. Fugiram todos praia em gozo de sol e frias. Sigo a multido com minha tenda, meu trapzio e meus lees. Essa a vida de artista, correr aonde est o pblico para poder fingir que o pblico a nos correr atrs. Dia desse baixei em Capri, que segundo o cicerone, ostenta as praias mais lindas do mundo depois do Rio de Janeiro. Comovido, agradeci, dobrei a gorjeta e fui conferir. Realmente o azul do mar, com as rochas brancas e a mata cheirosa, um espetculo nico. Mas ir praia, a que so elas. Convenci-me de que brasileiro no sabe tomar banho de mar, e olha que tive o maior empenho em aprender. - Paga-se a entrada!! Pois no. Paga-se o vestirio? Pois no. O mictrio tambm? No tem problema. Entrada, vestirio, mictrio, guarda-sol, cadeira, bia, desci praia cheio de tickets e privilgios. Irrepreensvel, pensei. Agora que descobri os macetes s deitar na areia, comprar um chica-bom e pensar besteira, igual a Copacabana. Mas qual no foi minha surpresa quando cheguei areia (pedregulhos) e a encontrei literalmente repleta de cabeas, pernas, barrigas e bumbuns. Tentei abrir caminho, pedi um passinho frente, por favor, disse que ia saltar no prximo ponto, mas os corpos estavam surdo-moles no mormao. Recuei alguns metros, pisei nas partes duma senhora e subi os degraus de volta. L em cima, sobre o cimento, havia um colcho de ar jogado toa. Deitei e ameacei um cochilo mas o bilheteiro balnerio veio perguntar em ingls se eu era da famlia americana. minha primeira pronncia ficou evidente que eu no era no de to boa famlia, diante do que fui convidado a me retirar do colcho esplndido. Nisso me revoltei bradando que queria um lugar ao sol, queria um lugar ao sol, frase que aprendi nos bastidores da televiso. Na minha terra, insisti, a praia do povo como o cu do condor. - Mas aqui o colcho dos americanos - disse o bilheteiro friamente. Eu no ia discutir, ainda mais que os americanos tinham acabado de invadir a lua, uns dias antes. Eu no ia discutir por causa dum colcho de ar. No discuti mas fiquei com aquilo atravessado na garganta, por isso fui at o bar para engolir melhor. Uma droga dum colcho de ar. Sentei no bar e fiquei vendo os americanos prostrados ao sol. Pareciam cada vez mais bonitos, saudveis, bronzeados, e eu muito cinzento e verde. Assim passavam-se as horas e nada de vagar um s buraquinho. Pelo contrrio, chegavam sempre novos banhistas, desses gordos, sem ossos, gelatinas. Iam falando please e acabavam se encaixando. O aglomerado j formava uma massa to comprimida que dali a pouco, com mais um aperto, dava a impresso que uns e outros iam estourar para o alto que nem pipoca. E quando algum se levantava, deixava sempre um chapu para garantir a vaga. s cinco e meia resolvi desistir, mas a abriram um primeiro espao. Saiu um, saram dois, sa eu e corri a reservar meus pedregulhos. Sobrou uma cadeira, tomei conta. Apossei-me duma bola, dum colcho, dum guarda-sol, tudo junto. Afinal eu tinha os tickets, estava no meu direito. S achei estranho aquele xodo assim precipitado, pois em pouco minutos eu estava sozinho na praia. Engraado, porque americano no de abandonar um bom lugar sem mais nem menos. Que diabo, se eles foram embora porque algo de ruim vem por a. Pensei em chuva, tempestade, tubaro, mas nada. S os bilheteiros que estavam recolhendo tudo, o bar que estava fechando, o ltimo nibus que estava partindo e eu que estava sendo expulso. Expulso no bem a palavra, no exata. Mas ficam aqueles garons resmungando e olhando para a sua cara. E vem aquele empregado mandando voc erguer os ps, os dois ao mesmo tempo, para passar o escovo debaixo. Como boteco de portugus meia-noite. Que isso, perguntei, vai fechar a praia? Pois claro, disse o empregado, s seis horas ns fechamos tudo. E continuou a esfregar sabo na praia. No era o caso de contestar a organizao l dles, mas confesso que fiquei perturbado. Ainda mais quando, ao deixar o local, olhei para o mar e vi o que vi. Alis, no sei se vi mesmo, difcil acreditar. Vai ver que o sol me batera na cabea de mau jeito. Ou ento fora o gin, sei l, gin uma bebida desleal. No posso jurar nem peo que me creiam, mas o que vi foi o seguinte: o mar esvaziando, esvaziando, os barcos acomodando-se entre as pedras e o Mediterrneo sendo chupado pelo ralo, dando lugar a magnficas auto-estradas, caminhes, ferrovias, semforos, supermercados, perdendo-se de vista no horizonte.

171. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. AT A PRXIMA. Entro num bar repleto de franceses e j comeo a cantar seus hinos, sem saber se estou torcendo pela Frana ou contra os croatas. Defronte da tela gigante os franceses cantam, cantam muito, improvisam refres a todo momento, do vivas e bravos sempre que o goleiro bate o tiro de meta. divertido, como se eu visse o jogo em qualquer cidade do Brasil, num bar feminino. Aqui na Frana muita gente acaba de descobrir o futebol, a exemplo de tantas brasileiras que, na copa do mundo, sofrem algum tipo de desordem no seu metabolismo. De um dia para outro essas mulheres mudam de figurino, de penteado, de temperatura, almoam em p, falam dormindo, de madrugada pronunciam nomes de homens misteriosos, tipo Zinedine Zidane. Devo dizer que assistem s partidas com sincera aplicao, disparando vez por outra observaes bastante originais, que jamais ocorreriam a um comentarista graduado. Agora, naquele bar, os franceses festejam o terceiro gol, de Zinedine Zidane, que eu francamente no havia percebido. Passa o replay, um belo lance, mas a bola bate na rede pelo lado de fora. Era o que eu tentava argumentar, quando fui expulso. A festa toma as ruas, e os refres j anunciam o Brasil como a prxima vtima. Busco asilo em restaurante italiano, onde a derrota para a Frana, dez dias atrs, ainda prato quente. Brasiliano? A casa, que j estava fechando as portas, num instante se reacende feito casa de jogos clandestina. "Mozzarella in carrozza, carcioffi alla giudia...", declama o garom, porque nessas cantinas dispensam o menu, sendo os pratos italianos to saborosos aos ouvidos. "Cafu"!", intervm o ajudante de garom, que logo rabisca na minha toalha uma estratgia, de sua autoria, para o nosso lateral chegar linha de fundo e espaventar os franceses. romanista, justifica um terceiro, torcedor do Milan e f do Leonardo, que deve investir em velocidade pelo centro do ataque. Desta vez o patro quem sai de seus cuidados, abandona a caixa registradora e pe-se a recitar: "spaghetti alla puttanesca, pesce all'acqua pazza...". um velho juventino, e j sentado minha mesa, depois de um gole de grappa confessa sua admirao por Zinedine Zidane. Turim, Milo, Roma, Parma, Gnova, h franceses jogando em cada uma dessas cidades, e os italianos so, antes de tudo, fanticos por seus clubes. A Itlia que Garibaldi unificou, lamenta o patro, o futebol parte em pedaos. Neste domingo, porm, ele, os garons, a torcida do Juventus, a Itlia inteira estar com o Brasil. Para se vingar da Frana, suponho. No, senhor, em homenagem a Ronaldinho. o cozinheiro calabrs quem traz pessoalmente o tiramis e o resumo da pera: "Ronaldo amato da tutti". Ronaldinho anda lento, gordo, ganhando muito dinheiro, assim falava um brasileiro nos arredores do Veldromo de Marselha, para quem quisesse ou no quisesse ouvir. Passou por mim, a obesa criatura, e tinha o nome Ronaldo impresso nas costas da camisa estufada, com o nmero 9 to largo, que mais parecia um zepelim. Coisa de brasileiro? No, nem tudo coisa de brasileiro. Para a turma do bar, a Frana s tem retaguarda. Para a turma da cantina, a Itlia tem medo de vencer. Falta harmonia, diz a Holanda a respeito da prpria seleo. A Nigria badulaque s, diz a Nigria. A Alemanha est velha, diz a Alemanha. A copa do mundo s vezes lembra um concurso de misses, com mes desnaturadas na platia. E aos olhos das mes alheias, o futebol do Brasil continua sendo o mais bonito, o mais alegre, o mais espetacular, essas coisas que nos habituamos a ouvir em lngua estrangeira. Mesmo quando no est em seus melhores dias, padece de um mal passageiro, uma miss resfriada, porque ao Brasil tudo se perdoa, exceto que no jogue como joga o Brasil. Apontam ainda em nossa equipe virtudes que, por conhec-la de muito perto, no enxergamos. Um pouco como, em famlia, se demora a admitir que a filha adolescente criou corpo. E eu aqui, na vspera da deciso, com esse nome absurdo na cabea, Zinedine Zidane. Bobagem. A Frana tem um nico craque capaz de nos preocupar, quando for aclamado pelo estdio em coro. Chama-se A Marselhesa, e naqueles minutos os brasileiros podem vacilar, morder a lngua, ou cantar junto. Segunda-feira, seja quem for o campeo do mundo, as mulheres acordaro meio enjoadas. Tera feira, nos bares, os franceses diro "uff" e "bof". E o Brasil? Na quarta-feira, querida, o Brasil desaparecer do mapa-mndi, e durante quatro anos quedar submerso, para ressurgir glorioso na copa do Japo. No um pas srio, teria dito o general francs. Houve desmentidos, houve indignao, no sei por qu. O Brasil talvez seja isso mesmo, um pas que impe respeito, quando brinca.

172. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. COM OS MEUS BOTES. Tosto me perguntou meses atrs, aqui mesmo em Paris, se o futebol do Denilson lembrava o Canhoteiro (ponta-esquerda do So Paulo que s eu vi jogar, na dcada de 50). Vinda de quem vinha, aquela pergunta me paralisou. Fiquei postado na praa, sem raciocnio, olhando para o Tosto. Se bem que, quando topamos um craque de bola no meio da rua, vestido paisana, andando como a gente anda, falando como a gente fala, ns, amadores, sempre nos atrapalhamos. Viramos idiotas. Certa vez fui apresentado a um antigo centromdio do Santos, o Formiga. Depois de um breve dilogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encar-lo. O silncio se prolongava, incmodo, e ainda encasquetei de colocar a mo no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavcula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. Ento me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um boto. Formiga tinha sido um dos meus melhores botes, apesar de meio oval, um boto de galalite, vermelho. Na minha mesa, Tosto no chegou a ser boto. Eu j era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridculo fazer boto de um jogador mais novo que voc. Botes, para a garotada daquele tempo, eram venerados como cones, beijados, polidos com flanela, concentrados em caixa de charuto e inegociveis. Pois bem, vi o Tosto deslizar nos gramados e, sem querer desmerec-lo, era mesmo um homem com braos e pernas. Nem por isso h de nascer um centroavante que se lhe compare, como nunca haver ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro que s eu vi jogar. Desde j discordo de quem, concordando comigo, sustenta que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrrio de ns mortais, que ramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado so ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas na permanente edio da nossa memria vo produzindo novos lances memorveis. Posso v-los sempre de uniforme, uniformes diferentes uns dos outros, num vestirio com o teto cheio de chuteiras penduradas. Renem-se em torno do tcnico, ouvem a preleo em silncio, mas no prestam muita ateno. Dispensam alongamentos, entram em campo e j comeam a jogar. No do entrevistas. No fazem cera, no atrasam a bola, no cobram lateral, no ficam na barreira, faz cada qual o que lhe d na telha. E no entanto exibem um belo conjunto, mantendo-se invictos h anos e anos, mesmo porque contra eles no h quem se atreva a jogar. Me vendo de boca aberta, naquela tarde gelada, o Tosto no fazia idia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabea. "Ele te lembra o Canhoteiro?", perguntava o Tosto, e de cinco em cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo, enquanto vejo o Brasil jogar no Stade de France, sem Denilson. H o grande Rivaldo, seu estilo de ema, h o nosso Ronaldinho, de quem tudo o que se diz no basta, e h um oco. Sim, a ausncia do Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa Zagallo usurpou na Copa de 58, privando o planeta de ver o que s eu via. Estamos no segundo tempo, Brasil e Esccia um a um, e j me pergunto se, barrando o Denilson, Zagallo no pretende barrar o Canhoteiro de novo, 40 anos depois. Maldade minha, claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola rente lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e toca para o meio, de calcanhar. A jogada foi bem em frente minha cadeira, permitindo-me ver at o branco dos olhos do Denilson, e no direi o que se passou naquele instante com a fisionomia dele. No direi de quem era a figura que vi num relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu prprio acredito nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses tambm viram, e ali se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que tm, e bateram cabeas entre si e fizeram um gol contra. um garoto, o Denilson, e imagino o que ser seu futebol daqui a mais ou menos 30 anos, quando estarei abarrotado de memrias. Seu drible na corrida, calculo que possa chegar a algo como a velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais do Canhoteiro. Babando de antemo, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupi-la do bico do p do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem toc-la, talvez com um assobio - ele tem boca de assobiador. Verei o molejo dele, tranando as pernas diante do prximo adversrio, e, de repente hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo quando o corpo tem presena de esprito. Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor boto. De tampa de relgio, acho. Babando de antemo, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupi-la do p do beque.

173. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. GRITOS E SUSURROS. Em apartamento perto da Bastilha, brasileiros se renem neste sbado para ver Brasil e Chile pela televiso, com feijo preto, caipirinha e tudo. Aposto que durante o primeiro tempo haver vastas emoes, urros, sobressaltos no sof, cerveja no tapete, quem sabe algum rojo. J na etapa final, infelizmente, pesado silncio baixar na sala. Prevejo ranger de dentes diante do aparelho, com o prprio locutor bastante temeroso, contido, transmitindo a partida como se fosse um segredo. E se aos noventa minutos Denilson desbaratar a defesa chilena, centrando para Ronaldinho fazer um gol de letra, nossos convivas vo se entreolhar e sorrir. Um grito de gol, e da janela em frente viria a resposta de bate-pronto: "silence, merde!". Franceses no compreendem a que ponto um silncio pode incomodar o vizinho. Brasileiros, de sua parte, no compreendem um povo que pode se afeioar a caracis, bem mais que a um jogo de bola. A partir das dez da noite, mesmo que o gol seja francs, e de bicicleta, em prdios residenciais a lei do silncio absoluta. Durante a copa do mundo, porm, pelo menos ali nos baixos da Bastilha, essa lei relativamente absurda, porque a paz que emana das janelas retorna janela adentro em forma de buzinas, cornetas, tambores e gaitas de fole. A vida noturna de Paris pertence s torcidas triunfantes e aos escoceses, que continuam comemorando a sua desclassificao. Com ou sem futebol, v l, um estrangeiro incomoda muita gente. No me refiro ao imigrante que pega o servio boal nos subterrneos, e que por instinto de defesa mudo. Penso no viajante que, nem bem atravessa a alfndega, adquire um volume de voz acima do que tinha, como se aqui tambm trocassem vozes em casa de cmbio. E toma o txi satisfeito com sua voz convertida, ciente de que falando alto todo mundo se entende. Dois estrangeiros, trs estrangeiros, dez estrangeiros, patrcios que se esbarram casualmente no bulevar, e a festa j principia num idioma agudo: "voc por aqui?" Encontros de viagem se assemelham nisso aos sonhos, porque colocam rostos familiares em lugar improvvel. Da os abraos, o se apalpar uns aos outros, mesmo entre quem nunca teve intimidade, e as gargalhadas quase histricas, todos falando ao mesmo tempo, as perguntas que no esperam resposta, as extensas respostas sem pergunta. Do ponto de vista do habitante da cidade, esse sonho se inverte e mais perturbador, pois seu espao domstico que se v ocupado por visitas imprevistas. Um hooligan na banheira, eis um pesadelo capaz de atormentar o sono de damas parisienses, nestas noites de vero. Mas os hooligans ainda no chegaram, e Paris, bem ou mal, recebe milhes de turistas todo ano. Por isso j no se abala com seus restaurantes apinhados, croatas bebendo no balco, blgaros berrando em dialeto blgaro. A ningum mais espanta que, lado a lado com uma japonesa em trajes de alta costura, sente-se um dinamarqus de tnis, meio, calo e camisa com nmero nas costas. Um mexicano de sombreiro, em restaurante de queijos e vinhos, se pedir uma coca-cola no ser mais deportado. O fato que tenho visto de tudo nesta terra, menos o mau humor do francs. Percebo, isso sim, que Paris est muito ofendida. Porque Paris foi feita para ser olhada, necessita ser olhada, no pode passar sem, um vcio. Mesmo o exrcito de ocupao, quando entrou com seus tanques em Paris, rendeu-se a ela. Tanto se apegou a ela, o alemo, que ao perd-la por pouco no a explodiu. E hoje, pela primeira vez em sculos de histria, a cidade invadida por forasteiros que no lhe prestam a menor ateno. Em algum momento Paris deve se perguntar, estarei gorda? Os forasteiros nem sequer andam nela, ela que foi feita para ser andada. Os forasteiros se estabelecem nos bares e ficam olhando para o futebol na telinha. Desdenham seus jardins, seus museus, seus palcios, suas pontes, instalam-se nas praas, de costas para os monumentos, e ficam vendo o futebol no telo. No fundo, eu s vezes tambm acho que copa do mundo em Paris um contra-senso, como um congresso de cegos em Granada, ou no topo do Po de Acar. Bebi um conhaque, e agora sou tomado de carinho por esta cidade. A noite propcia para uma caminhada, tendo cessado a chuva. Brilham as pedras do calamento antigo, pedras arredondadas tipo p-de-moleque, o que me traz sbito desejo de sapatear. Sapateio e, sinceramente, consigo tirar um belo som, que repercute na rua estreita. Vejo ento uma janela que se abre, vejo surgir a cabea de uma senhora de touca, sua cara nada boa, posso ver sua garganta, j sei o que ela vai gritar, mas dobro a esquina e aperto o passo. Atravesso o Sena, deso as Tulherias, deslizo p ante p por ruas cheias de glria, de placas, de luto. Aqui nasceu Voltaire, aqui viveu Victor Hugo, Czanne pintava nesta casa, Debussy morreu aqui, e l vou eu mais orgulhoso que Paris, pensando em Nilton Santos, Zizinho, Pago, pensando em Castilho, Pndaro e Pinheiro.

174. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. COM REVERNCIA, CHICO BUARQUE REVELA OS BASTIDORES DE UMA PARCERIA MUSICAL. Essa carta revela, de modo luminoso, os bastidores de uma importante parceria musical. Valsinha, msica de Chico Buarque e Vinicius, tem um parto difcil. Chico, filho do historiador Srgio Buarque de Hollanda, um amigo do poeta, trata Vinicius com reverncia. Sabe o que pensa e o que deseja, conhece as vastas diferenas entre ambos, mas desfia seus argumentos com firmeza, sem descuidar da suavidade. Os dois constroem um currculo de canes famosas como o Samba de Orly - composta a seis mos com Toquinho - e Gente Humilde - letra a quatros mos,sobre uma melodia de Garoto. E constroem, sobretudo, uma amizade erguida sobre o afeto e sobre o susto. Rio, 2 de fevereiro (sem o ano). "Caro Poeta, Recebi as suas cartas e fiquei meio embananado. que eu j estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Tambm porque, como voc j sabe, o pblico tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela o ponto alto do show, junto com o Apesar de Voc. Ento d um certo medo de mudar demais. Enfim, a msica sua e a discusso continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinio. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gessy, e se no gostar L. se, ou f..me eu. - Valsa Hippie um ttulo forte. bonito, mas pode parecer forao de barra, com tudo o que h de hippie venda por a. Valsa Hippie, ligado filosofia hippie como voc o ligou, um ttulo perfeito. Mas hippie, para o grande pblico, j deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. A j no tem nada a ver. Pela mesma razo eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A soluo mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que poesia. bancrio e est com o saco cheio e est sempre mandando sua mulher merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, no maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que dar um passeio e danar. Depois eu acho que, se ele j for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armrio e o teso da t... final. "pra seu grande espanto", voc tem razo, melhor que "pra seu espanto". S que eu esqueci que ia por itens. Vamos l: - Apesar do Orestes (vestido dourado lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. E gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira slaba. No chega a ser um acento, mas quase. Esse verso , alis, o que mais agrada, em geral. E eu tambm gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela no queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, poeta, no leve a mal a minha impertinncia, mas voc precisa estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim primeira vista. por isso que estou puxando a sardinha para o lado da minha letra, que mais simplria, do que pelas suas modificaes que, enriquecendo os versos, tambm dificultem um pouco a compreenso imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que ns no suspeitvamos. - Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraar ao bailar. Em suma, eu no mexeria na segunda estrofe. - A terceira que mais me preocupa. Voc est certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando estrofe anterior, gostei do ltimo verso onde voc diz "e cheio de ternura e graa" em vez de "e foram-se cheios de graa". Agora estou pensando em retomar uma idia anterior, quando eu pensava em coloc-los em estado de graa. Aproveitando a sua ternura, poderamos fazer "Em estado de ternura e graa foram para a praa e comearam a se abraar". S tem o probleminha da juno "em-estado", o em-e numa slaba s. Que o mesmo problema do comearam-a. Mas voc me disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "comearam a se abraar" sem maiores danos. Enfim, veja a o que voc acha de tudo isso, desculpe a encheo de saco e responda urgente. H um outro problema: o pessoal do MPB-4 est querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorizao e eles esto aqui esperando. Eu tambm gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, porque deu bolo como o Apesar de Voc, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. claro que no vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho solando Primavera. D um abrao na Gessy, um p... no Toquinho e pea Silvina para mandar notcias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja a e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que voc tiver mo.

175. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. O MOLEQUE E A BOLA. espera da Noruega, e estudando outros rivais com grficos e afinco, vi ustria x Chile, vi Itlia x Camares, depois vi mais uma partida cujo resultado no recordo, pois era um sonho e s me lembro do gramado azul. Acordo, almoo vendo a resenha da copa, vejo frica do Sul x Dinamarca, vejo Arbia Saudita x Frana, e na minha cabea as idias j comeam a carambolar. Porm, ainda que esses times jogassem com uniformes embaralhados, penso que no seria difcil distinguir o pas rico do pas pobre. Os pobres so os folgados, os esbanjadores, os exibicionistas, matam a bola no peito, a bola gruda ali que nem uma goma e o locutor francs faz ", bien jou, magnifique!". Ou, como diz o locutor brasileiro, eles tm intimidade com a bola. De fato controlam, protegem, escondem, carregam a bola para cima e para baixo, e em vez de intimidade, talvez tenham cimes dela. J os ricos so alunos de outra escola, uma escola prtica. Recebem a bola e um-dois, tocam, recebem, desprendem-se dela, no fazem questo dela, correm soltos por toda parte. Parecem conhecer e ocupar melhor o espao de jogo, podendo se dizer que tm intimidade com o campo. Assim, quando se enfrentam pases ricos e pases pobres - na Holanda eles se enfrentam dentro do mesmo time - esto se enfrentando os donos do campo e os donos da bola. Eram eles os donos da bola, marca Mac Gregor, quando sem refletir a desembarcaram na Amrica do Sul, um sculo atrs. No Rio, em So Paulo, em Buenos Aires, os ingleses detinham, alm de todas as bolas, o monoplio das chuteiras, das camisas listradas e dos campos de grama inglesa, como manda a regra, perfeitamente planos e horizontais. Em sensacionais torneios, com turno e returno, jogavam ento Inglaterra versus Inglaterra. Aos nativos, alm da liberdade de torcer por uma ou outra equipe, sobrava a alegria de catar e devolver as bolas, que j naquele tempo os britnicos catapultavam com freqncia. Em 1895, segundo a crnica paulistana, confrontavam-se Railway Team e Gas Team, quando huma pellota imprensada entre dous athletas subiu aos cus e foi cahir s mos de hum assistente. D'improviso, o cidado seqestrou a pellota. Metteu-a sob o brao e escafedeu-se no matagal, perseguido por dezenas de crioulos. Foi alcanado ao cabo de meia hora, s margens do rio Ypiranga. E celebrou-se alli, em terreno pedroso e cascalhudo, o primeiro jogo de bola entre brasileiros, com cincoenta actuantes e nenhum goalkeeper. Livremente inspirada no football association, a pelada a matriz do futebol sul-americano e, hoje em dia mais nitidamente, do africano. praticada, como se sabe, por moleques de ps descalos no meio da rua, em pirambeira, na linha de trem, dentro do nibus, no mangue, na areia fofa, em qualquer terreno pouco confivel. Em suma, pelada uma espcie de futebol que se joga apesar do cho. Nesse esporte descampado todas as linhas so imaginrias - ou flutuantes, como a linha da gua no futebol de praia - e o prprio gol coisa abstrata. O que conta mesmo a bola e o moleque, o moleque e a bola, e por bola pode se entender um coco, uma laranja ou um ovo, pois j vi fazerem embaixada com ovo. Da, quando o moleque encara uma bola de couro, mata a redonda no peito e faz a embaixada com um p nas costas. E quando ele corre de testa erguida no gramado liso feito um mrmore, com a passada de quem salta poas por instinto, uma elegncia. Mas se a bola de futebol pode ser considerada a sublimao do coco, ou a reabilitao do ovo, ou uma laranja em xtase, para o peladeiro o campo oficial s vezes no passa de um retngulo chato. Por isso mesmo, nas horas de folga, nossos profissionais correm atrs dos rachas e do futevlei, como o Garrincha largava as chuteiras no Maracan para bater bola em Pau Grande. a bola e o moleque, o moleque e a bola. No fim da tarde vejo entrar um bando de garotos, de seus dez, doze anos, num desses complexos esportivos que a prefeitura administra na periferia de Paris. No esto para brincadeiras. Chegaram todos paramentados, provavelmente de metr, e gastam quinze minutos correndo em crculos. H meninos muito, muito brancos, outros muito, muito pretos, e outros tantos bastante rabes. J se dispem em campo, no sistema trs-cinco-dois, antes mesmo do primeiro apito. Um marmanjo vestido de escoteiro autoriza a sada, e a bola rola correta na grama sinttica. Penso nas escolinhas de futebol como a do Zico, ou a do Rivelino, onde o Toquinho matriculou o filho. Alis, o Rivelino disse que o menino leva jeito, porque puxou me. Tento imaginar - e no consigo - que espcie de futebol ser o nosso, se um dia tivermos escolinhas para todos os moleques com o talento de um Pel, ou pelo menos com o da mulher do Toquinho. Distrado, quase perco o primeiro gol, assinalado pelo rabe da camisa 9. Mas posso descrev-lo: driblou dois na corrida, ficou cara a cara com o goleiro, fez que ia chutar, arrastou a bola com a sola do p direito, estatelou o goleiro, concluiu com um toque de canhota, abriu os braos e saiu cantando:"Ronald".

176. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. OS MELHORES MOMENTOS. Hospedou-se no Hotel Fraternit, perto da Estao do Norte. Quarto de dez metros quadrados, televiso vinte polegadas, pia, frigobar, banheiro no corredor, estava de bom tamanho. Dia dez de junho foi a Saint Denis, misturou-se aos brasileiros na porta do estdio, gritou "ah, eu t maluco", tomou o metr de volta e no Hino Nacional j estava sentado na ponta da cama, a janela escancarada. Vitria do Brasil, e ele ali respirando o clima da copa. To logo terminou o jogo ligou para Nan, mas caiu na secretria eletrnica. Nan odeia futebol. Chegou com dois mil dlares costurados por dentro da cala de moletom, que no tira do corpo. Na bagagem trouxe as cuecas, as meias, doze camisas amarelinhas e o terno xadrez para ocasies especiais. Descobriu a dois passos do hotel um bar chamado 44 e simpatizou com o garom tunisiano, pinta de cearense. Almoa ali todo dia por quarenta e quatro francos, gorjeta includa, prato completo, doce, caf expresso, tudo muito bom. Mas tambm no l dessas coisas que ouvia falar. D direito a um copo de beaujolais, que o que ele mais aprecia. "Vinho nacional!", fala, e o tunisiano ri muito, ri alm do necessrio, deve entender outra piada. Foi a Nantes, respirou o clima, gritou "ah, eu t maluco", viu a goleada num telo, voltou de madrugada no TGV, coisa de primeiro mundo. No bar repleto de brasileiros tocando corneta, bebeu vinte latas de cerveja com uma japonesa de Tup, meio barriguda porm meiga. Na chegada a Paris ela disse "foi um prazero", entrou num nibus com seu grupo, e era ele o nico brasileiro sem grupo. Voltou a p para o hotel, chegou s cinco da manh, meia-noite no Brasil, achou que era uma boa hora para pegar Nan em casa. Secretria eletrnica. De certa forma foi timo, porque ele estava assim eufrico e ela era capaz de nem saber quem jogava. A viagem Frana vapt-vupt, foi o que lhe disse no Galeo, porque esse timeco no passa da primeira fase, e Nan com voz mole respondeu "Deus te oua". Entre um jogo e outro, d tempo de ver o Louvre, Notre Dame, adquirir conhecimentos, mas com duas semanas no restam grandes atraes. Vitrines, passa longe, j tendo escolhido o perfume de Nan, um frasco tamanho famlia imitando a taa Jules Rimet. noite compra um sanduche de presunto e leva para comer na cama com o vinho, que encontra barato no supermercado. V a partida, qualquer partida, estuda a tabela, adormece assistindo a uns debates confusos, sonha com o matemtico Oswald de Souza, acorda de madrugada com a garganta seca e o aparelho chuviscando. A toma gua do frigobar, faz xixi na pia, torna a se deitar, apaga tudo. Custa a dormir porque tem pensamentos, e o quarto abafado, os farelos da baguete pinicam a pele. Mulher, at agora no rolou. Tambm verdade que no so dessas coisas que ouvia falar. A melhor que viu, na estao do metr, era morena e talvez fosse carioca, vista de costas at lembrava Nan. Aproximou-se, quis puxar algum assunto, tossiu, de repente falou "nasceu o beb da Xuxa", mas a moa nem piscou, continuou olhando os trilhos com cara de doida. Para ir a Marselha, o oramento andava curto. Viu a derrota da ponta da cama e achou mesmo que voltaria mais cedo para casa, pois aquele timeco no ganhava nem do Chile. O hindu que manda no hotel talvez pensasse a mesma coisa, e solicitou em pssimo espanhol que ele pagasse sem embargo a quinzena vencida. Esgarou o moletom ali na cara do hindu, sacou quinhentos dlares e quitou a conta. Era alta, por causa dos quinze telefonemas internacionais, e ele nem ao menos falava com Nan. Se bem que, s para deixar um beijo no corao e o telefone do hotel - que Nan pode ter perdido quinze vezes - tinha de ouvir umas msicas lentas que ela agora punha na mquina antes do bip. Jurou que nunca mais ligaria, mas no agenta quando Cesar Sampaio abre o placar contra os chilenos. Secretria. depois desse lance que, sem mais nem menos, d pane na televiso, a imagem rateia, fica impossvel ver o jogo. Muda de canal, e na tela s v Nan. D um cascudo no aparelho, arranca o fio da tomada e continua a ver Nan na tela, corada, exuberante como em seus melhores momentos. S que ela evolui num apartamento esquisito, e usa bon, usa short azul e camisa amarela, e grita que est maluca nos gols do Brasil. Na noite de sexta-feira despiu a camisa para o exerccio de torcer contra o Brasil, e era exatamente como se tivesse uma adaga enfiada entre as costelas. Porque a cada arrancada da seleo, sorria sem querer com o corpo inteiro, e se doa todo. Se era a Dinamarca que atacava, falava baixinho "d-lhe, Dina", e com isso a adaga se mexia ali dentro. Corria o segundo tempo, o jogo l e c, e ele j era um ser contorcido. Mas quando Rivaldo marcou o terceiro gol, saltou contra a vontade, deu um murro no teto, uivou, caiu prostrado na cama e pensou em Nan. Respirou fundo. Tomou um banho no fim do corredor e vestiu o terno xadrez. Saiu em direo a Pigalle, entrou numa boate chamada Les Chiens, pediu uma garrafa de champanhe em balde de gelo e convidou a garonete para um brinde. Superpintada, voz grave e sensual, peitos grandes, a saia que era um leno, quando cruzou as pernas parecia atriz americana, exceto pelos joelhos que eram de jogador de futebol. Entornou trs garrafas, deixou a espelunca chutando o balde, rodou pela cidade, voltou ao hotel dia claro. Sentiu culpa por ter feito mau juzo de Nan, telefonou para escutar os boleros e deixar um beijo no corao, mas foi Nan em pessoa quem atendeu, falou "viva o timeco", soltou uma gargalhada e desligou sem esperar explicao. "Al!, al!, al!", gritou, e o hindu da portaria respondeu "si?". Ento mandou chamar um txi para o aeroporto. Amontoou na mala as camisas imundas, as meias, as cuecas, o perfume de Nan, desceu as escadas, meteu as unhas no moletom, jogou os dlares na cara do hindu e saiu batendo a porta do Hotel Fraternit.

177. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. FRANCESCO DE ROMA. Tinha oito anos em fevereiro de 1953, quando desembarquei em Roma com minha me e tantos irmos. Meu pai j estava aqui h alguns meses, como professor de Estudos Brasileiros. Recordo-me de que era j noite funda quando entramos no palazzo (como os italianos chamam os antigos edifcios) da Via San Mariano, que papai nos tinha descrito nas suas cartas. Achei o apartamento um tanto grande demais, muito velho, muito escuro, muito mido. E tinha um problema com o aquecimento. Naquela noite, vestido com o capote, debaixo dos cobertores, fiquei imvel na cama, os olhos abertos. No dia seguinte, j tinha sol no jardim da casa e tudo era novidade. Tinha a pastaciutta, o copo de vinho, a Via Nomentana, Villa Torlonia, Porta Pia, o nibus pela Piazza Fiume, tinha o Cine Capranica, o Cine Capranichetta, tinha a Lollobrigida, tinha Pane, amore e fantasia. E eu corria em bicicleta pelo Viale Gorizia, brincava com novos amigos, aprendia belas palavras, como calcio di rigore (pnalti), rovesciatta (rebatida), Sampdoria (clube de Gnova), Sentimenti IV (goleiro do Juventus), e palavres que ensinava s minha irms. Minha me conhecia bastante bem o italiano, mas no os jogadores de futebol e palavres, e meu pai tinha um certo acento napolitano, porque imitava roberto Murolo ao cantar Anema e core. Papai tinha tambm uma professora de italiano, e eu me lembro bem do dia em que a apresentou famlia, mais ou menos com o mesmo orgulho com que tinha nos introduzido naquele palazzo frio, empoeirado e meio arruinado. A signorina, porm, era muito jovem, viosa, luminosa, a pele muito clara, os cabelos muito negros, os olhos enorme, e ao olh-la compreendi logo a palavra desiderio (desejo). Tinham me explicado que a Itlia era um pas pobre, apenas sado de uma guerra atroz. No nos faziam estudar numa escola italiana porque o ensino no era satisfatrio, assim diziam. Fomos matriculados na Notre Dame International School, e eu pensava sempre no meu pai que, vindo de to longe, talvez no fosse um professor satisfatrio ou dava lies numa escola atroz. A minha casa era uma escola onde se falava em ingls, lia-se Mark Twain e se jogava beisebol. Quando a bolinha era atirada fora dos muros, coisa que acontece a cada minuto naquele esporte bizarro, cabia a mim procur-la l na Via Aurelia ou pedi-la ao jardineiro de uma casa vizinha. Quase todos os meus colegas eram meninos norte-americanos que no tinham o hbito ou a necessidade de falar a lngua dos outros. Ali tambm fiz algumas amizades, mas na verdade no amava tanto a escola americana, porque l dentro me sentia mais estrangeiro do que na rua. De fato, para os meus colegas, eu, um certo Francisco, originrio de um vago Brasil, era italiano e me chamava Francesco. Em janeiro de 1969, quando voltei a Roma, reencontrei os monumentos, os palazzi, as fontannne (fontes), os viali (avenidas), tudo ali, tudo igual s minhas recordaes, somente um pouco menor. Logo na primeira manh caminhei pelas ruas da minha infncia, certo de poder rever os mesmos personagens de tantos anos atrs, talvez pequeninos eles tambm. Senti-me porm como o mope de Italo Calvino, encontrando rostos desconhecidos ou cumprimentando gente que no me respondia. hora do almoo, perdi-me num labirinto perto do Pantheon. Vaguei pelos becos desertos, entre casas amarelas com portas e janelas fechadas, depois me encontrei numa praa com a esttua de um elefante, e sombra da igreja tinha um carabinire que dormia sentado no cavalo. Despertei o carabinire, porque precisava de uma indicao, mas em seguinda permaneci mudo. Vinham-me mente palavras soltas como Sampdoria, calcio d'angolo (crner), e naquele momento me dei conta de que no sabia mais falar o italiano. Humilhado, voltei ao hotel, onde minha mulher, grvida, falava ao telefone com o Rio de Janeiro. As notcias do Brasil no eram maravilhosas, de modo que minha permanncia no exterior, prevista para trs semanas, devia se prolongar por uma durao incerta. Estabeleci-me em Roma, deixando o Albergue Raphael por um apartamento num bairro que parecia mais um subrbio do Rio. Roma, a sentia agora mais dura, como se suspeitasse de que vivia nela pensando numa outra. Era verdade, mas ao mesmo tempo estava sinceramente decidido a no pensar mais na minha cidade. O meu corao queria pensar em Roma, somente Roma. Gravei um disco em italiano quase sem acento, fui radio e televiso, cantei no meio da Piazza Navona, mas Roma no me compreendeu. Inventei um samba em dialeto romanesco, mas Roma no boba. Disse a Roma que no Rio no me queriam, disse-lhe que no podia viver assim no ar, sem uma cidade. Era ridculo, queria desesperadamente que Roma me aceitasse. Ento ofereci a Roma minha primognita. Minha filha Slvia nasceu romana no fim de maro, e Roma mandou Clnica Moscati dois poetas. Vincius de Morais fez uma enfermeira gravar o primeiro choro da criana. E me ainda adormecida, Giuseppe Ungaretti dizia: "Bella!, bella!". Depois Roma me acolheu no Piazzele Flaminio, num apartamentinho com um balcozinho de onde se via a Villa Borghese. Dali saa a p pela Via del Corso, Piazza Colonna, o Cine Capranica, o Cine Capranichetta e da pela Via Tritone, Fontana de Trevi e o restaurante Al Moro, do qual uma noite vi sair Federico Fellini e emudeci, porque me pareceu que viesse a cavalo. No fim, Roma me deu poucos amigos, mas amigos feitos como Roma, para sempre. Nesta cidade vivi ainda um ano e meio, e aqueles no podiam ser os tempos mais felizes da minha vida. Mas com o consenso de Roma, nela vivi um tempo que, em outra parte, talvez teria sido invivvel. Em Fiumicino (aeroporto romano), o policial olha e torna a olhar cada folha do meu passaporte, sacode a cabea, procura o meu nome no computador, chama algum pelo telefone. J esperava toda essa operao. Estamos j num pas rico, e o meu documento sempre aquele de um cidado sul-americano. Fecha o passaporte, reabre o passaporte, me observa e observa a foto, na qual nem eu mesmo me reconheo, porque me vejo com a cara de meu pai quando veio ensinar na Universidade de Roma. "Msico", exclama enfim o policial, e de repente se pe a tocar um tambor imaginrio. Revela-me que ele tambm um contrabaixista diletante, e me restitui o passaporte dizendo-me um f da nossa msica, a msica tnica. "Musica latina", acrescenta, e me diverte saber que no corao do Lcio se chama latina uma msica to estranha. Giro agora pelo aeroporto que no recordava to grande. Depois de 30 anos o ampliaram, sem dvida, mas possvel tambm que com o tempo os objetos da memria comecem a comprimir-se, como se estiessem dentro de um nibus superlotado. Quando consigo pegar minha maleta, que rodava tambm solitria no aeroporto, me vejo diante de uma jovem com um sorriso que me familiar. uma signorina to viosa, to luminosa, com a pele to clara, os cabelos to negros, os olhos to grandes, que poderia ser uma professora de italiano. Mas ao contrrio a agente de turismo que me pergunta: "may I help you?". No, grazie, le dico, il mio nome Francesco. (Discurso escrito em Italiano e lido por Chico Buarque de Holanda, no dia 31 de maro, ao receber o Prmio Roma-Braslia, Cidade da Paz, conferido pelo prefeito de Roma, Francesco Rutelli. A verso do italiano para o portugus foi feita por Arajo Netto, correspondente do JB em Roma.)

178. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Estava mal chegando a So Paulo, quando um reprter me provocou: "Mas como, Chico, mais um samba? Voc no acha que isso j est superado?" No tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em voga. J era hora de enfrentar o drago, como diz o Tom. Enfrentar as luzes, os cartazes, e a platia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra frente, de franca oposio. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionria, pelo meu desinteresse em participar de uma passeata cvica contra a guitarra eltrica. Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o tamborim. O importante ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco. Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua msica estereotipada, onde samba, toada etc. so ritmos virgens para seus melhores msicos, indecifrveis para seus crebros eletrnicos. "S tenho uma opo, confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimsica. Veja, os Beatles, foram ndia..." Donde se conclui como precipitada a opinio, entre ns, de que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malcia, a malemolncia. certo que se deve romper com as estruturas. Mas a msica brasileira, ao contrrio de outras artes, j traz dentro de si os elementos de renovao. No se trata de defender a tradio, famlia ou propriedade de ningum. Mas foi com o samba que Joo Gilberto rompeu as estruturas da nossa cano. E se o rompimento no foi universal, culpa do brasileiro, que no tem vocao pra exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos ansiosos por um primeiro prmio. Mas no bom usar de qualquer recurso, nem se deve correr com estrondo atrs do sucesso, seno ele se assusta e foge logo. E no precisa dar muito tempo para se perceber "que nem toda loucura genial, como nem toda lucidez velha."

179. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Acordo com nova disposio, penteado novo. Jornalista Francisco, prazer, exercendo meu ofcio com toda a assuno. J comeo at a receber cartas, vejam s. Um jornalista recebe muitas cartas. Transcreve as amveis quando falta assunto e responde s odiosas com fina ironia. De qualquer modo, o jornalista sai-se sempre to bacana que comum duvidar-se da autenticidade de sua correspondncia. Pois dou hoje minha entrada no rol dos suspeitos afirmando que desde a minha estria neste pasquim, recebi um trecho de carta, dois pacotes de cigarros, um telefonema e uma dzia de lingias. A carta partiu da Sra. Lcia Reis, de Ipanema, flamenguista, casada com flamenguista, naturalmente. No gostou do meu primeiro artigo, isto , no gostou da vitria do Fluminense. A Sra. Lcia Reis, de Ipanema, informa que ser Flamengo morar no Encantado. tomar umas e outras, sentar na geral, participar do suor comum, coisas que tambm aprovo sem o menor pudor. Depois ela fala da coluna social, de impedimento, de Armandinho, e de outros argumentos que no entendi bem. Mas deixo de responder diretamente Sra. Reis, em cuja caligrafia reconheo a inspirao do marido, para desfazer um equvoco maior. Duma vez por todas: sou Flamengo. Todo bom tricolor, a princpio, rubro-negro. Porm, um rubronegro to curtido e fermentado pela vida que, um belo dia, pode chegar mesa e declarar: "Irmos, consegui! Finalmente toro pelo Fluminense." E os irmos, pondo-se em fila indiana, inclinando-se e cumprimentando-o: "Parabns, companheiro, voc merecia." Bem-vindos os vinte maos do meu cigarro enviados por Joo Manuel Fernandes, de So Paulo. Menos bem-vinda a notcia que os acompanha: a minha marca preferida est acabando. Parou no Rio, parou em Minas. Seu ltimo reduto a valente capital bandeirante que no pode parar. A fico meditando sobre a ingratido humana. Porque, quando a gente adota um cigarro, presume estar fazendo uma opo para o resto da vida. Assim fiz eu aos 15 anos, com precoce determinao. Vieram os cigarros com filtro, no me alterei. No me arrebataram os cigarros longos king size, marca de nobreza e distino. Resisti at ao anncio da moa loira, aquela da boca grande, disposta a qualquer aventura com o homem que fumasse mentolados. Veio o cigarro americano, a propaganda do cncer, veio o aumento, a tosse, e c estou eu inexpugnvel, dez anos de fidelidade, cinqenta cigarros por dia. Faam as contas, senhores fabricantes, pensem no caso e tenham piedade de mim. Tom Jobim telefona de Londres... Diz ele que Londres bom, civilizado, civilizado mas bom. Ento ele mostra o bolero que comps para o filme. O Joo Gilberto faz muito bem de estar l no Mxico, diz ele. O Vincius voltou ao Brasil, n? , o Vincius que est certo. O Caetano Veloso tambm. A ele manda eu esperar um pouco e fica aquela linha pendurada na Europa. A telefonista no gosta disso e comea a brigar comigo. Volta o Tom e diz que o Drummond que tem razo: "O poeta um ressentido, o mais so nuvens." O Caymmi tambm sabe o que diz. Quando o cobrador pergunta pelo ltimo samba, o baiano responde que emburreceu, s isso. Em Londres ningum cobra nada, tem aquela cerveja inteligente e aquela grama bem cortada. Em Londres s no come bem quem no conhece o Mercado e as sutilezas da lngua. Tom, por exemplo, vai compra toda manh e ordena: "Dry meat and string beans", ou seja, carne seca e feijo de corda, que alm de bom engorda. Por falar em comida brasileira, e para terminar, quero agradecer alma bondosa e annima que deixou lingia na porta de casa. Era s o que faltava. Enfim tenho a matria prima para organizar a maior feijoada de Roma, assim que as fraldas de minha filha desocuparem o caldeiro.

180. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. A exemplo da galinha e do ovo, esporte e indstria tm-se gerado reciprocamente na Itlia. A melhor poca da bicicleta italiana coincidiu com a glria de Fausto Coppi nos giros ciclsticos europeus. Escalando barrancos a trancos e pedaladas, Coppi foi o justo heri para os anos difceis de aps guerra. Agora, pernas pro ar que ningum de ferro. A monotonia vingou na Itlia como em nenhuma outra parte. E para ilustrar o sucesso da mercadoria, eis que surge imbatvel o campeo mundial de motociclismo, um italiano, boa pinta, chamado Agostini. No entanto, dizer que Agostini foi simplesmente inventado pela indstria como insinuar que Pel jogue do jeito que ele joga para satisfazer a fbrica que exporta chuteiras com o seu nome. A verdade que esse corredor est atingindo a popularidade dos grandes nomes da cano, do futebol e do cinema. o modelo que faltava para desenfrear de vez o j fabuloso consumo de bicicletas motorizadas. Sempre em dia com a onda, comprei tambm a minha motoneta. uma vespa de 50 cilindros, ou 50 cilindradas, ou pistes, no sei bem, uma vespa de 50 alguma coisa. Todos os meninos do bairro tm a sua, e domingo a gente promove umas corridas legais, l na vila Borghese. Com isso evito a amolao de viver pedindo chave de carro ao papai. E no bastasse o prazer que a motoneta proporciona, precisa ver como ela til durante a semana. Segunda-feira, de gravata e capacete, vou motorizado ao centro da cidade e estaciono a bicha de qualquer jeito. O diretor tem uma Mercedez grande e uma raiva enorme de minha pessoa. Cspite, Tchico, voc deveria ser o ltimo a montar nessas bicicletas. Venha c que te faccio vedere una cosa. Ecco, vedi questo? Ele abre um fichrio e mostra a crise do disco na Itlia. A queda comea no ano passado, justamente quando aparece a moda desses motorini maledetti. Pois natural, digo eu. O jovem que, at ento, comprava dois discos por ms, com as mesmas duas mil liras paga a prestao de uma mini motocicleta. Depois, as garotas no vo sair comigo s porque tenho um disco do Morandi em casa. Voc sabe, elas hoje querem saber de velocidade, emoo, aventura, e com a minha vespa chego a dar oitenta por hora na descida. Ma stai attento, Tchico, que voc j no um ragazzo. Se os seus discos encalharem, se a fbrica falir, quem que vai pagar a benzina del tuo motorino? Quem paga o latte de tua figlia? Ora velho, no tem problema, adoro correr esses riscos. Adoro apostar em cavalo azaro. No toa que escrevo para um jornal carioca que toda semana motivo de apostas, se vai a falncia neste ou no prximo nmero.

181. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. difcil voltar a O PASQUIM depois de tanta ausncia, principalmente porque prometi, e vou ficar devendo, uma entrevista com Josephine Baker. Para quem no se lembra ou no era nascido, Josephine foi a bacana l da Martinica, a tal que se vestia de banana nanica. Profetizou a minissaia, valorizou a pele mulata, espalhou o charleston, depertou paixes e escandalizou os puros. Pouco a pouco foi trocando o escndalo pela caridade pblica, as bananas pelo vestido longo. Hoje, com 63 anos, volta ao palco porque no tem outros meios e precisa sustentar 14 filhos adotivos. Acompanhei-a, junto ao bravssimo chitarrista brasiliano Toquio, em seus 45 dias de tourne pela Itlia. 45 vezes esperei a oportunidade de lhe falar d'O PASQUIM, do Srgio Cabral que reclama e da leitora que me chama de relapso. Mas Josephine s d entrevistas coletivas, sempre muito simptica, sempre muito profissional, sempre me adotiva de 14 crianas de todas as raas. Evidentemente no a impressionei, nem como reprter amador, muito menos como menino desamparado. Num desses coquetis imprensa cheguei at a posar ao lado dela para as fotografias. Dia seguinte comprei todos os jornais, mas s deu retrato de Josephine Baker s vezes com um pedao de bochecha minha. Sem fotos e sem entrevista, resta-me a lembrana de 45 espetculos assistidos vagamente dos bastidores. Josephine entra em cena pedindo desculpas, pois na sua idade no h pernas que agentem um charleston. A ela dana um charleston. Hlas, mes amis, j no tenho pernas para a minissaia. A ela senta l dum jeito que o pblico aplaude com entusiasmo os 63 anos sem varizes ou celulite. Segue uma bossa-nova francesa que no boa no. Boa a sua interpretao de "La vie en rose". Fala de Edith Piaf com muito carinho, muda para um potpourri de boogie-woogies, desce platia e vai conversar com a primeira fila. Geralmente perco essa parte do show porque tem algum que me procura no camarim. Chego l, no paga dez, brasileiro. "Eu estava aqui passando e vi seu nome..." Brasileiro est sempre passando em qualquer fim-de-mundo. Feitas as confraternizaes pergunto como vo as coisa no Brasil e o brasileiro diz que vo mal, apesar da classificao nas eliminatrias para o Mxico. No resto, diz ele que as coisas vo muito mal porque a televiso aquela mesma coisa, os programas no mudam, s tem um agora que as pessoas ficam provocando at que Rio e So Paulo comeam a brigar. "Fora isso, Juca, muitas saudades de voc, daquela sua msica, A praa, minha filha sempre pergunta onde que anda o Juca, e tem meu filho que todo mundo acha que a sua cara." Antes de se despedir, o brasileiro ainda me chama de Juca umas cinco vezes e diz que meu muito admirador. Voltando ao show, encontro tudo mudado, a luz roxa, a msica solene e Josephine que dedica uma mensagem de paz humanidade. Canta "Quand je pense a a", e o a que ela pensa so os pobres rfos, as guerras, os preconceitos raciais, etc. Quando pensa nisso, d-lhe uma espcie de tonteira e ela cai no cho com as mos no rosto, a cortina sobe e desce, o pblico aplaude e s ento ela esquece os pobres rfos, as guerras e os preconceitos raciais. Levanta-se e manda todo mundo sorrir ao amor, sorrir vida, sorrir ao prximo, sourrir toujours sourrir, encerrando o espetculo com aquilo que o Ciro Monteiro costuma chamar de hipotenusa final.

182. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Saiu evaso, a palavra da moda. Neste vero todos vo de evaso. Contestam a evaso. Do os jornais: o movimento financeiro das indstrias discogrficas italianas, em 1968, superou os 170 bilhes de cruzeiros velhos. Sublinhe-se que os melhores fregueses habitam a regio mais pobre do pas, tais como a Calbria, a Siclia e a Sardenha. Que significa isso? Evaso. A torcida do Cagliari, na Sardenha, impediu que se vendesse o centroavante Riva, Pel mediterrneo, pela soma de 9 bilhes de cruzeiros velhos. Os trabalhadores da cidade decidiram sacrificar parte do salrio para manter seu heri em casa. Evaso, claro. Tem um outro Riva, industrial de Milo, que enfiou a bancarrota no bolso e fugiu para o Lbano. Evaso? No senhor, ai que voc se estrepa. Evaso, no sentido atual do termo, uma fuga sem dinheiro, sem remdio e sem sair do lugar. A msica e o futebol italianos esto, comercialmente, mais desenvolvidos que no Brasil. Vide prova no preo de um jogador ou na vendagem de um disco, aqui mais que l, dez vezes mais. Portanto, dez vezes mais ferozes urlam os crticos da evaso. Sem querer perder meu emprego (de futebolista, lgico), peo permisso para urlar junto. Tambm acho um absurdo. O pobreto de bicicleta sonhando com os astronautas. A mocinha sem namorado comprando disco de consolao. O menino descalo fazendo gol com bola de vento. O preo que pagam por um minuto de evaso de fato escandaloso. Eu mesmo, ao ver o Imposto de Renda, fiquei achando que no deveria ter ganho tanto assim. Mas o que me espanta a agressividade que os tcnicos em evaso descarregam sobre os dolos populares. A j deixo de compartilhar, porque excesso de rancor afeta sempre o funcionamento do pncreas. Os mais irritados so justamente os jornalistas encarregados de comentar a msica popular. Exercem seu ofcio com tamanha m vontade que a gente fica pensando: de duas, uma. Ou esse cara queria cantar e no tem voz, ou queria comentar poltica internacional e o diretor do jornal no deixa. No mundo da cano italiana no h lugar para a cano desvinculada do esquema industrial. Se faz sucesso, o crtico d nota trs porque aquela besteira comercial de sempre. Se faz fracasso, a nota dois porque onde j se viu uma cano popular que ningum entende, produto encalhado, prego de duas cabeas. Apenas a ttulo de informao deixa acrescentar que cantor mais compositor, juntos, no percebem num disco mais que 12% de seu preo de custo. Nos demais 88% ningum ousa atirar tomates. Diga-se de passagem que a maior acionista da maior fbrica de discos italiana uma potncia econmica religiosamente protegida de qualquer repreenso. E olha que no tenho nada de pessoal contra esse Papa. S acho que o Joo XXIII era mais bacana.

183. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Ser antiflamenguista e ostentar no meio da cara um diploma de ressentido. detestar Mangueira, o carnaval e tudo o que cheire a popular e unnime. O nenm desmamado, o menino asmtico e o homem trado, esses tero sempre o direito de gritar contra o Flamengo. Por isso mesmo muito fcil ser rubro-negro. Fcil de mais. como ser a favor do sol no meio do deserto, ou comemorar o Dia da rvore no corao da Amaznia. Alis, nunca existiu um flamenguista. Flamengar verbo imperfeito que s se conjuga no plural. Por exemplo: E advogo, tu bates o ponto, ele mata mosquito;ns flamengamos, vs flamengais, eles flamengam. Mas torcer pelo Fluminense, modstia parte, requer outros talentos. Precisa saber danar sem batucada. O tricolor chora e ri sem ningum por perto. Ele merece um campeonato, ele merece. Antes mesmo de ser informado, via satlite, por essa estranha seita chamada "Jovem Flu", fiquei sabendo da notcia por meu pai, que Bonsucesso. Um "Velho Bom", em suma. Depois veio o telefonema dum bando de amigos, jogadores e rodrigues, cujo amontoado de vozes deixou-me entender pouco mais que a confirmao da vitria. Mas foi o bastante para me deixar emocionado e sem sono, fumando na janela. Eram cinco horas da madrugada e ningum se manifestava nas redondezas do Vaticano. Ignoravam o campeo carioca num silncio cannico, donde pude constatar que, naquele exato momento, em assuntos de futebol eu era o homem mais feliz de Roma. O amigo Franco Beretta, co-proprietrio do bar Nuova Siclia, ofereceu-me um vinho pela vitria do Fluminense no campeonato brasileiro. Bom, eu disse brasileiro para simplificar, porque eles no entendem os nossos campeonatos regionais. Disse tambm que a bandeira do campeo brasileiro era igual da Itlia, vermelha, verde e branca, mas evitei jurar que se tratasse de uma homenagem. O Franco Beretta achou que era uma homengem sim, que tem muito italiano no Brasil, ele mesmo tem um primo que est milionrio em Montevido. Para dizer a verdade, o vermelho do Fluminense mais chegado ao tom do vinho barolo que o Franco ofereceu mais um. E o verde da camisa tricolor o mesmo das azeitonas que a gente foi comendo e comendo, falando de futebol. No, o Pel do Santos. Se o Fluminense ganhou do Santos? Ora, pois j no lhe disse que o meu clube foi campeo? (Franco Beretta, como todo italiano, desconfia muito de futebol brasileiro sem Pel). Voc pode comparar o Fluminense com o time da Fiorentina, campeo da Itlia. No lugar do Superach temos o Flix, goleiro da seleo. No lugar de Amarildo temos o Lula, e da? Se achar pouco um Lula, tome um Lulinha que eu nunca vi mas j gostei. Pega o Ferrante, lbero da cabeleira loura e abundante, faz uma permanente e pinta todo de preto, pinta de novo porque no ficou no ponto, passa uma terceira mo de tinta, fosforescente, e voc tem o Denlson. O De Sisti, capito fiorentino e gnio nacional, um Samarone sem malcia. Se o Samarone do escrete? No no. Nem o Galhardo. O Chiarugi, ah. Chiarugi um maluco, segundo o meu amigo italiano. Chegou a ser afastado do primeiro time porque dribla muito mais, engraado, foi com a sua volta que a Fiorentina partiu firme para a liderana. Vem c, O que Chiarugi seria capaz de marcar um gol com a mo? Ah, aquele capaz de tudo, diz o italiano, pode ser at que o juiz confirme o gol. E ento meu caro Beretta, voc no acha que ele um ponta-direita para a seleo italiana? Para a seleo est bem, diz ele, se o Chiarugi marcar gol de mo contra a minha Roma deso no campo e fao um estrago naquela cara.Franco Beretta ia sendo convertido mansamente. Passei do Wilton para o Oliveira, deste para o Assis, da ao Silveira e a bola foi parar nos ps do Cludio. Nisso o Franco centrou e perguntou pelo nosso Riva, o artilheiro. Mas qual Riva, qual nada, muito melhor! (Riva foi o goleador do campeonato italiano: 19 gols em trinta partidas.) E voc vem falar de Riva. Olha aqui, no sei como lhe explicar, mas o campeonato carioca comea com doze clubes e de repente tem oito, quer dizer... O fato que o Flvio foi o artilheiro do Brasil com 49 gols e pronto. Se novo esse Flvio? , comeou este ano. No, antes dele a gente no costumava fazer gols. Antes do Flvio jogava de centro-avante o fantasma do Valdo. E tem mais: a revelao do ano um sujeito que se chama Cafuringa. Mas ao aouvir Cafuringa o meu amigo achou demais, disse que eu j estava exagerando e foi cuidar da vida.

184. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. No dia 28 de maro, nascia a filha de Chico Buarque de Hollanda e Marieta Severo. O parto, induzido e difcil, causou algumas complicaes. A menina nasceu com algumas manchas no rosto e a cabea ligeiramente deformada. Mas, apesar da preocupao do pai, os problemas desapareceram no terceiro dia e Slvia j est em boa forma. Marieta, que foi internada na Clnica Moscatti, nos arredores de Roma, resistiu bravamente ao seu primeiro parto e assim que pode, numa rpida assemblia com Chico, escolheu Vincius de Moraes para padrinho, Na confuso dos trs primeiros dias de sua filha Chico fala para Fatos e Fotos sobre a menina, o trabalho e as saudades do Brasil. Estou em Roma desde o incio do ano e pretendo ficar at julho, mais ou menos, depende... preciso tomar um ch de tranqilidade assim de vez em quando. A Itlia oferece trabalho, Roma apaixonante e o italiano quase irmo da gente. Saudades do Brasil claro que tenho. Da praia, do Antonios, do futebol, dos amigos. Dos amigos, principalmente, mas ainda bem que puseram um satlite l em cima e a gente se telefona volta e meia. No vou vou dizer que estou estourando na praa europia porque mentira. Meus discos vendem bem, est dando para viver, j muito. Os crticos aplaudem, os teatros tambm, mas o sucesso popular, popular mesmo, no mole, sabe? A gravao Far Niente (bom tempo), as aparies na televiso e um programa fixo na rdio esto ajudando. Pelo menos o pblico j sabe que eu sou Tchico Barcue, cantautore brasiliano, conterrneo de Pel, Garrincha e Altafini. Vou a Paris gravar um lbum em francs, com as mesmas msicas do disco italiano. Isso de ficar cantando em lngua estrangeira no estava nos meus planos, mas o mnimo que a gente pode ajudar para se fazer entender. Esse tal de velho mundo tem o ouvido cansado, carece de um ritmo novo, de melodia diferente. Mas preciso ir aos poucos, facilitar, seno eles acham que samba exotismo nosso. por isso que fao questo de acopanhar as tradues, mesmo convencido de que impossvel traduzir o esprito, as rimas e os ritmos que o samba tem. Ainda bem que tenho como tradutor a excelente figura de Srgio Badotti, italiano que ama o Brasil como poucos brasileiros. Agora ele est trabalhando tambm com o Vincius. Ele paquera o samba com amor e tempo integrais. Tenho composto sim, devagar e sempre, coisas novas para lanar no Brasil. Alis, no fundo tenho pensado mesmo nas gravaes brasileiras. A essa altura j deve ter sado por l um disquinho com umas e outras. Ta uma gravao que me deu gosto. O resto segue num elep at junho. bom mesmo que faa esse disco correndo, seno a fbrica continua lanando meus discos estrangeiros no Brasil. Quanto a festivais, trato de tirar o corpo fora. justo que o pblico exija caras novas e vice-versa. Eu j estava virando cara velha. No, minha filha no vai se chamar Rita, nem Carolina. Nem Roda-Viva. Talvez Slvia, no sei. Temos ainda um ms para decidir e registrar no consulado, brasileirinha sim senhor. Olha a, pode dizer at que eu sou esse artista de projeo, mas deixa eu brincar de vez em quando. Trs anos de vida pblica cansam qualquer um, mas no quero que minha filha me encontre circunspecto. Afinal, ela afilhada do Vincius, h de ser minha amiga. por isso que, noite, sempre vou grudar o rosto no vidro do bercrio. Ela muito preguiosa e dorme o tempo inteiro, rindo. Mas, quando abrir o olho, ela talvez me veja como vejo meu pai. Sabe duma coisa? Ela no vai ser filha de Chico Buarque nenhum. Eu que vou ser pai dela.

185. CLARICE LISPECTOR. Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque no passava de nove horas da manh. Parecia calma. Desde sbado encolhera-se num canto da cozinha. No olhava para ningum, ningum olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferena, no souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vo, inchar o peito e, em dois ou trs lances, alcanar a murada do terrao. Um instante ainda vacilou o tempo da cozinheira dar um grito e em breve estava no terrao do vizinho, de onde, em outro vo desajeitado, alcanou um telhado. L ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro p. A famlia foi chamada com urgncia e consternada viu o almoo junto de uma chamin. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoar, vestiu radiante um calo de banho e resolveu seguir o itinerrio da galinha:em pulos cautelosos alcanou o telhado onde esta, hesitante e trmula, escolhia com urgncia outro rumo. A perseguio tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteiro da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxlio de sua raa. O rapaz, porm, era um caador adormecido. E por mais nfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. Sozinha no mundo, sem pai nem me, ela corria, arfava, muda, concentrada. s vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E ento parecia to livre. Estpida, tmida e livre. No vitoriosa como seria um galo em fuga. Que que havia nas suas vsceras que fazia dela um ser? A galinha um ser. verdade que no se poderia contar com ela para nada. Nem ela prpria contava consigo, como o galo cr na sua crista. Sua nica vantagem que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra to igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcanou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa atravs das telhas e pousada no cho da cozinha com certa violncia. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi ento que aconteceu. De pura afobao a galinha ps um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha me habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu corao, to pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. S a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porm conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do cho e saiu aos gritos: Mame, mame, no mate mais a galinha, ela ps um ovo! ela quer o nosso bem! Todos correram de novo cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta no era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, no era nada, era uma galinha. O que no sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a me e a filha olhavam j h algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ningum acariciou uma cabea de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquido: Se voc mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida! Eu tambm! jurou a menina com ardor. A me, cansada, deu de ombros. Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a famlia. A menina, de volta do colgio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava:"E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terrao dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto. Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam t-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resqucios da grande fuga e circulava pelo ladrilho, o corpo avanando atrs da cabea, pausado como num campo, embora a pequena cabea a trasse: mexendo-se rpida e vibrtil, com o velho susto de sua espcie j mecanizado. Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmes com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado s fmeas cantar, ela no cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expresso de sua vazia cabea se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu luz ou bicando milho era uma cabea de galinha, a mesma que fora desenhada no comeo dos sculos. At que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

186. CLARICE LISPECTOR. A famlia foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paets e um drapeado disfarando a barriga sem cinta. O marido no veio por razes bvias: no queria ver os irmos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laos fossem cortados e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que no precisava de nenhum deles, acompanhada dos trs filhos: duas meninas j de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata. Tendo Zilda a filha com quem a aniversariante morava disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai danar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posio de ultrajada. "Vim para no deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, no sabiam bem que atitude tomar e ficaram de p ao lado da me, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paets. Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a bab. O marido viria depois. E como Zilda a nica mulher entre os seis irmos homens e a nica que, estava decidido j havia anos, tinha espao e tempo para alojar a aniversariante e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de corao inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o beb para no encarar a concunhada de Olaria; a bab ociosa e uniformizada, com a boca aberta. E cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos. Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelo alusivos data, espalhara bales sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday!", em outros "Feliz Aniversrio!" No centro havia disposto o enorme bolo aucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoo, encostara as cadeiras parede, mandara os meninos brincar no vizinho para no desarrumar a mesa. E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoo. Pusera-lhe desde ento a presilha em torno do pescoo e o broche, borrifara-lhe um pouco de gua-de-colnia para disfarar aquele seu cheiro de guardado sentara-a mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balo estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angstia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vo da mosca em torno do bolo. At que s quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema. Quando a nora de Ipanema pensou que no suportaria nem um segundo mais a situao de estar sentada defronte da concunhada de Olaria que cheia das ofensas passadas no via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema entraram enfim Jos e a famlia. E mal eles se beijavam, a sala comeou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobao de atraso, subir os trs lances de escada, falando, arrastando crianas surpreendidas, enchendo a sala e inaugurando a festa. Os msculos do rosto da aniversariante no a interpretavam mais, de modo que ningum podia saber se ela estava alegre. Estava era posta cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca. Oitenta e nove anos, sim senhor! disse Jos, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mos em admirao pblica e como sinal imperceptvel para todos. Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabea em admirao como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da famlia toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente. Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era scio de Jos. um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa. A velha no se manifestava. Alguns no lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinao de jrsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a prpria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irnica. Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa. A velha no se manifestava. Ento, como se todos tivessem tido a prova final de que no adiantava se esforarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduches de presunto mais como prova de animao que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que no podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordlia? Cordlia, a nora mais moa, sentada, sorrindo. No senhor! respondeu Jos com falsa severidade, hoje no se fala em negcios! Est certo, est certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento. Nada de negcios, gritou Jos, hoje o dia da me! Na cabeceira da mesa j suja, os copos maculados, s o bolo inteiro ela era a me. A aniversariante piscou os olhos. E quando a mesa estava imunda, as mes enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avs se recostavam complacentes nas cadeiras, ento fecharam a intil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ningum elogiou a idia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles no estariam pensando que fora por economia de velas ningum se lembrando de que ningum havia contribudo com uma caixa de fsforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os ps exaustos e o corao revoltado. Ento acenderam a vela. E ento Jos, o lder, cantou com muita fora, entusiasmando com um olhar autoritrio os mais hesitantes ou surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" e todos de repente comearam a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordlia olhou esbaforida. Como no haviam combinado, uns cantaram em portugus e outros em ingls. Tentaram ento corrigir: e os que haviam cantado em ingls passaram a portugus, e os que haviam cantado em portugus passaram a cantar bem baixo em ingls. Enquanto cantavam, a aniversariante, luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira. Escolheram o bisneto menor que, debruado no colo da me encorajadora, apagou a chama com um nico sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas potncia inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor - e acendeu a lmpada. Viva mame! Viva vov! Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido. Happy birthday! gritaram os netos, do Colgio Bennett. Bateram ainda algumas palmas ralas. A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco. Parta o bolo, vov! disse a me dos quatro filhos, ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar ntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: parta o bolo, vov! E de sbito a velha pegou na faca. E sem hesitao , como se hesitando um momento ela toda casse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina. Que fora, segredou a nora de Ipanema, e no se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada. H um ano atrs ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais flego do que eu, disse Zilda amarga. Dada a primeira talhada, como se a primeira p de terra tivesse sido lanada, todos se aproximaram de prato na mo, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animao, cada um para a sua pazinha. Em breve as fatias eram distribudas pelos pratinhos, num silncio cheio de rebulio. As crianas pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nvel desta, acompanhavam a distribuio com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianas angustiadas viam se desperdiarem as passas, acompanhavam atentas a queda. E quando foram ver, no que a aniversariante j estava devorando o seu ltimo bocado? E por assim dizer a festa estava terminada. Cordlia olhava ausente para todos, sorria. J lhe disse: hoje no se fala em negcios! respondeu Jos radiante. Est certo, est certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que no o desfitava. Est certo, tentou Manoel sorrir e uma contrao passou-lhe rpido pelos msculos da cara. Hoje dia da me! disse Jos. Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a me. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua famlia. E ela era a me de todos. E se de repente no se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a me de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a me de todos e, impotente cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que no passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o nico a ser a carne de seu corao, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cad Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido to forte pudera dar luz aqueles seres opacos, com braos moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua clera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua famlia. Incoercvel, virou a cabea e com fora insuspeita cuspiu no cho. Mame! gritou mortificada a dona da casa. Que isso, mame! gritou ela passada de vergonha, e no queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educao velha, e no faltaria muito para dizerem que ela j no dava mais banho na me, jamais compreenderiam o sacrifcio que ela fazia. Mame, que isso! disse baixo, angustiada. A senhora nunca fez isso! acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegars tua me. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabea como se estivessem de acordo que a velha no passava agora de uma criana. Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou ento confessando contrita para todos. Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silncio. Pareciam ratos se acotovelando, a sua famlia. Os meninos, embora crescidos provavelmente j alm dos cinqenta anos, que sei eu! os meninos ainda conservavam os traos bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos ainda mais fracos e mais azedos haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora no agenta a mo, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que no sabiam pr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava. Me d um copo de vinho! disse. O silncio se fez de sbito, cada um com o copo imobilizado na mo. Vovozinha, no vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta rolia e baixinha. Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me d um copo de vinho, Dorothy! ordenou. Dorothy no sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cmico de socorro. Mas, como mscaras isentas e inapelveis, de sbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduches mordidos na mo, algum pedao que estava na boca a sobrar seco, inchando to fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mo. E olhavam impassveis. Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade. Mas no s a aniversariante no explodiu com a misria de vinho que Dorothy lhe dera como no mexeu no copo. Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido. Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomearam as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento unssono com os outros quando a tragdia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha sua severidade, sem ao menos o apoio dos trs filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crtica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de prolas, o que no era moda coisa nenhuma, no passava era de economia. Examinando distante os sanduches que quase no tinham levado manteiga. Ela no se servira de nada, de nada! S comera uma coisa de cada, para experimentar. E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a ateno voltada para dentro de si, espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amvel, o estmago cheio daquelas porcarias que no alimentavam mas tiravam a fome. As crianas, j incontrolveis, gritavam cheias de vigor. Umas j estavam de cara imunda; as outras, menores, j molhadas; a tarde cala rapidamente. E Cordlia, Cordlia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que que ela tem? algum perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabea, mas tambm no responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranqilidade da noite, as crianas comeavam a brigar. Mas as luzes eram mais plidas que a tenso plida da tarde. E o crepsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso. Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vrios se ergueram sorrindo. A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele to infamiliar fosse uma armadilha. E, impassvel, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efuso ao que no era mais seno passado: a noite j viera quase totalmente. A luz da sala parecia ento mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianas j estavam histricas. Ser que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas. Mas ningum poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada cabeceira da mesa imunda, com a mo fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua ltima palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparncia afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordlia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remdio amava talvez pela ltima vez: preciso que se saiba. preciso que se saiba. Que a vida curta. Que a vida curta. Porm nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordlia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mo daquela me culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trs implorando velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num mpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordlia quis olhar. Mas a esse novo olhar a aniversariante era uma velha cabeceira da mesa. Passara o relance. E arrastada pela mo paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada. Nem todos tm o privilgio e o orgulho de se reunirem em torno da me, pigarreou Jos lembrando-se de que Jonga quem fazia os discursos. Da me, vrgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graa. Ns temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Ns temos esse grande privilgio disse distrado enxugando a palma mida das mos. Mas no era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, Jos esperando de si mesmo com perseverana e confiana a prxima frase do discurso. Que no vinha. Que no vinha. Que no vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas Jos enxugou a testa com o, leno como Jonga fazia falta nessas horas! Tambm fora o nico a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurana. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas no esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de me era duro de suportar: Jos enxugou a testa, herico, risonho. E de repente veio a frase: At o ano que vem! disse Jos subitamente com malcia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! At o ano que vem, hein?, repetiu com receio de no ser compreendido. Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano. No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeioando o esprito do scio. At o ano que vem, mame! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para Jos. E a velha de sbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a aluso. Ento ela abriu a boca e disse: Pois . Estimulado pela coisa ter dado to inesperadamente certo, Jos gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos midos: No ano que vem nos veremos, mame! No sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada. Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo. As crianas foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingana no filho alegre demais e j sem gravata. As escadas eram difceis, escuras, incrvel insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na ao de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras pisado o ltimo degrau, com alvio os convidados se encontraram na tranqilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.Adeus, at outro dia, precisamos nos ver. Apaream, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianas, olhando o cu procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais que palavra? eles no sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Comearam a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquido. At o ano que vem! repetiu Jos a indireta feliz, acenando a mo com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o corao. At o ano que vem! gritou Jos eloqente e grande, e sua altura parecia desmoronvel. Mas as pessoas j afastadas no sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Alm de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que s no prximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, j mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e impacincia de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: "Pelo menos noventa anos", pensou melanclica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora. Enquanto isso, l em cima, sobre escadas e contingncias, estava a aniversariante sentada cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Ser que hoje no vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistrio.

187. CLARICE LISPECTOR. O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro o que ningum lhe ensinara. Trabalhava numa pequena calada de cimento em sombra, junto ltima janela do poro. Quando queria com muita fora ia pela estrada at ao rio. Numa de suas margens, escalvel embora escorregadia, achava-se o melhor barro que algum poderia desejar: branco, malevel, pastoso: frio. S em peg-lo, em sentir sua frescura delicada, alegrezinha e cega, aqueles pedaos timidamente vivos, o corao da pessoa se enternecia mido quase ridculo. Virgnia cavava com os dedos aquela terra plida e lavada na lata presa cintura iam se reunindo os trechos amorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os ps descalos e ela mexia os dedos midos com excitao e clareza. As mos livres, ela ento cuidadosamente galgava a margem at a extenso plana . No pequeno ptio de cimento depunha a sua riqueza. Misturava o barro gua, as plpebras frementes de ateno concentrada, o corpo escuta, ela podia obter uma poro exata de barro e de gua numa sabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada. Conseguia uma matria clara. e tenra de onde se poderia modelar um mundo. Como, como explicar o milagre... Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, no se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu no sou nada, no tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedir de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que no sou nada. Era menos que uma viso, era uma sensao no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e gua e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difcil, frgil e tensa; sentia em alguma coisa como o que no se v de olhos fechados. Mas o que no se v de olhos fechados tem uma existncia e uma fora, como o escuro, como a ausncia compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabea. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distrada pela sua realidade sem reconhec-la; como uma criana, como uma pessoa. Depois de obtida a matria, numa queda de cansao ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Ento ia vivendo para a frente como uma menina. Um dia, porm, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que no se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz esgazeada, fugaz, vazia, mas no ntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma s coisa, um interesse que fazia o corao acelerar-se sem ritmo... de sbito, como era vago viver. Tudo isso tambm poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escurido fresca sobre o dia morno. Mas s vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o ptio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianas, cavalos, uma me com um filho, uma me sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitrio do Brejo Alto, uma moa olhando... Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. s vezes alta como uma rvore alta, mas no eram rvores, m:to eram nada...s vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas srio e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela j soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que no existia!... Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ningum lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no cho, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, no enrugava, no rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e mido. E ela prpria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rpidas, quase como se fossem se desmanchar e isso era como se elas fossem se movimentar. Olhava para o boneco imvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa fora viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperana, numa fora de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora no soubesse o que, talvez. Sim ela s vezes possua um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a fora e o cansao era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no corao: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rpido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso e isso poderia ser perigoso ela encostava um dedo apenas, um dedo plido, polido e transparente, um dedo trmulo de direo. No mais agudo e dodo do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma sua sensao. Assim juntara uma procisso de coisas midas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos s vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, tambm como os santos. Virgnia podia fit-las uma manh inteira, que seu amor e sua surpresa no diminuiriam. Bonito... bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num mpeto imperceptvel e doce. Ela observava:mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ningum poderia tentar aperfeio-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles s pudessem se aperfeioar por si mesmos, se isso fosse possvel. As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram plidos. Se ela queria sombre-los no o conseguia com o auxlio da cor, e por fora dessa deficincia aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino trao de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro terra, obtinha ainda outro material menos plstico, porm mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CU? Nem comear podia! No queria nuvens o que poderia obter, pelo menos grosseiramente mas o cu, o cu mesmo, com sua existncia, cor solta, ausncia de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matria mais leve que no pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas. E s vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfcie lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranqila.

188. CLARICE LISPECTOR. Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tric, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde comeou a andar. Recostou-se ento no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfao. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaosa, o fogo enguiado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mo, no outras, mas essas apenas. E cresciam rvores. Crescia sua rpida conversa com o cobrador de luz, crescia a gua enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifcio. Ana dava a tudo, tranqilamente, sua mo pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as rvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua fora, inquietava-se. No entanto sentia-se mais slida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artstico encaminhara-se h muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a ntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passvel de aperfeioamento, a cada coisa se emprestaria uma aparncia harmoniosa; a vida podia ser feita pela mo do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doena de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que tambm sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legio de pessoas, antes invisveis, que viviam como quem trabalha com persistncia, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltao perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportvel. Criara em troca algo enfim compreensvel, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera. Sua precauo reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da famlia distribudo nas suas funes. Olhando os mveis limpos, seu corao se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida no havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saa ento para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da famlia revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianas vindas do colgio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqila vibrao. De manh acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os mveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das razes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera. O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais mido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instvel. Ana respirou profundamente e uma grande aceitao deu a seu rosto um ar de mulher. O bonde se arrastava, em seguida estacava. At Humait tinha tempo de descansar. Foi ento que olhou para o homem parado no ponto. A diferena entre ele e os outros que ele estava realmente parado. De p, suas mos se mantinham avanadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiana? Alguma coisa intranqila estava sucedendo. Ento ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmos viriam jantar o corao batia-lhe violento, espaado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que no nos v. Ele mascava goma na escurido. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigao fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impresso de uma mulher com dio. Mas continuava a olh-lo, cada vez mais inclinada o bonde deu uma arrancada sbita jogando-a desprevenida para trs, o pesado saco de tric despencou-se do colo, ruiu no cho Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava plida. Uma expresso de rosto, h muito no usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensvel. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigao e avanava as mos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida. Poucos instantes depois j no a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrs para sempre. Mas o mal estava feito. A rede de tric era spera entre os dedos, no ntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; no sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha msica, o mundo recomeava ao redor. O mal estava feito. Por qu? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecvel... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vrios anos ruam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus prprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mnimo equilbrio tona da escurido e por um momento a falta de sentido deixava-as to livres que elas no sabiam para onde ir. Perceber uma ausncia de lei foi to sbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que no o eram. O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma fora e vozes mais altas. Na Rua Voluntrios da Ptria parecia prestes a rebentar uma revoluo, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguido. Em cada pessoa forte havia a ausncia de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calada, uma mulher deu um empurro no filho! Dois namorados entrelaavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana cara numa bondade extremamente dolorosa. Ela apaziguara to bem a vida, cuidara tanto para que esta no explodisse. Mantinha tudo em serena compreenso, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaava tudo isso. E atravs da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de nusea doce, at a boca. S ento percebeu que h muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas dbeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento no conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite. Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu corao batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portes do Jardim Botnico. Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. No havia ningum no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo. A vastido parecia acalm-la, o silncio regulava sua respirao. Ela adormecia dentro de si. De longe via a alia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia rudos serenos, cheiro de rvores, pequenas surpresas entre os cips. Todo o Jardim triturado pelos instantes j mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e ntimo a sobressaltou voltou-se rpida. Nada parecia se ter movido. Mas na alia central estava imvel um poderoso gato. Seus plos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu. Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balanavam, as sombras vacilavam no cho. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter cado numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela comeava a se aperceber. Nas rvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no cho caroos secos cheios de circunvolues, como pequenos crebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as guas. No tronco da rvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqila. O assassinato era profundo. E a morte no era o que pensvamos. Ao mesmo tempo que imaginrio era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dlias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abrao era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As rvores estavam carregadas, o mundo era to rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianas e homens grandes com fome, a nusea subiu-lhe garganta, como se ela estivesse grvida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara at ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitrias-rgias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva no lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposio era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabea rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era to bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os ps a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delcia. Era fascinante, e ela sentia nojo. Mas quando se lembrou das crianas, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamao de dor. Agarrou o embrulho, avanou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portes fechados, sacudia-os segurando a madeira spera. O vigia apareceu espantado de no a ter visto. Enquanto no chegou porta do edifcio, parecia beira de um desastre. Correu com a rede at o elevador, sua alma batia-lhe no peito o que sucedia? A piedade pelo cego era to violenta como uma nsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecvel, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lmpada brilhava que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara at agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraava. Apertou-o com fora, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximao da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraou o filho, quase a ponto de machuc-lo. Como se soubesse de um mal o cego ou o belo Jardim Botnico? agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demnio da f. A vida horrvel, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criana entre os braos, ouviu o seu choro assustado. Mame, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu corao crispou-se. No deixe mame te esquecer, disse-lhe. A criana mal sentiu o abrao se afrouxar, escapou e correu at a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o. Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? No havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a gua escapava. Estava diante da ostra. E no havia como no olh-la. De que tinha vergonha? que j no era mais piedade, no era s piedade: seu corao se enchera com a pior vontade de viver. J no sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botnico, tranqilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia parte forte do mundo e que nome se deveria dar a sua misericrdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irm. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia gua nas suas mos ardentes. Ah! era mais fcil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois no fora verdadeira a piedade que sondara no seu corao as guas mais profundas? Mas era uma piedade de leo. Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, tambm sabia por qu. A vida do Jardim Botnico chamava-a como um lobisomem chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto no era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar. Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogo, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a gua - havia o horror da flor se entregando lnguida e asquerosa s suas mos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o p a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mnimo corpo tremia. As gotas d'gua caam na gua parada do tanque. Os besouros de vero. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabea, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite clida. Uma noite em que a piedade era to crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A f a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos. Depois o marido veio, vieram os irmos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmos. Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avio estremecia, ameaando no calor do cu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Tambm suas crianas ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era vero, seria intil obrig-las a dormir. Ana estava um pouco plida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a famlia. Cansados do dia, felizes em no discordar, to dispostos a no ver defeitos. Riam-se de tudo, com o corao bom e humano. As crianas cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianas j estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria at envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianas. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor sasse o mosquito, que as vitrias-rgias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botnico. Se fora um estouro do fogo, o fogo j teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do caf derramado. O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: No foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior ateno. Depois atraiu-a a si, em rpido afago. No quero que lhe acontea nada, nunca! disse ela. Deixe que pelo menos me acontea o fogo dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem fora nos seus braos. Hoje de tarde alguma coisa tranqila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorstico, triste. hora de dormir, disse ele, tarde. Num gesto que no era seu, mas que pareceu natural, segurou a mo da mulher, levando-a consigo sem olhar para trs, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no corao. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

189. CLUDIO MELLO E SOUZA. OS MAIAS, DE EA DE QUEIROZ. UMA TRAGDIA MODERNA. Em junho de 1888, os livreiros portugueses comearam a vender os primeiros dos cinco mil exemplares da primeira edio de Os Maias. tiragem que impressiona ainda hoje. O que dizer ento naqueles tempos de um Portugal pouco habitado e no muito lido? Foi uma temeridade, mas audcia dos editores correspondeu a curiosidade dos leitores e o interesse da crtica. E o livro do desconfiado Ea de Queiroz transformou-se, desde ento, num sucesso de vendas. E assim (ou voltou a ser) hoje em dia. Andou uns tempos esquecido, verdade, mas bastou que a televiso fosse buscar inspirao (palavra perigosa) no velho romance, para que as novas reedies sumissem, recm-chegadas s livrarias, pouco antes do Natal, e fossem totalmente consumidas pouco antes do novo ano. Ea de Queiroz foi impreciso e modesto ao dar a Os Maias o subttulo "episdios da vida romntica". Na verdade, o seu mais famoso romance uma tragdia, tal como a entendia Sfocles quando, j na maturidade, comps o seu dipo. Uma tragdia burguesa, mas quand mme uma tragdia, pois que l est a grave transgresso moral, cometida em completa inconscincia por seus dois personagens centrais Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Da Maia, ambos; irmos, apaixonados e incestuosos ambos, e belos e trgicos. Invejo quem agora, instigado pela minissrie, vai ler esse livro pela primeira vez. Ter prazer nico e irreproduzvel. As releituras que ho de vir, mais tarde, serviro de consolo, mas no de substituto. Esse prazer estar certamente na elegncia barroca da forma e no desenvolvimento astucioso do entrecho. Mas estar tambm, ou principalmente, nos admirveis retratos que Ea faz de seus tipos principais, com a elegncia e a mincia de um genial pintor romntico, mas com "o seu olho Balzac". A comear no por um tipo, mas por uma casa, mais exatamente a "casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875", que surge, penumbrosa e prenunciadora, logo na primeira frase do livro, e que era conhecida como a casa do ramalhete "ou, mais simplesmente, o Ramalhete". Ento, lemos, j encantados: "Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casaro de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tmida fila de janelinhas abrigadas beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residncia eclesistica que competia a uma edificao dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colgio de jesutas". Ai est o cenrio da tragdia. O Ramalhete , pela ordem de entrada, o primeiro personagem em cena, com suas paredes sempre fatais quela antiga famlia da Beira, to rica e to infeliz. E ser no Ramalhete e em torno dele que vamos ser apresentados aos personagens nos quais Ea de Queirs se insinua, para nos falar atravs de suas muitas vozes. Seus retratos eram sempre perfeitos e, ao longo da trama, coerentes. A nica personagem que o confunde Maria Eduarda, por sua beleza de deusa. Quando ela aparece e como custa a aparecer! , " alta, loura, com um meio vu muito apertado e muito escuro que realava o esplendor da sua carne";algumas pginas adiante, Carlos a rev e nota que "os cabelos no eram louros, como julgara de longe, claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa". Falei de retratos e o mais correto falar de auto-retratos. Se Fernando Pessoa tinha seus heternimos, Ea tinha os seus "eus", como diz Beatriz Berrini, que eram muitos e muito se pareciam. Ele nos fala pela voz severa do velho Afonso da Maia, que "era um pouco baixo, macio, de ombros quadrados e fortes...o cabelo branco todo cortado escovinha, e a barba de neve, aguda e longa", a reclamar melhores destinos para o seu lamentvel pas e a cobrar, do neto to promissor, menos diletantismo e mais realizaes. Fala-nos tambm com as palavras cruis e desassombradas do neto Carlos, "um formoso e magnfico moo, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mrmore sob os anis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistveis olhos do pai, dum negro lquido, ternos como os dele e mais graves", e que costumava vociferar: "A nica coisa a fazer em Portugal plantar legumes, enquanto no h uma revoluo que faa subir superfcie alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre l no fundo". Ao que o av respondia, j impaciente com esse diletantismo do neto, como se falasse em nome do autor: Pois ento faam vocs essa revoluo. Mas pelo amor de Deus, faam alguma coisa! Mas nenhum de seus "eus"foi mais ele mesmo que Joo da Ega, ou Joo da Ea, ou o Ega de Queirs, que todos esses trocadilhos, embora fceis, tm cabimento e justeza. Talvez s o Fradique Mendes se lhe possa comparar, mas esse no vem ao caso, agora, porque no personagem dOs Maias. Eram "eus" idealizados e muita vez caricaturados, mas que, no fundo, o reproduziam com verdade e o exprimiam com coerncia. Ao Ega, deu-lhe o Ea a existncia que gostaria de ter tido:discutido e admirado, com a me devota, rica e viva, a lhe garantir o presente e o futuro, permitindo-lhe desfrutar as sofisticaes, as intimidades e os desvelos de uma famlia de aristocratas, como era a dos Maias; mais alguns amores ardentes e com sade razoavelmente forte para gozar, sem medos nem cuidados, o prazer das boas comidas e dos bons vinhos, dos conhaques e das guas ardentes, das noitadas com espanholas e das devassides vespertinas, com amantes de luxo. concluso a que se chega no momento em que Ea retrata o Ega e se auto-retrata: cheio de verve e de irreverncia, de frases retumbantes e ditos irnicos, um talento amaldioado, temido e exaltado. Vejamos o Ega pelos olhos do Ea: "O esforo da inteligncia (...) terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os plos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito tinha alguma coisa de rebelde e de satnico". Ora, se no esse ou quase esse o retrato do prprio Ea, tal como captado na clebre caricatura que dele fez Rafael Bordalo Pinheiro, ento j no sei ver nem distinguir. ainda o Ega que, em momento de impacincia com a mediocridade e a hipocrisia da sociedade burguesa, e como que falando em nome de seu criador, deixa Lisboa e corre para restaurar-se no interior, lanando a Carlos e a Craft, os dois grandes amigos que o foram acompanhar diligncia, esta frase aterradora: Sinto-me como se a alma me tivesse cado a uma latrina! Preciso um banho por dentro. Tal como Carlos da Maia, tambm Joo da Ega era um diletante. Ambos tm revoltas pouco profundas e de pouca durao. As suas grandes promessas de realizao pessoal e de transformao do mundo terminam por desmaiar no culto quase religioso do luxo e do tdio. Passam a representar o que mais incomodava o inconformado Ea: a renncia e o conformismo. com mos hbeis, orgulhosas e brilhantes que Ea os faz florescer em Coimbra, em tempos de sonho e de estudo, a prometer insubmisso e luta. com olhar de desalento e pessimismo que Ea os deixa vencidos e melanclicos, a "correr desesperadamente pela rampa de Santos", atrs de um bonde e de um jantar, "sob a primeira claridade do luar que subia". Tal como o prprio Ea se sentia, Ega e Carlos eram, naquele momento, dois "vencidos da vida". E assim a tragdia se consuma e nos obriga a repensar o ser humano com inquietao e desconfiana.

190. CLUDIO MELLO E SOUZA. OS MAIAS, DE EA DE QUEIROZ. EA, PINTOR E FOTGRAFO. Foi ainda no primeiro ano clssico, e hoje nem sei mais ao que equivale essa antigualha, para me valer de palavra to castiamente portuguesa. O ano era o de... deixemos isso pra l. Por dever curricular, vivia preso, s ordens do professor Mrio Barreto, entre as paredes severas de Alexandre Herculano, que impressionavam mas sufocavam, e as extravagncias sintticas de Camilo Castelo Branco, que maavam a leitura e emperravam o entrecho (como vem, insisto em castigar o estilo, um pouco maneira daqueles dois). Eles muito me ilustravam, mas pouco ou nada me comoviam. A minha primeira grande e devastadora comoo literria s me veio mesmo, pouco depois, com a leitura de Ea e, principalmente, com a travessia inaugural dOs Maias. Ainda me lembro das aflies que passei a sentir quando, contando as pginas que faltavam, me dei conta de que me aproximava do desfecho da tragdia e tragdia ainda maior! que chegava ao fim do livro. No vou fazer aqui e agora o inventrio das virtudes e grandezas literrias que me seduziram e ainda seduzem em Ea no romancista, no cronista, no memorialista, no jornalista, no polemista e o que chega a ser estranho em se tratando de um literato! no pintor e no fotgrafo que ele foi, com olho sagaz e mos precisas. Fico apenas e bastante com esses dois ltimos. Sim, porque entre as mais fortes impresses que me ficaram, dessa primeira leitura, e que se repetiram, nas seguidas releituras, estavam os personagens que ele retratava, e as paisagens e prdios que reproduzia, dos mais elevados aos mais torpes, das mais belas s mais miserveis, dando-lhes vida e paixo, velhacaria e nobreza, ventura e tragdia. No toa que essa obra, mesmo na perigosa forma de uma adaptao, chega TV, como j poderia ter chegado ao cinema. Porque ela , antes de tudo, mas no acima de tudo, uma visualizao. No h descries decorativas. So todas lindssimas, mas todas definidoras de uma circunstncia, de um carter, de um trecho de paisagem significante, que completa a psicologia de um tipo como o de Afonso da Maia, ao contemplar o Tejo, na sua volta ao Ramalhete e a Lisboa. Quando tive a idia de lhes apresentar os personagens dOs Maias, tal como Ea os viu e os escreveu, pensei se no estaria a desmembrar e a apequenar o romance. Conclu que no. Primeiro, porque esses retratos so quase autnomos. Tm valor literrio em si mesmos. Podem, por isso, ser entendidos e admirados fora do contexto. Depois, porque, por fora de atrao, esses retratos acabaro por convenc-los a conhecer o grande painel de que fazem parte, esse empolgante pico das paixes humanas a que o Ea dedicou oito anos de cuidados e talentos todos recompensados. E agora, chega de papo e vamos prosa. Comecemos pelo cenrio da tragdia e, depois, vamos em frente, a mostrar os retratos. No todos, que so muitos, mas os principais ao menos. 1 - O Ramalhete: A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhana da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casaro de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tmida fila de janelinhas abrigadas beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residncia Eclesistica que competia a uma edificao do reinado da Sra. D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um Colgio de Jesutas. O nome de Ramalhete provinha decerto dum revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar herldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassis atado por uma fita onde se distinguiam letras e nmeros duma data. 2 - Os Maias. Os Maias eram uma antiga famlia da Beira, sempre pouco numerosa, sem linhas colaterais, sem parentelas e agora reduzida a dois vares, o senhor da casa, Afonso da Maia, um velho j, quase um antepassado, mais idoso que o sculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Afonso se retirara definitivamente para Santa Olvia, o rendimento da casa excedia j cinqenta mil cruzados: mas desde ento tinham-se acumulado as economias de vinte anos de aldeia; viera tambm a herana dum ltimo parente, Sebastio da Maia, que desde 1830 vivia em Npoles, s, ocupando-se de numismtica. 3 - Afonso da Maia: Afonso era um pouco baixo, macio, de ombros quadrados e fortes: e com a sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo branco todo cortado escovinha, e a barba de neve aguda e longa lembrava, como dizia Carlos, um varo esforado das idades hericas, um D. Duarte de Menezes ou um Afonso de Albuquerque.(...) Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela idade, de vero ou de inverno, ao romper do sol, estava a p, saindo logo para a quinta, depois da sua boa orao da manh, que era um grande mergulho na gua fria. (...) Em Santa Olvia as chamins ficavam acesas at abril; depois ornavam-se de braadas de flores, como um altar domstico; e era ainda a, nesse aroma e nessa frescura, que ele gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tcito, ou o seu querido Rabelais. 4 - Carlos da Maia. Era decerto um formoso e magnfico moo, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mrmore sob os anis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistveis olhos do pai, dum negro lquido, ternos como o dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanha-escura, rente na face, aguada no queixo o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascena. 5 - Maria Eduarda (I) (quando ela aparece, pela primeira vez, porta do Hotel Central): ... uma senhora alta, loura, com um meio vu muito apertado e muito escuro que realava o esplendor de sua carnao ebrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem-feita, deixando atrs de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Gnova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz de suas botinas. 6 - Maria Eduarda (II) (quando, afinal, Carlos da Maia conhece-a, pessoalmente): Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de si. Foi como uma inesperada apario e vergou profundamente os ombros, menos a saud-la, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrasar-lhe o rosto. Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta, um colarinho direito de homem, um boto de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um pequeno leno de renda. (...) E depois dum instante de silncio, que lhe pareceu profundo, quase solene, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, dum tom de ouro que acariciava. (...) Os cabelos no eram louros, como julgara de longe claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura de seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muito doce. 7 - Pedro da Maia:O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda [Ea refere-se mulher de Afonso, me de Pedro, tambm Maria Eduarda], tendo pouco da raa, da fora dos Maias; a sua linda face oval dum trigueiro clido, dois olhos maravilhosos e irresistveis, prontos sempre a umedecer-se, faziam-no assemelhar a um belo rabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, a flores, a livros. 8 - Maria Monforte: Nunca Maria Monforte aparecera mais bela: tinha uma dessas toilettes excessivas e teatrais que ofendiam Lisboa, e faziam dizer s senhoras que ela se vestia "como uma cmica". Estava de seda cor de trigo, com duas rosas amarelas e uma espiga nas tranas, opalas sobre o colo e nos braos;e estes tons de seara madura batida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabelos, (...) banhando as suas formas de esttua, davam-lhe o esplendor duma Ceres. 7- Joo da Ega: Joo da Ega, com efeito, era considerado no s em Celorico, mas tambm na Academia, que ele espantava pela audcia e pelos ditos, como o maior ateu, o maior demagogo que jamais aparecera nas sociedades humanas. Isto lisonjeava-o: por sistema exagerou seu dio divindade, e a toda Ordem social:queria o massacre das classes mdias, o amor livre das fices do matrimnio, a repartio das terras, o culto de Satans. O esforo da inteligncia neste sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os plos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satnico, (...) perorando com os seus gestos aduncos de Mefistfeles em verve... 9 - Eusebiozinho: Do fundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha, o Eusebiozinho de Santa Olvia, estendia tambm o pescoo, afogado numa gravata de vivo de merino negro e sem colarinho, sempre macambzio, mais molengo que outrora, com as mos enterradas nos bolsos to fnebre que tudo nele parecia complemento do luto pesado, at o preto do cabelo chato, at o preto das lunetas de fumo. 10 - Raquel Cohen: Era alta, muito plida, sobretudo s luzes, delicada de sade, com um quebranto nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lrio meio murcho: a sua maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meio solta sobre as costas, como num desalinho de nudez. Dizia-se que tinha literatura , e fazia frases. O seu sorriso lasso, plido, constante, dava-lhe um ar de insignificncia. O pobre Ega adorava-a. 11 - Toms de Alencar: E apareceu um indivduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com a face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, romnticos bigodes grisalhos: j todo calvo na frente, os anis fofos de uma grenha muito seca caam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lgubre. (...) E parecia mais lgubre com a sua grenha de inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do chapu, a sobrecasaca coada e malfeita colando-se-lhe lamentavelmente s ilhargas. 12 - Dmaso Salcede: Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no div de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de provncia, de camlia ao peito e plastron azul-celeste. (...) Ega apresentou a Carlos o Sr. Dmaso Salcede, e mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literrio e satnico do absinto (...) Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera ali, naquele moo gordo e bochechudo, sem o saber, uma adorao muda e profunda; o prprio verniz dos seus sapatos, a cor das suas luvas eram para o Dmaso motivo de venerao, e to importantes como princpios. (...) E as suas perguntas foram terrveis. O senhor Maia achava chic ter um cab ingls? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que quisesse ir passar o vero l fora, Nice ou Trouville? Depois ao sair, muito srio, quase comovido, perguntou ao senhor Maia (se o senhor Mais no fazia segredo) quem era o seu alfaiate. 13 - A Condessa de Gouvarinho: Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil coisas; em certos movimentos, o cabelo crespamente ondeado, tomava tons de ouro vermelho: e em torno dela errava, no calor do gs e da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de preto, com uma gargantilha de rendas negras, Valois, afogando-lhe o pescoo onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um arzinho de provocao e de ataque. 14 - O Craft (De um dilogo entre Joo da Ega e Carlos da Maia): Ega teve um grande gesto. Era indispensvel conhecer o Craft! O Craft era simplesmente a melhor coisa que havia em Portugal... um negociante do Porto, no ? Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face, enojado de tanta ignorncia. O Craft filho de um clergyman da igreja inglesa do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut ou da Austrlia, um nababo, que lhe deixou fortuna. Uma grande fortuna. Mas no negocia. D largas ao seu temperamento byroniano, o que faz (...): coleciona obras de arte. (...) Carlos desceu tambm do coup, achou-se em face de um homem baixo, louro, de pele rosada e fresca, e aparncia fria. Sob o fraque correto percebia-se-lhe uma musculatura de atleta. 15 - O Cruges (ainda o mesmo dilogo): ...um Cruges, que o Ega no conhecia, um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de gnio... 16 - O conde de Steinbroken e outros ntimos do Ramalhete (sempre o mesmo dilogo): No Ramalhete, o av fazia o seu whist com os velhos parceiros. Ia o Diogo, o decrpito leo, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes...Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estourar de sangue, espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken... No conheo. Refugiado? Polaco? No, ministro da Finlndia...Queria-nos alugar umas cocheiras e complicou essa simples transao com tantas finuras diplomticas, tantos documentos, tantas cousas com o selo real da Finlndia, que o pobre Vilaa, aturdido, para se desembaraar, remeteu-o ao av. O av, desnorteado tambm, ofereceu-lhe as cocheiras de graa. Steinbroken considera isso um servio feito ao rei da Finlndia, Finlndia; vai visitar o av, em grande estado... Isso sublime! O av convida-o a jantar...E como o homem muito fino, um gentleman, entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma autoridade no whist, o av adota-o. COISAS DO B. B. H muito tempo, quando o Banco do Brasil era considerado o maior banco rural do mundo, mantinha em sua Carteira Agrcola um quadro de avaliadores (tambm conhecidos por "fiscais") que eram pessoas com conhecimentos na rea, contratadas para verificar "in loco" se os pedidos de financiamento estavam em ordem, etc, etc. Ocorre que nem sempre eram pessoas com bom nvel de escolaridade. O que valia era o conhecimento prtico. Da nos relatrios constarem algumas "batatadas" que alguns gaiatos, como no poderia deixar de ser, anotaram para gudio de todos ns: - "O sol castigou o mandiocal. Se no fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que no vieram". - "Muturio triste e solitrio pelo abandono da mulher no pode produzir". - "Acho bom o Banco suspender o negcio do cliente para no ter aborrecimentos futuros". - "Vistoria perigosa. As chuvas pluviais da regio inundaram o percurso, que foi todo feito a muito custo". - "Muturio faleceu. Viva continua com o negcio aberto". - "O contrato permanece na mesma, isto , faltando fazer as cercas que ainda no ficaram prontas". - "Foi a vistoria feita a lombo de burro com quase 8 km". - "A mquina eltrica financiada era toda manual e velha". - "Financiado executou trabalho braalmente e animalmente". - "O curral todo feito a capricho, bem parecendo um salo de baile a fantasia". - "Visitamos o aude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos que o mesmo estava vazio". - "Os anexos seguem em separado". - "A lavoura nada produziu. Muturio fugiu montado na garantia subsidiria". - "Era uma ribanceira to ribanceada que se estivesse chovendo e eu andasse a cavalo e o cavalo escorregasse, adeus fiscal!". - "Tendo em vista que o muturio adquiriu aparelhagem para inseminao artificial e que um dos touros holandeses morreu, sugerimos que se fizesse o treinamento de uma pessoa para tal funo". - "Assunto: Cobra. Comunico que faltei ao expediente do dia 14 em virtude de ter sido mordido pela epigrafada".

191. CORA CORALINA. CONCLUSES DE ANINHA. Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roa tmida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, l longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comrcio pedindo um auxlio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas. O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cdula, entregou sem palavra. A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar e no abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais? Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Da mesma forma aquela sentena:"A quem te pedir um peixe, d uma vara de pescar." Pensando bem, no s a vara de pescar, tambm a linhada, o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poo piscoso e ensinar a pacincia do pescador. Voc faria isso, Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido no morreria de fome? Concluso: Na prtica, a teoria outra.

192. CORA CORALINA. MINGA, ZIO DE PRATA. Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote. Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado... Passasse quieto e bonzinho. No se engraasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escndalo de mulher-dama no dava; nunca deu; tambm, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Famlia de respeito podia passar toda hora, no via nada. Macho, porm, que no se fizesse de besta... Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestgio. Duas irms, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zio de Prata. J a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele s. Tambm eram conhecidas por As Cmodas, na roda da macheza. Minga era durona. No tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa... Um que tentou a rasteira, ela alcanou j fora do beco e deixou sem as calas no meio da rua. Tinha mesmo um bugalho branco, saltado, e era vesga do outro. Espinhenta, de cabelo sarar, mulatona encorpada, de bacia estreita, peito masculino, de mamilos duros, musculosa; servindo bem no ofcio, de fala curta, brao forte, mos grandes. Um dia, voltava ela do mercado com um frango na mo, deu de cara com a irm chorando, de cara amassada e beio partido. Tinha entrado na peia do amigo o Iz da Bina -toa, ruindade de pingado ordinrio. Dei'st disse ela sai fora e deixa por minha conta. ia, vai depen esse frango pra nis na casa da vizinha e s entra quando eu cham... Dondoca foi fazer o mandado. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango, quando chegou o Iz da Bina, todo mandante, de palet preto, gravata borboleta, cala engomada. Entrou no quarto e gritou autoritrio pela Dondoca. Quem apareceu foi a Zio de Prata, de manga arregaada e porrete na mo. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. Bateu com sustncia, sovou com flego, quebrou as carnes, moeu bem modo. No fim, jogou fora o cacete e entrou de corpo. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no cho. Sentou em cima e esmurrou vontade. Quebrou as ventas, partiu dois dentes, entrou no olho... xingou nomes... desses de ouvindo dizer o Antnio Meiaquarta, tipo de rua, rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes... Zio de Prata sabe cinco contos... apanhei dela, bateu em mim... tou descarado, apanhei dela... mui praceada... ta mui sagais. Depois de ver o cabra mole, estirado, fungando, Zio de Prata assungou a saia, abriu as pernas e mijou na cara de Iz da Bina. Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cmodas.

193. CORA CORALINA. O LAMPIO DA RUA DO FOGO. Ali, naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio, morava Seu Maia, casado com Dona Placidina, numa casa de beirais, janelas virgens da profanao das tintas, porta da rua e porta do meio. Porto do quintal, abrindo no velho cais do Rio Vermelho. Isso, h muito tempo, antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada de platibanda. Seu Maia era muito conhecido em Gois e era porteiro da Intendncia. Boa pessoa. Servial, amigo de todo mundo e companheiro de boas farras. Gostava de uma pinguinha em doses dobradas, dessas antigas que pegavam fogo. Ento, se misturava vinho, conhaque e aniseta; s voltava para casa carregado pelos companheiros, que o entregavam aos cuidados da mulher. Esta, acostumada, embora com a sina ruim, como dizia, no poupava a descaladeira quando recebia o marido naquele fogo, arrastando a lngua, de pernas moles, isto quando no virava valente, quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia. Dona Placidina era muito prtica, nessas e noutras coisas... Ajeitava logo um caf amargo, misturado com frutinhas de jurubeba torrada, que o marido engolia careteando e o empurrava para a rede, onde roncava at pela manh ou se agitava e falava a noite inteira. Coitada de Dona Placidina, comentavam as amigas. Seu Maia um santo homem sem esse diabo da pinga. E ensinavam remdios, simpatias, responsos, rezas fortes. Simpatia que dera certo em outros casos, era nada para ele. Remdios? Inofensivos como a gua do pote. Os prprios santos se faziam desentendidos dos responsos, velas acesas e jaculatrias recitadas. Dona Placidina, cansada daquele marido incorrigvel, acabou botando o corao ao largo, embora achasse, no ntimo, que melhor seria uma boa hora de morte para ela... ou antes, para o marido, esta parte no subconsciente. Naquele dia, como a dose da boa fosse mais pesada, Seu Maia, que j vinha se ressentindo do fgado com passamentos e vista escura, se achou pior. Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter entre as cobertas. De nada valeu a chazada caseira. No dia seguinte, chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doena do corao. Receitou um purgativo e uma poo. Seu Maia piorou. Dona Placidina se desdobrou em cuidados especiais. Esqueceu o defeito do marido, as desavenas, os pratos quebrados e passou a sentir, antecipadamente, os percalos da viuvez. Os amigos no arredaram. Faz-se a conferncia mdica das vizinhas prestativas. Escalda-ps, benzimentos, sinapismo, nada deu jeito. Nem valeu promessa de muito boa cera ao senhor So Sebastio. Seu Maia morreu. Os companheiros tomaram conta do morto. Levaram o corpo.Vestiram-lhe o fato preto de sarjo, que tinha sido do casamento. Calaram meias, ajuntaram-lhe as mos no peito. Pearam as pernas e passaram um leno branco, bem apertado, no queixo. Chamaram um canap, largo de palhinha, para o meio da sala, deitaram o cadver, cobriram com um lenol. Cuidou-se do pucarinho de gua benta, com seu ramo de alecrim. Acenderam-se as quatro velas e, nos ps do morto, botou-se um caco de telha com brasa e gros de incenso. Era assim que se arrumava defunto em Gois, antigamente. Os amigos foram chegando, tomando posio e comeou o velrio. Dona Placidina, entregue aos cuidados das amigas, mal escapava de uma vertigem, caa noutra. Afinal, fora de chs de arruda, de casca de tomba e de gua Florida de Murray, voltou a si e, como era decidida e de esprito prtico, botou de parte o abatimento e passou a cuidar do pessoal que fazia sentinela. Caf com biscoito pelas 10 horas. Mais tarde, mexido de lombo de porco e ovos fritos com farofa, comido na cozinha, e requento quando a noite esfriou mais e os galos passaram amiudar. Entre a diligncia caseira e suspiros puxados, a viva, de vez em quando, levantava a ponta do lenol que cobria o marido e enxugava umas lgrimas hipotticas. Bom marido, lastimava e, l consigo, no fosse a pinga, era a falta que tinha... No dia seguinte, veio o caixo com tampa solta, como de costume. Agasalharam ali o defunto. Chegaram mais amigos e mais comadres. Dona Placidina louvava as virtudes conjugais do finado, em crises nervosas de choro seco sem lgrimas, o choro mais difcil que existe. A cada visita que chegava, com seu carinhoso abrao e formalssimos meus psames; havia uma exaltao no choro ressecado da viva. Pelas duas horas, comeou a fazer vento de chuva e um trovo surdo se ouviu ao lado da Santa Brbara. Como o caixo teria mesmo de ser carregado na fora dos braos, os amigos resolveram apressar o saimento, antes que o tempo enfarruscado se decidisse em gua. Vento da Santa Brbara chuva certa no So Miguel. E enterro debaixo de chuva era a coisa mais estragada que podia acontecer em Gois. Dona Placidina se debruou em cima do morto. No queria deixar sair Seu Maia, coitado... As amigas com chazadas de alecrim. Os amigos tomaram conta das aladas e ganharam a rua. Entraram na outra, que era Direita, naquele tempo. Passaram a ponte da Lapa, subiram e entraram no Rosrio para encomendao do corpo. Os sinos das igrejas, todas, dobrando a lamentao de finados. Pela inteno do morto, cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas, quanto quisesse. Ainda que os sinos tocam como a gente quer, alegres ou soturnos. Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. Essas duas palavras, em Gois, delimitavam as circunstncias da idade, sem mais explicaes. Anjinho era criana mesma ou moa virgem e, defunto, gente pecadora. Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alas, que o morto estava pesado. Com a doena curta, nem tivera tempo de emagrecer. Iam depressa, que a chuva j tinha posto uma carapua branca no cocuruto do Canta Galo. Na frente, um popular, afeito quele prstimo, carregava a tampa que s ia ser colocada na beira da cova. Outros levavam os dois tamboretes, tradicionais, para o descanso do atade, quando se trocavam os que iam carregando. Os msicos, de fardo escuro, tocavam um funeral muito triste. Sendo de notar que no havia enterro em Gois sem acompanhamento de msica, somente os muito pobrezinhos. Na rabeira, a molecada da rua. Queriam ver o caixo descer no buraco, se divertiam com aquilo. Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia, existiu, durante muito tempo, um poste de lampio antigo, saliente, fora de linha, puxando mesmo para o meio da rua. Era um tropeo. Coisa embaraosa. No foram poucos os esbarros, cabeadas, encontres verificados ali. Enterros que subiam, j de longe, comeavam a torcer direita para se desviar do lampio, que no tinha outra conseqncia seno atrapalhar. Naquele dia, com a aflio da chuva que vinha perto e com o peso do caixo que era demais, ningum se lembrou do poste. Foi quando o compadre Mendanha, que ia na ala dianteira pela esquerda, pisou de mau jeito num calhau rolio, falseou o p, fraquejou a perna e... bumba! L se foi o caixo bater com toda fora no lampio. Com a violncia do baque, o defunto abriu os olhos, desarrumou as mos e fez fora de levantar o corpo. A essa hora, o pessoal do enterro tinha se desabalado, em doida carreira pela rua abaixo e largado o morto se soltando da laada das pernas. O dia inda estava claro, no era hora de assombrao. Alguns, mais esclarecidos, resolveram voltar e ver de perto o acontecido. Encontraram Seu Maia de p, muito amarelo, escorado no poste, com tremuras pelo corpo e olhando, com desnimo o caixo vazio. Reconheceram, ento, que o mesmo estava vivo e que era preciso voltar com ele para casa. Guardaram o caixo intil na igreja da Abadia e desceram a rua, amparando o ex-morto. Todas as janelas, agora, com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. A meninada na frente, gritava: Evm o defunto... De dentro das casas, os moradores corriam para as portas e s se ouvia: Vem ver, Maricota... vem ver, Joaninha. ia o defunto que evm voltando... Amparado pelos amigos, metido naquele sarjo preto, desusado, calado s de meias, leno na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta. Um portador foi na frente avisar Dona Placidina, daquela ressurreio e conseqente retorno, ao que ela s teve expresso sintomtica: Seja pelo amor de Deus. Seu Maia chegou afinal, entrou, recebendo um abrao de boas-vindas mais ou menos calorosas da mulher. Bebeu um cordial. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia. Este veio. Examinou, apalpou, auscultou, pediu para ver a lngua. Concluiu, com sabedoria, que tinha sido um ataque de catalepsia, muito parecido com a morte, mas que no era morte, no. A providncia tinha sido o lampio do meio da rua, seno teria sido mesmo enterrado vivo. A cidade comentou o caso por muito tempo. Seu Maia foi entrevistado por todos os sensacionalistas da terra gente insuportvel daquele tempo. Muita lngua desocupada levantou a suspeita de que vrios fulanos e sicranos daquele tempo tivessem sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Os letrados foram at o Chernoviz e Langard. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosdia, sobre catalepsia ou morte aparente. Enquanto os comentaristas faziam roda, o doente recuperava a sade. Dona Placidina, muito prtica como sempre, aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia domstica, complicada e cheia de boa dialtica feminina, de que aquilo fora aviso do cu e castigo de Deus... E j pelo choque emocional v l que naquele tempo no havia destas coisas no j pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo, o certo que o homem moderou a bebida. Dona Placidina, no entanto, j havia, no seu foro ntimo, aceitado a idia da viuvez e aquela volta inesperada do marido vivo no melhorou de muito os pontos de vista da ex-viva. Alguns meses depois, Seu Maia adoecia gravemente. Vieram os amigos da primeira viagem. Apareceram as clssicas e inefveis comadres. Deram-se os remdios. Da botica e extrabotica. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Nada serviu. Seu Maia morreu. Seu Foggia ento declarou que, por via das dvidas, s levassem o morto quando comeasse a feder. Fez-se de novo o velrio com todas as regrinhas de costume. Caf com biscoito pelas dez horas. Viradinho de feijo e lingia comidos, com voracidade e discrio na cozinha, e quento forte de canela e gengibre, quando a noite esfriou e os galos amiudaram. Contaram-se casos. Louvaram as virtudes do finado, num breve necrolgio. Passaram a anedotas discretas. Falou-se da carestia da vida, dos erros do governo e se fez a filosofia da morte. A viva chorou, mais ou menos conformada com aquela segunda via. O compadre Mendanha tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo, de regrar o pucarinho de gua benta com seu raminho de alecrim. No dia seguinte, quando perceberam que no mais haveria engano, os amigos ajuntaram as alas e levantaram o caixo. Dona Placidina, muito experiente, despediu-se do morto em soluos alternados. Teimou com as amigas: dessa vez havia de acompanhar, ao menos at a porta. O compadre Mendanha, muito metdico e apegado aos velhos hbitos de sempre pegar caixo pela ala da frente e da esquerda, tomou posio. Outros pegaram pelos lados, adiante saiu a tampa, carregada por um popular e os tamboretes indispensveis, renteando o caixo aberto. Espalhado pelas ruas, o acompanhamento, s de homens. Agrupada com seus instrumentos enlaados de crepes, a banda do funeral. Arrumado o cortejo, Dona Placidina botou o corpo fora da porta e chamou alto: Compadre Mendanha... Escuta, compadre, cuidado com o lampio da Rua do Fogo, viu... No v acontecer como da outra vez.

194. CORA RONI. INICIAO. Nasci em Ardnamurchan, voc no vai conseguir nem pronunciar, quanto mais entender. Mas no faz mal, Maria Clara, porque isso j foi h tanto tempo. Hoje no importa mais. Basta voc saber que fica na Esccia e que um lugar muito frio e muito mido a maior parte do ano, onde as pessoas so tristes e fechadas em si mesmas. Talvez assim voc compreenda por que sou como sou de vez em quando. Ou no, quem sabe. De qualquer forma, tudo isto est muito alm do que precisamos saber um sobre o outro. Um caf? Archibald ergue-se da poltrona devagar, toma cuidado para no derrubar os livros que tem sobre os joelhos. Escolhe um disco na estante. Bach, Maria Clara, que tal? Gottes Zeit ist die alerbeste Zeit, tenho certeza de que voc vai gostar. Maria Clara estica-se no tapete, fecha os olhos aos primeiros compassos. Ultimamente, esfora-se para entender Archibald, gostar das cantatas, sonatas e motetos que povoam a casa. J consegue reconhecer a msica de alguns compositores, pequenos testes que ele lhe apresenta. Vamos ver se voc adivinha de quem e este cnon? Sentam-se mesa, arrumam as xcaras, o caf, est bom de acar? Archibald remexe uma pilha de cadernos, procura a pagina certa. Ento, vamos ver o que voc fez de bom? Gosta de dar aulas para Maria Clara: elas so, hoje, fugas da rotina da universidade da qual comea a sentir-se cansado, ensinando, pelo dcimo ano consecutivo, as mesmas coisas a pessoas invariavelmente desinteressadas e desinteressantes. Seu relacionamento com os alunos frio, quase impessoal: um pouco por timidez, um pouco por europias noes de hierarquia que se recusa a abandonar. Isso nunca chegou a incomod-lo, especialmente h alguns anos atrs, quando a presena de Lillian tornava outras presenas desnecessrias. Depois, as relaes entre ambos foram-se deteriorando e, quando mudou-se para o Brasil, ela recusou-se a acompanh-lo. Embora tivesse sentido algum prazer em mortificar-se com o fracasso de seu casamento, anos depois Archibald se viu forado a reconhecer que, na poca, o que sentira fora principalmente uma sensao de alvio e liberdade. No havia mais ningum para controlar-lhe os movimentos ningum para reclamar dos cachimbos, impedi-lo de dedicar-se a seus poemas ou abaixar o volume da vitrola. No havia mais ningum, igualmente, para afagar-lhe os cabelos, nenhum corpo noite. Esta ausncia, entretanto, s veio a notar muito tempo depois na verdade, quando comeou a dar aulas para Maria Clara. Agora gostaria de ter, eventualmente, algum com quem conversar, algum amigo. Mas os anos de solido e uma timidez que, geralmente, no se encontra nos homens atraentes, o desacostumaram de conversas ntimas, de confidncias sussurradas a meia luz por sobre os cinzeiros. Na universidade, no consegue trocar mais do que polidos cumprimentos com os colegas; dos alunos, sente-se cada vez mais distante com o passar dos anos. Aos 40 anos um homem s e, se por um lado, a solido ensinou-lhe muito a respeito de si mesmo, h sentimentos sobre os quais no lhe disse nada, dos quais comea a ter medo porque os julgava esquecidos para sempre. Maria Clara, marcando o ritmo da cantata com os dedos, conta o nmero de ripas da veneziana entreaberta, percorre as estantes com os olhos, as lombadas verdes, vermelhas, a imensa pilha de livros de bolso alaranjados. Observa seu professor, a cabea curvada sobre o caderno, cachimbo numa das mos enquanto com a outra anota erros, faz correes. Os cabelos muito lisos, desmaiados entre o louro e o cinza, caem-lhe sobre os olhos: quando o cachimbo est preso entre os dentes, a mo, livre, joga-os para trs num gesto intil. Muito bom o trabalho. Voc est melhorando, sabe. Ainda tem alguma dificuldade em expor seu raciocnio numa linha uniforme, mas acho que, na sua idade, nem poderia ser de outra maneira. E erros de ortografia, precisa prestar mais ateno ao que escreve, menina. Mas que ingls muito complicado. Muito mesmo. Um pouco de ateno resolve muitas complicaes. H um texto de Saroyan muito bonito que eu quero que voc conhea. Vou dit-lo para voc, a metade hoje, a metade amanh. Onde ser que coloquei o livro? Levanta-se da mesa, vai at uma das estantes onde percorre os livros com a ponta dos dedos, puxa um volume pequeno, encadernado em amarelo. Escolhe tambm outro disco, que leva para a vitrola. Mais Bach Suite em R Maior para violoncelo, Rostropovitch. Pegue o caderno, escreva: pronta? Esta prestando ateno? In the time of our life, live so in that good time there shall be no ugliness or death for youself or any life your life touches. Seek goodness everywhere and when it is found, bring it out of its hiding-place... O qu? Hiding-place. Esconderijo. Bring it out of its hiding-place and let it be free and unashamed. Place in matter and in flesh the least of values, for these are the things that hold death and must pass away. L muito devagar, separando as frases com cuidado. Maria Clara gosta das palavras, gosta do som que adquirem na pronncia clara e um pouco cantada de Archibald. Se ao menos no precisasse anot-las! Sente que poder passar ali o resto da vida, ouvindo-as uma aps a outra, absorvendo-as to completamente que, depois de algum tempo, perderiam todo o significado para tornarem-se apenas fragmentos de sons encadeados, como a sonata de Bach que a vitrola repete em surdina. Ou seria uma suite? Discover in all things that which shines and is beyond corruption. Vamos parar por aqui, hoje. No e bonito? Deixe o caderno comigo. No vou poder corrigir nada agora, dentro de meia hora tenho que estar numa reunio na faculdade, voc vai ter que ir embora mais cedo. Sabe que os Beatles vo tocar nos Estados Unidos? Claro que sei. Ento este vai ser o seu dever de casa: escrever trinta linhas sobre a tourne. Mas como que eu posso escrever sobre alguma coisa que ainda no aconteceu? Usando a sua imaginao, por exemplo. Poderia passar ali o resto da vida, entre os sons, o cheiro do fumo e os olhos acinzentados. Depois de quase um ano, ainda no sabe exatamente por que aceitou dar aulas para Maria Clara, filha de um professor de fsica que acabara de voltar da Inglaterra:para que a menina no perca todo o ingls que aprendeu por l. Pensou, ento, que a experincia talvez valesse a pena. Mas quando a conheceu, jeans surrados, os cabelos escuros e compridos presos num rabo de cavalo, um jeito preguioso, disco dos Beatles embaixo do brao, chegou a arrepender-se de no ter afastado a idia definitivamente. Para sua surpresa, porm, Maria Clara interessava-se muito mais pelo ingls do que julgara a principio. E embora inicialmente a tratasse com o mesmo distanciamento que reservava a todos os alunos e, de resto, a todo o mundo, sem distines comeou, com o correr do tempo, a descobri-la e, atravs dela, toda uma gerao que nunca despertara seu interesse antes. Comeara a descobrir em si prprio reaes que julgava impossveis, o riso, a conversa fcil e aberta. Divertia-se ouvindo-a contar o dia-a-dia do ginsio, ouvindo-a falar de colegas e professores, dos ltimos lanamentos dos Beatles, dos olhos de Paul MacCartney ou das letras de John Lennon. Mais tarde, tornou-se cmplice de cigarros fumados s escondidas pelos banheiros, corridas em motocicletas clandestinas e aulas mortas no terrao entre brincadeiras e jogos de batalha naval. Eu contei para voc mas voc jura que no vai contar para o meu pai? Maria Clara tambm comeou a descobrir coisas novas como as crises de choro sem motivo algum, as horas passadas ao lado da vitrola, os olhos perdidos no espao ao som de concertos e motetos. H dias em que no sabe se vai conseguir sobreviver a todas as teras, quintas e fins de semana que a esperam sem aulas de ingls. Especialmente quando o tempo comea a escurecer, quando no h sol, no h passeios nem piscinas. As horas passam devagar e, na escola, h o sentimento do tempo e das aulas perdidas, para que matemtica, histria, geografia se tudo o que precisa aprender ingls, se sabendo ingls conquistar o mundo e quem sabe Archibald, conseguir ir at Ardnamurchan onde quer que fique e conhecer os vales verdes, as altas montanhas, o clima que sabe frio e mido a maior parte do ano. Quinta-feira escorre intil, a sexta arrasta-se pelas aulas de desenho e francs, pela geografia escamoteada no terrao, o cigarro escondido atrs das costas. De tarde, as horas so ainda mais lentas e h o tamborilar da chuva nas vidraas, h uma goteira na sala e uma professora irritada com a chuva, com a goteira, com os alunos. H tambm um ensaio da classe de teatro s quatro e meia e, s quinze para as seis, h a sineta e a liberdade. Sacola as costas, Maria Clara corre feliz, enfrenta a chuva, atravessa a rua, segue a avenida, dobra a esquerda, novamente atravessa uma rua e, quando toca a campainha de Archibald est molhada da cabea aos ps, a roupa colada ao corpo, a blusa branca transparente de chuva. Mas no possvel! Ser que voc no tinha um guarda-chuva, no podia esperar uma carona? que no pensei que estivesse chovendo tanto assim. Nossa, estou ensopada. Entre. Voc no vai poder ficar assim. V at o banheiro, tome um banho bem quente e vista o meu roupo que est pendurado ao lado do chuveiro. Depois ns poderemos colocar as suas roupas em frente ao fogo, acabaro secando. Ande depressa. Na cozinha, Archibald liga a cafeteira eltrica ouvindo o barulho do chuveiro. tenta concentrar-se nas colheradas de p, na gua, mas no consegue esquecer a blusa molhada de Maria Clara, os seios de Maria Clara, Maria Clara nua no chuveiro, a gua escorrendo pelo corpo jovem e moreno. Tenta pensar nos vinte e seis anos que os separam, na tampa da cafeteira que no quer fechar. Volta para a sala e, acendendo o cachimbo, procura o Saroyan da aula passada, rel o ditado de Maria Clara, os seios de Maria Clara, sua pele molhada e brilhante... Ficou meio grande o teu roupo, estou me sentindo ridcula. No h motivo. Est linda, e pelo menos no vai ficar gripada. Estou preparando um caf, achei que voc precisaria beber algo quente. Vou buscar. Maria Clara senta-se no tapete, pernas cruzadas, tenta ajeitar o roupo lils em volta do corpo. As mangas cobrem suas mos, diverte-se levantando-as e olhando para as pontas cadas como hastes dobradas. Archibald traz a bandeja, coloca-a em cima da mesa, inclina-se sobre Maria Clara para entregar-lhe a xcara. A proximidade sbita, o roupo entreaberto, os seios de Maria Clara criam uma atmosfera carregada que os cadernos e uma missa de Haendel no conseguem disfarar. Volta para a poltrona, olha-a de frente, os cabelos molhados, o roupo, as pernas cruzadas, o rosto plido. Maria Clara estremece, sente que alguma coisa est acontecendo mas no sabe o que . Imagina que Archibald a quer, repele o pensamento que volta, intenso, segundos depois. Luta com as mangas do roupo para segurar a xcara, ri, nervosa. Estou parecendo uma dbil mental. Espere. Vou dobrar as mangas para voc, do jeito que esto voc nunca vai conseguir beber este caf. Deixa-se escorregar da poltrona, caminha sobre o tapete com os joelhos no cho, aproxima-se de Maria Clara. Toma-lhe uma das mos, comea a dobrar a manga com cuidado, como se mexesse com alguma coisa frgil e quebradia. Voc est tremendo...! Estou congelada. Segura a mo tremula e fria entre as suas, levanta o rosto devagar. Os olhos de Maria Clara em frente aos seus, o cheiro de Maria Clara, os seios de Maria Clara... puxa-a para si, beija-lhe a testa, os olhos, a boca. Eu te queria tanto. Ela treme, tem medo, est feliz. A mo de Archibald atravessa o roupo, acaricia os seios. Tenta afast-lo. No faz isso. A mo foge, sobe para os ombros, abaixa o roupo. Archie, no. Por que no? Eu quero voc, eu amo voc. Vem, voc minha. Bem quietinha, no se mexe. Maria Clara senta-se imvel, a respirao ofegante. Archibald desamarra o cinto, o roupo escorrega, Maria Clara nua, tremula de medo e de expectativa, o corao aos saltos. As mos a percorrem, acariciam os seios, a barriga, procuram as pernas, escondem-se entre as coxas. Vem. Eu vou ensinar tudo para voc, tudo. Isto uma coisa muito mais bonita do que o ingls, vem, muito mais, vou te ensinar tudo. Deita. Maria Clara deita-se no tapete, olha para o lado. Tem vontade e vergonha de olhar Archibald despir-se, mas sente seus movimentos, a camisa atirada em direo a poltrona, os ps que empurram as calas e estremece quando o tem ao lado, quando as mos a envolvem e guiam suas mos tmidas, quando os dedos percorrem seu corpo, caminhando de leve pelas pernas, subindo sentindo-a mida e entregue, quando o tem por cima de si, to suave e aflito, quando os joelhos foram suas pernas, as palavras perdem o nexo e o mundo explode, eu te queria tanto. Dez anos depois, Archibald deu um tiro na boca. Teve morte instantnea. H nove no via Maria Clara que soube do suicdio vrios meses depois, atravs da carta de um amigo que a cumprimentava pelo vigsimo quarto aniversrio.

195. DALTON TREVISAN. CRIANA. Tua professora ligou. De castigo, voc. Beijando na boca os meninos. Que feio, meu filho. No assim que se faz. ... Menino beija menina. Voc gozada, cara. ... Pensa que elas deixam? Ele sai do banheiro, a toalha na cintura. Pai, deixa eu ver o teu rabo. a tipinha deslumbrada no baile da debutante de trs anos. Rabo, filha? Ah, sei. O bumbum do pai? Seu bobo. ... Esse pendurado a na frente. O pai telefona para casa: Al? ... Reconhece o silncio da tipinha. Voc liga? Quem fala voc. Al, fofinha. Nem um som. Criana no , para ser chamada fofinha. Cinco anos, j viu. Oi, filha. Sabe que eu te amo? Eu tambm. "Puxa, ela nunca disse que me amava". Tambm o qu? Eu tambm amo eu.

196. DALTON TREVISAN. Amanh faz um ms que a Senhora est longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, no senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. No foi ausncia por uma semana: o batom ainda no leno, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notcia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no cho, ningum os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, at o canrio ficou mudo. No dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava s, sem o perdo de sua presena, ltima luz na varanda, a todas as aflies do dia. Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate -- meu jeito de querer bem. Acaso saudade, Senhora? s suas violetas, na janela, no lhes poupei gua e elas murcham. No tenho boto na camisa. Calo a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de ns sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor. O Negcio. Grande sorriso do canino de ouro, o velho Ablio prope s donas que se abastecem de po e banana: -- Como o negcio? De cada trs d certo com uma. Ela sorri, no responde ou uma promessa a recusa: -- Deus me livre, no! Hoje no... Ablio interpelou a velha: Como o negcio? Ela concordou e, o que foi melhor, a filha tambm aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou: Como o negcio? Ela sorriu, olhinho baixo. Ablio espreitou o cometa partir. Manh cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de no acordar os filhos. Ele trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada. O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas no era dia do Ablio. Desconfiada, a moa surgiu janela e o vizinho repetiu: Como o negcio? Diante da recusa, ele ameaou: Ento voc quer o velho e no quer o moo? Olhe que eu conto! Espere um pouco -- atalhou Julietinha. -- J volto. Abriu a janela, despejou gua quente na mo do negro, que fugiu aos pulos. A moa foi ao boteco. Referiu tudo ao velho Ablio, mo na cabea: Barbaridade, neguinho safado! O vizinho no contou e o cometa nada descobriu. Mas o velho Ablio teve medo. Nunca mais se encontrou com Julietinha, cada dia mais bonita.

197. DALTON TREVISAN. Dois velhinhos. Dois pobres invlidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo. Ao lado da janela, retorcendo os aleijes e esticando a cabea, apenas um podia olhar l fora. Junto porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede mida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro: Um cachorro ergue a perninha no poste. Mais tarde: Uma menina de vestido branco pulando corda. Ou ainda: Agora um enterro de luxo. Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela. No dormiu, antegozando a manh. Bem desconfiava que o outro no revelava tudo. Cochilou um instante era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoo: entre os muros em runa, ali no beco, um monte de lixo.

198. DALTON TREVISAN. A pobre me deu Betinho quele homem: agradasse ao tio Galileu, com os dias contados, podia ser o herdeiro. Depois de partir lenha, puxar gua do poo, limpar o poleiro do papagaio, o menino enxugava a loua para a cozinheira. Toda noite, Betinho subia a escada, para levar o urinol e tomar a bno ao tio Galileu. Batia na porta: Entre, meu filho, O rapaz beijava a mo branca, mole e mida me-dgua. No domingo recebia a menor moeda, que o padrinho catava entre os ns do leno xadrez. Tio Galileu raramente saa e, ao tirar o palet, exibia duas rodelas de suor na camisa. Arrastava o p, bufando, sempre a mo no peito. Afagava o papagaio, que sacudia o pescoo e eriava a penugem: Piolhinho... piolhinho... Subindo a escada, dedos crispados no corrimo, isolava-se no quarto. O assobio atravs da porta:alegria de contar o dinheiro? Fechava a porta e conduzia a chave. Diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela negra, nunca por Mercedes. Sentado na cama, coando eterno pozinho na perna, vigiava. E no assobiava com algum no quarto. Instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem permitir que virassem o colcho de palha. Mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. O homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina. Domingo, a negra de folga, Betinho preparava o.caf para Mercedes. Abria a porta, esperava acomodar-se penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os lenis a fragrncia de ma madura guardada na gaveta. Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. J deitado, luz apagada. Sentou-se ao p da cama, casara com tio Galileu por ser velho, a anunciar que morria de uma hora para outra. Mentira, para iludir a pessoa e servir-se dela. No sofria do corao, nem sabia o que era corao, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colcho l no quarto o avarento remexia no tesouro. Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo fosse roub-lo. diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara ali no dedinho. O rapaz inclinou-se para beijar a unha de sangue. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse. O rapaz no pde dormir. Meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o papagaio, cabea escondida na asa os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. Torceu o pescoo do bicho e o enterrou no quintal. Dia seguinte o homem buscou a papagaio, a assobiar debaixo de cada rvore. Betinho sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bno ao padrinho, o piolho correu de sua mo para a do velho um dos piolhos vermelhos da peste. Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto. Noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: inteirinha nua. V disse a mulher. V, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho. Betinho ficou de p. Tremia tanto, ela o amparou at a porta: V, meu amor. A vez do velho. Hora de pedir a bno. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento, entre a bulha do colcho, perguntava quem era. Aquela noite nada falou. Betinho abriu a porta, avanou lentamente a cabea. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo espalhado no colete de veludo. O ltimo cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos imveis... Olho arregalado, a boca negra no abenoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca mais fingiria. Tio Galileu no gritou. Nem mesmo fechou o olho, mais fcil que o papagaio. Betinho afogou debaixo do travesseiro a boca arreganhada. Os ps descalos de Mercedes desciam a escada. Ele ergueu o colcho, rasgou o pano, revolveu a palha: nada. Deteve-se escuta: os passos perdidos da mulher. Avis-la que o velho os enganara. Era tarde, abria a janela aos gritos: Ladro. Assassino! Socorro...

199. DALTON TREVISAN. Insinua-se pela cortina de veludo vermelho mida e pegajosa , afasta a mo com nojo: filho bastardo do rei Midas, tudo o que toca se desfaz em podrido. No rosto o bafo quente da sala; entre casal suspeito e velho pervertido e o seu abrigo. Senta-se na ltima fila, os ps sobre cascas de amendoim, pipoca, papel de bala. Alheio s sombras na tela, enfrentar a passagem do Natal. Escorraou-o do bar a celebrao ruidosa dos bbados. Mais que ela, dois olhos aflitos no espelho da parede... Exlio de negrido viciosa, no cinema est defendido. Distingue a tosse do guarda que, vez por outra, circulando no corredor, assusta os casais de tarados. No canto, a lmpada amarela sobre a cortina que, ao ser erguida, espalha nuvem ftida;pela sua agitao incessante, o interesse do pblico mais lavar a mo do que assistir ao filme. Entorpecido de lcool e do ar corrupto, cabeceia na cadeira dura. Uma voz melflua pede-lhe docemente licena, enrosca-se no seu joelho de todas as cadeiras vazias escolhe a do lado. Sonolento, mal sustm a plpebra aberta. Mascando e soprando a goma de bola, o mocinho a explode com beijo obsceno. Patinhas de mosca na face, Joo espanta-a com a mo. Mosca no, o culo brilhoso da criatura grudado no seu rosto: uma loira de voz rouca senta-se na cama. Estende a perna rolia, que o tipo lhe descalce o sapato. Ele arranca brutalmente o sapatinho dourado. No assim, meu amor, assim no. Repete o mocinho no sopro da bola: No gosto de bruto. O heri resmunga, a camisa estraalhada de mil tiros por amor dela bateu-se com o vilo? A loira estira a outra perna: No sou a sua gatinha? Gatinha no sou? a queixa lamuriosa ao lado. Com as duas mos, o tipo a descala e beija a ponta do p. Bem assim, meu amor. Sabe ser gentil. O olho do mocinho escorre-lhe no rosto baba fosfrea de lesma , sem perder a legenda: Vai ser gentil, amor? O duro de p, a herona beira da cama; ergue o vestido de cetim brilhante, desprende a meia da cinta, oferece a linda perna comprida mo tremente, ele enrola a meia desde a coxa. Raivoso, atira-a no tapete. Quieto, benzinho. Quietinho, meu bem a voz aliciadora sufocada pela tosse do guarda. Pisoteando cascas, novo espectador instala-se duas cadeiras na frente, revolve o pacote de amendoim, chupa frentico o dente. Estou doente, vou morrer lamenta-se o macho, atingido pela bomba de cobalto, no deserto de provas ocultou-se da policia. Minha carne glida. Bala de revlver no a atravessa metade homem, metade monstro de ferro. O manaco do amendoim assobia, o mocinho rumina a bola, Joo sofre as penas do heri. Agora a loira corre o fecho do vestido, a nudez entrevista: Eu sou Rosinha. Posso derreter o ao. Sei abrasar o corpo glido. Rosinha... sei abrasar... insiste o eco suspiroso do mocinho. Rebenta a bola de goma, esbarra-lhe no joelho e, entre as cadeiras vazias, senta-se ao lado do chupador de dente. Na tela a herona furiosa rasga a camisa do tipo, descobre o ombro sardento. Unhas rapaces enterram-se apesar do metal na carne fofa. Joo estremece: uma ratazana ali no corredor? Prestes a levantar-se, enxuga a mo no joelho. sua frente cochicha o moo com o vizinho, que deixa de assobiar. Joo no ergue o p, e mordendo o uivo, segue a corridinha da ratazana. Vir, em seu passeio tonto, enroscar-se no sapato e atarantada subir na perna? No silncio da sala escuta o alarido do peito. O guarda no tosse, o manaco no assobia, apenas o crepitar das cascas, agora mais perto. Violado o santurio, outra vez em pnico: uma gota de suor brinca-lhe na plpebra. Perdido com as vozes sem respostas: Onde est minha casa, minha mulher onde est? E onde esto afinal os Natais de antanho? Luta com a imagem na tela, repete em voz baixa a legenda. Surgem das cadeiras vazias as filhas, to plidas, meu Deus, camisolinha em farrapos, descalas, a vagar gementes no deserto. Chorosa, indaga a menor, sem v-lo na penumbra: Onde foi papai? Que fim o levou? Por mais aflito, no pode sair ainda no, h que esperar a passagem do Natal. Ficar at a exploso da ltima bomba. Tudo menos o quarto do hotel, medroso de certa gaveta, entre as meias sem pares o brilho da navalha... Ali no cineminha pode esconder-se de si mesmo. Rei da terra, que foi feito de quem ele era? Sem mover a cabea, relanceia o olho no corredor: as dores do mundo trazidas no focinho mido da rata piolhenta. Espavorido, o p plantado nas cascas de amendoim a ratazana que belisca a barra da cala? L fora os sinos, buzinas, gritos de bbados. Outro de menos resmunga Joo. Deste eu estou livre. Passada a hora pior, eis que um homem. Est salvo daquele Natal. Outro no haver antes de um ano inteiro.

200. DALTON TREVISAN. Curitiba, que no tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o cu azul no azul, Curitiba que viajo. No a Curitiba para ingls ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de leno colorido na cabea - galiii-nha--vos - no a protofonia do Guarani? Um aluno de avental discursa para a esttua do Tiradentes. Viajo Curitiba dos conquistadores de coco e bengalinha na esquina da Escola Normal;do Jegue, que o maior pido e nada no ganha (a me aflita suplica pelo jornal: No d dinheiro ao Gigi); com as filas de nibus, s seis da tarde, ao crepsculo voc e eu somos dois rufies de Franois Villon. Curitiba, no a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhes de imortais, mas a dos bailes no 14, que a Sociedade Operria Internacional Beneficente O 14 De Janeiro;das meninas de subrbio plidas, plidas que envelhecem de p no balco, mais gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhao Chic-Chic; dos Chs de Engenharia, onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar ch; das normalistas de gravatinha que nos verdes mares bravios so as naus Santa Maria, Pinta e Nina, viajo que me viaja. Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoo; da zona da Estao em que noite um povo ergue a pedra do tmulo, bebe amor no prostbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetes - com seu rei Candinho - e da sociedade secreta dos Tulipas Negras eu viajo. No a do Museu Paranaense com o esqueleto do Pithecanthropus Erectus, mas do Templo das Musas, com os versos dourados de Pitgoras, desde o Scrates II at os Scrates III, IV e V; do expresso de Xangai que apita na estao, ltimo trenzinho da Revoluo de 30, Curitiba que me viaja. Dos bailes familiares de vrzea, o mestre-sala interrompe a marchinha se voc dana aconchegado; do pavilho Carlos Gomes onde ser HOJE! s HOJE! apresentado o maior drama de todos os tempos - A R Misteriosa; dos varredores na madrugada com longas vassouras de p que nem os vira-latas da lua. Curitiba em passinho floreado de tango que gira nos braos do grande Ney Traple e das penses familiares de estudantes, ah! que se incendeie o resto de Curitiba porque uma penso maior que a Repblica de Plato, eu viajo. Curitiba da briosa bandinha do Tiro Rio Branco que desfila aos domingos na Rua 15, de volta da Guerra do Paraguai, esta Curitiba ao som da valsinha Sobre as Ondas do Iap, do maestro Mossurunga, eu viajo. No viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro uma taa de luz; de Alberto de Oliveira do cu azulssimo; a de Romrio Martins em que o ndio caraba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tosto; essa Curitiba no a que viajo. Eu sou da outra, do relgio na Praa Osrio que marca implacvel seis horas em ponto; dos sinos da igreja dos Polacos, l vem o crepsculo nas asas de um morcego; do bebedouro na pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos pis vo beber gua. Viajo Curitiba das conferncias positivistas, eles so onze em Curitiba h treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que no roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrs do incndio que ningum no viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo. Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidado misterioso morreu nos braos da Rosicler, quem foi? quem no foi? foi o reizinho do Sio; da Ponte Preta da estao, a nica ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo. Curitiba sem pinheiro ou cu azul pelo que vosmec - provncia, crcere, lar - esta Curitiba, e no a outra para ingls ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.

201. DALTON TREVISAN. Dario vinha apressado, guarda-chuva no brao esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo at parar, encostando-se parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calada, ainda mida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. Dois ou trs passantes rodearam-no e indagaram se no se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lbios, no se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o palet, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca. Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos ps, embora no o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta outra, as crianas foram despertadas e de pijama acudiram janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calada, soprando ainda a fumaa do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas no se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. A velhinha de cabea grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o txi da esquina. J no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulncia. Dario conduzido de volta e recostado parede - no tinha os sapatos nem o alfinete de prola na gravata. Algum informou da farmcia na outra rua. No carregaram Dario alm da esquina; a farmcia no fim do quarteiro e, alm do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espant-las. Ocupado o caf prximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relgio de pulso. Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papis, retirados - com vrios objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascena. O endereo na carteira era de outra cidade. Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as caladas:era a polcia. O carro negro investiu a multido. Vrias pessoas tropearam no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes. O guarda aproximou-se do cadver e no pde identific-lo os bolsos vazios. Restava a aliana de ouro na mo esquerda, que ele prprio quando vivo - s podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabeco. A ltima boca repetiu Ele morreu, ele morreu. A gente comeou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ningum acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam v-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o palet de Dario para lhe sustentar a cabea. Cruzou as suas mos no peito. No pde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multido se espalhou, as mesas do caf ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalo veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadver. Parecia morto h muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. Fecharam-se uma a uma as janelas e, trs horas depois, l estava Dario espera do rabeco. A cabea agora na pedra, sem o palet, e o dedo sem a aliana. A vela tinha queimado at a metade e apagou-se s primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

202. DALTON TREVISAN. GRANDALHO, voz retumbante, adorado pelos filhos. Joo no vive bem com Maria ambiciosa, quer enfeitar a casa de brincos e tetias. Ele ganha pouco, mal pode com os gastos mnimos. Economiza um dinheirinho, l se foi com a asma do guri, um dente de ouro da mulher. Ela no menos trabalhadeira: faz todo o servio, engoma a roupinha dos meninos, costura as camisas do marido. Inconformada porm da sorte, humilhando o homem na presena da sogra. Para no discutir ele apanha o chapu, bate a porta, bebe no boteco. Um dos pequenos lhe agarra a ponta do palet: No v, pai. Por favor, paizinho. Comove-se de ser chamado Paizinho. Relutante, volta-se para a fulana:em cada olho um grito castanho de dio. O paizinho vai dar uma volta. To grande e forte, embriaga-se fcil com alguns clices. Estado lastimvel, atropelando as palavras, o palhao do botequim. E, pior que tudo, sente-se desgraado, quer o conchego do corpo gostoso da mulher. Mais discutem, mais ele bebe e falta dinheiro em casa. Maria se emboneca, muito pintada e gasta pelos trabalhos caseiros. Desespero de Joo e escndalo das famlias, a pobre senhora, feia e nariguda, canta no tanque e diante do espelho as mil marchinhas de carnaval. Os filhos largados na rua, ocupada em depilar sobrancelha e encurtar a saia no brao o riso de pulseiras baratas. Com uma vizinha de m fama inscreve-se no programa de calouro: Sou artista exclusiva ufana-se, com sotaque pernstico. A fria gorda! Aos colegas de rdio oferece salgadinhos e cerveja. Joo escapole pelos fundos, envergonhado da barba por fazer. Volta bbado e Maria tranca a porta do quarto, obrigado a dormir no sof da sala. Noite de inverno, o filho mais velho, ao escut-lo gemer, traz um cobertor: Durma, paizinho. A cada sucesso de Maria o quinto prmio da marchinha, o retrato no jornal, a carta com pedido de autgrafo: Ela ainda recebe uma vaia o comentrio de Joo. - Com uma boa vaia ela aprende! no essa a quem de cabelo oxigenado? Acompanhada a casa, horas mortas, pelo parceiro de vida artstica. Ora o cantor de tangos, ora o mgico de cincias ocultas. Demora-se aos beijos na porta e as mes probem as crianas de brincar com os dois meninos. Joo sabe que o fim dona casada que tinge o cabelo no sria. Vai dormir no puxado da lenha, encolhido na enxerga imunda, a garrafa na mo. Dois dias fechado (assusta-lhe a prpria fora e jamais bate nos filhos), urra palavro e desfere murro na parede. Maria faz as malas e, sem que os pequenos se despeam de Joo, muda-se para casa dos pais. L deixa os meninos e amiga-se com um pianista de clube noturno. Mais uma bailarina, que obriga os clientes a beber. O pianista, vicioso e tsico, toma-lhe o dinheiro e, se a fria no gorda, ainda apanha. Cansada de surra, volta casa dos pais. Ento a velha sai em busca de Joo e sugere as pazes. Ela que fique onde est. No quero Maria, nem pintada de prata. Despedido da fbrica por embriaguez, sobrevive com biscates. Ao vestir o palet, da manga surge uma cobra e, aos berros, lana-o no fogo. Aranha cabeluda morde-lhe a nuca; intil esmag-la com o sapato, de uma nascem duas e trs enrodilha-se medroso a um canto e esconde nos joelhos a cabea. Domingo recebe a visita dos filhos, enviados pela sogra. Divertem-se no Passeio Pblico a espiar os macaquinhos. O pai compra amendoim e pipoca, que os trs mordiscam deliciados. Afasta-se de mansinho e, atrs de uma rvore, empina a garrafa saliente no bolso traseiro da cala as mos cessam de tremer. Os meninos desviam os olhos: sapato furado, cala rasgada, palet sem boto. Alisando a mo gigantesca: No, paizinho. No beba mais, pai. Lgrimas correm pelo narigo de cogumelo encarnado. Despede-se com sorriso sem dentes. Na esquina gorgoleja a cachaa at a ltima gota. Em delrio na sarjeta, recolhido trs vezes ao hospcio. A crise medonha da desintoxicao, solto quinze dias mais tarde. Mal cruza o porto, entra no primeiro boteco. Maria cai nos braos do mgico de cincias ocultas e, proibida de cantar com voz to horrorosa, consola-se no tanque de roupa. Nem o amante nem os velhos querem saber dos pis, internados no asilo de rfos. Cada um aprende seu ofcio e, no ltimo domingo do ms, com permisso da freira, vo bem penteadinhos casa do pai. Ainda deitado, curte a ressaca; com alguns goles sente-se melhor. Os pequenos varrem a casa, acendem o fogo, olhinho irritado pela fumaa. No almoo apresentam caf com po e salame rosa. Sentado na cama, o pai contenta-se em v-los comer. Sorri em paz, um deles enxuga-lhe o suor frio da testa. Sem coragem de abandon-lo, os filhos a seu lado durante a noite: fala bobagem, treme da cabea aos ps, bolhas de escuma espirram no canto da boca. Os meninos adormecem, ouvindo o ronco feio do afogado. O maior acorda no meio da noite, vai espiar o pai em sossego, olho branco. Fala com ele, no se mexe. Tem medo e chama o irmo: O paizinho morreu. Sem chorar, encolhidos na beira da cama, escuta dos pardais da manh.

203. DARCY AZAMBUJA. CONTRABANDO. Marchavam em fila indiana. Na frente ia o Fidncio Lopes, o maioral do negcio. Dirigia do pescante a travessia arriscada, com tino e segurana de velho boleeiro de diligncia que fora, batendo, anos, a mesma estrada. Logo atrs o Zeca e o Osrio, em seguida os cargueiros sem arreta, pelas dvidas, que acolherados num aperto, atrasariam qualquer manobra. Fechavam a marcha o Bento e o castelhano Negrito, que se lhes agregara, de acaso, "pa mirar de mas cercano a los guitas". E como quarteador, para garantir nos repechos, a umas cinqenta braas na frente, ia o Chiru novilho de aspa fina, como dizia o Fidncio , para bombear o caminho. A noite pendia para a madrugada, mas a nvoa, adensada j nos baixios, cerrava mais a escurido. Mal se divisavam, diludos na noite os vultos negros das coxilhas mais prximas, e as rvores e as moitas fundiam-se na tinta escura, surgindo de chofre, a roar os ombros e as bombachas dos cavaleiros. De quando em quando, ao contornar-lhes as faldas, os coxilhes elevavam-se numa grande mancha negra dentro da cerrao e pareciam crescer, barrando a estrada. Silencioso dentro da noite perdia-se o campo enorme, imerso nos vapores cada vez mais densos no ar frio e calmo. Fidncio Lopes fazia empenho em entregar o contrabando sem desconto algum, no s pelo valor das mercadorias, como por orgulho e capricho de velho cruzador clandestino das fronteiras. Era para diversos negociantes da vila e ia nos trs cargueiros; sedas, jias e armas, afora alguma miudeza de pouca monta. Dezessete a dezoito contos. Mas o comandante da guarda aduaneira, que de h muito lhe seguia os passos fugidios, esperava desta vez seguramente apreender-lhe o negcio. Fidncio sabia disso e era, pois, uma questo de honra profissional o enredar o rasto ao fisco e chegar a salvo. Ultimamente para que serve o quarenta e quatro? arrematava disposto, antevendo escaramua quente. Pouca gente levava sempre consigo que em tropa grande h mais refugo que matambre gordo. Do ponto em que estavam, pouco mais de trs lguas havia para entrar na porteira do Capo Grande, j em terras do Fidncio. Depois de alcanarem-na, estava concluda a empreitada, pois "nos campos dele, s Deus". Tinham passado a linha divisria um pouco acima do Centurion. Mais de uma semana de tempo ruim as chuvas tinham levantado a gua aos galhos ilhara-os do outro lado da fronteira, na pulperia do Aguirre, a comer carne assada e jogar o truco. Aberto o tempo, fizeram-se de viagem, boquinha da noite. O rio campo fora. No era para qualquer achar o caminho certo naquele mundo de gua solta. As picadas do passo, borradas pela enchente, perdiam-se por mais de duas quadras entre o mato baixo das margens, torcendo em cotovelos, mergulhando mato a dentro, contornando sangas e atoleiros, sumidas na noite densa. Amarraram os cargueiros uns aos outros para no se extraviarem e levantaram as canastras, se bem que tudo viesse retovado com oleados e as bruacas fossem de couro inteirio. Mas, pelas dvidas, que gua no brinquedo. Fidncio, com as botas atadas nos tentos, cutucou com o calcanhar o colorado, que dava bufidos na beira d'gua, e caiu na frente, certo que nem capincho em porto velho. Rdea curta e venham vindo no mais, que eu aqui estou mesmo que em casa. A gua marulhava, soturna, nas patas dos cavalos, subindo s vezes at meia costela. Atravs da noite grande e negra vinha o rumor abafado da cachoeira, quadras abaixo, afogada pelas guas grossas da cheia. O Negrito, que vinha na retaguarda, chasqueou para o Bento: "Pero, ch, por ac ni los bigus". E, livrando o corpo a um galho baixo: "Palos, antonces, adrede pa rachar las aspas a um cristiano. Por lo seguro no me quedo aficionau".O Bento, crioulo daqueles pagos e veterano em passagens idnticas, respondeu no mesmo calo: "Hace fuego em los ojos, castejano, que te plantas em el charc".Passado o fio da correnteza, embrenharam-se pela picada que serpejava entre os caponetes ilhados, atravs dos sarandizais fechados, nunca em linha reta, sempre quebrando direita, esquerda, procurando a feio propcia da terra firme. Afinal tinham sado para o campo limpo, e j traziam duas lguas de marcha cautelosa e suspicaz, cada um com a Winchester atravessada no lombilho, a mo no delgado, esperando pelo que desse e viesse. Era a zona perigosa. De dentro da treva podia a cada momento surgir, de abrupto, a guarda que velava. Desafeita e confundida na noite opaca, a emboscada podia atalhar, estrupindo de chofre numa arrancada, atacando queima-roupa. Por isso, na frente, distanciado da coluna, ia o Chiru, de bombeiro. Nele e na sua perspiccia e sangue-frio, estava a segurana de todos. Era simples mas arriscadssima a incumbncia. No tinha mais que, ao pressentir a guarda, avisar os companheiros. Se, ao perceber o perigo j no pudesse voltar, preveni-los-ia com um tiro, e depois cuidasse da vida... Era posto que demandava coragem e dedicao. Todos, porm, confiavam no Chiru que, mesmo a custo da vida, no os deixaria cair desapercebidos sob as carabinas da guarda. No as temiam, porm. Afeitos queles perigos e sobressaltos, sempre em risco, na iminncia da morte, cristalizara-se-lhes em hbito a existncia errante e insegura, noite e dia sobre as coxilhas da fronteira. Ora cautos, resvalando em fugas contornantes, ora afoitos, rebatendo de frente, a bala, o fisco vigilante, carregavam sempre as mercadorias que a tarifa fazia preciosas. Entre a vida e a morte, aproximadas na expectativa dos recontros, passavam calmos, quase indiferentes, derivando para aquele comrcio perigosssimo a bravura e o estoicismo da raa, vindos de longe, do passado guerreiro, aceso outrora nas lutas que haviam feito vibrar o imenso arco da fronteira, distenso do Iguau ao Chu, nos vaivns incertos das guerras e revolues. O Zeca, tentando divisar estrelas no cu encoberto pelo nevoeiro, murmurou a meia-voz para o Osrio, que vinha logo atrs: "Deve ir virando para as quatro. Como quer, parece que escapamos".Negrito, que no se sofria muito tempo calado, ps o cavalo ao lado do Bento "Sabes, ch, que estoy c'una gana danada de pitar?" O Bento sacudiu os ombros. Que era ordem. No se fumava. Acender farol aos guitas, no ? S se fumasse com a brasa para dentro. De feito, naquelas ocasies bania-se tudo que pudesse assinalar a presena de passantes. No se fumava e a conversa era pouca e em voz baixa. E deslizavam assim, cortando o campo em silncio, evitando os pedregulhos da estrada, onde os cascos dos cavalos fariam rudo. O Fidncio ia sempre alerta, ouvido atento aos mnimos rudos que dissonassem do rangido abafado dos cargueiros e arreios. Por sorte, nem quero-queros haviam encontrado, que os denunciassem com o alarma estrdulo de eternas sentinelas dos campos. O velho contrabandista prelibava j, no ntimo, mais aquele bual passado aos aduaneiros. Tambm, era que nem sorro velho naquelas coxilhas, onde conhecia restinga por restinga, de h tanto que cruzava por ali. Mais algumas quadras e estavam em casa. Depois era um brinquedo. Na frente, meio indistinto, ouviu um estrpito surdo, como de cavalo que tropea. Havia de ser o Chiru. Indiozinho de confiana, aquele! Ia certo e vivo no rumo da querncia. Com efeito, o Chiru ia na frente, no tranco do picao, furando com os olhos a treva cinzento-negra da madrugada de nvoa, orgulhoso daquele posto de honra que lhe dera o patro. Era, apesar de muito moo, a confiana do velho Fidncio. Morrera-lhe o pai o ano atrasado, e ele passou a ser o capataz, o faz-tudo da fazendola da Limeira, onde o dono quase no parava. Deixara o rancho com a me e instalara-se definitivamente na casa do patro, tomando a si todo servio. Pouco mais que adolescente, a vida do campo fizera-o homem depressa. Fidncio estimava-o deveras, passando ao filho a velha gratido que tivera ao pai, de quando andavam na revoluo de 93, curtindo juntos as durezas da campanha, e onde fora por ele salvo, num entrevero, baleado na perna e destinado a morrer sob as patas dos cavalos, se o amigo o no tirasse na garupa. Morto o velho companheiro, que jamais juntara peclio, a proteo e a amizade reverteram ao filho, aquela amizade funda e concentrada, niveladora de pees e de patres, criados nas mesmas lides, onde gradua, no o nascimento ou fortuna, mas o valor de cada um. O Chiru ia pensando na sua vida. Tinha ainda que cangar duas juntas antes do inverno e debulhar as carradas de milho que estavam no girau do galpo pequeno. Afora todo o trabalho do campo. Inda mais agora, com a compra das duzentas reses do Ferico. Gado lindo. Tudo pampa. Cada novilha de sobreano que dava gosto olhar-se. O patro j dera ordem de ajustar mais um peo, que os dois que havia no davam conta do servio. E ia passando em revista tudo o que havia a fazer, toda a sua vida simples e laboriosa, sem desvios nem nsias perturbantes, onde mal aflorava uma ambio. Mais tarde, com certeza, assim que tivesse a sua juntinha de tambeiros, podia ento, mesmo sem deixar a estncia da Limeira, dar uma arrumao na vida. Essa "arrumao" era a Lavica... E ao pensar enchia-se-lhe o peito de uma onda doce. Ah! a Lavica... Como um homem se deixa bolear... A sua imaginao abria uma clareira na noite e, num retngulo do sol, via-a, todo o rosto trigueiro da chinoquinha inundado da luz dos olhos. Mais que os lbios midos, mais que o peitinho redondo de rola, mais que tudo nela, prendiam-no aqueles misteriosos olhos de mulher, onde havia o infinito e a suavidade das coxilhas, ora banhadas de sol, cantando de vida, ora imersas na saudade e no langor das noites enluaradas. Neles moravam todos os seus sonhos mal definidos e profundos. Queria-a e, pois, trabalharia para possu-la. E uma doce certeza confortava-o. Era s mais... Aqui, porm, interrompeu as cismas. Pareceu-lhe ouvir adiante um rudo de metais, qualquer rumor abafado quebrando o silncio, agora pressago e inquietador. Puxou a pistola para frente e foi seguindo, de ouvido atento, os olhos muito abertos para absorverem a luz escassa da noite nas pupilas dilatadas. Nada percebeu, no entanto, e foi avanando. Raio de noite! Est que nem forno. Cresceu-lhe direita o vulto negro de uma reboleira de arbustos, e no a passara ainda, quando uma voz grossa e seca intimou: Faa alto, amigo! E bem junto, como nascendo da treva, vultos de cavaleiros cercaram-no. Percebeu os reflexos frouxos de botes de metal em dlms escuros. Sentiu um n na garganta, as fontes latejaram-lhe e nos ouvidos rolava como um trovo de intermitncias surdas. No se mexa e diga quem . A hesitao foi rpida; aquela voz restituiulhe a calma. Num segundo lembrou os companheiros que se aproximavam do perigo sem suspeitar. Tinha que preveni-los. Viu o cano do revlver do guarda apontando-o. Talvez morresse, mas tinha que preveni-los. Foi levantando a mo direita, devagar, colada ao corpo; encontrou o cinto, apertou a coronha da pistola, o indicador tateava o gatilho. Fale, amigo, seno... Torceu o cano para o lado e premeu o dedo. Uma linguazinha de chama relampejou, chamuscando-lhe os pelegos. O guarda, supondo-se alvejado, atirou tambm. Era o quanto bastava. Prevenidos pelo duplo sinal, os contrabandistas executaram logo o preconcebido. O Zeca e o Osrio, com os cargueiros, penderam por uma encosta, sem rudo, furtando a volta. Fidncio e os outros infletiram esquerda, coxilha acima, disparando as armas. Era a manobra de sempre. Os guardas seguiram a direo dos tiros, enquanto o contrabando mesmo, contornando, retomava longe o caminho, j retaguarda do perigo, reaviado e certo no destino. Fidncio com os companheiros continuavam retirando. Diferenciava-se o estampido sonoro das Winchesters e a deflagrao seca das Mausers da guarda, em tiroteio frouxo, ao acaso dos alvos mveis e indistintos, afastando-se dentro da noite. Tnues, comearam a dealbar no oriente as primeiras claridades do dia. Uma aura leve foi dispersando a nvoa adormecida nas baixadas. Em pouco surgiu o sol, longe na imensido do horizonte, dourando a silhueta dos capes de mato que demoravam no campo como manchas escuras. Arrastado pelo cavalo, Chiru ficara estendido num alto, os braos abertos e o rosto voltado para o cu. O primeiro raio de sol, tangenciando a lombada das coxilhas adormecidas, veio incidir-lhe na face, onde coagulara um fio de sangue. Banhado daquela luz tpida, o gacho parecia apenas dormir, to sereno tinha o rosto e tanto, para aquela alma nobre, era simples a lealdade e at mesmo a morte.

204. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. ORGIA. As filhas, j s oito ou nove horas, perguntavam, devagarinho, boiando num resto de sono, tomando o caf com leite: "A senhora tambm hoje se levantou antes das quatro"? "De certo, meninas. Que que se vai fazer? Antes das quatro a fila j estava um colosso! Ia at a esquina. Ah! Vocs so umas preguiosas. No sabem quanta gente se levanta cedo!". As filhas e o marido se impressionavam com aquele estranho zelo da dona de casa. Por que no mandar a empregada? "Na leiteria j me conhecem. Se eu mandar a criada, vocs nem vem a cor do leite. E para mim o leiteiro vende quantos litros eu queira. Comeou a fazer uns vestidos, no to leves, no to leves, no... para a fila do leite. As quatro, sempre corria uma aragem friorenta, vinda das bandas da praia. Os vestidos eram folgados "pra gente estar vontade" e tambm assim eram os sapatos de salto baixo: "Esses so mesmo prprios. No cansam. Meninas! No quero que usem os meus sapatos da fila, Vo deformar o calado. Eu preciso de toda a comodidade." Era estranho aquele requinte. Dizia o pai filha: "Voc j reparou como sua me agora deu para gostar de fila?" O marido resolveu experimentar a mulher: "Amanh eu vou. Ainda tiro um soninho depois". "Vai, nada ! Voc tem trabalhado muito. Mais um sacrifcio e a senhora suspirou j no nada para mim !" Ontem, esperava um txi para a viagem a So Paulo e por acaso surpreendi a dama da fila da madrugada. Uma espessa, ntima unio estava naquela fila da leiteria. Encostava-se a dona molemente, um pouco tonta ainda de sono, rvore. Uma vizinha contava qualquer coisa. Ela ria, um riso ainda com resto de lenol, de travesseiro fofo. 0 cinqento do apartamento do primeiro andar coara o prprio caf, o cheirava bem o seu hlito na madrugada. Era uma fila limpa, perfumada a dentifrcio, a roupa fresca plena de comodidades caseiras. A madame do dezenove, justamente a mais bonita, com um vestido parecendo quimono, dobrou um jornal sobre o cho da calada. Sentou-se rindo, distribuindo o seu gostoso sorriso, como vinho para todos. E logo, outras a imitaram. Passavam rente as criaturas que voltavam das boites. Um homem largava seus recalques cantando, do outro lado da rua. Sua voz era clida, um pouco pastosa. Nunca aquele homem cantaria assim em casa. A rua da madrugada era a rua das ousadias. As janelas estavam fechadas sobre mistrios e intimidades. Pela fila agora passavam uns moos morenos, bonitos, que iam pesca. As aventuras do mar bafejaram a pequena multido. Os rapazes falavam alto, excitados. O mar noturno vinha molemente at a calada, por intermdio dos passantes joviais. O dia j se vem anunciando. Em breve a leiteria levantar sua cortina metlica e estudantes, caixeiros, a turba do trabalho, estar na rua. A vida ser estpida, na atividade domstica. E s amanh, s quatro horas, haver a transfigurao da cidade, mostrando seus segredos, mansa, ntima, to perto, cheia de histrias balbuciadas, plena de orgia da madrugada.

205. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. HISTRIA DE MINEIRO. Estou sabendo de uma historinha que bem valia um conto e feito por quem a narrou, o contista que anda arrebatando todos os prmios dos concursos em que se inscreve: Edson Guedes de Morais. um caso de mineiro. Trata de gente pobre e de filho que veio trabalhar no Rio, prosperou e um dia mandou uma carta ao pai: Meu pai, com a graa de Deus, posso dizer que j tenho economia suficiente para pretender realizar qualquer sonho seu. Minha maior felicidade estar em poder propor: que possa fazer para alegr-lo? 0 que mais desejaria na vida? Tenho pensado muito em sua luta de sacrificado e no me lembro de t-lo ouvido falar sobre qualquer aspirao. No se acanhe, papai, mande dizer se o senhor quiser alguma coisa." L da cidadezinha das Minas Gerais veio uma carta. Daquele homem religioso, devoto de Nossa Senhora Aparecida, austero, confiando nos seus deveres e trabalhos: o homem que jamais manifestara ao filho o seu desejo de possuir, por exemplo, um carro, ou ter um negcio s seu, ou, no mnimo, de adquirir uma lavadeira automtica para desafogar o trabalho da mulher: "Meu filho, com a graa de Deus, todos vo com sade. No me falta nada. Assim como vivo, vivo bem. Mas se voc quiser saber de um desejo que sempre tive fique sabendo agora que toda a vida quis ver o mar. s isso, meu filho, mais nada." To pouco lhe pedia o pai ! Mandou-lhe o filho a passagem, depois de ter escolhido um bom hotelzinho na Tijuca, freqentado por gente de pequenas posses, mas pessoas escolhidas s famlia, enfim. E o velho chegou com a alegria de ver o filho que realizara o que inmeras geraes de sua gente no haviam conseguido: ter dinheiro sobrando. Vieram as efuses, as lgrimas. O primeiro dia passou, e, logo no segundo, o filho veio buscar o pai: Papai, vista-se que eu vou lev-lo a Copacabana. Est na hora de realizar o desejo." 0 velho olhou-o piscando meio trmulo: "Hoje, no. Quero visitar a prima Carlota, que mora aqui perto. Amanh eu vou". Chegou amanh, e o pai, sempre tremendo e piscando, disse que no se sentia bem para ir a Copacabana. No terceiro e no quarto dias tambm, afirmou que no podia ir e que queria comprar uma lembrancinha para a mulher e para a filha. Alguns dias decorreram e o grande encontro entre o mineiro e o mar foi sendo protelado. J, ento, o filho estava meio triste com aquela estranha atitude do pai e, afinal, desabafou: "Parece que o senhor no est querendo mesmo ir ver o mar! Desde que chegou aqui no encontra um dia para realizar aquilo que afirmou ser o nico desejo de sua vida!" 0 pai chegou a pegar o chapu, passou a mo no ombro do filho mas estava to perturbado, que desta vez, realmente, parecia doente. "Meu pai, o que que o senhor tem? O que h?" O velho mineiro, de olhos nublados, hesitou. Por fim, largou o peso da verdade de uma vez : "Acho uma coisa to maravilhosa poder ir ver o mar que quero entregar a Nossa Senhora o meu sacrifcio. Meu filho, no se zangue. Vou voltar hoje mesmo para casa sem ir a Copacabana". "Mas por que, meu pai? Por qu? Nem Nossa Senhora vai aceitar esse seu sacrifcio. Todo mundo v o mar todo dia. Gente h que nem liga, passa pela praia e nem volta o rosto para ele..." Mas, a essa altura, o velho j ia juntando os seus trens. Nesse mesmo dia voltou para sua cidade das Minas Gerais, levando em sua imaginao a idia do abismo de assombro que ele jamais encontraria.

206. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. O HOMEM QUE SE EVADIU. Ele costumava olhar a cidade como quem passa de trem, e no pode possuir a paisagem. Que belas mulheres, que admirveis lugares de diverses, e que restaurantes... e que bebidas! Feliz era o turista que chupava a cidade por um canudo. Mas ele ele era o seu escravo! De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Quando chegava o dia de folga a mulher, que estava dia a dia ficando mais feia e cida, se agarrava com ele. Ela era quem escolhia o cinema, ou a visita... Numa segunda-feira, em que o homem sentia a vida como um n na garganta, um companheiro de trabalho deu certa notcia: - "Sabe? O chefe vai mandar-me a Buenos Aires por quinze dias!" - "Mas voc um homem de sorte! Eu que sempre quis conhecer aquela terra!" A viagem do colega a Buenos Aires deu ao nosso conhecido um complexo: o da liberdade! A inveja nele doa. E ento, pediu ao felizardo: - "Tive uma idia. Vou tomar frias. E como no tenho dinheiro para viajar... fico por aqui mesmo. Mas quero que minha mulher pense que estou fora. Meu amigo eu vou me acabar! Vou-me divertir para o resto da minha vida. Voc vai para Buenos Aires, mas a gente rica de l vem passear aqui. Quer dizer que isto bom. O de que se precisa liberdade, para gozar o Rio." Como o amigo concordasse com sua fantasia o carioca que queria gozar o Rio como turista disse mulher: "Meu bem, tenho uma novidade para contar. O chefe me despachou para Buenos Aires por duas semanas! Vou ter muitas saudades de voc. Ns que no nos separamos nunca!" E ele no quis que a mulher o acompanhasse ao Aeroporto: " Vou ficar muito emocionado." Nesse dia em que deveria embarcar, ele madrugou e foi levar o amigo, entregando-lhe meia dzia de telegramas que deveria passar... E caiu na orgia. noite, depois de um dia de companhia alegre, de passeio de lancha, de teatro ao lado de uma loira, noite, l pelas onze horas, uns conhecidos que chegavam a uma boate deram com nosso personagem num pileque terrvel. Da a meia hora estava dormindo sobre a mesa: ningum sabia que ele tomara um quarto em hotel... nem conhecia sua trama inventada. Os amigos, penalizados, o puseram num automvel e sabendo do seu endereo, o deixaram em casa, onde a mulher o recebeu com espanto, que se transformou em clera tremenda. Quando, de manhzinha, o homem acordou em seu quarto mediu toda a extenso da sua ... desgraa: " Meu bem, os amigos, l no aeroporto... O avio atrasara quatro horas... me deram uma festinha de despedida... e eu perdi a hora... Mas no foi minha culpa. Voc me perdoe. Isso aconteceu, porque eu no tenho hbito dessas coisas... Mas eu me arranjarei com o chefe... At foi bom. Ele manda outro funcionrio, e eu no me separo mais da minha mulherzinha." A senhora estava furiosa. Foi preciso muito juramento e muita declarao de amor para que amansasse um pouquinho. tarde, quando estava j querendo fazer as pazes tocou a campainha da porta. Era um telegrama. Ela o abriu: "Viagem tima. Morrendo saudades querida mulherzinha." Foi a tempestade. A senhora arrumou a bagagem. Ia para a casa do pai, pois no era uma abandonada. O marido se arrojou ao cho, inventou histrias, disse que se mataria. Ela ficou. Mas quando se recolhiam ao quarto de pazes feitas, chegou novo telegrama: "Buenos Aires sem ti no vale nada." E os quinze dias do homem que quis quebrar sua rotina foram tremendos. Mesmo porque o amigo que levara os telegramas mudara de hotel, em Buenos Aires, e se desincumbiu religiosamente da sua misso. O ltimo despacho que mandou foi assim: " Volto amanh teus braos." E estava gentilmente assinado: " Maridinho".

207. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. CASA PARA ALUGAR. Ontem fui ver uma casa vazia, que espera seus inquilinos. Onde fica, qual o seu aluguel, isto no so coisas contidas no ofcio da cronista. Estava toda escancarada para um sol que lampejava enviesado, desconcertando pelo seu absurdo de m pintura. J era quase noite num canto do cu. E havia um rasgo azul cintilante, feito para clarear a casinha, que se oferecia, toda branca e nova, para quem quisesse e pudesse. Quando entrei um operrio cantava, outro metia a cabea pintalgada de branco sob a torneira do jardim. Havia gua, espao, terra em torno, muros cercando o pequeno domnio. Muitas pessoas tm ido ver a casinha vazia. As mulheres ficam perturbadas por um amontoado de sonhos que se desencadeiam, mal elas pem os ps no pequeno terrao. "Aqui fecharei com persianas; ser quase um jardim, para que o nenm no saia. E mandarei pintar da mesma cor da parede essa tremenda barra de cor verde, na sala de jantar, fingindo mrmore".Depois de uma pausa, talvez ainda acrescentem: "Este quarto ser transformado em escritrio, porque tem muita parede, e bem se pode nele instalar a grande estante de dois metros e oitenta. E neste canto do quarto cabe a cama de casal". A casinha ser medida, considerada por uma respeitvel quantidade de pessoas. Algum se alegrar com o quintal, nele instalando em imaginao a casa do seu cachorro ou o galinheiro. Pessoas poticas vero crescidas, aninhando as paredes, amorosas trepadeiras, assim como as begnias no terrao, mais as avencas e os gernios. Gostei de ver a casinha desalugada. Ainda no se sabe de quem ser! um palco pequeno e adornado, esperando por seus atores. At a msica que o operrio cantarolava me parecia qualquer canto de apresentao, antes de uma pea, cuja primeira parte constar, talvez, da invaso de uma famlia com sua velha e seu papagaio, seu piano que no encontra parede, sua moa que reclama tudo, e a me que briga com os fornecedores. Um gato morrer, quase, de susto, traumatizado com a alvura das paredes desconhecidas. A jovem achar a barra de imitao de mrmore o tipo da coisa suburbana. 0 pai, vindo de uma era de casas mais enfestadas, defender aquela aparncia de suntuosidade com o calor que s as discusses domsticas podem ter. Haver um filho estudando, brigas sobre o horrio do almoo, objetos perdidos na mudana, e o martirolgio da dona da casa entoado por ela prpria, sem que ningum se importe com seu drama. Pode ser que a moa se case, que haja na salinha de barra verde uma mesa com comes e bebes. Acontecer, quem sabe, em certa madrugada, riscar o escuro o choro de uma criancinha recm-nascida pungentemente cantando dos difceis comeos, doloridos comeos de qualquer vida. Haver alegria, haver dvidas de dar n na garganta, e festa de formatura, e discusses polticas. A casinha nova, ento, ter paredes riscadas, gordura sobre o forro da cozinha, portas sem chave, torneiras escorrendo. Na ex-cobiada pequena casa pessoas batero portas com raiva: "Esta casa um inferno!" Outras chegaro nela, j toda sabida e experimentada, como amante sem segredo, e iro diretamente a um canto mais fresco do terrao, ou para a profundeza de um quarto. "Eu estava morrendo de calor (ou de cansao). No agentava mais a rua." Ter a casinha to perfeitamente pura, hoje, pregos cados da parede, ladrilhos que faltam, como dentadura incompleta. Se passar algum tempo mais talvez que o velho morra, e se enterre com a roupa feita ainda para o casamento da filha em seu caixo, que no alto ser levantado, quando atravessar o portozinho. Ah, casinha que espera seus donos, branca e bonita como uma noiva menina! Ests preparada para teu destino. E, antes dos moradores compactos fantasmas de vida e de morte j te povoam, eu sei.

208. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. A moralista. Se me falam em virtude, em moralidade ou imoralidade, em condutas, enfim, em tudo que se relacione com o bem e o mal, eu vejo Mame em minha idia. Mame no. O pescoo de Mame, a sua garganta branca e tremente, quando gozava a sua risadinha como quem bebe caf no pires. Essas risadas ela dava principalmente noite, quando s ns trs em casa vinha jantar como se fosse a um baile, com seus vestidos alegres, frouxos, decotados, to perfumada que os objetos a seu redor criavam uma pequena atmosfera prpria, eram mais leves e delicados. Ela no se pintava nunca, mas no sei como fazia para ficar com aquela lisura de loua lavada. Nela, at a transpirao era como vidraa molhada:escorregadia, mas no suja. Diante daquela pulcritude minha face era uma miservel e movimentada topografia, onde eu explorava furiosamente, e em gozo fsico, pequenos subterrneos nos poros escuros e profundos, ou vulcezinhos que estalavam entre as unhas, para meu prazer. A risada de Mame era um "muito obrigada" a meu Pai, que a adulava como se dela dependesse. Porm, ele mascarava essa adulao brincando e a tratando eternamente de menina. Havia muito tempo uma esprita dissera a Mame algo que decerto provocou sua primeira e especial risadinha: Procure impressionar o prximo. A senhora tem um poder extraordinrio sobre os outros, mas no sabe. Deve aconselhar... Porque... se impe, logo primeira vista. Aconselhe. Seus conselhos no falharo nunca. Eles vm da sua prpria mediunidade... Mame repetiu aquilo umas quatro ou cinco vezes, entre amigas, e a coisa pegou, em Laterra. Se algum ia fazer um negcio, l aparecia em casa para tomar conselhos. Nessas ocasies Mame, que era loura e pequenina, parecia que ficava maior, toda dura, de cabecinha levantada e dedo gordinho, em riste. Consultavam Mame a respeito de poltica, dos casamentos. Como tudo que dizia era sensato, dava certo, comearam a mandar-lhe tambm pessoas transviadas. Uma vez, certa senhora rica lhe trouxe o filho, que era um beberro incorrigvel. Lembro-me de que Mame disse coisas belssimas, a respeito da realidade do Demnio, do lado da Besta, e do lado do Anjo. E no apenas ela explicou a misria em que o moo afundava, mas o castigo tambm com palavras tremendas. Seu dedinho gordo se levantava, ameaador, e toda ela tremia de justa clera, porm sua voz no subia do tom natural. O moo e a senhora choravam juntos. Papai ficou encantado com o prestgio de que, como marido, desfrutava. Brigas entre patro e empregado, entre marido e mulher, entre pais e filhos vinham dar em nossa casa. Mame ouvia as partes, aconselhava, moralizava. E Papai, no pequeno negcio, sentia afluir a confiana que se espraiava at seus domnios. Foi nessa ocasio que Laterra ficou sem padre, porque o vigrio morrera e o bispo no mandara substituto. Os habitantes iam casar e batizar os filhos em Santo Antnio. Mas, para suas novenas e seus teros, contavam sempre com minha Me. De repente, todos ficaram mais religiosos. Ela ia para a reza da noite de vu de renda, to cheirosa e lisinha de pele, to pura de rosto, que todos diziam que parecia e era, mesmo, uma verdadeira santa. Mentira: uma santa no daria aquelas risadinhas, uma santa no se divertia, assim. O divertimento uma espcie de injria aos infelizes, e por isso que Mame s ria e se divertia quando estvamos ss. Nessa poca, at um caipira perguntou na feira de Laterra: Diz que aqui tem uma padra. Onde que ela mora? Contaram a Mame. Ela no riu: Eu no gosto disso. E ajuntou: Nunca fui uma fantica, uma louca. Sou, justamente, a pessoa equilibrada, que quer ajudar ao prximo. Se continuarem com essas histrias, eu nunca mais puxo o tero. Mas, nessa noite, eu vi sua garganta tremer, deliciada: J esto me chamando de "padra"... Imagine! Ela havia achado sua vocao. E continuou a aconselhar, a falar bonito, a consolar os que perdiam pessoas queridas. Uma vez, no aniversrio de um compadre, Mame disse palavras to belas a respeito da velhice, do tempo que vai fugindo, do bem que se deve fazer antes que caia a noite, que o compadre pediu: Por que a senhora no faz, aos domingos, uma prosa desse jeito? Estamos sem vigrio, e essa mocidade precisa de bons conselhos... Todos acharam tima a idia. Fundou-se uma sociedade:"Crculo dos Pais de Laterra", que tinha suas reunies na sala da Prefeitura. Vinha gente de longe, para ouvir Mame falar. Diziam todos que ela fazia um bem enorme s almas, que a doura das suas palavras confortava quem estivesse sofrendo. Vrias pessoas foram por ela convertidas. Penso que meu Pai acreditava, mais do que ningum, nela. Mas eu no podia pensar que minha Me fosse um ser predestinado, vindo ao mundo s para fazer o bem. Via to claramente o seu modo de representar, que at sentia vergonha. E ao mesmo tempo me perguntava: Que significam estes escrpulos? Ela no une casais que se separam, ela no consola as vivas, ela no corrige at os aparentemente incorrigveis? Um dia, Mame disse ao meu Pai, na hora do almoo: Hoje me trouxeram um caso difcil... Um rapaz viciado. Voc vai empreg-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxlio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou... contando a sua misria. um desgraado! Um sonho de glria a embalou: Sabe que os mdicos de Santo Antnio no deram nenhum jeito? Quero que voc me ajude. Acho que ele deve trabalhar... aqui. No sacrifcio para voc, porque ele diz que quer trabalhar para ns, j que dinheiro eu no aceito mesmo, porque s fao caridade! O novo empregado parecia uma moa bonita. Era corado, tinha uns olhos pretos, pestanudos, andava sem fazer barulho. Sabia versos de cor, e s vezes os recitava baixinho, limpando o balco. Quando o souberam empregado de meu Pai foram avis-lo: Isso no gente para trabalhar em casa de respeito! Ela quis respondeu meu Pai. Ela sempre sabe o que faz! O novo empregado comeou o servio com convico, mas tinha crises de angstia. Em certas noites no vinha jantar conosco, como ficara combinado. E aparecia mais tarde, os olhos vermelhos. Muitas vezes, Mame se trancava com ele na sala, e a sua voz de tom igual, feria, era de repreenso. Ela o censurava, tambm, na frente de meu Pai, e de mim mesma, porm sorrindo de bondade: Tire a mo da cintura. Voc j parece uma moa, e assim, ento... Mas sabia dizer a palavra que ele desejaria, decerto, ouvir: No h ningum melhor do que voc, nesta terra! Por que que tem medo dos outros? Erga a cabea... Vamos! Animado, meu Pai garantia: Em minha casa ningum tem coragem de desfeitear voc. Quero ver s isso! No tinha mesmo. At os moleques que, da calada, apontavam e riam, falavam alto, ficavam srios e fugiam, mal meu Pai surgisse porta. E o moo passou muito tempo sem falhar nos jantares. Nas horas vagas fazia coisas bonitas para Mame. Pintou-lhe um leque e fez um vaso em forma de cisne, com papis velhos molhados, e uma mistura de cola e nem sei mais o qu. Ficou meu amigo. Sabia de modas, como ningum. Dava opinio sobre os meus vestidos. hora da reza, ele, que era to humilhado, de olhar batido, j vinha perto de Mame, de tero na mo. Se chegavam visitas, quando estava conosco, ele no se retirava depressa como fazia antes. E ficava num canto, olhando tranqilo, com simpatia. Pouco a pouco eu assistia, tambm, sua modificao. Menos tmido, ele ficara menos afeminado. Seus gestos j eram confiantes, suas atitudes menos ridculas. Mame, que policiava muito seu modo de conversar, j se esquecia de que ele era um estranho. E ria muito vontade, suas gostosas e trmulas risadinhas. Parece que no o doutrinava, no era preciso mais. E ele deu de segui-la fielmente, nas horas em que no estava no balco. Ajudava-a em casa, acompanhava-a nas compras. Em Laterra, soube depois, certas moas que por namoradeiras tinham raiva da Mame, j diziam, escondidas atrs da janela, vendo-a passar: Voc no acha que ela consertou... demais? Laterra tinha orgulho de Mame, a pessoa mais importante da cidade. Muitos sentiam quase sofrimento, por aquela afeio que pendia para o lado cmico. Viam-na passar depressa, o andar firme, um tanto duro, e ele, o moo, atrs, carregando seus embrulhos, ou ao lado levando sua sombrinha, aberta com uno, como se fora um plio. Um franco mal-estar dominava a cidade. At que num domingo, quando Mame falou sobre a felicidade conjugal, sobre os deveres do casamento, algumas cabeas se voltaram quase imperceptivelmente para o rapaz, mas ainda assim eu notei a malcia. E qualquer absurdo sentimento arrasou meu corao em expectativa. Mame foi a ltima a notar a paixo que despertara: Vejam, eu s procurei levantar seu moral... A prpria me o considerava um perdido chegou a querer que morresse! Eu falo porque todos sabem mas ele hoje um moo de bem! Papai foi ficando triste. Um dia, desabafou: Acho melhor que ele v embora. Parece que o que voc queria, que ele mostrasse que poderia ser decente e trabalhador, como qualquer um, afinal conseguiu! Vamos agradecer a Deus e mand-lo para casa. Voc extraordinria! Mas disse Mame admirada. Voc no v que preciso mais tempo... para que se esqueam dele? Mandar esse rapaz de volta, agora, at um pecado! Um pecado que eu no quero em minha conscincia. Houve uma noite em que o moo contou ao jantar a histria de um caipira, e Mame ria como nunca, levantando a cabea pequenina, mostrando a sua nudez mais perturbadora seu pescoo naquele gorjeio trmulo. Vi-o ao empregado, ficar vermelho e de olhos brilhantes, para aquele esplendor branco. Papai no riu. Eu me sentia feliz e assustada. Trs dias depois o moo adoeceu de gripe. Numa visita que Mame lhe fez, ele disse qualquer coisa que eu jamais saberei. Ouvimos pela primeira vez a voz de Mame vibrar alto, furiosa, desencantada. Uma semana depois ele estava restabelecido, voltava ao trabalho. Ela disse a meu Pai: Voc tem razo. melhor que ele volte para casa. hora do jantar, Mame ordenou criada: S ns trs jantamos em casa! Ponha trs pratos... No dia seguinte, hora da reza, o moo chegou assustado, mas foi abrindo caminho, tomou seu costumeiro lugar junto de Mame: Saia!... disse ela baixo, antes de comear a reza. Ele ouviu e saiu, sem nem ao menos suplicar com os olhos. Todas as cabeas o seguiram lentamente. Eu o vi de costas, j perto da porta, no seu andar discreto de mocinha de colgio, desembocar pela noite. Padre Nosso, que estais no cu, santificado seja o Vosso Nome... Desta vez as vozes que a acompanhavam eram mais firmes do que nos ltimos dias. Ele no voltou para a sua cidade, onde era a caoada geral. Naquela mesma noite, quando saa de Laterra, um fazendeiro viu como que um longo vulto balanando de uma rvore. Homem de coragem, pensou que fosse algum assaltante. Descobriu o moo. Fomos chamados. Eu tambm o vi. Mame no. luz da lanterna, achei-o mais ridculo do que trgico, frgil e pendente como um judas de cara de pano roxo. Logo uma multido enorme cercou a velha mangueira, depois se dispersou. Eu me convenci de que Laterra toda respirava aliviada. Era a prova! Sua senhora no transigira, sua moralista no falhara. Uma onda de desafogo espraiou-se pela cidade. Em casa no falamos no assunto, por muito tempo. Porm Mame, perfeita e perfumada como sempre, durante meses deixou de dar suas risadinhas, embora continuasse agora, sem grande convico eu o sabia a dar os seus conselhos. Todavia punha, mesmo no jantar, vestidos escuros, cerrados no pescoo.

209. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. TARCISO. Alm da ponte cinzenta e empedrada comeava o muro dos Vilares. Por cima dele se inclinavam alguns chores desgalhados e sofredores, pendendo para o cho poeirento, ansiando por um descanso. Um vento morno e enervante roava-lhes as folhas mais altas, fazia tremer as janelas vermelhas do sobrado, como se as forasse de propsito. O jardineiro dos Vilares, de joelhos sobre a terra, arrancava, com cuidado para no magoar as flores, aqui e ali, pequenas plantas daninhas. De vez em quando olhava o cu. A terra pedia chuva, e era s aquele vento seco e ruinoso soprando em cima das plantas e das criaturas, com impiedade. Estava no seu trabalho, quando a porta da frente se abriu, e Maninha apareceu com os cabelos voando, o vestido branco palpitando igual a uma asa, fininha, comprida e plida: Se chegar algum de automvel, espie a entrada da ponte. Avise para ter cuidado com a vala. Est direito assentiu o jardineiro. Eu aviso. Espera c a menina! Ps-se em p, apanhou um molho de algumas altas flores vermelhas, inchadas, grandes, to viosas que pareciam artificiais, e levou-as Maninha. Estas so fortes. No h vento que d cabo delas.Maninha sorriu, apanhou as flores, e voltou correndo. Ao entrar na sala sentiu a mesma atmosfera tensa e irritante que ali deixara havia poucos momentos. A me e o pai continuavam a discutir, com aquele modo especial. Feriam-se mutuamente numa guerra severa e contida. Nem gritos, nem desabafos, nem acessos de ira, ou crises de choro. Mas uma batalha fria e metdica, em que todos os gestos eram estudados, todas as palavras determinadas e inflexveis, nunca apaixonadas e descuidosas. Passou Maninha como uma lufada branca e leve pela sala de mveis escuros e pesados, com a mancha vermelha das flores em uma das mos. Subiu a escada de ferro. L em baixo, fitando a filha, disse Carlos Vilares sua mulher Lusa. J sei para que so estas flores! O menino est doente, talvez em perigo de vida, e voc impele a sua prpria filha para fazer o irmo piorar, num exagero de beatice! Carlos havia dito isto mais como ironia, com um repuxar nos lbios finos, que queria ser um sorriso, tornar menos graves suas palavras, mas Lusa respondeu erguendo a face fina de ave, fixando-o de perfil, com um olho apenas, como prestes a dar uma bicada violenta, traio: So flores para o altar, que Tarciso mesmo fez quando era pequenino. Seu filho sempre foi crente e calmo. Voc o mergulhou na dvida. Voc, com seu materialismo, com seus discursos fora da moda! No foi a minha f; no foram as flores com que eu e Maninha enfeitamos os ps de Nossa Senhora, que confundiram o menino, que o desnortearam. Foi voc! "Meu filho h de ser mais feliz do que eu, ter mais prazeres na vida. Tome dinheiro, meu filho! Eu no tive. Voc tem. V divertir-se. Deixe as saias da me." Lembre-se! Lembre-se de que foi isso que precipitou a crise os seus conselhos. Carlos Vilares desabotoou o palet, comeou a dar passadas e mais passadas, que pareciam calmas e medidas: Chamei Tarciso aqui como qualquer pai o faria. Dei-lhe algumas explicaes. claro! Meu filho no podia continuar como um maricas. Quantas vezes eu mesmo vendo-o do meu tamanho, j quase um homem feito, me envergonhava da sua timidez. Incrvel! Lusa virou a face magra, de todo, focalizou o marido com seu olhar duro: Sua vaidade sacrificou o menino. A verdade que de repente voc sentiu que ele me pertencia. Era meu! Toda a sua eloqncia, e todas as suas idias de um materialismo grosseiro no encontraram apoio em Tarciso. O que voc fez... foi crime. Sim! eu digo com a maior clareza e assumo a responsabilidade do que estou dizendo: voc fez o menino ficar doente; talvez para sempre! Minha famlia no tem malucos. A sua j no a mesma coisa. Aquele seu tio que vestiu uma opa e saiu pelo mundo: "Esmola para os pobres! Esmola para os pobres! " Deu tudo que tinha, botou dinheiro fora com toda a espcie de vagabundos. Minha famlia de gente equilibrada! A face de Lusa tremeu, mas sua voz era firme e spera: Voc?... Nem se deu o respeito. Mostrou livros indecentes a Tarciso... Isto , no mostrou, mas "esqueceu" de propsito para o menino ler! O que est acontecendo com nosso filho que... foi um choque que ele teve grande demais para sua inocncia. Carlos passou a mo pelos belos cabelos grisalhos: Quando o Doutor Laertes chegar voc me chame logo. A fala de Lusa subiu um tom:nunca ela se pareceu tanto com uma ave arisca: Chamei Padre Nicolau. Os meus direitos so iguais aos seus. Voc acha que Tarciso precisa de um mdico. Eu acho que no. Prefiro um sacerdote. O marido ps o p na escada, pronto para subir: Coitado! At tenho pena de voc meter o Padre Nicolau nessa histria. Aquele jeito dele no sei se escrpulo, se falta de inteligncia de pensar meia hora, antes de dizer qualquer coisa! Pode chamar vontade. Chame o jardineiro, se quiser, tambm... contanto que o Doutor Laertes venha. Isso que o principal. E Carlos foi subindo devagar. No meio da escada encontrou Maninha; vinha correndo para junto da me. Enquanto o pai entrava no quarto de Tarciso, Maninha se chegava a Lusa, com maneiras assustadas: Mame eu jurei, mas pra senhora eu conto: at no foi mesmo um juramento, eu enganei Tarciso, e disse: "Juro por Deus!" bem depressa, ele pensou que eu estava jurando. Eu agora sei tudo! Ele falou! Ele contou! Fez alguma coisa... malfeita, quando saiu de casa? Hein? Fez? Fale, mas fale baixo por causa de seu pai. Seno tudo arrebenta em cima de mim... Foi horrvel, mame. No sei. Acho que no fez. Mas teve vontade de fazer. Maninha ergueu os olhos, olhou para a porta de Tarciso. Estava fechada, no havia perigo: Tudo foi por causa de uns sonhos. Foi por isso que ele foi embora. A senhora se lembra quando ele ficava acordado, estudando noites e noites? A senhora zangava e ele dizia que no tinha sono. Mas estava enganando... Ele no queria dormir... com medo dos pesadelos. Meu Deus, como que uma pessoa como Tarciso pode sofrer tanto? A campainha tocou. Deve ser o mdico. Quieta! disse Lusa a Maninha, enquanto rpida se encaminhava para a porta. Mas, para sua surpresa, quem chegara era o lento e ofegante Padre Nicolau. Vim depressa disse ele, com pequenas pausas para respirar. O Coronel Juliano me trouxe... de automvel. Que h... ento? E se atirou pesadamente numa poltrona, antes que Lusa o mandasse sentar: Este vento... me faz mal. Por pouco que o carro no bateu... na quarta da ponte. Quando levamos o susto... apareceu... seu jardineiro para nos avisar... que tivssemos cuidado... Lusa disse, polida: O senhor desculpe. Sinto muito. Mas foi s o susto, no foi? Isso mesmo. Que que a senhora... quer? Alguma... dificuldade? Esta menina... Maninha disse, viva: No comigo. com meu irmo Tarciso. Eu no tenho nada. Lusa f-la interromper-se com um gesto brusco: amaciou a fala, dirigindo-se ao padre: Tarciso anda esquisito. Meu marido acha que ele est doente. Porque deu pra fugir de casa, e ficar horas e horas, depois, sem querer dar a palavra a ningum. Ah! fez Padre Nicolau. Ento o Tarciso... aquele que brincava de dizer missa, quando era... pequenino... deu para fugir? Ns pensvamos... que fosse coisa de meninote disse Lusa. At uma paixo... era a Maninha quem falava, e coma gravidade de irm mais velha: O padre se abriu num sorriso: Isso deve ser... um excesso de amor. Talvez... mimos. Mimos demais. Mame, eu posso falar? Posso contar ao Padre Nicolau? Decerto, Maninha. Mas fale baixo. Olhe seu pai. Seu pai capaz de ouvir. Padre Nicolau, comeou Maninha uma coisa tremenda. Nem sei como comear. Minha filha, pense que como se voc... estivesse no confessionrio. No tenha medo. So os pesadelos de Tarciso. No princpio, ele disse que sempre fazia um esforo... e acordava antes... Era horrvel, mas depois... A mocinha fixou o padre e a me com os olhos mergulhados num medo denso. Ele via chagas. Uma poro de chagas. Homens sem rosto, os ossos de fora, a carne escorrendo para o lado, como trapos sangrentos. Via pernas inchadas, via gangrenas, via lbios comidos de ferida, via tumores exalando pus, e o pior... Os olhos de Maninha estavam rasos d'gua: O pior que tudo isso agradava Tarciso. No sei. Ele disse assim mesmo: "Maninha, eu no quero mais guardar segredos de voc. Nem uma daquelas... posso falar, posso, Padre Nicolau?... Nem uma daquelas figuras de mulheres dos livros que pecado a gente ver me atraram tanto! Em vez de me encher de nojo, tinha vontade de apalpar aquelas feridas... de beijar aquelas chagas, de mergulhar o dedo no pus." Houve um silncio. Depois Maninha prosseguiu: Tarciso disse que no comeo reagia. Vinham aqueles homens horrveis sua frente... Lusa comprimiu os lbios. Logo disse num tom fundo, dodo: Pobre do meu filhinho! Padre Nicolau se tornara vermelho, e mais ofegante ainda, quase apoplctico. Com voz difcil perguntou: Depois? Ouviu-se o rudo de uma porta que se abria. Depois os sonhos comearam a ficar confusos: aqueles homens cheios de chagas iam ficando pequeninos, pequeninos, e Tarciso se sentia grande e forte. Eles o enlaavam com seus braos esquelticos, cobertos de feridas, pedindo uma esmola, ou o qu, nem Tarciso sabia: "No nos deixe! No nos deixe!", gritavam. E Tarciso sentia vontade de se deixar abraar, queria beij-los tambm. Uma vontade louca de ficar com eles, de se unir a eles. Mas meu irmo no podia explicar direito o que sentia, como era aquela atrao terrvel, a mais terrvel... Mas de repente ele ficava com medo, fugia. E os homenzinhos desfigurados o perseguiam, agarravam-se s suas pernas como anes pavorosos..." Ento era isso! Carlos, muito plido, estava diante de Maninha: Conte para seu pai disse ele. Eu devo saber! Eu preciso... No acontece nada. Eu no fao nada! Mas quero saber! Por que Padre Nicolau h de entender melhor o que se passa em minha prpria casa? Por que escondem de mim? Diga, ento! S isso, papai! Nos dias seguintes a esses sonhos tremendos, Tarciso... tinha vontade de ir igreja... Carlos balanou a cabea, num gesto raivoso: Justamente como eu pensava. E ento? Ento ele se chegava escada, ficava... ficava olhando fascinado para os mendigos. Sabe? Aquela mulher com erisipela, a perna inchada o homem com uma chaga no lugar do nariz... Tarciso ficava olhando, olhando. Dentro dele subia uma vontade esquisita. Beijar! Apalpar aquela chaga, acariciar a perna doente. Depois fugia dali, e dizia para si mesmo: "Meu Deus! Salvai-me! Estou ficando louco!" Uma noite andou, andou sonhando confusamente com chamados misteriosos... e o dia veio, e ele sempre sonhando de olhos abertos e andando como se fosse empurrado. Carlos olhou Lusa com um ar ao mesmo tempo vitorioso e triste: Eu no lhe disse? Ainda imagina que eu sou o culpado? E voltando-se para Padre Nicolau: Lusa pensou que certas revelaes... tivessem chocado demais Tarciso. Pensou, ora, pensou que tudo fosse obra do meu "materialismo". Diga lhe o senhor mesmo que isso de Tarciso uma doena, uma doena cuja culpa no me cabe. Como est vendo! Padre Nicolau estava ansioso: As vezes... dois... o pai e a me, em seu excesso de amor... podem fazer mal... levar um filho confuso. Querem imprimir sua alma... na alma de seu filho. E lutam por estampar o prprio retrato no corao da criana. Querem destruir seu esprito, por um egosmo natural, s vezes... Lusa baixou os olhos: Padre Nicolau, vamos ver o menino? Tarciso est dormindo. Est extenuado. No devem acord-lo agora disse Carlos. Maninha falou aflita: E o mdico que no vem!... Tarciso me disse que essa fora que ele sente to grande... Ele tem medo de ir no sabe para onde! Eu tirei a chave l de cima da porta do quarto que d para a escada. Primeiro tranquei, naturalmente. Acho que tranquei direito, nem vale a pena ver concluiu baixinho. Padre Nicolau, visivelmente perplexo, atirava palavras a esmo: O menino sempre me pareceu... calmo... normal. E se dirigindo a Lusa: Minha filha, Deus bondade, doura. Em vez de combater seu marido... dele devia tentar aproximar-se tanto quanto ele da senhora. No oferecer a Tarciso essa contradio to viva... que, decerto, feriu o rapaz. Pobrezinho! No sabia em quem devia crer... Na sua confuso... ficou-lhe perturbado o crebro, sim... deve ser isso. No lhe parece... Dr. Carlos? Tambm no pensa assim? Agora? E preciso que se no esqueam neste momento do poder da orao... Mas Carlos dardejava sobre Lusa um olhar carregado de intenes: "Eu no falei?" parecia significar. Enquanto isso, Maninha abria a porta. Entardecia. Ainda ventava. "E o Doutor Laertes que no chega!" pensava. O automvel veio muito devagar. Um homem ps a cabea para fora. O jardineiro gritou: Passe por aqui que passa, sim! Por aqui!... Logo que atravessou a ponte o homem freou o carro, e saltou: Eu bem reconheci voc! Logo no mesmo momento... O jardineiro ficou lvido: Doutor Laertes! Eu mesmo! Voc pensou que pudesse escapar do hospital, assim? A figura do mdico tomava certa atitude suficiente, autoritria, semelhante de um chefe militar: Por que fez isso? Eu devia puni-lo, Mandar o carro dos doentes peg-lo aqui mesmo, diante de todos, e depois prend-lo! Prend-lo na cela! Doutor... eu no estou doente... E o jardineiro cruzava os braos atrs das costas, ao mesmo tempo que olhava splice para o mdico. Voc est doente: sabe que est doente. No esconda as mos. Quer enganar-me? Pensa que me engana? O homem tremia de emoo: J ando muito velho para acostumar-me no hospital... Trinta anos cuidando das flores, mexendo na terra. Ai! Que triste a vida l, "seu' doutor, para um pobre como eu, que nem sabe ler, nem gosta de ouvir rdio, como os outros... Doutor Laertes... por Deus que est no cu, no me faa voltar! E o pobre homem rompeu em soluos, como uma criana. Depois, continuou: Mesmo dizer que eu viva com esta famlia isto no vivo, no! Durmo num quarto l para os fundos da casa... Tenho os meus pratos, fao minha comida... intil disse o mdico. Sou obrigado a dar parte! Se no quiser ir por bem agora mesmo pior para voc! O carro vir busc-lo! O doente limpou os olhos com a manga da camisa: No pelo dinheiro que perco, nem pela liberdade de andar pelas ruas... pelo amor que sinto s plantinhas de Deus. tambm pelo menino. Pode-se l governar o corao? O pequeno vinha por aqui, dava-me prosa... Por alma de minha me! Nunca vi uma criana daquele jeito. Gosta-se logo dele, como... um filho. Mas doutor! S converso com ele assim, como estou falando com o senhor... Nunca lhe ponho as mos. O mdico consultou o relgio, a fisionomia fechada: Arrume-se, e v embora; j lhe disse. Se quiser, invente uma desculpa qualquer para se despedir. Mas ande depressa! E o Doutor Laertes, com seus passos rgidos, tomou a direo da casa dos Vilares. O jardineiro ento, resolutamente, se encaminhou para os fundos do quintal. Diante do seu quarto, porm, hesitou, e, voltando, comeou a subir a escada que dava para o quarto de Tarciso. O homem estava trmulo, comovido, e sentia o suor correr pela face, como se levasse em si um peso descomunal. Bateu fracamente na porta. Depois, quis torcer o trinco. Mas, ao encostar a mo, a porta cedeu. Talvez fosse o prprio vento que a abrisse e no ele. L no canto, sobre a cama de madeira, uma vaga claridade descia da janela alta, semicerrada. O jardineiro aproximou-se, devagarinho. Sentia a fronte latejar. "O menino estaria adormecido? Deus o guarde. Deus o guarde", pensava. Tarciso, ainda imvel na cama, abriu os olhos. Rodou-os pelo quarto, viu o jardineiro. Ah, voc? Pode entrar. Sente-se. Eu no estava dormindo. Estava s de olhos fechados. O empregado chegou mais perto do leito: Pois ento aqui venho eu... dizer adeus ao menino. Voc? Voc vai embora? Por qu? Ento no gosta mais da gente? Bem que eu no queria dizer... Mas com o menino Tarciso eu no sei mentir. Eu queria continuar... sempre. Quem sabe se voc est ganhando pouco? Quer que eu fale com papai? No, meu pequeno. No precisa falar com seu pai. que me vou... por andar doente... Mas no parece! Tarciso sentou-se, e continuou: Parece vender sade. To forte! Acho que voc no quer mais morar conosco. Deve ser isso. Pois se no confia em mim... Foi o mdico, que agora est l em baixo, que me mandou... voltar para o hospital. Tenho que estar internado... O menino nunca reparou... que trago doentes as mos? Verdade que as tenho sempre sujas de terra. A expresso de Tarciso subitamente mudou, num pressentimento. A tarde declinava, e um raio de luz alaranjada, o sol filtrando atravs da poeira, descia reto sobre seu rosto. A pele estava estirada, brilhante, cor-de-rosa, to lisa como se fora de loua. Podia-se acompanhar, transparecendo profundamente, como estava, em seu rosto, uma intensa emoo que lhe ia no ntimo. Pensei que fosse do trabalho. Mas... Deixe ver suas mos ordenou Tarciso, com um estranho tom. Meu pequeno... O homem ainda estava na sombra, e vinha mais e mais perto do leito iluminado. Porm, chegando rente cama de Tarciso, parou. Juntou as mos atrs de si, com receio, envergonhado. Tremia. Balbuciou "no", debilmente, medroso, de sbito, quase como uma criana. Quero ver suas mos. As suas mos. Ande! O homem parecia hipnotizado. Relutou por segundos, depois estendeu as mos, que penetraram na claridade, ganhando logo um mgico relevo. Eram mos manchadas e tortas, pisadas, roxas e crescidas. Tarciso nunca reparara nelas. Estavam ali diante de seus olhos, pedaos marcados pela morte prxima, e no entanto vivos, bulindo como dois animais feridos, condenados. Ento o menino sentiu em si aquela impetuosa onda de esquisito carinho, avassaladora como um doce fogo de amor, e agarrando as pobres mos doentes paralisado o jardineiro por fora invencvel inundou-as de longos beijos, de transbordantes beijos, juntando-lhes seus lbios devagar, interminavelmente. Depois que Carlos explicou ao Doutor Laertes a doena de seu filho, disse o mdico com certa gravidade afetuosa: Com quinze anos! Hum! No deve ser to grave quanto o senhor pensa. Tudo faz supor que se trate de uma crise de puberdade. No vi ainda o garoto... Mas assim... como me contam... o caso parece revestir-se de um aspecto fcil at para a moderna psicologia. O temor religioso, infundido pela me desculpe-me, Padre Nicolau! desviou, com certeza, uma tendncia normal. As chagas, as deformidades... tudo no passa, seno, de instinto sexual mascarado, que se no quer revelar... ao prprio menino, de ndole to religiosa, como o senhor disse. Lusa e Padre Nicolau se entreolharam. Maninha fixava o mdico com modo indagador. No estava entendendo, via-se logo. Doutor Laertes consultou novamente o relgio: Bem. Agora vamos ver o doentinho. Mas um grito, um grito de homem, forte, cortante, encheu o ambiente. O jardineiro abriu a porta do quarto, projetou-se quase caindo pela escada, e chegou diante de todos rindo e chorando ao mesmo tempo, como um louco: Deus do cu! Deus do cu! Doutor Laertes perguntou severo: Que isso, homem? Que que tem? Por que ainda est aqui? Quer ento ser levado pelo carro do hospital? Eu vou dizer-lhe, doutor, vou dizer-lhe... Aconteceu uma coisa... Preciso falar e no posso! Eu me fui despedir do pequeno, l no quarto. No, no fique zangado, "seu" doutor. Eu pensava em s dizer adeus... nem queria que ele soubesse... da minha doena. Ento... As lgrimas desciam livremente pelo rosto. No sei... ele quis ver as minhas mos quando sem saber como, fui-lhe dizendo que eram... doentes. Lusa apertou a boca contendo-se apavorada. "Seu" doutor, aconteceu... aconteceu que o menino ao v-las ficou mudado de rosto, to diferente, que causava espanto, parecia outra criatura. Todos cercavam o jardineiro, atnitos, abismados. Algo de terrvel sucedera eles sentiam. O homem continuou: O menino Tarciso pegou-me as mos... Meus braos pareciam de pedra. Quis retir-las, doutor; por Deus que no tive foras! E Tarciso comeou a beij-las... Beij-las com uma deciso muito meiga e muito carinho, que nem se pode contar direito... E ento... aconteceu... O jardineiro sufocava, quase. Por fim, disse com voz liberta, num impulso delirante: Um milagre! Um milagre! Doutor Laertes: olhe para minhas mo!... Elas foram branquejando com os beijos daquele anjo de Nossa Senhora... Foram desaparecendo as ndoas. At que se foram de uma vez as manchas! Repare! E o homem estendeu para o mdico as mos puras, lisas, finas, como nascidas de novo. Enquanto todos contemplavam o prodgio, e Padre Nicolau dizia baixinho, como que se lamentando: "e eu que no soube...", "e eu no vi...", Maninha subiu a escada: Tarciso! gritou. Abriu a porta e, depois de um momento, tornou a descer: Ele saiu! disse, e acrescentou: mas juro que fechei a porta... Eu me lembro perfeitamente! No h mais portas que segurem o menino Tarciso! gritou o jardineiro. Maninha, acompanhada de Carlos e de Lusa, precipitou-se para o jardim. Os pais foram ficando para trs. Maninha corria leve, o vestido branco flutuando como uma vela no mar. Atravessou a ponte... Mais adiante ia indo Tarciso. Tarciso, no v embora! Espere, espere por mim, Tarciso! Apesar do esforo sobre-humano, no conseguiu alcan-lo. De longe ele acenou sereno, dizendo adeus. Maninha sentiu vertigens imaginando o mundo tremendo de doentes, de miserveis, de infelizes e deformados para o qual ela adivinhava agora seu irmo partia sem retorno, numa nsia de amor. Todo o crepsculo, to violentamente sangneo, parecia concentrar-se na sua figura, que estranhamente crescia, ganhando em majestade, em vez de diminuir, na distncia sempre maior.

210. DOM ROSS CAVACA. O PENSAMENTO INVENCVEL DE... Tenho em mos uma verdadeira jia. Uma coleo dos primeiros nmeros do "O Pasquim", lanado aqui no Rio em 26 de junho de 1969, com preo de capa de NCr$ 0,50. Para quem no sabe, isso queria dizer "cruzeiros novos". Passo horas me deliciando com os textos, charges, anncios - que eram feitos pelos seus proprietrios e jornalistas, dentre eles Tarso de Castro, Srgio Jaguaribe (Jaguar), Srgio Cabral, Carlos Prsperi, Cludio Ceccon (Claudius) e tantos outros. O que quero mostrar para vocs a releitura de alguns pensamentos de Dom Ross Cavaca. Excelente jornalista, ator genial, produtor e ator de TV, inventor e construtor de coisas (consta que construiu um automvel no quintal de sua casa, a alavanca de marchas era uma maaneta de porta), humorista, poeta, bomio. Enfim, um cara formidvel. Em 1961 reuniu alguns trabalhos num livro de alto nvel, Um riso em decbito, (editado e distribudo pelo autor, nem Deus sabe como, segundo ele). Morreu pouco depois, quando voltava da redao da Tribuna da Imprensa, jornal carioca, num estpido desastre de lambreta. Os textos abaixo constam do citado livro e foram publicados pelo "O Pasquim" nmero 4, de julho - 1969. Meus mais sinceros agradecimentos aos amigos Regina Werneck e Luiz Jorge, que cederam o material para pesquisa. Na promiscuidade dos bairros que crescem em sentido vertical, h binculos de comprovada experincia sexual. A Bblia conta sua maneira que Ado tambm comia mas em outra macieira. O solteiro sem atrativos segue o destino: Cibalena noite para dormir com algo feminino. Na reunio de cpula do Centro de Pesquisas, a cincia revelou aspectos surpreendentes: descobriram doze molstias at ento inexistentes. Morreu de enfarte o Joo. Comentrio geral: um timo corao. Chinelo em baixo da cama conforto . Mas cad o outro p? Graas liberdade de ir e vir, assegurada pela Constituio, o nordestino tem oito milhes, quinhentos e vinte e cinco mil quilmetros quadrados para morrer de inanio. Vendo para Selees um conto neo-realista bem do tipo Selees. Tanto que narra a histria de um soldado destemido que perdeu pernas e braos, ficou cego, surdo e mudo. Azar inqualificvel: at neurose incurvel. Voltou da guerra e internou-se no Centro de Readaptao de Ex-Combatentes. L se casou por amor com a filha do diretor, que lhe tirou da cabea todas as coisas complexas. Hoje ele UM FELIZ FAZENDEIRO NO TEXAS. Na situao em que me encontro, se puserem um revlver na minha frente eu o vendo imediatamente. tanta polcia que a gente fica sem a mnima garantia. A sfilis e as capitanias eram hereditrias. Bons tempos aqueles! Como se ganhava pouco! No para te elogiar no, mas o enterro do teu pai estava um show. Humoristas lutam agora por um mundo menos engraado. a quinta massa fria vinda do Sul que o Rio desmoraliza. Agora gostaria que as senhoras fizessem silncio, mas todas ao mesmo tempo. Os dois so Deuses, mas o da direita tem mais experincia. Letra V da cartilha contempornea? Vina viu vov se virando. Alguns tomos tambm se consideravam ntegros. Depressa, Pedro! Grite logo, que estamos s margens do Ipiranga e a letra do hino j est pronta. H milhares de notas falsas em circulao, mas to prestativas que conquistaram a confiana de todos. Que corrupo esta que a gente morre sem conseguir atingi-la? Flagrei minha mulher me pegando em flagrante. Um destes viveiros que matam de inveja os passarinhos livres. Acredito na sua honestidade mas a quadrilha j est formada. Tem cura, doutor? Se tem, vamos desenterr-lo. Bebeu veneno e o legista descobriu que era uma soluo. S sabe contar pr-histrias. Que foi que voc sentiu quando soube que havia nascido no Brasil?

211. EA DE QUEIROZ. A MULTA MUNICIPAL PARA O LIRISMO SENTIMENTAL. No folhetim do Dirio Popular de 24 de Junho lem-se notveis consideraes de ordem moral. So em verso. O poeta dirige-se, na sua declamao solitria, a uma mulher. Numa prosa anterior (preldio) escreve que a misso da arte ensinar a amar (!) e que na arte no entra realidade, justia ou moral pblica porque (acrescenta) a arte nada tem com os direitos civis. Colocado assim larga, na anarquia da voluptuosidade e do lirismo, a est o que o poeta expe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de 20.000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura! Comea por dizer: Que bom amar no campo, tarde e a ss! Depois continua: Que prefere o campo, porque nas salas do mundo no lhe dado beijar a mo dela s largas! Que o campo livre e as sombras do refgio!.... Por fim acrescenta: Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele s com ela, erguidos em xtase, longe de quanto vil... (Quanto vil, na gria da poesia lrica, o mundo real, a famlia, o trabalho, as ocupaes domsticas, etc.). Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas. Aquelas bastam para legitimar as seguintes observaes: Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa; Nenhum homem que as escrevesse ousaria l-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer palavras; Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria cit-las. Como se consente ento a sua publicao em verso? A higiene no s a regularizao salutar das condies da vida fsica; nela devem tambm entrar os factos da moralidade. Se proibido que um monturo imundo ou um co morto corrompam o ar respirvel das ruas porque h-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranqilidade virgem? H uma postura da Cmara que impe uma multa a quem pronuncia palavras desonestas: porque no h-de ser igualmente proibido publicar idias desonestas? Um brio, um pobre homem a quem se no deu educao, a quem se no pode dar leitura, a quem quase se no d trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de trs ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 ris. Um poeta lrico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num jornal de cinqenta mil leitores em letra impressa, permanente e indelvel, uma srie de desonestidades, e apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma candidatura! Pedimos pois: Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades; Ou que a multa da Cmara Municipal seja aplicada a todos e que tanto o brio que no sabe o que diz esquina de uma rua, como o poeta lrico que escreve, com reflexo e rascunho duma semana, ao canto dum jornal, paguem os 3$000 ris Cmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.

212. ELIO GASPARI. O ministro Tarso Genro, da Educao, meteu-se numa encrenca. Faz gua a moralidade de seu programa Universidade Para Todos (um dos slogans mais descerebrados j produzidos pela marquetagem de Braslia). O reprter Josias de Souza o chamou de Promamata e a Associao Nacional dos Fiscais da Previdncia diz que a medida provisria que criou o ProUni contm um dispositivo imoral. Tomado pelo lado da propaganda, o Programa se destina a assegurar vagas nas universidades particulares para estudantes pobres. Tomado pelos afagos que a MP faz ao mercado, deu-se outra coisa. O ministro da Educao se atribuiu o poder de revalidar os registros de universidades filantrpicas que tiveram seus benefcios tributrios cassados pelo Conselho Nacional de Assistncia Social. Nos ltimos seis anos foi cancelada cerca de uma centena de registros de instituies que desrespeitavam as normas da Previdncia. Em junho do ano passado, instituies como as universidades Mackenzie, Metodista, Csper Lbero e Gama Filho tiveram seus registros suspensos. Tarso Genro poder devolver os benefcios s escolas que aderirem ao ProUni. Disso resultar que sero restabelecidos os benefcios fiscais de entidades em dbito com a Previdncia. Coisa de gente que deve muito, porque a choldra que deve pouco no consegue um refresco desses. Os fiscais do INSS que batalharam para acabar com as mamatas e autuaram instituies desonestas, ficaro no papel de bobos. Pior: a MP transfere ao MEC o poder de fiscalizar as contas e os programas da filantropia universitria. A Previdncia, que dispe de um aparelho fiscalizador, foi substituda pelo MEC, que no tem aparelho nenhum. J houve universidades filantrpicas com jatinho para seus diretores (Universidade de Marlia e Unoeste). Auditores da Receita e do INSS que fiscalizaram algumas dezenas de escolas superiores encontraram esquemas de enriquecimentos das famlias controladoras das escolas, contabilidades paralelas e, como sempre, dinheiro de campanha eleitoral. No ano passado estimou-se que os benefcios fiscais do ensino filantrpico somavam perto de R$ 1 bilho. Instituies que seguiram a lei e os bons costumes, como quase todas as PUCs e um punhado de universidades comunitrias do Sul do pas acabam sendo punidas pela anistia oferecida pilantropia. A leveza com que o MEC lida com o ensino superior privado levou o professor Jos Arthur Giannotti a se demitir do Conselho Nacional de Educao, em 1997. Sabendo-se que Giannotti um dos melhores amigos de FFHH e que se hospedava no Alvorada quando ia a Braslia para as reunies do Conselho, v-se quo poderosos so os argumentos da confederao de interesses do ensino superior privado. O que h de mais triste nesse episdio que a anistia aos educadores punidos por suas malfeitorias sai de uma repartio que se denomina Ministrio da Educao.

213. RICO VERSSIMO. OS DEVANEIOS DO GENERAL. Abre-se uma clareira azul no escuro cu de inverno. O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoo e solta um cocoric alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem. O sol! As poas d'gua que as ltimas chuvas deixaram no cho se enchem de jias coruscantes. Crianas saem de suas casas e vo brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o cu todo um claro de puro azul. O General Chicuta resolve ento sair da toca. A toca o quarto. O quarto fica na casa da neta e o seu ltimo reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos mveis: a cama antiga, a cmoda com papeis velhos, medalhas, relquias, uniformes, lembranas; a cadeira de balano, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou trs cadeiras... E recordaes... Recordaes dum tempo bom que passou, patifes! dum mundo de homens diferentes dos de hoje. Canalhas! duma Jacarecanga passiva e ordeira, dcil e disciplinada, que no fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo. O general aceita o convite do sol e vai sentar-se janela que d para a rua. Ali est ele com a cabea atirada para trs, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diludos se fecham ofuscados pela violncia da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto at a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte. O general passa a mo pelo rosto murcho: mo de cadver passeando num rosto de cadver. Sua barbicha branca e rala esvoaa ao vento. O velho deixa cair os braos e fica imvel como um defunto. Os galos tornam a cantar. As crianas gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas cabea. Animado aos poucos pela iluso de vida que a luz quente lhe d, o general entreabre os olhos e devaneia... Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente no conhece mais a terra onde nasceu... Ares de cidade. Automveis. Rdios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado to bom como patro. Noutro tempo todos vinham pedir a beno ao General Chicuta, intendente municipal e chefe poltico... A oposio comia fogo com ele. O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroada. Tinha aparecido na "Voz de Jacarecanga" um artigo desaforado... No trazia assinatura. Dizia assim: "A hiena sanguinria que bebeu o sangue dos revolucionrios de 93 agora tripudia sobre a nossa msera cidade desgraada". Era com ele, sim, no havia dvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador). Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revlver. Largou. Resmungou "Patife! Canalha!" Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendncia. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava plido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapu na mo, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente. Sente-se, canalha! O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dlm). Tirou da gaveta da mesa a pgina do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversrio. Abra a boca! ordenou. Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a pgina em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro. Come! gritou. Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto. Coma! sibilou o general. Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida. Coma, pstula! E o homem comeu. Um avio passa roncando por cima da casa, cujas vidraas trepidam. O general tem um sobressalto desagradvel. A sombra do grande pssaro se desenha l em baixo, no cho do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaa. Patifes! Vagabundos, ordinrios! No tm mais o que fazer? Vo pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso no servio de homem macho. Fica olhando, com olho hostil, o avio amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade. No seu tempo no havia daquelas engenhocas, daquelas malditas mquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltres nesses "banheiros" que voam, e l de cima se pem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade. O general remergulha no devaneio. 93... Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqenta anos mas no se trocava por nenhum rapaz de vinte. Por um instante, o general se rev montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento... Vejam s! Agora est aqui, um caco velho, sem fora nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca! Morte... O general v mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite... Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que uma recordao que o h de acompanhar decerto at o outro mundo... se houver outro mundo. Os seus vanguardeiros voltaram contando que a fora revolucionria estava dormindo desprevenida, sem sentinelas... Se fizessem um ataque rpido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silncio e, a um sinal, cairiam sobre os "maragatos". Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: "Inimigo no se poupa. Ferro neles!" Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mnimos detalhes...) Passou o indicador da mo direita pelo prprio pescoo, no simulacro duma operao familiar... Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. No ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadveres. O general passou por entre os destroos. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabea dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente:"Inimigo no se poupa".O general agora recorda... Remorso? Qual! Um homem um homem e um gato um bicho. Lambe os lbios gretados. Sede. Procura gritar: Petronilho! A voz que sai da garganta to remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93. Petronilho! Negro safado! Petronilho! Comea a bater forte no cho com a ponta da bengala, frentico. A neta aparece porta. Traz nas mos duas agulhas vermelhas de tric e um novelo de l verde. Que , vov? Morreu a gente desta casa? Ningum me atende. Canalhas! Onde est o Petronilho? Est l fora, vov. Ele no ganha pra cuidar de mim? Ento? Chame ele. No precisa ficar brabo, vov. Que que o senhor quer? Quero um copo d'gua. Estou com sede. Por que no toma suco de laranja? gua, eu disse. A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma nica filha mulher que morreu no dia em que dava luz uma neta. Uma neta! Por que no um neto, um macho? Agora a est a Juventina, metida o dia inteiro com trics e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extino dos latifndios, em igualdade. H seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, at que enfim! Mas est sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Do-lhe mimos. Esto a transform-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele to delicada, to macia, to corada... Chiquinho... No tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revoluo de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923... Um dia ele perguntou ao menino: Chiquinho, voc quer ser general como o vov? No. Eu quero ser doutor como o papai. Canalhinha! Patifinho! Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja. Eu disse gua! sibila o general. O mulato sacode os ombros. Mas eu digo suco de laranja. Eu quero gua. V buscar gua, seu cachorro! Petronilho responde sereno: No vou, general de bobagem... O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado. Canalha! cicia arquejante Vou te mandar dar umas chicotadas! Suco de laranja cantarola o mulato. gua! Juventina! Negro patife! Cachorro! Petronilho sorri: Suco de laranja, seu sargento! Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direo do criado. Num movimento gil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe. O general se entrega. Atira a cabea para trs e, de braos cados, fica todo trmulo, com a respirao ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada. Petronilho sorri. J faz trs anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propsito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. No quis mais nada. S tinha um desejo: ver os ltimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabea, os miolos escorrendo para o cho... S porque o mulato velho na ltima eleio fora o melhor cabo eleitoral da oposio. O general chamou-o a intendncia. Quis esbofete-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia... Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingana mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situao poltica da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais j falam na "hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados". Ningum mais d importncia ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notcia de que a fera agonizava. Ento ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo... Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que no deve tardar. questo de meses, de semanas, talvez at de dias... O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: "Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar". E recitando coisas esquisitas. "V. Exa. precisa de ser reeleito para glria do nosso invencvel Partido". Outras vezes olhava para o busto e berrava:"Inimigo no se poupa. Ferro neles". Mais sereno agora, o general estende a mo pedindo. Petronilho d-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beios, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades. O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto j lhe pertenceu... Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos;derrubava urnas, anulava eleies. Conforme a sua convenincia, condenava ou absolvia rus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor pblico que no lhe obedeceu ordem de ser brando na acusao. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistncia a uma ordem sua. Fecha os olhos e recorda a glria antiga. Um grito de criana. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do cho. Seus cabelos louros esto incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagaes... Que ser o mundo de amanh, quando Chiquinho for homem feito? Mais avies cruzaro nos cus. E ter desaparecido o ltimo "homem" da face da terra. S restaro idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que no tm o sentido da autoridade, fracalhes que no se ho de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem... Oh! No vale a pena pensar no que ser amanh o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o ltimo dos Campolargos! E, dispnico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carcia do sol. De repente, a criana entra de novo na sala, correndo, muito vermelho: Vov! Vov! Traz a mo erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao p da poltrona do general. A lagartixa, vovozinho... O general inclina a cabea. Uma lagartixa verde se retorce na mozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica: Degolei a lagartixa, vov! No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido: Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo no se poupa. Seu patife! E afaga a cabea do bisneto, com uma luz de esperana nos olhos de surio.

214. RICO VERSSIMO. AS MOS DE MEU FILHO. Todos aqueles homens e mulheres ali na platia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilgio. Centenas de olhos esto fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um s corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros. Beethoven. H momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista est plido luz de clcio. Parece um cadver. Mas mesmo assim uma fonte de vida, de melodias, de sugestes a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do crculo luminoso pesa um silncio grave e parado. Beethoven lamenta-se. feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A msica parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lanou das mais altas regies da felicidade ao mais profundo abismo da desolao e da dor. No serei, pois, para ti e para os demais, seno um msico? Ser ento preciso que busque em mim mesmo o necessrio ponto de apoio, porque fora de mim no encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espcie no serviram seno para deixar malferido o meu corao. Pois que assim seja, ento! Para ti, pobre Beethoven, no h felicidade no exterior; tudo ters que buscar dentro de ti mesmo. To-somente no mundo ideal que poders achar a alegria. Adgio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mgoa profunda. Num dado momento as mos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de sbito, geis e fteis, comeam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida alegre. Vamos sair para o campo, dar a mo s raparigas em flor e danar com elas ao sol... A melodia, no entanto, uma superfcie leve, que no consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. No obstante, o claro jogo continua. A msica saltitante se esfora por ser despreocupada e ter alma leve. uma dana pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as guas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusria, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles tm uma significao especial, contam uma histria diferente. Quando o artista arranca o ltimo acorde, as luzes se acendem. Por alguns rpidos segundos h como que um hiato, e dir-se-ia que os coraes param de bater. Silncio. Os sub-homens sobem tona da vida. Desapareceu o mundo mgico e circular formado pela luz do refletor. O pianista est agora voltado para a platia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos. Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o crculo mgico. Suggestion Diabolique. D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os ps, machucando os calos. No faz mal. Estou no camarote. Ningum v. Mexe os dedos do p com delcia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele est tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho... Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho! D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali est ele a seu lado, pequeno, encurvado, a calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridculo nesse smoking! O pescoo descarnado, danando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhao de circo. D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mos, aquelas mos brancas, esguias e geis. E como a msica que o seu Gilberto toca difcil demais para ela compreender, sua ateno borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabea duma senhora l embaixo (aquele diadema ser de brilhantes legtimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho um beb de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mos... Deitado no bero, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos ps, com os olhos sempre fitos nas mos... De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrvel quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocncio comeou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado... Tinha perdido o lugar na fbrica. Andava caminhando toa o dia inteiro. Ms companhias. " Inocncio, vamos tomar um traguinho?"L se iam, entravam no primeiro boteco. E v cachaa! Ele voltava para casa fazendo um esforo desesperado para no cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. "Com efeito, Inocncio! Voc andou bebendo outra vez!" Ah, mas ela no se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e no trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe caf bem forte sem acar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos j estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia... De sbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lgrimas, pescoo vermelho e pregueado, o ar humilde... Gilberto faz curvaturas para o pblico, sorri, alisa os cabelos. ("Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapago bonito). A escurido torna a submergir a platia. A luz fantstica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projteis sonoros. Navarra. Embalada pela msica (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado. Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas no tinha constncia, no tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguioso. O que queria era andar na calaaria, conversando pelos cafs, contando histrias, mentindo... Inocncio, quando que tu crias juzo? O pior era que ela no sabia fazer cenas. Achava at graa naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criana. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graas a Deus nunca lhe faltava trabalho. Um dia Inocncio fez uma proposta: Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras... Minha Nossa! Ser que tu queres fazer casas ou pregar botes? Olha, mulher. (Como ele estava engraado, com sua cara de fuinha, procurando falar a srio!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita. Ela desatou a rir. Mas a verdade que Inocncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro ms a cobrana saiu direitinho. No segundo ms o homem relaxou... No terceiro, bebeu o dinheiro da nica conta que conseguira cobrar. Mas D. Margarida esquece o passado. To bonita a msica que Gilberto est tocando agora... E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros danam, as mos danam... Quem diria que aquele moo ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, polticos... o diabo! o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalo brincando na gua da sarjeta, correndo atrs da banda de msica da Brigada Militar... De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da me e lhe faz um sinal breve com a mo, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroadamente com os dedos do p, puro contentamento. Tem mpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: "Vejam, o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colgio para ele! Com estas mos, minha gente. Vejam! Vejam!" A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mgoas de Chopin. No fundo do camarote Inocncio medita. O filho sorriu para a me. S para a me. Ele viu... Mas no tem direito de se queixar... O rapaz no lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o pblico aplaude Gilberto, sem saber est aplaudindo tambm Margarida. Cinqenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinqenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se no fosse ela, era possvel que o rapaz no desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a f de Margarida que fizeram dele um grande pianista. Na sombra do camarote, Inocncio sente que ele no pode, no deve participar daquela glria. Foi um mau marido. Um pssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! s vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar to confiado, to tranqilo, to puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! L vinha um outro dia e ele comeava a sentir aquela sede danada, aquela espcie de ccegas na garganta. Ficava com a impresso de que se no tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia tambm os maus companheiros. O Maneca. O Jos Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam... No fim de contas ele no era nenhum santo. Inocncio contempla o filho. Gilberto no puxou por ele. A cara do rapaz bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graas a Deus. Que belas coisas lhe reservar o futuro? Daqui para diante s subir. A porta da fama to difcil, mas uma vez que a gente consegue abri-la... adeus! Amanh decerto o rapaz vai aos Estados Unidos... capaz at de ficar por l... esquecer os pais. No. Gilberto nunca esquecer a me. O pai, sim... E bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bbedo. Lgrimas brotam nos olhos de Inocncio. Diabo de msica triste! O Betinho devia escolher um repertrio mais alegre. No atarantamento da comoo, Inocncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura: Margarida... A mulher volta para ele uma cara sria, de testa enrugada. Chit! Inocncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, j mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memria, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem. Ele tinha chegado bbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade: Tenho vergonha de ser filho dum bbedo! Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que no s cortam as carnes como tambm rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu. No saguo do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moas o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda: Estou impressionado, impressionadssimo. Sim senhor! Gilberto enlaa a cintura da me: Reparto com minha me os aplausos que eu recebi esta noite... Tudo que sou, devo a ela. No diga isso, Betinho! D. Margarida cora. H no grupo um silncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam. Inocncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do esprito, dando-lhe uma vergonha to grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguo. Afasta-se na direo da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praa, a grande esttua, as rvores paradas... Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de no poder voltar ao passado... Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misrias... O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise. Linda noite! diz Inocncio, procurando puxar conversa. O outro olha o cu e sacode a cabea, concordando. Linda mesmo. Pausa curta. No v que sou o pai do moo do concerto... Pai? Do pianista? O porteiro pra, contempla Inocncio com um ar incrdulo e diz: O menino tem os pulsos no lugar. um bicharedo. Inocncio sorri. Sua sensao de inferioridade vai-se evaporando aos poucos. Pois imagine como so as coisas diz ele. No sei se o senhor sabe que ns fomos muito pobres... Pois . Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraadas. Um dia... o Betinho tinha seis meses... umas mozinhas assim deste tamanho... ns botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente est nesse dorme-no-dorme, fica o mesmo que tonto, no pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sof. Mas no. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabea pesada. Veja como so as coisas... Se eu tivesse esmagado as mos do Betinho hoje ele no estava a tocando essas msicas difceis... No podia ser o artista que . Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partcula da glria do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, comea a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocncio tira do bolso das calas uma nota amarrotada de cinqenta mil-ris e mete-a na mo do mulato. Para tomar um traguinho cochicha. E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.

215. FERNANDO SABINO. A MULHER DO VIZINHO. Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antiptico general de nosso Exrcito morava (ou mora) tambm um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, s vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a pacincia, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco. O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer delegacia. O sueco era tmido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto no parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte: O senhor pensa que s porque o deixaram morar neste pas pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUDAS? No sabe que tem de conhecer as leis do pas? No sabe que existe uma coisa chamada EXRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negcio este? Ento ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos so uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. Tudo isso com voz pausada, reclinado para trs, sob o olhar de aprovao do escrivo a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licena para se retirar. Foi ento que a mulher do sueco interveio: Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido? O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento. Pois ento fique sabendo que eu tambm sei tratar tipos como o senhor. Meu marido no e gringo nem meus filhos so moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor tambm est nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exrcito, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou? Estarrecido, o delegado s teve foras para engolir em seco e balbuciar humildemente: Da ativa, minha senhora? E ante a confirmao, voltou-se para o escrivo, erguendo os braos desalentado: Da ativa, Motinha! Sai dessa...

216. FERNANDO SABINO. EMPREGADAS. DESAVENA. Entre outras virtudes, as novelas de televiso tm a de enriquecer com novas expresses o vocabulrio das empregadas. S porque a patroa riscou trs fsforos para acender o gs e em seguida atirou-os ao cho, a cozinheira exclamou: A senhora no devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavena no lar. Como a patroa no entendesse e pedisse explicaes, a cozinheira esclareceu o que parecia bvio: Ento isso no pode causar um incndio? FALAR DIFCIL. A empregada de um amigo meu tem mania de falar difcil. Est preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha no se casar enquanto no estiver completamente enxovalhada. Comentrio dela, extasiada diante de um buqu de flores que a patroa trouxe da feira: Ah, mas que flores mais bonitas! To sinceras! To disfaradas! Outro dia, o gato da casa comeou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto: Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus. Os simples de corao. Foi buscar os culos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito sria: Afinal de contas, a gente diz "cris" ou "zcris"? A empregada veio anunciar o almoo: Gente, t na hora de mur. No assim que se fala corrigiu a patroa. E ela, imperturbvel: Eu sei que "armu". Mas eu quero falar mur. O TAL DA TELEVISO. Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada: Telefonou um moo para o senhor. Deixou o nome? Disse que era o tal da televiso. Tenho vrios amigos na televiso. S a TV Globo est cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa... No dia seguinte, a mesma coisa: O tal da televiso tornou a telefonar. Se ligar de novo, pergunta o nome dele. Da terceira vez, perdi a pacincia: - Eu no disse que era para perguntar o nome? Eu perguntei! protestou ela. Pois ele tornou a dizer que era o tal da televiso. Cheguei a pensar se no seria algum que eu tivesse chamado para consertar a televiso que, alis, estava em perfeitas condies. At que ele voltou a telefonar s que desta vez eu estava em casa: O tal da televiso est chamando o senhor no telefone. Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan. COME E DORME. E minha amiga Glria Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado: Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme. Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido surpreendente e dele tudo se espera mas no a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo? S foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite apresentao no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey. S UMA VEZ. Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse padaria comprar po. Algum tempo depois a moa apareceu grvida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou: O padeiro. Mas voc s foi uma vez padaria! estranhou a patroa: Como foi acontecer uma coisa dessas? Ela ergueu os ombros, com um suspiro: Deus quis...

217. FERNANDO SABINO. MINEIRO POR MINEIRO. A maneira enrolada com que um mineiro fila cigarro? Aqui vai. Ele estava em So Joo del-Rei admirando um chafariz, quando viu por ali a rond-lo um velhinho mirrado e seco, roupa de brim e chapu na cabea, que acabou se chegando: T a preciano, moo? Estou. No bonito? Passou a mo pelo queixo, enquanto buscava assunto: O senhor no daqui no, ? Sou de Minas, mas moro no Rio h muito tempo. Ah, foi educado l. Isso mesmo. Posso saber qual a sua graa? O velho ouviu o nome e sacudiu a cabea. Depois perguntou candidamente: Por acaso o senhor tem um fsforo a? Em resposta, o outro estendeu-lhe a caixa de fsforo. O velho correu as mos a ao longo do palet, como se procurasse alguma coisa, enquanto dizia: Quer dizer que o senhor fuma... Fumo sim e ele tirou o mao do bolso, acendeu um cigarro: E o senhor? No fuma? Dez vez em quando admitiu o velho. Aceita um? J que o senhor dispe... O velho tirou com dedos finos um cigarro do mao que lhe era estendido e, certamente para no desperdiar fsforo, acendeu-o no cigarro do outro. E se despediu, levando a mo ao chapu: Obrigado, moo. Muito prazer, viu? DAR NOME AOS BOIS coisa que mineiro no faz, nem mesmo em Uberaba. Ainda me lembro da eleio para Presidente da Repblica em 55, quando, no mais aceso da campanha, Juarez Tvora entrou por Minas adentro e encontrou vrias cidades cheias de faixas e cartazes aclamando a sua candidatura. Algum tempo depois que ps reparo na sutileza daquela manifestao de apoio:a adeso dos mineiros se exprimia atravs das palavras "Salve o Nosso Candidato!", "Viva o Futuro Presidente da Repblica!". O nome do candidato no aparecia, por uma questo menos de esperteza que de economia: as faixas e cartazes eram os mesmos, serviam para qualquer um deles. DE PASSAGEM por sua terra natal, no interior de Minas, foi visitar uma velha tia, cujo filho ganhara um bom dinheiro na loteria esportiva. Espantou-se ao encontr-la na mesma casa humilde, vivendo pobremente como sempre viveu, da mo para a boca. Ento seu filho milionrio no lhe dera nada do que havia ganho? Deu sim afirmou ela: Me mandou um presente. Que presente ele te mandou, tia? Duas latas de bolachas. No podia acreditar: latas de bolachas! Vai ser sovina assim na... Pelo menos as bolachas deviam estar boas desconversou, para no desapontar a velha. No sei, porque no provei ela explicou: Eram latas vazias. Pra guardar mantimento. DESDE QUE ENVIUVOU, ficou morando com os trs filhos, todos solteires. E nunca mais se falou em mulher naquela casa. At que um dia o filho mais novo, e j nem to novo assim, conheceu uma moa, gostou da moa, acabou se casando com a moa. Casou e mudou. Tempos depois, indo a Minas visitar o pai e os irmos, no escondeu seu entusiasmo: Gente, vocs no sabem como mulher bom! Serve pra tanta coisa... OUO A PRPRIA sabedoria de Minas na voz de um conterrneo meu, afirmando com segurana, quando lhe propem um negcio o seu tanto duvidoso: - Eu topo, mas naquela base do Salim. Reza a crnica mineira que o Salim, inegavelmente turco mas criado em Belo Horizonte, vivia em plena prosperidade, embora se expusesse ao que h de mais temerrio em Minas Gerais: era avalista do primeiro que aparecesse. Bastava que lhe pedissem e ele metia logo o seu jamego em caracteres turcos nas costas do papagaio. At que um dia comeou a pipocar promissria vencida em tudo quanto era Banco. Convocado por telegrama a assumir, o Salim comparecia, contestando a assinatura: Isto a no meu nome. Chamava-se um tradutor juramentado, para que ficasse oficialmente estabelecido que, em vez de assinar seu nome, ele havia se limitado a escrever na promissria, em turco: Salim fica de fora.

218. FERNANDO SABINO. MINAS ENIGMA. Minas, alm do som, Minas Gerais. (Carlos Drummond de Andrade). Se sou mineiro? Bem, conforme, dona. (Sei l por que ela est perguntando!). Sou de Belzonte, uai. Tudo conforme. Basta nascer em Minas para ser mineiro? Que diabo ser mineiro, afinal? Ingls misturado com oriental? fumar cigarro de palha, como o poeta Emlio, de Dores do Indai? Autran fuma cachimbo. Tem at quem fume cigarro americano. (No bairro do Calafate havia uma fbrica de "Camel"). Em suma: ser mineiro esperar pela cor da fumaa. dormir no cho para no cair da cama. plantar verde pra colher maduro. no meter a mo em cumbuca. No dar passo maior que as pernas. No amarrar cachorro com lingia. Porque mineiro no prega prego sem estopa. Mineiro no d ponto sem n. Mineiro no perde trem. Mas compra bonde. Compra. E vende pra paulista. Evm mineiro. Ele no olha: espia. No presta ateno: vigia s. No conversa: confabula. No combina: conspira. No se vinga: espera. Faz parte do declogo, que algum j elaborou. E no enlouquece: piora. Ou declara, conforme manda a delicadeza. No mais, confiar desconfiando. Dois bom, trs comcio. Devagar que eu tenho pressa. Aplogo mineiro: o boi velho e o boi jovem, no alto do morro l embaixo uma poro de vacas pastando. O boizinho, incontido: Vamos descer correndo, correndo e pegar umas dez? E o boizo, tranqilamente: No: vamos descer devagar, e pegar todas. Mais vale um pssaro na mo. A Academia Mineira, h tempos, pagava um jeton ridculo: duzentos cruzeiros antigos, lgico. Um dos imortais, indignado, discursava o seu protesto: Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros uma vergonha! Ou quinhentos cruzeiros, ou nada! Ao que um colega prudentemente aparteou: Pera l: ou quinhentos cruzeiros, ou duzentos mesmo. Quem nasce em Trs Coraes tricordiano haja vista Pel. Quem nasce em Barbacena tem de escolher a Maternidade: ou do Zezinho ou do Bias. E a Manchester Mineira, terra do Murilo Mendes? O poeta Nava foi-se embora: "parabns a Pedro Nava, parabns a Juiz de Fora". Itabira, calada de ferro: no aceitou chamar-se Presidente Vargas, continuou digna do itabirano Carlos. E Ouro Preto continua digna de ser vista: ali a casa do Rodrigo; Renato de Lima, ex-delegado e pianista amador, pintando junto Casa dos Contos. Afonso de Paracatu. Em Sabar nasceram Lcia e Anbal, alm de outros ilustres Machados. Alphonsus, o solitrio de Mariana. Os profetas de Congonhas. A cidade de Tiradentes o que no tinha barbas. O Aleijadinho no tinha mos. So Joo del Rei, onde nasceu Otto, o que morrer batendo papo. Solidrio s no cncer? Absolutamente, dona: nas virtudes tambm, uai. Haja vista a Tradicional Famlia Mineira, que Deus a tenha. As estaes de guas:lembrana de So Loureno, escrito num copinho. E Lambari, terra de Henriqueta! Monte Santo tem a rua mais iluminada do mundo. E uma ambulncia com sirene, que seu filho Castejon arranjou. Itana fica num quarto andar do Leblon, no apartamento de Marco Aurlio, o bom. Jeremias, outro bom, mineiro como Ziraldo. Os bonecos de Borjalo s ganharam boca depois que comearam a falar. Mineiro por todo lado! O poeta Pellegrino, como psiquiatra, tem garantida uma numerosa clientela. Amlcar modela Minas em arame. Paulo encontrou Minas depois que saiu de l. Joo Leite levou-a para So Paulo, Alphonsus para Braslia, Guilhermino para o Sul. Joo Camilo ficou. Etiene voltou. Paulo Lima voltou. Iglezias voltou. Jaques voltou. Figueir continua, Rubio recomeou. Um Estado de nariz imenso, um estado de esprito: um jeito de ser. Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado prudncia e capitalizao. O guarda-chuva da proteo financeira, no como lema do Banco do Magalhes mais o Z Lus, e sim como regra de conduta: Meu filho, oua bem o seu pai: se sair rua, leve o guarda-chuva, mas no leve dinheiro. Se levar, no entre em lugar nenhum. Se entrar, no faa despesas. Se fizer, no puxe a carteira. Se puxar, no pague. Se pagar, pague somente a sua. Mas todos os princpios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limo, tutu de feijo com torresmos, lingia frita com farofa. De sobremesa, goiabada casco com queijo palmira. Depois, cafezinho requentado com requeijo. Aceita um po de queijo? biscoito polvilho? brevidade? ou quem sabe uma broinha de fub? No, dona, obrigado. As quitandas me apertencem, mas prefiro bolinho de januria, e pronto: estou sastifeito... a hora e a vez de Guimares Rosa sorrir e dizer pra cumpadre meu Quelemn:perigoso nada, mira e veja, nas Gerais, essas coisas... Falar de Minas, trem danado, s. falar no mundo misterioso de Lcio Cardoso, Cornlio Pena ou Rosrio Fusco, no mundo irnico, esquivo ou pitoresco de Cyro dos Anjos, Oswaldo Alves, Mrio Palmrio, seus romancistas. E num mundo de gente, seus personagens, que vo de Antnio Carlos a Milton Campos, de Bernardes a Juscelino vasto mundo! ah, se eu me chamasse Raimundo. Dentro de mim uma corrente de nomes e evocaes antigas, fluindo como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais. Leopoldina, doce de manga, terra de meus pais... Prefiro estanc-las no tempo, a exaurir-me em impresses arrancadas aos pedaos, e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim o mistrio da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu enigma: decifra-me , ou devoro-te. Prefiro ser devorado.

219. FERNANDO SABINO. MAIS UM NATAL. Aviso num restaurante de Brighton, que o dono fez imprimir no cardpio, revelia dos garons: Somos seus amigos e lhe desejamos um Feliz Natal. Por favor, no nos ofenda, dando-nos gorjetas." Junto porta de sada, entretanto, os garons fizeram dependurar uma caixinha sob o letreiro: "Ofensas. E no dia de Natal, como sempre, todos os bares de Londres permanecem fechados. Mas consegui realizar o milagre de encontrar em Chelsea um bar aberto, l para as dez horas da noite. Meio desconfiado, fui entrando logo um dos fregueses se adiantou, copo de cerveja na mo: Perdo, cavalheiro, mas o senhor j foi igreja hoje? E se justificou estendendo o brao ao redor, para apontar os demais fregueses, que bebiam cerveja em silncio. Porque aqui dentro, ns todos j fomos. E sem esperar resposta, passou-me o seu copo de cerveja, pedindo ao barman outro para si. Festejou-se o Natal, j se festeja o Ano Novo. H, porm, muita gente na triste perspectiva de passar ambas as festas em completa solido. Como o caso de Ethel Denham, ma velhinha com mais de oitenta anos de idade. Dona Ethel no tem filhos nem marido: nunca chegou a se casar. Mora sozinha numa pequena casa de Exeter, fruto de sua aposentadoria. Para que no lhe acontea alguma coisa sem ter a quem apelar, foi instalada porta de sua casinha uma luz vermelha, que ela pode acender para pedir socorro, em caso de necessidade. Na noite de Natal esta necessidade veio, mais imperiosa do que nunca. A boa velhinha no agentava a idia de estar sozinha e passar o Natal sem ningum. Ento acendeu luz de socorro e aguardou os acontecimentos. Em pouco chegava um guarda de servio, para ver o que tinha acontecido. E viu que no tinha acontecido nada. Fique um pouquinho pediu ela. Vamos conversar um pouco. O guarda teve pena e resolveu ficar. Para no estar sem fazer nada, enquanto conversava fiado com a velhinha, fez um ch, aproveitou e lavou a loua, limpou a cozinha, deu ma arrumao na casa. Para qu! H gestos de solidariedade e compreenso que exigem outros, pois acostumam mal. Ou acostumam bem, ainda que na