708 CRÔNICAS MARAVILHOSAS

AUTORIA, PESQUISA, REVISÃO, ORGANIZAÇÃO: JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO.

SITE: www.sitenotadez.net, já acessado por quase 10 milhões de pessoas.

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As mais belas crônicas escritas pelos escritores mais consagrados do Brasil.

Ler é estimulante e essencial.

A leitura habitual e incessante provoca experiências místicas e rompe muros da mediocridade e da ignorância, inspirando o espírito a avançar em direção da luz, da sabedoria e do aprendizado ilimitado.

Um texto pode fazer-nos vivenciar épocas de guerras, tristezas e alegrias.

Nada desenvolve mais a capacidade verbal que a leitura de livros, que até nos ajudam a sonhar e a pensar com mais nitidez.

Enfim, a boa leitura enriquece a alma e o espírito.

IMPORTANTÍSSIMO. Informo aos escritores, seus representantes legais e respectivas editoras, detentores dos direitos autorais dos textos que aparecem neste arquivo, que eles serão imediatamente removidos do SITE caso assim o queiram.

1. ADÉLIA PRADO. Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.

2. ADÉLIA PRADO. Tenho um pouco de pudor de contar, mas só um pouco, porque sei que vou acabar contando mesmo. É porque lá em casa a gente não podia falar nem diabo, que levava sabão, quanto mais... ah, no fim eu falo. Coisa do Teodoro, ele quem me contou, você sabe, marido depois de um certo tempo de casamento fala certas coisas com a mulher. O seu não fala? Pois é, e de novo tem um tempão que aconteceu. Lembra aquela história dos queijos? Igual. Demorou um par de anos pra me contar. O pessoal dele é assim, sem pressa. Tem uma história deles lá, que o pai dele, meu sogro, esperou 52 anos pra relatar. Diz ele que esperou os protagonistas morrerem. Tem condição? Mas o Teodoro — foi quando a gente mudou pra casa nova — teve de ir nas Goiabeiras tratar um marceneiro e passou, pra aproveitar, na casa da tia dele, a Carlina do Afonso, e encontrou lá o Gomide. Tou encompridando, acho que é só por medo do fim, mas agora já comecei, então. Então, diz o Teodoro, que o Gomide tirou do bolso do paletó uma trouxinha de palha de milho, cortadas elas todas iguaizinhas e amarradas com uma embirinha da mesma palha. Escolheu, escolheu, pegou uma bem lisa e bem branquinha, tirou o canivete do outro bolso, lambeu a palha pra lá, pra cá, e ficou um tempão lhe passando firme a lâmina, do meio pras pontas, de ponta a ponta, entremeando com lambidas. Depois, ainda segurando a palha entre os dedos, foi a hora de tirar e picar o fumo de rolo bem fininho. Ia picando e pondo na concha da mão. Acabou, guardou o rolo e ficou socavando o fumo na mão com a ponta do canivete. Depois pegou a palha, mais uma lambida e foi pondo nela o fumo, espalhando ele por igual na canaleta formada, pressionando bem pra ficar bem firme. Deu mais uma lambida na parte mais próxima do fumo e com os polegares e indicadores foi enrolando o cigarro devagarinho, uma enrolada e uma lambida, uma enrolada e uma lambida. Com o canivete dobrou uma das pontas para o fumo não escapar, tirou a binga do bolso, acendeu e pegou a pitar. Agora é que vem, ai, ai. Teodoro falou que o tempo todo da operação ele não despregava o olho daquilo. Disse que nem sabe o que tia Carlina arengava, só punha sentido no Gomide fazendo o pito. Diz ele que foi uma coisa tão esquisita — esquisita, não —, tão encantada que ele ficou de pau duro. É isso. Falou também que ficou doido pra sair dali, comprar palha, fumo de rolo e repetir tudo igualzinho ao Gomide. Eu entendo. Quando conheci o Teodoro, ele fumava e eu achava muito emocionante. Tenho muita saudade de quando não existia essa amolação de cigarro dar câncer, nem de mulher ser magra. A gente tinha mais tempo para o que precisa, não é mesmo? Será que faz mal mesmo? Colesterol, depois de tanto barulho, estão falando que já tem do bom. Qualquer dia vou pedir ao Teodoro pra dar uma fumadinha, só pra fazer tipo.

3. ADÉLIA PRADO. E o locutor da festinha continuou empolgado, fazendo bonito pra sua mulher, que deixara, naquela noite, comparecer ao seu trabalho, tendo-lhe adquirido, ele próprio, o convite. ... "porque, além de militar reformado da PPMG, é ainda o proprietário do animado Bar Central, o avô da nossa Lesliene, a feliz aniversariante desta noite.” Quando disse "nossa Lesliene”, acreditou desapontado que a mulher não salvava sua inventividade narrativa. Arrependeu-se de tê-la trazido e insistiu com o moço do vídeo para que filmasse mais à esquerda do palco, a mesa da dona da festa. De verdade, queria mesmo é que a mãe de seus filhos não aparecesse no filme; uma mulher que não passava uma sexta-feira sem encher latas e latas de biscoitos e só sabia ir em festa daquele mesmo jeito: saia preta, blusa de seda, por fora, pra disfarçar as ancas e arquinho na cabeça — putisgrila —, desse tinha vários de diversas cores, devia se achar nua sem o arco nos cabelos, logo ele, um homem conhecido, com aquele talento incrível para animar festas. “... agora, senhoras e senhores, o momento tão esperado em que a nossa — olhou de novo pra mulher olhando pra ele embevecida, se esquecendo de ficar em pé —, a nossa festejada Lesliene, a menina-moça da noite, vai apagar as merecidas velinhas.” Ai, será que estava certo dizer “merecidas velinhas”? Achou ótimo ser o locutor e estar dispensado de dançar com a mulher, que não conseguia terminar o pratinho, bebendo guaraná em pequenos goles. Pensou ter sido um erro tê-la trazido à festa. Se sentia desconfortável, inseguro dos adjetivos, querendo tirar a gravata e mostrar pras pessoas o que o roqueiro doidão mostrou durante um show e acabou preso. Gente do céu, o que está acontecendo comigo? Olhou para o avô, da Lesliene. Um filho da mãe, esse "militar reformado" espancador de presos. Nem que a marica estica eu falo mais o nome dele aqui, E essa Lesliene está me saindo uma perua e tanto. Então isto é salto para uma menina de quinze anos? “... e agora, senhores — esqueceu das senhoras —, o Toniquinho do Arlindo vai tocar a valsa que a aniversariante dançará com o pai dela.” Não disse "o talentoso músico Antônio Miranda, filho do nosso popular Zico Miranda, tocará a valsa que Lesliene dançará com o seu progenitor". Meio escondida por uma coluna do salão, sua mulher ainda não terminara os salgadinhos. Finíssima. Lembrou que ela lhe aconselhara trocar de camisa, "você fica melhor com a de linho creme". Teve vontade de chorar e ao mesmo tempo sentiu raiva daquele amor paciente e silencioso, capaz de morrer por ele. Foram pra casa calados. Quando se virou pro canto, um homem roubado, ela disse: você fala tão bonito, Raimundo! — Pois você fique sabendo que de hoje em diante não pego mais bico de locução noturna. Já tou cheio disso. Vou reabrir minha oficina que é melhor negócio. — Acho pena, você fala tão bem! — Cremilda, se eu te pedir, você nunca mais põe arquinho no cabelo? Dá pra sua irmã aquele conjunto de saia e blusa? Você me perdoa? Não entendia bem o discurso do marido, estranho naquela noite, mas era uma verdadeira mulher, fez como Nossa Senhora, disse sim ao senhor. E Raimundo fez com ela o que faz um homem competente para deixar feliz sua mulher.

4. ADÉLIA PRADO. Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma, ou melhor, um derrière esplendido. Não é preciso ser homem pra essas avaliações. Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas daquele tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua em falsa pudicicia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos. Eu era mocinha boba e escutei no armazém do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente não vai dar conta daquela ali, não. É preciso muita saúde. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os tesouros da Oldalisa e ela nem aí, toda toda, sobe e desce rua. Exatamente o que era me escapava, só podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar de segredos tão  excitantes. O Vicente era muito magrinho, não jogava bola, não nadava, "não salientava em nada", o Vicente Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda — como o Calixto chamou ela naquele dia — gostou.  Casaram e tiveram pencas de filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonitão e dono de armazém não contou ponto pra ele. Pois é, falou o Teodoro, hoje, assim que botou o pé em casa: O que é a tecnologia, hein? Tecnologia? É o avanço da medicina. Teodoro falava era do avanço do tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, não tem base. Tô vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A Oldalisa do Vicente? É. O Vicente estava junto? Não. Estava com duas alianças e um menino, neto dela com certeza. Será que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que não, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, só mesmo a lisa, magra e murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as agruras do corpo. Teria ele também sido um apaixonado da Oldalisa e eu corrido sérios riscos? Porque amor não olha idade, não é mesmo? Agora, daquela do escritório eu tive, medo não, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência. Batia à máquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs. Se chamava Rosiva, a perigosa. Imagina o risco que eu corri.

5. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. O CRONISTA É UM ESCRITOR CRÔNICO. O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em 1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico. O que é um cronista? Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços, na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula. Já andei dizendo que o cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando e pregando. São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba virando um estilista. O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim como há outra confusão entre articulista e cronista. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu "eu", como o do poeta, é um eu de utilidade pública. Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos, faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais. Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Não tem importância. O cronista é crônico, ligado ao tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele.

6. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. AMOR-O INTERMINÁVEL APRENDIZADO. Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado. Se enganava. Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado. Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara. De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos. Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram. Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor. O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava. Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão. O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina. Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal. O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final. Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não. Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não. Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não. E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não. Absurdo. Como pode o amor não coincidir consigo mesmo? Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente. Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente. Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado. Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado. O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado. Optou por aceitar a sua ignorância. Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado. E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.

7. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. FAZER 30 ANOS. Quatro pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave. Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar. Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada. Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar. Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar. Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós. Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente. Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes. Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer. Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó. Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.

8. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. A MULHER MADURA. O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos. De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé. Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda. A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo. A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs. A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito. A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril. O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa. Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza. Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador. Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo. A mulher madura está pronta para algo definitivo. Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo. A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes. Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

9. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. ANTES QUE ELAS CRESÇAM. Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal? Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros. Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta   dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela. Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas. Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

10. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. O VESTIBULAR DA VIDA. Um enduro sem moto, um rali sem carro, uma maratona onde, ao invés de atletas, correm paraplégicos, cegos, presidiários, grávidas e doentes em suas macas, esta é a imagem que nos deixa este vestibular realizado esta semana, mobilizando centenas de milhares de jovens em todo o país. Várias fotos mostram jovens correndo desabalados dentro de seus jeans justos e camisetas palavrosas em direção ao portão da universidade, como se fossem dar um salto tríplice. Como se fossem dar um salto sem vara. Como se fossem dar um salto na vida. Ao lado, aparecem parentes incentivando o corredor-saltador, aparecem colegas gritando em torcida. Correi, jovens, correi, que estreita é a porta que vos conduzirá à salvação! E ali está, como São Pedro, um porteiro ou guarda, que vai bater a porta na cara do retardatário, que chorará, implorará, arrancará os cabelos num ranger de dentes, enquanto, saltitantes, os mais espertos pulam (ocultamente) um muro e penetram o paraíso (ou inferno da múltipla escolha). A Telerj declarou que teve que acordar mais de 10 mil jovens pelo despertador telefônico. Carlinhos Gordo, o maior ladrão de carros do país, estava entre os 39 presidiários que, no Rio, fizeram, mesmo na cadeia, o exame. Mais de trinta deficientes visuais tiveram que tatear as 51 folhas em braile. Maria Alice Nunes teve um filho e saiu da maternidade com o recém-nascido no colo para enfrentar o unificado. Um índio cego — o guarani José Oado, 24 anos — disputa uma vaga em História (ou na história?). Andréa Paula Machado, 17 anos, teve que interromper o exame escrito várias vezes, para o prazer oral do bebê que, entre uma mamada e outra, voltava ao colo da avó. Dois fiscais que transportavam as provas no caminho de Petrópolis morreram num acidente. Um estudante com rubéola fez, num posto médico, prova ao lado de outro com catapora. Todas as idades ali estavam representadas: Márcia Cristina da Silva, 13 anos, vejam só!, já começou a treinar para o vestibular de Medicina em 88, e neste só achou difícil a prova de literatura. Mas lá estava também Edgar Carvalho, 73 anos, advogado, trocando as delícias da aposentadoria pela idéia de se tornar médico e ainda ser útil aos outros. Por isto, discordo da jovem que o interpelou acusando-o de estar tirando a vaga de outro. Socialmente é melhor um velho de 73 anos que qualquer dos jovens que faltaram à prova porque dormiam, que não foram classificados porque achavam que vestibular era loto e vivem a ociosidade daninha à custa de seus pais. Mas, de todos os casos, impressiona mais o de Maria Regina Gonçalves, uma enfermeira de 38 anos. Vejam que estória mirabolante. Lá vai a nossa Maria Regina. Mas não vai simples­mente. Vai grávida. Vai grávida, mas não é uma grávida amparada pelo seu marido, mas uma grávida solteira, enfrentando o mundo com sua barriga e coragem. No entanto, hora e meia antes do exame, em São Cristóvão, é assaltada por três marmanjos covardes, que tomam dela os documentos, 200 mil cruzeiros, e o pior: lhe dão uma porção de safanões, num exercício de sadismo matinal. Maria Regina poderia depois disto voltar chorando para casa e ficar lamuriando o resto da vida. Fez o contrário: foi em frente, embora, ao chegar no local, soubesse que uma outra colega, também assaltada, desistira do exame. Maria Regina deu um jeito, arranjou até cópia xerox de sua carteira de identidade, fez a prova, comprometendo-se a mostrar os outros documentos mais tarde. Mas, de noite, teve uma hemorragia. Pena que os ladrões não pudessem ver a cena, pois ficariam mais felizes. O médico lhe ordena "repouso absoluto". Ela ali "repousando", mas agoniada, porque a burocracia lhe exigia comprovações de documentos para validar os exames. Como desgraça pouca é bobagem, quatro dias depois morre o pai de seu namorado, daí a uns dias ela aborta e teve que ficar mesmo internada. E vede agora, ó filhinhos e filhinhas do papai, que esbanjais vossos corpinhos sem destino nas praias da irresponsabilidade! Maria Regina foi a primeira colocada (nota 96) no concurso para Enfermagem e Sanitarismo. Tirou primeiro lugar e seu nome não apareceu na lista. Ainda vai ter que provar que existe. Mas já impetrou mandado de segurança. É claro que vai ganhar.

11. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. NEM COM UMA FLOR. "Até hoje só bati numa mulher, mas com singular delicadeza". Vinicius de Moraes. Um amigo ia passando pela Avenida Atlântica quando viu um homem batendo numa mulher dentro de um carro estacionado. Resolveu parar e chamar a polícia. Mas iam passando pelo calçadão dois garotões atléticos que vendo o tumulto pararam também para saber. Meu amigo então lhes explica que o sujeito estava batendo na mulher. — Mas a mulher não é dele? - indagou o garotão. — E só porque é dele pode bater? - diz o amigo. — É, nessa você me pegou, cara. Nesta semana a OAB descobriu que em Imperatriz, no Maranhão, nos últimos cinco anos, maridos mataram 30 mulheres. Mas o fizeram por uma razão muito clara: não queriam pagar pensão nem partilhar os bens na separação. Diante desta estatística da terra de Sarney, os machos da terra de Tancredo ficam humilhados, porque eles só matam mulher por "traição", e, mesmo assim, em menor escala. Mas vou lhes contar outra estória: uma amiga estava em São Paulo numa conversa sobre espancamento de mulheres. De repente, falou-se de um conhecido professor que havia espancado a mulher (coisa, aliás, que acontece em várias faculdades do país). Reparem bem, estamos falando de gente fina. Não se trata de cachaceiros na subida do morro, do sujeito massacrado pela vida que chega em casa escorraçando as crianças, cães e mulheres. Estamos falando de gente inteligente, formada, com anel no dedo, que toma coquetéis com a gente e cita Marx, Hegel et caterva. Vai daí, alguém, comentando a razão por que o professor teria batido na mulher, sendo ele uma pessoa célebre, indaga: - Mas, afinal, ele é ele, e ela quem é? Na primeira estorinha vocês viram que um acha que a mulher é propriedade privada do marido, e por isto pode apanhar. Quer dizer: é igual quando a gente tem um cavalo ou cão. Já na segunda narrativa, a titulação acadêmica ou a importância hierárquica justifica a violência sobre o mais fraco. E a mulher, do ponto de vista muscular, é geralmente mais fraca que o homem. Por isto faz muito sentido quando na favela ao lado ouço as mulheres que apanham gritar: "Covarde! Vai bater num homem". E um garotão esclarecido, que estuda lutas marciais, ao ouvir a estória do professor espancador, observou: "Eu queria ver esse professor crescer para cima de mim".As estorinhas como essas são intermináveis. Lá vai outra. Uma amiga estava dando uma entrevista à televisão e o assunto era exatamente o espancamento de mulheres e a necessidade de se criar uma delegacia especial no Rio, como Franco Montoro criou em São Paulo, só para atender mulheres. E lá ia explicando o bê-á-bá da violência dos homens sobre as mulheres, lembrando que, quando uma mulher é violentada ou espancada, nas delegacias comuns têm que passar por vexames e cantadas, que os homens vêem a vítima como culpada, porque nossa sociedade nos convenceu de que a mulher é sempre uma Eva pecadora. Lembrava que em alguns países, além das delegacias para mulheres, há associações estruturadas para esconderem as vítimas, porque sabem que se muitas delas voltarem para casa serão até assassinadas. E foi explicando que em alguns lugares dos Estados Unidos existe um tratamento para maridos violentos, em sessões comuns, uma espécie de Associação de Alcoólatras Anônimos (os Espancadores Anônimos), que se curam e se tratam em grupo, porque isto é uma doença pessoal e social. Mas enquanto minha amiga dava a entrevista, os câmeras estavam indóceis. Parecia que o assunto era com eles. E aí, não agüentaram, interromperam a entrevista e um disse: — a gente trabalha na rua o dia inteiro, chega em casa cansado e a comida não está pronta, o que é que há? Ela está querendo apanhar! E a amiga tentou explicar: — então é só você que trabalhou? Ela não batalhou por aí em dupla jornada? Imagine se toda mulher fosse bater em marido que traz pouco ou nenhum dinheiro para casa? Os câmeras continuaram resmungando durante a entrevista. Não sei o que aconteceu quando eles chegaram em casa. Mas se houvesse na cidade uma delegacia para defender o direito das mulheres certamente pensariam duas vezes. Talvez não chegassem em casa sobraçando flores. Mas seguramente chegariam menos arrogantes.

12. AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA. VELHO OLHANDO O MAR. Meu carro pára numa esquina da praia de Copacabana às 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar à distância. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar à distância. O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a imaginá-lo quando jovem. É um exercício estranho esse de começar a remoçar um corpo na imaginação, injetar movimento e desejo nos seus músculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante. A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa. No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braços de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado. Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam?  Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dança? Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente não tem idade.  Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela também apresentava uma estatística segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, só 53% se consideram velhos, 36% acham que são de meia-idade e 11% se julgam jovens. Não sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele é um almirante aposentado. Às vezes, concedo e admito que ele pode ser também da Aeronáutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calçada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronáutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana. Mas esses senhores de short e boné branco que passam às vezes em dupla pelo calçadão, são mais atléticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar. Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta que um número crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto é uma síndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forçosamente me aposentarão. Então, imagino, vou passear de short branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m até cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar. Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa." Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doença, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que está sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente à nossa história, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice é um destino, e quando ela se apodera de nossa própria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, então?  A vida, e eu estou velho", escreve Aragon. Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritório transformo o mundo com telefonemas, projetos e papéis.  Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar à distância, a vida distante. Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar.  Neste caso não me importarei que o moço que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreenderá. Li esta crônica há mais de 10 anos, no Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, se não me falha a memória. Achei-a tão bonita que recortei o jornal e guardei num daqueles lugares que só por acaso a gente acaba voltando. Foi o que aconteceu. Mexendo em meus papéis, encontrei-a e voltei a me emocionar ao lê-la. Apresso-me em dividí-la com os amigos do Releituras.

13. ALCÂNTARA MACHADO. A ELOQÜÊNCIA E O BRASILEIRO. A eloqüência marca Sloper que nos desgraça é com certeza resultado da preocupação de fazer literatura a muque. Entre nós quase toda a gente pensa que literatura é arrevezamento, ginástica verbal, ilusionismo imaginoso, hipérbole sublime. E devido a isso mesmo há no Brasil muitos cavalheiros que falam mas poucos que dizem. Falam até debaixo d'água. Não dizem coisa nenhuma. De tal forma que hoje em dia o conceito de literatura é até pejorativo. — Não presta para nada esse artigo. É só literatura. Aí está. A culpa é inteirinha dos que a ela se dedicam, banalizando-a, pondo-a ao alcance de toda a gente, com o objetivo de embasbacar até um limpador de trilhos da Light. Aliás para ser franco, ninguém se diverte mais do que eu com as asneiras dengues e sonoras dos oradores de minha terra. Sou leitor fanático dos apanhados jornalísticos das sessões no nosso Congresso, na nossa Câmara Municipal, das excursões políticas, das reuniões de agricultores, comerciantes e homens de letras, de todas as assembléias, de todas as festanças e comemorações discursadas. Leitura ainda mais hilariante que a dos livros de Jerome K. Jerome. Nem se compara. Entre os nossos vereadores e parlamentares, principalmente, há cada campeão em matéria de retórica edição Quaresma da gente ficar de boca aberta. Até entrar mosca. É verdade. Pessoal danado para dizer bobagem com ênfase. Nunca vi. A idéia vem sempre vestida de cores escandalosas, amarrada com laçarotes de penteado de negra, toda arranjadinha para dar bem na vista. Todos os discursos têm um trechinho imutável que eu não me canso de saborear. É quando o orador alude humildemente à miséria cearense dos seus dotes oratórios. É assim: O Sr. Sesostris da Cunha — Embora reconheça, Sr. presidente, que minha desautorizada voz, tão desafeita à tribuna, vem quebrar a harmonia (não apoiados gerais). O Sr. Amazonas Neto — V.ex. é um belo orador. Todos nós o ouvimos sempre com imenso prazer (apoiados gerais). O Sr. Sesostris da Cunha — Muito obrigado a v. ex. Como ia dizendo, Sr. presidente, sem embargo... Delicioso. E fatal. Mas, sobretudo, delicioso. Eu sei que estou sendo irritante. Paciência. Sei perfeitamente que nesta terra o que eu estou fazendo se chama falar mal. Paciência. É sempre melhor do que falar bem. Compreendam-me. João Filipe, que foi ministro de Floriano e hoje é professor jubilado da Politécnica do Rio, velhinho moço de sarcasmo estupendo, desabafou certa vez comigo: — Eles são bestas e não querem que a gente tome nota. Eu tomo, sim.

14. ALCÂNTARA MACHADO. A SOCIEDADE. — Filha minha não casa com filho de carcamano! A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque. O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço. O Lancia passou como quem não quer. Quase parando. A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino. Uiiiiia-uiiiiia! Adriano Meli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C sabe: uiiiiia-uiiiiia! — O que você está fazendo aí no terraço, menina? — Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais? Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na rua. Vestido de Camilo, verde, grudado à pele, serpejando no terraço. — Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele chegar! — Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus! Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou. Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista. Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o saxofone da beiçorra para gritar: Dizem que Cristo nasceu em Belém... Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do Paulistano. O namorado ainda mais. Os pares dançarinos maxixavam colados. No meio do salão eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de mamãs, moças feitas e moços enjoados. A orquestra preta tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos. — Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade. — Não! — Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu. ...mas a história se enganou! As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. O professor da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-turururum! — Meu pai quer fazer um negócio com o seu. — Ah sim? Cristo nasceu na Bahia, meu bem... O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria de vozes e sons. ...e o baiano criou! — Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão da Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele, compreendeu? — Já sei, mulher, já sei.

15. ALCÂNTARA MACHADO. APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA. O trenzinho recebeu em Magoarí o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro. Trem misterioso. Noite fora, noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam: — Vai pisar no inferno! Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando. O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito. Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Magoarí. Porém, aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Magoarí. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. 0 taioca guia dele só dava uma forga no bocejo para cuspir. Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz: — O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? O rapaz respondeu: — Não sei: nós estamos no escuro. — No escuro? — É. Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo: — Não tem luz? Bocejo. — Não tem. Cuspada. Matutou mais um pouco. Perguntou de novo: — 0 vagão está no escuro? — Está. De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim: — Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! E a luz não foi feita. Continuou berrando: — Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia. Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite: — Que é que há? Baiano velho trovejou: — Não tem luz! Vozes concordaram: — Pois não tem mesmo. Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo. Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou: — Ele é pobre como a gente. Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos. — Foguetes também? — Foguetes também. — Be-le-za! Mas João Virgulino observou: — Isso custa dinheiro. — Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magafere-chefe do matadouro de Magoarí, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse: — Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse: — Quilo e meio de toicinho! Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas. — Quantas reses, Zé Bento? — Eu estou na quarta, Zé Bento! Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando. — Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu : — É por causa das trevas! O chefe do trem suplicava: — Calma ! Calma! Eu arranjo umas velinhas. João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos. — Aqui ainda tem uns três quilos de colchão mole! 0 chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às armas cidadãos! 0 taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão. Tocando a sineta o trem de Magoarí fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe, muito pálido. Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Magoarí amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante da Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou: — Qual a causa verdadeira do motim? O homem respondeu: — A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões. O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: — Quem encabeçou o movimento? Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou: — Quem encabeçou o movimento foi um cego! Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.

16. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. O futuro de uma cueca de listras. O teatro da escola está repleto de alunos do ginásio. Os garotos acompanham com olhos enormes cada movimento, cada palavra do padre pesquisador de fenômenos paranormais. O sacerdote vai tecendo argumentos científicos que demolem tudo o que chama de superstição. Trata-se de um homem inteligente. Sabe que nos jovens corações que o ouvem se enraíza uma semente de conflito em relação a qualquer religiosidade. A fé não precisa ser obscura, ele repete. Para consolidar sua argumentação, convoca um voluntário a se submeter a uma sessão de hipnose. O garoto voluntarioso que se apressa em ir até o palco nem se lembra de que naquele dia está usando a odiada cueca de listras que ganhou de uma tia. Depois de ouvir duas ou três invocações, fica semiconsciente. Nesse estado, segue as sugestões do hipnotizador. Vira-se de um lado para outro, inclina-se para trás e para frente até que suas calças se desarranjam ligeiramente e revelam o terrível segredo. Nem os risos da platéia o despertam, o que é uma consagração ainda maior para o padre que, ao contar até três e estalar os dedos, liberta o hipnotizado da submissão. Assim, encerra-se a preleção, pois o sinal para o reinício das aulas já soa. Os demais alunos não arredam pé do teatro, mesmo com o terceiro toque fatal que precede a chamada nas salas de aula. Todos esperam com avidez para ver como será o despertar do hipnotizado. Acordou com o padre perguntando pelo seu nome e querendo saber se ele se lembrava de algo. Não, não se recordava de nada sobre os últimos minutos. Com naturalidade, como alguém que apenas se ausentara para ir à padaria, ajeitou as calças. Percebeu o afloramento da cueca de listras, mas teve presença de espírito para não a transformar em ator principal de uma farsa involuntária. Esse desempenho neutralizou a sanha dos colegas, que esperavam se divertir um pouco mais com um embaraço de sua parte. O padre insistia em perguntar por onde ele teria estado durante a hipnose e, diante da ausência de respostas, pôde concluir que o inconsciente era um manancial de riquezas inexploradas. Um universo de onde brotam as fantasias e, particularmente, as ilusões humanas. Mesmo grogue, o menino registrou com interesse essa descrição sobre a fonte do ilusório. Mais tarde foi aprender como as ilusões, inclusive a única reverenciada pelo padre, tentam tornar suportável a angústia de se desejar algo que não há. Um desejo que nos torna únicos e especiais, posto que as outras formas de vida apenas vivem, consumindo-se até o fim inevitável. Essas idéias, naquele dia, ainda eram tênues formações, sem merecer ser centro de atenção do menino. Esse era então um privilégio ocupado pela cueca de listras. Dela, o menino conseguiu se livrar pouco depois. Quanto às ilusões, o processo de libertação vem sendo mais árduo e me exige novos esforços todos os dias.

17. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Cardápio existencial. -E se a vida for como um cardápio? A pergunta pegou Rosinha de surpresa. Ela levantou os olhos do menu e se deparou com o marido em estado reflexivo. -Ora, Alfredo, deixe de filosofar e escolha logo o seu prato. Os dois haviam saído para jantar e estavam na varanda do Bar Lagoa, de onde se pode ver um cantinho de céu e o Redentor. -Rosinha, pense nas conseqüências do que estou dizendo. Se a vida for como um cardápio, nós talvez estejamos escolhendo errado. No lugar da buchada de bode em que nossas vidas se transformaram, poderíamos nos deliciar com escargots. Experimentar sabores novos, mais sofisticados... -Por que a vida seria como um cardápio, Alfredo? Tenha dó. -E por que não seria? Ninguém sabe de fato o que é a vida, portanto qualquer acepção é válida, até prova em contrário. -Benhê, acorda. Ninguém vai aparecer para servir o seu cardápio imaginário. Na vida, a gente tem que ir buscar. A vida é mais parecida com um restaurante a quilo, self-service, entende? -Boa imagem. Concordo com o restaurante a quilo. É assim para quase todo mundo. Mas quando evoluímos um pouco, chega a hora em que podemos nos servir a la carte. Rosinha, nós estamos nesse nível. Podemos fazer opções mais ousadas. -Alfredo, se você está querendo aventuras, variar o arroz com feijão, seja claro. Não me venha com essa conversa de cardápio existencial. Além disso, se a nossa vida virou uma buchada de bode, com quem você pensa experimentar essa coisa gosmenta, o tal escargot? -Querida, não reduza minhas idéias a uma trivial variação gastronômica. Minha hipótese, caso correta, tem implicações metafísicas. Se a vida for como um cardápio, do outro lado teria que existir o Grand Chef, o criador do menu. -Alfredo, fofo, agora você viajou na maionese. É o cúmulo querer reconstruir o imaginário religioso baseado no funcionamento de um restaurante. Só falta você dizer que nesse seu céu, os anjos são os garçons! Nesse momento, dois chopes desceram sobre a mesa. Flutuaram entre as mãos alvas, quase diáfanas, de um dos velhos garçons do Bar Lagoa. Alfredo e Rosinha trocaram olhares de espanto e antes que pudessem dizer que ainda não haviam pedido nada, o garçom falou com voz grave: -Cortesia da casa. Já olharam o cardápio?

18. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Ao sentir o afloramento da angústia, a Glorinha não tem dúvidas. Vai sempre ao shopping, onde compra um acessório, algo extremamente essencial, com o poder de tornar sua vida menos faltosa. Daquele tipo que logo depois é apenas mais um item supérfluo dentro de casa. O Leopoldo, quando fica angustiado, procura encontrar a cara metade. Já a encontrou algumas vezes, tanto que em alguns casos paga pensão decidida em Justiça, comprovando o quanto a tal metade era cara. Hoje, procura opções mais baratas, mas continua pagando. Quando o Joselito se angustia, toma um porre. Para ele, não cola essa história de que copo vazio está cheio de ar. Copo vazio deixa o Joselito angustiado. Afinal, não vê graça em apenas respirar. O Godofredo é zen, ou pelo menos está se esforçando para ser. Quem sabe assim arranja um jeito de neutralizar a maldita angústia que o consome. Ele aprendeu técnicas de meditação e relaxamento. Sua esperança é encontrar um mestre iluminado que lhe revele o sentido da dor. Por enquanto só encontrou paliativos, mas ele não desiste. A Luísa já passou dessa fase. Ela não busca mais o mestre. Já o encontrou e toda semana vai reverenciá-lo em um culto que a deixa em êxtase. A sensação dura algumas horas. Quando a angústia volta, ela começa a falar silenciosamente com o mestre. Conversa bastante, para ver se a maldita passa. O Júlio arranjou um jeito de lucrar com a angústia. Quando ela bate, ele pinta um quadro. Quanto maior for a bendita, mais prazer ele destila com os pincéis e as tintas. A energia flui dos cantos mais escuros para a claridade da tela. É certo que ele ainda não vendeu nenhum quadro. Seu lucro não é monetário. Por enquanto é um ganho pessoal, intransferível. Uma sensação de gozo que perdura na obra artística. Ele já tentou explicar seu método de relação com a angústia para os amigos. Logo percebeu que esse não é um conhecimento que se possa dividir, mesmo com quem se goste. Melhor do que falar, é mostrar seus quadros. Alguns amigos não entendem o que Julio pinta. Eles ficam angustiados vendo seus quadros. O pintor se angustia quando os amigos ficam assim. Aí ele pinta outras telas. De uns tempos para cá, o Júlio também resolveu escrever crônicas, algumas vezes poesia. Um crítico, que não entendeu nada, disse que o texto do Júlio era hermético como uma pintura abstrata. O pintor-cronista-poeta ficou maravilhado.   

19. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Não consigo deixar de pensar nisso. -Nisso o quê? -Como teria sido o mundo sem Colombo. Nós nem estaríamos aqui nesse botequim bebendo chope e papeando... -Então, salve Colombo! Deixe de pensar nele. Viva o presente e, principalmente, pague o que me deve. -Você não entendeu. Não estou pensando em Colombo. Estou pensando no que teria sido o mundo sem ele. -Com ele ou sem, os europeus iriam acabar chegando ao Rio de Janeiro e hoje alguém iria estar tomando chope em um botequim como esse. Tudo seria mais ou menos igual. Até um caloteiro como você iria existir. -Você está enganado. Sem Colombo, nós não estaríamos aqui. Sem ele, iria prevalecer o método de Portugal, que eram as cabotagens em torno da África e da Ásia. Um processo muito mais lento. Em qualquer lugar em que vissem mulher bonita, os portugueses paravam e se punham a fazer versos e a tocar suas guitarras. -Eles estavam certos, quer coisa melhor do que mulher, poesia e música? -Mas perceba as conseqüências. Seguindo as cabotagens, os portugueses chegariam ao Japão, como fizeram realmente, mas talvez demorassem muito mais para se arriscar em linha reta ao Oriente. Foi a loucura de Colombo que fez os portugueses virem direto para a América. Se dependesse deles, isso poderia ter demorado mais, quem sabe uns duzentos anos. -E daí? Um pouco antes, um pouco depois, terminaria tudo como estamos vendo agora. -De forma alguma. Sem as Américas, não haveria batatas no cardápio da Europa. Sem batatas, a população européia iria continuar passando fome, crescendo devagar. Não haveria o excedente que criou o exército de mão-de-obra de reserva, a mais valia. Não teria havido a Revolução Industrial. -Você não acha que está exagerando um pouco? -Claro que não. Sem Colombo, não teria havido luta de classes e as revoluções que balançaram o mundo no último século. -Aonde você quer chegar com essa conversa? -Ora, meu ponto de vista é claro. A ousadia de Colombo criou o mundo como o conhecemos. É preciso ser ousado, é preciso ir além do convencional. -Ainda não entendi o que quer dizer esse papo todo. -Bom, você mesmo podia ser mais ousado e fazer um gesto inesperado. Por exemplo, poderia perdoar essa dívida que veio me cobrar. -Tenha paciência. Está me achando com cara de Jesus Cristo? Essa conversa toda é apenas mais uma forma de você adiar o pagamento. Você está me enrolando. -Longe de mim essa idéia! Mas continuando nosso assunto, como teria sido a história do mundo sem Jesus Cristo? Você já pensou nas conseqüências?

20. ANTÔNIO CARLOS DE FARIA. Não consigo deixar de pensar nisso. -Nisso o quê? -Como teria sido o mundo sem Colombo. Nós nem estaríamos aqui nesse botequim bebendo chope e papeando... -Então, salve Colombo! Deixe de pensar nele. Viva o presente e, principalmente, pague o que me deve. -Você não entendeu. Não estou pensando em Colombo. Estou pensando no que teria sido o mundo sem ele. -Com ele ou sem, os europeus iriam acabar chegando ao Rio de Janeiro e hoje alguém iria estar tomando chope em um botequim como esse. Tudo seria mais ou menos igual. Até um caloteiro como você iria existir. -Você está enganado. Sem Colombo, nós não estaríamos aqui. Sem ele, iria prevalecer o método de Portugal, que eram as cabotagens em torno da África e da Ásia. Um processo muito mais lento. Em qualquer lugar em que vissem mulher bonita, os portugueses paravam e se punham a fazer versos e a tocar suas guitarras. -Eles estavam certos, quer coisa melhor do que mulher, poesia e música? -Mas perceba as conseqüências. Seguindo as cabotagens, os portugueses chegariam ao Japão, como fizeram realmente, mas talvez demorassem muito mais para se arriscar em linha reta ao Oriente. Foi a loucura de Colombo que fez os portugueses virem direto para a América. Se dependesse deles, isso poderia ter demorado mais, quem sabe uns duzentos anos. -E daí? Um pouco antes, um pouco depois, terminaria tudo como estamos vendo agora. -De forma alguma. Sem as Américas, não haveria batatas no cardápio da Europa. Sem batatas, a população européia iria continuar passando fome, crescendo devagar. Não haveria o excedente que criou o exército de mão-de-obra de reserva, a mais valia. Não teria havido a Revolução Industrial. -Você não acha que está exagerando um pouco? -Claro que não. Sem Colombo, não teria havido luta de classes e as revoluções que balançaram o mundo no último século. -Aonde você quer chegar com essa conversa? -Ora, meu ponto de vista é claro. A ousadia de Colombo criou o mundo como o conhecemos. É preciso ser ousado, é preciso ir além do convencional. -Ainda não entendi o que quer dizer esse papo todo. -Bom, você mesmo podia ser mais ousado e fazer um gesto inesperado. Por exemplo, poderia perdoar essa dívida que veio me cobrar. -Tenha paciência. Está me achando com cara de Jesus Cristo? Essa conversa toda é apenas mais uma forma de você adiar o pagamento. Você está me enrolando. -Longe de mim essa idéia! Mas continuando nosso assunto, como teria sido a história do mundo sem Jesus Cristo? Você já pensou nas conseqüências?

21. ANTÔNIO CARLOS VILLAÇA. QUANDO EU CHEGAR AO CÉU! Quando eu chegar ao Céu, de manhã, de tarde ou de noite, não sei ainda, pedirei para ir à biblioteca de Deus, onde curiosamente bisbilhotarei — com respeito — algumas obras. Quero reler a Invenção de Orfeu, de nosso Jorge de Lima, sofredor, telúrico e místico, homem bom, cirenaico, assim lhe chamou Rachel de Queiróz, quando ele morreu, novembro, 15, do ano de 1953. E pedirei, sim, para conversar com Manu, Manuel Bandeira, que se chamava Neném. Matarei saudades do dentuço Manuel, que foi o melhor ser humano que conheci, neste mundo. E gostaria de conhecer Chiquita do Rio Negro, que recusou casar se com Ataulfo Nápoles de Paiva, conviva do baile da ilha Fiscal. Escrevi sobre Chiquita. Li a sua biografia, escrita por Garrigou-Lagrange. Meu Deus, convocaria Jaime Ovalle, o tio Nhonhô, que morreu com a idade de Jorge de Lima. Ali, na biblioteca do Céu, conheceria o estupendo Ovalle, o do Azulão, o bêbedo místico, o amigo de Manuel, íntimo de Londres e de Nova York. Por fim, suplicaria para falar com João Guimarães Rosa, poliglota, com quem tão poucas vezes falei. E evocaria a posse do seu sucessor, na Casa de Machado. Esqueci-me completamente dessa posse, ai de mim. E fui. Lá estava eu, 1968. Um ano depois da morte de Rosa. Mário Palmério falou sobre ele, como seu herdeiro. E gostei tanto do discurso, equilibrado, lúcido, original. Se me lembro. Foi procurar cartas íntimas de Rosa para grande amigo, médico e fazendeiro em Minas, Moreira Barbosa. Cartas de outrora. Deliciosas, fraternais, confiantes, de pura entrega. Reveladoras do ser complexíssimo, fechado, carente, que gostava de disfarçar, despistar, ir e vir, comensal do mistério. Saudarei a uns e outros na largueza dadivosa do Céu, turbilhão de amor, como dizia o insaciável Léon Bloy.

22. ANTÔNIO MARIA. O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: "Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro". Como são desprezíveis as pessoas que falam no "bom chuveiro!" E segue o parceiro: "Depois peço os jornais, sento à mesa e tomo meu café reforçado". Ah, a pena de morte, para as pessoas que tomam "café reforçado!" E a explanação continua: "Nos jornais, vocês me desculpem mas, a mim, só interessa o artigo de Macedo Soares e as histórias em quadrinhos". Nessa altura o autobiográfico procura colocar-se em dois planos, que lhe ficam muito bem: o que ele julga de seriedade política (Macedo) e o outro, de folgazante espiritual (histórias em quadrinhos). E vai daí para outra modesta homenagem a si mesmo: "Aí, então, é que vou me vestir. Quanto à roupa, nunca liguei muito, mas, camisa e cueca, tenha paciência, eu mudo todo dia". O "tenha paciência" é porque está absolutamente certo de que estamos com a camisa e a cueca de ontem. "Acordo minha senhora, pergunto se ela quer alguma coisa e vou para o escritório". Gente que chama a mulher de "minha senhora" está sempre pensando que: não acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; no fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel. E vai adiante o mal-feliz: "Só aí vou para o escritório, mas nunca antes de passar no jornal, para ver se há alguma coisa". Esse "passar no jornal" é um pouco difícil de explicar. Mas todo homem banal tem muita vergonha de não ser jornalista e alude sempre a um jornal, do qual tem duas ações ou pertence a um primo, ou amigo íntimo. Vai por aí contando sua vidinha, que termina, melancolicamente, com esta frase: "À noite, eu sou da família!". Bonito! "Visto meu pijama, janto, deito no sofá e vou ver a televisão, com as crianças em cima de mim". Está aí o retrato perfeito do cretino nacional. E, o que é triste, além de numeroso, está em toda parte. Que horror me causam as pessoas do "bom chuveiro", do "café reforçado", os de "Macedo Soares e das histórias em quadrinhos" (os que gostam só de Macedo Soares ou só de histórias em quadrinhos são ótimos), que precisam dizer que mudam camisa e cueca todos os dias, as que citam "sua senhora" e os que "passam no jornal, antes de ir para o escritório". Nossa maior repulsa, ainda, por quem janta de pijama e deita no sofá, com as crianças em cima. Ah, essa gente me procura tanto!

23. ANTÔNIO MARIA.  Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá. Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto? Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer: — Estou me sentindo assim, assim, assim... A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os que fazeres do sexo. Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença. E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: "Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country". Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca. Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme. Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta: — Que é que houve? O senhor está mais velho? Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou: — O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu. Tinha pensado que, sem os óculos... Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes. Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

24. ANTÔNIO MARIA. Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia. Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao pé de Braga". Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho. Nesse café, além de nós, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. Não olhavam para nós e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balcão. Ambos disseram palavrões, em voz alta. O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavrões e o cabeça do casal protestou:— Pára com isso, que tem senhora aqui! Um dos rapazes dos palavrões:— Não chateia!— Não chateia o quê? Pára com isso agora! Um dos rapazes do palavrão:— E essa mulher é tua mulher?— Não é, mas é mulher de um amigo meu! A briga não foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavrões, o casal. Está provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo não tem direito a reclamar coisa alguma.

25. ANTÔNIO MARIA. Aconteceu na Avenida Copacabana, esquina de Santa Clara. Uma jovem senhora chamou o guarda e apontou o homem, encostado a um poste:— Prenda este homem, que ele está se portando inconvenientemente. Era um homem magro, pálido, vestido em casimira velhinha. Não tinha cara de gente má. Ao contrário, seus olhos eram doces e mendigos. O policial segurou o homem pela lapela. O homem não se mexeu. Apenas levantou os olhos e perguntou: - Por quê? A senhora estava uma fúria e dizia num fôlego só:— Há uma hora este cidadão me segue. Começou no lotação. Desceu quando eu desci. Entrei numa loja e ele entrou também. Andei um quarteirão e ele andou também. Entrei no mercadinho e ele entrou também...— E lhe disse alguma coisa?— Não. Só olhava. O guarda soltou a lapela do homem. O homem agradeceu. O guarda dirigiu-se ainda à mulher:— Mas ele só olhava?— Sim. Mas olhava de maneira obscena. O guarda perguntou, então, ao homem:— Você olhava de maneira obscena?— Sim. Não sei mentir. Mas qualquer um no meu lugar faria o mesmo. 0 senhor já viu ela andar? 0 guarda viu depois, quando a mulher desistiu da prisão do seu espectador e foi andando. Não se deve explicar muito, mas é preciso que se diga: era uma moça brasileira. Uma moça de formato brasileiro, com movimentos brasileiríssimos. Dessas que deviam ter, como certos automóveis, uma tabuleta às costas, onde se lesse: "Amaciando".

26. ANTÔNIO MARIA. Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa. O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação. Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.

27. ANTÔNIO MARIA. Dinheiro — Preciso 35 mil cruzeiros empréstimo, boas referencias. Pago no vencimento 50 mil 30 dias.— Mas, a gente vai separar por quê? — perguntou o marido. A conversa começou cerca da meia-noite, e eram oito da manhã. Marilda só dizia que ia separar e que não ficava mais nem um dia. Na hora de explicar o motivo, se trancava. A pergunta "você tem um novo alguém", Jaribe lhe fizera umas mil vezes. Marilda se arrepiava da cabeça aos pés, com a forma "um novo alguém". Foi quando Jaribe levantou, foi no armário e, de urna malinha da Varig, trouxe um Smith Wesson 38, carga dupla.— Fala, Marilda. Se não falar eu me mato aqui mesmo. Marilda não sabia daquele revólver. Nunca vira, antes, alguém com um revólver na mão. Sentiu uma náusea. A violência, qualquer espécie de violência, lhe nauseava. Pediu:— Guarde o revólver que eu falo. Jaribe atirou o revólver, de qualquer maneira, no armário.— Vai, fala. Marilda ergueu metade do corpo e recostou no espaldar da cama. Tinha que falar. Um homem nunca se conforma em separar-se sem ouvir, bem direitinho, no mínimo 500 vezes, que a mulher não gosta mais dele, por que e por causa de quem. Já mulher, não (pensava). Basta que o homem lhe diga uma vez que quer ir embora, nasce-lhe um brio, um ódio poderoso, uma espécie de soberba, tão grande, que ela se veste toda, pega um telefone, pede um táxi e sai. Mulher (pensara Marilda, a noite inteira) pode não ter muita vergonha nos outros lugares. Mas, na cara, tem. Mulher não se importa de vestir o menor dos biquínis e deixar que a vejam, horas. Mas não consente que o homem que a despreza lhe olhe a cara, um só minuto. Mas tinha que falar, porque homem, enquanto não sabe do pior, não sossega. E começou, Marilda, sem um segundo de sono (seis "dexas"), recostada no espaldar.— Escuta, bem. Você sabe que eu tenho minhas coisas, não sabe? Fala. Sabe ou não sabe? — Mas conta.— Você vai dizer que eu sou louca, se eu disser que, no terceiro mês de casada, não agüentava ouvir ou dizer seu nome. Nós estamos casados há dois anos e três meses, não é? Pois bem, qual foi a última vez que você me ouviu chamar você pelo nome? Jaribe fez uma rápida busca no tempo e só lembrou de Marilda a chamá-lo de "meu bem". Ou, então, quando não havia ninguém perto, falar assim: "hei"!... e dizer o que queria. Marilda continuava:— Tentei o seu sobrenome. Você se lembra que, de junho a agosto do ano passado, eu passei chamando você de Carvalho? Mas não podia continuar. Mulher chamar marido pelo sobrenome é humilhante demais.— Mas meu nome é tirado da Bíblia — ... apelou Jaribe. Marilda continuou:— Mas não é só isto. Você fala umas coisas que não há mulher que agüente. Houve uma pausa, que Jaribe se apressou em quebrar:— Por exemplo? Marilda preferia não dizer. Ajeitou-se no espaldar da cama, puxando o lençol acima dos seios, pois naquela posição a camisola não estava dando conta. Mulher não diz nada sério, não assume mesmo a mínima dignidade, se houver qualquer de suas pudícias à mostra. Marilda puxou o lençol até o pescoço.— Eu estou esperando — insistiu Jaribe. E Marilda falou o resto:— Outra coisa: você fala "menas".— Como assim?— Você diz muito: "menas gente".Jaribe a amava como um louco. Sentia, por dentro, uma dor enorme. Aquela dor da falta de ginásio. Mas queria saber tudo:— E você tem um novo alguém? Marilda botou o rosto dentro das mãos e começou a chorar. Chorava e falava, ao mesmo tempo:— Me manda embora! Me manda um mês para fora pra ver se a gente conserta! Deixa eu ficar dois meses no Paraná com a família da minha madrasta! Vai, arranja um dinheiro e me manda! Depois a gente acerta. Jaribe o que queria era esperança. Como todo homem que sente perder a mulher, queria a esperança de ainda retê-la. Tivesse ou não "um novo alguém", ele queria Marilda. Honra? O que é honra? Em que parte do corpo está localizada? Com a lucidez dos enganados, Jaribe descobria todas as verdades da vida. Pobre Jaribe! Iria arranjar o dinheiro, custasse o que custasse. Com uns 35 mil cruzeiros, solucionaria o problema. Qualquer agiota lhe emprestaria 35 por cinqüenta, em trinta dias. Qualquer um. O próprio contador da Importadora. Se falhasse, era só botar um anúncio no Jornal do Brasil. Naquela efusão de suas esperanças, pensou: "Por que será que a Condessa comprou a Tribuna?". Pôs-se de pé.— Olha, Marilda. Você vai para o Paraná, sim. Depois de amanhã. Fica lá, descansa, passa o tempo que quiser e depois volta.— Faz uma coisa — pediu Marilda —. Você me escreve, tá?— Claro. Você vai para descansar. E Jaribe foi para o banheiro, alentado por todos os maus alentos. Vigiar-se-ia dali por diante quando falasse. Precisava de Marilda. Retê-la-ia, custasse o que custasse. E, coitado, em tudo o que pensava, não estava mais que estruturando sobre o absurdo.

28. ANTÔNIO PRATA. QUASE. Como nunca levou jeito para a música nem para a arte da carpintaria, Osmar dos Santos formou-se advogado — profissão que muito lhe convinha, visto que não nascera para outra coisa senão para advogar. Rosinha Carvalho, por sua vez, já aos treze sabia comandar uma casa como ninguém: lavava, passava, cozinhava e fazia magníficos arranjos de flores. Certa vez passou por Bauru, onde residia a moça, um amigo do Dr. Carvalho que, abismado com os arranjos, felicitou: "Mas que lindo arranjo de flores, Rosinha!" Dr. Carvalho, bom pai e conhecedor das artes varonis para atingir a cópula, muito prudentemente acertou três tiros no homem, que morreu ali mesmo. Mas Osmar nunca ficou sabendo do ocorrido, posto que não nascera em Bauru nem nunca por lá passara (a bem da verdade, só saíra uma vez de sua cidade, indo para São Vicente a trabalho) e, sendo assim, não ficou chocado e pôde continuar com sua nobre ocupação sem maiores (nem menores) tormentos. Rosinha chorou um pouco, mas depois resignou-se com a fatalidade e continuou com seus lindos arranjos. Rosinha, bela moçoila e prendada como só, já estava em idade de casar. Osmar, advogado com o diploma na parede e a bela tabuleta na porta, também. Eis que um dia quis o destino, esse cosedor de histórias, unificador do diverso, carpinteiro da vida, que Rosinha fosse a Pirajuí, cidade mui bela onde habitava, entre muitos outros, Osmar. Rosinha iria acompanhar a mãe num encontro com umas primas distantes, a respeito de uma herança deixada por um tio. Antes do ocaso, partiam numa caravana com mais três capangas e duas mucamas muito limpinhas rumo a Pirajuí. Em lá chegando, foram direto à casa das primas, que, com chá e biscoito, as receberam de forma cordial e hospitaleira. Como faltava açúcar, dona Isaura Carvalho, mãe de Rosinha, mandou-a à mercearia, acompanhada de uma das serviçais. Por acaso ou não, ocorreu que, neste mesmo instante, Osmar se deu conta de que havia acabado suas cigarrilhas, tão importantes em sua rotina e em sua nobre ocupação, dando-lhe um ar austero que um bom advogado precisa ter. Assim sendo, levantou-se e rumou à mercearia, a mesma já mencionada, para onde também ia nossa querida Rosinha. Osmar chegou primeiro e pediu as cigarrilhas. Abriu o pacote e pegou uma. Quando já ia saindo, chegava Rosinha. Infelizmente, ocupado que estava em acender seu precioso tabaco, Osmar não avistou Rosinha,tendo ela, portanto, jamais se casado com ele.

29. ANTÔNIO PRATA. PRIVADA I: O HOMEM E SUA OBRA. "Este ódio de tudo o que é humano, de tudo o que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria', este horror dos sentidos (...) tudo isso significa (...) vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". Nietzsche. O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e saímos da selva. Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos ferramentas, meias e fio dental! Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho além da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda a crosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem disfarce. A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos. Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais! Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqüências que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo. No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil. O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e andando. Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas. Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se sempre o risco de se encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mão. Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em pouco tempo a invenção de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia. Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados. Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo. Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as baratas sobreviverão.

30. ANTÔNIO PRATA. ASCENSÃO. Faz apenas um segundo que Woopy Goldberg terminou de anunciar: "and the Oscar goes to João Arlindo, from Brasil! With the film “Batuque”, mas ele permanece imóvel. E com uma ereção daquelas não vai levantar mas nem fodendo — me perdoem o trocadilho. Com a calça fininha do smoking alugado, e de cueca samba-canção então... Seria um vexame sem precedentes, compartido via satélite por mais de um bilhão de pessoas de Belford Roxo a Pequim, passando pela casa da tia Conceição, que acaba de dar o primeiro soluço de felicidade, e pelo bar do Pedrão, onde nesse instante todos os amigos se levantam das cadeiras e pulam de alegria. João terá que tomar alguma atitude. E rápido. Mas qual? Já se passaram três segundos desde que anunciaram seu nome. Três segundos é pouca coisa. E o tempo que leva para a pessoa perceber que é com ela, abraçar o companheiro do lado, esticar as pernas e começar o longo caminho da poltrona até o palco, tremendo que nem vara de marmelo (segundo dizem aqueles que já viram uma vara de marmelo). E o que demora para a tradução simultânea (que nunca é simultânea, e às vezes tampouco tradução) repetir o nome do ganhador, do filme e do país de origem do filme. Mas depois de seis, oito segundos, a coisa já vai começar a ficar esquisita. Por que o cara não levanta? — se perguntará o quase um quarto da humanidade que acompanha o acontecimento. A câmera já está mostrando João, e em no máximo dez segundos Rubens Ewald Filho fará algum comentário. A Woopy Goldberg — quem sabe? — também. E aí? Já se passaram cinco segundos e João sente-se como naquelas cenas em que o herói vai correndo pelo píer e não sabe se salta ou não salta no barco que zarpa, levando sua amada, ou como o jogador que caminha em direção à bola e tem que escolher de que lado baterá o pênalti. A situação de João é ainda pior do que as descritas, porque não se trata de optar entre duas possibilidades, mas de inventar sua própria saída — e será que existe alguma? 0 tempo que leva um pinto da ereção completa à broxada total é superior ao que se pode esperar na poltrona, depois que já anunciaram que você é o ganhador do Oscar sem causar estranhamento. Além do mais, as únicas coisas que passam pela cabeça de João são os rios de suor que descem, caudalosos, em direção às costas. Sete segundos. Rubens Ewald Filho comenta que João Arlindo, "o filho pródigo da cinematografia nacional, está tão emocionado diante do primeiro Oscar brasileiro, que mal consegue levantar-se da poltrona!". Mal sabe Rubens que, caso João se levante agora, mais olhos verão a sua pródiga ereção do que viram o homem pisar na lua! Nove segundos. 0 coração de João está a 210 bps, e o fluxo sangüíneo só faz perpetuar seu estado de desesperação. Isso é o Oscar, meu amigo, não é uma festa de debutantes em Mogi das Cruzes! É o maior ritual global o circo do Império e, na situação em que se encontra João será comido pelo sarcasmo de mais de um bilhão de leões-telespectadores! E entrará para a mitologia contemporânea como "o cineasta que teve uma ereção no Oscar", e assim será comentado nas rodas globais: "Oh you mean: that brazilian director who had an erection during the Oscar ceremony? Yes, of course I remember! How could I forget?!" "Hombre, João Arlindo es el tío aquel de la erección, verdad?" "Hein kraft nich däs ereckcionaz, nun?", e durante algumas semanas seu nome será mais digitado na Internet do que o de Britney Spears, do Michael Jackson e da Madonna juntos. João sabe muito bem disso. Onze segundos. Woopy Goldberg vai de novo ao microfone: "João, are you there?!". Como conseqüência 1 bilhão, 234 milhões, 187 mil e 27 pessoas riem, pois sentem compartilhar a estranheza diante daquele premiado que não se levanta. Essas 27 são os amigos lá no bar do Pedrão, que ainda se abraçam e agora pulam ao som de “Aquarela do Brasil”, oportunamente colocada pelo próprio Pedrão (versão do Canal 100, por Valdir Calmon e sua orquestra). Tia Conceição, por entre um soluço e outro, observa preocupada a demora do Joãozinho em sair da poltrona. Rubens Ewald Filho comenta: "Gente, será que tá acontecendo alguma coisa com nosso querido João Arlindo?". Antes que Rubens Ewald acabe seu comentário, no entanto, o cineasta brasileiro já sumiu do enquadramento da câmera que até então o mostrava: entre o segundo 12 e o 13 João Arlindo se atirou da poltrona e estatelou-se no chão do corredor. Agora, sobre o tapete vermelho ele se contrai, esperneia e baba, da forma que sempre ouviu dizer que fazem os epilépticos. Diante do silêncio de um quarto da humanidade, da Woopy Goldberg, do Rubens Ewald Filho e da tia Conceição, o primeiro cineasta brasileiro a receber um Oscar é retirado de maca. E, a despeito da insistência do pessoal da emergência em esticá-lo, ele consegue colocar-se de ladinho, e é assim, em posição quase fetal, que some pelas coxias do enorme teatro, sem deixar notar a ereção. Tia Conceição não agüenta de desespero e morre do coração. O pessoal do bar do Pedrão, perplexo, continua abraçado e olhando o telão. Será só no segundo 124 que esboçarão um movimento, quando o celular do Serginho, ligado no sistema vibratório, tremer no bolso de sua calça. Do outro lado da linha, uma voz muito conhecida dirá: "Caralho, Serginho, cês não vão acreditar no que me aconteceu!".

31. ANTÔNIO PRATA. RECEITA. Fazer um texto não é difícil. Como tudo na vida, basta que sigamos um método. Depois de muitos estudos sobre o assunto, tendo consultado desde os mais ancestrais pergaminhos ciganos da Checoslováquia até as últimas pesquisas científicas norte-americanas, juntei conhecimento suficiente para produzir um pequeno tratado sobre o tema. Se o publico aqui não é por vaidade ou capricho, mas porque acho que todo conhecimento deve ser compartido. Dessa forma, tenho esperança, chegará o dia em que todo o saber humano poderá ser reunido e centralizado em um único programa de computador, ou software — que é o termo correto — e vendido a preços módicos nas bancas de jornal, postos de gasolina ou virão grátis nas compras acima de 50 reais nos supermercados Mambo. Aí vai, portanto, a minha modesta contribuição. Como escrever um texto. Assim como para fazer uma sopa é preciso, antes de mais nada, escolher os ingredientes, para escrever um texto é necessário, primeiramente, selecionar as palavras que vamos usar. Se para os ingredientes da sopa vamos ao mercado, para encontrarmos as palavras recorremos ao dicionário. Algumas considerações desnecessárias (porém interessantes). O dicionário é superior ao mercado em muitos aspectos. Em primeiro lugar, porque no dicionário o preço das palavras não cresce a cada dia — como ocorre com os legumes no mercado —, posto que todas são de graça. Ademais, os dicionários podem ser guardados na estante da sala, o que seria impossível de se fazer com um mercado — não por sua forma, muitas vezes retangular como os dicionários, mas devido ao tamanho (mais provável seria guardar a estante da sala no mercado, mas isso seria inútil tendo em vista que nosso objetivo não é dar cabo da estante e sim escrever um texto). Há uma diferença básica entre os mercados e os dicionários: se nos primeiros os produtos entram novos e saem assim que fiquem velhos, no segundo não se encontra um só artigo novo, pois ser velho é condição sine qua non para estarem ali. Apesar das considerações anteriores, é impossível provar logicamente a superioridade de um mercado sobre um dicionário ou vice-versa. Prova disso é que podemos tanto encontrar dicionário em um bom mercado, como mercado em um bom dicionário. Assim sendo, deixemos de lado essas comparações inúteis e voltemos ao tema em questão: como escrever um texto. Agora sim, como escrever um texto, parte I: Ritmo. Tanto os pergaminhos ciganos da Checoslováquia como os cientistas norte-americanos estão de acordo em um ponto: um texto deve ter ritmo. Por isso, uma vez aberto o mercado, perdão, o dicionário, é importante ter em mente que um bom escrito leva um número equivalente de palavras pequenas, médias e grandes. Um método infalível na hora de separar as palavras é, sempre que escolhermos uma curta, como chá, lua ou oi, buscarmos imediatamente uma comprida, como halterofilismo, mononucleose ou antropomorficamente. Assim que você sentir que já tem em mãos um bom número de palavras curtas e longas — isso depende do tamanho do texto que quiser escrever —, parta para a busca de um número igual de palavras médias, tais como sudorese, abobado ou alicate. Aconselha-se anotar essas palavras num papel, com lápis ou caneta, ou datilografá-las num computador ou máquina de escrever, de acordo com as condições infra-estruturais de cada um. (O texto final, no entanto, poderá ser escrito de muitas outras maneiras, como com sangue nas paredes, com canivete num tronco de árvore ou com um arco de violoncelo nas areias de Jericoacoara, dependendo não só das condições infra-estruturais como do efeito desejado. Isso fica a cargo do autor.) Parte II: Etiqueta ou bom senso. Se para uma sopa de batatas precisamos de muitas batatas e para uma sopa de beterraba muitas beterrabas, para um texto triste precisamos de palavras tristes, para um texto audacioso de palavras audaciosas e para um texto semi-erótico de palavras semi-eróticas. Se o autor tem em vista um texto fúnebre, por exemplo, não cairão bem as palavras lantejoula ou meretrizes, assim como num convite de casamento dificilmente se poderá usar a palavra excremento (apesar de, todo o apelo que a rima possa ter). É sempre bom observar essa pequena, porém importante, formalidade da escrita. Parte III: Pontuação. Nesta altura o futuro autor já tem consigo um bom número de palavras, harmoniosamente divididas entre curtas, médias e longas, anotadas em alguma superfície de celulose ou cristal líquido. Chegou a hora de condimentar essas palavras. Os pontos são no texto o que os temperos são para a sopa, e é importante saber usá-los. Para cada cinco palavras, em média, o autor deverá ter uma vírgula. Para cada dez, um ponto. Para cada 15, uma interrogação e/ou uma exclamação. Algumas dicas: para um texto mais picante, acrescente muitas exclamações. Nunca use muitas interrogações se o texto se destina a um grande público. Por último, evite as crases, os tremas e o ponto-e-vírgula, pois são de sabor muito forte e devem ser usados com parcimônia, assim como o gengibre ou o curry na culinária. Parte IV: Prosa e poesia. Tendo os ingredientes e os temperos todos à frente, é chegado um momento muito importante, a hora de se decidir que tipo de texto se quer escrever. Há somente dois, prosa e poesia. É muito fácil diferenciar um do outro: os de poesia são fininhos e as frases se colocam umas sob as outras, formando pequenos blocos. Ao final de cada um desses tijolinhos, pula-se uma linha e começa-se um novo. Os textos de prosa são mais consistentes, e as linhas ocupam toda a extensão da página, desde a margem esquerda até a direita. Se o autor é preguiçoso ou está terrivelmente atrasado para algum compromisso, convém fazer uma poesia. Nesse caso, vale a pena seguir alguns passos. 1 — Volte ao dicionário e busque algumas interjeições como Oh! e Ah!. Não economize também nas reticências, exclamações e interrogações. São pequenos detalhes, mas muito úteis. Mesmo a mais simples das frases, se antecipada por uma dessas palavrinhas e seguida por esses pontos, ganhará um novo alento, uma vaguidão que facilmente será confundida com profundidade, como você pode comprovar no exemplo a seguir: Antes: Havia casas azuis. Depois: Oh! Havia casas... Azuis?! Caso o futuro autor disponha de mais tempo e motivação, e deseje escrever um texto em prosa, não encontrará grandes dificuldades. Basta pegar todas as palavras previamente selecionadas e dispô-las sobre a página. Não é preciso lavá-las nem deixá-las de molho. Tente sempre mesclar as pequenas, médias e grandes. Lembre-se de que os pontos, as exclamações e interrogações vão sempre ao final das frases, e os acentos em cima das palavras. A cada seis ou sete linhas, termine uma frase no meio da folha e comece outra embaixo, depois de um espaço. Isso se chama parágrafo. Os antigos pergaminhos da Checoslováquia demonstram alguma preocupação quanto à importância do sentido e da clareza em um texto. As últimas pesquisas norte-americanas, no entanto, provam que essas questões são absolutamente irrelevantes. Uma rápida visita a uma biblioteca demonstrará que há textos dos mais absurdos impressos por aí, e que nem a clareza nem o sentido são as características que fazem deles clássicos ou novelinhas baratas, exemplares da Academia Brasileira de Letras ou calço para mesas. Por último, cabe destacar que um texto, ao contrário de uma sopa, não alimenta, não esquenta, nem pode ser servido com conchas. Assim como até hoje não tive notícias de nenhuma ONG ou instituição beneficente que saia pelas madrugadas frias distribuindo textos e cobertores para mendigos (embora não seja uma má idéia). Não podemos deixar de mencionar que um texto resulta mais prático que uma sopa, pois pode ser guardado na estante da sala e não precisa ser resfriado nem muito menos congelado. Apesar das considerações anteriores, é impossível provar a superioridade de um texto sobre uma sopa ou vice-versa. Mesmo porque, é possível encontrar tanto letras em boas sopas, quanto sopas nas boas letras. Assim sendo, vamos ficando por aqui. Afinal, os textos e as sopas, os mercados e os dicionários, as palavras grandes, os ingredientes, eu, você, os cientistas norte-americanos e os pergaminhos da Checoslováquia nos assemelhamos numa única coisa: todos, em algum momento, chegamos ao fim.

32. ANTÔNIO PRATA. PRA LUA. Não foi assim logo de cara. Claro, seu Julião e dona Neuza já tinham reparado numa coincidenciazinha aqui, uma sorte acolá, mas só foram perceber que Julinho tinha mesmo um dom especial no verão de 1984, em Caraguatatuba, assim que o moleque acabou de chupar o quinto picolé, de manga. Quinze minutos antes, ao acabar o primeiro sorvete, um Fura-bolo, Julinho pulou de alegria: o palito viera premiado, dando direito a mais um. Até aí, nada de mais... Acontece que o segundo sorvete (um Esquimó) também dava direito a outro, assim como o terceiro (de coco), o quarto (tangerina) e provavelmente todos os que chupasse se, no quinto picolé — a barriga do garoto já estava parecendo uma tela do Pollock, tantas as gotas de diversas cores que escorriam em direção à sunga verde-limão—, o sorveteiro não tivesse dado com a tampa de isopor em sua cabeça e saído soltando os palavrões mais cabeludos, cujos significados Julinho só viria a descobrir muitos anos mais tarde, na perua do colégio, numa tarde de maio — o que não vem, absolutamente, ao caso. O que nos interessa é que nessas férias Julinho ganhou três quilos e o respeito de toda a criançada de Caraguá, com quem trocava os palitos premiados por pipas, baldinhos de areia, favores e até uma bicicleta com buzina, cestinha e farol. (A bicicleta, infelizmente, teve que ser devolvida assim que uma mãe apareceu no guarda-sol da família, trazendo um filho choroso numa mão, 45 palitos premiados na outra e exigiu a anulação da troca.) Apesar de já saberem que ali tinha coisa, foi só quando Julinho estava na quinta série, na época que surgiram as Raspadinhas, que seus pais realmente se deram conta do potencial econômico de seu dom. Enquanto a maioria dos mortais gastava tubos do dinheiro naqueles cartões lotéricos e, na melhor das hipóteses, ganhava 50 centavos — gastos em mais uma Raspadinha que, claro, não dava em nada —, Julinho sempre tirava a sorte grande: era só raspar a camada prateada e sair pro abraço. Em alguns meses, a família comprou uma cobertura, casa na praia, carro importado e jet ski. Não fosse o processo promovido pela Associação Brasileira dos Donos de Casas Lotéricas — que deu queixa na polícia dos prejuízos causados pelo gordinho que aparecia sempre chupando um picolé, comprava uma Raspadinha e limpava os caixas dos estabelecimentos — e a família, em pouco tempo, entraria nas listas das mais ricas do Brasil. Em entrevista ao vivo no programa do Gugu, logo após serem absolvidos no processo — com o acordo de que Julinho jamais jogasse em qualquer tipo de loteria federal —, seu Julião, o pai, disse que não tinha truque nenhum: "O garoto é assim, desde pequeno: rabudo. Pede par, sai quatro, ímpar, dá cinco e, no amigo secreto do Natal, sempre é tirado pelo tio Leôncio, meu cunhado, que dá os melhores presentes." Dona Neuza, a mãe, acrescentou orgulhosa: "Hum-hum..," Desde o lance das Raspadinhas, seu Julião e dona Neuza já não trabalhavam: como os pais de um craque ou de um desses cantores mirins, dedicavam-se exclusivamente a desenvolver o talento do filho. Passavam o dia colocando tampas de margarina e embalagens de chocolate em envelopes e respondendo a perguntas tipo “qual é o sabão que deixa limpão"; "a bateria que nunca arria"; "o refrigerante que faz splash" ou "o absorvente da executiva moderna". Toda manhã, antes de ir para a escola, Julinho punha as cartas no correio: eram casas, caiaques, home theatres, férias em estâncias hidrominerais, fins de semana em hotéis-fazenda, um ano de supermercado grátis e outros prêmios que não acabavam mais. Dona Neuza pôs botox, silicone, clareou os cabelos e entrou numas de Feng-Shui; seu Julião fez implante capilar, montou um bar espelhado na sala da cobertura e fazia churrasco todos os domingos; Julinho tinha um minibugue, fã-clube, todos os bonequinhos dos Comandos em Ação, Passaporte da Alegria vitalício no Playcenter e a Tilibra estava prestes a lançar uma linha de cadernos com sua foto na capa. Apesar de todo o sucesso, Julinho estava entediado. Não havia nada que quisesse que não conseguisse: quando jogava futebol, para qualquer lugar que chutasse, a bola entrava; todo dia tropeçava com carteiras cheias de dinheiro e, quando ficava doente e perdia uma prova na escola, o professor faltava. Era muito fácil. Além do quê, não agüentava mais chupar picolé. Sem uma dificuldade, por menor que fosse, um empecilhozinho qualquer, as coisas perdiam a graça. Andando de lá para cá com seu minibugue pelas ruas do condomínio, Julinho lamentava: "Se ao menos eu tivesse que preencher algum formulário, ou pagar uma mensalidade, ou fazer duzentas abdominais toda manhã, eu sentiria que estou tendo algum trabalho, mas assim, do nada, não tem graça!". Tudo o que ele queria, como sempre nesse tipo de história, era ser como as outras crianças. Mas como? Foi por acaso, caminhando pelo Centro de São Paulo, num dia desses em que o céu cinza parece apenas a metáfora que um escritor previsível criou para espelhar a nossa nublada configuração interna, que Julinho deu de cara com o lugar mais impressionante que seus olhos já haviam visto, um mercado onde se podiam encontrar ovos de dinossauros vietnamitas, videocassetes chineses, múmias maias, DVDs pornográficos da Hungria, parentes distantes, lança-mísseis russos e até amor verdadeiro — a galeria Pajé. E foi ali, entre um Rolex falsificado e um cachorrinho de pelúcia (que era ao mesmo tempo dicionário eletrônico, liquidificador e chapinha para cabelos), que Julinho encontrou a lâmpada árabe. Haddad, o vendedor, garantiu que a preciosidade era do século XIII e havia sido roubada pessoalmente do Museu de Bagdá, durante a invasão americana. Julinho, contando, como sempre, com a própria sorte, não vacilou. Assim que chegou em casa e começou a lustrar a lâmpada com a manga da camisa, o ambiente encheu-se de fumaça, ouviu-se uma explosão e, depois de uma chuva de purpurina e lantejoulas, lá estava ele, translúcido e obeso, pairando a um metro do chão: o gênio da lâmpada! — Ó amo querido, me libertaste da terrível prisão! Como recompensa, concedo-te três pedidos. Diz-me apenas quais são teus desejos e logo os satisfarei! Julinho nem pestanejou: — Primeiro eu queria ser como os outros, não ter tanta sorte: me dar bem às vezes, mal em outras, ter que me esforçar para conseguir o que quero. Segundo, já que a sorte me abandonará, quero apenas garantir uma regalia: que todas as mulheres que posam para a Playboy queiram fazer sexo comigo até o fim da vida. Terceiro, desde criança que penso nisso: por que chamam esse objeto dourado de lâmpada, se ele mais parece um bule? O gênio, com aquela cara séria e atenta que gênio faz nessas horas, respondeu: — Meu amo: teus desejos são uma ordem! Mais fumaça, mais chuva de purpurina e lantejoulas e, quando tudo se acalmou, no lugar que antes o gênio sobrevoava, havia um bilhete: “Caro amo, temo avisar-te que ocorreu uma falha na execução de teus desejos. Acontece uma vez a cada mil anos o que nós, gênios da lâmpada, chamamos de paradoxo retroativo. Teu primeiro desejo foi imediatamente aceito e teu azar, portanto, começou ali mesmo, fazendo com que os efeitos desse gênio não tenham efeito nenhum. Em outras palavras: tudo continuará como antes, tu continuarás sortudo. Se fizeres sexo com playmates ou descobrires por que esse bule é uma lâmpada será porque nasceste virado para a lua, não por conta de meus serviços. Agora, devo ir-me, haverá uma convenção de gênios da lâmpada no Rotary Club de Ribeirão Preto e não posso perdê-la por nada. Adeus e obrigado." Julinho, desesperado, resolveu jogar a toalha. E a toalha, no caso, era ele mesmo: olhou seu quarto pela última vez, derramou uma lágrima de despedida e saltou pela janela da cobertura. Enquanto caía, pensava no infortúnio de não ter nenhum infortúnio, na desgraça da graça a ele concedida e, sabe-se lá por quê, num short amarelo de que gostava muito quando era pequeno. Vinte e cinco andares e sete segundos depois, para surpresa dos pedestres, lá estava ele, vivo e consciente, estatelado sobre uma Kombi azul. Naquele momento, ainda zonzo por causa da queda e surdo com o esporro do japonês, que reclamava dos estragos causados ao veículo e perguntava como era que ele ia fazer agora para trazer o shimeji de Cotia todo dia, Julinho compreendeu sua sina: era imortal, sortudo demais para morrer. Uns dizem que foi o tombo, outros comentam que a coisa já vinha de longe, que ele sempre teve um parafuso a menos, mas o fato é que todo dia, desde o salto, Julinho tenta, inutilmente, tirar a própria vida. Depois de beber cianeto (estava vencido), cortar os pulsos (a faca quebrou), enforcar-se (a árvore tombou) e tentar todos os outros métodos conhecidos e desconhecidos de suicídio — chegou até a alimentar-se por uma semana só de detergente de maçã —, Julinho perdeu de vez o juízo. Vaga doido pelo mundo, magro, descalço e barbudo. De vez em quando, engole espadas, caminha sobre brasas, deixa jamantas passarem por cima de seu corpo e faz cooper em campos minados de Angola, sempre em vão. Para piorar, uma multidão de fiéis o segue aonde vá, acreditando ser a volta de Jesus à Terra. Alguns rabinos discutem se é ou não o messias, as playmates não lhe dão sossego e produtores de televisão ligam todo dia, insistindo em fazer um documentário para o Discovery Channel. Agora, por exemplo, Julinho está em Foz do Iguaçu, chorando arrependido da remota manhã em que foi pedir aquele maldito Fura-bolo em Caraguatatuba. Em instantes se atirará do alto da mais alta das cataratas — de onde será resgatado, alguns minutos depois, vivo e limpinho, pelos bravos homens do Corpo de Bombeiros do Brasil.

33. ANTÔNIO TORRES. POR UM PÉ DE FEIJÃO. Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (á nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida. Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar. Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar? E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta. No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão. Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe. E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que antes havia arrancado os pés de feijão: - Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido? E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca. À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado. Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando. - Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos. E disse mais: - Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo. Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.

34. ARMANDO NOGUEIRA. PELADA DE SUBÚRBIO. Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos. A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória. Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro. Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara. A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola. No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.

35. ARMANDO NOGUEIRA. PELADAS. Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto. E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: "eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe." Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha. Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa. Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula. Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho. Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: "Copa Rio-Oficial", "FIFA - Especial." Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati. No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha. Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura. Nova saída. Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas. O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar. Em cada gomo o coração de uma criança.

36. ARMANDO NOGUEIRA. MÉXICO 70. E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus. Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro. E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva. O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria. Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros. Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74. Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes. Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol. Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo. Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara. Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância. A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho. Até que os deuses do futebol inventem outra.

37. ARNALDO JABOR. SINAIS DOS TEMPOS. Tem uma pedra no meio do caminho... Essa pedrinha na praia de Marrocos é o pretexto para a explosão, conflitos antigos... Já existe tensão em Ceuta, uma cidade de 70 mil habitantes na costa de Marrocos, há uma briguinha em torno de Melila, também na costa. Essa guerra da pedrinha é a caricatura perfeita desse falso mundo global, onde árabes e judeus lutam por pedaços de deserto, onde Índia e Paquistão vivem rosnando, depois do Kuwait, Bósnia etc. Será que a Espanha está com medo de outra invasão dos mouros? Será que é influência do atual preconceito contra árabes na síndrome internacional de Bush? Ou será que o desejo de guerra é anterior aos motivos? Eu acho que a causa só se explica pela frase de Nélson Rodrigues: “só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana, e mesmo assim tenho minhas dúvidas sobre o Universo.”

38. ARNALDO JABOR. OCIDENTE "ORIENTAL". O Ocidente inventou a "solução". O Oriente inventou o Maktub, "tinha de ser assim". O Ocidente quer "resolver” as coisas. O Oriente acha que a vingança é um prato que se come frio. O Ocidente quer o “progresso”. O Oriente não sabe o que é isso. O Ocidente fala em “liberdade”, em indivíduo. O Oriente são formigueiros pobres com um só rosto. Para o Ocidente, a morte é a pior coisa. Para o Oriente, a morte é quase igual à vida. Ou seja, nosso primeiro passo tem de ser a desesperança. Só com muito dinheiro jorrando lá, com muita diplomacia, talvez se possa minorar o terror. Mas, pela lógica da doutrina Bush, teríamos de atacar também a Indonésia, a Síria, a Líbia, o Irã, de modo a raspar do mapa 3 bilhões de islâmicos. A solução só começará se acabarmos com a idéia de solução. O Ocidente terá de ser mais Oriente e conviver pacientemente com essa tragédia do século XXI.

39. ARNALDO JABOR. BOLA DE CRISTAL. Em geral, a bola de cristal é para ver o futuro. Mas nestas questões do adultério entre a coisa pública e privada, Sudam, Sudene, briga de ACM e Barbalho o desejo dos envolvidos é apagar o passado. As frases de defesa são sempre as mesmas: meu passado ilibado... eu nunca... jamais fiz... é como se não tivesse havido passado. Ninguém estava lá... eu não era eu... Desde as capitanias hereditárias, desde o império, dinheiro público e empresário privado deu em assalto ao povo e ao país. Agora, ver o futuro é muito difícil. Mesmo com bola de cristal, quem poderia prever que Jáder Barbalho, aquele humilde vereador de esquerda, seria tão poderoso e rico no futuro? Quem poderia prever que ele seria presidente do Senado? Quem poderia prever que no século XXI o Brasil estaria paralisado por antigas questões como essa? Nosso presente tem sido um passado que não acaba nunca.

40. ARNALDO JABOR. MAIS REALISTA QUE O REI. Há muitos anos, os brasileiros revoltados com a política já elegeram um rinoceronte votadíssimo chamado "Cacareco". Só que o Cacareco não arrastou consigo hienas, macacos ou tamanduás para o poder. Mas o Enéas, aquele homem que parece estar de cabeça pra baixo, trouxe consigo vários bichos que não foram votados nem por suas mães. E pior... Dos novos deputados, só 33 foram eleitos cara a cara. O resto, foi por legenda ou carona. E não se consegue reformar a lei eleitoral, porque ninguém quer fidelidade partidária, nem poucos partidos, nem voto distrital. A maioria prefere o atraso, porque facilita a malandragem. E o absurdo é que talvez... Talvez se consiga cassar os dois Cacarecos apenas por causa de um detalhe... De residência. Contra a má fé eleitoral não se pode nada, pois as anomalias políticas estão bem protegidas pela Constituição de 1988, que por medo de uma nova ditadura, criou uma democracia engessada e sem defesas.

41. ARNALDO JABOR. QUEM EXPLICA? A verdade é simples. A mentira é enfeitada. Assistimos a repetição óbvia da verdade de dona Regina e os rebolados verbais de Arruda e ACM para encobri-la... Na versão dos senadores, dona Regina seria uma louca, que sem ordens, sem pedido, só por consulta reuniu uma equipe e passou a madrugada violando o painel para dar de presente a... ninguém... orque nem ACM, nem Arruda teriam pedido nada... Dá uma sensação de absurdo, ver o Brasil paralisado diante deste circo. A pergunta que eu gostaria de fazer é: por quê? Um senador, ou deputado rouba na Sudam, tudo bem, entende-se... Mas painel? Por quê? Foi rivalidade política de Arruda contra Luís Estevão? Ou foi ACM querendo controlar a mente dos senadores? Foi “puxa saquismo” de Arruda? Ou foi pura delinqüência? Terá sido o desejo de ACM de se autodestruir? Será que foi o prazer perverso de sabotar a democracia? Por que fizeram isso? Como disse o jornalista Carlito Maia: “Freud explica? Não. Fraude explica.”

42. ARNALDO JABOR. MISÉRIA E RANCOR. O que mais choca nessa guerra suja é a eficiência dos traficantes, comparada com o desencontro dos agentes da lei, que ficam batendo cabeça uns nos outros. A anormalidade nisso tudo não está apenas do lado do crime. Eles são fruto de décadas de miséria e rancor. A anormalidade está também nos órgãos que não conseguem nem bloquear celulares. Os incapazes somos nós, aprisionados em burocracias, em tradições corruptas, em velhas táticas. A sociedade não fez nada quando as favelas e periferias eram pequenas. A miséria era dócil, podia ser ignorada. Agora, o combate ao crime passa primeiro pelo reconhecimento de nosso fracasso. Precisamos de novas formas de luta. O crime deixou de ser apenas um caso de polícia. A experiência prática das polícias tem de ser unida ao poderio estratégico das Forças Armadas. O crime no Brasil virou um problema de estado maior.

43. ARNALDO JABOR. NÃO BASTA INDIGNAÇÃO. Estamos indignados. Mas o perigo da indignação é que ela nos purifique e nos alivie. Que nos faça esquecer que a tragédia tem dois lados. Nossa tragédia é a incapacidade total que temos demonstrado para combater o crime. O inimigo não é só o tráfico. O inimigo é também a desorganização, a falta de verbas, de armas, a falta de vontade política e de imaginação para lutar essa guerra suja, porque é uma guerra. O crime no Rio e em São Paulo não se combate com batidas policiais, espasmos que cessam quando passa a crise do momento. Assim nunca ganharemos. O crime tem as verbas do pó, das armas, o crime é rápido - tem a vantagem de não ter burocracia. Não adianta só subir morro. A solução começa pela vigilância das fronteiras, passa por uma imensa estratégia policial. E militar. O tamanho do problema exige uma imensa solução. Precisamos de um estado maior contra o crime. Que assuma que uma guerra já foi declarada.

44. ARNALDO JABOR. A MÃO INVISÍVEL DO MERCADO. Como explicar esta onda de erros que desmoralizam os Estados Unidos, desde que Bush assumiu? Esse senhor já foi eleito naquela esquisita contagem de votos... Parecia que a América era um curral eleitoral subdesenvolvido. Aí, o homem entrou e só aprontou roubadas!? Conseguiu unir o mundo árabe todo contra a América. Foi contra o protocolo de Kyoto, na base do dane-se a poluição mundial. Fechou as fronteiras a produtos emergentes, na base do dane-se a América Latina. Agora, nem a economia americana, dona do mundo, escapa? Ditaram-nos regras de rigor contábil, equilíbrio fiscal, e agora vêm com esses escândalos? A explicação talvez seja a seguinte: a mesma sensação de onipotência que faz o Bush ignorar o mundo e errar tanto na política faz as grandes corporações instituírem a corrupção descarada. É a doença dos grandes impérios, que caem por se sentirem inatingíveis. A queda de Roma começou assim... Estamos em pânico: a tal mão invisível do mercado deu para bater carteiras assim... (O comentarista faz o típico gesto usado para roubos.)

45. ARNALDO JABOR. PASSOS PARA TRÁS. Já tivemos a queda do muro de Berlim, quando acabou o comunismo. Ahhh... bons tempos, ingênuos, viva a democracia! Mas logo descobrimos que havia outras guerras frias escondidas. O muro é a cara dos impasses insolúveis de hoje. É a cara do Bush e sua arrogância imperial, é a cara da política de direita de Sharon. Ai que saudades das portas abertas de Rabin e de Barak. Eles nos ensinaram que só os países poderosos como Israel podem acabar com conflitos, por benevolência e até por superioridade cultural, mas a estupidez da política interna não deixa. Por isso, pensando bem, temos de ser "modernos". Boa idéia, os muros, já temos. A muralha da China, há 3 mil anos, contra os mongóis. Poderia haver muro entre a Índia e Paquistão, entre o Irã e o Iraque. Pode ter um entre México e USA para não entrar chicano imigrante. Até aqui podiam pintar muros em volta das favelas, contra o tráfico. Quem está fora não entra e quem tá dentro não sai. É, o século 21 está andando para trás...

46. ARNALDO JABOR. FANATISMO NÃO SE COMBATE COM FANATISMO. A “América” é uma invenção do cinema. A moda, o amor eterno, o happy end... São invenções de Hollywood para exportar cultura e poder para o mundo todo. Até que, no 11 de setembro, o filme catástrofe inspirou Bin Laden, mudando o Ocidente com um final trágico. Pensamos que a “América” ferida ficaria mais humilde. Ao contrário, o filme de guerra e vingança de Bush é o grande sucesso há mais de um ano. Mas já surgem outras produções. A “América” inteligente, humanista, está acordando. O mal de Saddam e o sinistro bem de Bush vão criar uma nova era crítica, como nos anos 60. Os americanos vão descobrir que fanatismo não se combate com fanatismo. Só a tolerância dissolve a loucura. O faroeste de Bush, com o mal de um lado e o bem de outro, será um fracasso de bilheteria. As marchas vão crescer nas universidades e ruas da “América”, e o mundo poderá ter um happy end, se a direita fanática de lá ou de cá não continuar a fazer novos filmes de terror.

47. ARNALDO JABOR. CONSEQÜÊNCIAS E CAUSAS. Existem conseqüências e existem causas. Esses dados do IBGE mostram dados sobre nossa miséria que não servem para absolutamente nada. Apenas ficamos deprimidos por ouvirmos o que já sabíamos. A grande pesquisa que o IBGE ou a ONU deviam fazer seria outra. Por exemplo: quantos milhões de dólares são sonegados no Brasil por bancos e empresas que não pagam Imposto de Renda? Quem são eles? Por que não se consegue prender esses homens? Como planejar um país com oligarquias regionais que impedem qualquer planejamento central? Por que não se conseguiu fazer a reforma da Previdência que nos tasca 60 bilhões por ano? Quanto foi roubado do povo em obras superfaturadas nos últimos cinco anos? Quantos bilhões são tirados do tesouro pela indústria de liminares? E por aí vai... A gente precisa é de estatísticas sobre as elites, as oligarquias, sobre a riqueza. Dos que amam o atraso porque ele dá lucro. Essa é a pesquisa que precisamos conhecer. Não adianta nos chocarmos com a pobreza sem conhecer e atacar os mecanismos que a produzem.

48. ARNALDO JABOR. VERDADEIRA GUERRA FRIA. A América tem três métodos de negociar: dividir para mandar, fato consumado e bode na sala. Esse acordo com o Chile busca dividir os latinos em relação a qualquer política de bloco, como o Mercosul. O segundo ponto é o fato consumado. Conseguem o interesse principal e depois se "revêem os pontos mais polêmicos", como reza o acordo com o Chile. É o fato consumado. E tem o bode na sala. Criam-se exigências terríveis e depois cedem um pouco. Se você põe um bode na sala berrando e cheirando mal, quando você tira, os bobos têm um alivio: ah, tudo melhorou, e aceitam as regras. Por trás de tudo isso, a América só tem uma idéia fixa. Controlar a economia do hemisfério. O perigo da Alca não são tarifas assim ou assado, são as regras que impedem os estados de criar restrições aos capitais estrangeiros. Não há na mente americana a idéia de toma lá dá cá. Só existe "império". E nós? Eles são tão fortes, que se jogarmos duro, quebramos a cara, se aceitarmos tudo... Quebramos a cara também. Como diria Lenine, o que fazer, Lula?

49. ARNALDO JABOR. VEM AÍ UMA NOVA REFORMA CULTURAL. O Bush dá à América um novo objetivo. Revoltas estavam fora de moda... Nos anos 90, achávamos que o mundo ia dar certo e que protesto era coisa de maluco ou comunista. Mas, graças a Bush e sua direita, a face real do reacionarismo bélico, a pior face da América está aparecendo. Para Bush, a globalização é apenas a imposição dos valores republicanos ao mundo. Mas, graças a ele, as marchas já começaram. A jovem América, que aperfeiçoa a democracia, despertou, e já marcha, e canta... E não só contra a guerra, mas pela ecologia, pelo respeito a outras culturas. Vai surgir na América uma nova reforma cultural, sem a ingenuidade hippie e utópica do ‘paz e amor’. Agora, a luta será pela democracia real, pois já sabemos que o mal e o bem do mundo passam pela economia. Ninguém agüenta mais esse mercado sangrento. E isso vai mudar nossas vidas. Pois, na verdade, só a poderosa América muda a Humanidade. Quem diria? Bush vai causar um progresso cultural sem querer, com a contribuição de seus erros absurdos.

50. ARNALDO JABOR. O PREÇO DO PODER. Você sabe o que é um pato manco? É o nome que os americanos dão a um presidente que acabou o mandato mas ainda não saiu do cargo. Ninguém liga mais pra ele. E ele fica por ali, mancando... Quééémmm... Quéeém... O país esteve esse ano todo sob suspense, e, agora, está sem chefia clara. Apesar da transição democrática comandada por FHC, que não quer ser só um pato manco. Mas um pato cooperativo... Vemos que sobra um perigoso vazio para picaretas e sabotadores. Parlamentares já querem aumento. A nova oposição até do neo-PFL prepara vingancinhas contra Lula, como no salário mínimo, o governo também aproveita para medidas chatas como o aumento de gasolina. E mesmo boas notícias não se explicam. Por que os meninos de Wall Street baixaram o risco-Brasil? Porque quiseram. O Lula descobre que os poderes sobre o país são muitos. Dentro e fora, de fisiológicos a especuladores. Estamos vendo que entre o pato manco e o sapo barbudo há muito poder oculto. Governar no Brasil é pular armadilhas e evitar cascas de banana.

51. ARNALDO JABOR. DIFÍCIL, MAS POSSÍVEL. Política e poesia. Razão e emoção. No dia do centenário do poeta Carlos Drummond de Andrade, Arnaldo Jabor tenta mostrar que essa equação de opostos ainda é possível. Drummond era o poeta da desesperança, mas hoje não há só a fome de comida no Brasil. Há uma fome de esperança também. O Brasil está faminto de emoção. FHC traçou um mapa racional, lógico, que tem de ser percorrido. FHC foi talvez a razão. Lula começa como coração, essa onda de fé talvez possa acionar uma grande vontade política e conseguir reformas, que apenas a lógica e a técnica não conseguiram. Talvez entremos num período novo, em que as duas épocas se fortifiquem. Lógica e amor. Pois, como dizia Drummond: que pode uma criatura senão entre criaturas amar? Amar e esquecer, amar e mal-amar, amar, desamar, amar? Esse é o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, a doação ilimitada a uma completa ingratidão. E na concha vazia do amor, a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.

52. ARNALDO JABOR. A SERVIÇO DE OSAMA. A grande guerra que está sendo travada hoje é entre um mundo em que muitos países opinem ou um mundo em que só o mais forte manda. Bush quer provar que destrói Saddam, o que o pai não conseguiu. Mas não é só isso. Bush também quer afirmar seu poderio contra um multilateralismo que ele não entende. Bush obedece à máquina de guerra da indústria que o elegeu. São 500 bilhões de gastos militares. As armas precisam de uma guerra. As bombas desejam explodir. Bush está frustrado com esse gesto de Saddam. Pois a guerra é sua salvação na política americana. Sua mediocridade só pode ser oculta sob a capa de um cowboy vingador. O Osama deu a ele em 11 de novembro o pretexto de ser uma vítima. Com essa desculpa, ele tem executado sua política irracional. Bush quer desmoralizar a ONU, a Europa e afirmar que esse papo de democracia internacional acabou. Ou seja, Bush esta fazendo tudo que o Osama mandou: vai botar o mundo contra a América e pode destruir o Ocidente. Bush é o mais obediente homem-bomba de Osama.

53. ARNALDO JABOR. TEM DE PARAR TUDO. Você sabia que no Rio já morreu mais gente na guerra do tráfico do que na guerra Israel-Palestina? Pois é, comentar o quê, se o poder público não consegue nem bloquear celular na prisão? Basta botar aquelas telas de arame de galinheiro em volta, sabiam? Comentar o quê, se não conseguem nem prender um preso dentro da prisão? O Fernando Beira-Mar está preso, comando chacinas de dentro da Bangu I. Por que não seguram ele? Porque ele tem milhões de dólares? Comentar o quê? E ainda não é Colômbia não. Comentar o quê? Todo mundo sabe o que fazer, polícia, Justiça, governo... Não fazem por quê? Por que a burocracia impede ações emergenciais, o por que não querem? Por que ainda não calaram Fernandinho, nem que seja no celular? Por que ninguém quer matar a galinha dos ovos de ouro? Tem de parar tudo. Governar, hoje no Brasil, é reformar a polícia, só isso. O resto pode esperar. Comentar o quê? O nosso 11 de setembro é esse – só que nossas torres de comando já caíram há muito tempo.

54. ARNALDO JABOR. PINGUE-PONGUE DE SANGUE. O maior feito de Osama foi que ele deflagrou uma onda de loucura no mundo. Ele deu uma idéia simples aos loucos e ressentidos do Oriente e da miséria: a morte como um cachorro louco e invisível em todas as esquinas. A morte vinda de lugar nenhum. E o que mais exaspera o Bush e todos nos é a perda do controle sobre a vida social. O Ocidente sempre achou que podia prever, organizar a sociedade. Agora isso é impossível. Há dois bilhões de homens no Islã, e a grande maioria nos odeia, mesmo os pacíficos consideram os terroristas heróis. Como controlar isso? E a onda de violência contamina a todos, do maluco de Washington, aos traficantes do Rio e São Paulo, que dizem assim: boa idéia! Virou... Moda. E vamos nos acostumando aos corpos despedaçados nas discotecas e em Gaza. E nossas vinganças também serão cada vez mais banais. Breve haverá grandes massacres aqui e lá. Podemos organizar sistemas de vigilância. Mas a idéia de solução... Já era. Solução não há mais. Só o problema. Teremos de conviver com esse pingue-pongue de sangue para sempre.

55. ARNALDO JABOR. A CHANCHADA CONTINUA. José Lewgoy era mais que um ator. Era uma personagem brasileira. Fazia parte do trio de ouro da chanchada. Grande Otelo era o neguinho safado, Oscarito, o branquelo malandro e Lewgoy o eterno vilão, milionário malvado, traficante, bandido de Faroeste, mágico de turbante, grego de camisola. Seu período de grande fama foi nos anos 50, quando o cinema brasileiro fazia o pastiche dos musicais e americanos, quando não tínhamos um cinema próprio e ficávamos na caricatura do cinema dos outros. Nesses atores havia uma cor brasileira profunda, de um tempo sem TV, com rádio e cinema, mas que marcou os fundamentos do moderno teatro e cinema no Brasil. Mas José Lewgoy era muito mais que um cômico. Ator de fina formação, foi de “Carnaval no Fogo” até Shakespeare, e ajudou a definir o moderno cinema brasileiro. Era um homem bom e só fazia papel de canalha. E se foi. Devemos chorar a morte deste bandido tão querido. Pois tantos outros de verdade ainda ficaram por aqui. Lewgoy foi para o céu, mas a chanchada continua...

56. ARNALDO JABOR. SAUDADES DE EVITA. Evita surge e morre justamente no início da decadência da riqueza da Argentina no início do século XX. Era uma riqueza sem base, passageira, que contaminou a consciência argentina com uma ilusão irrealizável. Sonhando com Evita, que pregava justiça pela caridade e assistencialismo, a Argentina passou os últimos 50 anos sem se preparar para uma democracia real, produtiva. De certo modo, Evita parece a própria América Latina. Ela é o mito substituindo a verdade política, ela é a esperança infundada num milagre, ela é o desejo de justiça secular sem os instrumentos para realizá-la, ela e Peron eram o substitutivo paternalista e populista de uma democracia que jamais vinga entre nós. Hoje, depois de uma vaga euforia democrática dos últimos anos, mergulhamos de novo no populismo e no milagre impossível. Hoje, como há 50 anos, estamos na mesma. Sem base. Sem cultura política. Sem dinheiro. Não temos de chorar mais por Evita. Temos de chorar pela permanência do seu mito. Santa Evita é a santa padroeira da tragédia latino-americana.

57. ARNALDO JABOR. PERNAS DE PAU EM ECONOMIA. Afinal de contas em quem acreditar nesta ciranda financeira? O Sr. John Taylor, sub-secretário do Tesouro americano, diz: não há motivo para se preocupar com a economia do Brasil. “As políticas fundamentais estão certas." Também o porta-voz do FMI, Thomas Dawson, diz: “o desempenho do Brasil tem sido bom.” Mas, aí, a senhora Lisa Schineller, da Standard & Poor, diz: “o Brasil é um perigo!" Por que? Essa senhora quer nossa caveira? Não. É que ela trabalha numa empresa para aconselhar as velhinhas do Kentucky e os aposentados que investem aqui. Claro que as agências sempre julgam pelo pior, para não errar e perder freguês. E como os USA estão na maior crise, com escândalos e calotes, eles falam para as velhinhas: "vende Brasil, para cobrir os prejuízos daqui". Nós pagamos o pato do vexame americano. E o pior é que os fracassomaníacos daqui também acreditam nos índices e apostam tudo contra o Brasil. Só se esquecem que o Brasil também são eles. É, gente, somos craques no futebol e pernas de pau em economia.

58. ARNALDO JABOR. ESTAMOS VIRANDO A FICÇÃO. Assistindo a essas reportagens... O que me espanta é que a gente se espante. Há uma normalidade profunda na vida desses traficantes e suas ligações com a policia. Por que nos espantamos? É tudo tão normal, tão previsível... É preciso que os poderes parem de considerar o tráfico apenas um caso de polícia. A tese é assim: o traficante é um homem que caiu em pecado, transgrediu a lei e tem de ser punido pelos homens de bem. Isso é apenas a metade da verdade. As velhas verdades não bastam mais. Novos conceitos têm de surgir para dar conta dos fatos novos. O mundo do tráfico, do crime nas periferias, já é um novo país, uma nação desgraçada onde o único comércio lucrativo é o pó. Esse país tem leis próprias, moral própria, associações entre pobres de farda e pobres no crime. A solução só poderá vir pelo reconhecimento desta nova pátria miserável. Ou pela legalização das drogas, ou então por uma guerra profunda, feita de armas, fronteiras vigiadas e mais importante: o saneamento da miséria. Porque a verdade é que esse novo país está virando a realidade. E nós estamos virando a ficção.

59. ARNALDO JABOR. AS COISAS QUEREM A GUERRA. Ninguém quer a guerra. Nem a ONU, nem a Europa, ninguém. Nem é o Bush que quer a guerra, são as coisas. É a indústria bélica, é a lógica dos canhões, das bombas inteligentes. Há uma máquina desejante nos USA querendo, melhor dizendo, precisando guerrear. O próprio Bush é filho dessa máquina que o elegeu, que o desejou, a máquina da indústria de armas, a máquina do tabaco, a maquina do aço. Essa máquina começa no antigo desejo de domínio que os americanos têm desde seu nascimento como país. O mercado como guerra. É a mesma máquina que deseja o lucro total, o domínio econômico. Hoje as coisas mandam mais que os homens. Bush obedece as coisas. Provavelmente atacará perto do 11 de setembro. Mas não apenas como resposta ao ataque do Osama. A máquina também precisa mostrar ao mundo todo seu poder imperial. A guerra não vai adiantar nada. Só vai unir o Oriente todo contra nós. O mundo entrou numa fase onde nenhuma palavra basta, nem razão, nada. Só a lógica das coisas. O desejo das coisas. E as coisas não falam, mas as coisas podem destruir o mundo.

60. ARNALDO JABOR. A VERDADE VAI TER DE APARECER MAIS. No primeiro turno, todo mundo era contra o governo, inclusive o Serra. É melhor ser contra, dá mais voto. Serra não podia bater muito no Lula para não deixar subir o Garotinho. Lula, absoluto, não bateu muito no FHC, para ter alianças futuras. Por isso, Serra foi governista light. Por isso, Lula foi oposição light. No segundo turno, a verdade vai ter de aparecer mais... Agora, vai haver polarização de novo. Lula vai ter de ser mau com o governo. Serra vai ter de defender o governo,. Mas... Se Lula ficar revolucionário demais, perde, se ficar light demais, perde, também se Serra ficar contra o governo perde voto. Se ficar muito a favor, perde também. Serra, que foi seco no primeiro turno, vai ter de sorrir e ser emocional. Lula, que foi emocional, vai ter de ser mais racional. O problema é que os dois pensam parecido. Os dois querem mudança. Os dois têm origem de esquerda. O Lula fundou o PT. O Serra fundou a AP - Ação Popular. Ambos querem política industrial, desenvolvimento, um novo nacionalismo. Os dois são parecidos... A diferença é na maneira de agir. A solução seria um mix dos dois. Razão e emoção para o bem da democracia.

61. ARNALDO JABOR. BUSH E SHARON ODEIAM A DEMOCRACIA. Já vejo em minha bola de cristal: o Iraque vai ser atacado, o Arafat assassinado, a Europa vai se rearmar e a China vai virar real perigo atômico. Osama deve estar rindo: Sharon e Bush fazem tudo o que ele quer. Vão destruir o ocidente por ele. A verdade é que tanto o Bush quanto Sharon querem acabar com a ONU. Acabar. Querem enterrar a ONU feito sapo de macumba. Por quê? Porque a ONU é a democracia internacional, é a igualdade das nações diante da razão. E tanto o Bush quanto o Sharon, que é uma espécie de genérico do Bush, odeiam democracia e razão. O que eles querem é um mundo impossível, sem árabes, sem diferenças, um mundo habitado por bilhões de bushes e sharons. Um mundo igual a eles - violentos e irracionais. Isso só vai mudar quando começarem a chegar os cadáveres dos jovens americanos, e esses loucos se saciarem de sangue e de erros. Um dia a opinião pública da própria América vai frear isso, como fez com o Vietnã, expulsando esse imperador louco. Ate lá, o lema dessa época será aquele do general fascista: “abaixo a inteligência, viva a morte!”

62. ARNALDO JABOR. EUA QUEREM SER DITADORES INTERNACIONAIS. Fica meio ridículo falar sobre o Iraque. Ninguém vai ouvir, nem o Sadam, nem o Bush vão ouvir, nem o Osama, que está no fundo da caverna. Só interessa saber o que essa guerra suja pode mudar em nossas vidas, com essa política de ação preventiva do caubói Kid Bush. Que é isso? É a política do valentão paranóico que diz assim: "vou dar uma porrada naquele cara ali antes que ele bata em mim." Bush pode decretar, por exemplo, que a Colômbia e o Brasil estão na rota do terror e do tráfico e transformar a América Latina num novo teatro de guerra. E como para eles guerra e mercado são quase a mesma coisa, os EUA podem um dia decidir que a Alca tem de sair do jeito que eles querem e que quem se opuser é terrorista. Ação preventiva é sentença sem julgamento, é ditadura internacional. Mas que país latino pode botar o dedo na cara do Bush e berrar: “como é que é? Vai encarar?” Nós estamos quebrados, sob o FMI, sem armas. É, mas mesmo assim vem aí um novo nacionalismo. Com esse conto do vigário da globalização, o Bush está nos obrigando a isso.

63. ARNALDO JABOR. COMENTARISTA FANTASMA. Boa noite. Eu sou comentarista político, mas ninguém me conhece, eu sou o comentarista fantasma, mudo de emissora quando quero, eu posso dizer qualquer coisa, pois ninguém me vê, eu posso fingir isenção, posso fazer picaretagens. E não posso nem ser despedido nem cassado, pois eu não tenho rosto... É assim que se comporta a maior parte dos deputados desse país, pois só 33 têm rosto. A maioria da Câmara não tem rosto. Bloqueia, exige, cria crises e não é responsável por nada. Tudo é sempre culpa do Executivo. Poucos foram eleitos cara a cara com o eleitor. Como cobrar alguma coisa de parlamentares que não foram eleitos? Nenhum tem fidelidade partidária, mudam de partido segundo as conveniências. A maioria não tem nem culpa, nem nada. Só interesses. Vai ser fogo o Lula governar com esses fantasmas. E sem as medidas provisórias, que os fantasmas destruíram, para paralisar a presidência. Deus... Será que um dia haverá uma reforma eleitoral no país? Só uma grande reforma política, com parlamentarismo, poderia evitar essa vergonha que nos paralisa. Não. Não permitiremos. Seremos eternamente os fantasmas contra a democracia...

64. ARNALDO JABOR. TUDO PELA SATISFAÇÃO. Há muitos anos saiu num jornal popular uma manchete famosa: “matou a mãe sem motivo justo”. E o que chocou nessa notícia é que parecia haver um motivo justo pra se matar a mãe... E nosso país ultimamente virou o carnaval dos psicopatas. Suzane mata os pais. Empregada espanca velhinha. E agora esse Gustavo mata a avó a facadas... Parece que os assassinos estão encontrando motivos pra matar parentes. Não há motivos, claro, mas há um estímulo no ar para esses crimes. A sociedade de consumo nos ordena satisfação o tempo todo. Coma, beba, vista, ame, transe. Só que é impossível realizar tantos desejos. E o consumo foi virando uma espécie de droga. Só muito doidão como o Gustavo pode se dar conta do desejo infinito. O excesso de ofertas nos deixa sempre insatisfeitos. E, pior, tudo que seja frustração a desejos tem de morrer. Some-se a isso o espetáculo banal da violência, e temos o tal "motivo justo". Quase um slogan: “mate quem impedir seu desejo”. É... Um amigo meu falou que só dorme de porta trancada: "sei lá o que meus netos estão aprontando"...

65. ARNALDO JABOR. SOBRE A VERDADE. Quando a dona Regina mentiu, na primeira vez... ela estava mostrando a verdade de seu medo. Depois, por medo, disse sua verdade. Quando Arruda mentiu, mostrou a verdade de sua esperteza política. Capaz de mentir com verdade... Quando depois ele confessou em lágrimas sua verdade, disse que dona Regina, sem ordens, por gentileza, saiu correndo e lhe trouxe a lista graciosamente. Será verdade? ACM... Mentiu no depoimento inicial. Hoje disse que mentiu por amor...amor ao Senado e para proteger a pobre dona Regina... Qual a verdade? Toninho Malvadeza ou Toninho Bonzinho? A verdade é que se não houvesse o laudo técnico provando a violação do painel as mentiras seriam as verdades. As verdades vieram pelo medo!!! E pela metade, pois reparem que cada um empurra a culpa para o inferior. ACM ferra Arruda que ferra dona Regina. A verdade é que o Brasil esta parado no meio de uma crise mundial e o Congresso nesta palhaçada. A verdade é que nesta guerra de vaidades e sabotagens... Esses políticos querem que o Brasil se dane, para ver triunfar suas mentirosas verdades.

66. ARNALDO JABOR. SURPRESA? O que espanta é essa surpresa toda com a roubalheira da Sudam. Todo mundo soube sempre que onde o governo dá grana subsidiada para empresários haverá roubo... E pior que roubo é o falso progresso, o atraso social e econômico que ele provoca. Nesse país paralítico não adianta a gente achar que a roubalheira e a imoralidade são acidentes de percurso, são "crimes num mundo honesto". É importante que a gente entenda que a Sudam já foi planejada para isso, assim como a Sudene...a antiga Sunamam, tantas outras... Há 400 anos que o Brasil foi planejado para ser esse casamento sujo entre empresários e dinheiro público. O mecanismo funciona porque as leis foram feitas para não punir, assim, vale a pena apostar na lentidão da justiça... Ninguém tem medo da lei. Outra causa é o equívoco de que o estado tem de subsidiar empresários... O governo tem é de sanear a economia para que com juros baixos os bancos privados financiem verdadeiros empresários e não esses vagabundos impunes que povoam o Brasil todo. Sempre que houver o nome “superintendência de desenvolvimento”, ali haverá mentira e atraso... Roubo no Brasil não é acidente. É norma...

67. ARNALDO JABOR. A DIREITA NO PODER. Boa idéia! Se tem franco atiradores no teto, a gente bombardeia o hotel onde há centenas de jornalistas. Bummmm!!! Ahhh... Foi sem querer... Não leva a mal, não... A intenção era boa... O problema é que a intenção não era boa. Não foram gafes. Foram desejos, o desejo de bombardear a Al Jazeera também: "vamos arrasar a TV Globo do deserto". Vitoria Clark, a porta-voz bodeada do Pentágono, comentou: "é, cobrir a guerra é perigoso... Quem mandou? A gente avisou..." E o general porta-voz da coalizão disse: "os EUA estavam sendo atacados do hotel". É verdade, os jornalistas estavam atacando-os com a liberdade de opinião. Essa direita americana quer matar a informação, fora e dentro da América... Bush também morde e assopra. Esse papo de Estado Palestino que ele propõe é para adoçar-nos a boca. O Sharon já disse: "nem pensar em tirar os assentamentos de Gaza". Mais grave que a guerra é o mundo que querem criar. Não respeitam culturas nem diferenças, só querem nosso choque e nosso medo. O mundo vai sofrer com violência e trapalhadas. O império americano será uma mistura de cowboys e homens-aranha com os Três Patetas.

68. ARNALDO JABOR. O CÚMULO DO EGOÍSMO. Houve muitos fatos positivos nesse governo. Fim da inflação. Melhorou educação. Melhorou a saúde. E por que a distribuição de renda é ruim? Culpa do governo? Não. A culpa é de alguma coisa anterior e acima desse governo e de qualquer governo que entre. A culpa é de um tipo de "rico" brasileiro. Mas não dos ricos que trabalham, criam empregos, e crescem junto com o país. Não. Eu falo do rico que vem desde a colônia, há séculos. É o rico que preda e mama no estado. É o rico que não produz., o rico financeiro que acumula, não investe e manda bilhões para fora. É o rico que não paga Imposto de Renda nem imposto nenhum. É o rico parasita. É o rico que corrompe o estado para seus interesses privados e impede qualquer planejamento sério. É o rico que paralisa até os ricos que querem produzir. Esse rico brasileiro não é capitalista. Ele vive do nosso atraso, que lhe dá lucro. É o rico e suas ricas famílias que mandam num estado, as famosas oligarquias. Nem revolução acaba com eles. Só a democracia pode desfazer as oligarquias brasileiras e os donos do poder sujo. A má distribuição de renda é culpa deles.

69. ARNALDO JABOR. NOVIDADE POLÍTICA. A frase mais profunda que houve foi: "a esperança venceu o medo". A era FHC teve um importante papel para o dia de hoje. FHC comandou uma tecnologia política moderna, combatendo salvações demagógicas e preservando a democracia debaixo de grande crises econômicas e políticas. FHC acertou e errou. Mas, mesmo seus acertos não foram bem entendidos, pois seu governo esqueceu que havia uma população querendo participar. FHC não fez nem um honesto populismo, deixando a população fora da viagem de seu governo. Com medo das armadilhas da fisiologia e da economia, na era FHC a política virou uma arte para poucos especialistas, praticada na solidão dos conchavos de Brasília. Por isso, e além do povo, FHC ficou também desamparado. Viramos um país de números e estatísticas e de... Medo. Medo de ousar. Com medo das utopias loucas, acabamos com medo da esperança. Com a vitória de Lula, o povo se sente no poder, com um líder igual a ele. Se Lula e o PT mantiverem a esperança respeitando a complexidade técnica que FHC praticou, Lula poderá ser uma 4ª via, um grande governo popular e democrático. Se isso acontecer, o governo de Lula pode virar um novidade política para o mundo todo.

70. ARNALDO JABOR. O BRASIL VIROU UM SANDUÍCHE. Quem é e qual o curriculum do secretário do tesouro americano, Paul O'Neill? As respostas, com Arnaldo Jabor. O Brasil virou um sanduíche. De um lado, brasileiros apostando no dólar e torcendo pelo próprio fracasso: "oba, tomara que o Brasil quebre para eu ganhar grana!" Do outro, as declarações estúpidas dos direitistas do Bush. O’Neill é o rei da grossura. Quando houve gestões para ajudar a África miserável, ele disse: “nem me falem de compaixão”. Pela África, essa nova gafe do O'Neill devia ser dirigida para dentro da própria casa. Quem está desviando dinheiro são as empresas que ele, Bush e Cheney protegeram. E os três são acusados também de maracutaias. Bush está exterminando com a política de globalização. Os EUA fazem o contrário do que dizem, só pensam neles e já abandonaram qualquer amabilidade, partindo para um bruto imperialismo militar e econômico. Vão usar o Iraque para que esqueçam seus roubos internos. Essa declaração do O'Neill revela a visão de mundo do governo americano: “só existimos nós; o resto são os ‘bárbaros’". A única globalização que estão conseguindo é a globalização do ódio dos "bárbaros" contra a América.

71. ARNALDO JABOR. É PARA SENTAR E CHORAR. Arnaldo Jabor critica os que sempre vêem na ideologia mais em voga a cura para todas mazelas do mundo. A realidade acaba sempre os desautorizando. Os idiotas sempre esperam a chegada de um mundo bom. Eu sou um deles. Primeiro acreditamos no socialismo, na justiça e igualdade. Mas tudo acabou numa mistura de falência e corrupção. Aí os idiotas acreditaram no capitalismo salvador. “A globalização e o mercado vão resolver a vida dos subdesenvolvidos.” Deu zebra: os pobres só pioraram e não teve colher de chá para país pobre, emergente. "É”, pensamos nós, os idiotas, “mas os EUA são um país ético e confiável!!!" Outro bode: a Enron roubou, a World Com roubou, outras roubaram e agora a Merck meteu a mão grande. Mas, ainda com esperança, os idiotas pensam: “ahhh, mas amanhã o Bush vai à TV fazer um discurso indignado contra esses crimes!!!” Outra zebra: a imprensa norte-americana mostrou que o Bush também enriqueceu assim. Ele e o vice dele, o Dick Cheney. Os dois ficaram ricos com informações privilegiadas em suas empresas, a Harken e a Halliburton, na década de 80. Quer dizer, o capitalismo onipotente faz o que quer no mundo e no plano ético os EUA estão virando a Nigéria. Aí, nós, os idiotas da esperança, sentamos no meio fio e choramos lágrimas de esguicho.

72. ARNALDO JABOR. É TUDO IGUAL. Existem dois tipos de tragédia: tragédia súbita e tragédia preparada. Existe um avião que explode, um piano que cai sobre tua cabeça, um infarto fulminante. Mas existem as tragédias brasileiras preparadas. Qual a receita para essas tragédias? Bem... Pegue-se um ingrediente básico, a miséria. Junte-se a ignorância, a inconsciência do perigo numa balsa cheia ou numa encosta deslizante. Adicione uma pitada de desrespeito do poder pela vida dos pobres e pummmm! Temos explosões no shopping, mortos no fogo e na água. Depois temos mães chorando, bombeiros procurando corpos e as autoridades falando em "tomaremos providências enérgicas". Depois não se fala mais nisso. Eram tragédias evitáveis, mas foram preparadas como um bolo maldito. Vocês se lembram de Vila Soco, em Cubatão? Centenas de pessoas foram fritas como torresmo ou batatinhas pelos canos de petróleo. Essas cenas se repetem todos os anos. Nem precisa mandar repórter para filmar os mortos. Basta pegar no arquivo. É tudo igual. Talvez num dia sujo do futuro isso nem mais seja notícia. “Ai que chatas essas desgraças monótonas, que se repetem sempre.” A única tragédia que não foi prevista pelos podres poderes foi a violência. Ninguém contava com que um dia os miseráveis teriam armas e dinheiro da cocaína. E aí, pela primeira vez, as elites estão sentindo o arrepio do perigo.

73. ARNALDO JABOR. GOVERNO SURPRESO? Surpresa? Como o presidente da República diz que foi pegado de surpresa? É inacreditável, doentio que um governo com três agências de energia não soubesse do perigo. O que aconteceu? Um governo preocupado só com ajuste fiscal e com reformas desconstrutivas não se preocupou com o desenvolvimento de infra-estrutura. Um governo que nunca soube se explicar à opinião pública ficou com medo de dar notícias ruins e resolveu se auto-enganar, tipo, tudo bem, Deus é brasileiro... É a síndrome do marketing, das pesquisas de opinião, da imagem. No desejo de combater o crônico pessimismo brasileiro, o governo inventou a bandeira tucana do otimismo irresponsável... O tradicional desprezo do brasileiro pelas questões técnicas. No país só temos bacharéis, literatos e ideólogos que odeiam o mundo real. Houve também o inferno das sabotagens da oposição e o inferno dos conchavos dos coronéis e fisiológicos, que não deram um dia de trégua a FHC. Até ACM teve culpa, enfiando um ministro como Tourinho, que passou dois anos dizendo: racionamento? Nem me falem nisso... E houve também o monetarismo frio do ministério da fazenda, desestimulando investimentos, gastos públicos vetados pelo maravilhoso deus FMI. A única vantagem deste apagão é descobrirmos que esse papo de Brasil moderno é furado. Continuamos um gigante com pés de barro.

74. ARNALDO JABOR. BUSH A CONTRAGOSTO. George Bush sonhava em governar de frente para os americanos e de costas para o mundo. Mas, atropelado pelo onze de setembro, se lançou a uma cruzada contra o terrorismo. A contragosto, teve que se envolver no conflito no Oriente Médio e já tem um plano para derrubar o ditador iraquiano, Saddam Hussein. Isso sem falar nas brigas compradas no cenário internacional, sendo que a mais recente foi a rejeição ao tribunal permanente para julgar crimes de guerra. Arnaldo Jabor. Depois do 11 de setembro, achamos que o golpe terrorista provocaria mais humildade na América do Norte. Ficariam menos arrogantes e isolacionistas. Engano. Ficaram mais imperiais. Por isso, os USA estão contra qualquer repartição de poder. Devem um granão a ONU, para desmoralizá-la. Querem mandar na Otan, na OEA, deram a gafe de apoiar o golpe frustrado na Venezuela. Dai, não apóiam o Tribunal Penal Internacional. Eles têm medo que crimes americanos possam ser julgadas por outros países. Pois o Bush não decretou há pouco que os USA são o bem? E nós? Somos o quê? Os USA querem uma Guerra Fria qualquer que os absolva e justifique. E nisso Bush não pára de errar. Está unindo o mundo árabe e os emergentes contra os USA. Aliás, ontem o Bush acusou Cuba, Síria e Líbia de fabricação de armas biológicas. Cuba? Ali nos trópicos, debaixo de bloqueio há trinta anos? Difícil. Lembrem que se provou que aquele antrax terrível era produzido na América do Norte. E mais: por que os USA conseguiram expulsar da Opaq da ONU o brasileiro Bustani? Porque ele queria tratar os usa democraticamente apenas com um membro da organização e não como o dono do mundo. Bill Clinton, onde está você, agora que precisamos tanto de um democrata?

75. ARNALDO JABOR. O SAPO E A COBRA. Acho que um "choque de capitalismo" pode nos arrancar do atraso sim, acho que a "instantaneidade" do mundo de hoje pode fazer algum bem ao caos paralítico do Brasil patrimonialista. Mas entre remédio e veneno há quase nada. Ignorantes de direita e de esquerda não vêem isso. Saudosistas da utopia sabotam as reformas e se agarram ao passado, enquanto deslumbrados liberais abrem as pernas e anseiam pelo estupro do futuro. A verdade óbvia, solar, é que o plano da Alca traz embutido o nosso destino - feito por eles. Isto é o fato histórico mais grave, mais assustador para nosso futuro. A sensação que tenho é a estória do sapo e da cobra. Já viram como se alimentam as jibóias e as jararacas? Joga-se um sapinho na jaula. O bichinho pula de pânico pra todo lado e a cobra fica imóvel, olhando. Ele pula daqui, pula pra lá e acaba hipnotizado, seduzido, entrando obediente na boca aberta da serpente. Tenho pavor de que isso nos aconteça. Nossos 500 anos de dependência, deslumbramento e ignorância apontam para isso. Claro que há uma consciência difusa do perigo, claro que dentro e fora do Itamaraty se fala em nossos "interesses comerciais", em "integração com Europa e Ásia", em "defesa do Mercosul", mas o perigo é imenso porque os brasileiros não sabem negociar e, por abstratos, bacharelescos e molengas, se perdem em bravatas vazias para compensar medo e despreparo técnico. Corremos o grave risco da "síndrome do sapinho", de morrermos seduzidos pela boca da cobra, até vagamente honrados com a devoração. O essencial é considerar a Alca o problema nº 1 do país, nosso terremoto, nosso dilúvio, nosso perigo de extinção. É fundamental que o Itamaraty (e todos) se toquem para o assustador horizonte e não empurrem nosso destino histórico com a barriga. O ministro Celso Lafer obtemperou: "A Alca não é destino; é opção". Espero que sim. Negociadores, diplomatas progressistas, uni-vos! Temos tudo a perder.

76. ARNALDO JABOR. FREUD EXPLICA MUITAS POSIÇÕES POLÍTICAS. A psicanálise é uma grande arma para a ciência política. Principalmente no Brasil, à beira das eleições, com todos os ódios e neuroses aflorando. Por trás das ideologias e certezas de cada um, jaz o trauma, pulsando como uma velha ferida - a neurose, o sintoma. Há uma doença manchando a bandeira política de cada um. Imaginemos uma sessão de análise de grupo. No centro, um psicanalista de charuto e barba. Em volta, intelectuais pensando o Brasil. Psicanalista - o que fazer diante da realidade brasileira? O Amante do Povo - Doutor... é tão terrível ver a miséria deste país... Eu sofro tanto com isso... Psi - O senhor é miserável? - Não... ganho até bem... Psi - O senhor luta por eles? - Não; só choro. Psi - Essa 'dor' pelos pobres lhe traz muito lucro. Sente-se 'bom'. Eles não ganham nada com isso. O próximo!... O Erudito - Eu sei tudo, doutor. Inclusive do seu Freud. Eu li tudo. Não há saída... só me resta ficar aqui na universidade pensando na aporia (bem sem saída) histórica em que estamos, não há um 'telos' (luz no fim do túnel) possível... Como filósofos, não podemos sacrificar nossa 'gravitas' (seriedade) com uma 'praxis' (prática-teórica) que seja apenas um 'ersatz' (quebra-galho) da verdadeira revolução... Psi - 'Acabou o tempo da reflexão; começa a ação (Marx)'... O senhor tem inveja de quem vai à luta... A filosofia para o senhor é apenas um mecanismo de defesa. O Radical Durão - Temos de encarar os problemas do país radicalmente, sem frescuras. Essas complexidades democráticas modernas, ambigüidades políticas são coisas de veado! Psi - O senhor tem medo da complexidade ou medo de ser veado? O próximo!... A Vítima - Só eu estou certo! Apanhei muito em 69. Tortura, porrada. Psi - O senhor acha que se santificou no pau-de-arara? Nunca o senhor se sentiu tão puro e nobre como durante a ditadura, não é? Orgulhe-se da luta, não das porradas. Mesmo um grande herói torturado pode errar politicamente. O Limpinho - Doutor... Eu tenho nojo desses políticos, desta sordidez... Como artista e pensador, eu me mantenho longe desse lixo todo, deste horror brasileiro... Eu sonho com um Brasil novo, puro... Psi - O senhor lava as mãos a toda hora? Não olha as próprias fezes? Sexo e beijo de boca aberta nem pensar, né? O Infeliz - Doutor, eu estou chorando assim porque minha vida é uma frustração... Ser a favor dos pobres nos leva ao fracasso. Eu poderia ter ganho dinheiro, mulheres, sucesso, mas sou de esquerda. Psi - O senhor fracassou porque é de esquerda ou é de esquerda porque fracassou? O Sonhador - Só amo as utopias, doutor... Este governo vive no administrativismo, na política do possível... Essas reformas podem funcionar na prática; na teoria não funcionam. Só amo o sonho... Sem sonho, não ganhamos nada e, se ganharmos, perdemos o sonho... Psi - O senhor ainda mora com sua mãe, não? O Paranóico - O mundo atual é um conto-do-vigário em que caímos. Há uma conspiração política aí fora para nos destruir... Tudo que parece ser, não é. Querem me pegar desprevenido pelas costas. Psi - O senhor é gay? - Se disser isso de novo, eu lhe mato!!!... E vocês?!... Estão me olhando por quê? (foge gritando). O Anal - Este país não tem jeito. Só uma grande catástrofe, uma tempestade de merda consertava isso aí... Só depois de uma grande cagada política, aí, sim, purificados, teríamos a bonança... Psi - Seu pai lhe batia muito, quando você se sujava nas calças? O Mártir Imaginário - Tiradentes foi esquartejado... Frei Caneca enforcado... Como é belo o martírio dos que morreram pela salvação do Brasil... Grandes heróis mortos... Psi - O senhor acha a vitória uma 'coisa de burguês'... Não é?... Se o senhor fizesse sucesso, seu pai falido lhe castraria? O Nostálgico - Ahhh... como era verde o meu vale!... Ai, como era bom antigamente... Vida mais simples, todos se amavam... Aí chegou o neoliberalismo e estragou tudo. Psi - O senhor ama a utopia em marcha à ré? Deve ter sido uma criança mimada, filho único... Aí, nasceram os irmãozinhos, não foi? O Imutável - Pode mudar o mundo. Eu não mudo um milímetro em minhas idéias... Há valores de que não abdico! Psi - O senhor tem medo de mudar de sexo? De virar mulher?... ("Arghh!" - mais um que foge gritando). O Militante do Ar - Avante povo! Para as barricadas! Revolução ou morte! Psi - O senhor já pegou em armas? Ahh, não? Fica em casa de pijama torcendo pelo 'povo' como quem torce pelo Palmeiras? É um caso de quixotismo preguiçoso ou militância imaginária... O 'Bode Preto' - Tudo é uma bosta... Tudo é cronicamente inviável... Beco sem saída... Não há luz no fim do túnel... Psi - O senhor é paulista? Se tudo é uma bosta, sobra apenas o senhor - o único que presta... Isso é narcisismo de paulista engarrafado no caos urbano da cidade... Tome Prozac e vá para a Bahia!... Eu estou aí dentro... E você, leitor intelectual e neurótico, 'meu semelhante e irmão', onde você se enquadra?

77. ARNALDO JABOR. O QUE AS MULHERES SERÃO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS? Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constatação: tá dominado, tá tudo dominado!!! Só dá funk! O "neo forró" tenta uma reação, mas suas letras não são cafajestes e não trazem a "alegria compulsória" que o brasileiro tanto gosta. Aí não dá, né, pô?! Como é que o cara quer fazer sucesso sem tratar mulher como lixo?! Esses forrozeiros, vou te contar... A indústria do CD pirata vai tratar de enfraquecer esse negócio, mas o jabá e a televisão devem insistir na onda por um bom tempo. Xuxa, Luciano Huck, Raul Gil, Gugu, enfim, toda essa gente boa vai se virar pra ganhar em cima. A Bandeirantes até já vai lançar um programa semanal com duas horas de duração dedicado ao funk. Isso, claro, até o "Tigrão", a mente por trás do "movimento", ser domesticado, o que, em termos mercadológicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo. O "Tigrão", aliás, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de março. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a névoa de ignorância (por parte do público) que encobria alguns aspectos do "movimento". Vejamos: em determinado trecho da entrevista, "Tigrão" diz: "...As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se você analisar, as letras nem são tão pesadas. Elas têm duplo sentido, até porque o público infantil ouve funk". Muitas coisas interessantes nessas sentenças! Então vamos por partes: "...se você analisar, as letras nem são tão pesadas". Eu analisei e ele está certo. Quem, em sã consciência, poderia achar pesada a letra do funk "Máquina de Sexo", que diz: "Máquina de sexo, eu transo igual a um animal / A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal / Chatuba come cu e depois come xereca / Ranca cabaço, é o bonde dos careca"? Nota-se a leveza de termos como "sexo anal", "cu", "xereca" (!) e "cabaço". "Elas têm duplo sentido...". Procurei demais e não achei o duplo sentido no funk "Barraco III": "Me chama de cachorra, que eu faço au-au / Me chama de gatinha, que eu faço miau / Goza na cara, goza na boca / Goza onde quiser". Ah, agora entendi! "Goza na cara" é porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas costas. Aí ela diz "Goza na cara!". Que coisa... "...até porque o público infantil ouve funk". Eis uma verdade e a preocupação do "Tigrao" se justifica. Foi pensando nas crianças que o garoto Jonathan, de 7 anos (ele mal tem coordenação motora para reproduzir a coreografia) foi incentivado a gravar o funk "Jonathan II", de edificante letra: "De segunda a sexta, esporro na escola / Sábado e domingo, eu solto pipa e jogo bola / Mas eu já estou crescendo com muita emoção / E eu já vou pegar um filé com popozão". 7 anos!!! 7 anos!!! Pô, foi mal... A culpa é minha, gente grande, feia e besta, que não entendo. Então, vamos lá, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de auditório: todo mundo junto, um, dois, três e já: "A malícia está na cabeça do adulto, a criança só quer se divertir. Onde já se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crianças que passam fome na rua ninguém fala nada...". Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do auditório. É bom que se diga que as crianças que passam fome nas ruas são um sério problema social, cuja resolução deve ser uma das prioridades máximas de qualquer governo (detalhe sem importância: os funks da moda não passam nem perto dessa questão. Mas, beleza, vamos lá...). Só que é um problema do governo, a gente não tem nada com isso, não é mesmo? Ao invés disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a "pegar um filé com popozão". Afinal, nunca é cedo demais pra mostrar pro papai que se é um garanhão, que não deixa passar nenhuma cachorra. Isso é que é uma infância saudável! E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo "Bambalalão", "Sítio do Pica-Pau Amarelo" e ouvindo aqueles discos da "Turma do Balão Mágico". Ao invés disso podia estar por aí, transando umas cachorras... Enquanto a gente dá risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher não passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que só um tapinha não dói. Se "só um tapinha não dói", o primeiro deveria ser dado no popozão dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas. Depois a gente não entende o motivo do aumento dos índices de violência contra a mulher e porque ela é tão desrespeitada na sociedade. Será que não é óbvio? Você, cadela... quero dizer, mulher que está lendo isso, levante-se e lute! Não seja uma cachorra! Um tapinha dói, sim! Exija respeito antes que nós, homens, acreditemos que é isso mesmo que vocês querem. Deponham as Xuxas, Carlas Perez, Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Internéticas,Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikachu de seus reinados de miséria intelectual! Conto com vocês!!! E lembrem-se sempre da cada vez mais pertinente frase de Oscar Wilde: "Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é criminosa."

78. ARNALDO JABOR. O OCIDENTE ESQUECEU HIROSHIMA E NAGASAKI. Há 57 anos, no dia 8 de agosto de 1945, um piloto americano pintou na fuselagem de seu avião o nome de sua mãe querida: "Enola Gay." Depois, voando sobre o Japão, num belo dia de sol, despejou a bomba atômica que derreteu em 30 segundos cerca de 100 mil pessoas, em Hiroshima. Ele viu com prazer e espanto o cogumelo em chamas se erguendo ao céu e, contente da missão cumprida, voltou à base, sendo que, no dia seguinte, outro aviãozinho matou mais 100 mil e transformou também Nagasaki num deserto de metal derretido. Nunca esqueceremos o Holocausto que matou milhões de judeus, mas fugiu-nos da lembrança Hiroshima e Nagasaki, com seus fulminantes tornados de fogo. Por quê? - se a extinção em massa dos japoneses é tão apavorante quanto os fornos alemães, pois fez em um minuto o trabalho de anos dos nazistas? O que mais me choca na bomba de Hiroshima é a rapidez anglo-saxônica do feito, a eficiência tecnológica, sem trens de gado humano, sem prisioneiros magros sofrendo, sem a linearidade suja dos nazistas, sem pilhas de cadáveres capazes de nausear até o Himmler. A bomba americana foi um "feito tecnológico", uma "vitória" da ciência, o fruto sujo de Einstein. Hiroshima foi o início da pós-modernidade técnica, guerra limpinha, do alto, prefigurando a Guerra do Golfo. Os nazistas eram loucos, matavam em nome de um ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. A bomba americana foi lançada em nome da "Razão". Foi uma bomba de "democratas" do bem, raspando da face da Terra os últimos "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Trumam em seu diário secreto: "São animais cruéis, obstinados, traidores, fanáticos." Eram considerados inferiores seres de olhinho puxado, que podiam ser fritos como "shitakes" na frigideira. O Holocausto judeu nos horroriza pelo dia-a-dia burocrático do crime, pelo seu cotidiano "normal", com burocratas contabilizando pacientemente quantos óculos sobraram nas câmaras de gás, quantos dentes de ouro... A bomba A foi rápida e eficiente como uma nova forma de detergente, um potente "mata-baratas". Ainda hoje é fascinante ler a racionalização dos americanos para justificar a morte de dois "Maracanãs" cheios, como se desinfetassem um shopping center. A bomba de Hiroshima explodiu diante da humanidade já anestesiada pela banalização de 20 milhões de mortes na 2.ª Guerra e pelo massacre dos judeus - foi o coroamento pavoroso das trincheiras da 1.ª Guerra. A bomba explode quase como um alívio, como escreveu Truman: "Eu queria nossos garotos de volta ("our kids") e ordenei o ataque para acelerar essa volta." Outra "razão" era que Hitler estaria próximo de conseguir uma bomba A, argumentaram generais falcões e cientistas, como Einstein (antes, para Roosevelt) e Oppenheimer. A destruição de Hiroshima e Nagasaki não era "necessária". O mundo não estava em perigo diante da invasão de ETs, como era a opinião dos milicos sobre os "japs"; o Japão estava de joelhos, se rendendo, querendo apenas preservar o imperador Hiroito e a monarquia instituída. A "razão" real era que o presidente e os "falcões" queriam testar o brinquedo novo. Truman escreve em seu diário, depois do primeiro teste da Bomba, como um garoto entusiasmado com um "Lego": "É incrível! É o mais destruidor aparelho já construído pelo homem! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!" A outra grande "razão" americana para o ataque era a vingança. Os USA tinham de vingar Pearl Harbour. As duas bombas caíram "de surpresa", exatamente como fora o ataque japones, anos antes. Além disso, queriam intimidar a União Soviética e Stalin, pois a guerra fria já assomava no horizonte. E, por fim, queriam dar também um show de som e luz para o mundo todo, uma superprodução a cores que enfeitasse a marcha do império. Assim como os nazistas elaboraram uma "normalidade" burocrática para a "solução final", os americanos criaram uma lógica "científica" para seu crime. Por isso, Hiroshima não sujou o nome da América tanto quanto o Holocausto manchou para sempre o nome dos alemães. Até hoje, quando se fala em alemão, pensa-se em Hitler, enquanto Hiroshima quase soa como uma catástrofe "natural", inevitável, um brutal remédio no calor da guerra. O crime dos alemães justificou e absolveu o crime americano. E como os americanos saíram limpos dessa? Creio que, naquele momento infame do Ocidente, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime; o mundo pensante estava todo dentro de um grande lixo, numa vala comum de detritos humanistas. A época estava morta para as palavras, não havia mais sentido diante dos fatos. Só restou, na Europa, o desalento, a literatura do absurdo, o existencialismo, o suicídio filosófico, o niilismo em meio às ruínas. Enquanto, na América, longe de tudo, da Ásia e da Europa, só aconteceu a euforia do papel picado caindo na 5.ª Avenida, sobre os heróis da "vitória" da democracia. Era o início de uma era de prosperidade e esperança, dos musicais de Hollywood, pois o "eixo do mal" estava vencido e derretido. Alegria que durou até 1949, quando os comunas explodiram a bomba H, quando começou a guerra fria.

79. ARNALDO JABOR. O SAPO ENTRA SOZINHO NA BOCA DA COBRA. O Congresso americano acaba de aprovar o "fast track" para o Bush poder negociar com "independência" as regras da Alca. No entanto, no texto da TPA (o nome desta autorização) estão mantidos no texto mecanismos que permitem ao Congresso monitorar negociações para produtos considerados sensíveis, que são justamente os que mais interessam ao Brasil. Por isso, me pergunto: por que o Brasil tem de continuar aceitando a inevitabilidade da Alca? Claro... bem sei das injunções políticas e econômicas de um país que tem de negociar com o FMI e o Tesouro americano, sei de nossas fragilidades do momento, de nossa dependência de suas políticas imperiais e do medo por sanções não-explícitas que eles podem nos aplicar. Mas, isso não pode justificar a política do "sapinho e da cobra", como escrevi num artigo de um ano atrás: "A sensação que tenho é a estória do sapo e da cobra. Já viram como se alimentam as jibóias e jararacas? Joga-se um sapinho na jaula. O bichinho pula de pânico pra todo lado e a cobra fica imóvel, olhando. Ele pula daqui, pula pra lá e acaba hipnotizado, seduzido, entrando obediente na boca aberta da serpente. Tenho pavor de que isso nos aconteça." Acho que um "choque de capitalismo" pode nos arrancar do atraso, sim, acho que a "instantaneidade" do mundo de hoje podem fazer algum bem ao caos paralítico do Brasil patrimonialista. Mas, entre remédio e veneno há quase nada. A verdade óbvia, solar, é que o plano da Alca traz embutido o nosso destino - feito por eles. Isto é o fato histórico mais grave, mais assustador para nosso futuro. Por isso, cito aqui também um artigo antigo do embaixador Rubens ??Ricupero, onde ele diz: "É preciso vigilância reforçada na negociação de normas gerais de comércio, se queremos no futuro evitar sofrimentos como este que amargamos no momento. E jamais aceitar de novo sob qualquer pretexto delegar a organizações de que não fazemos parte a tarefa de definir para nós as regras que devemos seguir. (...) Com os subsídios proibidos hoje pela OMC, nem o Delfim Neto poderia ter estimulado a exportação de manufaturados ou, se JK ressuscitasse, não poderia mais implantar a indústria automobilística..." E repito um trecho de entrevista de outro embaixador corajoso, Samuel Pinheiro Guimarães, que o Itamaraty encostou por "inconveniência": "Com a Alca, os Estados Unidos realizariam seu desígnio histórico de incorporação subordinada da América Latina a seu território econômico e à sua área de influência político-militar.(...) Não há, na política e no direito internacional, nenhum processo de negociação, em nenhum foro, em nenhuma região, em nenhuma organização, que tenha de ser aceito passiva e de forma submissa pela sociedade como irreversível." Quando falo da "cobra e do sapinho", é porque me assusta a fragilidade tradicional dos brasileiros em negociações com os gringos, com sua tradição francesa de punhos de renda, sem a objtividade rude dos americanos quando querem conseguir uma concessão de algum emergente. Há algum tempo o diretor da CIA declarou que a agência existe hoje para fazer espionagem industrial e comercial. A meta atual dos Estados Unidos é fazer do Ocidente uma grande economia sem fronteiras, com excecão das fronteiras deles, claro. Para nós, a diplomacia é a arte do meneio; para eles, é uma linha reta, bruta, mercantil. Americano trabalha com a política do "bode na sala", como me disse o embaixador Pinheiro Guimarães. Eles colocam uma exigência absurda, lutam por ela, e quando recuam, apenas chegaram aonde queriam desde o início. Exemplo? Fingiram forçar a Alca para 2002 e acabaram "concordando" com a Alca em 2005, onde sempre esteve. Nós achamos que foi uma "conquista". É o "bode na sala". Quando tiram o bode, o alívio parece uma vitória. Por essas e outras, corremos o grave risco da "síndrome do sapinho", de morrer seduzidos pela boca da cobra, até vagamente honrados com a devoração. Para os americanos, protestantes, amantes do lucro e da riqueza, a vitória é orgulho. Para nós, a vitória traz culpa, medo. Eles amam o sucesso. Nós, católicos e ibéricos educados para a obediência e dependência ao Rei, cultivamos o fracasso. Os americanos inventaram o mito do pan-americanismo, da "boa vizinhança", de que estamos "no mesmo barco" do Ocidente, mas na verdade têm um grande desprezo por nós. Ocultam isso e sabem, como ninguém, cooptar nossas elites deslumbradas, tanto as comerciais como as intelectuais. Americano considera o comércio uma atividade militar. Na crise asiática, quando o Japão imaginou criar uma espécie de FMI regional, Robert Rubin e Larry Summers voaram correndo num jato militar para impedir esse ganho de poder para os japorongas. Eles trabalham como um time, e têm a coalizão de formigas. Para eles, o detalhe é tão importante quanto o todo. Mas, para nós, dividem as questões com grande formalismo jurídico, dividem sempre, para provocar dispersão. Ex.: "Abram o mercado", eles dizem. "Só se vocês acabarem com sobretaxas", dizemos. "Ah... uma coisa não tem nada a ver com a outra", retrucam... Dividem os temas para nos dividir. São craques. Como já escrevi: "Para negociar com os americanos, precisamos urgentemente aprender a negociar como os americanos." Nosso destino está em jogo. Podemos morrer na praia do século 21. E se me repito hoje, citando-me, é porque ninguém mudou. Nem eu (quem sou eu, pobre de mim?...) nem os USA nem o Brasil, que pode agir como o sapinho entrando na boca da cobra.

80. ARNALDO JABOR. O CRIME CRESCENTE É UM FRUTO DO PROGRESSO. Afinal de contas, o que está acontecendo? Parece que tudo se move a direção do abismo. De repente, a morna vida brasileira começa a correr em alta velocidade, como um grande ventilador de excrementos. O Brasil é assim: ou nada acontece ou tudo acontece. E diante da angústia do incontrolável, corremos em busca de "sentido". A mídia congrega e acentua nosso pânico, na esperança de uma explicação, nem que seja do apocalipse. Aí, sentimo-nos dentro de uma conspiração de demônios: dengue, seqüestros, assassinatos, escândalos, tudo se soma num grande esqueleto estruturado para nos apavorar. A consciência anda mais devagar que as coisas. Nosso entendimento vem sempre depois, quando já é tarde demais. É impossível entender o que está rolando no Brasil, se nos aferrarmos a pontos de vistas imutáveis. Os fatos estão além das interpretações. Há algo em comum entre a globalização desumana e a violência caótica: ninguém sabe o que fazer. Mudou tudo no País. Foram se acumulando décadas de desleixo e preguiça, pequenos crimes, pequenas loucuras administrativas, pequenos movimentos sísmicos e, de repente, o que era uma realidade vira outra. As quantidades viraram qualidade. Para pior. Houve no Brasil um "salto qualitativo" para baixo na defesa pública. O crime crescente não é fruto da miséria; é fruto do progresso. Do progresso tecnológico e empresarial de um país torto. O tráfico de cocaína é uma megaempresa e o contrabando de armas e os seqüestros são derivados dos bilhões de dólares que giram sob a lama das favelas. O tráfico capitalizou a miséria. Antigamente, havia três ou quatro marginais românticos: Zé da Ilha, Cara-de-Cavalo, Mineirinho. Hoje, populações inteiras vivem à custa do único emprego que pintou nas periferias: droga. Antes, havia corrupções de ninharias; hoje, que policiais ganhando merrecas agüentam ver passar intocados quilos dourados de pó? Que adianta prender pés-de-chinelo? Há que atacar os Conselhos de Administração globalizados da cocaína. Eles jantam nos Jardins. Não temos conceitos adequados para o país que explode à nossa frente, estamos desamparados com nossas velhas palavras, velhas idéias, velhas leis. Enquanto o ritmo do crime, da miséria, da loucura voam com imensa liberdade, nós nos arrastamos no passo preguiçoso dos políticos burgueses. O Executivo e o Congresso são incapazes da emergência. Resolveram analisar os 200 projetos contra o crime só a partir de abril. O ritmo do Judiciário também é feito pela protelação, pelo arreglo, sem instâncias terminativas, libertando assassinos e ladrões, atrasando mais ainda, do alto de seus palácios de mármore, as polícias sem armas e sem dinheiro. A primeira vontade diante do imprevisto é correr para trás, em busca de antigas certezas. Infelizmente, não há nada de útil nos velhos baús. Não há mais caminho racional em uma sociedade de mil camadas, de labirintos dentro de labirintos, se anulando, se bifurcando. A realidade brasileira (e os discursos sobre ela) se parece cada vez mais com as vielas das periferias. A favela com seus becos, buracos, armadilhas, socavões e desvãos é a cara da vida nacional. Os criminosos pensam e vivem assim: pela linguagem dos labirintos, das "quebradas", sem nenhuma esperança de solução, de futuro. E nós, os "limpinhos", diante desse quebra-cabeça, esperamos "soluções" lineares. Que "solução"? Não há mais solução. Chorem, esperançosos iluministas, chorem donas de casa sonhando com o aniversário de casamento, chore neoliberal acreditando na "mão" do mercado, uivem comunas empedernidos que acreditam em planejamento cnetral, berrem românticos clamando por uma era de grandezas, danem-se filósofos embrenhados em tautologias e ressentimentos. Ainda olhamos o presente através de um espelho retrovisor. Temos de esquecer a velha idéia do "conjunto", acabou a utopia de um mundo coerente. Temos de criar uma política em leque, em "rizomas", em muitas frentes, e os instrumentos são muito mais a imaginação, a invenção. Não há mais unidade a ser "re-feita" (se é que já existiu...); só há "unidades", módulos, favos de fel, ilhas do mal, buracos quentes, becos escuros, como nas favelas. A maneira de combater a violência, a corrupção policial, armas, todas essas "novidades" do crime global não será por grandes discursos nem por gestos totalizantes. Ao contrário, temos de quebrar correntes sucessivas, linhas contínuas, sucessividades. Temos de "quebrar" e não de "re-cobrar", salvar, recolar. Nunca vai-se restaurar o velho sonho de harmonia de classe média. Temos de quebrar os cinturões de miséria nas periferias pela invasão de núcleos de emprego e batalhões de saneamento e educação, invadir as periferias com bilhões de dólares subtraídos do FMI para criar ilhas de indústrias, de cooperativas, de centros de produção. É isso: custa bilhões de dólares sim - e daí? Bem menos que o roubo dos bancos. Não adianta mais a racionalidade sobre o óbvio. Chega, basta de diagnósticos perfeitos que não levam a nada. Todo mundo sabe da doença. Faltam os remédios. Temos de trabalhar com erros e tentativas, com riscos ideológicos, com imaginação, com alianças espúrias, até com mentiras estratégicas. Temos de derrubar nossos parnasos, esquecer ideologismos que consolam e levam à preguiça com boa consciência e ao nada. A eficiência e o pragmatismo dos criminosos nos ensinam o ritmo da ação. Se bobearmos, viramos Colômbia.

81. ARNALDO JABOR. TODOS NÓS QUEREMOS SER CANIBAIS. Eu ia escrever uma artigo sobre o atual canibalismo político no Brasil, sobre o campeonato de denúncias para saber quem é mais ladrão, ao som de procuradores sapateando em fitas como bailarinas espanholas mas... cansei e resolvi ir à real thing e escrever sobre o canibal Hannibal, criação luminosa do Anthony Hopkins, agora no filme de Ridley Scott. O filme é ruim, mas é bom de ver, se é que me entendem. Hoje, só me interessam as informações "filmológicas" das fitas; qualidade, se houver, é um brinde casual. Por "filmologia" refiro-me à disciplina dos anos 60, criada pela turminha do Gilbert Cohen-Séat (quem ainda se lembra?), de modo a entender tendências sociais que o cinema revela. O que me interessa nesse filme é a extraordinária personagem do canibal dr. Hannibal Lecter. Ele é uma rica metáfora da gelada ética que se instala no mundo. Hopkins criou uma figura que nos fascina como poucas no imaginário desta fronteira de milênios. Hannibal é um achado e a razão de seu sucesso não é somente a qualidade do ator. Os oscars recebidos, o estouro de bilheteria mostram que Hopkins acertou na mosca, trouxe à luz algum desejo difuso no ar do tempo. Hannibal é inteligentíssimo, amante do belo, com uma extrema elegância culta. E o grande achado é que a pessoa mais civilizada do mundo é também um canibal. Ninguém comete crimes com mais finesse que ele. Hannibal busca quase uma forma de arte, praticada com invenção e maestria na devoração e no assassinato. Há em Hannibal um eco da perversão iluminista de Sade, com a precisão dos cortes, a geometria da crueldade, o rigor estético do mal. Há, como em Sade, o desejo de refutar a moralidade de um "antigo regime", de ir além do permitido, de provar a mediocridade da piedade, da hipocrisia do bem. Há quase uma "bondade" na crueldade de Hannibal. Hopkins (alcoólatra e famoso perverso inglês) criou uma personagem exemplar e contemporânea. Diante de Hannibal, todos nos sentimos meio babacas, antigos, caretas. Na literatura do horror, Hannibal é um marco novo; vai além dos vampiros e "dráculas", figuras ilustres do romantismo. O vampiro era uma homenagem ao amor sublime, a uma sexualidade idealizada e agônica, quando os escravos da paixão ansiavam pelo êxtase da dentada no pescoço. Com Hannibal não há a nostalgia triste dos vampiros. Ele é um "reformador de costumes". Hannibal quer exterminar os medíocres e, espantosamente, sonha com um mundo belo. Ele despreza suas vítimas e o único perigo que corre é o de se apaixonar pela policial Clarice Starling, ex-Jodie Foster e atual Julienne Moore. A cândida policial o emociona e Hannibal vê em Clarice uma beleza que desejaria para o mundo todo. "Não te devoro porque o mundo fica mais bonito com você...", diz ele no "O silêncio dos inocentes". Hannibal é pós-moderno (arrghh!...). Ele nos acena com um delicioso futuro primitivo, com uma volta à animalidade perdida, depois de tantos séculos de ciência. É como se ele dissesse: "Nenhum saber, nenhuma ética, nenhuma religião vai apagar o animal feroz que há em nós. A humanidade é um caso perdido e eu sou a prova disso..." Cada vez somos mais como ele, no darwinismo social que se instala. Já somos mais sozinhos, mais avessos à compaixão, mais frios. Para sobreviver, precisamos "não ver" o sofrimento dos outros, a injustiça e a desigualdade. Queremos ser tocados pela graça da impiedade. Daí, o fascínio do assassino. Nada mais atraente que a psicopatia elegante. Todos queremos ser como Hannibal. Além disso, Hannibal nos dá a rara oportunidade de, no escurinho do cinema, torcer pela vitória do perverso, pelo triunfo do mal. Isso nos excita como a mais louca liberdade. A vitória do crime liberta secretamente nosso canibalismo secreto de milênios. Schwarzenegger, Van Damme, Mel Gibson estariam lutando "pelo Bem", pela sociedade civil. A violência nesses filmes é hipócrita, exibida como chamariz comercial, mas dissimulada pela boa ação dos heróis da lei. O sangue, as explosões de corpos são mostrados como os "horrores do mal" e assim faturam bilhões, pagos por nosso sadismo enrustido. Com Hannibal, podemos nos repastar na perversão, sem barretadas ao bem, feito sexo sem pecado... Na realidade, Hannibal é um ícone da guerra narcísica do mundo atual. Estamos cada vez mais sozinhos como Hannibal. O canibalismo social está por baixo de nossos desejos. Queremos amar sozinhos, vencer sozinhos, devorar o mundo como devoramos sushis em balcões yuppies, queremos nos apropriar da vida ferozmente, sem competidores. Em "American Psicho", o criminoso é uma anomalia. Hannibal é sofisticado e invejável em sua inteligentíssima frieza. Quando falamos em "comer" mulheres ou homens, sonhamos com uma sexualidade canibal livre dos problemas do amor. Acabamos de ver as escolas de samba, com mulheres se oferecendo completamente nuas e um grande supermercado de corpos, como pedaços de comida em prateleiras. Há dez anos, na estréia do "O silêncio dos inocentes", escrevi o seguinte: "Os crimes frios são o prenúncio dos futuros extermínios de massa. Como ficou arcaica a compaixão, queremos ser tocados pela graça da frieza. (...) O que nos fascina na personagem de Hopkins é que ela parece estar mais além de uma moral antiga e que ela contempla, do outro lado do Bem, uma nova realidade. Hannibal parece saber mais do que nós, que ainda vivemos mergulhados em dúvidas morais e culpas. O canibal e doutor Hannibal Lecter nos olha do futuro.

82. ARNALDO JABOR. REALITY SHOWS MATAM FOME DE VERDADE. Ah... é? Querem show de realidade, reality show? Pois aqui vai um artigo-realidade, com todas as suas dúvidas, informe rascunho, sujo texto, tudo que me passar pela cabeça enquanto escrevo. Será a verdade de minha mentira ou a mentira de minha verdade? Besteira, deixa de filosofias baratas... Deixa eu ver... Nelson Rodrigues dizia que a novela era importante para satisfazer nossa fome de mentiras. O show de realidade é para satisfazer nossa fome de verdade. O Paulo Emílio, o grande crítico de cinema, dizia que vamos ao cinema como ao bordel - em busca de ilusão. É isso aí... só que a televisão não é no escurinho do cinema, que tem algo de secreto, de fuga, algo que ficou no fundo dos anos 30-40. Não; a TV é com luz acesa, a TV é uma vitrine na tua sala, com ofertas de sabonete e de amores. TV não vende ilusão; vende desejos e os desejos crescem. A ficção, no cinema e na TV, não está dando conta do horror da realidade, do real-espetacular de hoje. Que filme teve mais impacto que o reality show do Osama Bin Laden no dia 11 de setembro? Nunca a ficção foi tão real. As notícias e a ilusão se uniram em quatro aviões caindo do céu americano, porque, como sabemos, a TV é dividida em dois mundos: "The news is bad, the ads are good", como disse alguém. (Quem? McLuhan, Daniel Bell? "As notícias são más, os anúncios são bons" - (NB: 'news' é singular mesmo...) Naquele dia, o sonho explodiu. Naquele dia, descobrimos que a realidade não estava morta e que ela se movia com o timing ideal dos filmes... e tudo num curta-metragem de 20 minutos. Portanto, depois do 11 de setembro, como 'entreter', como fazer um desgraçado esquecer do mundo que estoura lá fora, que ilusão se pode ter, quando o horror não te deixa dormir no sonho e na mentira? E não só os deliciosos horrores que te satisfazem o rancor, mas também que ilusão te aquecerá para você esquecer o que viu na TV, a maravilha que poderia ser tua vida, quando você é apenas um excluído, sem grana para pagar um reles tênis ou uma sórdida geladeira? (Misturo 'tu' com 'você', oh... gramáticos, como na vida real) Além disso, nos dias de hoje, você não se deixa mais enganar com musicais românticos, você não é mais amansado por Fred Astaire e Cid Charisse dançando no escuro, você está indócil, querendo existir. Aí, Hollywood saca isso e resolve te dar mais "entretenimento", aumenta a dose da droga, mais na veia, mais, e porradas a granel e efeitos especiais e mais sexo, sexo, sexo... Mas, não adianta muito, porque... até onde pode ir um filme pornográfico, até onde?Até o interior do corpo, até o intestino pelo olho do ânus, pelas vaginas a dentro para achar a alma? E você também não tem como comer aquelas gatas de seios siliconados, musas virtuais, e tuas punhetas se encerram num triste jato de nada na mão molhada. No meu delírio teórico, eu pensei: "Ahh... o reality show atende a um desejo do homem comum de ver a própria concepção, a 'cena primária', como dizem os psicanalistas, ver pelo buraco da fechadura, edipicamente, papai e mamãe transando na cama sagrada do drama burguês." Mas, não. É mais que isso, mermão. Isso apenas 'faz parte'. Você quer mesmo é invadir a TV como os assaltantes invadem uma casa. Você quer ver o que acontece no mundo dos que amam, dos que consomem, dos que existem. Você quer 'ver'; não sabe bem o quê ainda, mas quer ver o que te escondem, ver algo que te é negado. Você quer estar onde tem tudo: iogurte, carro do ano, Jade, cerveja com mulher boa, carros sport, luxo no shopping virtual da tela, você quer morar lá dentro como uma rosa púrpura do Cairo." Mas, aí, você bateu na tela de vidro e não entrou, na emissora o porteiro te barrou, e você viu que teu sonho era impossível. Foi então que as televisões do mundo perceberam tua desesperada vontade de existir e te disseram: "Você pode entrar se for selecionado e sair daqui com corpo e alma, com identidade, você pode nascer como o Bam Bam nasceu para a vida!" O reality show é o quebra-galho do sonho do socialismo que morreu, onde todos seríamos multidões cantantes. O reality show é democracia de massas cobrando ingresso. Mas, aí, nova surpresa. O SBT quis mostrar a verdade cotidiana de gente famosa, de personagens 'de ficção' da mídia. Enquanto isso, a Globo mostrou a aura que pode aflorar de anônimas e banalíssimas pessoas. E o ibope subiu ao avesso. Descobriu-se que você não quer ver famosos e gostosas, como a Tiazinha e a Feiticeira revelando aos poucos sua 'verdadeira' face ou mesmo sua verdadeira bunda. Você não quer ver a Tiazinha lavando roupa e a Feiticeira varrendo a casa. Não. Você quis ver os anônimos florindo e brilhando. Você quis ver uma beleza que vai aparecendo na convivência de gente boba como você, gente que chora sem motivo, gente que fala com boneco, gente que vomita. Mais do que ver 'sacanagem' ou 'cena primária', você descobre (e as TVs também) que quer ver o vazio, o nada do cotidiano, descobre que quer o alívio da informação e o vazio da verdade. A verdade é vazia, não-transcendental, a verdade está na pausa, no tédio, na falta de assunto, você quer o alívio do nada. O sucesso do Big Brother esteve na verdade que se infiltrou quando nada acontecia, entre os momentos em que mentirosamente eles fingiam sofrer ou amar. O sucesso se deveu ao nada, ao tempo morto. Ali, no irrelevante, arde uma verdade profunda, sem nome, sem efeitos. Naqueles instantes, nasce alguma coisa que se parece com tua vida. Você quer ver o que acontece quando nada acontece. Na verdade, você quer ver quem é você. Qual será tua próxima fome?

83. ARNALDO JABOR. MULHERES PENSAM E FALAM COM O CORPO. Afinal de contas, o que quer a mulher? - perguntou o Freud, segurando seu charuto fálico. Bem, a mulher não quer nada porque ela não existe, respondeu o Lacan. Tem razão - existem as mulheres, com data, geopolítica, classe social. E aqui na TV, janela virtual do Brasil, surgiram agora quatro mulheres falando do que "querem" na televisão. Elas estão no canal GNT, no programa Saia Justa: Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth e Monica Waldvogel. O programa está batendo todos os recordes da TV a cabo, comemoram Letícia Muhana, diretora da GNT, e Suzana Villas Boas, produtora-executiva do show das quatro meninas que, aliás, é ao vivo, quase um reality show. As razões do sucesso total? Acho que sei. O mundo masculino está cansando as pessoas; não é à toa que Roseana bateu alto nas pesquisas, que Rita Camata é chamada para vice, que Marina Silva, a corajosa e sensual seringueira, pode vir a ser vice de Lula. Ninguém agüenta mais aqueles sujeitos de terno, com seus bigodes e gravatas, decidindo os destinos mais finos da nação. A visão da mulher poderá ser mais democrática, mais tolerante, mais sutil nesta época tão dura de transição para uma democracia social - se é que ela virá... O que há de novo no Saia Justa é que, normalmente, se convocam as mulheres para mostrar que estão "integradas" no mundo atual. Nesse programa, ao contrário, as mulheres estão é "estranhando" o mundo. Essa é a diferença. As mulheres se integram no mercado, muitas imitam à perfeição os homens no trabalho, com seus tailleurs e invisíveis bigodes, mas em geral são vistas com uma curiosidade desdenhosa pelos machos oficiais da mídia. Saia Justa é um território livre. Rita Lee é aquele luxo. Faz um low profile defensivo, mas nós sabemos que São Paulo não seria a mesma cidade se ela não existisse. Sob a capa de roqueira, ela é uma mulher política, faz uma análise cultural do País, desde os Mutantes. A escritora Fernanda Young é a pós-modernidade se expressando, uma mistura de mãe punk com intelectual pop, ostentando uma autoparódia na cara da gente, como arma crítica. Marisa Orth, a anti-Magda, inteligentíssima, destrói a caretice e a peruíce, tanto como atriz quanto como personagem, e Monica Waldvogel, sensata e doce, com o crivo da razão jornalística, faz o copidesque que orquestra um sentido para as idéias que explodem no belo cenário de Carla Caffé, sob a luz de cinema de Rodolfo Sanchez. Em Saia Justa, as mulheres pensam com o corpo; suas reflexões são sempre repassadas de uma subjetividade emocionada de onde sai um pensamento não-fálico, não definitivo. Novalis escreveu que "a mulher é o ponto de transição do corpo para a alma". Nessa imprecisão está a sua riqueza, principalmente nestes tempos submissos a um "pensamento único". Às vezes, escrevo sobre as mulheres no Brasil de hoje. Mas sou um pobre macho perplexo. Por isso, aqui vão algumas perguntas às meninas do Saia Justa: Vocês não acham que as brasileiras comuns desconhecem a liberdade sonhada pelas feministas? O que vemos aqui é uma libertação da "mulher-objeto". Elas não estão virando "sujeitos" livres, mas querem ser mercadorias sedutoras, como um BMW, uma Ninja Kawasaki... O "objeto" é feliz, não sofre. As mulheres querem a felicidade das coisas. Querem ser disputadas, consumidas, como um bom eletrodoméstico. Verdade ou mentira? A gente viaja pelo mundo e vê que as européias ou americanas não ficam apregoando uma sexualidade berrante pelas ruas. Por que as brasileiras se exibem tanto como gostosas, peitos de silicone, coxas lipoaspiradas, bunda soerguida, vagina indomável, sorriso largo e debochado? Será isso prova de liberdade ou de fragilidade? Elas têm de oferecer sua carne nua o tempo todo porque são inseguras? Elas não prometem carinho; prometem "funcionamento". Não é por acaso que são chamadas de "avião" ou de "máquina"... As mulheres brasileiras são amigas ou inimigas dos homens? Por serem oprimidas, é válido que a brasileira use uma estratégia de controle sobre os machos, a sedução pela histeria, pela fragilidade fingida, pela dissimulação da competência? Pode a brasileira "viver sem mentir"? O que é a perua? A perua seria uma conseqüência disso? Quais as categorias de peruas? A perua malvada é o "outro" do machão?... E a bunda? Não merece uma reflexão? As bundas estão virando uma utopia. Não há mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil... Já mostraram o corpo todo, as vaginas, o interior delas... Só restará, um dia, os intestinos... O que mais? A revolução feminista no Brasil será apenas esse strip-tease geral, essa dança da garrafa? O sexo total que nossas gostosas prometem é impossível. Os peitos de silicone estão cada vez maiores, estão virando depósitos de leite venenoso. A libertação da mulher no Brasil de hoje é uma vingança conservadora? Sim ou não? Ou "sei lá"? Ou não é nada disso e minhas críticas não passam do medo de um machista metido a fino? Será que toda essa loucura feminina, essas capas de revista, essas roupas de mau gosto em coquetéis e Caras, esses falsos brilhantes, essas gargantilhas com nome de marido, essas "ladies" querendo ser prostitutas e vice-versa, essas multidões de meninas lindas querendo se salvar pela passarela ou bordel, será que tudo isso, no fim das contas, não vai adoçar uma ordem excludente e discriminatória de séculos, por uma doce miscigenação de costumes e loucuras? Será que isso tudo não é bom? Talvez esteja surgindo no País, com vices e danças do ventre, uma nova política através de olhos femininos. Os homens têm destroçado tudo. Só as mulheres podem nos responder. E salvar. Talvez.

84. ARNALDO JABOR. ENTRE O CELIBATO E O CASAMENTO, O CORAÇÃO BALANÇA. Outro dia, d. Paulo Evaristo Arns declarou-se a favor do celibato opcional para os padres. Mas, seria difícil a vida de um padre casado. Além de servir a Deus, ter de cuidar do lar. Imaginemos um padre casado. - Chegou tarde hoje, hein! - disse d. Silvaneide, mulher do padre, morena, seios fartos, fogosa, ex-dançarina de pagode, depois arrependida, depois beata, acendedora de velas do altar e amante do pároco, hoje casada com ele. - Meu anjo... esta época de Natal é difícil... mais de 30 confissões... - Confissão, o cacete!... Você fica ouvindo aquelas sacanagens ali no confessionário e depois vai se encostar naquela filhinha de Maria que ajuda na sacristia... a tal de Abigail, com aquela carinha de sonsa, beijando sua mão... Não sou cega não, meu filho... - Estava trabalhando por dinheiro... mulher... já entrei no cheque especial... o bispo me prometeu um extra por confissões em cascata... É incrível... os pecados estão mudando... o que tem de corrupção, de cheques sem fundo... Não há mais pureza ou arrependimento... só sexo sem culpa... - É aí que você gosta, não é?... Se excita mais com a "santinha" da sacristia... - Meu bem, nem tenho forças... só penso em você... e nas contas a pagar... - (Chorando) Você não me ama mais... (ela se ajoelha, lágrimas jorram). - Meu amor... nada disso... olha... vamos sair... se eu tivesse dinheiro te levava ao Crazy Love, aquele motel novo... mas... olha, vou mostrar que te adoro, agora!... Vai pro quarto! Prepara-te para receber o sagrado sacramento do matrimônio!... - (Debochada) Que milagre é esse? A gente não transa desde a Páscoa... Agora não quero. Nosso problema é dinheiro... Você podia pegar umas esmolas daquele cofrinho; o sacristão não fazia isso? - Eu sou um servo de Deus! Quer que eu seja ladrão? Acordo às 5 da manhã... às 6 já estou rezando missa. A igreja está quebrada; com a crise, ninguém dá mais esmola... Eu tenho de varrer a sacristia... Vou comprar as flores mais baratas lá no Jacarezinho, de ônibus, para enfeitar os casamentos e batizados, que são as únicas graninhas que eu descolo... e ainda tenho de ouvir os xingamentos do bispo, que está com mal de Alzheimer e pensa que eu sou o Satã... Vive me exorcizando...Você pensa que é fácil? Pensa? Me dá até vontade de voltar ao celibato, ficar trancado na clausura, vendo a Xuxa na TV e chorando pra Jesus... é melhor... Olha, Silvaneide, eu me orgulho de ser honesto!... - Você não é honesto, não... Você é burro. Vamos acabar na rua da amargura... Não estamos mais na época de São Francisco não... É mercado global, meu filho... Era do espetáculo... - Por que os evangélicos estão com esse sucesso todo?... Porque são espertos... descolam aqueles 10 por cento ali dos otários... numa boa... cantam... dançam... Show business! - Ontem mesmo, teu filho falou que... - aliás, ele anda com uns caras estranhos, cabeça rapada, tatuagem... - ele diz que é "anjo do inferno"... Sei lá o que é... Mas ele disse assim, na minha cara: "Papai é otário... Veja o bispo Macedo... tem TV... milhões... tudo... Eu vou entrar para a igreja evangélica... Dá um granão...!" A única pessoa que tem dinheiro aqui é a tua filha... que, aliás, vive em baile funk... diz que é popozuda... não sei onde ela arranja tanta grana... (O padre cai chorando na poltrona esfarrapada com a mola aparecendo). - Deus do céu!... Isto é um inferno!... (soluçando) Ontem cheguei... e a empregada estava cantando uns pontos de macumba com a cozinha cheia de velas... Umbanda na casa do padre? E a vizinhança ouvindo: "Evém, evém, Oxossi atravessando as matas!" Tem cabimento? Despede ela já! - Eu? Despedir?... Nunca!... Empregada boa é difícil de achar... Depois, sei lá, roga aí uma praga... (Ele chora mais alto; ela se condói). - Meu querido... não quero te humilhar não... mas, você tem de ter ambição... Quer ver uma idéia boa? Vamos abrir uma lojinha de objetos sacros... reliquiazinhas... água benta... a gente compra as garrafinhas e você benze... você não pode benzer? Ai, que lindo... a gente ganhava um dinheirão... santinhos... gravuras... CDs de música... - Minha filha... eu não sou comerciante... - Ahh... imagina, querido... uma lojinha linda, cheia de velinhas e, na porta, o nome: "Presentes de Deus". Ou então... o nome em inglês, mais moderno: "God's Gifts"... ahh... Você subiria na carreira; já imaginou você bispo ou... oh, sonho louco!... você, cardeal... Nós dois em Roma... Você todo de vermelho... chiquérrimo... Nós, íntimos do papa?... - Silvaneide... ouve... ouve bem... eu tenho um segredo para te contar... Eu pensei muito, passei noites em claro e resolvi... - Resolveu o quê, vai me largar?... - Não, querida, ouve! (O pobre sacerdote começa a dançar, com os braços para cima e dando pulinhos pela sala). - Que é isso? Enlouqueceu? - Silvaneide... minha filha... bata palmas para Jesus!!! (chorando e rindo) Palmas para o Senhor, Silvaneide... Aleluia!! Estou aprendendo a dancinha do padre Marcelo Rossi!... Olha só... (O pároco-marido pulava e batia palmas, berrando) "Palmas para Jesus... ôôôô... palmas pro Senhor!" A Abigail, que você odeia, está me ensinando... olha só... (E pulava feito uma perereca do Senhor) Palmas para Jesus!!! E, então, d. Silvaneide, ex-pagodeira arrependida e ex-beata apaixonada, viu de novo o seu amor ali, pulando e cantando e agarrou-se feliz ao corpo do padre amado. - Meu amor!... este é meu homem! Vamos vencer! Já te vejo pulando diante de milhares de fiéis... vou fazer uma batina dourada pra você, com uma capa de roqueiro... Meu Rossi, meu Ozzy Osbourne, meu Xandi, meu Zeca Pagodinhho... Deus é mais!!! É , d. Paulo, talvez o celibato seja mesmo melhor que o casamento.

85. ARNALDO JABOR. PEDOFILIA NA IGREJA É CONSEQÜÊNCIA DO CELIBATO. No velho colégio de padres onde estudei, a entrada dos alunos já era um desfile de velada pedofilia. O padre reitor - ah... tempos antigos de batinas negras, rosários nas mãos, panos roxos nos ombros, tristeza infinita nas clausuras - postava-se imóvel, na porta do colégio, numa pose paternal e severa, com os braços erguidos e as mãos oferecidas para os alunos que chegavam. Passavam por ele duas filas de dezenas de meninos, beijando servilmente suas mãos abençoadas. Havia algo de veadagem naquilo, aquela negra batina imóvel, divina, como um manequim, as mãos beijadas com chilreios e devoção por mais de 500 meninos de calças curtas. Eu ainda me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe no dorso cabeludo da mão do padre. Centenas de meninos de pernas nuas eram pastoreados por tristes noviços e "irmãos leigos". Só se pensava em sexo naquele colégio. Eu via as mães dos alunos, lindas, com seus penteados e decotes imitando a Jane Russel ou Ava Gardner, fazendo charme para os padres na força de seus verdes anos, enlouquecidos pela castidade obrigatória. E eu me perguntava: "Meu Deus... por que padre não pode casar?" Lembro-me do tremor dos jovens padres, excitados pelas madames pintadíssimas, indo se trancar em negras clausuras, entregues ao "vício solitário", indo depois bater no peito e chorar sua culpa diante das imagens silenciosas. E esses mesmos padres nos diziam: "Cada vez que você se masturba, morrem milhões de pessoas que iam nascer. É um genocídio!" E nós, além do pecado, sofríamos a vergonha de ser pequenos "Hitlers" de banheiro. Eu pensava: "Por que tanta onda sobre nossos pobres pintinhos, por que essa energia que sinto em minha carne é feia, criminosa?" Vivíamos ajoelhados em confessionários, ouvindo envergonhados a voz e o hálito do triste sacerdote nos sentenciando a dezenas de Ave-Marias e Padre-Nossos. Tudo era sexo no colégio; essa palavra terrível estava em toda parte, como uma ameaça vermelha; o Diabo nos espreitava até detrás das estatuas de Santa Tereza em êxtase, nas coxas dos anjinhos nus, nos seios fervorosos das beatas acendendo velas. A pedofilia na Igreja é conseqüência direta do celibato. É óbvio que se a força máxima da vida é esmagada, a Igreja vira uma máquina de perversões. Claro. E de homossexualismo, visível em qualquer internato religioso. Outro dia, o Contardo Calligaris escreveu com precisão que a pedofilia não está só na carne do jovem assediado; a pedofilia é mais geral, abstrata, no prazer do domínio sobre os mais fracos, na pedagogia infantilizante das jovens "ovelhas" - como nos chamam os pastores de Deus - imoladas em sua inocência. Eu vi o Diabo naquele colégio: rostos angustiados, berros severos e excessivos nas aulas, castigos sádicos, perseguições a uns e carinhos protetores a outros. Eu mesmo fui assediado por um padre famoso (que muitos colegas meus da época se lembram) que era notório comedor de menininhos; ele fazia mágicas e teatrinhos, para ser popular entre os meninos e, um dia, tentou me beijar num canto da clausura. Criado na malandragem das ruas, fugi em pânico. E falei disso em confissão com outro padre, que mudou de assunto, como se fosse uma impressão minha, como se a pedofilia fosse uma prática necessária à manutenção do celibato, exatamente como os cardeais americanos estão fazendo hoje. O problema da Igreja com o sexo leva-a a uma compreensão quebrada da vida, leva-a a aceitar a Aids, a condenar o aborto, o controle social da natalidade e a outros erros maiores - superestruturas dessa falência originária, desse vazio fundamental. Lembro-me da descrição da eternidade no inferno, onde queimaríamos para sempre, sob o garfo dos Diabos, condenados por uma reles punhetinha: "Imaginem que o planeta seja um grande diamante, o metal mais duro do universo. De cem em cem anos, um passarinho vem voando e dá uma bicadinha na Terra. O dia em que toda a Terra for esfarinhada pelas bicadinhas, esse é a duração da eternidade." E eu sofria, me esvaindo nos banheiros, pensando naquele passarinho que bicava o mundo, enquanto eu acariciava o outro medroso passarinho se preparando para uma vida de traumas e medos. O prazer era um crime. A partir daí, tudo ficava poluído, manchado de culpa; a alegria virava falta de seriedade, a liberdade era um erro, as meninas eram seres inatingíveis com seus peitinhos e bundinhas. Até hoje, vivo dividido entre as santas e as "impuras"; quantas dores senti na vida pelo cultivo desses ensinamentos, que transformava as mulheres em perigos horrendos, Liliths demoníacas, tão ameaçadoras quanto o imenso desejo que tínhamos por elas. A mulher, como Eva, era a origem de todos os males. Delas saíam a vida e a morte, delas saía o prazer pecaminoso, o mal do mundo. Esta base criminal gera desde a burca até o strip-tease, numa antítese simétrica. Hoje piorou. O mundo virou uma incessante paisagem de bundas e seios nus, de pornografia na publicidade, que nos espreita no trânsito, nas ruas, na TV. Já imaginaram esses padres vendo a Feiticeira e a Tiazinha, de terço na mão, trancados em escuras celas, sob o voto de castidade? Essa é a minha idéia de inferno. Uma das grandes desvantagens da Igreja Católica diante de outras religiões é o celibato. Daí, em cascata, surgem problemas que justificam a queda do prestígio da Igreja na era do espetáculo e da desconstrução de certezas. Rabinos casam, pastores protestantes casam. Budistas "do it", xintoístas "do it", hindus "do it", mesmo muçulmanos "do it". "Let's do it", pobres padres trêmulos de desejo, no meu remoto passado jesuíta e no presente do sexo massificado.

86. ARNALDO JABOR. EU JÁ FUI O INIMIGO PÚBLICO NÚMERO 1. Vocês já foram o inimigo público um do país? Não? Eu já fui. Em 97, meu chefe sempre presente, Evandro Carlos de Andrade, pediu-me para comentar a festa do Oscar, ao vivo. Fi-lo. E quase fui linchado, como contarei adiante. Em minha pobre vida, tive a experiência de ser cineasta. Passei anos lendo os Cahiers du Cinéma e o Positif, no tempo do "cinema de autor" dos anos 60, época em que criticávamos a linguagem careta de Hollywood e as ciladas que se escondiam por trás dela. Para nós, o cinema americano era o supremo inimigo, agente do imperialismo, correio de mensagens colonizadoras sobre nossa mente, vendedor de produtos de sua indústria, narrador superficial dos movimentos da alma, propagandista do sonho americano, sonegador da verdade da existência pelo happy end obrigatório, maniqueísta do sim e não, do bem e do mal, do bad guy e do good guy. Passaram os anos... e eu continuo pensando a mesma coisa. Apenas relativizei o lado "maligno ideológico" deles. O que eles sempre quiseram é dinheiro, do nosso mercado interno, claro. O resto eram fantasmas da guerra fria. De modo que, quando o Evandro me chamou para comentar o Oscar, eu disse: "Vou esculhambar... hein." E ele: "Fale o que quiser." Podem perguntar a ele pelo e-mail interestelar. E lá fui eu comentar o Oscar, para todo o território nacional. Ao vivo. Trancados numa salinha da TV Globo, íamos comentando, Renato Machado, Rubens Ewald e eu. Nossos únicos espectadores visíveis eram os técnicos, os cameramen nos olhando. Comecei dizendo que achava o Robin Williams um canastrão de quinta. Os técnicos riam e faziam sinais de "positivo" com o polegar. Pensei: "Estou agradando, estou conscientizando o povo brasileiro sobre as mentiras da linguagem de Hollywood." Aí, fui me animando e resolvi tacar fogo na festa das estrelas. Sentia-me onipotente, desconstruindo a maciça propaganda americana, vingando Glauber contra o monstro ianque. Debochado, falei que o Titanic, que estava ganhando todos os prêmios, era um abacaxi, que o filme só merecia o Oscar de melhor engenharia naval, falei que o Leonardo DiCaprio era meio babaca e afrescalhado, que aquela menina do filme era gordinha e chata. Os negões da técnica rolavam pelo chão e eu nem percebia a sombra de preocupação nos olhos de Renato Machado. E fui em frente, cada vez mais ousado. Falei que o único filme que merecia algo era o Kundum, do Scorcese, filme chatérrimo, mas "de arte", falei que o James Cameron era ridículo quando berrou "I am the king of the world", em suma, me embalei na função "revolucionária" de salvar a mente dos brasileiros que estavam em casa, tomando cerveja, de bermudas, com os amigos, deliciados com a festa máxima do luxo yuppie no dourado pavilhão Dorothy Chandler, o Olimpo do sucesso universal invejado por todos, onde as estrelas cintilam, diante das bocas abertas de fascinados brasileiros. E critiquei tudo, o Billy Cristal, as piadas felizes de um povo rico, enquanto o Ewald me olhava com a condescendência sombria que dedicamos a bêbados arruaceiros. Acabou o programa e eu, herói, me ergui, feliz de minha tarefa "desalienante". Eu estava vingado daqueles que tomavam nosso mercado e não compravam nossos filmes. Foi quando começaram a chegar os e-mails para a Globo. O mais respeitoso começava com "Ao canalha Jabor..." Ainda assim, me sentia um Sansão atacado por filisteus feridos de morte. "Os inteligentes me saudarão", pensei. Mas os e-mails, telefonemas, faxes aumentavam, todos numa assustadora unanimidade crítica. "Amanhã serei elogiado nos jornais...", pensei, enquanto Ewald e Renato se enfiavam pelos corredores, pálidos. Ainda assim, fui para casa na madrugada com a agridoce sensação de ser um polêmico artista dividindo as opiniões do povo. No dia seguinte, oscilavam torres de e-mails na redação, vindos do País inteiro, dirigidos até a família Marinho, todos pedindo minha cabeça: "Despeçam o sem-vergonha, ponham esse rato no olho da rua!" "Como pode ele chamar o grande Robin Williams de canastrão?" Esse era meu supremo crime. Parecia que eu tinha dito que Cristo não era filho de Deus. Eu era o inimigo do povo, de Ibsen, eu era Al Capone, o Cara de Cavalo, eu era o Collor no impeachment. Nas ruas, transido de vergonha, me esgueirava por becos e esquinas. Os mais tímidos apenas me apontavam de longe. Um sujeito grandão se aproximou, me segurou pelo braço: "Cara, eu tenho cara de burro?" "Não...", balbuciei. "Então tu vai me explicar por que o Titanic é uma bosta..." Descobri aterrado que o "espectador brasileiro" não existia mais. Todos eram americanos. Corro para casa e vejo no computador que tinham aberto um site chamado: "Eu odeio o Jabor." Corri a amigos meus, minhas filhas, mas percebia que, sob as palavras de consolo, rolava uma vaga hipocrisia, jazia a concordância com a opinião geral. Eu me consolava pensando: "Essa depressão é boa para diminuir meu narcisismo... Bem-feito, seu mascarado!..." Até hoje, de vez em quando, alguém toca nessa ferida aberta. Por isso, jamais comentarei o Oscar. Direi apenas, do fundo de minha miséria, meus favoritos do Oscar. Eu vos escrevo do passado. Hoje é sabado e vocês estão me lendo na terca-feira, aí no futuro. Vamos ver se eu acertei. Melhor filme: Moulin Rouge, apesar do clima de clipe. Melhor ator: Sean Penn, perverso, rico, profundo. Melhor atriz: Judy Dench. Melhor diretor: David Lynch, por Muholland Drive. Será que acertei algo? Acho difícil. Afinal, eu não passo de um invejoso cineasta comuna dos anos 60, de um pobre país importador de imagens e exportador de aço, laranjas e sapatos sobretaxados nos Estados Unidos.

87. ARNALDO JABOR. GLAUBER: A ROCHA QUE VOA NUM LABIRINTO. Há 21 anos, Glauber Rocha nos deixou, no dia 22 de agosto. Eu nunca tinha visto alguém morrendo, nunca vira o momento misterioso da passagem. Em volta da cama de sua agonia, os amigos se agarravam como náufragos nas bordas de um barco que ia partir. Estávamos assustados, porque o Glauber era o pulmão por onde respirávamos, o coração que batia por nós e que agora fraquejava. Ele estava ali, ignorando-nos, concentrado não sei em que filme interior, em que roteiro para as estrelas. Parecia mesmo um astronauta, coberto de fios e tubos de respiração. Subitamente, Glauber se ergueu, como se fosse acordar, ressuscitar, como num milagre. Mas era a última convulsão e ele se aquietou e flutuou para longe. Vocês, jovens que me lêem, podem pensar: "Deixe de idealizações com esse tal de Glauber... Afinal de contas, todo mundo morre..." Mas, não é literatura; morria ali a mais rica síntese das idéias de uma época brasileira: melancolia com esperança, a romântica fome de salvar o País, unindo poesia e política. Esta semana surgem dois filmes sobre o nosso "profeta alado": o filme de Silvio Tendler, O Labirinto Glauber, e o documentário de seu filho, Eryk, A Rocha Que Voa. Neles se vê muito dessa fome de entendimento e salvação, que os garotos de hoje não têm mais, por sabedoria e... ignorância. "O sujeito que morre fica logo desinformado...", pensei, ao sair da Clínica Bambina, quando ele morreu e eu vi que o "incessante e vasto universo" continuava mudando, ali em Botafogo, menos o Glauber, coitado. Glauber, desinformado como todo morto, não soube da democratização de 85, não soube de Tancredo, nem de Sarney, nem de Collor, nem daquele que Glauber apelidara de "nosso Errol Flynn", FHC, "o príncipe da sociologia", com uma ponta de ironia. Glauber preferiu morrer, porque sacou que seu desejo de absoluto era impossível. Ele percebeu que não ia suportar o mercadinho em que nos vendemos, não ia suportar a mediocridade anunciada em suas antenas de profeta. "Ahh... loucura..." - dirão os analistas -, "ele tinha um narcisismo patológico, fazia uma idealização da revolução..." Tudo bem... mas ele conseguiu momentos em seus filmes em que a arte parece tocar o real na tela. Em Deus e Diabo e Terra em Transe ele conseguiu explicar o Brasil. Há o momento seminal de Terra em Transe, onde ele sintetiza as forças brasileiras que estão além da mera luta de classes, as oligarquias com sua cobiça e sua estupidez. Ali, no clímax da zona geral, o povo dança e canta entre ladrões, pelegos , demagogos, polícia, Igreja, bacharéis, prostitutas, todos num emaranhado barroco que culmina com o Jardel Filho tapando a boca de um sindicalista burro e falando para a tela: "Vocês já imaginaram o 'povo' no poder?" Foi a maior porrada na sociologia simplista dos derrotados de 64, o que lhe valeu o ódio eterno daqueles que vêem os pobres como uma divindade intocável e não como destituídos e manipulados. Daquela seqüência, saíram o teatro de Zé Celso e o tropicalismo, se bem que Caetano já era um prenúncio pós-moderno e Glauber, o último dos torturados "modernistas". Naquela seqüência de Terra em Transe, estava o País de hoje, nessa suja orgia pré-eleitoral. Seus filmes trouxeram a idéia da complexidade contra os dualismos fáceis. Ele não era o guerreiro radical que pensam hoje. Ele trouxe a sobredeterminação, a dúvida para as certezas fáceis, o choque dos contrários. Quem fez isso antes? Ele foi o primeiro a apontar as razões da derrota em 64, ele foi o primeiro a falar em alianças, e teve a coragem de tentar (oh, ingênuo patriota...) cooptar o poder militar para um projeto nacional. Desesperado com a burrice das esquerdas, paralisadas por dogmas, tentou o saudável sacrilégio de imaginar uma adesão de militares para a abertura que vinha com Geisel, para além de qualquer vitimização rancorosa e masoquista. As patrulhas só faltaram empalá-lo como 'reacionário', 'adesista', logo ele, que buscava uma saída qualquer para a ditadura e o subdesenvolvimento. O que morreu com o Glauber? É difícil explicar para os jovens do mercado. Antes, lutávamos contra uma realidade complexa (que subestimávamos), sonhando com uma solução utópica e totalizante. Era o 'uno' contra o 'múltiplo'. Hoje, é o contrário; esboça-se entre neo-revolucionários uma luta que é diversificante, contra o totalitarismo das corporações capitalistas. Hoje, a luta é para dissolver, não para unir. Agora, os novos combatentes não sonham com o absoluto; sonham com o relativo. São defensores do vazio, da ecologia, da cultura não-descartável, do inútil, do que não é 'mercável'. Eles lutam contra inimigos sem rosto: a eficiência corporativa, a abolição do humano pela máquina (a máquina como o homem produtivo perfeito). Hoje, o inimigo principal não é mais a 'burguesia' gorda e fumando charuto; o inimigo é um método empresarial. Antes, as esquerdas pensavam em unidade. Hoje, o capitalismo corporativo é que almeja uma 'unidade'. Glauber não desejava uma revolução simpática, para dar comidinha aos pobres. Ele queria um terremoto épico, cheio de som e fúria, com explosões de tragédias e apoteoses, ele queria uma revolução que esmagasse a mediocridade, uma celebração do impossível e não a prudente organização social apenas. Hoje, o Brasil está parecidíssimo com Terra em Transe. Glauber era uma espécie de Rimbaud, buscava uma felicidade social imensa, queria, como ele, "olhar o céu e ver praias infinitas cobertas de brancas nações em júbilo!". Por isso, não havia lugar para ele no mundo. O protagonista de Terra em Transe diz: "A poesia e a política são demais para um homem só." Mas, mesmo sabendo disso, Glauber tentou até o fim. E morreu disso.

88. ARNALDO JABOR. GOLPISTAS QUEREM PROVAR QUE DEMOCRACIA É IMPOSSÍVEL. Diante do golpismo descarado que assola o país, eu te digo: se o projeto de reformas administrativas e técnicas que este governo tentou implantar não se concluir, se a sabotagem chamada "oposição" conseguir reverter a busca de um mínimo de racionalidade econômica, dentro de algum tempo, estaremos à beira de uma ruptura institucional, com a destruição dos fundamentos da economia e a volta da velha zona geral brasileira. Em psicanálise, sabe-se que a dificuldade de curar um neurótico é que ele "deseja" o mal que o aflige. Estamos assistindo a um caso de brutal "resistência" ao projeto do governo FHC, que quis fazer uma revolução possível nas estruturas absurdas do Estado brasileiro. O ódio vai mais além de FH. Odeiam a agenda que ele pretendeu e que, talvez, morra na praia. O precário imaginário político brasileiro, a soma de seus cacoetes, ilusões, preconceitos, esse imaginário feito de restos de getulismo, de um udenismo-leninista em coalizão com o fisiologismo das oligarquias, esse ensopadinho ideológico está deflagrado num vale-tudo contra a mudança de um país patrimonialista em um país mais moderno. É contra isso, contra seu programa, e não apenas contra o presidente, que se insurge o golpismo atual, com a opinião pública manipulada pelos líderes e a mídia espetaculosa. O símbolo dessa reação é ACM, que chega a ter a importância sociológica de ser a síntese viva da resistência patrimonialista. ACM comanda há meses (com sucesso) a transformação do país numa "chacrinha". Há meses, estamos paralisados, assistindo às diabruras desse delinquente tardio. E ele expressa com clareza o que desejam os seus seguidores: permanência do coronelismo, provocação à democracia, cooptação da ignorância do povo contra qualquer racionalidade reformista. É incrível, mas ele disse, há pouco, literalmente: "Esperem para ver o que vou fazer com esse país...". E, mesmo assim, é visível nas entrelinhas que vários jornalistas têm uma fascinação secreta pelo seu autoritarismo machista. O que eu acho assustador é que ninguém se toca para a delicadeza do momento histórico que vivemos. Ninguém pensa no fio de navalha econômica em que andamos, entre crises nossas e dos outros, como Argentina, Alca, Turquia... Falam de politica como se cuidássemos da substituição de um gabinete por outro, como se estivéssemos na Suécia. O grave é que os fundamentos de nossa economia é que estão em jogo. A desinformação popular, alimentada pelos golpistas, acha que o problema do governo é a "corrupção", existente há 400 anos e que só a democracia fez aparecer. Dizem que nosso problema é "moral", tudo "culpa do FHC", esquecendo-se do Congresso, do Judiciário e das burocracias. Fazem o alarmismo de bobagens, só apontam detalhes "micro" para impedir qualquer mudança "macro". O vexame simplista da menina presidente da Ubes, mostrando a bunda (provavelmente posará para "Playboy"), é emblemática: "Mostrei a bunda para mandar o governo para o espaço". A oposição está conseguindo isto: caçar o FHC, concentrar tudo nele, para esconder que o alvo é seu projeto. Entrementes, o cartola paulista e ex-secretário de Justiça do Quércia (!), este Approbato da OAB, usa o protocolo para insultar um homem decente, para aparecer e também porque os advogados estão irritados com as MPs, pois elas prejudicam os gordos honorários das desapropriações contra o Tesouro. Enquanto isso, o "Jeca Tatu" fascistóide Itamar avisa que vai pedir moratória de novo, para inviabilizar a economia; enquanto isso, o PT, numa "bandeira" explícita, mostra seu desejo e programa no horrendo filmete "ratos roendo o Brasil"; enquanto isso, os acadêmicos ressentidos vão saindo da toca para babujar truísmos sobre "neoliberalismo e correlação de forças", e um professor como Francisco de Oliveira, de pijama em casa, acusa José Serra de ser ligado a "esquemas internacionais", ele, que acaba de vencer batalha na ONU sobre o poder americano dos remédios, reconhecido como vitória pelos jornais do mundo todo. E, extraordinário: sabota-se durante anos o governo, infernizando-o com provocações sem fim, para fazer soçobrar qualquer tentativa de racionalidade e, quando o governo começa a soçobrar, acusam-no de "soçobrar"... Eu achava que o período Collor nos teria ilustrado para a necessidade de reformar estruturas que estimulam o caos, a loucura de um Estado falido e ineficiente. Não. Compreendem-no apenas como uma vitoria da "moralidade". As forças da "frente única oligarquias-ideologias" estão lutando para reconstruir o mesmo Brasil que permitiu o surgimento de Collor, que permitiu a anomia flácida com inflação de 80% ao mês do governo Sarney e, antes, o golpe de 64. Querem a volta do Brasil iludido, sem projeto, porque atraso e zona dão lucros ideológicos e fisiológicos. E melhor para roubar o Estado e propagar utopias ridículas. Há no golpismo instalado mais do que o ódio a FHC. Há o desejo de provar que a democracia é impossível aqui. Repito o que disse no início: se não houver adequação do Brasil à realidade econômica mundial, se a racionalidade que este governo tentou for substituída por um nacionalismo jeca ou pela burrice ideológica das oposições sem programa, em pouco tempo teremos a quebra do país e a volta de um autoritarismo de direita, como foi em 64. E, como ninguém segura a força da economia mundial, veremos que, fragilizados, falidos, nossa possível adaptação crítica ao mundo globalizado será substituída por uma dependência imposta, uma satelitização do país ao capital dominante e aí, sim, aí veremos (oh, babacas do meu Brasil!) o que é o neoliberalismo selvagem e a desconstrução de uma nação.

89. ARNALDO JABOR. O AMOR ATRAPALHA O SEXO. Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calçadão do Leblon. "Teu artigo sobre amor deu o maior auê..." - me diz uma delas. "Aquele das mulheres raspadinhas também... Aliás, que que você tem contra as mulheres que 'barbeiam' as partes?" - questiona a outra. "Nada... - respondo - acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas 'partes' dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney - lembram um sarneyzinho vertical nas mmodelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo..." Uma delas (solteira e lírica) me diz: "Sexo e amor são a mesma coisa..." A outra (casada e prática) retruca: "Não são a mesma coisa não..." "Sim, não, sim, não" - nasceu a doce polêmica ali à beira-maar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas sua opinião. Ninguém sabe direito. As duas categorias se trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ninguém sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais "sutis" defendem o amor, como algo "superior". Para os mais práticos, sexo é a única coisa concreta. Assim sendo, meto aqui minhas próprias colheres nesta sopa. O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo. Sexo é contra a lei, no fundo de tudo. O amor depende de nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre sem tesão. O sexo é um desejo de apaziguar o amor. O amor é uma espécie de gratidão à posteriori pelos prazeres do sexo. O amor vem depois. O sexo vem antes. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha; só as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo só pensa em proibições; não há fantasias permitidas. O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo é um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos. Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão de domicílio. Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em "doação". Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também - tudo dependendo das posições adotadas. Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do "outro"; o sexo, no mínimo, precisa de uma "mãozinha". Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mais sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não - é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes é uma masturbação. Sexo, não. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós. O sexo vem dos outros. Não somos vítimas do amor; só do sexo. "O sexo é uma selva de epilépticos" (Nelson Rodrigues) ou "o amor, se não for eterno, não era amor" (NR). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói - quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: "Faça amor, não faça a guerra." Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas... O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu - das cavernas do paraíso até as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século 12 e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem - o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção, sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias. Não há "saunas relax" para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um "amorzinho" para iniciar. O amor está virando um hors-d'oeuvre para o sexo. O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor busca uma certa "grandeza". O sexo sonha com as partes baixas. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há "sexo seguro", mas não há camisinha para o amor. O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo o sonho dos casados. A (O) amante sacia nossa fome de verdade, mata nossa nostalgia da animalidade. Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente no ciúme (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor é de direita. Sexo de esquerda (ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta). E, por aí, vamos. Sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte. Ou não; sei lá... e-mails de quem souber para a redação.

90. ARNALDO JABOR. OS CANIBAIS QUEREM SER RICOS E COMER BEM. Não agüentei e fui ver o filme Dragão Vermelho, com o meu querido canibal Anthony Hopkins. O filme é ruim, claro, bem pior que o ótimo Silêncio dos Inocentes. Mas o Hannibal Lecter é um ponto luminoso da moderna galeria de personagens; não só pela idéia de um canibal civilizado mas com o valor agregado pela personalidade de Hopkins, que conhece a milimétrica arte de parodiar a sofisticada frieza dos atores ingleses, da sinistra gentileza, do inquietante aristocratismo do mal. Fui ver o filme também porque sinto no ar uma moda de psicopatia, na onda de criminosos que está rolando no Brasil. E não falo dos crimes sujos, "explicados" pela miséria e ignorância; falo dos crimes "limpos", como os de Suzane e de Vilma ou dos rapazes que alegremente assassinaram o garçom ou dos outros que mataram o pataxó, ou dos cruéis Avelinos ou de tantos outros. O que nos fascina no Hannibal é o que nos exaspera em Suzane ou na Vilma do Pedrinho. Nos dois casos, o crime é praticado sem resquícios de sentimento de culpa, planejado com carinho e não conseguimos entender como agiram sem sofrer. Suzane não está chorando pela mãe e pai; está chorando por si mesma, chorando pela vida infernal que terá. Vilma, pelo que mostra a polícia, organizou uma família como se fosse ao supermercado, pegando bebês na prateleira, para conquistar um marido. Todos não hesitam em matar ou roubar para viver bem, conquistar filhos, maridos ou heranças. Os canibais querem viver bem. No Brasil, os psicopatas estão na moda, está na moda a gélida contemplação da morte, ignorando-se totalmente a existência do "outro". Por isso, Hannibal Lecter é uma rica metáfora da ética fria que se instala no mundo. Hopkins criou uma figura que nos fascina como poucas no imaginário neste século 21 que alvorece. Hannibal é inteligentíssimo, ninguém comete crimes com mais finesse que ele. Hannibal busca quase uma forma de arte, praticada com maestria na devoração e no assassinato. Diante de Hannibal, todos nos sentimos antigos, caretas. Ele tem algo de Sade, de sua perversão iluminista, a geometria da crueldade, o rigor estético com o mal. Há, como em Sade, o desejo de refutar a moralidade tradicional, de ir além do permitido, de provar a hipocrisia do bem. Os filmes violentos são em geral hipócritas na sua defesa do bem. Os brutamontes que lutam pela nossa moralidade, como Van Damme e outros, são hipócritas, pois seus filmes são oportunistas que, a pretexto de denunciar o mal, propagam-no com sangue jorrando, com o prazer americano pela violência, mas que, em geral, acaba em happy end moralizante. E o mal denunciado pelo bem acaba gerando milhões nas bilheterias do mundo. Hannibal ama o mal e, de certa forma, nos denuncia no escurinho do cinema, onde temos a rara oportunidade de torcer pela vitória do perverso. Há até mesmo um "reformismo" moral na crueldade de Hannibal. Hoje, não temos mais medo de fantasmas e múmias, nem o pavor fascinado pelos vampiros góticos, personagens do romantismo. O vampiro era uma homenagem ao amor sublime, a uma sexualidade agônica, quando os escravos da paixão ansiavam pelo êxtase da dentada no pescoço. Com Hannibal não há a nostalgia triste dos vampiros. Hannibal quer exterminar os medíocres e, espantosamente, sonha com um mundo belo. Ele despreza suas vítimas, em geral idiotas e sicofantas, mas Hannibal sempre corre o perigo de se apaixonar por alguém, que ele poupa por uma estranha "piedade" culta. A leve carícia que ele fez atrás das grades, na mão de Jodie Foster, no Silêncio dos Inocentes, é um brevíssimo e belo gesto de amor. Hannibal é terrivelmente contemporâneo; ele é como um prenúncio do homem que virá no século 21, como uma fresh mutation, a mutação de uma moralidade feita de impiedade e pragmatismo. Ele nos acena com um terrível futuro primitivo, que nos dá medo e desejo pela volta de uma animalidade perdida. É como se ele dissesse: "Nenhum saber, nenhuma ética, nenhuma religião vai apagar o animal feroz que há em nós. A humanidade é um caso perdido e eu sou a prova disso. E isso nos dá um alívio cínico." Estamos cada vez mais sozinhos, como Hannibal. Somos cada vez mais pequenos canibaizinhos light, na corrida desumana de devorar concorrentes e de consumir sem parar. O canibalismo social está por baixo de nossos desejos. Queremos amar sozinhos, vencer sozinhos, devorar o mundo como devoramos sushis em balcões yuppies, queremos nos apropriar da vida ferozmente, sem competidores. Quando falamos em "comer" mulheres ou homens, sonhamos com uma sexualidade canibal livre dos problemas do amor. Homens e mulheres só valem por seus corpos e não mais por seus sentimentos e ficam se oferecendo completamente nus como pedaços de comida em prateleiras. Cada vez somos mais como ele, no darwinismo social que se instala. Para sobreviver, precisamos "não ver" o sofrimento dos outros, a injustiça e a desigualdade. Queremos ser tocados pela graça da impiedade. Daí, o fascínio do assassino que Hopkins inventou. Nada mais atraente que a psicopatia elegante. Todos queremos ser como Hannibal, tocados pela graça da frieza, longe de uma arcaica compaixão. O que nos fascina no personagem de Hopkins é que ele parece estar mais além de uma moral antiga e que ele contempla, do outro lado do Bem, uma nova realidade. Hannibal parece saber mais do que nós, que ainda vivemos mergulhados em dúvidas morais e culpas. O canibal e doutor Hannibal Lecter nos olham do futuro. Os crimes frios são o prenúncio dos futuros extermínios de massa. Que estão a caminho.

91. ARNALDO JABOR. O APAGÃO PODERÁ NOS TRAZER ALGUMA LUZ. Nossa ilusão de Primeiro Mundo nos caiu por terra. Não tivemos guerra, não tivemos revolução, mas teremos o apagão. O apagão vai ser uma porrada na nossa auto-estima, mas terá suas vantagens. Com o apagão, ficaremos mais humildes, como os humildes. A grande onda narcisista da democracia liberal ficará mais cabreira, as gargalhadas das colunas sociais ficarão menos luminosas, nossas dentaduras menos brancas, nossos flashes menos gloriosos. Baixará o astral das estrelas globais, dos grandes comedores, as bundas ficarão mais tímidas, os peitos de silicone menos arrebitados, ficaremos menos arrogantes dentro da escuridão que se abaterá em nossas vidas de classe média. Há algo de castigo de Deus nesta porra toda, pois ficaremos mais parecidos com as periferias, para quem sempre houve o apagão de vidas e sonhos, haverá algo de becos escuros, de becos sem saída, de favelas tristes, haverá um baque em nosso egoísmo, nossas peruas e nossos cafajestes terão de maneirar um pouco. A euforia de Primeiro Mundo falsificado cairá por terra e dará lugar a uma belíssima e genuína infelicidade. O Brasil se lembrará do passado agropastoril que teve e que, escondidamente, ainda tem; teremos saudades do matão, do luar do sertão, da Rádio Nacional, do acendedor e lampiões de rua, dos candeeiros, das lâmpadas de carbureto dos carrinhos de pipoca, lembraremos das tristes noites dos anos 40, como das noites dos blackouts da Segunda Guerra, mesmo sem os submarinos, sem os navios alemães, apenas sinistros assaltantes nas esquinas apagadas. O apagão nos lembrará dos velhos carnavais: 'tomará que chova três dias sem parar' ou: 'Rio, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz!' Lembraremos dos velhos discos de 78 RPM, dos cantores com som precário, das TV's preto e branco, de um Brasil mais micha, mais pobre, cambaio, troncho, mas bem mais brasileiro em seu caminho da roça, que o Golpe de 64 interrompeu, que esta mania prostituída de Primeiro Mundo matou a tapa. Há algo de maldição nisso tudo, castigo pela destruição de Sete Quedas, o preço a pagar pelos demônios ecológicos de Itaipu, de Tucuruí, do tal "Brasil-Potência", das grandes hidrelétricas arcaicas já na época que se sabia da melhor utilidade das pequenas usinas e de outras fontes de energia. Lembraremos de Geisel, de Médici, dos milicos que nos marcam a vida até hoje, nos entregando uma democracia de caixa quebrada, nos lembraremos também dos canalhas que pilharam o Tesouro, com sua fome de 20 anos, dos corruptos, das instituições vagabundas que nos ajudaram a falir, nos obrigando a um ajuste fiscal desumano, nos obrigando a uma governança miserável, sem desenvolvimento, sem projeto, limitada a arrumar as contas da falência. O apagão nos mostra que somos subdesenvolvidos sim, que toda esta superestrutura de delírios modernizantes está em cimade pés de barro. O apagão é um upgrade nas periferias, nos "bondes do Tigrão", no mundo funk, nos lembrando da escuridão física e mental em que eles vivem, do lado de fora de nossas cercas e avenidas iluminadas. O apagão nos fará mais pensativos, mais metafísicos, mais conscientes de nossa pequenez no mundo. Não temos terremotos e vulcão, mas temos o apagão. Seremos mais poéticos, olharemos as noites estreladas e pensaremos: "a solidão dos espaços infinitos nos apavora", como disse Pascal ou ainda, se mais líricos, recitaremos Victor Hugo: "a hidra-universo torce seu corpo cravejado de estrelas..." O apagão nos fará pensar em Deus; não este "deus" das classes médias, da missa de domingo, sempre pedindo amor, saúde e dinheiro, nem do "deus" das universais dos 10% para os bispos da TV, mas o Deus-natureza que tem uma vida própria, um ritmo seu, o Deus-universo que despreza nosso progresso dependente. O apagão nos dará medo de um grande flagelo que poderá nos fazer migrar das grandes cidades, deixando para trás as avenidas paulistas secas e mortas. O apagão nos fará entender a vida dos flagelados do Nordeste, que sempre olharam o nosso lindo céu de anil como uma ameaça. O apagão nos fará contemplar o azul sem nuvens, pois aprendemos o que a natureza é quando não obedecida e respeitada. O apagão nos fará mais parcimoniosos, mais respeitosos, mais públicos, e acreditaremos menos nos arroubos de auto-suficiência. O apagão vai dividir nossas vidas de novo, em dia e noite. As noites e os dias serão nítidos, sem esta orgia de luzes que a modernidade celebra para nos fascinar como diamantes sobre o pano negro de sujeira, que nos fazem esquecer as cidades que, de perto, são feias e injustas. Vai diminuir a féerie do capitalismo enganador. Vamos dormir melhor com o apagão, talvez amemos mais a verdade dos dias e menos a mentira das noites. Acabará a ilusão de clubbers e plyaboys que terão medo dos "manos" em cruzamentos negros e talvez o amor fique mais recolhido, mais sussurrado, mais trêmulo e desamparado. Talvez o sexo se revalorize como prazer calmo e doce, talvez fique menos rebolante e varaz. Talvez aumente a população, com a diminuição das diversões eletrônicas noturnas. O apagão nos fará mais inseguros na rua mas, talvez, mais amigos dos lares e bares. Estaremos de volta a nossa Idade da Pedra, aos fundos de caverna onde nós, macacos, nos protegíamos, mais solidários, com pavor das grandes feras. Finalmente, o apagão nos fará masi perplexos, pois descobrimos que o Brasil é mais absurdo que pensávamos, pois nunca entenderemos como, com três agências cuidando da energia, o governo foi pego de surpresa por essas trevas tão longamente anunciadas. Só nos resta o consolo de saber que, no fim, o apagão vai nos trazer alguma luz sobre quem somos.

92. ARNALDO JABOR. O DIA EM QUE O RIO DE JANEIRO SE SUICIDOU. Agora, o mal já está feito. O Estado do Rio elegeu Rosinha para o governo, Sérgio Cabral e Mário Crivelllo para o Senado e na Assembléia Estadual pulularão os mesmos micróbios populistas e corruptos de sempre. Não adianta chorar pelo chopinho derramado, como fazem sempre os cariocas. Seremos governados por um casal "peronista" tardio, misturado a um Jesus político, enquanto em Brasília o neochaguismo nos representará no Senado. Assistiremos agora, reclamando do destino, à destruição do Rio. Por que esse tradicional "dedo podre" dos cariocas para o voto? Lembrem da lista de nossos governadores dos últimos 30 anos. Como explicar isso, se somos os "malandros", os bons de cintura, os "bambas do samba"? Por que, em São Paulo, o Maluf foi expelido, Quércia também, por que Íris Resende, Collor, Newtão, Gilberto Mestrinho, Augusto Farias e tantos outros foram jogados para correr e o Rio ficou com o atraso? Por que a elite pensante do Rio, os cientistas políticos que vivem com o olho grudado no Bobbio ou no Bourdieu não viram nada? Ninguém acionou o alarme? Acho que o Rio é uma "cidade partida" sim, também na consciência política. No mundo da periferia, o carioca vive mergulhado na ignorância e na pobreza. Coitados - como vão entender os demagogos que lhes dão esperanças, como vão saber dos fariseus? Como? Mas, a outra parte é a dos "inocentes do Leblon", dos garotos de Ipanema. Esses é que permitiram a "resistível ascensão de Rosinha", somados ao grande rebanho de uma classe média de gravata que vive clamando por um vago udenismo, trêmula de medo e de insegurança, com ideologias ralas que não vão além de "o governo é culpado" ou "tudo isso aí é uma vergonha..." Ninguém sabe nada de política que se resume aqui, no "sal céu sul", num vago Fla x Flu de botequim. Deve ser a velha tradição cartorial, de funcionários públicos da velha capital da República, onde a política se traçava nos balcões mercantilistas, nos interesses dos negreiros e cafeicultores, na simbiose patrimonialista dos donos do poder, criando esse desalento, esse desinteresse pela luta política, porque o clientelismo a tornava inglória. Ficou esse cacoete da República Velha, uma estirpe de burocratas oportunistas enrolando os cidadãos, ficou a visão de que política é atividade "deles", dos poderosos do "café com leite". Foi-se a capital da República e só ficou a pose de um antigo poder que se esvaiu, sem base concreta. A política como oposição de interesses em luta, como defesa social, não atrai a população. Os grandes gestos abstratos sim, as bandeiras utópicas, passeatas heróicas, tudo bem, isso fazemos, mas sempre a posteriori, depois das causas perdidas. No Rio, também, o capitalismo é ralo; não tem a seriedade produtiva e voraz de São Paulo, que gerou inclusive o PT, no seio das fábricas do ABC. Onde o nosso ABC? A resistência a Rosinha surgiu num botequim, o Bracarense (com bom chope e empadinhas, sem dúvida), num movimento tardio. Aí, não adiantava mais. Fazemos política de botequim, o que me lembra a frase de Oswald, que parafraseio por ser apropriada para nós: "No Rio, o contrário da burguesia é a boemia; em São Paulo, é o proletariado." Fomos a pátria da esquerda festiva, do intelectual de bar, dos assinantes de manifestos inúteis. Estamos sempre prontos para marchas pela paz, todos de branco, gritando "Viva Rio!", apelando para quem? Para Deus? Para Iemanjá? Quem? Para a cordialidade dos criminosos? Assim como temos uma visão idílica da cidade, temos uma visão pejorativa da política - "coisa do povo". Os homens espertos como Garotinho e, antes dele, como Chagas Freitas, vão se banhar nesse piscinão de votos desesperados das periferias. A desatenção do carioca com a política real é tanta que somos pegos de surpresa em golpes como fomos em 64, comemorando a "vitória" do socialismo meia hora antes da chegada dos tanques de direita de Minas. Aí, choramos. A facilidade com que a Rosinha foi eleita é igual à facilidade com que um boato fechou a cidade. De repente, nos descobrimos desamparados, medrosos, desunidos por um boato. O fato político surge como um acidente, um susto na paisagem. E, agora, estamos diante de um projeto de desconstrução da cidade, com a porta aberta para a entrada de um neopopulismo sórdido, que pode desestabilizar o resto do País no futuro. É inacreditável que os intelectuais, acadêmicos, artistas e formadores de opinião, preocupados apenas em manter limpas suas consciências ideológicas, tenham se esquecido de combater essa terceira via terrível do populismo carioca, essa grave anormalidade sociológica que nos acometeu. Esqueceram-se de ajudar a Benedita, essa mulher corajosa que fez as únicas ações eficazes contra o tráfico. A desconhecida Solange (que o PSDB apoiou de afogadilho para o Serra ter palanque) e o pálido Jorge Roberto se ocuparam em atacá-la, deixando o cabelo chapinha de Rosinha intocado. Agora, chegou a hora do lamento, dos porres pessimistas: "O Rio não tem mais jeito... Ahhh... Vamos beber!" Sempre vemos as tragédias "depois" , como só agora descobrimos as favelas, que eram "líricas" e esquecidas no passado, ao som do samba, sem armas. Agora, elas têm emprego: a cocaína. Tarde demais, doces malandros otários. A paisagem nos aliena, a praia nos aliena, a beleza cultural nos aliena. Nós nos achamos "acima" do País, donos de uma ginga superior. Só pensamos em polícia, nunca em política. E o tráfico é um caso de política. Beira-Mar sabe bem disso. Quem precisa de educação política não são os populares pobres que elegeram o neopopulismo; são os privilegiados da zona sul que nada fizeram para impedi-lo. Os alienados somos nós, gente boa...

93. ARNALDO JABOR. OSAMA DIZ: MANDEI O BUSH DESTRUIR O OCIDENTE. Meus queridos irmãos: aqui, reunidos nessa caverna, podemos conversar em paz, em nome de Alá, que nos deu a felicidade de travar essa guerra santa contra os cães infiéis do mundo todo. Estamos no caminho certo, queridos irmãos, pois Alá me deu a luz de uma grande idéia: lancei os aviões americanos contra a própria América e agora estou lançando o Bush para destruir o Ocidente. Alá seja louvado, pois o Bush está fazendo tudo que eu quero, de certo modo ele me obedece, pois, com a ajuda de Alá, ele segue direitinho o meu script, minha ordens. Obcecado por se vingar de mim, ele está, na verdade, hipnotizado por meus desejos. Bush é meu escravo. É meu homem-bomba. Ele vai atacar o Iraque e lançar o caos no mundo todo, abrindo as portas do inferno na Ásia e depois na Europa. Irmãos: com a ajuda de Alá, eu consegui jogar a nação mais poderosa do mundo, com 400 bilhões de dólares em armas, contra o nada. Eles vão atacar o vazio, assim como venceram "nada" no Afeganistão, pois nossos irmãos talebans estão em toda parte, se reorganizando e nós, felizes e seguros, estamos planejando novos ataques em nossas caverninhas com ar condicionado. De que vale tanto poder bélico contra nossos mártires? Se quisermos, nem precisamos nos aporrinhar em atacar de novo os USA. Basta nosso silêncio assustador. Eles não terão mais sossego. O silêncio será sinônimo de perigo. Por isso, não adianta atacar o Iraque. Digamos que ele mate Sadam. Novos Sadams e milhões de novos combatentes vão surgir no Oriente Médio, fortalecidos. Nunca uma nação humana será tão odiada como a América. Bush vai trazer o caos ao mundo. E não seremos nós os atingidos. Bush vai desorganizar todas as conquistas iluministas do Ocidente, do século 18 para cá: razão, tolerância, democracia. Bush vai apagar os últimos vestígios dos princípios democráticos que orientaram seus "pais fundadores". Bush está entregando o país para a indústria da guerra, que nunca faturou tanto como agora. Exatamente como eu quero, irmãos. A América é uma máquina desejante de guerra. Eu só fiz acirrar esse desejo. Há milhões de armas que "desejam" ser usadas. As bombas desejam explodir. Suas armas não foram feitas para serem usadas na guerra; eles farão uma guerra para usar as armas. Todas as finuras da transcendência, da beleza, do multilateralismo europeu, da "globalização democrática" que eles trombetearam pelo mundo, serão destruídas. Bush vai arrasar com a esperança da Europa que, depois de um século de brutalidades, de duas guerras mundiais, está no caminho de uma solução pacífica de convivência, de uma paz feita de comércio, diplomacia e tolerância. Os americanos sempre odiaram os europeus afrescalhados, que falam em coisas profundas, humanistas, metidos a "superiores". Fingiam que tinham ideais iguais à Europa, mas nada... América e Europa não têm nada em comum. A América republicana acha que esse papo de multiculturalismo é coisa de fracos, irmãos. Agora, a coisa está clara. Bush voltará aos tempos do faroeste, caubóis e xerifes mandando no mundo. Bush e sua turma é o que há de pior na América; eles só acreditam em mercado, domínio e porrada. Bush marca o início da era da estupidez, a vitória dos imbecis no poder. Forrest Gump, o idiota vencedor, já era um indício da "beleza da estupidez", como Bush declarou em Yale: "Eu sou a prova de que ninguém precisa estudar para ser presidente dos USA." Bush é um neurótico completo, como dizem lá no Ocidente. Julga-se impotente e desprezado pelo pai, e quer provar força, superando o velho que quebrou a cara com o Sadam. Ele é perfeito para meus planos. Nada mais perigoso que a estupidez com armas; o fascismo é a burrice no poder... Nada melhor para nós, irmãos, louvado seja Alá... Em 11 de setembro, eu dei à América o pretexto para se sentir vítima - tudo que o Bush precisava, assim como Hitler também era "vítima" da humilhação da Alemanha depois da Primeira Guerra. E, no fundo, Bush me ama pelo avesso, pois eu o salvei politicamente; o que seria dele sem o WTC? Eles caíram na minha isca e vão fazer tudo que eu quis, irmãos... Começa agora uma nova e longa "guerra fria", com o "terrorismo" no lugar do "comunismo". Com essa política, eles vão desmoralizar a ONU de uma vez por todas, vão acabar com a Otan, vão trair os acordos antinucleares como o ABM, vão ignorar o Tribunal Penal Internacional, seus aliados vão romper com eles, a guerra Israel-Palestina vai virar uma endemia para sempre, vão transformar a Europa num continente horrorizado e antiamericano, vão se meter em toda parte, da Ásia à Colômbia, para ódio de todos. A verdade é essa: a América jamais aceitará ser igual aos outros países; eles só disfarçavam, para não serem chamados de boçais. Agora, Bush poderá gritar, cercado daqueles idiotas "falcões": "Eu sou mais eu! Nós somos a nação indispensável, sim!" Eles acham que estão me combatendo, irmãos, mas nós somos invisíveis; eles estão combatendo e destruindo seus amigos e a si mesmos. Quando a máquina da boçalidade se desencadeia, ninguém segura mais a produção de erros. Eu despertei o Leviatã! Eu estou obrigando os USA a serem uma potência solitária, uma máquina guerreira isolada para sempre, pois eu vou obrigá-los a destruir a democracia a pretexto de defendê-la, com o apoio de 70% dos ignorantes do país. E a arrogância unilateral pedirá mais arrogância, mais força, mais confronto. A Europa vai se rearmar, a China e a Rússia vão relubrificar seus mísseis e uma grande nuvem atômica poderá destruir o mundo todo, irmãos!... Mas, não temam, irmãos, pois nós não vamos sofrer nem perder nada, pois, no martírio nuclear que virá, iremos todos para o paraíso em meio às nuvens de fogo, ao encontro de Alá, o único deus, sendo Maomé, e agora eu, os seus profetas!

94. ARNALDO JABOR. O AMOR IMPOSSÍVEL É O VERDADEIRO AMOR. Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo. Os dois artigos mexeram com a cabeça de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo: "Mas... afinal, o que é o amor?" E esperam, de olho muito aberto, uma resposta "profunda". Sei apenas que há um amor mais comum, do dia-a-dia, que é nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as décadas, o amor prático que rege o "eu te amo" ou "não te amo". Eu, branco, classe média, brasileiro, já vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico, um sonho político, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um "desregramento dos sentidos". Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriação indébita do "outro". O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção. A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. O amor é a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos têm, naturalmente. Por isso, permitam-me hoje ser um falso "profundo" (tratar só de política me mata...) e falar de outro amor, mais metafísico, mais seminal, que transcende as décadas, as modas. Esse amor é como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exílio da natureza. É um amor quase como um órgão físico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo "feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe". Pois, senhores, esse amor existe dentro de nós como uma fome quase que "celular". Não nasce nem morre das "condições históricas"; é um amor que está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, quase uma "lesão oculta" dos seres expulsos da natureza. Nós somos o único bicho "de fora", estrangeiro. Os bichos têm esse amor, mas nem sabem. (Estou sendo "filosófico", mas... tudo bem... não perguntaram?) Esse amor bate em nós como os frêmitos primordiais das células do corpo e como as fusões nucleares das galáxias; esse amor cria em nós a sensação do Ser, que só é perceptível nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e óvulo se interpenetrando. Por obra do amor, saímos do ventre e queremos voltar, queremos uma "reintegração de posse" de nossa origem celular, indo até a dança primitiva das moléculas. Somos grandes células que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. ("Sexo" vem de "secare" em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensação de que a "máquina do mundo" ou a máquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : "A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de algo transcendental com que a arte nos põe em contato." E a arte não é a linguagem do amor? E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grande beijos - eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores ou entre as tranças da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, não se decifra nunca, como a poesia. Como disse alguém: a poesia é um desejo de retorno a uma língua primitiva. O amor também. Melhor dizendo: o amor é essa tentativa de atingir o impossível, se bem que o "impossível" é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love. Escrevi outro dia que "o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes". Mas, o fundo e inexplicável amor acontece quando você "cessa", por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso desamparo. Esperamos do amor essa sensação de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haverá juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistério da "falha" humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos "não-saber" que vamos morrer, como só os animais não sabem. O amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Como os relâmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o céu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor não nos faz virar "anjos", não. O amor não é da ordem do céu, do espírito. O amor é uma demanda da terra, é o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse "absoluto", que está na calma felicidade dos animais.

95. ARNALDO JABOR. VIVA A CATÁSTROFE! OS BONS TEMPOS VOLTARAM. Sempre que há uma catástrofe nacional, irrompe uma euforia de cabeça para baixo. É como se a opinião pública dissesse: "Eu não avisei? Bem que eu falei, não adianta tentar que sempre dá tudo errado...". Há um grande amor brasileiro pelo fracasso. Quando ele acontece, é um alívio. O fracasso é bom porque nos tira a ansiedade da luta. Já perdemos, pra que lutar? A plataforma afundando suavemente nos dá uma sensação de realidade. Parece o Brasil indo a pique - o grande desejo oculto da sociedade alijada dos podres poderes políticos, que giram sozinhos como parafusos espanados. Não é uma ameaça de CPI, não é um perigo de crash na Bolsa. É morte, gás e fogo. E nossa vida fica mais real e podemos então, aliviados, botar a culpa em alguém. Chovem cartas de leitores nos jornais. Todas exultam de indignação moral, todas denotam incompreensão para com o programa do governo de reformar o sistema, programa muito "macro", mal explicado, "muito cabeça" para a população. Nada como um desastre ou escândalo para acalmar a platéia. E a oposição, aliada à oligarquia, usa bem isso. Danem-se as questões importantes, dane-se a crise externa, dane-se tudo. Bom é fofoca e denúncia. A finalidade da política é impedir o país de fazer Política. Nada acontece, dando a impressão de que muito está acontecendo. Há uma tradição colonial de que nossa vida é um conto-do-vigário em que caímos. Somos sempre vítimas de alguém. Nunca somos nós mesmos. Ninguém se sente vigarista. O fracasso nos enobrece. O culto português à impossibilidade é famoso. Numa sociedade patrimonialista como Portugal do século XVI, onde só o Estado-Rei valia, a sociedade era uma massa sem vida própria. Suas derrotas eram vistas com bons olhos, pois legitimavam a dependência ao Rei. Fomos educados para o fracasso. Até hoje somos assim; só nos resta xingar e desejar o mal do país. Quem tem coragem de ir à TV e dizer: "O Brasil está melhorando!", mesmo que esteja? Ninguém diz. É feio. Falar mal do pais é uma forma de se limpar. Sentimo-nos fora do poder, logo é normal sabotar. A plataforma da Petrobras afundando derreteu feito bala de açúcar na boca dos golpistas. O fracasso é uma vitória para muitos. Não fui eu que fracassei; foi o governo, o neoliberalismo. O maior inimigo da democracia é a aliança entre o ideologismo regressista e a oligarquia vingativa. Nossos heróis todos fracassaram. Enforcados, esquartejados, revoltas abortadas, revoluções perdidas. Peguem um herói norte-americano: Paul Revere, por exemplo. Cavalgou 24 horas e conseguiu salvar tropas americanas na Guerra da Independência. Foi o herói da eficiência. Aqui, só os fracassados verão Deus. "Seja marginal, seja herói". O fracasso é legal, a vitória é careta. A vitória dá culpa; o fracasso é um alívio. A vitória é burguesa. A crise, a catástrofe, o bode preto têm um sabor de "revolução". É como se a explosão "revelasse" algo, uma tempestade de merda purificadora. Além disso, para os carbonários, depois de tudo arrasado, a pureza renasceria do zero. Assim pensava Pol Pot. A crise brasileira atual começou com um procurador maluco, uma fita mal gravada e tudo foi coroado com a plataforma afundando. O que moveu Luiz Francisco e ACM foi a esperança do caos. Luiz Francisco se acha o missionário da catástrofe. Ele é o ideólogo da explosão de furúnculos. Ele acredita no pus revelador. ACM quer levar em seu declínio o país todo com ele, cair destruindo, numa espécie de triunfo ao avesso. Ele é o último bastião do patrimonialismo tradicional, resistindo ao capitalismo impessoal. Espalhou-se a teoria de que o problema do Brasil é "moral". Este "bonde" funk de neo-udenismo psicótico, este lacerdismo tardio, este trenzinho de "janismo" com "collorismo" visam impedir a modernização do país, sob a capa do "amor". São a favor da moralidade, mas contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esta onda de moralismo delirante busca impedir a reforma das instituições que estimulam a imoralidade. ACM, tocando trombone sob um telhado de vidro, é o grande exemplo. Luiz Francisco, com boquinha de ânus e vozinha de padre, outro. Nossos intelectuais se deliciam numa teoria barroca da "zona" geral. O Brasil é visto como um grande "bode" sem solução, o paraíso dos militantes imaginários. Quem quiser positividade é traidor. A miséria tem de ser mantida in vitro, para justificar teorias e absolver inações. A Academia cultiva o "insolúvel" como uma flor. Quanto mais improvável um objetivo, mais "nobre" continuar tentando. O masoquista se obstina com fé no impossível. Há um negativismo crônico no pensamento brasileiro. Paulo Prado contra Gilberto Freyre. Para eles, a esperança é sórdida; a desconfiança é sábia: "Aí tem dente-de-coelho, alguma ele fez...". Jamais perdoarão ao FHC ter abandonado a utopia tradicional e aderido à real politik. Quase nenhum "progressista" tentou ajudá-lo nesta estratégia. Quem tentou foi queimado como áulico ou traidor, pela plêiade dos canalhas e ignorantes. Talvez tenha sido um dos maiores erros da chamada "esquerda", talvez a maior perda de oportunidade da história. Agora, os corruptos com quem FHC se aliou para poder governar querem afogá-lo na lama. A real politik virou shit politics. Assim como o atraso sempre foi uma escolha consciente no século XIX, o abismo para nós é um desejo secreto. Há a esperança de que no fundo do caos surja uma solução divina... "Qual a solução para o Brasil?", perguntam. Mas a própria idéia de "solução" é um culto ao fracasso. Não lhes ocorre que a vida seja um processo, vicioso ou virtuoso, e que só a morte é solução. Vejam como o Brasil se animou com a crise atual. Dólar alto, plataforma afundando, Jader x ACM, tudo parado. Oba! É o velho Brasil descendo a ladeira! Viva! Os bons tempos voltaram!

96. ARNALDO JABOR. O GRANDE SUCESSO DO HERÓI SEM CORAÇÃO. "Eu quero, eu desejo, eu preciso, eu não me conformo de ficar olhando a vida de fora, feito um espectador de TV, eu quero tênis, eu quero Rolex, eu quero carrão, eu quero lancha, eu quero cartões de crédito e aqueles smokings lindos que o James Bond usava debaixo do neoprene mesmo quando mergulhava, eu quero a elegância total, sorriso nos lábios, pisando em mármores de hotéis, tomando drinques à beira da piscina ou nos pianos-bares, com uma louraça a meu lado ouvindo eu tocar, eu, campeão mundial de piano, como todos sabem... Eu quero poder escolher entre a Mercedes da hora e o Jaguar do ano, eu quero ter o corpo perfeito, malho muito e de noite eu fico horas pensando em mudar meu corpo, como se eu fosse nascer de novo, como se eu fosse fazer o parto de mim mesmo. Eu me imagino inteiramente liso para iniciar o parto, como alguém raspado antes de uma cirurgia e, de dentro de meus membros, começa a surgir um outro corpo, como a borboleta saindo de dentro da crisálida, meus pés, úmidos e novos, saem de dentro de meus velhos pés, minhas pantorrilhas rompem a casca da pele e aparecem fortes para jogar um futebol de campeão, eu, que sempre era barrado nas peladas de rua, mas que hoje já tenho os braços fortes como os de Charles Bronson, me preparando para o grande momento que vai chegar. Eu sonho há anos com esse dia, pois sempre soube que viria um bonde legal, uma parada legal que eu não sabia qual era, mas que viria... Aproxima-se a hora da liberdade, a hora em que eu vou quebrar todos os recordes e pular para uma outra vida. Depois disso, ninguém me segura mais... Como segurar um homem como eu, com minha macheza gloriosa, meu pênis campeão que tem uma tatuagem de seta para lembrar à minha mulher qual é o caminho da adoração religiosa, quando eu fico em pé na cama e ela reza, olhando para mim como o seu Deus? Ela está entranhada em mim como uma tatuagem e nem que arranque a pele ela se livra do meu amor. Parece que somos um só. Ela me disse um dia: "Eu sou você!..." Pois, está chegando a hora H, quando eu terei tudo a que tenho direito, como motocas Electra Glide ou Kawasaki, terei um apartamento em cima de uma pedra em frente do mar, em frente das altas ondas que eu, campeão havaiano de surfe em maremotos, cavalgarei e meu apartamento vai ser todo de mármore, cheio de controles remotos, de onde eu vou comandar os garçons que servem caviar e champanhe nas noites de festa que eu vou dar, com pagodes e com a Ivete Sangalo ou a Daniela Mercury cantando para meus amigos da revista Caras, eu vou mandar em tudo porque serei o mais poderoso, o mais forte, o mais rico, falando inglês, francês, russo, alemão, latim, e todo mundo vai me respeitar e gostar de mim, porque eu vou ser legal com quem for legal comigo, mas se não for legal comigo será esculachado, porque eu não vou dar colher de chá para traidor e porque nunca mais vou ser humilhado por aquele patrão que me expulsou da loja dizendo que eu era ladrão de camiseta e de tênis, só porque eu fui ao show da Negritude Jr. com o tênis fosforescente que chegou do Paraguai e com a camiseta do Robocop. Nunca mais vou ser fraco de alma, inclusive porque eu estou fazendo musculação por dentro do corpo; por fora, eu já estou com uma potência de soco de um Volks a 80 km por hora, mas, por dentro, meus músculos da alma estão cada vez mais duros, meu coração mais seco, único caminho para o sucesso, como nos ensina a cara dos políticos na TV. Esta é a receita do sucesso: coração duro, nem um pisco, nem um tremor de mão, nem um olho aguado, nada. Eu quero mesmo é ser de pedra, aliás, eu quero ser uma "coisa", eu queria ser uma "12" de cano serrado ou uma espada de samurai. Já pensou se o Beira-Mar fosse bonzinho? Ele seria um joão-ninguém. Eu sou duro, até já treinei outro dia com o gato no microondas, os miados e os olhos de pavor na janelinha. Quero coração duro para satisfazer todos os meus desejos, como manda o meu amigo secreto que conversa comigo de noite, o "Velho", que aparece quando vou começando a dormir e me diz: "Vai fundo, bota para quebrar, não vai morrer pobre feito eu!" Como eu vou explicar para ele, se eu amarelar? Eu já estou pronto para a ação. No bolso, o meu discurso de posse, prontinho para o dia em que vou receber o Grande Prêmio na Academia dos Heróis. Já sei até de cor, vou repetindo baixinho enquanto subo a escada: "Eu queria agradecer inicialmente ao Bruce Willis, ao Chuck Norris, ao Escadinha e a todos os heróis do cinema e da barra-pesada o muito que me ensinaram. Só eu sei quanto lutei para chegar até aqui, para ganhar este prêmio. Quero agradecer também aos olhos azuis de minha amada, que tanto me incentivaram a ter coragem de ser feliz"... Acho superlegal o meu discurso de posse na Academia e já vejo os super-heróis me aplaudindo. Bem, eu já estou pronto. Cabelo raspado feito o Ronaldinho, músculos desenhados e duros feito o Bruce Lee. Meu corpo está tremendo por dentro, mas sei que não é medo não; é tesão, é a alegria de conquistar a vida nova. Parece que tem outro homem dentro de mim, eu, o chefe da equipe mundial de caratê, eu, maior sucesso em breve nas revistas dos chiques e famosos, eu, que quebro 20 telhas com um soco, eu que serei o novo ídolo dos jornais, eu sinto que o mundo vai se abrir para mim feito um shopping center e eu só irei pegando as mercadorias e colocando na Ferrari vermelha onde minha mulher me espera para fugirmos. A chave da vida nova já está aqui na minha mão: esta barra de ferro que mata em silêncio, enquanto subo a escada, na maior adrenalina, com meu irmão atrás de mim, feito um ninja de máscara negra, agora que vamos abrir o quarto e começar a festa. Eles dois estão dormindo. Se a barra de ferro não resolver logo, estrangulo."

97. ARNALDO JABOR. AS FORÇAS ARMADAS TÊM DE ESTAR PERTO DE NÓS. Eu sou um pobre aspirante a oficial-da-reserva, de segunda classe, do Exército brasileiro, da heróica arma da Cavalaria. Apesar das agruras do serviço militar, não nego que, muita vez, vibrei com minha arma, como no dia em que cavalguei, com a lança embandeirada, na orgulhosa escolta do general-comandante Justino Alves Bastos, não tendo, infelizmente, desfilado depois na parada de 7 de Setembro pela maldade de um tenente que me fez montar a égua negra Epopéia, muito temida no regimento, pois empinava e se jogava para trás ("boleava") , tendo assim quebrado meu braço - eu, um desastrado e trêmulo calouro. Mas, lembro com emoção dos tambores e clarins, do passo firme dos batalhões, da sensação de unidade, de ser um soldado num mar verde-oliva, o que apaga a solidão e consola a alma. Escrevo estas coisas remotas como réplica a uma carta do general Luiz Cesário da Silveira Filho, chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, a propósito de meu artigo da semana passada, na qual ele me aponta como "denegridor" da boa imagem do Exército. Ao contrário, general, considero o Exército uma das poucas instituições decentes do País e meu artigo, ao imaginar uma eventual participação militar na luta contra o tráfico, visava um pouco (confesso-o) a provocar nossos "milicos" e a suscitar respostas e explicações. E fico orgulhoso de poder, hoje, até questionar o Exército sem sentir medo. Sei das dificuldades da instituição num país semiquebrado por séculos de oligarquias e dependência, talvez até por ser filho de um brigadeiro-do-ar que morreu duro num apartamento de dois quartos em Copacabana. Ademais, quem sou eu para criticar o Exército? No entanto, penso que talvez o Exército devesse ter mais contato com a opinião pública brasileira. Há uma curiosidade, que não é só minha, que se pergunta qual é o papel dos militares brasileiros no mundo da globalização e das mudanças no velho Estado-Nação, da democracia de massas e suas mazelas. Muita gente diz: "Tem de botar o Exército na rua contra o tráfico!" Outros: "Pra que serve o Exército?" Fique claro que não acho que o Exército tem de "sair e botar para quebrar". Não sou o homem mais burro deste país (meus inimigos dirão: "Olha a modéstia..."); por isso, me pergunto: não seria oportuna uma atuação das Forças Armadas, em alto nível estratégico, coordenada com a experiência concreta e "suja" das polícias, de modo a romper essa cadeia de pó e armas, que começa lá fora, invade fronteiras, sobe favelas e acaba no nariz da burguesia? Não podemos continuar considerando esses crimes apenas como um "desvio da norma" ou como um pecado diante do "Bem". O crime do tráfico e da miséria armada já tem outros nomes, já é uma "mutação social", já é uma forma de vida, um mercado de trabalho, um desafio aos poderes públicos. Esse neocrime não se combate mais com castigo e prisão; trata-se de uma Outra Sociedade, criada na lama e na fome, e só será vencido por uma conjunção de instrumentos que vão desde a repressão até o saneamento, que vão desde a guerra explícita até uma reeducação das comunidades periféricas. O tráfico no Rio e em São Paulo não é só um problema de polícia, pois não nasce cocaína na favela nem lá se fabricam metralhadoras, como disse o Zuenir; tudo começa como uma invasão do território nacional. Por que as Forças Armadas não podem agir, em nível de Estado maior, da ESG, etc.? Sabemos que, no Rio, grande parte do pó entra pela Baía de Guanabara. Por que a Marinha não pode policiar essas águas? Outro dia, li a entrevista muito lúcida de um brigadeiro que reclamava da ausência da "Lei do Abate" na Amazônia. Os jatos da Aeronáutica perseguem os aviões cheios de cocaína, dão ordem de descida, mas eles nem ligam, pois é proibido abatê-los. Os pilotos clandestinos chegam a fazer gestos obscenos para os militares e continuam seus vôos impunes, em direção aos "cafungueiros" do País. Como leigo, pergunto se as Forças Armadas não devem se repensar em função das mudanças econômicas e políticas do País, se "enxugando", ficando mais eficazes, com melhores armas e homens bem pagos. Se alguma crítica posso fazer a imagem do Exército, é em relação a uma mentalidade meio "napoleônica", de "forças maiores", acima do cotidiano nacional, defendendo abstrações como "civismo", "renúncias", "anseios patrióticos". Hoje, o inimigo mudou e não podemos continuar a combatê-lo com formações do século19. Agora, o inimigo vem de dentro do atraso nacional, de dentro da tecnologia veloz, vem do fanatismo, da loucura, da miséria armada. Acho que um dos erros de comunicação das Forças Armadas é um ocultamento diante da população. Por quê? Será que ficaram com complexo de culpa por terem cedido à tentação autoritária , há 30 anos? Isso já passou. O Exército não pode aparecer muito ou sumir muito, à espera de um "grande acontecimento" histórico. Não há mais "grandes acontecimentos". A guerra hoje é minimalista, tática, misturada à vida social, até invisível. Os americanos amam seu Exército. Quantos filmes já fizeram louvando seus soldados? Por que ignoramos os nossos? Será que é só culpa de nosso ibérico e colonial medo do "poder"? Ou não haveria também da parte do Exército uma fobia, uma timidez em se assumir como importante instituição nacional? Gostaria de ver o Serviço de Comunicação, prezado general, aparecendo "antes", nos informando e não reclamando de injustiças. O Exército é grande demais para isso e eu sou pequeno demais. Sou apenas um aspirante de segunda classe, mas minhas dúvidas são de brasileiro e patriota pois, como diz o nosso hino da Cavalaria, no evento de uma guerra contra a Pátria, quero que "o Sol, sem eflúvios, sem luz e sem calor, me encontre no solo a morrer, do que vivo sem te defender..."

98. ARNALDO JABOR. SUZANE, 19 ANOS, BELA E RICA, MATOU POR AMOR. Quando os irmãos entrarem em cana, provavelmente serão mortos, pois matador de pai e mãe eles não perdoam. Mesmo no mundo do crime há uma ética a preservar, mesmo o pior criminoso tem um interdito moral. Nesse caso, não. O crime de parricídio e matricídio premeditado durante o sono é mais que um crime; é uma viagem ao desconhecido, é o desejo de atingir um recorde supremo. Não há nada pior. Nenhuma ética se salva, nada pode atenuar o feito. O quê? Que delito Suzane e seus cúmplices poderiam considerar mais hediondo? Suzane está no topo, nada há além dela. Ela nos aterroriza com sua crueldade brutal. Os dois monstros boçais ainda dá para entender: queriam grana, motocas e tatuagens, filhos desta geração de shoppings e violência. Ela, não. Precisamos encontrar explicações para ela, senão ficamos ameaçadíssimos. O crime sem motivo nos desorganiza, pois nos coloca nas mãos da loucura. Se ela, jovem, bela e rica, matou, que será de nós? O crime sujo da favela apenas nos dá medo. O crime limpo e rico nos desampara, nos dá vertigem, pois perdemos o balizamento da ética e da razão. Suzane nos leva à beira da loucura, mas ela não é louca. Então, ela matou por quê?, perguntamo-nos. Isso é que fascina e apavora no psicopata: ela toca num mistério que tentamos esquecer. Vizinhos e amigos sempre dizem deles: "Eram doces, educados, tímidos..." Até a hora em que metralham espectadores num cinema ou matam pai e mãe dormindo. Por isso, os psiquiatras buscam "causas", como se a vida social fosse um contrato de bom senso, como se fôssemos animais racionais e a loucura um "desvio". É o contrário; a sociedade é que é um desvio. Não adianta ter ódio dela; não há punição que apague o seu crime, não há como pagar sua dívida. O inferno cotidiano que ela terá não explica aquele momento metafísico, sempre além de qualquer entendimento. Mas, mesmo os psicopatas precisam de uma razão maior para justificar o crime. "Matei por amor...", diz a menina de 19 anos, fina, linda, universitária. No entanto, esse amor que a menina invoca é outro "amor". Ela e todos nós precisamos "justificar" esse crime, para não ressuscitarmos a célebre manchete do jornal carioca O Dia: "Matou a mãe sem motivo" - ou seja, deve haver um motivo para se matar a mãe. Ela precisa de um motivo, pois ela não sente culpa porque matou. Ela matou para preencher um grande vazio em seu mundo interno, matou para atravessar um deserto afetivo, matou porque não sentia culpa, matou por vingança de não sentir culpa, matou até para tentar sentir alguma culpa, sentir até algum... amor. Por isso, sua declaração nos apavora: "Matei por amor!" Matou, sim, por amor, para conseguir um pavoroso amor por que ela ansiava. Que estranho amor é esse? Eu acho que ela buscava o "amor" da hora. É o amor que nos grita de dentro do comércio, de dentro do consumo, que nos chama de dentro de um narcisismo impossível que todos proclamam, é o amor imaginário feito do desejo de posse exclusiva sobre a liberdade, sobre o corpo do outro, um amor que consome tudo, querendo uma felicidade quantitativa, uma infinita conquista para abolir todos os vínculos, todas as barreiras do Édipo, todos os deveres sociais. Suzane quis fazer um gesto imperdoável para sempre, absoluto, livre para sempre da condição humana, quis o sangrento incesto invertido com os pais deitados na cama onde ela foi (talvez?) feita. Depois do crime cometido, ela poderia se livrar da origem, do passado, da horrenda obrigação de conviver e, então, se dedicar a um amor sem "outro", sem objeto, uma espécie de conquista de Poder, sim, um poder de estar acima dos sentimentos, da Justiça, um poder de viver sem sociedade em volta, um poder maluco que vemos anunciado nas entrelinhas das ideologias de hoje, nas gargalhadas sem remorso nas revistas, na abolição descarada da compaixão. Esse crime me lembra o mistério fúnebre da peça de Shakespeare Macbeth, o poder de liberdade crua que Suzane almejou me lembra o poder que os Macbeth conquistariam, depois de "assassinarem o sono", como grita o poeta. A frase da peça que mais me aterroriza é quando lady Macbeth, preparando-se para o crime, grita a Deus (ou ao Demônio): "Unsex me!" (Dessexualize-me!!) Ou seja: "Tire de mim a bondade feminina, transforme-me não num homem, mas tire o sexo de mim, para que eu seja um homem-mulher, um ser livre da diferença, livre da condição humana dividida, sexed, e me transforme num ser monobloco, com um desejo só." Como seria o amor de Daniel e Suzane, Romeu e Julieta ao contrário, se tudo tivesse "dado certo"? Com os pais mortos, grana no bolso, garupa de motocicleta, os dois teriam uma espécie de fusão, de orgasmo contínuo, acima da vida, acima do cotidiano, pois ninguém mais poderia existir - só eles. A única explicação que pode vagamente explicar o acontecido é sabermos que a sociedade está tão narcísica, tão excludente de qualquer solidariedade, tão brutal no seu desejo de satisfação total, que contamina até os privilegiados. A pulsão de morte anda solta. Vivemos atacados pela brutalidade do noticiário, pelos homens-bomba, pela estupidez da cultura que gera batalhões de rapazes criminais, sem camisa, obcecados por uma felicidade de consumo impossível. A violência das periferias influencia a classe média até com gestos, gírias e armas. Estamos pagando o preço por nosso descaso com a miséria durante décadas, nosso desinteresse pela desumanização da vida. Não somente as balas nos atingem, mas também a imensa boçalidade da cultura. Suzane é psicopata, mas nossa sociedade também o é. Não há explicação para esse crime. Não adianta procurar causas, traumas. Esse crime ficará sempre em aberto. Misterioso, como nosso destino.

99. ARNALDO JABOR. O AMOR DEIXA MUITO A DESEJAR... Fui ver o lindíssimo filme do Pedro Almodóvar, o Fale com Ela, e saí pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens... Nesse grande filme de Almodóvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixão, como uma "doação ilimitada a uma completa ingratidão", como escreveu Drummond, aliás, o poeta do amor impossível, que é o único e verdadeiro amor. A vitória do Lula também foi uma fome de amor política contra a era da técnica racionalista. Seu governo pode virar até um crime passional ou um folhetim melodramático, mas, hoje, é um grande desejo de happy end para todo o povo. Por isso, pergunto: onde anda o amor? Até isso o mercado estragou? Sim. O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum. Hoje, o amor, como tudo, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, não existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O amor já foi analisado por todas as ciências, a psicanálise mapeou as loucuras que estão sob sua poética, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção. Por isso, o filme de Almodóvar é tão belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. Se eu, um dia, filmar de novo, será para celebrar o silêncio dos amantes ou a beleza do inútil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de Fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes "tutti tremanti", nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: "Deus sabe quanto amei!...", mas "Deus nem sabe quantos (as) amei..." A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo" ("Shell que j'aime"), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si só, levaria a uma assexualização desértica. A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes. Amor e sexo. Mas, hoje o mercado exige a satisfação total no amor ou o dinheiro de volta. Como isso é impossível, deriva para o sexo ou para a sedução. O amor passa a buscar não mais uma entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista. Os amores duram três edições de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rápido e quantitativo. As próprias mulheres estão virando dom-juans. Vejam o périplo de jovens atrizes que vão comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingíveis para pálidos quixotes românticos. Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrível bombardeio que a cultura americana está fazendo nos sentimentos é invisível, mas é pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana está criando um desencantamento insuportável na vida social. Tudo é tolerável, num arrasamento de mistérios. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números - basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, apoiada na trêmula beleza dos balés de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe aquém, antes da vida. Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questão política. Hoje, podemos tudo, podemos casar até com jacarés ou macacas, sem escândalos, desde que não prejudique a produção. Mas, o que invisivelmente está virando uma nova necessidade política é o amor e seus subprodutos: compaixão, paz, justiça. Aposto que virá aí um novo "desbunde", um novo movimento hippie, sem utilidade, mas sem melancolia autodestrutiva, vêm aí marchas pelo amor, porque ninguém está agüentando mais somente "utilidade" e "desempenho", poder e sucesso. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos... E acho que isso vai surgir na América, como foi nos anos 60 - a luta pelos direitos civis será agora a luta pela beleza da inutilidade.

100. ARNALDO JABOR. CONFISSÕES SINCERAS DE UM LADRÃO BRASILEIRO. "Gosto de ser ladrão, doutor. Esta palavra tem uma conotação feia, mas a origem dela é 'laterones', os sujeitos que ficavam na 'lateral', ao lado dos reis e príncipes. Minha origem é, portanto, ilustre. Não sou um ladrão de galinhas, mas confesso que roubava galinhas do vizinho e até hoje sinto o cheiro das penosas que eu agarrava, prendendo-lhes o bico para evitar cacarejos e ficou-me o gosto do terror do vizinho aparecer e acho que virei ladrão pelo prazer desse medo. Já fui dono da CAG Ltda., que era da viúva de meu ex-sócio que, em circunstâncias misteriosas, apareceu assassinado no Motel Crazy Love e que, antes de morrer, que Deus o tenha, já tinha transformado a CAG em subsidiárias com sede em Miami, a ASS & HOLE Inc., a COCK & DICK participações, geridas por uma 'holding' em Barbados. Hoje, não roubo por necessidade, doutor; é prazer mesmo. Nunca fui pobre, mas preciso da adrenalina que me acende o sangue na hora em que a mala preta voa em minha direção, cheia de dólares, quando vejo os olhos covardes do empresário me pagando a propina, sua mãos trêmulas me passando o tutu, ou quando o juiz me dá ganho de causa, ostentando honestidade, e finge não perceber minha piscadela cúmplice na hora da emissão da liminar, todos sabujos diante de meu poder burocrático. Adoro a sensação de me sentir superior aos otários que me 'compram', eles se humilhando em vez de mim. Roubar é sexy, doutor. Dá tesão. Semelhante um pouco às brincadeiras no porão onde eu e menininhos 'troca-trocávamos' com pânico de um pai aparecer; roubar também me liberta, eu explico, me tira do mundo dos obedientes e me traz quase um orgasmo quando embolso uma bolada, o senhor já conheceu a alegria de andar com 300 mil dólares distraidamente dentro de uma ingênua pastinha e deixá-la de propósito ali no balcão da lanchonete, tomando um cafezinho sob a ignorância de transeuntes e pedintes que mal suspeitam que a salvação de suas vidas estaria ali, ao lado do açucareiro? E o prazer de sentir o espanto de uma prostituta, se você lhe arroja mil dólares entre as coxas, e vê sua gratidão imediatamente acesa, fazendo-a caprichar em carícias mais sacanas? Conhece, doutor, a delícia de rolar em notas de 100 dólares na cama de um hotel vagabundo, de madrugada, sozinho, comendo castanhas e chocolatinhos do frigobar, em uma cidade remota, onde rolou mais um financiamento de grana pública? Conhece a delícia de ostentar honestidade em salões, para caretas inconscientes que te xingam pelas costas, mas que te invejam secretamente pelas experiências que imaginam que você teve? Sabe do deleite de ver suas mulheres te olhando como um James Bond ao contrário, excitadas, pensando nos colares de brilhantes que poderiam ganhar de mim, o Arsène Lupin, 'charmeur', sorridente, pois todo bom ladrão é feliz e delicado, principalmente com as damas? O senhor não tem idéia, nessa sua obstinada integridade, do orgulho que temos, mesmo quando roubamos verbas de remédios para criancinhas, de agüentar o sentimento de culpa que bate em nossa consciência como mariposas numa janela e conseguir dominar a vergonha e transformá-la na bela frieza que faz o grande homem? O honesto é triste, doutor, a virtude dá úlcera, o honesto anda de cabeça baixa com baixos proventos, com uma vida limitada, sem conhecer o coração disparado, o gosto ácido da aventura, o honesto não sabe da santidade da sordidez, de onde contemplamos o mundo careta com desprezo. Eu sou especializado em bens públicos, doutor, é o que me dá mais tesão, saber que estou roubando todo mundo e ninguém, um dinheiro tradicional que já foi de tantas oligarquias. No Brasil, há dois tipos de ladrões, na elite é claro, não falo de 'carandirus'. Há o ladrão extensivo e o intensivo. O primeiro é aquele que vai roubando ao longo da vida política e ao fim de 30 anos já tem Renoirs, lanchões, helicópteros, esposas infelizes e adquire uma respeitabilidade por seu roubo difuso, ganha uma espécie de título de barão ou conde e que, depois, pode se limpar nas artes ou na filantropia. Eu prefiro ser 'intensivo', doutor, me dá mais adrenalina, mais pá-pum, mais relâmpago, uma delícia, doutor, roubar como vingança contra passadas humilhações, dores de corno, porradas na cara não revidadas. E o prazer da lealdade entre criminosos, doutor, conhece? A telepatia das piscadas, dos códigos, a delícia do conto-do-vigário em dupla, quando um diz 'mata' e o outro 'esfola'? Já viu, doutor, um capanga seu, um 'armário' mau quebrando o dedo de um devedor dentro da sala, sob teu olhar, proibindo-o de gritar, enquanto o dedo estala sob a manopla do crioulão? E o diálogo oblíquo com algum assassino de aluguel, acertando os detalhes de um prefeito ou empresário a apagar? E o êxtase maior de ver uma execução, ver as súplicas de pavor, enquanto os matadores passam o fio de náilon em volta da garganta do boneco e puxam até ele cair, eu confesso que tive uma ereção vendo essa cena num terreno baldio, debaixo de uma placa de financiamento público, e depois tive a maravilhosa sensação de liberdade de chegar em casa no absoluto segredo do crime e beijar meus filhos vendo desenho animado na TV, indo depois tomar um grande banho na Jacuzzi, protegido de tudo. Olhe para mim, doutor. Eu estou no lugar da verdade. Este país foi feito assim, na vala entre o público e o privado. Há uma grandeza insuspeitada na apropriação indébita, florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias. A bosta não produz flores magníficas? O que vocês chamam de 'roubalheira', eu chamo de 'progresso', um progresso português, nada da frieza anglo-saxônica. São Paulo foi construída com esse combustível, Brasília foi feita de lindas ladroagens. Tudo que é belo e bom nasceu da merda. Esta é a tradição do Brasil, doutor..."

101. ARNALDO JABOR. ADORO SEPULCROS CAIADOS E LÁGRIMAS DE CROCODILO. Eu adoro a estética da corrupção. Adoro a semiologia dos casos cabeludos sob suspeita, adoro a reação dos implicados, adoro o vocabulário das defesas, das dissimulações, as carinhas franzidas dos acusados na TV, ostentando dignidade, adoro ver ladrões de olhos em brasa, dedos espetados, uivos de falsas virtudes e, mais que tudo, lágrimas de crocodilo. Todos alegam que são sérios, donos de empresas "impecáveis". Vai-se olhar as empresas, e nunca nada rola normal, como numa padaria. As empresas sempre são "em sanfona", uma dentro da outra, "en abîme", sempre têm "holdings", subsidiárias, são firmas sem dono, sem dinheiro, sem obras, todas vagando num labirinto jurídico e contábil que leva a um precioso caos proposital, pois o emaranhado de ladrões dificulta apurações. Me emociona a amizade dentro das famílias corruptas, principalmente no Nordeste. Ohh, Deus! Lá, creio eu, há mais amor do que entre picaretas paulistas ou cariocas. Lá existe uma simbiose maior no parentesco, mais calor humano, mais "fio de bigode". São inúmeros os primos, tios, ex-sócios, ex-mulheres que assumem os contratos de gaveta, os recibos falsos, todos labutando unidos, como Ali-Babás sincronizados. Baixa-me imensa nostalgia de uma família que não tenho e fico imaginando os cálidos abraços, os sussurros de segredo nos cantos das casas avarandadas, o piscar de olhos matreiros, as cotoveladas cúmplices quando uma verba é liberada pela Sudam em 24 horas, os charutos comemorativos; tenho inveja dos vastos jantares nordestinos, repletos de moquecas e gargalhadas, piadas, dichotes, sacanagens tão jucundas, tão "coisas nossas", tão "alagoas", que me despertam ternura pela preciosidade antropológica de imagens como a piscina verde em Canapi, a barriga de Joãozinho Malta (lembram?), a careca do PC Farias e as sobrancelhas de Jader. Esses signos e símbolos muito nos ensinaram sobre o Brasil real. Adoro também ver as caras dos canalhas. Muitos são bochechudos, muitos têm cachaços grossos, contrastando com o "style" dos populares magros de sEca, de fome, proletários chics, elegantérrimos pela dieta da misÉria. Todos acumulam as mesmas riquezas: piscinas, fazendas, lanchões, Miamis, todos têm amantes, todos têm mulheres desprezadas e tristes, com filhos oligofrênicos, deformados pelas doenças atávicas dos pais e avós. Aprecio muito os bigodões e bigodinhos. Nas oligarquias, êles não usam a bigodeira severa de um Olívio Dutra, babando severidade, com um eco de stalinismo e machismo gaúcho, não. Os bigodes corruptos são matreiros, bigodes que ocultam origens humildes criadas à farinha d'água e batata-de-umbu, na clara ocultação de um racismo contra si mesmos, camuflando os ancestrais brancos cruzados com índios e negros, raquíticos por séculos de patrimonialismo. Também gosto muito do vocabulário dos velhacos e tartufos. É delicioso ver a ciranda das caras indignadas na TV, as juras de honestidade, é delicioso ouvir as interjeições e adjetivos raros : "ilibado", "estarrecido", "despautério", "infâmias", 'aleivosias"... São palavras que ficam dormindo em estado de dicionário e só despertam na hora de negar as roubalheiras. São termos solenes, ao contrário das gravações em telefone, onde só rolam palavrões: "Manda a grana logo para o F.d.p. do banco, que é um grande #@, senão eu vou #@ a mãe deste #&@." Outra coisa maravilhosa nos canalhas é a falta de memória. Ninguém se lembra de nada nunca: "Como? D. Sirleide, aquela mulher ali, loura, popozuda, de minissaia? Não me lembro se foi minha secretária ou não." E o aparente descaso com o dinheiro? Na vida real, eles cheiram a grana como perdigueiros e, no entanto, se justificam: "Ihhh... como será que apareceu um milhão de reais na minha gaveta? Nem reparei. Ahhh... essa minha memória!..." Adoro também ver as fotos das placas da Sudam. Sempre aparece um terreno baldio com a placa da Sudam e o nome pomposo da empresa fantasma, onde, às vezes, ao longe, um burro pensativo pasta... E o objetivo "social" dos financiamentos da Sudam, Sudene? Nunca é uma empresa para desenvolver algo; são ranários de 10 milhões, fábricas de componentes para piscinas, empresas de ursinhos de pelúcia, ou essa maravilhosa Usimar, que ia custar 1 bilhão de reais para fazer peças de carro, mais cara que três Generais Motors na caatinga. Amo também ver o balé jurídico da impunidade. Assim que se pega o gatuno, ali, na boca da cumbuca, ali, na hora da "mão grande", surgem logo os advogados, com ternos brilhantes, sisudos semblantes, liminares na cinta, cínica serenidade de cafajestes e, por trás deles, vemos as faculdades malfeitas, as chicaninhas decoradas, os diplomas comprados. E logo acorrem os juízes das comarcas amigas, que dão liminares e mandados de segurança de madrugada, de pijama, no sólido apadrinhamento oligárquico, na cordialidade forense e freguesa, feita de protelações, dasaforamentos, instâncias infinitas, até o momento em que surge um juiz decente e jovem, que condena alguém e é logo chamado de "exibicionista"... Adoro as imposturas, as perfídias, as tretas, as burlarias, os sepulcros caiados, os cantos de sereia, as carícias de gato, os beijos de Judas, os abraços de tamanduá. Adoro tudo, adoro a paisagem vagabunda de nossa vida brasileira, adoro esses exemplos de sordidez descarada, que tanto nos ensinam sobre o nosso Brasil. Sou-lhes grato pelas sujas lições de antropologia, verdadeiros "Gilbertos Freyres" da endêmica sem-vergonhice nacional. Só um sentimento me atormenta o coração: não sei por que, também me passa pela cabeça a imagem dos corruptos chineses condenados e ajoelhados no chão, com o soldado alojando-lhes uma bala de fuzil na nuca. Penso nessas cenas e sinto uma grande inveja da China? Por que será?

102. ARNALDO JABOR. AMOR DOS ANOS 60 DEIXAVA MUITO A DESEJAR. Eu sou do tempo em que as namoradas não davam. É. Estou enojado dos dias de hoje, nesta torpe função de comentarista, em que as notícias batem-me na cara como pedras. Estou cansado. Volto ao passado, sugado por um túnel de flash-backs. Pois é; as namoradas não davam. A pílula foi a maior revolução cultural dos anos 60, pois as meninas, com pavor de engravidar, deixavam quase tudo menos o principal e os rapazes iam para casa com dor nos rins e perpetravam masturbações feéricas, ejaculando nos banheiros como foguetes à Lua. Os meninos de hoje vivem em haréns. Estes "pequenos canalhas" que eu tanto invejo torcem o nariz para deusas de 18 anos, entediados, enquanto, no meu tempo, quantas meninas eu tentei empurrar para dentro de apartamentos emprestados, ficando elas empacadas na porta, quantas unhas quebradas em soutiens inacessíveis, quantas palavras gastas em cantadas intermináveis, apelando para Deus, para Marx, para tudo, desde que as saias caíssem, as blusas se abrissem, as calcinhas voassem. Não havia motéis, então. Namorávamos em qualquer buraco: terrenos baldios, cantos da praia de noite; eu confesso que já "amassei" uma namorada dentro de uma grossa manilha encalhada na Praia de Ipanema. Os carros eram poucos e deixavam um rastro de silêncio depois que passavam. Havia menos gente. Aconteciam menos coisas. As pessoas eram mais individualizadas - fulano, sicrano, rua tal, número tal, bar tal, comida tal, um dia depois do outro... Havia tempo para o tempo passar. Mas, deixemos de filosofias e fiquemos na sacanagem. Minha primeira namorada não era mais virgem. Era uma raridade. Era uma morena febril, agressiva que dirigia uma Rural Willis do pai. Eu, que vivera até então na horrenda divisão entre puteiros e romances líricos, entre lágrimas e baldes de despejo, achei que ia começar meu primeiro amor adulto. Mas, acontece que minha namorada resolvera reconstituir sua virgindade, recusando-se a perpetuar comigo seu "erro" do passado. Arrependera-se de ter cedido uma única e sangrenta vez ao "canalha" que me antecedera e, depois de lágrimas em confessionários, resolvera manter sua pureza intacta. Para mim, foi um calvário de desejo insatisfeito. Na Rural Willis do pai dela, quase tudo era permitido, mas tudo sôfrego, apavorado, desespero e gozos no ar, ejaculações no painel - nada terminava. O apartamento era a grande esperança; se a menina entrasse, depois era mole. O problema era entrar. "Não, não adianta, Arnaldo, aí eu não entro!..." Eu, jovem comuna, tinha a chave de um "aparelho" secreto do Partidão, ali na Rua Djalma Ulrich, com um sofá-cama rasgado com o algodão aparecendo, para onde eu, da "base" cultural da UNE, tentava levar, sem sucesso, menininhas de esquerda, com triplo medo: sentimento de culpa, medo de broxar e de ser apanhado pelos comunistas "caxias". "Não. Aí eu não entro!", gemia minha namorada. Eu tentava argumentos que iam de Sartre e Simone até a revolução. "Mas, meu bem... deixa de ser 'alienada'... A sexualidade é um ato de liberdade contra a direita..." E ela: "Não entro! Isso seria também uma indisciplina pequeno-burguesa." "Mas, meu anjo - eu suplicava -, não há essência, só existência... Inclusive - disparei - você tem que assumir que não é mais virgem!" E ela, com boca de nojo: "Eu sabia que você ainda ia jogar isso na minha cara!!!" E fugia pelas escadas. O medo era a barriga, medo que a pílula matou anos depois, mas era medo também de um labirinto de liberdades assustadoras, de apego a vestidos de debutantes, organdi branco, a véus de noiva esvoaçando nas almas românticas. Ninguém dava. As poucas que o faziam eram apontadas pelos rapazes, com fascínio e suspeita, um respeito desconfiado. Quantos teriam coragem de casar com elas? Lembro de uma menina da universidade que entrava num transe meio epiléptico, de olho virado em alvo, que "dava" num sacrifício ritual de gritos e choros do qual acordava sem lembrar de nada... Era um sucesso entre comunas caretas, uma espécie de "louca da aldeia". Por isso, homens falando em "liberdade" viviam em "rendez-vous" e em aventuras com mulheres casadas, infelizes matronas (uma que levei ao "aparelho" chorava pelo marido militar e gemia de vingança: "Ele odeia comunistas... ahh... se ele soubesse..."). Ou então eram pobres empregadas carentes, "lúmpens" de rua (como se dizia); um companheiro nosso papou até uma cega do Instituto Benjamim Constant. E havia também o recurso a mulheres turistas e estrangeiras. Um comuna amigo meu "traçou" uma funcionária do consulado americano, a quem ele obrigava a chamá-lo de "Fidel Castro" (esse já foi até ministro...). Tudo era complicado, proibido, ao som do rock e bossa nova. Éramos assim em 1962. Aos poucos, melhorou... Em 63, conheci minha primeira grande paixão, minha vertigem e cegueira, pois, antes da pílula e sem recuos, ela tinha adentrado gloriosamente o "aparelho" secreto do Partidão na Rua Djalma Ulrich e, em meio a livros da Academia de Ciências da União Soviética, sob um pôster de Lenin e uma reprodução dos Girassóis de Van Gogh, "dera" para mim com amor e coragem. Foi um raio de triunfo em minha juventude. Lembro até hoje que, lá embaixo, na loja de discos, tocava o sucesso da época, "Chove Chuva Chove sem parar...", com Jorge Ben (ou seria Bicho do Mato?) Não sei. Mas, até hoje guardo na alma aquela tarde mágica e revolucionária de 63, com música do Jorge ao fundo, com a mulher com quem vivi até 69, ano em que ela resolveu me abandonar por outro, quando o grande sucesso musical era também de Jorge Ben: "Sou flamengo e tenho uma nega chamada Thereza...", o que fazia esse jovem comuna chorar pelas ruas, ao ouvir seu nome nos rádios e nas esquinas...

103. ARNALDO JABOR. VIOLÊNCIA VIROU PROBLEMA DE ESTADO-MAIOR. Sempre que escrevo sobre a violência me dá uma sensação de inutilidade. Quando vejo os movimentos de solidariedade, bandeiras brancas, pombas da paz, atores nas ruas, burgueses falando em cidadania, me dá uma sensação de perda de tempo. Nós tratamos os criminosos como se fossem "desviantes" de nossa moral, como gente que se "perdeu" da virtude e caiu no "pecado", no "mundo do crime". Não é nada disso. Eles são os novos empregados de uma multinacional. O único emprego que lhes foi oferecido no último século: a megaempresa da cocaína. Ela trouxe o poder sobre as comunidades que, somado à ignorância e à miséria, criou a crueldade sem limites, a bruta guerra animalesca. Os bandidos violentos são quase uma mutação da "espécie social", fungos de um grande erro sujo do qual nós somos cúmplices. Hoje, nós é que ficamos caretas diante deste mundo periférico que não se explica, gerando outra ética, funérea, sangrenta. A miséria armada é uma outra nação, no centro do Insolúvel. Essa gente era anônima; estão ganhando notoriedade na mídia. São vazios objetos de uma corrente de pó; nós, pequeno-burgueses, é que víamos neles até uma vaga consciência "política" de marginais. Achamos até que eles querem calar a imprensa. Nada. Mataram por matar, chamaram o Tim de X-9 e "já era" - disseram eles. Nós é que estamos lhes fornecendo uma "ideologia". Mas, não quero ficar deitando sociologia barata sobre a violência. Quem sou eu? Mas, vejo com um mínimo de bom senso que os vilões também somos nós. Eles são a prova de nosso despreparo. Os incapazes somos nós, ainda crentes de leis inúteis, de coerções superadas, de polícias falidas. Nós não fizemos nada quando as favelas eram pequenas. A miséria era dócil - podia ser ignorada. Agora, se não agirmos, isso vai virar uma endemia eterna. A lei não consegue nem instalar anticelulares nas cadeias e fica encenando comboios para a mídia, com cem policiais pra levar o Beira Mar para outra cadeia. Ninguém consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pública estão engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência "pós-moderna" dos bandidos, diretamente ligados ao ato, ao fato, à instantaneidade do mal, e sem freios éticos. Eles têm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, ciência, democracia e, aí, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o "shopping center". Eles são uma empresa moderna. Nós somos o Estado ineficiente. Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos. Eles lutam em terreno próprio. Nós, em terra estranha. Eles não temem a morte. Nós morremos de medo. Eles são bem armados. Nós, de "três-oitão". Eles ganham muita grana. (Um "aviãozinho" de 15 anos ganha mais por semana que um PM por mês). Eles estão no ataque. Nós, na defesa... Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós. Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços. Eles são protegidos pela população dos morros, por medo ou vizinhança. Nossas polícias são humilhadas e ofendidas por nós. Ninguém suborna bandido. Eles compram policiais mal pagos. Um cara que ganha 700 paus por mês não tem ânimo para combater ninguém. Eles não esquecem da gente nunca, pois somos seus fregueses. Nós esquecemos deles logo que passa uma crise de violência. A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais. Alguma vitória só poderá vir se desistirmos de defender a "normalidade" de nosso sistema, pois não há mais normalidade nenhuma; precisamos de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência. O combate ao crime passa pelo combate ao nosso descaso e incompetência. A luta contra o tráfico, é óbvio, começa lá longe, nas fronteiras. Por lá entram as armas e o pó. Não adianta subir e descer de morros. Temos de fechar fronteiras. A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado. Não. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de Estado-Maior. Sim. Trata-se de uma luta política e, mais que isso, uma luta policial militar. Acho que tem de haver sim uma séria articulação das Forças Armadas com as polícias. Tem de haver generais estudando estratégias e logísticas de cercos e ataques. Meses de estudo, planos secretos, dinheiro, muito dinheiro e milhares de homens com armas modernas. E tudo isso coordenado com campanhas de esclarecimento e de proteção às comunidades que eles "protegem". "Ahh... - alguns vão gritar - o Exército não foi treinado para isso!" Pois, que seja treinado. Trata-se de uma guerra. Ou não? Não combateram a guerrilha urbana, com implacável ferocidade e competência? Aposto que outros dirão: "O Exército não é para crimes comuns; é para guerras maiores..." Para quê? A invasão da Argentina? A guerra que se anuncia é subversiva no pior sentido. Não aspira a uma ordem nova. Só quer uma vingança obtusa e a manutenção da miséria como refúgio. No fundo, muitos não admitem a ação das Forças Armadas, porque desejam ocultar a derrota de um sistema legal e policial. A guerra é reconhecimento do fracasso da política. Pois que seja. Nosso fracasso tem de ser assumido. Do contrário, continuaremos atrás das grades de nossos condomínios, dizendo: "Que horror!" para sempre. Crime hediondo é que isto não seja uma prioridade nacional. A tragédia das periferias brasileiras me lembra um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve a catástrofe e todos nós tentamos esquecê-la, trêmulos de medo, blindados, com os "socialites" cheirando o pó malhado de otários, perpetuando esse poder paralelo, que tende a crescer.

104. ARNALDO JABOR. NAS PERIFERIAS, A 'PÓS-MISÉRIA' CRIA OUTRO PAÍS. Você já foi à periferia? Já pisou na lama - não nas poças-d'água dos Jardins - mas nas avenidas de lama, casas de lama, já visitou um buraco quente de noite, quando as luzes mortiças não iluminam teus passos trêmulos, em ruas onde não há um resquício de beleza ou esperança? Não falo tanto das favelas cariocas, barra-pesada, sem dúvida; mas, no Rio, ainda temos a música, uma cultura popular, uma ginga, uma tradição de malandragem, há a paisagem que te coopta, há o crack, o terror, tudo, mas há o mar ao longe, há um certo orgulho de se ver temido nos sinais de trânsito, há um certo charme na desgraça. Falo mais da periferia de São Paulo, onde nada mitiga o horror da mesma paisagem se estendendo por vilas e bairros, a mesma cor, a mesma casa, a mesma merda, os mesmos tijolos sem caliça, o mesmo infinito labirinto sem cultura ou amor. Há quatro filmes importantes saindo agora, sobre a mesma tragédia social das periferias: O Invasor, de Beto Brant, Estação Carandiru, de Hector Babenco, Cidade de Deus, de Fernando Meireles e Katia Lund, e O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca. Os quatro filmes mostram esse novo mundo que cresce como um câncer à nossa volta e do qual só queremos distância e segurança. Mas os cineastas estão esfregando em nossa cara estas 'cisjordânias do lixo', estas faixas de Gaza mortas, estes 'talibans' que surgem de suas frestas. No filme O Invasor já dá para sentir seu impacto raiando como um sol negro sobre nós. O Invasor é excepcional pela maneira de ver esse mundo 'sujo' que subitamente invade a tranqüila sordidez de uns burgueses criminosos. Neste filme não se retratam mais os pobres como uma espécie de 'decadência' dos ricos, como se os excluídos fossem seres 'aquém' de nosso conforto. Não há mais a idéia de 'proletários' ou de 'infelizes' ou de 'explorados'. Eles nos mostram o Insolúvel, perplexos com o mistério da miséria. Eles não sabem o que fazer com isso, eles não se comprazem mais na denúncia de uma injustiça. Eles estão diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso. A 'pós-miséria' está gerando uma nova cultura, se é que esta palavra se aplica à vida esmagada tentando existir. Na minha geração, a miséria era um contradição do capitalismo, a ser minorada pela justiça social. Românticos, nós sofríamos com a miséria... dos outros, claro. Nós viríamos com a 'revolução' (ahh bons tempos...). Mas, a miséria era 'lá', nos morros, na seca, longe e gerava o crime como um desvio do comportamento 'normal'. O crime casual legitimava nosso mundinho 'bom'. Hoje, o crime nos envolve, nos incrimina. Não há mais inocentes. Hoje, nós é que ficamos caretas diante deste mundo periférico que não se explica, gerando outra ética, funérea, sangrenta, muito diferente da nossa 'bondade' de privilegiados. A miséria era nosso problema existencial. Hoje, a miséria é uma outra nação, no centro do Insolúvel, intocada pela salvação e pela esperança política. Voe de helicóptero durante meia hora sobre um mundo de lama e atraso e me diga como resolver esse problema, como acabar com isso? Como? Como, PT? Como, tucanos? 'Isso' ficou tanto tempo ignorado, que já virou 'aquilo'. Isso não está mais no campo de nossos poderes. E não falo da violência. Falo da 'normalidade' , de uma cultura bruta e nova. Antigamente, pobres e assassinos pareciam não ter vida interior. A TV, a comunicação democratizante do consumo, fez surgir uma massa miserável, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de desejo, a violência como fome de expressão. Não é mais inferioridade; é diferença. Na época do Cinema Novo, a causa era a 'estrutura social'; depois, na contracultura dos anos 70, havia uma atração fatal pelos marginais-heróis e, hoje, temos o mistério da 'anomia', do nada. Deus morre ali, Marx morre; eles é que estão elaborando a própria 'teoria'. No filme de Beto Brant, há uma cena antológica, quando o 'rapper' negro Sabotage - que existe de verdade - faz o papel dele mesmo e canta um 'rap' num escritório de burgueses perplexos. Ali, o documento invade a ficção. É um ET contra os 'brancos' e, se há desamparo ali, é dos branquelos. Antes havia uma 'esperança' teórica; hoje há o absoluto impasse. Há 40 anos talvez houvesse uma solução higiênica, assistencialista. Hoje não adianta mais o papo de luta de classes, de conscientização, cidadania... Eles se conscientizaram sozinhos, em outra direção. Tarde demais, políticos egoístas, trata-se de um muro de chumbo, com raízes fundas. Quem resolve? Com que verbas, com que direito, com que poderes? E quem disse que eles ainda querem que nós os 'salvemos'? Já virou 'science fiction' de miséria, já é um Blade Runner de lama. Eles ainda têm muito a tirar de nosso mundo: granas, assaltos, vinganças. Nós somos a riqueza deles, sua mina. E nós, o que temos a tirar deles? O trabalho mal pago de empregadas e biscateiros? Bem... não vale mais a pena. Nosso prejuízo é maior; o trade off nos é desfavorável. Restam-nos coisinhas existenciais; eles nos ensinam a convivência com a tragédia do mundo, com opacidade da vida, um existencialismo emergencial, sangrento. Assusta-me o ódio difuso que eles nos dedicam; vocês já repararam que não há um só muro, uma reles parede em São Paulo e no Rio sem um grafite imundo e ilegível? Assusta-me a perda de energia de milhares de jovens na madrugada, dedicados a se vingar da cidade, emporcalhando-a. As pichações são a literatura da periferia que nos denuncia. Para entender o Brasil de hoje, para qualquer ação de governo, o fundamental é entender as periferias. É nosso problema mais profundo e urgente. Que vamos fazer, burgueses escravistas de 500 anos? Estes novos filmes são importantíssimos. Não para nos fornecer certezas nem consolos de boa consciência. Mas para nos mostrar que nós somos os 'excluídos' deles. Eles não são nosso problema; nós é que somos o problema deles.

105. ARNALDO JABOR. ÔNIBUS 174 É UM FILME GENIAL SOBRE NOSSO DESTINO. O Lula tem de ver este filme: Ônibus 174, um documentário de José Padilha, montado com os fragmentos assustadores da TV, no dia em que o Ônibus 174 foi seqüestrado no Rio por um rapaz muito doido, sobrevivente da chacina da Candelária. É o filme mais importante dos últimos tempos! Mais que um filme: é uma aula de Brasil para todos os que querem mudança. O pobre-diabo não ia matar ninguém mas, triturado nos dentes da miséria carioca, entre prisões e cola cheirada, entre crack e porrada e sangue e bosta, viajou até o clímax do seqüestro, fechando um roteiro de filme trágico, com princípio e fim. Ele gritava o tempo todo na janela do ônibus, (lembram-se?): "Isto não é filme não! É pra valer!!!" Era. Um filme sobre ele mesmo em que ele atuou, visto por 60 milhões de brasileiros. Todos, jovens, velhos, donas de casa, chefes de família, todo mundo tem de ver esse filme. Já. Lá está escrito o nosso destino. Todos têm de vê-lo para entender por que somos inocentes e culpados. Trata-se do retrato do Brasil de hoje, com todas as conexões do horror que se montou nas periferias do Rio e São Paulo: a falta de preparo da polícia, a miséria dos equipamentos, a estupidez política que impede a eficiência pública, a massa imunda de egoísmo, desatenção, escravismo e capitalismo selvagem que criaram a insolúvel encruzilhada em que nos encontramos. Como deixamos isso acontecer? Qualquer governo estadual ou federal tem de criar um programa para acabar com isso. E não tem mais papo de "prioridades orçamentárias"... A ópera sangrenta de miséria e crime tem de ser prioridade nacional. Os filmes como o extraordinário Notícias de uma Guerra Particular, Cidade de Deus ou Carandiru (que vem aí) mostram que a realidade no Brasil é muito mais incrível que qualquer ficção. Não vou fazer literatura aqui não. Dane-se este artigo, este meu texto inútil, mas esse bode das periferias é mais urgente que a dívida externa, que o superávit primário, é mais urgente que petróleo, produto interno. Tem de haver um urgente pacto social, seminários de especialistas para se encontrar uma solução, com muita verba. É vergonha demais que não haja um Congresso sério liderado por gente como Yvonne Bezerra e cientistas políticos para tirar as crianças da morte em vida na rua, impedir que uma mãe grávida de gêmeos seja degolada na frente do menino, como foi a mãe de Sandro, o seqüestrador do Ônibus 174. Tentem qualquer coisa, qualquer plano serve, mesmo que errado. Alguma coisa tem de ser tentada. É sujo demais o que acontece debaixo de nossos olhos fechados de medo. O governo federal tem de imediatamente alocar verbas para isso. Arrocho fiscal? Dane-se. Tem de arranjar grana, não pode continuar o horror de nossas prisões, masmorras pré-medievais, como mostra uma das mais espantosas cenas do nosso cinema, quando os presos gritam que morrer seria melhor que ficar naqueles calabouços. Nossa infância pobre não pode continuar sendo tratada como um caso de polícia ou como um "desvio da norma", como fala a linguagem jurídica pomposa, como se eles fossem cidadãos que "escolheram" o "pecado", o "crime". Não. Eles não são cidadãos, pois só são tratados assim na hora do julgamento; são pobres animais feridos e loucos, são aberrações que nós criamos, são nossos filhos com o demônio, nossos dejetos que criamos por 400 anos. É cruel demais que não haja nem que seja uma solução assistencialista, qualquer coisa para proteger essas crianças de rua. Esse filme mostra um terremoto ignorado para o qual não mandamos patrulhas de salvamento. Eu escrevi no dia do seqüestro: "A verdade é que estamos impotentes diante dos fatos, não só no crime como na política, pois as coisas passaram a mandar nos homens e os governos ficaram ficcionais. O seqüestro-pastelão foi um exemplo claro dessa impotência. Os fatos estão muito além das interpretações. Só dispomos de adjetivos e a realidade se move com duros substantivos." Só temos protestos éticos, expressões de horror e nojo diante de um labirinto de coisas concretas que, como uma favela de substantivos, se estende insoluvelmente pelo País. Esta tal "violência" não tem solução. Só seria resolvida por uma conjugação de mudanças sociais, políticas, que nenhum governo tem condições de efetuar. Esse pobre-diabo quis nos chocar com sua miséria insuportável, sua bravata pobre, com a ilógica de seu comportamento. Ele quis nos ensinar alguma coisa, mostrar que era um estorvo sim, um trambolho, um "bode preto" em nosso sossego. Tão ridículo era aquele menino seqüestrando um ônibus sem motivo que todos ansiávamos por vê-lo morto, como uma barata, um rato que estragava a linda tarde carioca, para que acabassem logo com aquela chateação, aquela zoada, e restaurassem o nosso sentimento de "normalidade". Assistimos a um show de peripécias sangrentas: marginal muito louco contra policiais babacas sem equipamento, sem comando, sem treinamento. Tudo formal, tudo adjetivo, tudo de mentira - polícia de mentira, criminoso de mentira e mulher morta de verdade. Só isto aconteceu: um nada com final sangrento. Esta é nossa angústia; mais que medo, estamos com vergonha do absurdo de nossa mentirosa e fracassada organização social. Em tudo fica provado que o principal defeito brasileiro é a ineficiência, é deixar as coisas pela metade, errar o alvo constantemente. Nunca nos importamos com as favelas. Agora, com o medo, pouco a pouco ao menos, está crescendo a consciência de nossa miséria insuportável. Ônibus 174, além de ser um dos melhores filmes de nosso cinema, é um crescimento para nossa consciência política. Vejam esse filme, vejam esse filme, chorem com ele! Falem para todos que não dá mais pé vermos o show da miséria que começa com menininhos fazendo malabarismos nos sinais de trânsito e termina tratando-os como ratos mortos à nossa frente.

106. ARNALDO JABOR. OS TERRORISTAS QUEREM MATAR O AMOR E A ALEGRIA. A discoteca explodiu em sangue em Bali e eu pensei, com ódio, por um segundo: "Por que não jogamos logo uma bomba atômica em Meca e torramos aqueles milhões de árabes sujos?" É assim que começa a avalanche do irracionalismo. O 11 de setembro foi um ataque ao mercado e ao trabalho; Bali foi um ataque ao prazer, foi um ataque a tudo que amamos: a alegria, o sexo, a música, a liberdade, a beleza. Para eles, nós somos uns cães infiéis a destruir. E não tem negócio, não tem papo-vaselina nem diplomacia, estamos condenados. Isso muda nossa vida, cultura, política, porque agora o mundo não se vê diante de um problema; o mundo se vê diante do Insolúvel. Um problema pressupõe solução; mas, não há mais solução. O problema somos nós, os demônios que impedem o Califado eterno de Alá. E não só o terrorismo que não tem solução. A migração de excluídos na Europa não tem solução, não há solução para o Iraque, para o duelo Sharon-Arafat, não há solução para Índia-Paquistão nem para a África nem para o tráfico, não há solução nem no Rio nem na Colômbia, não há solução para a miséria, para a imbecilização pela cultura de mercado para as massas. A própria idéia de "solução" é Ocidental, do século 18. Para o Islã, não há nem problema - tudo estava escrito. Os americanos, que vivem em função de "resolver" as coisas, estão desesperados, pois terão de viver sem solução - é o inferno dos obsessivos... E daí? Bem, amigos leitores, vamos encarar: o mundo sempre foi uma bosta. Só que, agora, parece que todos os tumores estão vindo a furo, todos os conflitos estão explodindo. E tudo, de repente, como um ataque epilético. De uma forma repugnante, a verdade atual apareceu, pois nem lembrávamos da existência do Islã. O terror insolúvel talvez nos torne mais humildes diante da vida. Teremos de ficar mais "orientais", mais "fatalistas", mais conformados com o erro do mundo. Acaba a idéia de que, um dia, chegaremos "lá". Lá, aonde? A uma sociedade boa, justa, pacífica? "Nonada", jamais. Acabou a idéia de uma grande "pátria" ocidental-americana, organizando a sociedade como um parque temático, um supermercado ou uma disneylândia. A globalização só conseguiu "globalizar" o terrorismo, emprestando tecnologia à miséria. Mandamos os McDonald's; eles nos mandam homens-bomba. O terror trouxe de volta uma neoguerra fria: o medo, a face da morte que andava escondida, sublimada nos filmes, na gargalhada infinita do "entertainment". O terror acabou com nossa idéia de "finalidade", de "projeto". Nosso projeto foi reduzido a controlar os fanáticos da Al-Qaeda, os bodes pretos da miséria e da superstição. Nosso projeto é localizar bueiros com bombas e cartas venenosas. Esvaziou-se nosso desejo de tudo controlar, a busca do destino sem acontecimentos, sem sustos, sem morte súbita. Acabou o happy end, a lógica, o princípio, o meio e o fim. A cultura de massas tenta controlar a morte por sua transformação em espetáculo. A ficção dos filmes catástrofe sublimava nosso medo. Agora, a morte não mais estará num leito burguês com extrema-unção e família chorando, a morte será um cachorro pelas ruas, atacando de repente. Como o filme realista que Osama fez. Vai acabar aos poucos o sentimento ocidental de superioridade, acaba a fleugma, a displicência "debonnaire", acaba a "coolness", pois o homem-bomba desbancou o homem-cool; surgiu o horrendo "outro", sujo e mortífero, suicidando-se às gargalhadas. O terror está nos fazendo viajar no tempo. Em 30 minutos, fomos jogados de volta à Idade Média, terminando com o ritmo veloz do progresso e instalando a paciência oriental, a lentidão da vingança fria. Acabou o drama, esse "banho-maria" da infelicidade. Agora, ou teremos tragédia ou chanchada. A arte ficou inútil, quase ridícula diante das "instalações" terroristas, os defensores dos direitos humanos ficaram de mãos abanando, acaba a melancolia diante da realidade bruta, o surrealismo virou piada diante das ondas de antrax, o mito do indivíduo livre e indivisível dará lugar ao indivíduo esfacelado por bomba, coberto de pizzas sangrentas, os mortos caídos sob a música "tecno" em Bali, no mais belo lugar do mundo, assassinados por um DJ suicida. Acabaram os frutos produtivos da reforma protestante do século 16. Osama nos joga de volta ao ano 700, quando surge o guerreiro Maomé para iniciar uma guerra desigual que rola há 2 de mil anos, sem quer percebêssemos - uma guerra desigual: o Deus ocidental passivo diante do violento Maomé, armado até os dentes. Os fanáticos do Islã não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o Demônio - que somos nós. A guerra é assimétrica não só pelos absurdos exércitos caríssimos contra um só homem invisível, mas também porque só a América tem uma ideologia. Eles têm a teologia. Tanto o socialismo como o capitalismo surgiram do racionalismo ocidental. O Islã chega e acaba com a filosofia; fica só vida contra morte. O Islã transcendeu o político há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria felizes, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dúvida e do medo. Sua obediência ao Corão lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas até como matar "cães infiéis". Os miseráveis amam a própria miséria. Sua fé sem limites é a grande alegria e sossego das classes dominantes teocráticas e petrolíferas. Albert Camus disse: "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo" e não sabia que estava sendo profético. Descreveu também o mito de Sísifo, o homem condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra morro acima. É o nosso novo destino. O único jeito é sermos felizes assim mesmo. Como ele escreveu: "É preciso imaginar Sísifo feliz..." Nossa felicidade terá a morte sempre do lado. "Il faut imaginer Sysiphe heureux..."

107. ARNALDO JABOR. OS HOMENS DESEJAM AS MULHERES QUE NÃO EXISTEM. Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler. Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus. O que falta? Órgãos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..." Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem. Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem. A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens? Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..." Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva. Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade. A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Será que fui apenas barrado do baile?

108. ARNALDO JABOR. ESTÁ ROLANDO O CORO DESAFINADO DOS CANDIDATOS. Lula curvou a cabeça sobre o prato e orou: "Que Jesus nos dê sempre o pão..." - sob o olhar paternal do bispo Rodrigues, do PL e da Igreja Universal. Enquanto rezava, Lula pensava: "É dura a vida de um revolucionário. Terei de me aliar a estes exploradores da fé para ser eleito. Oh... que contradição... deve ser a tal 'contradição secundária' de que falava Mao e que o Genoíno cita tanto. Tudo bem. Eu me uno ao PL e, depois, no poder, eles que se danem..." Enquanto ele orava, o bispo Rodrigues do PL pensava: "Esse comuna acha que nos enrola. Ele está fazendo essa cara de bonzinho, mas nos acha um 'mal necessário'. Mas, no poder, ele vai ter de nos dar, no mínimo, o Ministério das Comunicações, algo assim, para a gente ferrar o Roberto Marinho e ampliar a Igreja Universal. Lula nem pense que somos uns babacas religiosos. Somos empresários ateus que resolvemos industrializar Deus. Nada mais lucrativo do que a miséria e a ignorância, inventamos o imenso mercado da miséria e dos 10 por cento. Se ele bobear, a gente chama ele de 'Satanás' de novo. E Lula falava com seus botões: "Quando eu surgi na política, eu não queria saber desses intelectuais babacas, dessas professoras da USP que queriam dar para mim, porque eu era um símbolo sexual operário. Eu era a renovação ideológica, a crítica da crítica velha. Hoje, esses ideólogos que me paparicam me achavam 'primitivo', 'um simplista que precisava ser educado pelos marxistas'. Mas agora, chega. Não vou perder pela quarta vez. Preciso desses bispos da Igreja Universal e dane-se que o PL apoie no Acre a turminha do esquartejador Hildebrando e em Alagoas, a gang do Collor..." E o d. Marcelo da CNBB soube e reagiu: "Virgem Maria!... O Lula nos enrascou. Como vou fazer propaganda do PT com ele agarrado nos bispos Macedo e Rodrigues? O Lula está criando uma situação cheia de complexidades, como se fosse um tucano... Para nós, da igreja política, os simplismos do PT caíam-nos como uma luva: 'a justiça é injusta'; 'o pobre é pobre...' A sagrada ignorância política da Igreja não pode se ater a meros detalhes como 'realpolitik', 'condições objetivas', etc... Somos o bem contra o mal, Deus contra o Diabo na terra dos desinformados. Lula está com Jesus do Macedo ou o nosso?" E o filósofo do PT meditou: "Ohhh... o Lula quer estragar meu sonho... passei os últimos 30 anos de minha vida estudando Marx, Lenin e Gramsci; há décadas eu cultivo a beleza das impossibilidades, vivo com o doce 'frisson' da 'boa consciência'. Eu que sempre amei a utopia impossível como um Espírito Santo das esquerdas. Eu, aqui no meu cardigã de cashmere, sonhando com um mundo irreal, uma república imaginária, onde o Zé Dirceu distribuiria bens a todos 'segundo suas necessidades e capacidades', e vem o Lula sujar minha lucidez dialética? Que vou dizer na pizzaria utópica?" E os sectários do PT choraram: "Meu Deus... eu sou do PT e sempre me agarrei na 'pureza' para justificar meus fracassos. E eu sempre pude erguer a fronte suada de dignidade e bradar nos bares e churrascarias: 'Eu sou puro! Eu sou ético!' Sou a favor do Povo, mesmo que eu nunca tenha feito nada para o 'povo', esta entidade mística que adoramos... Agora, estou sem rumo... Eu que sempre quis perder eleições pois só o fracasso enobrece, o doce fracassso, a surra, a sova, a santificação da derrota, o manto sagrado do naufrágio. Eu, que sempre vivi de meu radicalismo, agora sou obrigado a me defrontar com essas manobras do Lula..." E o Garotinho esperneou - "E eu? Eu... que teci uma ideologia populista de direita disfarçada de centro-esquerda, eu que finjo há anos que acredito em Deus e que sou 'evangélico' para captar os votos desses idiotas, eu que consegui enganar os cariocas, que se pensam malandros mas que são otários deslavados, eu que refundei um neo-chaguismo, eu que nunca parei para administrar nada e que só penso na Presidência como um 'Oscar' para minha mediocridade, eu que transformei minha Rosinha na Evita Peron dos descamisados de Campos, e vem agora esse sapo barbudo querer comer na minha horta, rebolando para meus evangélicos? Vingança!" E o cientista político amargurado pensou: "Santo Weber!... As gafes que o Lula tem aprontado são o retrato da atual mixórdia ideológica do PT. As gafes são exemplares: elogiou o boçal do Hugo Chávez que tem algo de Guevara misturado a leão-de-chácara de bordel. No imaginário de Lula, ele é um 'macho bolivariano'. Depois, Lula baba diante de Fidel e elogia os agricultores franceses que nos destroem, só porque eles têm uma aura nacionalista. O rocambole ideológico do Lula vai de um vago terceiro mundismo da guerra fria variando para um arremedo grosso de 'realpolitik' tucana, com as barretadas ao PL, ao Quércia, a tudo. A visão aliancista do PT é apenas um 'noivado com traição'. Eles nunca entenderão que a aliança é necessária não só para ganhar, mas para dar conta da complexidade dos desejos do País. Nunca entenderão que o Brasil é uma frágil máquina formada em séculos oligárquicos e que não pode ser desativada apenas com um elã de ruptura, um machismo 'revolucionário' porque, aí, a máquina se quebra e nada mais funcionará. Se isso acontecer, seremos a Argentina de amanhã." Roseana - "Sinto-me fraca... por quê? Sou legal, estudei História, mas sinto atrás de mim uma corte de oligarcas, uma multidão de interesses nordestinos se acotovelando, com a fome de mil sudenes, mil sudams; sinto-me uma Joana d'Arc na frente de um exército que quer se vingar de São Paulo." Serra - "Meu Deus... Passei 14 anos no exílio estudando; todo mundo diz que eu sou o melhor candidato, preparado para o governo e me boicotam. Acabo tendo de ir ao programa do Ratinho..." Ciro - "Sou bonito, fui bom governador e agora estou ao lado de Roberto Jefferson e no colo do Brizola... Devia ter ficado no PSDB..." Itamar - "Arrrghhhhh....babb buub....buá..."

109. ARNALDO JABOR. BRASIL SEMPRE TEVE A CULTURA DO DESRESPEITO. Agora, todo mundo entende de violência. É o que vejo nos jornais, revistas e nos papos de bêbados em bares. Todo mundo que tem o privilégio de ter projetos de vida, de construir futuro e família, acha que é diplomado em violência. É o chamado 'bom senso de gravata'. Por outro lado, quem vive além da segura fronteira entre a morte e a vida (única fronteira) fica mais quieto, descrente. Daqui a pouco, como uma explosão se perdendo no horizonte, o clamor público deve amainar. O Brasil é assim - maníaco e depressivo; depois da grita, vem o lamento, depois o esquecimento. Vamos ver se agora muda. Ninguém consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pública estão engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência 'pós-moderna' dos traficantes e seqüestradores, diretamente ligados ao ato, ao fato, à instantaneidade do mal, favorecida pela ausência de freios éticos ou piedosos. A mesma instantaneidade narcísica do consumismo moderno atingiu os criminosos. 'Fast food, fast buy, fast fuck, fast love, (e, agora) fast crime'. Eles têm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, cultura, ciência, democracia e, aí, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o 'shopping center'. Quanto mais complicada a democracia e suas redes de proteção, mais protegido estará o criminoso. Quanto mais estrangeiro a nossos pudores, mais rápido o bandido - bastam a 'mão grande', a raiva acumulada, a ausência de esperança, de virtudes. E continuamos a achar que há uma 'solução' que não é aplicada por falta de vontade, apenas. Continuamos a sonhar com um futuro de harmonia - um dia, conquistaremos uma harmonia funcional liberal: pobres em seus barraquinhos, riquinhos em seus barquinhos, virtudes de um lado e vícios do outro, 'playboys' nos Jardins e 'manos' na periferia, talvez ajardinada para ficar mais legalzinha, mais palatável, com casinhas pintadas. Basta dar uma voadinha de helicóptero pela periferia de São Paulo ou pelo Complexo do Alemão, no Rio, e ver que não há 'solução'. O labirinto de impossibilidades se soma ao labirinto de incapacidades, à falta de dinheiro, ao inferno dos interesses e tudo se paralisa, se aniquila diante da singeleza minimalista do crime, que sempre encontra uma brecha para entrar. A verdade é que o Brasil sempre teve a 'cultura do desrespeito' à Lei. Nossa sociedade foi montada na transgressão à ordem, no horror à coisa pública, horror aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de maus pagadores, de sonegadores de impostos, de pequenos psicopatas 'light' do dia-a-dia, uma sociedade de malandros cariocas ou bigodudos paulistas espertos. Nossa violência é difusa, herdeira do escravismo, está nos quartos de empregada, no trato com os pobres, no egoísmo endêmico dos burgueses. Nossa violência simbólica também é visível em toda parte; basta ligar a TV com controle remoto: clic, pastor evangélico sórdido engana desesperados, clic, jovem anda de quatro com biquíni fio dental, clic, feiticeiras rebolam as bundas, clic, ratinhos humilham aleijados, clic, mau gosto geral, grossura geral, clic, tudo cercado pelas maravilhosas mercadorias nos comerciais. Este é o caldo de cultura onde nasce a prática do desejo criminoso. Horror à lei A verdade é que nunca tivemos amor à nossa polícia. Nunca amamos nossos policiais como os ingleses que se orgulham dos 'bobbies' e da Scotland Yard, como os americanos que louvam os heróis policiais em seus filmes. A polícia sempre foi tratada aos pontapés em nossa cultura. Houve mesmo um tempo em que os marginais e criminosos eram vistos pela 'cultura crítica' como primos da 'revolução', como heróis coadjuvantes de Guevara ou então como galãs de um 'desbunde politizado', na base do 'seja marginal, seja herói'. Eram primitivos contestadores do 'sistema'. Vingadores da miséria. O 'mal' lutava pelo 'bem'. Enquanto isso, os policiais eram os 'agentes do mal', agentes das elites, da propriedade privada. Assim, eram vistos pelos intelectuais: como fascistas e vendidos. E, pelos burgueses eram considerados incompetentes e inúteis cães de guarda, que não cumpriam seus deveres do extermínio de sangue. Até hoje vemos esta divisão: os exigentes brutais e os delicados. Os 'malufinhos' e 'afanásios' que berram: "ROTA na rua!" E os que falam em 'causas sociais'. Claro que ganhando merrecas entre nuvens de pó e sangue, partiram para a simbiose com bandidos... Agora, surge uma nova sociedade feita de fome e 'funk', de rancor e desejo de consumo. E são estranhos frutos do desenvolvimento e da democracia. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, como um monstro Alien que se esconde nas brechas da tecnologia e da prosperidade. Não podem mais ser chamados de 'marginais', pois se constituem com contratos sociais, siglas e bandeiras. Surge um sujo país sangrento ao nosso lado, que pode levar à zonas dominadas, como na Colômbia. O paradoxo do progresso excludente gera essa violência, antes invisível. Há pouca inteligência objetiva na enxurrada de opiniões na imprensa. Uma exceção é o texto do coronel reformado da PM de São Paulo, hoje pesquisador do Instituto Fernand Braudel, José Vicente da Silva Filho: "Não podemos enfrentar o crime do século 21 com uma polícia do século 19. (...) Os governos consideram o policial como um funcionário qualquer, esquecendo que nenhuma função pública reúne tantos fatores estressantes como o trabalho policial. Sem investir na capacitação, em condições de trabalho, em salários decentes, direitos especiais como aposentadoria diferenciada, não se pode ter combatentes aptos contra o crime" (Veja). Gente como ele, criada na linha de fogo, enxerga o óbvio: "É preciso se orgulhar da polícia, fortalecer a polícia." Esse cara devia ser chamado para consultas.

110. ARNALDO JABOR. FHC E BUSH FALAM E PENSAM DE OLHOS NOS OLHOS. Vou tirar os óculos para você ver melhor meus olhos - disse FHC para Bush. (Será que eu devia dizer isso? No Brasil, minhas piadas viram gafes... mas essa é boa pra relaxar e marcar posição...) - Ha... ha... ha... - gargalhou Bush... (Será que esse brasileiro veio aqui pra me gozar? Ontem eu disse que ia olhar nos olhos dele para intimidá-lo, mas ele é hábil...) Entre mim e o presidente... (Como se pronuncia o nome dele, my God?) entre mim e... aqui... o nosso amigo do Brasil... há um diálogo proveitoso...Teremos relações frutíferas!... (Esse brasileiro me encabulou... não consigo parar de olhar nos olhos dele... será que ele vai pensar que eu sou bicha?...) - Conheci seu pai, presidente Bush, e estou muito feliz de ver como o senhor é... (Olhos tristes, boquinha carente...) - (Pronto, já começou a falar do papai... Quando serei eu mesmo?) É uma honra dar as boas-vindas ao chefe de um país tão importante e que também é um bom homem - balbuciou Bush. - Obrigado... Mr. Bush. (Como sabe ele se eu sou um "bom homem"? Bem "texano", isso. "Bom homem" é o cacete!) O senhor também é um homem bom e eu acho que os EUA e o Brasil têm de estar próximos, e não apenas em termos de comércio (É a única porra que importa, cacete...) mas também pela segurança no hemisfério. - Isso mesmo, mr. Hendrik Cardoso: democracia na América do Sul. ( Eu devia era falar da Alca, mas o Colin Powell e a Condolezza mandaram eu ficar calado - por que botei esses crioulos na Casa Branca?) Mais importante que negócios é a defesa dos direitos humanos! (Ohh... bullshit!) - É... mas, para o senhor, primeiro vem o interesse americano, claro... Para mim, primeiro vem o interesse brasileiro... ( Ha ha... xeque-mate!) - Claro... mr. Cardoso, temos de unir nossos interesses... (Esse latino é bem folgado... Parece estar me fazendo um favor...) - As discordâncias são normais, mas saberemos resolvê-las... (Dá-lhe, Fernandinho... Ha ha... é a primeira vez que não estamos lhe lambendo o saco!... O Bush é que está pedindo nossa cooperação para a Alca sair!) - Claro, mr. Cardoso, com um mercado aberto e frutífero, o futuro do Brasil será glorioso! (Tenho que dobrar esse cara para a Alca...) - Claro, mr. Bush... Nossas relações serão sempre fruitful, frutíferas!... (Será que ele sacou a "indireta"? "Frutíferas" são nossas laranjas que vocês vetam, seus sacanas, com suas sobretaxas hipócritas... Eu não sou babaca não, estudei "O Capital" com o Gianotti em 58. Pensa o quê?) - Há um belo futuro em nossas relações, mr. Cardoso... (Ai, que saco! Bons tempos do big stick, do "belo sorriso na boca e um porrete na mão". Esses latinos têm mais é que abrir esse mercado e parar com esse papo de indústria, de informática... Exportem matéria-prima, porra... Ele não presta atenção no que eu falo... Esse sorriso tem uma ponta de mofa... Ele deve preferir o Clinton...) - Quando eu estive aqui, mr. Bush, nesta mesma cadeira, com mr. Clinton... - (Viu, eu não disse? Ninguém me ama...) Sim, eu me lembro... Vocês foram para Camp David... ( disseram-me que ele também fumou maconha, mas não tragou... São dois narcocriptocomunas!) - ... pois eu falei ao Bill (ai, que intimidade...) que as Américas teriam um futuro sólido e um projeto... - "Frutífero"!... (My God,... só me ocorre esta palavra...) O Brasil, mr. Cardoso, é um país muito bom e seguro para se investir dinheiro... (Ihhh, cacete!... Por que a Condolezza me fuzilou com os olhos? Ihh... acho que amanhã as ações brasileiras vão estourar na Bolsa mundial! O Cardoso está deliciado com este marketing gratuito que fiz!...) - É isso aí, Bush! O Brasil é ótimo pra investimentos... Nós pagamos mais de 15 por cento ao ano em renda fixa... quem dá isso? Ninguém. E com uma boa carteira de ações... (Ihhh! Cala-te, boca! O Celso Lafer já me olhou... Eu não posso fazer propaganda, não sou corretor, porra...) Nossa economia está consolidada... Com os EUA e o mundo teremos relações comerciais maduras e... - ..."Frutíferas", Mr. Cardoso. (Shit! De novo!... Vou mudar de assunto) Precisamos combater o narcotráfico, pois a Colômbia está perto do Brasil... - É... mas são mais de mil quilômetros de distância... mr. Bush... Se os narcotraficantes ousarem atravessar nossa fronteiras, terão o tratamento que merecem (Cruzes! Como estou corajoso! Mas, que Colômbia o cacete... eles querem é criar um bafafá armado, um incômodo estratégico na região... Querem gerar turbulência capaz de atrasar nossa integração política e o Mercosul...). - Isso, mr. Cardoso! As drogas são terríveis!... Temos de combater o Narcosul... isto é, o narcotráfico... (Ihhh, cacete, fiz um "ato falho". É Mercosul, sucker... Ainda bem que a Argentina come na nossa mão e vai trair... o Chile está no papo. Com a Colômbia, eu encurralo de tabela aquele escroto do Chavez e acabo com a mania de independência desta putada, que quer negociar com a UE.) - Nosso secretario para América Latina... o Otto Rich... está atento para o problema.... - Ahh... o Otto Rich... legal... (Eis a idéia que esse cara faz da gente, nomeando aquele verme de direita. E aí?... Esse cara não vai falar da Alca? É a única coisa que eles querem...) - Nosso encontro é muito importante... Somos dos amigos... mi mujer es mejicana... (Por que não posso falar da Alca, das patentes, da indústria farmacêutica que pagou minha eleição? O Colin Powell não quer... Diz que minha função hoje é só sorrir... OK, depois eu mando a tropa de choque dos negociadores de elite.) - Si... yo sé... usted habla espanol muy bien, mr. Bush... (Espero que os itamaratecas depois não abram as pernas para os negociadores deles...) - La lengua brasileña, el español... es muy linda... - Claro, mr. Bush... (Que besta!... Não digo nada... minha função é apenas sorrir). Tenho certeza, mr. Bush, que nossas relações serão muito amigas, duradouras e... - Frutíferas, mr. Cardoso... (oh... shit!) - Frutíferas, mr. Bush... (ha... ha...).

111. ARNALDO JABOR. VALE A PENA VER DE NOVO A ZONA GERAL DO PAÍS? Meninos, eu vi... Eu vi as empregadas gritando, a cozinheira chorando, o rádio dando a notícia: "Getúlio deu um tiro no peito!"; eu, pequeno, imaginava o peito sangrando - como é que um homem sai da Presidência para o nada? Meninos, eu ouvi, anos depois, no estribo de um bonde: "O Jânio renunciou!" Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biquíni, briga de galo e de dar uma medalha para o Che, eu vi a história andando em marcha à ré e eu entendi ali, com o Jânio saindo, que os bons tempos da utopia de JK tinham acabado, que alguma coisa suja e negra estava a caminho como um trem fantasma andando pra trás; depois, meninos, eu vi o fogo queimar a UNE, onde chegaria o "socialismo tropical", em abril de 64, quando fugi pela janela dos fundos, enquanto o general Mourão Filho tomava a cidade, dizendo: "Não sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!" Eu vi, meninos, como num pesadelo, a população festejando a vitória do fascismo, com velas na janela e rosários na mão ; vi a capa do O Cruzeiro com o novo presidente da República de boné verde, baixinho, feio, quem era? Era o Castelo Branco e senti que surgia ali um outro Brasil desconhecido e, aí, eu vi as pedras, os anúncios, os ônibus, os postes, o meio-fio, os pneus dos carros, como um filme de horror; eu, que vivera até então de palavras utópicas, estava sendo humilhado pela invasão do terrível mundo das coisas reais. Depois, vi a tristeza dos dias militares, Brasil ame-o ou deixe-o, a Transamazônica arrombando a floresta, vi o rosto patético de Costa e Silva, a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso, vi e ouvi Jorge Curi na TV, numa noite imunda e ventosa de dezembro lendo o AI-5, o fim de todas as liberdades, a morte espreitando nas esquinas, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em câmera lenta, criminosos na própria terra; depois, vi o rosto terrível do Medici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, muito magra, infeliz, vi tudo misturado com a Copa do mundo de 70, Pelé, Tostão, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros heróicos e loucos, eu sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Exército com estilingues; não vi, mas muitos viram meu amigo Stuart Angel morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, na frente dos pelotões, enquanto, em São Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicitários enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do "milagre" brasileiro, enquanto as cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente; depois eu vi os órgãos genitais do general Figueiredo, sobressaindo em sua sunguinha preta, ele fazendo ginástica, nu, para a nação contemplar, era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o País falido aos paisanos, para nós pagarmos a conta da dívida externa, vi as grandes marchas pelas "diretas" e vi, estarrecido, um micróbio chegando para mudar nossa história, um micróbio andando pela rua, de galochas e chapéu, entrando na barriga do Tancredo na hora da posse e matando o homem, diante de nosso desespero, e eu vi então a democracia restaurada pelo bigodão de Sarney, o homem da ditadura, de jaquetão, posando de oligarca esclarecido; vi o fracasso do Plano Cruzado, depois eu vi a volta de todos os vícios nacionais, o clientelismo, a corrupção, a impossibilidade de governar o País, a inflação chegando a 80 por cento num único mês, meninos, eu vi as maquininhas do supermercado fazendo tlec tlec tlec como matracas fúnebres de nossa tragédia, eu vi tanta coisa, meninos, eu vi a inflação comer salários dos mais pobres a 2% ao dia, eu vi o massacre de miseráveis pela fome, ou melhor, eu não vi os milhões de mortos pela correção monetária, não vi porque eles morriam silenciosamente, longe da burguesia e da mídia, mas vi os bancos ganhando bilhões no over e no spread, dólares no colchão, a sensação de perda diária de valor da vida, eu vi a decepção com a democracia, pois tudo tinha piorado, eu vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em direção a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os otários da nação, que entraram numa onda política "aveadada", dizendo: "Ele é macho, bonito e vai nos salvar...", eu vi o Collor tascar a grana do País todo e depois a nação passar dois anos "de quatro", olhando pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, para saber o que nos esperava, eu vi Rosane Collor chorando porque o presidente tirara a aliança, eu vi a barriga de Joãozino Malta, irmão da primeira dama, dando tiros nas pessoas, eu vi a piscina azul no meio da caatinga, eu vi depois a sinistra careca de PC juntando o bilhão do butim, eu vi Zélia dançando o bolero com Cabral em cima de nossa cara, eu vi a guerra dos irmãos Collor, Fernando contra Pedro e, depois, como numa saga grega, eu vi o câncer corroendo-lhe a cabeça, eu vi o impeachment, eu vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por acaso, por mero acaso, por uma paixão de Itamar, eu vi o FHC chegar ao poder, com a única tentativa de racionalidade política de nossa história num antro de fisiológicos e ignorantes e, aí, eu vi a maior campanha de oposição de nossa época, implacável, sabotadora, eu vi a inveja repulsiva da Academia contra ele, eu vi a traição de seus aliados, todos unidos contra as reformas, uns agarrados na corrupção e outros na sobrevida de suas doenças ideológicas infantis. E agora eu vejo o estranho desejo de regresso ao mundo do atraso, do erro e das velhas utopias. Vejo a direita se organizando para cooptar a oposição, comendo-a , vejo um exército de oligarcas se preparando para a vingança, vejo ACM, Barbalhos e Sarneys prontos para tomar o Congresso de assalto, para impedir qualquer mudança e voltar aos bons tempos da zona geral. Meninos, vocês viram também, mas acho que esqueceram.

112. ARNALDO JABOR. CIDADE DE DEUS DESMASCARA NOSSA CRUELDADE. Não. Cidade de Deus não é um filme, apenas. É um fato importante, é um acontecimento crucial, um furo na consciência nacional. Fui ver o filme e saí modificado. Tenho a impressão de que esse filme não se diluirá como um espetáculo digerível. Nós não vemos esse filme; esse filme nos vê. Com essa epopéia da guerra dos miseráveis que nasceram no livro de Paulo Lins, sentimo-nos desamparados na platéia. Nossa vida de espectadores, com roupas e comidas, com namorada do lado, com pizza depois, ficou ridícula. Cidade de Deus faz balançar nossa sensação de "normalidade". Não dá mais para acreditarmos apenas que o crime tem de ser combatido para que a "ordem" seja mantida. Destrói-se nosso "ponto de vista" e viramos uma platéia de culpados. Esse filme agrega uma descoberta à opinião pública do País que nunca mais poderá ser ignorada. Enquanto a miséria era dócil, ninguém se preocupava com ela. Nossas empregadas surgiam de manhã, sumiam de noite, nossos faxineiros, copeiros e engraxates eram seres abstratos. Os pobres pareciam não ter vida interior. Podíamos romantizá-los, rir deles, paternalizá-los, tudo. Mas, a TV, a comunicação democratizante do consumo fez surgir uma massa miserável, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de expressão, a violência como fome e linguagem. A indústria cultural estimulou o desejo e a cocaína e o tráfico de armas trouxeram os meios para sua possível realização. Depois que a cocaína despejou milhões de dólares sobre o mundo da miséria, o contentamento letárgico da exclusão virou fome de consumo, a aceitação da escravidão disfarçada de "emprego" virou uma invasão do país "branco". Não é mais inferioridade; é diferença. Agora, é pau a pau. Existimos nós e eles. Um outro mundo está aparecendo, não como decadência ou ameaça, mas como sinistra cultura, pavorosos valores, tudo sob o manto sombrio da morte. Estamos enfrentando agora a morte no olho. A tragédia das periferias brasileiras sempre foi um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve um terremoto e todos nós tentamos esquecê-lo, subindo grades em nossas casas, com os socialites cheirando o pó malhado de otários e perpetuando essa miséria. Sempre tivemos uma consciência epidérmica dos problemas do crime. E só sabíamos dizer "que horror!", mas esse filme nos faz entrar dentro dos lamaçais, dentro das chacinas, dentro de tudo que sempre detestamos ver. Cidade de Deus não é o retrato condoído das favelas; não tem um só traço de sentimentalismo. Ele é também o nosso retrato, a 24 quadros por segundo, com nossos rostos aparecendo por trás dos meninos de 10 anos se matando com metralhadoras e fuzis. Ali estão visíveis todas as pistas de nosso caos, que levam à sordidez de nossas classes dominantes, às mentiras políticas, às falsas bondades, aos retóricos ideais nacionais. O filme prova nosso despreparo para resolver as tragédias sociais, mesmo que houvesse vontade política. O filme não conta o que aconteceu; o filme mostra o que está acontecendo agora, sem parar, enquanto o assistimos ou lemos estas linhas. O filme nos revela que houve uma "mutação social", ética, física. Ao sair do cinema, tive vontade de gritar nas ruas: "E aí? Ninguém vai fazer nada? Há milhares de crianças se matando e vamos continuar falando em criminalidade como um caso de polícia?" E logo depois penso: "Fazer o quê? Com que verbas, com que bilhões de dólares, com que vontade política, com que aparelhos do Estado, se o Estado está sendo tragado para dentro da miséria armada? Os fatos estão mais adiantados que a lei. Não adianta esta eterna guerra triste de policiais mal pagos e corrompidos (justamente) contra miseráveis lutando por existir. Aquelas crianças armadas estão acima do bem e do mal, sim. Precisamos de novos conceitos para entender este problema de Estado e da sociedade. Filme e fato são um retrato da sinuca de bico em que está o País todo. Em Cidade de Deus, o documento invade a ficção. Antes, havia uma "esperança" teórica; hoje há o absoluto impasse. Há 40 anos talvez houvesse uma solução higiênica, assistencialista. Hoje, não adianta mais o papo de luta de classes, de conscientização, cidadania. Eles já se "conscientizaram" sozinhos, em outra direção. Tarde demais, políticos egoístas; trata-se agora de um muro de chumbo, com raízes fundas. Quem vai resolver? Com que verbas, com que direito, com que poderes? E quem disse que eles ainda querem que nós os "salvemos"? O filme de Fernando Meirelles, co-dirigido por Katia Lund, é extraordinariamente bem produzido, bem dirigido, bem fotografado. Uma obra-prima; mas, não se trata de dizer na saída: "Gostei ou não gostei." Não se qualifica a descoberta de uma doença. Cidade de Deus fura as leis do espetáculo normal, trai a indústria cultural e joga em nossa cara não uma "mensagem", mas uma sentença. Estamos condenados a viver com essa tragédia, ela vai continuar crescendo como um tumor e não estamos preparados para curá-lo, porque fazemos parte dele, com a polícia vendida, a lei vendida, os negociantes envolvidos, aqui e nas fronteiras. Esse filme vai ser visto pelo País todo, num terror fascinado. Creio que vai provocar mudanças na conduta política, pois faz parte de um processo de conscientização que ninguém pode mais deter, dentro e fora do cinturão da miséria. Qualquer projeto nacional teria de passar prioritariamente pela salvação das periferias. Infelizmente, os "projetos nacionais" chegam sempre depois. Cidade de Deus já foi vendido para o mundo todo. Será um sucesso planetário e vai revelar para sempre nosso segredo: somos um dos países mais cruéis do mundo. Cidade de Deus mostra que o inferno é aqui, atrás de Ipanema ou dos Jardins. Esse filme nos desmascara para sempre.

113. ARNALDO JABOR. UM ESPERMATOZÓIDE QUE MUDOU A HISTÓRIA. A História tem, de vez em quando, uns ataques epilépticos - me disse outro dia o Cacá Diegues. Aquilo me tocou como uma faísca. Estamos em pleno ataque epiléptico, desde que Bill Clinton saiu do poder. Me dirão os cientistas políticos: isso é babaquice; não há conjunção astral na História. Mas, há. Eu estava nos Estados Unidos durante o governo de Clinton e eu vi, vi as coisas se armarem para culminar nesse caos que vemos agora. Tudo começou com um "blow job" de Monica Lewinsky no Bill Clinton. Um fato isolado, idiota, irrelevante, se for casado com o momento certo (ou errado), pode deflagrar uma mutação na política e na vida de todos. Como Pandora, a mulher mítica que abriu a caixa maldita de onde saíram os males do mundo, o amor "tiete" de Monica canalizou todos os ódios da direita fascista americana contra o primeiro presidente "cool" da História. Clinton sempre foi uma bofetada nos velhos puritanos da velha América seca e dura, aqueles rostos terríveis saídos do célebre quadro do Grant Wood, American Gothic. Clinton era tudo o que eles odiavam. Era bonito, sorria demais, tocava sax, gostava de mulheres, pecava, era um "baby boomer", foi contra o Vietnã e, com uma vitalidade tolerante e agradável, tinha uma visão ampla da responsabilidade da liderança da América com o mundo. Clinton era sexy. Eu vi uma entrevista coletiva em que mulheres perguntavam se ele usava cuequinha zazá ou "samba-canção". Ele disse que era zazá, para gáudio das jornalistas. Havia em torno dele uma euforia de astro, de ator de cinema... Clinton tinha seu lado filisteu, claro, mas era bacana e exercia um poder de calmante sobre a humanidade. Me dirão os cientistas de novo: ele apenas cavalgava uma fase positiva da economia. Tudo bem, mas Clinton também "animava" essa tendência, não era um puro objeto da prosperidade - dava um rosto a ela. Clinton foi o Gorbachev de uma pretensa "perestroika" americana e, do mesmo modo que o bom russo foi expelido e substituído pelo bêbado do Yeltsin, tivemos o filhote do Bushão, aquele que vomitou no banquete japonês, aquele que armou o Talibã no Afeganistão; ganhamos o menino-problema Bushinho que idealizava o pai e que tentava curar-se da castração enchendo a cara torturadamente. Os canalhas estavam só esperando um "vacilo" do Clinton para destruí-lo e, mais que isso, toda a idéia de liberdade e alegria que ele encarnava. Aí, chegou a Pandora Lewinsky, gordinha, republicana, histérica moradora no edifício Watergate (!) em Washington, com os lábios que iam deflagrar uma revoluçãoo mundial. Já havia outras denúncias de sacanagem de Bill, como a horrenda Paula Jones, em Arkansas, mas Monica foi a musa da desgraça. Muitos dirão que isso é astrologia política, mas há detalhes assustadores nos fatos que começaram a rolar como uma locomotiva golpista a partir da descoberta de que o presidente tinha uma amante dentro da Casa Branca. Tudo virou um relógio perfeito com todas as peças em sincronismo, para derrubá-lo. O lider era o procurador da república Kenneth Starr (lembram-se?), a figura mais óbvia do reacionário e puritano, boneca enrustida rancorosa. Todos diziam que o que incomodava a América de direita era a mentira que ele pregou, negando tudo. Não foi. Foi o sexo, foi a imagem do presidente de calças arriadas no Salão Oval, de madrugada. A conspiração foi perfeita: as fitas gravadas pela terrível mocréia Linda Tripp, com as conversas telefônicas de Monica e, suprema armadilha previdente de Linda, o vestido manchado de esperma que ela mandou Monica guardar, pois "ela poderia precisar dele, um dia..." O vestido ficou dentro de um plástico até o dia em que o Ken Starr conseguiu o exame de DNA e Clinton foi pego em mentira flagrante. Eu nunca vira um calvário tão humilhante. Ser apanhado pela esposa na cama já é um bode, imaginem pela nação toda... Esse espermatozóide mudou a História. Clinton resistiu ao impeachment, mas o estrago estava feito. O Watergate sexual dos democratas desmoralizou a América. As eleições foram perdidas porque o Al Gore, babaca e careta, teve medo de defender o Clinton em sua campanha. Sexo - o grande bode americano que ou é idealizado ou aparece em torturados sadomasoquismos. O crime de Clinton deu gás à direita cristã. Diante de democratas fragilizados pelo escândalo, Bush e seus asseclas tiveram o arrojo cínicio de partir para a fraude na apuração dos votos. E a imprensa democrática, que sabia dos escândalos de Bush na Harkem, ficou caladinha, acoelhada, muito mais leniente do que fora com o caso Whitewater que infernizou Clinton por cinco anos. A vingança de Nixon começou ali, 25 anos depois do Watergate, ali cresceu com precisão sinistra a vingança dos falcões contra o filho dos direitos civis e da revolução sexual. E, no mundo, tudo começou a andar para trás... Qualquer esperança de paz no Oriente Médio acabou, com o apoio explícito de Bush ao assassino Sharon, a recessão econômica que estava no horizonte chegou, as corporações aceleraram a roubalheira em seus balanços, a América Latina e África foram deixadas de lado, gafes vieram em sucessão, até que o Bin Laden veio salvá-lo com o ataque às torres, virando-o no caubói do "bem" contra o Oriente, que agora o odeia e a todos nós, os "kafir", cães infiéis. Acabou a época da esperança e começaram os impasses insolúveis. Eu, idiota, achei que a porrada das torres ia trazer para os americanos uma humildade dolorida; mas, ao contrário, Bush se sentiu livre para soltar todos os cachorros da direita tradicional. A América descobriu a guerra sem o contraponto soviético e agora está pronta para atacar o Iraque, obsessão de filho onde o pai falhou. A América resolveu assumir a unipolaridade, uma guerra quente contra todos, contrariando a frase do presidente Madison de que a "América tinha de ser tolerante e se ver pelos olhos dos outros países". Agora, ao contrário, todos teremos de viver pelo único olho do cíclope americano, burro e violento.

114.ARNALDO JABOR. A DEMOCRACIA ABRIU NOSSOS OLHOS SOBRE O BRASIL. O bode está virando moda. Nosso destino é manipulado por agências estrangeiras que nos dão nota como no colégio, olhamos o dólar e a bolsa como um jogo de búzios, para ver quando iremos para o buraco. Falamos do Brasil como de um doente terminal. E como a gente confunde governo com Estado, com nação, tudo que aconteceu de bom nos últimos anos virou pó-de-mico, nada, zero. O pessimismo na cultura brasileira virou uma espécie de "sabedoria" triste, uma vacina contra a decepção. E, no entanto - eu devo estar maluco -, eu vejo que muita coisa boa rolou depois da democracia instalada. Muita coisa melhorou sim no Brasil, ó filhos do bode, ó cegos ideológicos, com a democracia, que permitiu que inúmeras verdades viessem à tona. Desculpem meu otimismo - que eu sei que é visto com desconfiança ("ahhh... alguma coisa ele está querendo...") -, mas aqui vai uma lista de coisas boas que nos aconteceram. A quebra do Estado brasileiro, no meio dos anos 80, foi ruim e boa. Deu-nos uma "orfandade" diante do gigante quebrado, mas despertou mais vontade de autonomia na sociedade. Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e não o contrário, como ainda é hoje. A sociedade civil, na falta de nome melhor, ganhou consciência de sua importância. A sociedade já pensa em "nós" e não em "eles" apenas, os remotos donos do poder. Apesar dos populismos, já deixamos de ser "vítimas" e passamos a ser "cúmplices". Já está na consciência da população a diferença entre estatal e público. O "apagão", a crise de energia foi causada por um descuido estatal, que foi consertado por uma ação pública. Já raiou a noção de responsabilidade civil e fiscal. Já entrou em nossa consciência de coloniais "exilados em sua própria terra" a idéia de que não se gasta mais do que se tem, em finanças. O mesmo vale para a vida social e política: não se pode projetar um país para além de suas possibilidades concretas. A idéia do "possível", em vez da velha bravata das utopias. E muitos já entenderam que isso não é covardia ou omissão; é sabedoria e prudência. A globalização da economia é um bonde carregado de problemas novos? Sim. Pode nos jogar num vazio de excluídos, sem nichos lá fora? Pode. Mas, teve a vantagem de nos colocar mais perto da verdade nacional, rompendo as paredes da "taba imaginária", uma ilha ibérica de esperança vã e futuro maravilhoso. A globalização nos trouxe o contato com métodos de gestão e administração mais anglo-saxônicos, trouxe dinamismo para empresas, trouxe nova ética empresarial, contábil. Hoje, já podemos pensar em um novo nacionalismo sem cairmos nos antigos esquematismos. Ao contrário do simplismo de ver tudo por uma ótica "macro", ideológica, generalizante, as mudanças na economia mundial nos fizeram ver a importância dos detalhes "micros", das pequenas causas que podem derrubar um universo inteiro. Trouxe a idéia de "eficiência" contra o delírio ideológico, que dispensa estudo e viabilidade. Muito mais importante que apontar causas para a pobreza é descobrir formas de combatê-la. A tal "mão invisível do mercado" pode nos dar bananas, claro. Sabemos como é hipócrita a visão americana de nos recomendar aberturas, enquanto eles se protegem. Contudo, o conceito de "mercado" dinamiza a auto-regulação da vida social e econômica do País, sim. "Mercado" como termômetro dos perigos da injustica, mas também como sensor dos desejos sociais, "mercado" como amenizador de certezas burras, "mercado" como relativizador de um poder público totalitário. No imaginário político do País, "herói" ou "amigo do povo" sempre foi o sujeito que arrebenta com as dificuldades pela adoção de um simplismo que corte caminhos e ampute variáveis e epifenômenos. Já sabemos hoje que "parte" e "todo" se imbricam. Isso desmonta a velha idéia de acharmos uma "solução". Em lugar disso, temos o "processo". Isso diminui nosso amor ao voluntarismo salvacionista. A democracia dos últimos anos nos ensinou sobre a idéia de "aliança" para governar. Aliança, não como oportunismo nem com aliados sendo "otários cooptados", mas sim como necessidade para o bom governo. Já sabemos que o Brasil é esse país que está aí, com suas deficiências e com políticos atrasados. Não há um outra nação over the rainbow. Mudar o País tem de ser por dentro e não uma intervenção mágica, ditatorial ou golpista. Vimos encantados que a democracia, em sua prática, vai expelindo os micróbios que a atacam. A democracia tem anticorpos, glóbulos vermelhos que vão limpando seu organismo contra os inimigos autocráticos. Uma das grandes vitórias dos últimos tempos foi o enfraquecimento das resistências oligárquicas de gente como ACM, Sarney, Jader, que perderam energia diante da força modernizadora da liberdade. Populistas como Maluf já foram expelidos também. Faltam alguns, mas já é um começo. Ficou visível como nunca o absurdo do atual "poder judiciário", arcaico, corrupto e lento. Por outro lado, houve um maior império da lei. O advento de corajosos e modernos procuradores da República, de juízes jovens e honestos, com um Ministério Público ativo, conseguiu encurralar gente que, há pouco tempo, era invulnerável. Ninguém vai em cana, ainda, mas, ao menos, já sofrem um vexame público, um descrédito político, com suas vergonhas estampadas na mídia. Podemos esperar que, um dia, haverá uma reforma no Judiciário e teremos uma lei para todos. Ainda não entendemos direito, mas já percebemos que os problemas do Brasil são muito mais complicados do que uma mera questão de injustiça social, a ser resolvida apenas pela dinâmica de uma "luta de classes". A injustiça é endêmica e de tal modo paralisante que inviabiliza até um embate de classes. A má distribuição de renda não é causa; é conseqüência de uma secular estrutura autocrática, de um Estado patrimonialista que tem de ser reformado. A democracia melhorou muito nossos olhos. Estamos vendo mais. Espero que não nos ceguem de novo... Feliz futuro!

115. ARNALDO JABOR. SOMOS MILHARES DE HOMENS-BOMBA NAS PERIFERIAS. - Você é traficante? - Sou. Mas sou também um sinal de novos tempos. Como sou sujo e pobre, vocês nunca me olharam durante décadas. Eu era inofensivo, uns roubos, uns assaltos mas, tudo bem... Vocês até me romantizavam... o Mineirinho, o Cara de Cavalo... Na época, era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, seca, desnível de renda... A solução é que nunca vinha... Os Mendes de Morais, os Lacerdas, os Negrões de Lima, os Chagas, os Brizolas... que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós éramos invisíveis... Quando havia um desabamento, algo assim, éramos, no máximo, manchete de jornal e motivo de angústia para uns intelectuaisinhos como você. Agora, arranjamos emprego na multinacional do pó... E vocês estão morrendo de medo... Danem-se... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Há, há... - Mas... a solução seria... - Solução? A idéia de "solução" já é um erro. Não há mais solução, cara... Já olhou o tamanho das 450 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? O máximo que vocês podem fazer são esses movimentosinhos pela cidadania... Cadê os bilhões de dólares para uma "solução" profunda? Só que, agora, vocês não têm mais a grana... Está tudo reservado para manter a estabilidade fiscal, que pode ir para o brejo a qualquer momento... Vocês estão com um bode por fora e outro bode por dentro. O capital financeiro fora e nós dentro. E os bodes vão se encontrar no infinito sujo de vosso destino... Gostou da frase? Sou culto; ouve outra: "Capitalismo selvagem gera revolta primitiva." Aliás, tomara que quebre tudo... Vai ser mais fácil pra nós pilharmos vossas ruínas... há, há... - Você não tem medo de morrer? - Estamos no centro do Insolúvel, "mermão"... Vocês no "bem" e eu no "mal" e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Vocês têm medo de morrer, eu não. Nós somos homens-bomba. Na favela tem 100 mil homens-bomba... É... Já somos uma outra "espécie", já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o "presunto" diário, desovado numa vala... Vocês, intelectuais, não falavam em "luta de classes", em "seja marginal seja herói?" Há, há... aí está... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Esse "parangolé" todo, né? Vocês deviam era expor a gente na Bienal, como "instalação"... - O que mudou nas periferias? - A gente hoje tem uma coisa chamada Poder... Por que transferiram o Beira-Mar para a Bangu 1? Pois é... lá ele manda... Você acha que quem tem 40 milhões de dólares não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro? Pelo amor de Deus... nego chama ele até de "doutor", tá ligado? - Se você fosse polícia, agia como? - Quer um "toque"? A burocracia policial segura tudo, por desorganização e de propósito. Nós somos uma empresa moderna. A gente não tem de arranjar ordem judicial, a gente não é dividido em municipal, estadual e federal; é tudo rápido, enxuto... Se funcionário bobeia, é despedido no "microondas"... Há, há... estamos ligados na tecnologia, na internet, nos armamentos sofisticados... E tem mais: se vocês tentarem acabar com a burocracia, com os atrasos administrativos, até se quiserem informatizar uma reles delegacia, vão dançar... sabe por quê? Porque a polícia "quer" o atraso... o atraso dá lucro... A polícia é feita de feudos, corporativa, delegados donos de pedaços da cidade... ninguém quer se modernizar, tá ligado?... É bom aquele clima de 1930, de carros quebrados, sem arquivos eletrônicos... Se impessoalizar, modernizar estraga a muamba... Além disso, estamos virando superstars da mídia. A imprensa dá idéias, sugestões, enche nossa bola do crime... Vocês estão nos dando uma ideologia, sem perceber... Já tem nego aí querendo armar esquema com a Al-Qaeda, podes crer... Outro toque: por que não pegam os "barões" do pó? Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidente do Paraguai nessa parada de armas e cocaína... Essa é que é a mina de ouro, nas fronteiras... Mas, não tem polícia pra enfrentar esse poder internacional, não... A gente é mixaria... A verdadeira Guerra do Paraguai vocês estão perdendo agora, tá ligado? - Estão pensando no Exército... - Ah... cara... Você acha que os generais vão querer acabar com aquele dia-a-dia dos quartéis, pra subir em morros de lama? Que isso, meu? Eles ficam jogando aquele basquete de tarde, marcham, tocam os clarins, cantam hinos... Mas, ir à luta com o PCC e o CV? Com risco de darem vexame? Pra quê? Eles dizem que são treinados para causas maiores, guerra profundas... Só se for com a Argentina... E também a gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Já imaginou a gente daqui a uns dez anos? Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também umazinha, daquelas sujas mesmas... Já pensou? Ipanema radioativa? Bomba atômica é uma boa... Vocês arrasam tudo e depois as favelas se valorizam, viram bons terrenos para vender pros ricos... belas vistas... bons ares... podem até fazer Centros Culturais no Complexo do Alemão e na Maré... legal? Se não, a gente vai virar países estrangeiros... Vou fazer frase: "A miséria armada é uma outra nação, no centro do Insolúvel!" Gostou? Olha, meu chapa, só generais saídos da favela, da lama, com a mesma fome de vida e morte, com o mesmo ódio que nós temos, poderiam nos vencer... Nós saímos do lixo, não temos nada a perder... Pra vencer, vocês tinham de começar reconhecendo sua derrota policial e administrativa. A guerra é o reconhecimento do fracasso da política... É isso aí.... A bandidagem perdeu o respeito pela polícia... Agora, não tem mais jeito... Pra ganhar esta guerra, vocês têm de começar o Brasil de novo... Falei? - Falou...

116. ARNALDO JABOR. MEU PAI FOI UM MISTÉRIO EM MINHA VIDA. Já escrevi sobre meu avô. Semana passada, escrevi sobre minha mãe. E as pessoas me dizem: "E seu pai? E seu pai?" Meu pai foi um mistério em minha vida; não nos comunicávamos bem, inibidos um com o outro. Meu pai era o perigo de castigos, o Supremo Tribunal que julgava meus erros. Por isso, ao escrever este artigo, sinto seu olhar por cima de meu ombro. Sempre quis ser aprovado por ele, receber um elogio, um beijo espontâneo que nunca vinha. Ele parecia saber de algum crime que eu cometera, mas não dizia qual era. Eu sofria: "O que foi que eu fiz?" Meu pai não ria, como se o riso fosse um luxo, mas eu me empolgava quando ele chegava num avião de combate, coberto de dragonas douradas no uniforme da Aeronáutica, ele, meu herói que conquistara o Pico do Papagaio como jovem alpinista e que fazia acrobacias de cabeça pra baixo nos aviõezinhos do Correio Aéreo. Quando peguei coqueluche, ele me levou num avião bimotor a quatro mil metros de altura, pois diziam que isso curava a tosse renitente. O avião subiu com meu pai pilotando, um sargento e minha mãe num casaco de pele com o cabelo preso num "coque" alto chamado "bomba atômica", cruel homenagem da moda à destruição de Hiroshima. De repente, a porta do avião se abriu a quatro mil metros e eu quase fui chupado para fora, não fosse a rápida ação do sargento. Até hoje, não sei se isso realmente aconteceu, mas meu pai sempre me trazia fantasias de extinção. Ele era um árabe alto, nariz de águia, bigodinho ralo, cabelo luzente de Glostora, óculos Rayban, sapatos de borracha da Polar. Hoje, entendo que ele queria fazer de mim um homem pela severidade implacável, silêncios indecifrados, olhares acusadores (de quê, Deus?), hoje sei que ele queria de mim um homem, dando-me um exemplo de espartana resistência, de chorar sem lágrimas. Claro que virei artista, por "formação reativa", claro que enquanto ele me deu um livro nunca aberto sobre mineração de carvão eu ia ler Rimbaud e escrever poesias. Se eu bobeasse, podia estar hoje cantando boleros, com codinome Neide Suely. Minha vida foi se pautando para ser tudo aquilo que ele não era - uma maneira de obedecê-lo em revolta, de competir com ele sem arriscar a castração, o pau cortado. Ele era moralista? Eu defendia sacanagens e palavrões. Ele era da UDN? Entrei para o PCB aos 18 anos. Então, comecei a despertá-lo da letargia desatenta a mim, provocando-o, esculhambando americanos e militares, culpando a Aeronáutica pelo suicídio do Getúlio. Aí, eu conseguia berros na mesa de jantar, com minha mãe pálida sussurando: "Olha os vizinhos!..." Isso era uma forma de tê-lo vivo diante de mim. Queriam-me diplomata? Ah... hoje eu poderia ser um pobre itamarateca alcoólatra... Fui ser nada, maluco, comuna da UNE; depois, por acaso, acabei cineasta... O tempo foi passando. Papai aposentou-se cedo demais e aquele projeto de "picos de papagaio", de aviões em parafusos, de um heroísmo guerreiro virou um silêncio aterrador no apartamentozinho de Copacabana, onde o tempo parecia parar. Entre as poltronas dos anos 40, entre os vasos de flores de minha mãe, a presença de meu pai era quase abstrata, lendo revistas, vendo TV de tarde, de pijama, em meio a minhas visitas, quando eu tentava alguma coisa que mudasse aquela paralítica tragédia, aquele relógio do avô que batia o pêndulo em vão. Todos os dias eram iguais; só minha mãe mudava, cada vez mais perto da senilidade, visitando a médium "linha branca" que lhe dava conselhos com voz grossa de caboclo. Eu queria que alguma coisa acontecesse, queria vê-los dentro da vida da cidade, mas só saíam para comer num sinistro restaurante a quilo, de fórmica rosa e amarela. Um dia, nasceu-me a primeira filha. Foi um momento de vida e luz mas, logo depois, meu pai caiu doente, com uma enigmática infecção pulmonar, que não passava. Médicos se sucediam: tuberculose, enfisema? O quê? Foi uma revolução cultural no apartamentinho de Copacabana: aquele rei silencioso, de repente, estava caído no divã, cuspilhando, febre permanente, precisando de ajuda. Então, a força estava fraca? O pai virara filho? Minha mãe pirou mais ainda, sem saber lidar com tanto poder que ganhara, tanta liberdade súbita. Eu também estranhava aquele titã caído. Um dia, o médico decretou: "Está muito anêmico... Precisa de transfusão de sangue." Fui levá-lo à Casa de Saúde S. José, onde minha primeira filha tinha nascido, pouco antes. Deixo meu pai na cama de um quarto, com a bolsa de sangue pingando-lhe nas veias e, para evitar o silêncio triste diante da lenta transfusão, saí pelos corredores, para dar uma volta sem rumo. De repente, ouço dois tiros. Sim, dois tiros de revólver. E foi aí que minha vida começou a mudar. Pela porta do quarto ao lado, olho e vejo dois homens caídos no chão branco de fórmica, boiando em duas imensas poças de sangue. Um já estava morto e o outro agonizava de boca aberta, emitindo um soluço com um assobio assustador, como um peixe morrendo fora d'água. Enfermeiros acorreram e eu soube que tinha sido um crime passional. Um médico matara o outro e suicidara-se em seguida. Nada mais fora de lugar que um assassinato no hospital. Tudo se juntava, meus fantasmas acorriam todos, num clímax de vida e morte. Vi, espantado, que um deles era o ginecologista que tratava de minha mãe e que estava ali, boiando no próprio sangue, no hospital onde acabara de nascer minha filha. A transfusão acabou, as ambulâncias levaram os corpos e ficamos eu e meu pai assustados, sozinhos ali no quarto. O mundo tinha mudado. Então, não sei por que, comecei a sentir um imenso carinho por meu pai, ali, fraquinho, cabelo branco. Ajudei-o a se arrumar, fechei-lhe o paletó e voltamos para casa, como cúmplices mudos de um crime, de um jorro de morte que destruiu nossa melancolia, e nos uniu de uma forma misteriosa. Nunca entendi bem o que aconteceu, mas só sei que não houve mais silêncios tristes entre nós dois.

117. ARNALDO JABOR. A CASA DE MINHA MÃE NUNCA FICOU PRONTA. Ando com vontade de ligar para minha mãe. Mas, minha mãe já morreu. Meu filhinho me perguntou hoje: "Cadê sua mãe, aquela que mandou seu mico embora porque ele mordeu seu dedo?" "Ela já foi para o céu..." - respondi-lhe com o velho lugar-comum. "E seu papai, aquele que andava no aviãozinho que ia até a Lua?" "Também foi para o céu...", repito pensando que um dia ele vai descobrir que vamos para baixo e não para cima. Mas, tenho mesmo vontade de ligar, pois, talvez, no telefone, possa haver um milagre e sua voz soar em meu ouvido: "Alô? 28-4858?" "Mamãe?" Na época desse número remoto do Méier, sua voz era jovem e feliz. Depois, foi enfraquecendo por outros números, até o tempo em que, já velhinha, atendia triste e doente o 47-8378: "E aí, meu filho, tudo bem?..." Como seria bom o telefone me salvar e alguém me chamar de "meu filho..." Seria bom entrar pelos fios do passado e fugir das dores que sinto com o País, o mundo e comigo mesmo. Confesso que, em momentos de desespero, eu já liguei escondido para números antigos. Ouvia a voz anônima e falava: "Desculpe, é engano...", com a sensação de, por instantes, ter visitado minha velha casa. Minha mãe era linda. Parecia a Greta Garbo. Um dia, meu avô bateu nuns vagabundos que mexeram com ela, ainda mocinha, na base do "Tem garbo mas não tem greta" e outras sacanagens de época... Meu avô, malandro e macho, pegou a bengala e cobriu-os de porrada. A vida de minha mãe foi a tentativa de uma alegria. Sorria muito, trêmula, insegura e, nela, eu vi a história de tantas mulheres de seu tempo tentando uma felicidade sufocada pelas leis do casamento, pela loucura repressiva dos maridos. Meu pai, que era um homem bom e amava-a, nunca conseguiu sair do espírito autoritário da época e, inconscientemente, se enrolou numa infelicidade que oprimia os dois. Na classe média carioca dos anos 50, cercados de preconceitos, medos e ciúmes nas casas sombrias, os casais estavam programados para tristezas indecifradas. Eram cenários estreitos para o amor: a casa do subúrbio, o apartamento micha de Copacabana, onde vi minha mãe enlouquecer pouco a pouco, tentando manter um sonho de família, tentando manter a cortina de veludo, a poltrona coberta de plástico para não gastar, os quadros de rosas e marinhas e a eterna desculpa para os raros visitantes: "Não reparem que a casa não está pronta ainda..." (isso, com 50 anos de casada). A casa nunca ficou pronta, como ela, Greta Garbo do subúrbio, sonhou: a casa feliz, com bolos decorativos nas festas, seu orgulho, a única coisa que ela sabia fazer; eram bolos em fôrma de avião, para homenagear meu pai piloto, em fôrma de livro, para me fazer estudar, ou em fôrma de piano para minha irmã tocar, naqueles aniversários em que os sofás de cetim marron e branco eram descobertos com discreta vaidade. Na juventude, minha mãe era infeliz e não sabia, pois todas as suas forças eram convocadas para esquecer isso. Cantava foxes, para desgosto de meu pai e ria com medo - se bem que ninguém era feliz naquela época. Não havia essa infelicidade esquizofrênica de hoje, mas era uma infelicidade tristinha, com lâmpada fraca, uma infelicidade de novela de rádio, de lágrimas furtivas, de incompreensões, de conceitos pobres para a liberdade. Eu via as famílias; sempre havia uma ponta de silêncio, olhos sem luz, depois dos casamentos esperançosos com buquês arrojados para o futuro que ia morrendo aos poucos. Não era a tristeza da pobreza; dava para viver, com o Ford 48 sendo consertado permanentemente por meu pai sujo de graxa nos domingos com o rádio narrando o futebol, dava para viver com uma empregadinha mal paga, dava, mas era uma tristeza obrigatória, quase uma "virtude" que as famílias cultivavam, sem horizontes. Toda minha vida consistiu em fugir daquela depressão e em tentar salvá-los. Eu queria dizer: "Saiam dessa, há outras vidas, outras coisas!" - logo eu, que achava que ia descobrir mundos luminosos feitos de revoluções e de prazeres, eu que achava que viveria numa vertigem de alegrias modernas, do sexo que se libertava, da bossa nova, da arte, ilusões que foram logo apagadas pelo golpe de 64 que, com apoio do meu pai, restaurou a luz mortiça das famílias, das esposas conformadas em seus cativeiros. Minha geração se achava o "sal da terra", tocada pela luz da modernidade. Mal sabíamos do outro desamparo que viria; não a melancolia do rádio aceso no escuro, não a televisão Tupi ainda trêmula, não as esquinas cheias de mistério, não o apito do guarda-noturno, mas a nossa impotência diante do excesso de acontecimentos, do inferno das expectativas, das informações sem conhecimento. Hoje, vivemos essa liberdade desagregadora, com a esperança de paz da classe média destruída, vivemos o medo das ruas, das balas perdidas, que não havia, quando mamãe ia visitar a médium de "linha branca" que lhe prometia progresso e alegria nas cartas. Antes, minha mãe e meu pai tinham a ilusão de uma "normalidade". Hoje, todos nos sentimos sem pai nem mãe, perdidos no espaço virtual, dos e-mails, dos contatos breves, da vida rasa sem calma. O que vai nos acontecer neste mundo de Bush e Osama, neste país de crimes e de riscos-Brasil, onde nada se soluciona, onde tudo é impasse e encrenca? Será que nunca mais teremos sossego? Sinto imensa saudade da linearidade, do princípio, do meio e do fim das vidas, e tenho medo de ter morrido e de não perceber. Por isso, me dá essa vontade profunda de pegar o telefone e discar, não num celular volúvel, mas num aparelho preto, velho, de ebonite, discar e ouvir a voz de minha mãe, entrar pelo fio e aparecer na salinha de móveis "chippendale" e Luís XV falso e vê-la sempre querendo ser feliz, mas com vergonha das visitas: "Não reparem que a casa não está pronta..." Na verdade, tenho vontade de discar, mas é para saber quem sou eu. E quando disserem: 'Quem fala?" pensarei: "É o que me pergunto..." Mas, sei que vou desligar, dizendo: "Desculpe, é engano..."

118. ARNALDO JABOR. ENFIM SÓS, CLINTON E FHC ABREM O CORAÇÃO. - Poxa, Fernando Henrique, enfim sós... Agora, podemos conversar em paz, aqui nesta salinha do Alvorada... - Seems like old times , hein, Clinton? Desde de Camp David.. Parece que foi há muito tempo... Como o mundo se caretizou depressa! Mas você tá com a vida que pediu a Deus: 200 paus por palestra... E eu, aqui... com baixos índices de popularidade.... - É... Fernando... Mas acho que vamos terminar iguais: nenhum de nós elegendo um sucessor... - Somos muito parecidos, Bill... - É... Somos símbolos da "terceira via"... Você, eu, o Tony Blair... somos a tal de "globalização com justiça"... - É... Somos bonitinhos, com sorrisos democráticos... - É... mas a "terceira via" ninguém achou até hoje... Fernando... - A única "terceira via" é a boca da Monica Lewinsky... - Quá, quá, quá!! Essa é boa! Vou contar pro Vernon Jordan... - Quá, quá, quá!... Somos iguais... ambos fumamos maconha... - Mas sem tragar!... Somos iguais... Eu amei em você o presidente latino culto, fino... Mas eu te seduzi mais do que você a mim, Fernando... - Poxa, Clinton, você quer o quê? Você era presidente dos USA, é impossível não ser tiete de uma superpotência...Você podia tomar um porre e destruir o mundo... - Tem razão... Eu tentei humanizar a globalização da economia, tentei fazer da América uma potência hegemônica, mas benevolente... buscando uma política interdependente... - Oh... cut the bullshit, Bill! (Corta essa, Bill). Estamos a sós... - Tem razão... quá... quá... Interdependência, my ass !... Capitalismo quer domínio e era a pílula dourada... - "Interdependência"... Ninguém sabe que porra é essa, Clinton! Americano não entende, latino não confia... Capitalismo não é mole... como você convence a IBM ou a Ford a ter "meio lucro", "meia voracidade"? - É... Fernando... Minha obra é que eu era sexy numa América reprimida, eu era cool num país careta... Eu sou a Madonna da política, quá, quá, quá... Minha única obra foi esta: eu questionei o puritanismo com minha fama de sem-vergonha... Eu fui o salvador charmoso depois da era Bush Pai... Eu toco sax, gosto de jazz, de negros... eu dei aos USA a consciência de que havia mundo lá fora... Eu só errei com aquela histérica da Monica... É inacreditável! O presidente tendo de fazer sexo em pé, no Oval Office, de madrugada... - Você podia ter uma garçonnière... - Como? A Hillary comprou os seguranças... Era ali ou nada... Poucas pessoas no mundo foram humilhadas como eu... Ser flagrado em adultério já é uma bosta; imagine todo o planeta te pegar... Eu fui o Cristo do blow job ! - Quá, quá, quá!...Te pegaram com a "botija na boca"! Quá, quá! - A minha salvação foi bombardear o Iraque... Se não, eu morria castrado... Cada foguete era uma afirmação fálica... - Saddam salvou tua sexualidade...Agora, cá entre nós, Bill... ela é "boa" mesmo? - Ela é o maior "serviço de sopro" da capital... Entre os políticos, ela era o "consenso de Washington"... Quá, quá, quá!... Mas não foi mole... O sistema puritano e republicano caiu de pau em cima de mim. Aquela bicha do Kenneth Starr... meu Deus, tudo isso é tão remoto... Mas minha grande obra é que eu fiz o país falar em "esperma", em pênis... E isso foi uma revolução moral... Eu também inaugurei a mentira pública... Menti, sim - por que não? Mentir nos USA é revolucionário... O único bode é que talvez minha didática sem-vergonhice tenha legitimado a roubalheira na eleição do Bush, tipo "ladrão que rouba ladrão"... Mas eu relativizei a infalibilidade do presidente dos USA, para o mundo todo. Pensando bem, eu era um utópico, com a utopia dos anos 60 revisitada... - É isso aí, Bill! E, no Brasil, meu discurso foi desconstrutivo, anti-utópico... - Eu dei esperança aos Estados Unidos... - E eu... tirei esperança do Brasil... Foi o que eu fiz de melhor. Vocês, americanos, precisam da utopia. Mercado só não dá. Vocês têm fome de "transcendência", de "futuro". Já os brasileiros precisam é de "presente", de desilusão para parar de acreditar em "salvadores". Minha melhor obra é a decepção dos brasileiros... Eu sou o anti-Messias... O problema é que são tão burros que agora estão famintos de populismo: Itamar, Garotinho... - Quem? - Little Boy, mais uma caricatura nacional... Mas eu espero ter deixado algum contraveneno, um hábito democrático qualquer... Eu ensinei ao povo que não há solução - só processo. Eu fui frio, mas educativo sobre o desinteresse dos governantes. Eu devolvi as queixas à sociedade civil, que tem de depender menos do governo... Minha ironia e meu descaso foram minha melhor aula. Outro grande feito meu foi me aliar à escoria política do país... Nunca entenderam minha grandeza em assumir o Brasil real, nossa imunda verdade política... Meu patriotismo foi agüentar o Jader, o ACM... - E eu, que agüentei o Trent Lott, o Newt Gingrich... - É... mas eu sou um nefelibata (ver Aurélio)... Tenho horror de me comunicar com caipiras... Meu amor ao progresso é muito mais pela beleza da razão que por compaixão pela miséria... Sou vaselina, sim, que eu chamo de realpolitik. A verdade política de hoje está na vaselina... - Quá, quá, quá, Fernando, you¹re the top, you¹re Mickey Mouse!... - Tenho volúpia de decepcionar os românticos. Eu desconstruí certezas. Cá entre nós, Bill, a política acabou; nós somos atores... - Quá, quá, quá! Mas não espalha... Eu, ao menos, mostrei ao mundo que o poder americano é ridículo, que uma vagininha histérica muda o mundo... Quá, quá, quá... E você, Fernando, a tua Monica Lewinsky foi a Argentina e o "apagão"... - Quá, quá, quá! Bill, estou sentindo um alívio!... Descobri minha importância histórica! Eu sou a desconstrução das expectativas voluntaristas... Eu sou o Derrida dos trópicos!... - Quem? - Derrida... um francês veado... - Ah... - E você, hein, Bill, faturando 200 mil por palestra!... E aí? - me diz - tem comido muita gente? - Chove mulher... - E este baseado? Gostou, Bill? Esse é do bom, paraguaio... - Quá, quá, quá!... - Podes crer, Bill, "do bom", do Mercosul... - Awesome, Fernando!... - Quá, quá, quá!!!

119. ARNALDO JABOR. O CHATO É ANTES DE TUDO UM FORTE. Está tudo tão chato no Brasil, que vou escrever sobre os chatos. Você é chato? Nunca saberá. O chato não se sabe como tal, ou melhor, sabe sim, mas sempre tem a esperança de sair da categoria e ser aceito como não-chato. Por isso, chateia todo mundo. O chato é, antes de tudo, um carente. Ele vive do sangue dos outros, do ar dos outros, o chato precisa de você para viver. Sozinho, o chato não existe. Existem vários tipos de chatos. O mais famoso é o chato de galochas, que eu pesquisei e descobri que a origem do termo. Fala do cara que sai de casa com chuva torrencial, põe as galochas e vai na tua casa para te chatear. Há chatos masoquistas e sádicos. O primeiro é aquele que gosta de chatear para ser maltratado: “Porra, não enche, cara!” Adora ouvir essa frase, para remoer um rancor delicioso que valoriza sua solidão: “Não me entendem, logo sou especial!” O chato sádico, não. Ele quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos para te azucrinar: “Poxa... sua mãe morreu ontem, mas ouve meu problema com minha mulher...” Eu não vou fazer aqui um tratado geral dos chatos, como já fez o Guilherme Figueiredo, aliás um livro chato. Como lutar contra eles? Por exemplo, o Tom Jobim, uma das maiores vítimas de chatos, ensinou-me um truque: “Use óculos escuros. O chato fica desorientado quando não vê teus olhos. O chato adora ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados. Com você de óculos escuros, ele desiste e vai embora”. O chato gosta de ver teu sofrimento, por isso não adiantam as respostas malcriadas, resmungos. Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperança de que ele parta. Não há solução. Se bem que a reza ajuda. O chato está falando e você ali lembrando a “Ave Maria”. Te acalma como um mantra e Deus pode vir em tua ajuda. Outra técnica que funciona muito é chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele pergunta: “Por que você não volta a fazer cinema?” E você retruca: “Que você está achando do PMDB?” Faça-o falar, como o Freud agia com as histéricas. O chato falador é mais suportável do que o chato perguntador. Depois que eu comecei a falar na TV, virei um papel-de-mosca para chatos. Não quero bancar o famosinho mas, veja bem (como dizem os chatos), o sujeito te vê na TV, no quarto onde ele está transando com a mulher e você na tela, falando sobre o Chavez... O cara fica íntimo teu e te agarra na rua, no shopping e gruda, como um colega conjugal. Uma vez, tinha um chato no celular (grande tipo novo, o chato do celular) e eu tomando um cafezinho no aeroporto, oito da manhã, indo para Porto Velho, com conexões. “Ihh... meu amor... sabe quem está aqui ao meu lado?... O Jabor... éé... quer ver?” Se vira para mim e: “Fala aqui com minha namorada... o nome dela é Eliette”. Esse é primo do chato-corno: “Minha mulher te ama; dá um autógrafo pra ela... Escreve: Te amo, Marilu...” (O chato-mala nunca tem caneta ou papel): “Escreve aqui mesmo neste guardanapo molhado...” Temos também o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20. Entra um cara e me olha. Eu, precavido, já estou de cabeça baixa. Há uns momentos tensos de dúvida: “Ele ousará falar?” — eu penso. “Falo com ele?” — ele pensa. Passam uns andares. “Ele não vai agüentar” — eu penso. Não dá outra. “Você não é aquele cara da TV?” “Sou... ha ha...” — digo, pálido, fingindo-me deliciado. “Só que eu esqueci teu nome... Como é teu nome mesmo?” “É Arnaldo”, digo eu, querendo enforcá-lo na gravata de bolinhas. “Não... é outro nome... ah... é... Jabor... isso... porra, claro... E é você mesmo que escreve aquelas coisas...?” E eu penso, sorrindo simpático: “Não; é a tua mãe que me manda lá da zona”. Tem o chato-mala, sempre no ataque. Outro dia, também no aeroporto, eu subindo uma escada, com duas malas e o cara berrou: “Eiii, me dá um autógrafo!” Todo mundo olhando e eu com duas malas. “Não me leve a mal, mas estou pegando o avião...” E ele: “Poxa... tu tá ficando é muito mascarado, cara!” Um dia, houve o clímax, a apoteose do chato do autógrafo. Fazia eu um modesto xixi num banheiro de cinema, aquele xixi triste e pensativo, quando o cara chegou: “Me dá um autógrafo?” Fiquei uma arara: “Estou fazendo xixi... porra... tu quer o quê?” E ele: “Qual é a tua? Tá pensando que eu sou viado? Enfia esse autógrafo...” Tem muitos tipos. Tem o chato crítico. Ele te agarra na rua e começa com elogios rasgados: “Você é o máximo; aquele teu artigo foi demais, mas... (trata-se do chato do ‘mas’...)...mas, você disse uma besteira horrível, outro dia — o PIB da China não é aquele que você falou...” Um chato muito encontradiço é o chato da Ponte Aérea... Ele fica à espreita na sala, atrás de uma coluna. Você entra... ele te vê de longe... Você pensa: “Será que ele me viu?”. Você finca os olhos no jornal, trêmulo de medo e esperança. Dali a pouco, passos a teu lado, uma maleta pousando no chão e ele gruda: “Posso lhe dizer uma coisa...?” E pela lei de Murphy, em geral ele estará na poltrona ao lado no avião. Tem o chato da foto: “Posso tirar uma foto com você?” Pronto. Lá estou eu na rua, abraçado a um idiota de bigode, com todo mundo olhando. Flash! E o cara some num segundo, com um rápido “obrigado”. Esses só querem nos roubar a imagem... O chato da foto sempre me deixa carente... Há muitos tipos. O chato-altissonante, por exemplo. Grita no bar, de longe: “Ei, Jabor, que que tu tá achando da guerra Israel-Árabe?” Um altissonante uma vez me berrou na saída de um teatro: “Adoro você... (eu sorri, rubro de modéstia)... mas tu precisa parar de falar besteira sobre o Lula, hein...! Olha, por isso o Ferreirinha aqui te odeia!” (Ao lado dele, está o “ajudante de chato”, rindo com deboche). Tem todo tipo. E agora tem os “e-chatos” na internet que, aliás, botaram na rede artigos boçais e maniqueístas, que eu nunca escrevi, assinados com meu nome. Já puseram um em que “eu” esculhambava a Adriane Galisteu. E agora tem outro rolando, chamado “Faz parte”, onde o falso “eu” humilha aquele rapaz que ganhou o “Big Brother”. Além de e-chatos, esses são canalhas e burros.

120. ARNALDO JABOR. AS CARAS DOS POLÍTICOS EXPLICAM NOSSO DESTINO. Podemos ler a história do Brasil na cara dos políticos. Meu Deus, como são feios nossos políticos, como são inatuais, de mau gosto, seus rostos e caretas mostram como será difícil modernizar esta terra. Darwin tem um livro chamado "A expressão das emoções no homem e nos animais". Ali estão catalogadas as expressões fisionômicas dos chimpanzés, dos cachorros e dos homens. São baseadas no "princípio de antítese", nome que Darwin criou, explicando, por exemplo, que um cachorro expressa amor ao dono por uma mutação corporal, facial e rabeal absolutamente negadora de qualquer agressividade, amolecendo as costas, abanando o rabo, babando-o na mão, etc. Mas Darwin não previu a cara dos políticos brasileiros. O "princípio de antítese" dos nossos políticos, ao contrário, visa a esconder o que sentem, pela negação de seus reais motivos. Assim, o canalha ostenta bondade, o ladrão apregoa honradez, o assassino, delicadeza. Era assim, mas até isso está mudando. Assistindo ao show de horrores da política recente, concluo que não só se perdeu a idéia de vergonha na cara, como ela foi substituída por um certo orgulho, um certo enlevo em ostentar a própria sordidez como um galardão. Antigamente, o canalha se escondia pelos cantos, roído de vergonha; hoje, ele apregoa, com uma tabuleta na testa: "Roubei, sim. E daí?!" A alma do negócio era o segredo. Hoje, espanta-nos a visibilidade dos estelionatos, conjugada à sublime ejaculação das mentiras. Penso, claro, na fascinante fisionomia de Barbalho, que é um verdadeiro mapa da politicada do Pará, esse Barbalho sublime que nos seduz com suas sobrancelhas a la diable, com sua boquinha devoradora de tartarugas, cheques e TDA's, com sua resistência impávida diante das provas cabais de suas malfeitorias. Barbalho impressiona pela limpidez de seu cinismo, pela cara lavada, intocada pela dúvida e pelo sentimento de culpa. Olhando bem, veremos que suas bochechas são até banhadas por um tênue, mas impudente sorriso. É fascinante a confiança que esta gente tem na leniência da Justiça. Como eles navegam bem nos foros e nos arquivos, fazendo sumir processo como no caso do Banpará! É maravilhoso vê-los em "retidão", "pátria", enquanto as rãs coaxam no campo de concentração da mulher de Barbalho. Sim, eu já fui fascinado pelo queixinho de Maluf, erguido a la Mussolini, capaz de falar em "honra" com a evidência de desvios nas obras superfaturadas, já fui hipnotizado pela tranqüilidade carismática de Quércia, cantando Carinhoso num programa de TV, enquanto ele quebrava o Banespa, aplaudido pela sua gang de sociólogos "progressistas", já sofri, no passado, com as carrancas da ditadura, quando surgiu o anão verde-oliva Castelo Branco, menor que o próprio quepe, depois com a car de bulldog de Costa e Silva, iluminado pelo sorriso deslumbrado de Yolanda, a Lady MacBeth brega que mandou baixar o AI-5, depois com a cara de Drácula de Garrastazu Médici, silencioso vampiro, sofri também com a visão das coxas e da barriga de Figueiredo, fazendo ginástica de sunguinha para a nação ver, num strip-tease populista. Depois, lembro-me com pavor do surgimento do único bonito (por fora), o Collor, eleito num clima "gay" que se apossou dos eleitores ("Ele é macho!" - diziam - "ele é lindo, comeu fulana, luta caratê..."), mas agora estou maravilhado diante do Gilberto Mestrinho. Chego a pensar que o Senado está nos sacaneando, acho que Renan Calheiros quis fazer um gesto revolucionário, nos horrorizando para conscientizar a nação da própria desgraça. Porque o Mestrinho no Conselho de Ética do Senado, arrastando um rabo sujo de processos e evidência de assaltos a cofres, com o sambódromo de Manaus superfaturado e desabando, me traz um sentimento de pesadelo cômico. Na cara de Mestrinho mora o impasse nacional. Mestrinho declarou em entrevista que nunca distribuiu uma moto-serra, que nunca desmatou, nunca matou jacaré, chegando ao inefável de dizer que não pinta o cabelo, ali na fotografia, com sua franjinha asa de graúna. Sua carinha maquilada, seu bigodinho lustroso, seus olhinhos vorazes lembram-me Akim Tamiroff em "A marca da maldade". Já vivíamos com a conformada aceitação da nossa desgraça, mas Mestrinho é a apoteose de nosso horror. Outros políticos, com seu visual didático, já nos ensinaram muito sobre nosso destino. ACM, por exemplo, tem um rosto até bonito, com seu bigodinho branco e um passado de sensualidade. Seu corpo é que conta a história: lento, pesado, marchando como um orichá entre baianas e puxa-sacos, com um vago rebolado de poder que é (ou era) o símbolo puro do coronelismo secular. Itamar Franco tem o carisma da vítima, um eco mineiro de Jânio Quadros, o caspento, o vesgo, o despenteado no poder. O povão excluído, humilhado, pode vir a se impressionar com seu rostinho de injustiçado, sua bobeira, sua caipirice populista. Itamar encarna a nostalgia de um povo pela própria ignorância, Itamar pode vir a ser a vingança contra os "intelectuais pernósticos" como FH, na mesma raia onde corre o rosto gordinho e infantil de Garotinho, que mal aparece no palácio para despachar e viaja aplaudido por milhões de pirados evangélicos. Santo Deus... é uma fartura de tipos: os olhos verdes de Requião, o charme epileptóide de Pedro Simon, a gordura truculenta de Eurico Miranda, a fria elegância yuppie de Luís Estevão, a alma gordurosa de Newtão, o teatro de Lalau, amparado por policiais, indo para casa comer pizza, todos, sem falar no inesquecível rosto pétreo de José Osmar Borges, o sócio de Barbalho, que, preso, algemado, no camburão, exalava tranqüilidade total, ignorando as câmeras, olhando para o lado, como se dissesse: "Vocês, a imprensa, vocês não existem..." E foi solto, como o grande Naya. Talvez não existamos mesmo... Sinto que, ao apagar das luzes do governo FH - que, apesar dos pesares, trouxe-nos um charme francês, com sorrisos sociológicos e uma aristocrática tolerância com nossa breguice - estamos voltando para trás. Assanha-se o velho museu de cera da escrotidão nacional. Mestrinho e Jader são os vanguardeiros desta grande marcha à ré.

121. ARNALDO JABOR. ESPELHO MEU, QUEM É O IMPERADOR DO MUNDO? Não sei por que mas, sempre que desejo meditar, venho aqui para esse banheiro da Casa Branca, com espelhos em paralelo, que me multiplicam ao infinito. Preciso me ver refletido, milhões de 'bushes', como um exército de 'eus'. Aqui me sinto calmo. Gosto de ficar nu, olhando-me de todos os ângulos. Ergo a mão, milhões de mãos...Viro de bunda, milhões... Gosto de gritar: "Kiss my asses!" ("Danem-se!") Ha ha... Estou vivendo os melhores momentos de minha vida... Sinto-me potente. Vou derrotar meus inimigos. Eles não são somente o Bin Laden, nem o Sadam. Meus inimigos são também aqueles que me humilhavam quando eu era o 'Little Bush', o burrinho, que só tirava zero na faculdade... Eu queria ser livre, leve e solto, feito meus colegas dos anos 60, doidões, que fumavam maconha contra o Vietnã. Eles gostavam de Rolling Stones e eu do Ray Conniff, qual o problema? Eu queria desbundar feito eles, mas meu pai não deixava e, aí, eu só enchia a cara de 'Jack Daniels' e atropelava latas de lixo no Texas, onde fui detido por alcoolismo. Eu bebia para diminuir a angústia, pois papai sempre preferiu o Jed... Meus inimigos são também aqueles intelectuais de bosta que riam de meus planos para a política da América, só porque eu pertencia à 'Skull and Bones Fraternity', uma espécie 'light' da gloriosa 'Ku Klux Klan'. Eram uns intelectuais babacas, puxa-sacos dos europeus, fascinadinhos pela França e Itália. Eu nunca fui a esses lugares na juventude... Para quê? Para enfraquecer minha fé na América? Diziam que eu era burro... Por isso, uso sempre essa expressão de seriedade, como se eu estivesse pensando em coisas profundas sobre o mundo. Cara 1: preocupação com o 'mundo livre'. Cara 2: 'cowboy vingativo'. Chamam-me de 'Forrest Gump', mas só eu sei da grandeza insuspeitada do homem médio. Há um bom senso profundo no republicano radical como eu. Um amor às coisas óbvias, à família gordinha, mamãe e filhinhos de olhares inocentes, mas atentos ao 'Mal', com seus hambúrgueres, o bacon, a 'root beer', o 'barbecue', o futebol americano, o charme da 'old religion', a 'country music', o horror ao estrangeiro, o amor à linha reta, ao princípio, o meio e o fim de tudo, a valentia em resolver problemas, sem atentar para complexidades afrescalhadas, resolver, arrasar, desde os índios até o Noriega. Assim, fizemos a maior nação do mundo - e não foi com dúvidas européias não; foi com a crueldade em nome da bondade, com a pureza do 'self interest', da conquista de mercados; assim, criamos esse grande país, com fé em Deus, na fidelidade à pátria de Cristo e na fidelidade conjugal, e não nos 'blowjobs' daquele canalha do Clinton. Tenho orgulho de ser um 'Forrest Gump', pois ele tem a sabedoria da estupidez, a pureza dos imbecis, a santidade da burrice. Os 'gumps' é que fizeram a maior nação do mundo, sem se dobrar a multilateralismos de bosta dos europeus; isso é coisa de quem não tem exércitos. Querem nos controlar com papos de ecologia, de ONU, de Tribunal Penal Internacional para nos julgar... Ninguém vai nos julgar mais. Esses intelectuais de quinta querem que eu deixe as maiores reservas de petróleo do mundo com o Sadam? Tenho de atender o Dick Cheney, velho petroleiro amigo dos que nos financiaram... Tenho de atender também nossos gênios militares, que nos fazem invencíveis... Há coisa mais bela que um avião 'Stealth', bombas inteligentes, a aerodinâmica dos jatos no céu, balas tracejantes, nuvens de fogo? Eu não lutei no Vietnã, papai arranjou-me um pistolão na Guarda Costeira, mas eu acho bela a guerra... Ahh... a beleza do heroísmo, até mesmo a beleza do martírio dos jovens que voltarão mortos, com funerais sob salvas de canhão. Eu sou o verdadeiro americano, sem frescuras importadas. A Europa nos despreza, e eu vou ficar puxando o saco daqueles babacas? Museuzinhos, catedraizinhas, filosofias, artezinhas, um papo de transcendência, de tradição milenar? É tudo 'bullshit'; eu acredito é no mercado, preço, lucro, utilidade. Humanismozinho é coisa da veados; humanismo é mercado... Tem cabimento a maior nação do mundo se igualando àqueles idiota da ONU: Nigéria, Costa Rica, Brazil? Ora, 'give me a break'. Não existe essa tal de 'política internacional'; só interesses internos e privados, como disse aquela crioula, a Condoleeza Rice. A crioulinha é fera... ha ha... tenho até de segurar ela... senão taca fogo em tudo... E ainda tenho de aturar aquele Colin Powell, metido a pombinha... Tudo bem, tive de botar esses afro-negões no poder para mostrar que não sou racista, apesar de ter torrado vários na cadeira elétrica do Texas... ah ah... um crioulo falcão e um pombinha; um lambe e o outro esfola. Mas, eu vou criar um mundo maravilhoso, tenho certeza. Já vejo os árabes tremendo de medo de mim, o petróleo jorrando nos postos de gasolina barata, abastecendo o ritmo do sonho americano, a Europa toda mudada, os Estados sem exércitos fortes, os Estados sem iniciativa, simbólicos, como monumentos vazios de outros tempos. Já vejo uma grande economia sem governos, todas dominadas por nós, a América Latina dominada, tudo dominado com a grande Alca regendo aqueles macacos. Só restará um grande mercado, limpo, sem países reais. Quero voltar a América para trás, antes dos hippies, dos negros, dos direitos civis... Então, nossa pátria sera a nação indispensável, com nossos céus cobertos por um grande guarda-chuva de satélites da 'guerra das estrelas', mísseis batendo no teto, com estrelas chinesas e russas, com nosso povo comendo hambúrgueres e olhando para cima, rindo dos foguetes domados. E, se a barra pesar muito, pau nos chineses que virão e nos russos e árabes também! Será o Juízo Final, mas só para eles. Nós ficaremos sozinhos na América, como eu aqui nesse banheiro de espelhos... Já imagino Meca derretendo, com aquela praça cheia de árabes sujos... Ha... ha... eu posso apertar um botão e acabar com essa porra! Viva eu! Sempre que penso nisso, tenho uma ereção... Meu Deus... o melhor afrodisíaco é a nuvem atômica! God! São milhões de pintinhos de 'bushinhos' se erguendo gloriosamente nos espelhos infinitos!... Aleluia! Finalmente, eu sou feliz!...

122. ARNALDO JABOR. O BRASIL ESTÁ FICANDO COM SAUDADES DA BURRICE. FHC cometeu a burrice de não ser burro. Acreditou demais na razão, achou que a inteligência lhe abriria um caminho fácil, tanto aqui como no coração do Primeiro Mundo. Lá fora, ele achou que a complexidade do processo seria entendida e que os donos do Poder Ocidental seriam razoáveis com sua terceira via tropical. Na prática, FHC aprendeu que a globalização é de mão-única, que os estrangeiros lhe dão títulos honoris causa, mas mantêm suas implacáveis regras comerciais. Aqui dentro, ele não esperava a bruta resistência da estupidez e da corrupção a seu projeto iluminista. Conseguiram virar sua “complexidade” em ininteligível “complicação”. E a era FHC pode passar à História como o governo que “desmoralizou a inteligência”. Dentro de um mundo que glorifica o fragmentário, o parcial, só as grandes corporações têm o direito à lógica linear dos seus interesses; no mundo da “democracia”, só elas podem ser autoritárias. Aqui e lá fora, a sociedade está faminta de simplismo. Surge na política a restauração alegre da burrice, com a sombra da “direita” por trás. Forrest Gump, o herói-babaca, foi o precursor; Bush é seu efeito. Ele se orgulha de sua burrice. Outro dia, em Yale, disse: “Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidente dos EUA”. É a vitoria da testa curta, o triunfo das toupeiras. Aqui, vemos também esse cansaço, depois das trapalhadas (e da urucubaca) deste governo, aqui vemos uma grande fome de simplismo “de resultados” (leia-se autoritarismo) de “dois e dois são quatro”, de “o vovô viu a uva”. Inteligência é chato; traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice consola, explica. Os tucanos foram bichos hesitantes, cheios de “se” e de “talvez”. Os candidatos no horizonte vão trazer a mensagem tranqüilizadora do pão-pão-queijo-queijo, desde o populismo de direita ao populismo de esquerda, do obreirismo iluminado ao voluntarismo de classe média, todos buscando bandeiras fáceis de engolir. Temos infinita saudade da burrice. SÓ OS POBRES VERÃO DEUS. Existe na base do populismo brasileiro uma crença, de raiz lusitana, contra-reformista, de que o simplismo é a moradia da verdade. Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a mentira “inteligente” do mundo. “Só os pobres de espírito verão Deus”, reza nossa tradição. A cultura lusitana estimulou a derrota social. Cada fracasso da sociedade fortalecia o Rei, tranqüilizava a Igreja e mantinha em pé a coluna hierárquica que ia dos servos até Deus-Pai, logo acima da Coroa. O bom asno é bem-vindo, enquanto o pernóstico inteligente é olhado de esguelha. A burrice é “sim” ou “não”. Na burrice, não há dúvidas. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice não tem fraturas. A burrice alivia — o erro é sempre do outro. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice até dá mais dinheiro; é mais “comercial”. Neste Brasil “apagado”, pré-eleitoral, pinta uma fome de regressismo, de voltar para a “taba”, para o casebre com farinha, paçoca e violinha. Da simplicidade viria a solidariedade, a paz, num doce rebanho ideológico que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes, da violência do poder. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha a ré. Outro dia, vi na TV um daqueles “bispos” de Jesus de terno-e-gravata clamando para uma multidão de fiéis: “Não tenham pensamentos livres; o Diabo é que os inventa!”. Fiquei chocado, mas entendi que a liberdade é uma tortura para esses homens desamparados pela falta de cultura. Claro que o povo não é burro; tem sensibilidade para perceber o erro de um governo que, em nome da “razão”, ignorou a comunicação com ele. Sente um enorme vazio com a democracia, difícil de entender com suas ambivalências. O perigo é que os espertos vão manipular a ignorância da população para transformá-la em burrice. A burrice é a ignorância ativa, a militância dos desamparados sem informações. A burrice é a ignorância com fome de sentido. A DEMOCRACIA É CHATA. Populismos de vários matizes rondam as eleições de 2002. Itamar quer ser a cara do povo “traído”, do povo “vítima”. Como já escrevi, Itamar passa, em caricatura, o mesmo clima de Hitler, que dava a sensação de que sofrera alguma injustiça, ele e a Alemanha, ambos clamando por vingança. Itamar também. Com seu beicinho choroso e seu topete ao vento, ele nos faz sentir culpados, insinuando que estamos em dívida com ele. Ele é o símbolo do bom otário, do mineiro que comprou o bonde, do Jeca que caiu no conto-do-vigário e foi humilhado pelos intelectuais. Ele se diz “traído” por Collor, por FHC, por Lilian Ramos, em sua ingenuidade de bonzinho. Itamar é “de época”; ele é o “defensor” de nossas velhas convicções erradas, de nossa incompetência quase doce. Itamar é a classe média com saudades do passado medíocre. Ciro Gomes é inteligente, é bonito, com mulher bonita. Ciro deve abordar a massa pelo seu lado “macho”, tudo que FHC não deu (pelo que, acusam-no de Collor 2). Ciro faz um discurso moderno, mas ainda está dividido entre si mesmo e seu guru, o Mangabeira, um “professor Pardal” com sotaque, que faz ardentes conclamações a uma “mobilização” da classe média, onde se sente o sabor de um voluntarismo vagamente totalitário. Ciro ainda está dividido entre uma agenda moderna e uma prática messiânica. Lula tenta se modernizar, mas tem o rabo preso com a choldra burra do PT, que não consegue se livrar da idéia de “revolução” clássica, como um tumor inoperável. Ainda acham que vão “tomar” o poder, não ser “eleitos”. A classe média ainda teme os petistas. Só lhes resta virar PSDB hard ou adotar um populismo à esquerda de Itamar. O extraordinário Garotinho, nosso Tony Blair evangélico, quer ser um juscelininho dos idiotas, um sub-brizolinha pentecostal, um “Quércia honesto”, todos os populismos avalizados por Jesus. Seu apelido passa uma aura de menino maluquinho realizador, mas sua bochecha nos lembra mesmo é a moleza dos bombons “Garoto”. Não tem a menor chance, mas é uma caricatura didática do perigo que nos ronda. A verdade é que a democracia está decepcionando as massas. A liberdade é chata, dá angústia. A burrice tem a “vantagem” de simplificar o mundo. O diabo que burrice no poder chama-se fascismo.

123. ARNALDO JABOR. A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses divergentes, uma “dupla mensagem”: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nesta encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro desta dúvida, havia outra: UDN ou PTB? Reacionários da elite ou “povão”? Brigadeiro ou Getúlio, finesse ou “sujeira”? Comecei a me interessar por política quando votei em Jânio. Confesso. Eu tinha 18 anos e não consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era “de esquerda”, doidão, off . Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouço: “Jânio tomou um porre e renunciou!”. Foi minha primeira desilusão. Tinha sido eleito esmagadoramente, e largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do Praia Vermelha, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que slogans e programas “racionais”. Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice Jango, que a direita queria impedir. O exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabeça que, com uns militares legalistas e com heróis de esquerda, finalmente o Brasil iria ascender a seu grande futuro. Nos dois anos seguintes, vivi a esperança de um paraíso vermelho que iria tomar o país todo, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre e tropical que iria acabar com a miséria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, sem inimigos visíveis, com o presidente e sua linda mulher fundando a “Roma tropical” como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo iria cair sem resistência. No dia 31 de marco de 64, estou na UNE comemorando a vitória de tudo. Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, comemorando a vitória do socialismo. Um amigo me abraçou, gritando: “Vencemos o imperialismo americano; agora, só falta a burguesia nacional!” Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. Diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu tinha acordado de um sonho para um pesadelo. No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistência cultural rica e fértil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As idéias e as artes se engrandeceram na maldição. Com muita esperança, as passeatas foram enchendo as ruas, num heroísmo democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão. Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o Gama e Silva lia o texto do Ato 5 na TV, virando o país num sinistro campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca lady Macbrega Yolanda, fechou o país por mais 15 anos. Esperança-desilusão. Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do “milagre brasileiro”, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram no desespero da contracultura mística, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos “milagres” de São Paulo. O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsessão. “Quando vier a liberdade, tudo estará bem!”, dizíamos. Só pensávamos na democracia e ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios das “diretas”, e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a “liberdade” na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Pois, justo aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E aí começa a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piora. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições, que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e políticos que tomaram o poder, todos nobres “vítimas da ditadura”. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República, vergonha e horror. Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, logo depois do Brasil no “tetra”, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida. Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Temos o mistério Ciro, um maverick em busca de partidos, voz no deserto, com tintas voluntaristas inquietantes. Temos a oligofrenia oportunista de seres sinistros como Itamar agarrado em Quércia e Newtão, e temos este “flagelo de Deus” que é o Garotinho, apoiado pela superstição e pela miséria popular. Há a esperança de que o PT , se chegar ao poder, não caia no delírio leninista desconstrutivo e regressista. (Oh, Deus, mostre-lhes o mundo real!...) O trágico é que, para além das ideologias, existe no Brasil a maldição do “Mesmo”, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso, que deseja a geléia geral, que odeia projetos racionais sejam do PT ou do PSDB, que quer um destino sem rumo, por ser mais lucrativo para corrupção e privilégios. É uma fome de amor ao atraso, à paralisia, que seis anos de FHC não conseguiram apagar. A grande chance histórica da razão pode ter sido perdida. Toda tentativa de racionalidade naufraga sistematicamente em nossa vocação para toupeiras e ratos. Vem aí “país do futuro” ou uma zorra? Mistério. Nem esquerda, nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.

124. ARNALDO JABOR.  Se você acordou mal hoje, é melhor não ler este artigo. Está um bode preto. Sei que a tristeza não é “comercial”, como me disse um deprimido que ria o tempo todo para não ficar impopular. Mas, fazer o “quê”? — o artigo é sobre a loucura de hoje. (Não falo da loucura dos miseráveis; falo dos que vivem o “luxo” de ter projetos existenciais). Já vivi vários tipos de loucura. Conheci o delírio esperançoso pré-64, quando achávamos que o Brasil ia virar magicamente uma grande Ipanema, o que culminou com a porrada de 64 e 68, quando a repressão da ditadura disparou a psicose como ideologia na pequena-burguesia jovem que pensava o país. Ninguém sabe o que foi a porrada de 68. Você podia morrer, se risse alto de militares num cinema, você podia ser torturado se um síndico general cismasse com sua cara. O desespero da juventude nesses anos é irreproduzível. Só quem viveu. A mistura de angústia, drogas, misticismo, contracultura sem flores hippies, perigo de morte gerou ao menos uns sete anos de horror. Outro dia vi um filme underground da época que se passava todo dentro de um chiqueiro, com o ator comendo excrementos. Esse era o espírito do tempo... o zeitgeist de merda. Aí, a ditadura acabou, voltou a democracia, venceu o mercado, somos todos livres e, no entanto, qual é a loucura de hoje? A loucura de hoje é imperceptível. Este clima geral dispersivo, pagodeiro, gargalhante, desreprimido parece liberdade, mas não é. Depois da ditadura, chegamos a uma liberdade para desejar o quê? Bagatelas, micharias. Uma liberdade vagabunda, para nada, para rebolar o rabo nas revistas, para a ilusão de um narcisismo sem peias, uma liberdade “fetichizada”, transformada em produto de mercado e até mesmo disfarçada de revoltas “de festim”, êxtases volúveis, visíveis em clubbers e punks de butique, em raves sem rumo. Temos liberdade para escolher besteiras, somos livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, recordes sexuais, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, substituição do mérito pela fama. Não precisa fazer nada; basta aparecer. Se antes havia excesso de ideologias, hoje somos todos um bando de ignorantes e frívolos, patetas, como crianças brincando dentro de um shopping. O amor está deixando muito a desejar. As paixões passaram a durar o tempo entre duas reportagens de “Caras”. Está desidealizado, isolado, um pretexto para a orgia de troca-trocas narcisistas. O casamento virou um arcaísmo careta. O sexo, uma competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados? Onde, o refinamento poético do êxtase? Nada. No sexo e no sucesso, o desejo é virar máquina e atingir o desempenho perfeito, na busca do orgasmo definitivo e de um paraíso automático e sem sofrimento. Até criticar o erro do mundo ficou ridículo. A arte ficou ridícula, inócua, pregando num deserto de instalações melancólicas que ninguém vê. O cinema virou um “titanic”, um video game, com guetos de “independentes” queixosos. Os artistas não têm mais nem o consolo do pessimismo clarividente, do absurdismo iluminista de um Beckett ou Camus. Não há esperança nem na desesperança crítica.O absurdo ficou óbvio demais para ser condenado. A democracia em país analfabeto trouxe a fabulosa ascensão livre da cretinice nacional; viramos um grande pagodão e não adianta racionalizar e dizer que é legal. Não é. É uma bosta. A literatura está dividida em best-sellers e tediosos bisnetos de Joyce, patéticos e ignorados. Tudo fica gratuito, diante da irrelevância de qualquer ação humana sobre a sociedade. A razão cínica do “pode tudo” é um disfarce para o consumo indiscriminado de produtos. As coisas já mandam em tudo. A invasão das salsichas gigantes tomou conta de nosso destino, como um mau filme B de terror. Não temos mais futuro. O futuro virou uma promessa de aperfeiçoamento de produtos, com uma velocidade que fez do presente um arcaísmo em processo, uma espécie de passado “ao vivo” em decomposição. O velho passado é um museu de inúteis curiosidades históricas. Tudo tem de ser “novo”, sem tempo de envelhecer. Tudo morre jovem. A isso, soma-se a sensação de que a nação não controla mais seu destino, de que somos barquinhos à deriva no mar das corporações, de que a vida é um subproduto do balanço das companhias. E, ainda por cima, aqui no Brasil, temos a brutal resistência do atraso, do Mesmo. Há seis meses, o Senado discute o ACM e o Barbalhão, para que as grandes questões nacionais continuem intocadas, com a permanência da miséria. Estamos nos acostumando a isso. Pior que a violência é o acostumamento com a violência. O mal ficou banalizado e o bem, um luxo ridículo, quase uma vaidade, um hobby. Não é nem cinismo; é tédio. Há um sentimento difuso de que não somos participantes de nada, o que gera o sucesso dos evangélicos e o perigo de populismos fascistóides. Itamar e Garotinho estão por aí, rondando. E todos acham tudo normal. Todos rindo, dançando, felizes. A racionalização da boçalidade, da “peruíce”, do cafajestismo, é sólida. Não nos sabemos loucos. Somos “livres”. Em meu delírio, chego a desejar que alguma catástrofe aconteça, para nos despertar desta suja esperança, desta sórdida alegria. Por exemplo: se os países emergentes fizessem uma reunião e decidissem não pagar mais as dívidas externas, aí sim o mundo mudaria realmente e o capitalismo teria de repensar sua arrogância. Mas não adianta; “venceu o sistema da Babilônia e o garçom de costeleta...” — como escreveu Oswald. E se algum leitor zeloso chegou até aqui, eu pergunto: e aí, “meu semelhante e irmão”, preferes cianureto no champanhe ou formicida no guaraná?

125. ARNALDO JABOR. Meu avô foi um belo retrato do malandro carioca. Meu artigo de hoje é sobre ninguém. Meu avô não foi ninguém. No entanto, que grande homem ele foi para mim. Meu pai era severo e triste, mal o via, chegava de aviões de guerra e nem me olhava. Meu avô, não. Me pegava pela mão e me levava para o Jockey, para ver os cavalinhos. Foi uma figura masculina carinhosa em minha vida. Se não fosse ele, talvez eu estivesse hoje cantando boleros no Crazy Love, com o codinome Neide Suely. Mas por que escrevo sobre meu avô? Porque, há pouco, bateu o telefone e meu primo dr. Claudio Acylino de Lima me disse de cara: “Você está me devendo um artigo sobre vovô”. Escrevo sobre vovô porque esta política suja, girando em torno de Barbalhões, está me corroendo as entranhas. Literalmente. Estou internado com uma doença histórica, a diverticulite, que levou Tancredo para o beleléu e mudou o curso da história. Aliás, acabo de saber que serei operado hoje. Não farei história, mas se eu não voltar, leitores amigos, tomem cuidado com o populismo que ameaça o Brasil. Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 40/50. Era um malandro carioca — em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex, o chapéu-palheta, o relógio de corrente, seu Patek Phillipe tão invejado, em volta dele ressoava a língua carioca mais pura e linda, com velhas gírias (“Essa matula do Flamengo é turuna!”...). Meu avô era orgulhoso de viver nesta cidade baldia e amada, o Rio que soava nos discos de 78 RPM, nas ondas do rádio, o Rio precário e poético, dos esfomeados malandros da Lapa, das mulheres sem malho e de seus sofrimentos românticos, entre varizes e celulite. Antes de morrer, ele me olhou, já meio lelé, e disse a frase mais linda: “É chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou à Avenida Rio Branco”. Ali, onde ele me levava para tomar refresco na Casa Simpatia, era o centro de seu mundo. Os políticos canalhas populistas que estão hoje aí querem a volta do passado apenas pelo lado “sujo” do atraso. Mas havia também uma poética do atraso — na Lapa, no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas, fabricava uma urbanidade pobre, bela e democrática. Ele também me dava aulas de sexo. Contou-me uma vez que a melhor mulher que ele teve na vida tinha sido um “joão”. Que era “joão”? Esse termo, ainda escravista, designava as pretinhas tão pretinhas que tinham o pixaim da cabeça ralo, quase carecas. Eram as “joão”. Pois ele me disse: “Foi no terreno baldio, ali na General Belfort... foi o melhor nick fostene que eu tive...” (inventara esse nome de falso inglês de cinema americano para designar a cópula, sendo a palavra acompanhada pelo gesto vaivém de bomba de ”Flit“: Nick Fostene ...) Contava isso a um menino de 10 anos, a quem ele dava cigarros e ensinava (a mim e ao Claudio Acylino) a pegar bonde no estribo, andando. Me apresentou sua amante, uma mulher ruiva chamada Celeste, que me beijava trêmula e carente como uma avó postiça e que, sendo de “boa família” (ele me falava disso com uma ponta de orgulho), “nunca se metera em sua vida familiar oficial”. Isso ele dizia com os olhos machistas molhados de gratidão. Ou seja, ele me ensinava tudo errado e com isso me salvou. Quase analfabeto, vivera grudado com a turma dos intelectuais da Colombo, babando com os trocadilhos de Emilio de Menezes, Olavo Bilac, Agripino Grieco nos anos 20, o que lhe deu um fascinado amor às letras que não lia, mas que lhe fez trazer-me sempre um livro novo, da Rio Branco, junto com a goiabada cascão e o catupiry. Uma vez, já mais tarde, eu namorava uma moça lindíssima e virgem (claro) mas burrinha. Reclamei com ele. Resposta: “Ah, é burrinha? Você quer inteligência? Então vai namorar o Santiago Dantas!” Quando fomos aos sinistros “rendevus”, de onde nos floresceram as primeiras gonorréias, nossos pais severos bronquearam: “Vocês são uns porcos!” Já nosso vovô riu, sacaneando: “Poxa... boas mulheres hein...?” Vovô nos ensinava a conversar com as pessoas, olho no olho. Na minha família de classe média, celebravam-se as meias palavras, o fingimento de uma elegância falsa, de uma finesse irreal. Só meu avô falava com os vagabundos da rua, com os botequineiros, com os mata-mosquitos. Enquanto minha família toda votava histericamente na UDN, em pleno delírio golpista, meu avô pegou o chapéu, e foi votar. Eu fui atrás dele... “Votar em quem?” “No Getúlio, seu Arnaldinho... ele gosta do povo e eu sou povo”. “E eu sou ‘povo’ também, vovô?” — perguntei. Ele riu: “Você não; você tem velocípede...” Ele me levava ao Maracanã, ele me levava em seu ombro para ver a estrela de néon da cervejaria Black Princess (até hoje me brilha esta supernova na alma), ele, uma vez, deixou-me ver um morto na calçada, navalhado no peito (“Parecia a fita do Vasco da Gama”, ele disse) — não me escondeu a tragédia. Me ensinou tudo errado e me salvou... Meu avô adorava a vida e usava sempre o adjetivo “esplêndido”, tão lindo e estrelado. A laranja chupada na feira estava “esplêndida”, a jabuticaba, a manga-carlotinha, tudo era “esplêndido” para ele, pobrezinho, que nunca viu nada; sua única viagem foi de trem a Curitiba, de onde trouxe mudas de pinheiros. “Esplêndidos...” No fim da vida, já gagá, eu o levava ao Jockey para ele conversar com o Ernani de Freitas, o amigo tratador de cavalos, que lhe dava um carinho condescendente com sua gagazice , falando de cavalos que já haviam morrido. “Hoje corre a Tiroleza ou a Garboza?”, perguntava. “A Tiroleza está machucada, Arnaldo...” Velho gagá, deu para dizer coisas profundíssimas. Uma vez, já nos anos 70, celebrei para ele as maravilhas lisérgicas do LSD que eu tomara. Ele me ouviu falar em “delírio de cores”, “lucy in the skies” e comentou: “Cuidado, Arnaldinho, pois nada é só bom...” Outra vez, vendo passar um super -ripongão sujo, “bicho-grilo brabo”, comentou: “Olha lá. Um sujeito fingindo de mendigo para esconder que realmente é...!” Há dois anos, na exumação de um parente, o coveiro colocou várias caixas de ossos em cima do túmulo. Numa delas, estava escrito a giz: “Arnaldo Hess”. Não resisti e levantei de leve a tampa de zinco. Estavam lá os ossos de vovô. Vi um fêmur, tíbias, que eu toquei com a mão. Vocês não imaginam a infinita alegria de, por segundos, encostar em meu avô querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o céu azul do Rio. Meu avô não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ele.

126. ARNALDO JABOR. Não me esqueço do ataque de riso que tive, muitos anos atrás, quando vi a autocrítica de um alto dirigente do PC da China, durante a Revolução Cultural. Quem foi? Lin Piao? Não me lembro. A “autocrítica” é um dos velhos hábitos dos comunas, uma espécie de confissão católico-vermelha, só que aos berros diante das massas. O dirigente começou sua autocrítica assim: “Eu sou um cão imperialista, eu sou o verme dos arrozais da China, eu sou a vergonha do comandante Mao...” Eu adorava ver essas manifestações da auto-anulação individual dos comunas pois, como me diziam os marxistas, o “individuo é uma ilusão”. Hoje, a “autocrítica”, para o PT no poder, se transformou na prática cotidiana, usual, do “desmentido”. Todo mundo dando gafe e depois desmentindo. O “desmentido” é o arrependimento do “se colar, colou”. Exemplo: Dirceu diz que vai “arrombar as portas e aprovar PPPs” ou diz que o Ministério Público é a “gestapo” de Hitler, ou que vai “dar um tiro no peito de Tasso”. Aí, desmente no dia seguinte. O Lula diz que jornalistas são covardes e depois desmente. Mas a verdade é a gafe do primeiro dia. É o que lhes vai pela cabeça, tão reprimidamente que pinta o ato falho. Aí, o sujeito “desmente”, numa fingida autopenitência, e todos aceitam. Eu, não, eu quero é que voltem as autocríticas do tempo de Mao. Quero ver o Gushiken bater no peito e berrar: “Eu sou a praga do cerrado, eu sou um cão bolchevista fingindo de democrata...” Muitas vezes o elemento petista não se sente obrigado a desmentir nem a fazer autocrítica, pelo uso matreiro de outro vício capital: a “mentira revolucionária”. A Secom do Planalto acaba de fazer isso com o trecho do discurso do Lula apoiando Marta que foi cortado por “pegar mal” ou o trecho atribuído a Gilberto Gil, por uma “companheira” já demitida, sem nome, que teria distorcido as palavras do ministro cantante. Quem é essa irresponsável burocrata do povo? Já terá sido estrangulada ou só está em “desgraça” num “gulag” qualquer das cidades-satélites? Ou não houve moça nenhuma? Stalin apagava das fotos os membros do partido que ele expurgava; portanto, nunca existiram. Tudo é absolvido pela “mentira revolucionária”, porque ela vem por uma “boa causa”. Outro vício capital dos comunas velhos é a sagrada prática da “luta interna”. Ah... como eles se refocilam nesse embate. A “luta interna” com base ideológica é exercida deliciosamente, pois todas as maldades, traições, intrigas, tapetes puxados, cascas de banana, tudo é “válido”, pois são agruras justificadas pelo “bem” do Partido. Ninguém estaria brigando por inveja, rancor, paranóia ou por problemas sexuais. Esses seriam vícios “pequeno-burgueses”. Eles brigam por motivos maiores, “revolucionários”: aventureirismo, sectarismo, revisionismo... Os perdedores se aquietam, quase felizes, pois foram esmagados pelo bem de todos, contra o “inimigo principal”, ou seja, quem não é do PT. Quando o Palocci saiu na capa da “Veja”, elogiado “pela burguesia”, eu pensei: “Tá frito...” Semana seguinte, começou a ciumeira disfarçada de desenvolvimentismo. Outro vício típico do anedotário petista é o “que saudades da KGB ou como era doce meu DIP”. Como os petistas não sabem sair da encruzilhada infernal entre responsabilidade fiscal e monetária e “desenvolvimento” (como aliás ninguém sabe ainda...), eles se dedicam à parte “espiritual” da velha ideologia: controle, fiscalização, tutela, espionagem e censura. Agora, estamos assistindo ao vício do baixo clero do PT: “a porrada revolucionária”, com os “militantes” atacando os comícios do José Serra para a prefeitura. Todo jogo tem porrada, sabemos. Mas ali é diferente. Há o zelo dos peões, dos pés-de-poeira da Marta, há uma missão bélica para impedir que os burgueses do PSDB ganhem a prefeitura. Os brutamontes da militância se acham imbuídos de uma missão sagrada: “Eu taquei um pé nos cornos daquele tucano filho de uma égua, esfreguei a cara dele no chão até ele gritar ‘Viva a Marta!’”. “E eu arrebentei a cara daquele ali! É isso que chamam de golpe de esquerda, Manelão?” Quase todos esses cacoetes derivam de um sentimento: “Somos superiores”. Quando eu era estudante, um dirigente do PC dizia sempre: “Não estamos com a doutrina certa? Então... é só aplicá-la”. Discutíamos infinitamente para chegar a uma conclusão da qual partíamos. Ideologia é isso. Essa “certeza superior” é encontradiça em homens-bomba, em bispos vermelhos, em padres de passeata como o Frei Betto, e encontramos também em Bush e seus fascistas... em muita gente. O autoritarismo e a truculência não são privilégio de radicais de direita. Entre os vícios do PT eu adoro um deles especialmente: o “militante imaginário”. Essa expressão é do pf. Gianotti. Perfeita: o sujeito nunca fez nada, nada pelo povo, nada pelo país, mas se considera um militante pelo bem da tal esquerda imaginária que ele cultiva dentro da cabeça, como um canteiro de “marias vagabundas”. O sujeito é de esquerda como se é Flamengo ou Corinthians. São contra “tudo isso que está aí”. São freqüentadores de bares do Rio e de universidades paulistas. Todo partido tem a turminha do “trabalho sujo”, interface entre o partido e o mundo torpe dos conchavos. No PT também: são os “canalhas revolucionários”, mas suas ações são toleradas por serem um mal “necessário” para a revolução. Os “canalhas revolucionários” agiram em Santo André, no próprio Planalto, como foi o caso do inefável Waldomiro. Recentemente, temos os milhares de sigilos quebrados pela CPI, feito atribuído ao Jose Mentor, para compor um belo arquivo para o futuro, talvez para os dias do justiciamento . “Canalhas revolucionários” são protegidos pelo Sistema. Não posso afirmar nada contra a honestidade de pessoas como o amigo de Lula, Roberto Teixeira, nem sobre o Sr. Cipriani, da Transbrasil. Mas as cortinas de fumaça impedem qualquer aprofundamento. E tudo em nome do socialismo que virá, pois como recomendou Stédile a seus sem-terra: “Tenham filhos; eles vão conhecer o socialismo...”.

127. ARNALDO JABOR.  Croc croc croc — coaxam as rãs.Rãs do meu querido Brasil!... Não reparem em minhas lágrimas... Fugi da mídia e vim para o mato. Com vocês eu posso ser sincero, pois, afinal, vocês são as rãs mais caras do mundo, vocês já custaram mais de R$ 9 milhões aos cofres públicos... Oh, doces rãzinhas!... Vocês não me entendem, mas me olham, empilhadas nos tanques, com as patinhas prontas para me aplaudir... Ha ha... Vocês estão mais famosas que as rãs do Aristófanes... Vocês são as rãs do Barbalho, as minhas últimas correligionárias... Rãs: — Croc croc croc... Eu nunca quis ser uma rã, como vocês. Esta é a história de minha vida. Um homem ambicioso como eu, nascido na Amazônia, está perdido, pode ter vida de rã. Tudo que eu sempre quis foi fugir da condição desses bichos escondidos na lama. A floresta come tudo, come nossos raros ideais... É a síndrome de Belém e Manaus... Há uma estranha metempsicose na floresta. Se a gente bobeia, a alma dos bichos entra na gente. Eu nunca quis ser rã. Queria ser um bicho mais prestigiado como as sucuris ou as piranhas... As piranhas foram meu ideal-de-eu! Aqui as pessoas ficam com cara de bicho. Meu sócio José Osmar Borges parece um jacaré cínico, impassível, prestes a dar o bote. Minha mulher (que ela não me ouça...) tem cara de rã. Aliás, foi por isso que eu tive a idéia de financiar-lhe um ranário. Ha!... ha!... Meus suplentes e sucessores têm alma e cara de bicho. O Mestrinho parece uma tartaruga maquilada; meu vice, o Edson Lobão, é um bicho mais do seco do Maranhão, parece um calango faminto... É a metamorfose amazônica... Rãs: — Croc croc... Mas eu venci, senhoras rãs... Eu consegui fugir da vossa gosma! Em pouco tempo eu saí de um “fusca” velho e de um casebre da periferia e hoje... bem... hoje eu sou... era... uma potência! Comecei com discurso de esquerda, de vereador populista... Era moda na época... Foi um sucesso. Daí para frente, o poder me veio comer na mão. Prefeito, governador, ministro da reforma agrária... ahhh... foi um show de bola...TDAs vendidas... desapropriação de fazendas imaginárias... Que lindo!... Eu era um fazendeiro do ar... Ahhh... a volúpia de dispor da coisa pública, que não é de ninguém, esse dinheiro abstrato, sem dono... ahhh... E quanto mais perigoso o trambique, mais tesão... Eu tinha tanta paixão pelas tranquibérnias, pelas tramóias, que até deixei pistas, o “rabo de fora” de propósito, por tara mesmo... Ahh... cheques voando, “fantasmas”, “laranjas”, contas secretas... ahhh... que gozo quase sexual... E tem mais! Estes hipócritas que me perseguem não falam, mas sabem que sem trapaças, sem velhacarias, sem os doces superfaturamentos não há obras, não há nada... O Brasil se move pela mola dos interesses sujos... Esta é a verdade, no Sul, no Leste. Só os bisbórrias e os pilantras alavancam o progresso!! E eu não pensava só em mim... pensava no bem do Pará! Eu lutei por esta floresta de tesouros... Tanta gente veio de fora para roubar aqui, na Zona Franca, nas superintendências... E eu ficava revoltado: “Isso aqui é terra nossa! Viram, seus paulistinhas peculatários e ladrõezinhos do Sul, isso aqui tem dono!” Eu fui a defesa da Amazônia, eu, Mestrinho, Amazonino, tantos heróis, tão grandes como Plácido de Castro... Eu sou um exemplo, um ícone da tradição fisiológica florestal!... Eu devia ser preservado como uma ararinha azul e não caçado como uma ratazana grávida!... aiii, aiii... uhhhhh!... Croc croc croc. Ai... ai... uhhh!... Este Brindeiro que me denunciou parece um sagüi assustado, piscando de medo e me acusando aos urubus de capa preta do STF... Todos são bichos, ou bichas... ha ha... No Sul-Maravilha, todos falam da Amazônia com orgulho: “Nosso pulmão verde!” Não sabem do baixo-astral que é a vida na selva: piranha comendo jacaré, jacaré comendo bezerro, sapo comendo minhoca, jibóia comendo sapo... A política toda aqui é assim... mais que em Brasília... Em nossa tradição escravista e patrimonialista, a coisa pública é um prato de comida... Se um não comer, o outro come... E estes hipócritas me fizeram um símbolo da “imoralidade nacional”... E o resto do Congresso? Tirando meia dúzia de bobos, o Congresso é um “inferno verde”... Estes canalhas querem me extinguir... Eu sou um mico-leão-dourado e querem me substituir por novas formas de corrupção “global”, anglo-saxônica... Aí, em vez de rãs, teremos grandes insetos falando inglês... Eu sou a preservação da grande linhagem do espertalhão folclórico... Eu sou Macunaíma contra o Mr. Smith... Luis da Câmara Cascudo me defenderia... Eu sou material de cultura popular... Eu sou um pirarucu... uma piranha vencedora!! Croc... Ohh... minhas rãzinhas... coitadinhas... Graças a Deus, vocês não entendem meu discurso, porque vocês são umas desgraçadas... Vocês me lembram um campo de concentração, onde são mortas por choque e decapitação, o massacre mais caro da história, 9 milhões... ha ha!... É horrível, mas confesso que me dá um certo tesão... Vocês mortas parecem pequenas mulheres de perna aberta... Aquela fila de mulherzinhas nuas... E esse holocausto acaba em restaurantes finos... Oh, ironia... Esses grã-finos que vão comer vocês, à provençal, nada sabem da vossa tragédia amazônica, nem da minha... Ai, aiiii, uhhhh... Eu sempre vivi na lama dos rios, na beira dos alagados e, hoje, eu tenho orgulho de mim: eu tenho piscinas, fazendas, helicóptero, barrigão, eu tenho Mercedes, jatinhos... eu... eu croc eu... eu... eu croc eu... minha honra... croc... croc... urghhhht... que é isso? Sinto uma gelada gosma me cobrindo... Meus braços estão mais finos... meu Deus... meu corpo está oleoso, minhas sobrancelhas caíram... Estou ficando verde.. meu... arghhh... croc croc... Senhoras rãs... vocês... me salvem... eu não quero... sou gente... eu sou o senador... croc... croc... o senad... croc... Rãs: — Idiota! Rã não fala!... Croc.

128. ARNALDO JABOR. Vinte e cinco anos atrás, o cinema brasileiro estava decolando: filmes com dez milhões de espectadores — “D. Flor”, “Xica da Silva”, “Lucio Flávio” — dando tanto lucro quanto os “tubarões” e “exorcistas”. O público abarrotava as salas com filmes brasileiros. Por isso, alarmado, mr. Jack Valenti, o capo do cinema americano, voou correndo para o Brasil, para impedir nosso progresso. Veio falar com Geisel, fazer ameaças. Hoje, quando estamos melhorando, com a criação do Gedic (Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica), um novo programa de regulamentação para o cinema, Jack Valenti volta a ameaçar. Ele e seu funcionário local, Steve Solot, estão despachando arrogantes “cartas-bomba” para o governo, com ameaças de retaliação comercial e preparando lobbies para intimidar e comprar deputados, de modo a destruir nosso projeto de ter um mercado interno. Há 25 anos, escrevi um poema-protesto contra Valenti. Hoje, com 79 anos, ele não mudou nada; nem ele nem os americanos, que falam em “mercado aberto” para enganar otários. Meu poema, enxugado, continua atual. “O sangrento coquetel de Hollywood”. “Hoje, quando já se fecha a pálpebra do “american dream”/ e começa a grande noite de perigo no Sunset Boulevard, hoje,/ quando a “democracia global” já é motivo de ironia nos bares/ elegantes de Nova York — se bem que todos suportam a miséria do mundo como um mal necessário à delícia de viver/ e ninguém joga fora, com sentimento de culpa, seus rubros bloody maries / — neste instante,/ Jack Valenti, com seu sorriso republicano,/ gravata de estrelas/ e sólido rosto com/ traços de Dick Tracy/ George Wallace, Liberace e Billy Graham,/ e tantos outros robôs da gargalhada infinita,/ neste momento,/ com a sólida valise dos objetivos indestrutíveis/ com o topete que nossa Dívida Externa deu aos executivos internacionais,/ Jack Valenti descerá do seu avião de guerra/ no país das promissórias vencidas. Em Brasília,/ Mr. Valenti dará entrevistas sobre “livre mercado”,/ e nos fará veladas ameaças, com/ seus dentes brancos, seu shake hands , sua água-de-colônia envenenada,/ que intimidarão nossos chefes-de-gabinete/ hipnotizados pelas luzes da Broadway,/ e então,/ sob os sapatos não-brasileiros de Valenti,/ os tapetes rubros de nossa cordialidade deslizarão sob seus pés/ e ninguém verá no ar os crimes do cinema americano,/ ninguém verá os corpos de nossas pobres mentes mortas/ ninguém reconhecerá as lesões,/ não há legista que descubra as marcas de livores em nossa alma,/ ferida roxa, ferida rosa, ferida de arco-íris,/ poeira de estrelas em nossos olhos,/ homens tatuados que nós somos/ pelas mil aventuras de Hollywood,/ queimaduras de Eastmancolor/ amarelo-kodak de nossa fome. Então, Mr. Valenti tirará da mala de desígnios indestrutíveis/ os valores mais sagrados do Império ocidental: a simetria, a continuidade,/ o princípio, o meio, o fim, o happy end ,/ e sua visão mercantil de liberdade./ Nós fugiremos,/ mas, de sua pasta de desígnios indestrutíveis/ sairá o King Kong de nosso Inconsciente/ e ele crescerá/ a cada ruflar de dedos/ ele crescerá/ ele, o monstro de papier maché de nosso desejo colonizado,/ esse gênio da lâmpada com pernas de Ben Hur,/ cara de Estátua da Liberdade/ seios de Marilyn Monroe/ lábios de Las Vegas/ olhos de Las Vegas/ vaginas luminosas de Las Vegas,/ bocas de beijos infinitos/ na tela do sonho paranóico de Hollywood. E, como um leite venenoso do grande seio da Califórnia,/ nossas antenas de TV mamarão para sempre/ a mais infernal mentira já montada pelo homem,/ e eles virão/ com seus dentes de celulóide,/ eles virão com coxas de Rachel Welch,/ eles virão com seus olhos de “Carrie, a estranha” espalhando morte nas salas/ eles virão ao coquetel sangrento de Jack Valenti/ eles virão com seus figurantes sonâmbulos,/ mas não trarão as aves-do-paraíso de Busby Berkeley,/ nem as asas de Fred Astaire/ nem a doce cicatriz de Gene Kelly.../ eles virão e virá o chumbo grosso das metralhadoras de Tom/ e o fino punhal de Jerry/ e virá o grande tubarão branco/ com as sedas de Jean Harlow sangrando entre os dentes/ eles virão ao funeral de nossa cultura/ e virão os seus cineastas covardes, obedientes,/ caminhando com as muletas roubadas/ dos velhos Hawks, Ford, Hitchcock e Vidor,/ enquanto Nicholas Ray cai de porre numa viela de Carmel/ e Orson Welles faz comercial de uísque em Amsterdã,/ eles virão nos vender seus últimos peixes/ eles virão no fim do sonho americano/ na última bobina do sonho americano/ eles virão vender os últimos retalhos de seus mitos remendados/ os manequins rotos, olhos caídos,/ a paina esfiapada de seus bonecos falsoso ferro-velho dos estúdios,/ eles virão para o Baile da Ilha Fiscal da nacionalidade/ e farão seus “titanics” explodir nas piscinas dos milionários,/ e Linda Blair virá rodando a cabeça aos quatro ventos/ e virão todos maquilados/ brancos de gesso, sorridentes/ casacas fosforescentes, porrete na mão,/ para nos vender os últimos resquícios da esperança/ de Carmen Miranda,/ mas não trarão Carmen Miranda caída morta/ nem Judy Garland drogada pelos executivos/ nem Marilyn flutuando na piscina envenenada do seu último teste/ nem as cenas cortadas de “Greed” de Stroheim,/ nem o cadáver de James Dean,/ nem nada,/ quem vem é a última geração biônica,/ Jack biônico/ coração de celulóide,/ brilhantina de napalm/ unhas de Nixon. E, quando a orquestra dos cubancheros brasileños / tocar em suas maracas “That’s entertainement”,/ todas as colunas sociais vão dançar/ capas de “Vogue” vão dançar,/ modelos magros jorrando marshmallow pelas bocas/ esqueletos com rosas entre as vértebras/ todos vão dançar com deputados comprados/ grã-finas deslumbradas,/ enquanto do lado de fora, o avião de Valenti, flutuando nos céus do Brasil,/ leva para o Norte os bilhões de dólares de ingressos vendidos aqui/ sob o olhar dos brasileiros cegos para o própio rosto.” (Imperialismo americano não muda; os cineastas sabem disso...)

129. ARNALDO JABOR. A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses divergentes, uma “dupla mensagem”: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nesta encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro desta dúvida, havia outra: UDN ou PTB? Reacionários da elite ou “povão”? Brigadeiro ou Getúlio, finesse ou “sujeira”? Comecei a me interessar por política quando votei em Jânio. Confesso. Eu tinha 18 anos e não consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era “de esquerda”, doidão, off . Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouço: “Jânio tomou um porre e renunciou!”. Foi minha primeira desilusão. Tinha sido eleito esmagadoramente, e largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do Praia Vermelha, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que slogans e programas “racionais”. Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice Jango, que a direita queria impedir. O exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabeça que, com uns militares legalistas e com heróis de esquerda, finalmente o Brasil iria ascender a seu grande futuro. Nos dois anos seguintes, vivi a esperança de um paraíso vermelho que iria tomar o país todo, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre e tropical que iria acabar com a miséria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, sem inimigos visíveis, com o presidente e sua linda mulher fundando a “Roma tropical” como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo iria cair sem resistência. No dia 31 de marco de 64, estou na UNE comemorando a vitória de tudo. Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, comemorando a vitória do socialismo. Um amigo me abraçou, gritando: “Vencemos o imperialismo americano; agora, só falta a burguesia nacional!” Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. Diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu tinha acordado de um sonho para um pesadelo. No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistência cultural rica e fértil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As idéias e as artes se engrandeceram na maldição. Com muita esperança, as passeatas foram enchendo as ruas, num heroísmo democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão. Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o Gama e Silva lia o texto do Ato 5 na TV, virando o país num sinistro campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca lady Macbrega Yolanda, fechou o país por mais 15 anos. Esperança-desilusão. Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do “milagre brasileiro”, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram no desespero da contracultura mística, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos “milagres” de São Paulo. O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsessão. “Quando vier a liberdade, tudo estará bem!”, dizíamos. Só pensávamos na democracia e ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios das “diretas”, e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a “liberdade” na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Pois, justo aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E aí começa a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piora. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições, que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e políticos que tomaram o poder, todos nobres “vítimas da ditadura”. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República, vergonha e horror. Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, logo depois do Brasil no “tetra”, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida. Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Temos o mistério Ciro, um maverick em busca de partidos, voz no deserto, com tintas voluntaristas inquietantes. Temos a oligofrenia oportunista de seres sinistros como Itamar agarrado em Quércia e Newtão, e temos este “flagelo de Deus” que é o Garotinho, apoiado pela superstição e pela miséria popular. Há a esperança de que o PT , se chegar ao poder, não caia no delírio leninista desconstrutivo e regressista. (Oh, Deus, mostre-lhes o mundo real!...) O trágico é que, para além das ideologias, existe no Brasil a maldição do “Mesmo”, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso, que deseja a geléia geral, que odeia projetos racionais sejam do PT ou do PSDB, que quer um destino sem rumo, por ser mais lucrativo para corrupção e privilégios. É uma fome de amor ao atraso, à paralisia, que seis anos de FHC não conseguiram apagar. A grande chance histórica da razão pode ter sido perdida. Toda tentativa de racionalidade naufraga sistematicamente em nossa vocação para toupeiras e ratos. Vem aí “país do futuro” ou uma zorra? Mistério. Nem esquerda, nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.

130. ARTHUR AZEVEDO. DE CIMA PARA BAIXO. Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente mandou chamar o diretor-geral da Secretaria. Este, como se movido fosse por uma pilha elétrica, estava, poucos instantes depois, em presença de Sua Excelência, que o recebeu com duas pedras na mão. — Estou furioso! — exclamou o conselheiro; — por sua causa passei por uma vergonha diante de Sua Majestade o Imperador. — Por minha causa? — perguntou o diretor—geral, abrindo muito os olhos e batendo nos peitos. — 0 senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado! — Que me está dizendo, Excelentíssimo?... E o diretor-geral, que era tão passivo e humilde com os superiores, quão arrogante e autoritário com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida: — É verdade! Passou-me! Não sei como isto foi... — É imperdoável esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe um pouco mais de atenção os atos que têm de ser submetidos à assinatura de Sua Majestade, principalmente agora que, como sabe, está doente o seu oficial-de-gabinete! E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu: — Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial: ouvi palavras tão desagradáveis proferidas pelos augustos lábios de Sua Majestade, que dei a minha demissão!... — 0h!... — Sua Majestade não o aceitou... — Naturalmente; fez Sua Majestade muito bem. — Não a aceitou porque me considera muito, e sabe que a um ministro ocupado como eu é fácil escapar um decreto mal copiado. — Peço mil perdões a Vossa Excelência — protestou o diretor-geral, terrivelmente impressionado pela palavra demissão. — 0 acúmulo de serviço fez com que me escapasse tão grave lacuna; mas afirmo a Vossa Excelência que de agora em diante hei de ter o maior cuidado em que se não reproduzam fatos desta natureza. 0 ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo: — Bom! Mande reformar essa porcaria! 0 diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe da 3a seção, que o encontrou fulo de cólera. — Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do Sr. Ministro! — Por minha causa? — 0 senhor mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcionário nomeado! E atirou-lhe o papel, que caiu no chão. 0 chefe da 3a seção apanhou-o, atônito, e, depois de se certificar do erro, balbuciou: — Queira Vossa Senhoria desculpar-me, Sr. Diretor... são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente!... — 0 Sr. Ministro ficou, e com razão, exasperado! Tratou-me com toda a consideração, com toda a afabilidade, mas notei que estava fora de si! — Não era caso para tanto. — Não era caso para tanto? Pois olhe, Sua Excelência disse-me que eu devia suspender o chefe de seção que me mandou isto na pasta! — Eu... Vossa Senhoria... — Não o suspendo; limito-me a fazer-lhe uma simples advertência, de acordo com o regulamento. — Eu... Vossa Senhoria.— Não me responda! Não faça a menor observação! Retire-se, e mande reformar essa porcaria! 0 chefe da 3a seção retirou-se confundido, e foi ter à mesa do amanuense que tão mal copiara o decreto: — Estou furioso, Sr. Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante do sr. diretor-geral! — Por minha causa? — 0 senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível! Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado! E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense. — Eu devia propor a sua suspensão por 15 dias ou um mês: limito-me a repreendê-lo, na forma do regulamento! 0 que eu teria ouvido, se o sr. diretor-geral me não tratasse com tanto respeito e consideração! — 0 expediente foi tanto, que não tive tempo de reler o que escrevi... — Ainda o confessa! — Fiei-me em que o sr. chefe passasse os olhos... — Cale-se!... Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas atribuições?!... — Não, senhor, e peço-lhe que me perdoe esta falta... — Cale-se, já lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!... 0 amanuense obedeceu. Acabado o serviço, tocou a campainha. Apareceu um contínuo. — Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da seção! — Por minha causa? — Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado! — Foi porque... — Não se desculpe: você é um contínuo muito relaxado! Se o chefe não me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa seria sua! Retire-se! — Mas... — Retire-se, já lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia queixar-me de você!... 0 contínuo saiu dali, e foi vingar-se num servente preto, que cochilava num corredor da Secretaria. — Estou furioso! Por sua causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas! — Por minha causa? — Sim. Quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que te demoraste tanto? — Porque... — Cala a boca! Isto aqui é andar muito direitinho, entendes? — Porque, no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro estás no olho da rua. Serventes não faltam!... 0 preto não redargüiu. 0 pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois do jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão. 0 mísero animal, que vinha, alegre, dar-lhe as boas-vindas, grunhiu, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés. 0 cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe da seção, pelo diretor-geral e pelo ministro!...

131. ARTHUR AZEVEDO. AS BARBAS DO ROMUALDO. O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educá-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria. Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos. Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do "povo da lira". Calado era um juiz; falando, um capadócio. Os praticantes amanuenses e mais funcionários do chefe de secção para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocráticas ainda não eram elétricas. As de hoje são menos humilhantes, não sei se devido à eletricidade, se à ausência do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritário. Era, em verdade, pelo menos desagradável para um funcionário rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: — Leve este ofício à portaria. O Romualdo não ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartição, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguão da secretaria, de óculos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tímida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o à realidade da sua situação de subalterno. Era o mesmo que se não tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e não tão baixo que o não ouvissem: — Pois sim!...toca p'r'aí!...súcia de vadios!...não têm mais que fazer senão dar ao badalo!...— Tlin! tlin! tlin!... — Toca, toca, meu menino!...estou bem aqui!... Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabeça do funcionário incipiente...e impaciente: — Então, seu Romualdo? Há uma hora que estou a tocar! O contínuo erguia a cabeça, tirava os óculos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentidão o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas: — Que temos? Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicação! O amanuense não se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidadão conspícuo. Em casa, depois que deixara crescer as suíças, o Romualdo poderia dizer-se oráculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos à uma que era clamoroso estar ali um simples contínuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartição de primeira ordem. Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou políticos, e dando sobre cada um a sua opinião individual. Nessas ocasiões só dizia parvoices, mas a família ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas. Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o não conhecia, porque a sua figura solicitava a consideração e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem será aquele figurão? Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contínuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo. Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que não fosse a exibição das suas barbas, captou a confiança e até certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majestático. Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda não havia telefone. No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contínuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez até pôs as suas gloriosas suíças ao serviço da boa harmonia administrativa. O caso conto como o caso foi. O ministro andava, não sei porque, às turras com o diretor da Estrada de Ferro, e já o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se não soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, não fosse tão agarrado à pasta. Um dia o alto funcionário precisou falar ao ministro sobre matéria urgente de serviço, e, não o achando na secretaria, foi ter à sua casa. Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira. — O ministro está? — Está, sim, senhor. — Vá dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgência. O Romualdo, que já se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe: — Está aí o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obséquio de lhe conceder alguns minutos de atenção para assunto urgente. O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu: — Diga a essa besta que não estou para o aturar, e que não me amole! O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionário: — O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obséquio de procurá-lo noutra ocasião, porque neste momento está muito ocupado, e sente não poder prestar a v. ex. toda a atenção que v. ex. merece. O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando: — Pois diga—lhe que vá para o diabo que o carregue! O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou : — O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurará v. ex. na secretaria. Com aquelas suíças, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?

132. AUGUSTO NUNES. Enfrentemos os nostálgicos da escuridão. Lula parece não saber quem é o chefe supremo das Forças Armadas. Viegas é um ministro sem coragem para esmagar o ovo da serpente. Embora seja necessário esclarecer a origem das fotos e os motivos da divulgação inesperada, tem importância secundária a identificação do ser humano que aparece naquelas imagens ultrajantes. Seja o jornalista Wladimir Herzog, seja o padre Léopold D'Astous, ali está um homem - um homem brutalizado por torturadores a serviço da ditadura militar. No Brasil de 2004, já distante da noite autoritária, iluminado pela restauração da democracia republicana, afiguram-se bem mais graves certos desdobramentos do episódio, sobretudo duas notas subscritas por autoridades militares. A primeira morde, a segunda sopra. Ambas esbofeteiam a Constituição. A primeira foi atribuída ao general Antônio Gabriel Esper, chefe do Centro de Comunicação do Exército. Na forma e no conteúdo, lembra a arrogância enfurecida dos velhos senhores dos porões ao longo dos anos de chumbo. A segunda, subscrita pelo general Francisco Albuquerque, comandante do Exército, desautoriza a anterior no tom indulgente de quem recomenda cautela ao filho brigão. Mas o ministro da Defesa, José Viegas, gostou. "O caso está encerrado", decidiu. Não está. Só estará depois de punidos os subversivos fardados. A Constituição informa que o presidente é o chefe supremo das Forças Armadas. É Lula o nº 1 também nos quartéis. Na ordem hierárquica vigente, ao presidente se seguem o ministro da Defesa e o comandante do Exército, também agredidos pelos subversivos. Viegas é considerado por dezenas de oficiais uma flor de pusilanimidade. Merece. O Brasil é que não merece esse ministro incapaz de impor-se a supostos subordinados, começando pelo general Albuquerque. Induzido por recordações de tempos que não voltarão, Lula comportou-se com o tipo de prudência que se confunde com o medo. Um erro grave. Ele precisa, e com urgência, demitir Viegas, trocar o chefe do Exército e enquadrar todos os envolvidos no motim. Os remanescentes do serpentário têm de aprender que a era das quarteladas acabou. Informado de que os soldados brasileiros em serviço no Haiti, incorporados à força de paz formada pela ONU, também estão cuidando do controle de favelas conflagradas em algumas cidades daquele país exposto a ondas sucessivas de violência, o Cabôco Perguntadô ficou bastante confuso. Quando alguém ressuscita a idéia de engajar tropas militares no esforço conjunto para pacificar os morros do Rio de Janeiro, generais, políticos e juristas argumentam que não é esse o papel das Forças Armadas. O Cabôco Perguntadô quer saber: se pode no Haiti, então por que não pode aqui?  A taça está com Pudim. Entusiasmado com o tamanho da fila de eleitores em busca do sonho prometido pela governadora Rosinha - distribuir casas ao preço de R$ 1 se o novo prefeito de Campos for Geraldo Pudim -, o candidato apoiado pelo casal Garotinho já ganhou ao menos a taça da semana. A frase premiada: "Na ordem dos escolhidos, é claro que terá preferência quem votar em mim". Os jurados do Yolhesman Crisbelles particularmente impressionados com a esperteza da inversão: em Campos, o prato principal só será servido ao populacho depois de engolida a sobremesa. Garganta à prova de quedas. Reprodução de TV. Nem mesmo quedas espetaculares afetam a loquacidade de Fidel Castro. Antes mesmo de erguer-se da calçada em Santa Clara, ainda empapado de suor, o ditador cubano empunhou o microfone para dirigir-se à nação estremecida.  Reprodução de TV. “Eu lhes peço perdão por ter caído”, discursou. “Tenho uma fratura no joelho e talvez uma no braço, mas estou inteiro”. Maravilha. Falta agoraz encontrar o agente da CIA que infiltrou aquele degrau traiçoeiro no caminho do Comandante. Falta um Duda a Duda.  Marqueteiro-mor do governo federal, Duda Mendonça talvez contrate alguém para melhorar a própria imagem. O arranhão mais recente acabou por afastá-lo da chefia da campanha de Marta Suplicy. Na quinta-feira, preso pela Polícia Federal numa rinha do Rio da qual é sócio, o criador de galos de briga apaixonado pelos combates ferozes entre as aves deixou a cadeia, horas depois, no papel de indiciado. "O Brasil inteiro sabe que meu hobby é esse", alegou. Certo. "Não estou fazendo nada de errado". Engano. O que Duda chama de hobby é um crime ambiental que pode dar cadeia. Pelo menos é o que diz a lei. Foi Maluf quem fez. A última do Maluf superou todas as proezas do velho recordista: ele acaba de materializar o "caminhão de acusações", hipérbole que até agora só existia na retórica agressiva dos palanques eleitorais. As pilhas de papel na carroceria do veículo amontoam documentos com denúncias e acusações envolvendo Maluf, que teve bens bloqueados. Nem Marta Suplicy nem José Serra trataram do que a foto mostra. De olho nos votos de malufistas irredutíveis, os candidatos a prefeito de São Paulo optaram por cruzar o segundo turno em silêncio esperto. Daqui por diante, estão ambos proibidos de fazer críticas ao campeão. O QUE VAI POR AÍ. Frase pinçada do discurso feito por Lula no Rio, ao abrir uma reunião da Associação Brasileira de Agentes de Viagem (Abav): "Problemas existem e têm que ser tratados com seriedade, mas o que não serve para a promoção do turismo não deve ser tratado com displicência". Ninguém entendeu, mas todos aplaudiram. Se o presidente continuar decidido a produzir discursos de improviso, o governo terá de nomear um tipo de assessor ainda por ser inventado: o "explicador simultâneo". Pare, Romário. Continue, Schumacher. Alarmadas com sucessivas ameaças anônimas, viúvas dos quatro fiscais do Ministério do Trabalho assassinados em Unaí no começo do ano pedem socorro ao governo federal. Os mandantes do crime devem ter achado pouco. Oficiais das Forças Armadas vivem reivindicando a substituição do ministro da Defesa, José Viegas, por algum integrante do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Os motivos não são claros, mas entre eles decerto não está o interesse na divulgação dos documentos sobre a guerrilha do Araguaia. O movimento foi organizado pelo PCdoB, que tampouco pretende reabrir a questão. Os motivos também não são claros. John Kerry, como notou Arnaldo Jabor, tem cara de dúvida. Já George Bush não é homem de hesitar: vai logo tomando a decisão errada. Esqueça essa história de reeleição e volte para o plenário, João Paulo Cunha. Para quem chegou de Osasco nem faz tanto tempo, dois anos na presidência da Câmara dos Deputados já estão de bom tamanho.

133. AUGUSTO NUNES. A arrogância é irmã da impunidade. Norberto Mânica, o "rei do feijão", lidera o grupo dos acusados de planejar o massacre dos fiscais em Unaí. Animados com o triunfo do candidato a prefeito Antério Mânica, suspeito de integrar o grupo de mandantes do massacre de quatro funcionários do Ministério do Trabalho ocorrido no começo do ano, alguns nativos de Unaí passaram a exibir a arrogância dos impunes frente a cobranças reiteradas por homens de bem. O pretexto é a preservação da imagem de um celeiro de trabalhadores exemplares, fustigada por jornalistas irresponsáveis. Conversa fiada. Querem mesmo é impedir que as investigações avancem até o completo esclarecimento de um crime especialmente torpe. Consumou-se em 28 de janeiro de 2004, com a execução de quatro funcionários do Ministério do Trabalho. Numa estrada do município, foram assassinados a tiros os fiscais Nelson José da Silva, João Baptista Lages e Erastótenes de Almeida Gonçalves, além do motorista Ailton Pereira de Oliveira. Morreram por acreditar que a lei vale para todos. Em 27 de julho, a Polícia Federal divulgou a captura de seis indivíduos envolvidos no episódio. Todos haviam participado diretamente da ação de extermínio, apertando gatilhos ou manobrando veículos mobilizados para o cerco mortal. "O crime foi quase desvendado", ressalvou um delegado. Era essencial a ressalva: sobravam evidências de que o massacre fora encomendado por fazendeiros irritados com a teimosia dos fiscais em multá-los por agressões à lei. Entre os possíveis mandantes reluzia Norberto Mânica, o "rei do feijão", chefe de uma família muito influente e líder do bando de poderosos inconformados. Desde o fim da década de 90, o fiscal Nelson José da Silva vinha punindo Mânica com multas que somavam, em janeiro de 2004, quase R$ 2 milhões. Quase todas decorriam de violações da legislação trabalhista, ignorada com histórico desembaraço pelos donos das terras. Eles decidiram acabar com a audácia dos fiscais. A entrada em cena da família Mânica, se ajudou a iluminar a história, também provocou a subida ao palco de personagens decididos a embaralhar o enredo e confundir a platéia. A mobilização amiga aumentou quando as investigações chegaram a Antério Mânica. Lançado pelo PSDB do governador Aécio Neves, o candidato a prefeito tinha o apoio ostensivo do vice-presidente José Alencar, de deputados bem votados na região e até do PT de Unaí. Estava bem no retrato. Preso em setembro, o favorito se tornou imbatível. Vitorioso com mais de 72% dos votos, virou herói municipal. Um mártir, crucificado por jornalistas inescrupulosos vinculados à esquerda radical. Na segunda-feira passada, um certo José Nieto enviou à coluna a nota, incluída no site que explora, inspirada no texto publicado na véspera pelo JB. Segue-se, transcrito sem correções, um trecho bastante revelador: "O senhor Augusto Nunes tem o raro poder de clarevidência, sendo capaz de substituir as polícias investigativas, o Judiciário da República e os eleitores. Pelo menos tem sua vaga certa no comitern literário tupiniquim. Onde será que anda se informando? Ou será que é capaz de publicar textos digitados por espíritos?" Sosseguem os vassalos a serviço de assassinos: não são necessárias fontes misteriosas. Basta o acesso às investigações da Polícia Federal. Mas mensagens psicografadas seriam bem-vindas. Se os mortos falassem, Unaí demoraria a dormir.Ao receber no Vaticano a nova embaixadora do Brasil, Vera Machado, o papa abençoou o Fome Zero, que não conhece. Em nome dos evangélicos, a ex-governadora Benedita da Silva abençoou a candidatura a prefeito de Nova Iguaçu do petista Lindberg Farias, ateu de carteirinha. Até por ser brasileiro, Deus merecia ser poupado do vale-tudo por um voto. O QUE VAI POR AÍ.O vice-presidente José Alencar foi até Moscou só para ouvir das autoridades russas que será mantido o embargo à importação de carne bovina do Brasil. Os antigos fregueses invocam razões de ordem sanitária, como testemunharam os quase 30 integrantes da comitiva. Em compensação, porções do caviar do Báltico continuarão ausentes das cestas básicas distribuídas pelos programas sociais do governo Lula. O senador Heráclito Fortes (PFL-PI) foi com cinco amigos passar o feriadão de 12 de outubro em Barreirinhas, na região dos Lençóis Maranhenses. Às margens do Rio Preguiça, recepcionou-o Fernando Barbosa de Oliveira Júnior, juiz da comarca e disposto a conferir o boato: o grupo levava na bagagem dinheiro para a campanha do adversário do candidato à prefeitura pelo PT, Miltinho. Agressivo e beligerante, o juiz estava acompanhado não de policiais, mas do próprio Miltinho e oito companheiros armados. Constataram que nas malas não havia dinheiro nenhum. O senador exigiu do juiz um atestado formalizando a ocorrência e detalhando seu desfecho. Documento prometido, o doutor achou mais sensato sumir. Heráclito pediu providências ao Senado presidido por José Sarney, cujo clã dá as cartas na região. Melhor esperar sentado. Fale menos, Gilberto Gil. E cante mais. O jornal americano The Washington Post informou que o MR-8, grupo brasileiro que posou de esquerdista até cair na vida, pegou parte dos US$ 11 bilhões usados por Saddam Hussein para conseguir cúmplices dispostos a ajudá-lo a driblar o bloqueio comercial. Até agora, ninguém se moveu para investigar o tamanho da negociata. Não deixem de ler Getúlio, romance do excelente Juremir Machado da Silva lançado há pouco pela Editora Record. É um grande livro. Articule menos, José Dirceu. Com um beijo e uma lágrima, a coluna registra a partida do ótimo Fernando Sabino. Grande escritor, grande figura. Lula da Silva ainda cuida de selecionar os eleitos para o vôo de estréia do avião presidencial. Na viagem para o Japão, todos poderão desfrutar das comodidades do aparelho, pronto para decolar. Permanece num hangar nos EUA para evitar que, na brigalhada do segundo turno, os ressentidos de sempre afirmem bastar uma escala no Palácio do Planalto para que toda humildade se desmancha nos ares. Rosinha leva taça. A frase campeã, pinçada do Informe JB de sexta-feira, garantiu a taça da semana à governadora Rosinha Garotinho. No discurso que celebrou a inauguração de obras de asfaltamento custeadas pelo Estado, Rosinha incluiu críticas ao candidato do PT à Prefeitura de Niterói e uma ousada comparação: "Sou como Jesus Cristo, que veio à Terra para ajudar os doentes". Os jurados do Yolhesman Crisbelles acham que Rosinha merece o prêmio tanto pelo que disse como pelo que evitou dizer. Não fez nenhuma alusão, por exemplo, a mercadores dos templos. Desafinação na parceria.Ao indicar o deputado Gilberto Kassab para completar como vice a chapa de José Serra, o PFL estava querendo ajudar ou atrapalhar o candidato a prefeito? A pergunta é muito pertinente. Entre tantos nomes, o partido escolheu justamente um ex-secretário de Planejamento do inesquecível Celso Pitta. O PT acusa Kassab, que ficou um ano no cargo, de ter planejado todos os erros de Pitta. Resta a Serra repetir a frase usada por Rui Falcão, vice de Marta Suplicy, para explicar a aliança com Maluf: "Acusado ou indiciado não é culpado". Espontâneo e espantoso. À saída do prédio da Polícia Federal, no feriado do dia 12, o incomparável Paulo Maluf irritou-se com a inesperada presença de jornalistas. Mas partiu para o drible: "Vim aqui para depor espontaneamente". Apesar da boa vontade, avisou ao delegado, de saída, que não responderia a pergunta nenhuma. Também achou melhor fingir que nem ficou sabendo do comentário pesadamente irônico do senador do PFL (e ex-policial federal) Romeu Tuma: "Nunca vi ninguém aparecer espontaneamente em qualquer delegacia só para ser indiciado". No ano passado, quando o presidente Lula autorizou o plantio de sementes de soja transgênica, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, passou um tempão amuada. Consumiu algumas horas chorando no gabinete. Agora, indignada com a reincidência do chefe, que assinou medida provisória favorecendo a turma do transgênico, Marina abriu o berreiro outra vez. Mas preferiu, de novo, chorar no Planalto. O Cabôco Perguntadô, que vive ouvindo histórias sobre a coragem da ministra acreana, anda intrigado. Quer saber por que Marina não renuncia ao cargo e troca a choradeira pela crítica aberta.

134. AUGUSTO NUNES. Ancorada há quase 30 anos no município de Unaí, Minas Gerais, a família Mânica vem cintilando com brilho crescente no universo que jornais do interior qualificam de "melhor sociedade local". São oito irmãos, todos grandes fazendeiros. Lidera-os o mano Norberto, mais conhecido como "o rei do feijão".De maneiras rudes e linguagem tosca, Norberto comanda o clã com a energia de antigos monarcas. Os Mânica hoje têm muita terra, muito dinheiro, muita força. Não podiam prescindir da influência eleitoral indispensável a famílias decididas a mandar no Brasil. Norberto resolveu que o braço político seria o irmão Antério, agora com 49 anos. E o escalou para assumir o cargo de prefeito. O plano enfrentaria imprevistos, tropeços e sobressaltos. A mais pontiaguda das pedras no caminho irrompeu com a chegada à região, ainda em 2003, de fiscais do Ministério do Trabalho dispostos a revogar a histórica indulgência reservada aos fazendeiros do lugar. Punidos com multas e sanções, como ocorre nas nações civilizadas com criminosos crônicos, os Mânica e seus comparsas decidiram replicar ao desafio. Numa reunião presidida por Norberto, expediu-se a sentença de morte. Em janeiro, quatro fiscais foram assassinados. Investigações da Polícia Federal desvendaram pormenores da trama homicida. Na noite da execução, os assassinos utilizaram um carro pertencente a Antério, que participara da reunião dos mandantes. Àquela altura, o político da família já figurava entre os concorrentes à prefeitura. Fora lançado pelo partido do governador Aécio Neves, o PSDB. Era um candidato em campanha. E candidato continuou, mesmo depois da prisão em setembro, que se seguiu à captura do rei Norberto. Além do apoio do partido do governador, conseguiu a adesão ostensiva do vice-presidente da República, José Alencar. Mineiro fiel aos aliados, Alencar presenteou o suspeito com os votos dos amigos do PFL e, mais grave ainda, uma declaração formal de apreço. Tamanha demonstração de força, protagonizada pelo homem recolhido à cadeia de Contagem, parece ter causado forte impressão entre os eleitores da cidade fundada em 1943, a 165 quilômetros de Brasília e 350 quilômetros de Belo Horizonte. Hoje, com quase 70 mil habitantes, Unaí abriga 46.163 portadores de títulos de eleitor. Se tanto o partido de Aécio quanto José Alencar em pessoa queriam Antério no cargo, por que contrariar os figurões? A bordo da vontade popular - 72% dos votos -, Antério acaba de deixar a cadeia. Com cara de vítima e pose de príncipe, convalesce das festas pela vitória enquanto prepara a cerimônia de posse. Espera que, até lá, em Brasília o irmão Norberto saia da gaiola. Merece comandar uma Secretaria de Segurança. Professor e Profeta. O vencedor da semana é o Professor Luizinho, líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados. Os jurados do Yolhesman Crisbelles decidiram homenageá-lo depois de confirmado o conteúdo profético da frase que produziu: "Lula faz política por música". No dia seguinte, reunido no Planalto com prefeitos petistas vitoriosos no primeiro turno, o presidente da República ensinou aos companheiros de que modo atrair para Marta Suplicy mais nordestinos eleitores em São Paulo: "Em vez de comícios com o Zezé di Camargo e o Luciano, vamos fazer forrós". Fica provado que Luizinho é mais que Professor. É um Profeta. O endurecimento do governo em relação à Vasp, que continua voando baixo e com as contas em atraso na estratosfera, deixou o Cabôco animado: quem deve tem mesmo é de pagar. Ele agora anda perguntando se também a Transbrasil, até agora tratada com suspeita indulgência pelo poder federal, vai enfim entrar na dança. Que tal investigar sem medo a turma que tungou a empresa e desviou milhões de dólares para o exterior? No meio do bando existem figuras que entram sem bater nos melhores gabinetes do Planalto, certo. Mas o Capitão Dirceu tem repetido, caprichando no sotaque, que o atual governo "não róba nem deixa robar". Esse genuíno Genoino. "Eu quero o voto do Maluf!", proclamou o presidente do PT, José Genoino, no tom enfático que exige pontos de exclamação. Não pensava assim em outubro de 2000, quando escreveu o seguinte: "Maluf usa expedientes espúrios em sua guerra abjeta: ataques pessoais, insinuações, calúnias, inverdades e notícias falsas", afirmou Genoino. Que acusou de corrupto o homem cujo voto hoje implora. Uma trinca absolvida. Reprodução Rede Globo. As imagens do arrastão contra turistas no Leblon, ainda percorrendo o planeta pelas rotas da internet, só reafirmam que o Rio se transformou numa cidade sem lei. Por culpa da União, do Estado e da prefeitura. E sobretudo por culpa dos cariocas, que assistem passivamente à implosão do sistema de segurança. Lula segue bem no retrato. Garotinho sonha com a Presidência. E Cesar Maia se reelegeu. Palmas para o trio. O teste da imortalidade. Na montagem, a atriz e modelo Luana Piovani submete a exame de alto risco alguns membros da Academia Brasileira de Letras. Integrantes da Academia Brasileira de Letras continuam a discutir a questão: foi ou não imoral a performance de Luana Piovani sem calcinha na festa de entrega do Prêmio Austregésilo de Athayde? A inquietação é impertinente. No século passado, a Casa de Machado foi palco de ocorrências, estas sim, decididamente obscenas. A mais atrevida talvez tenha sido a concessão de uma vaga, em 1941, ao ditador Getúlio Vargas, que ainda não havia escrito um único livro. Sobram casos parecidos. Em 1970, por exemplo, deu-se a sagração do general Aurélio de Lyra Tavares, ex-ministro do Exército e chefe da junta militar que, com a morte do presidente Costa e Silva, cuidara da escolha do sucessor Emílio Médici. Premiado com a embaixada em Paris, os áulicos acharam pouco. Que tal uma cadeira na Academia para o autor de obras como História da arma de engenharia? Seria um sucesso e tanto se as estrebarias, além de baias, tivessem estantes. O general também produzia versos, assinados com um pseudônimo extraordinariamente inventivo: "Adelita". Não é nome de mulher?, debocharam os sardônicos de sempre, alheios à evidência de que Adelita é o resultado de uma fusão perfeita: A de Aurélio, de de de, li de Lyra, ta de Tavares. Adelita. Só essa maravilha já lhe valeria a imortalidade, que saboreou até ser convocado para a viagem derradeira. Viagem da qual escapou quem se expôs ao teste da noite de Luana. Descompassos cardíacos, excitações perigosamente extemporâneas e outros riscos espreitaram imortais de cabelos nevados. A festa, curiosamente, também homenageava o mesmo Austregésilo que sempre abominou a presença de mulheres naquele templo. A ousadia de Luana superou em tempo e temperatura o cruzar de pernas de Sharon Stone no filme Instinto selvagem. Se toda a platéia tivesse visto o espetáculo, dezenas de vagas hoje estariam disponíveis na velha Academia. COISAS DO BRASIL. • Frei Betto tem circulado pela Áustria, onde a miséria acabou faz tempo, entretido em palestras sobre "o sucesso do Programa Fome Zero". Evita comentar a derrota da candidata do PT à Prefeitura de Guaribas, uma das duas cidades piauienses escolhidas para o lançamento do projeto. • Ex-deputado federal pelo PDT do Rio, agora vereador eleito pelo PP em São Paulo, o cantor-político (ou político-artista) Agnaldo Timóteo revelou o primeiro ponto do seu plano de ação: fazer shows em todos os municípios do Estado. • O publicitário Duda Mendonça gaba-se de ter melhorado a votação de Marta Suplicy ao conseguir colar a imagem da prefeita à de Lula. Vicentinho, que concorreu em São Bernardo pelo PT, ficou colado em Lula até na hora de votar: foram juntos à sessão eleitoral. Mas não chegou a 30% dos votos. Pelo visto, o "efeito Lula" só funciona quando é a agência de Duda Mendonça que cuida da campanha. • Oficialmente embaixador do Brasil na Itália, Itamar Franco informou que continuará em Juiz de Fora neste mês, engajado na campanha do deputado Custódio Mattos, candidato a prefeito pelo PSDB. Longe de Roma desde julho, Itamar é considerado por adversários o operário-padrão de 2004.

135. AUGUSTO NUNES. Compreensivelmente dividida no campo das preferências eleitorais, a nação brasileira esbanjou unidade na sagração de autênticos representantes do povo identificados à margem das urnas. O primeiro alvo dessa aclamação nacional foi o maratonista Vanderlei Cordeiro, ganhador da medalha de bronze na Olimpíada de Atenas. O Brasil vai afinal aprendendo a celebrar também segundos e terceiros lugares. É provável, assim, que o franzino corredor nativo fosse merecidamente ovacionado ao escalar o pódio. Mas circunstâncias especialíssimas iluminaram o episódio: a volta de Vanderlei à prova depois daquele ataque do irlandês aloprado, a alegria contagiante do corredor injustiçado. Nunca houvera nada parecido. A imensa maioria dos brasileiros jamais ouvira falar daquela figura extraordinária. E nada sabia sobre um singularíssimo nadador chamado Clodoaldo Silva, potiguar de 25 anos, que sofreu durante o parto uma paralisia cerebral que virtualmente lhe subtraiu os movimentos das pernas. A natação entrou em sua vida como método terapêutico. Assim começou a gestação de um genuíno herói do esporte. Na Grécia, clímax da trajetória comovente, ele ingressaria no panteão dos fenômenos da história dos Jogos Paraolímpicos. ''Clodoágua'', como o chamam os companheiros de equipe, voltou de Atenas com seis medalhas de ouro e uma de prata. Sonha com recepções festivas no país que ajudou a engrandecer, mas já prepara a retomada da rotina difícil. Para deslocar-se do bairro periférico onde mora até o local de treinamento em Natal, o gênio das piscinas toma oito ônibus todos os dias. Sobrevive com a bolsa de R$ 4 mil concedida pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro. O Comitê alega que a verba recebida do Ministério do Esporte é pouca. O ministro Agnelo Queiroz (que não voltou a Atenas para ver os paraolímpicos) diz que o governo não tem dinheiro para ajudar mais o esporte. Que o país ao menos saiba deixar claro que Clodoaldo, ele sim, é um real representante do povo brasileiro. Um herói. Pastel e roqueiro desafinam. Pastel e roqueiro desafinam Sempre espontâneo, o roqueiro Supla exibe a expressão que muitos políticos são obrigados a disfarçar na hora de engolir certos pastéis de feira. Enquanto o senador Eduardo Suplicy e a prefeita Marta, candidata à reeleição, fingem conversar sobre iguarias, o filho deixa claro que comeu e não gostou. Informado de que a cantora Gloria Trevi foi absolvida por tribunais mexicanos, o Cabôco Perguntadô ficou só vigiando como reagiriam três instituições brasileiras: a Justiça, responsável pela prisão da artista no meio de uma excursão, a Polícia Federal, que a manteve encarcerada durante dois anos, e a imprensa, que deu curso a gravíssimas acusações e divulgou infâmias sem qualquer sustentação. Diante do silêncio coletivo, o Cabôco pergunta: Gloria será indenizada pelo governo? Como punir os carcereiros-estupradores? E a imprensa, vai criar vergonha? Dois em um. Como dirigente sindical bancário, Luiz Gushiken vivia buscando a greve até a vitória, com o pagamento dos dias parados. Acaba de ser arquivado o discurso do jovem à esquerda. Avança a ladroagem. Pesquisa encomendada pelo Banco Mundial informa que o Brasil vai avançando vigorosamente no campeonato da corrupção planetária: dirigentes de mais da metade das empresas do país revelaram já ter pago algum tipo de propina a funcionários federais. (As restantes devem estar recebendo todos os dias visitas ou telefonemas de fiscais decididos a tomarlhes algum.) Mas o Capitão Dirceu avisa: este governo não “róba” nem deixa roubar. Hoje é dia de festa. Velhos pilantras seguirão no palco, em companhia de meliantes emergentes. Entre vitoriosos na disputa de prefeituras e vagas na Câmara, não faltarão rematados finórios. Homens de bem cederão à suspeita de que o povo não sabe votar. Nada disso pode anular o essencial: só se aprende a votar votando, e assim se refina o processo de escolha. Sejam quais forem os resultados, qualquer eleição livre reafirma a consistência da democracia brasileira. O domingo vale muitos brindes. Uma lenda na sala de jantar Ele chegou à noitinha. O comício na praça principal estava começando, mas o astro só entraria em cena no final apoteótico. O governador Jânio Quadros, em campanha para fazer de Carvalho Pinto seu sucessor, foi para a pausa na casa do meu pai, prefeito e pajé municipal da tribo da vassoura. Os carros da comitiva arquejavam havia horas nos caminhos de terra, mas Jânio chegou esbanjando energia. Naquele verão de 1958, ele tinha pouco mais de 40 anos. Tinha, sobretudo, a Presidência pela proa. Invadiu a sala escoltado pela procissão de devotos nativos. Distribuída a platéia em círculos, o mito sentou- se à cabeceira. Para comer e, sobretudo, beber. Enquanto jantava, traçou meia garrafa do velho Palhinha com o prazer sensual de quem derruba o melhor conhaque francês. Instalados nas cadeiras da fila do gargarejo, os parentes mais velhos viram tudo de perto. Não havia vagas para moleques de oito anos. No meio do povo, fiz o possível para seguir a performance do artista que via ao vivo pela primeira vez. Achei-o um tanto maluco, mas optei pelo silêncio. Terminado o jantar, Jânio fez à minha mãe um pedido. Descontados o sotaque e linguagem empolada, era idêntico ao dos pedintes que aportavam o dia inteiro na varanda do prefeito:– A caríssima primeiradama oderia preparar-me m sanduíche de mortadela? reivindicou a dona Biloca. bituada a convivercom políticos, achava que a odos faltavam parafusos. Ouvira falar do truque do sanduíche, invenção do grande populista. Mesmo assim, não conseguiu disfarçar a surpresa: Jânio acabara de jantar (e muito bem). Como podia pedir um sanduíche? E além do mais de mortadela? E logo depois da sobremesa, sem vestígios de constrangimento? Mas tratou de providenciar a encomenda, entregue ao visitante embrulhada num guardanapo de papel. Ele enfiou a prenda no bolso direito do paletó amarfanhado. Despediu-se entre mesuras e mesóclises. Caminhou para o palanque na praça, a meia quadra de distância, e subiu por trás. Um burburinho crescente avisou que o Homem acabara de chegar. Assumiu o lugar de honra, na linha de frente, quando discursava o deputado Emílio Carlos. O excelente orador, que costumava preceder o chefe, interrompeu a fala para que a aclamação explodisse. A torcida foi à loucura, diria um locutor esportivo. Jânio começou a acenar canhestramente, já com os cabelos em desalinho emoldurando o sorriso que lembrava um esgar. Fez sinal para que Emílio Carlos prosseguisse. Capturou o sanduíche de mortadela e, com expressão faminta, devorou-o com poucas dentadas. Estava pronto para encerrar o comício. Falou bonito. Insultou meiomundo, elogiou-se com adjetivos hiperbólicos. E anunciou a Era da Vassoura. Meu pai voltou para casa eufórico.– O homem já é presidente, – comentou.– Mas é doido – ponderou dona Biloca. Os dois estavam certos.

136. AUGUSTO NUNES. Bonito, o amor. É o que certamente escreveria o colunista Zózimo Barrozo do Amaral sob uma foto do casal formado por Marise e Antônio Celso Cipriani. Paixão arrebatadora é isso aí. Em 1978, ele era apenas um dos investigadores do Departamento de Ordem Política e Social, o medonho Dops, quando o diretor Romeu Tuma o designou para uma missão na Transbrasil. Ali conheceu o dono da empresa, Omar Fontana. E conheceu Marise, a filha do dono. Coisa de cinema: perdido de amor, Cipriani abandonou a mulher, casou-se com a herdeira e foi à festa, nas asas da Transbrasil. Logo virou presidente da empresa. Enquanto sobrevoava nuvens de dólares, mantinha sob estreita vigilância espaços no solo muito promissores. Também graças ao emprego de investigador, também levado pelas mãos providenciais de Romeu Tuma, Cipriani conhecera em 1978 o sindicalista Luiz Inácio da Silva. “Comi muita rã com o Lula”, gaba-se o agora milionário amigo do presidente. “Bonito, o afeto fraternal”, poderia registrar a legenda da foto reproduzida acima. Mostra Cipriani no comício que celebrou em São Paulo a ascensão ao poder central do candidato do PT. Sorri o sorriso largo dos justificadamente felizes. O jovem policial que vigiava palanques de sindicalistas suspeitos subira ao palco da festa puxado por outro amigo de valor imensurável: Roberto Teixeira, advogado, hospedeiro e íntimo de Lula. Um discreto figuraço da Nova Era. A força de Teixeira acaba de ser reafirmada, desta vez na CPI do Banestado – o vastíssimo painel de abjeções de um pântano que os caciques do Congresso agora acham conveniente drenar. Na edição de domingo passado, em duas páginas, O Estado de S. Paulo publicou o resumo da ópera. As árias em que ecoa a voz de Cipriani clamam por tímpanos aguçados. Quando seu nome irrompeu na lista dos suspeitos, Teixeira incumbiu o relator José Mentor de evitar a quebra do sigilo bancário do ex-investigador. Intervenção oportuníssima. O jornal comprova que, enquanto implodia a Transbrasil, Cipriani ampliava a fortuna em terra. Marise administra nos EUA, por exemplo, negócios imobiliários espantosamente lucrativos. Talvez tenha havido um caso de amor. Hoje é caso de polícia. Lula precisa reler Luiz Inácio.Antes que o chefe de governo, aborrecido com a onda grevista, produza outro improviso desastrado, convém reler a edição de junho de 1978 do jornal dos metalúrgicos de São Bernardo. Presidente do sindicato e diretor da publicação, Luiz Inácio da Silva (o Lula seria incorporado ao nome só mais tarde) usava, disfarçado de João Ferrador, argumentos muitos parecidos com os invocados pelos bancários hoje em greve. Cabôco Perguntadô.Ao saber que o publicitário Duda Mendonça paga R$ 20 mil por mês ao primeiro-marido Luiz Favre, para trabalhar na campanha pela reeleição da prefeita Marta Suplicy, o Cabôco Perguntadô ficou intrigado e esperançoso. Comovido com a generosidade de Duda, quer saber quanto ganham os profissionais da agência que efetivamente entendem de eleição. E pergunta se há vaga para um sobrinho, no momento desempregado, que toparia começar como servente de salário mínimo. O currículo é ainda curto, mas o tio avisa que o garotão leva jeito: até já namorou a prima de um suplente de vereador em Vassouras. Enigmas da economia. Não custa lembrar de vez em quando: o troféu Yolhesman Crisbelles, inscrição celebrizada na faixa de abertura dos desfiles da Banda de Ipanema, foi criado para homenagear autores de declarações pronunciadas com pompa e circunstância, mas impenetráveis. A taça da semana vai para o ministro Antonio Palocci, que usou, para explicar outra barretada ao FMI, a seguinte sopa de letras: “O país está preparado para ter um sistema anticíclico de superávit primário. Mas ainda não estamos implantando esse sistema.” Celebração da corda na casa do enforcado. Cada vez mais empolgado com o clima de palanque registrado no centro do poder, o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, vem aumentando a freqüência e os decibéis de seus pronunciamentos. Fantasiado de Capitão Dirceu, retoma com veemência o velho discurso do oposicionista sem mácula, exemplo do Homem Novo gerado no útero do PT. Nesses momentos ressurge a figura que enxergava pecados só em partidos inimigos e toda semana reivindicava a instalação de alguma CPI. “Este governo não rouba nem deixa roubar”, recitou na semana passada. (O Capitão diz “róba”, como o ministro.) “E vai acabar com a corrupção”. A cruzada trata com mais brandura amigos de fé e antigos assessores, como Waldomiro Diniz. Comprovadamente metido em bandalheiras, o braço direito do ministro combinou com cabeças federais que pediria exoneração do cargo. Oficialmente, não foi demitido: afastou-se do emprego por vontade própria. Tem tempo de sobra para caminhar pelas vastidões de Brasília, fazer compras sem pressa em supermercados e planejar o que fará com a fortuna furtada. Decerto não é coisa pouca. Na semana passada, emergiram mais evidências de que Waldomiro, já no Planalto, manteve encontros suspeitos com a turma das loterias. Pingos nos is, Capitão. Falta verba e falta pano. Aborrecido com tanta confusão na grande área, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, prometeu reorganizar de vez programas federais como o Bolsa-Família e o Fome Zero, além de outras ficções supostamente subordinadas à pasta. A coluna sugere a Patrus, que tem até um chefe de cerimonial, a começar a reorganização pelo próprio guarda-roupa. Como avisa a foto, o ministro anda usando gravatas que lembram detetives de filme americano dos anos 50. O pano acaba bem antes do umbigo. MILAGRE. Numa entrevista em Campos, Anthony Garotinho prometeu que o governo estadual construirá 20 mil casas caso o prefeito eleito seja Geraldo Pudim. E jurou que cada unidade custará – atenção – R$ 1. Deve ter acertado uma parceria direto com Deus. RESSALVA. Embora tenha sido presidente do Banco Central e ministro da Fazenda, Ernane Galvêas tem emprego regular, vai ao trabalho todos os dias e vive do salário. No Brasil, isso equivale a medalha de ouro.

137.AUTRAN DOURADO. OS MÍNIMOS CARAPINAS DO NADA. No Ponto, na farmácia de seu Belo, no armazém de secos e molhados de seu Bernardino, mesmo no final das tardes de conversação distinta do Banco Duas Pontes, no gabinete do nobre de alma e de gestos Vítor Macedônio (o belo varão, bem-nascido e gentil-homem), que reunia em torno de si (ali se servia do melhor conhaque francês) os potentados do café como o coronel Tote ou ilustres desocupados como seu Bê P. Lima, maledicente e boa-vida, mas de berço, enfim nas várias ágoras da cidade onde se comerciava a novidade, a imaginação, o ócio e o tédio... Nas janelas das casas terreiras de grandes e pesadas janelas de marco rústico, baixo e retangular, junto das calçadas, onde se ficava sabendo de tudo pelos passantes que iam e vinham (como era bom se debruçar e bater dois dedinhos de prosa ou fugir para dentro, se quem apontava na esquina era um maçante), de tudo se sabia sem carecer de estafeta e selo, as notícias e novidades: quem andava pastoreando quem, aquela que tinha caído na vida e agora era carne nova, estava de rapariga na Casa da Ponte, na testa de quem apontara o broto de futura e soberba galhada... Mesmo nas nobres sacadas de ferro, nas janelas de ricos sobrados, podia-se ver a qualquer hora do dia, no enovelar lento do tempo, os carapinas do nada, ocupados na gratuita e absurda, prazerosa ocupação. Eram os carapinas do mínimo e do nada, os devoradores das horas, insaciáveis Saturnos, dizia o sapientíssimo, alambicado, precioso dr. Viriato. Quem não tem o que fazer, faz colher de pau e enfeita o cabo, vinha por sua vez o proverbial, memorioso, eterno, pantemporal noveleiro Donga Novais, uma das poucas pessoas a não se entregar inteiramente ao vício e paixão da cidade. É porque para ele a entidade metafísica do tempo não existe (como para os platônicos que, ao contrário dos hebreus, não tinham o senso da historicidade, lidavam com o puro universal), passado, presente e futuro são uma coisa só, retrucava o dr. Viriato súbito espantosamente aderindo à fiação e tecelagem dos nossos mitos. Ele que era um cientista exaltado, um agnóstico convicto, de dialético linguajar maneirista que demandava precioso raciocínio, imaginação, dicionário. Não que o dr. Viriato tivesse as mãos ocupadas no admirável passa-tempo (santo remédio para a ansiedade e a angústia), que demandava habilidade, precisão e paciência, a que se dedicavam aristocraticamente potentados e pingantes que só tinham de seu serem bem-nascidos. Tão alto-crítico ele era, jamais se permitiria aquela vamos dizer arte, paixão antiga de Duas Pontes. De uma certa maneira ele colaborava era na criação de nossos mitos, mesmo negando-os, racionalista que ele se dizia e era. Quando, quem inventou tão sublime vamos dizer desocupação e alívio do espírito, perguntava o dr. Viriato a seu Donga Novais, sapiência viva do nosso tempo e história, os fabulosos, inconclusos e aéreos anais. Você, Donga, é o Sócrates da nossa pólis. Não sei, dizia desapontando à gente o nosso macróbio cidadão Donga Novais: amor e ócio são maus negócios. Eu acho que deve ser invenção de índio, que enfeitava caprichosamente as suas flechas que, partidas do arco, não voltavam mais. Mas eles não estão enfeitando nada, dizia por sua vez o dr. Viriato. Os puristas, os cultores do absoluto, os escribas da idéia, dos protótipos e arquétipos ideais, os minúsculos carapinas do nada. Seu Donga ficou um tempo parado, assuntando, ideando. Não é que o senhor tem razão, dr. Viriato? Sim, dizia o médico, porque a finalidade mágica dos bisões e demais caças pintadas nas cavernas pelo homem de Cro-Magnon... Seu Donga desatou a rir, não tinha mesmo jeito aquele dr. Viriato, comia brisas com pirão de areia. Porque havia três categorias de livres oficinas que se dedicavam à nobre arte de desbastar e trabalhar a madeira com o simples canivete e um ou outro instrumento auxiliar feito as latinhas que faziam as vezes do compasso. Três, porque não se podia considerar como cultores da Idéia, do sublime e do nada, os carpinteiros e marceneiros, que se utilizavam da madeira e de instrumentos mais eficientes como o formão, o cepilho, as brocas, e tudo sabiam de sua arte, ofício e meio de vida. São os nossos sofistas, dizia o dr. Viriato, que pensavam ser possível ensinar a arete e recebiam pelo seu trabalho e tinham as mãos calosas. A primeira categoria quase se podia, se não fosse o nenhum pagamento, considerar uma corporação de operários, que faziam de sua técnica e imaginação um ofício. Se vendiam o produto, não eram bem vistos pelos autênticos carapinas do nada, os sublimes; podiam começar a receber encomendas como qualquer trabalhador, o que se considerava degradante. Não há dúvida que o elogio é uma forma sublimada de remuneração e só se remunera operário, o que nem de longe se podia dizer deles (se ofendiam) que nunca pegaram no pesado. Eles e seus ancestrais, patriarcas absolutos, sempre estiveram do lado do cabo do chicote. Eram os fabricantes de carrinhos de bois, caminhões, mobilinhas, monjolos de sofisticada feitura e perfeita serventia, usados para compor presépio. Em geral exerciam a sua ocupação ociosa em casa, se serviam de instrumentos caseiros para auxiliar o trabalho do canivete, e chegavam a utilizar outros materiais que não a madeira, como espelhinhos, pregos, folhas-de-flandres. A segunda categoria, os marceneiros da nobre arte. Era exatamente aquela, sem metáfora ou imagem, de que falou o sábio e intemporal rifoneiro Donga Novais - os que literalmente enfeitavam cabo de colher de pau. Às vezes se dava o caso de que a colher ficava tão bem-feitinha e artística, com delicado e sutil rendilhado, labiríntica barafunda, de quase absoluta nenhuma serventia, que a peça passava de mão em mão por toda a parentela, vizinhos e mesmo estranhos. Os elogios que recebiam valiam por uma paga ao artista, que acabava por consentir (queriam) que a mulher ou a filha colocasse a colher na parede, para nunca ser usada. O perigo dessa categoria era o autor, por vaidade ou outro motivo subalterno, gravar o seu nome na concha ou no cabo da colher. Como o primeiro artista da antiguidade que gravou numa obra sua a frase "Felix fecit", inaugurando assim o culto da personalidade, tão contrário aos artistas do gótico, que nunca tinham a certeza de verem concluídas as catedrais que iniciavam, e eram anônimos, senão humílimos oficiais. O coronel Sigismundo era exemplo típico dos oficiais da segunda categoria. Era não só meio destelhado e quarta-feira, mas verdadeira alimária. Dele constavam dos anais fantásticas proezas nos seus carros sempre novos e lustrosos, se dando ao luxo e à extravagância de às vezes vestir a sua brilhosa e engalanada farda da Guarda Nacional, que não mais existia, e passear de carro pela cidade. Tudo se desculpava no coronel Sigismundo, por respeito ou medo. Ele se deu ao máximo, como nos tempos de casa-grande e senzala, de oferecer não uma colher de pau, mas palmatória de manopla por ele rendilhada, verdadeiro instrumento de suplício, ao major Américo, diretor e dono do Colégio Divino Espírito Santo, de terrível e acrescentada memória, capaz de desasnar a própria alimária. O velho major da Guarda Nacional recuou, os tempos agora eram outros. O gesto de ofertar e a utilidade do produto desqualificavam muito o coronel Sigismundo. Podia-se argumentar em seu favor que uma colher de pau finamente trabalhada para remexer panela, o bom dela, após o trabalho do artista, era não servir para coisa nenhuma, puro deleite. E agora se apresenta a pura, a sublime, a extraordinária terceira categoria. Só aos seus membros, peripatética academia, se podia aplicar estes qualificativos: divinos e luminosos, aristocráticos artífices do absurdo. Eram como poetas puros, narradores perfeitos, cepilhando e polindo as vazias estruturas do nada. A terceira categoria era o último estágio para se atingir a sabedoria e a salvação. Às vezes se dava o caso de que o artista (e isso não se ensina, ao contrario do que afirmava os sofistas, dizia o Dr. Viriato, emérito teórico do vazio e do absoluto) vinha diretamente da primeira categoria, e alcançava a plenitude do nada , era um dos amados dos deuses, para os quais o grande, senão único pecado é a ignorância. Não se atingia essa categoria (era raríssimo o caso de um jovem a ela pertencer; falta à juventude ócio e paciência) senão a velhice, quando se alcançava a plenitude da arte. Vovó Tomé era um desses casos raros do artista que passa veloz e diretamente da primeira à terceira categoria. Atribuem a sua proeza e sua mestria no ofício ao sofrimento, que é uma das vias para se atingir o absoluto e a glória. Ele os alcançou, e isso consta dos anais do vento, na última velhice, quando atingiu, de apara em apara, cada vez mas longe e mais longas e mais finas, enroladinhas que nem cabelo de preto, o etéreo e o que lhe restou na mão foi um minúsculo pedacinho de pau. Na mesa, a sue lado, no círculo de luz do cone do abajur, um monte de finíssimas aparas , nenhuma delas partida. Uma obra divina, foi o que disse o famigerado artista Bê P. Lima, quando viu o tiquinho de nada que restou. Falou quem pode, disse seu Donga Novais da sua aérea fantástica e insone janela, almenara da cidade. Um mestre e guru nirvântico, acolitou o Dr. Viriato. Para atingir esse estágio, o noviço carece de muita paciência, aplicação, humildade, modéstia. É preciso enfrentar a maledicência dos ocupados, vence a delicadeza e timidez, correr o risco de se ferir. O mais elevado ideal dos membros dessa categoria era se dedicar a tão sublime ocupação sentado numa roda, prestando atenção no desenrolar da conversa vadia e mesmo dela participando com um ou outro aforismo ou ponderação, sem despregar os olhos da mecânica ocupação. Conta-se a fantástica proeza de um dos sacerdotes do culto, o inefável seu Bê P. Lima, que começou desbastando um grande pedaço de madeira e foi indo, de caracol, sem pressa, preciso, cuidando do seu gratuito ofício, o ouvido porém atento a conversa, que esquentava, e seu Bê não queria perder nada, cujo tema principal era comportamento de certa dama de nossa cidade. E de repente se suspendeu a conversação, todos voltados para ele. Seu Bê se aproximava do fim, faltava-lhe uma última e mínima apara para atingir o nada. O próprio seu Belo veio lá de dentro do laboratório e ficou à espera. Então aconteceu. Não se podia dizer se o que ficou na mão de seu Bê fosse ou não minúsculo caracol que ele soprou. Como num circo ou num concerto, após sustenida atenção, a respiração suspensa, a roda prorrompeu num coro de palmas. Seu Vítor Macedônio, que passava pela farmácia, diante do silêncio da roda, parou. Não se dedicava ao nobre ofício, mas vendo a atenção de todos, também ele aderiu à rodada de palmas. Seu Bê , me faça o favor de comparecer no banco lá pelo fim da tarde, para comemoramos o evento. Mais do que o normal, ele seria generoso com seu conhaque francês. Acredito com os outros que o móvel inicial que levou vovô Tomé à nobre ocupação de pica-pau tenha sido o sofrimento. O suicídio de tio Zózimo, a loucura mansa de tia Margarida, um desastre econômico de papai que o obrigou a vender a Fazenda do Carapina para que não lhe tomassem a casa. Mas muito antes da terrível morte do tio Zózimo ele já se ocupava em fazer a canivete um ou outro objeto de alguma serventia. A gratuidade mesmo de magníficos caracóis ele só viria a atingir depois da morte por enforcamento de tio Zózimo. Mas antes mesmo do primeiro desses tristes acontecimentos vovô Tomé já se dedicava a manter as mãos ocupadas. Acredito em parte que foi a tentativa de manter as mãoos ocupadas para vencer a opressão e a angústia que o levou a se dedicar a pequena tarefas caseiras. Porque não lhe bastava fazer um longo, caprichando e lento cigarro de palha, tarefa em que era perito. Os outros podem estar certos, e eu mesmo recuaria no tempo (não conhecia senão de crônica vovô Zé Mário, pai de vovô Tomé), se pudesse contar a historia que num dia de maior solidão e sufocamento, sob a maior promessa de sigilo, me contou vovó Tomé. Mas é um caso longo não é para agora. Não , não foi só isso. Havia um lado menino muito bom em vovô Tomé. Eu me lembro do entusiasmo em que ele ficava quando da chegada de um circo à nossa cidade, mesmo que fosse circo de tourada. E eu muito criança ia com ele, ficava no seu camarote. Só depois é que o abandonei para estar com meus amigos mais velhos lá no alto das arquibancadas. Me lembro( e isso mamãe e vovó Naninha confirmam) dos primeiros passos de vovô Tomé na arte de picar pau. Eu estava sentado no chão de tábuas lavadas e secas da sala, cortando umas figuras de umas revistas velhas. Eram de uma coleção de tia Margarida. Quando vovô Tomé viu e me chamou. João, deixa isso de banda, guarde as revistas onde você tirou, venha comigo, tive uma idéia. Vamos ao armazém de seu Bernardino buscar material. Ele me deu a mão e eu estava muito feliz. Não era meu aniversário quando, como fazia com os netos e afilhados, ele nos levava ao armazém de seu Bernardino para comprar um sapato de ver Deus. No armazém, depois de uma conversa breve e formal com seu Bernardino, vovô perguntou se ele podia nos arranjar um caixote vazio. Seu Bernardino se espantou com o pedido, vovô ainda não era da confraria. Quer que eu mande levar, perguntou seu Bernardino. Se me fizessem a bondade... Eu tive um ímpeto, disse pode deixar que eu levo. Seu Bernardino olhou pra min, olhou para vovô Tomé, e disse com ficamos, seu Tomé? Mande levar, disse vovô. E o preço da peça e do carreto, por favor. Seu Bernardino disse brincando nem o preço de uma das suas fazendas bastaria. Então lhe mandarei no fim da safra, uma saca do melhor café tipo sete. Ora, seu Tomé, e eu ia acreditar?! Não é pelo caixote, é por nossa velha amizade, disse vovô Tomé. Aprendi então um dos preceitos do seu código de aristocracia rural. Eu e ele não podíamos fazer qualquer trabalho manual, a nossa posição nos vedava. O primeiro foi (como esquecer!) quando soube que o delegado seu Dionísio tinha mandado dar uma surra num preso para ele confessar. Em homem não se bate, é melhor matar, por respeito à sua condição de homem, é mais digno. Outro preceito do seu código de honra aprendi muito menino, quando uma vez, a mando de mamãe, lhe fui tomar bênção. Ele me recusou a mão, disse homem não beija mão de homem. Era um comportamento raro em Duas Pontes, cidade de velhos patriarcas. Nem bem chegamos em casa e veio o empregado com o caixote. Era um caixote de madeira branca que, pelos dizeres e pelo cheiro, se viu que tinha servido para embalar bacalhau, madeira das estranjas. Vovô tirou o paletó, desabotoou o colete, afrouxou o colarinho e começou a fazer um caminhãozinho para mim. Para quem parecia estar usando as mãos pela primeira vez, não estava mal. No final da tarde, a obra estava pronta. Tinha ficado um tanto rústica, mas eu não disse nada a vovô Tomé, para não atrapalhar a sua satisfação. No outro dia dei com vovô Tomé aparando pachorrentamente um pedaço de pau. Quê que o senhor está fazendo, perguntei. Uma colher de pau para Naninha, ela me pediu, disse ele meio envergonhado, talvez pela sua utilidade doméstica. O senhor parece que não está gostando, não é, perguntei. Para lhe ser franco, não, disse vovô. O que gostaria de fazer, um monjolinho, indaguei. Não, gostaria de fazer nada, disse ele. Nada, à toa? Disse eu meio desapontado. Não, fazendo absolutamente nada, quer dizer, ir aparando vagarosamente a madeira até não restar mais nada. Assim feito seu Bê, perguntei. Vovô riu, achava muita graça nas bestagens de seu Bê P. Lima, nas histórias obscenas que ele contava, quando não tinha menino por perto, na presença de menino e de mulher ele fechava a cara, metia a viola no saco, se dava ao respeito. Bê é um artista do nada, por isso é um homem feliz, disse. E vovô Tomé foi ficando um perito na arte dos caracóis. Demorava muito o aprendizado, ele porém não tinha pressa. Pra quê? dizia, não falta matéria-prima neste mundo. E brincando, haja povo na terra para desbastar a floresta amazônica. Às vezes fico imaginando o povo todo do mundo picando pauzinho. Seria a paz e a união dos homens. Eu tinha um certo medo de que vovô enjoasse do gratuito ofício e virasse um teórico do não fazer nada, absolutamente nada. Seu Bê, por exemplo, não tinha dessas cogitações, apenas ia aparando as suas fitas e caracóis. Vovô não tinha a pachorra e a tranqüilidade de seu Bê. Era exigente, ia ao armazém de seu Bernardino escolher as melhores madeiras, havia uma certa qualidade de pinho que era em si uma beleza. A madeira não podia ter olhos nem veios muito acentuados, nem mistura de tons. Quanto mais lisas e uniformes, melhor. Quem tem pressa não faz nada, dizia ela já agora conceituoso. Ele tinha a sua poética, a diferença entre ele e seu Bê é que seu Bê não tinha poética nenhuma, era um puro artista do nada. Com o passar do tempo, vovô Tomé viu que se aprende até certo ponto, depois é desaprender de tal maneira que cada dia se tenha diante de si o puro nada. E os anos passaram e eu me afastei de vovô Tomé. Fui para Belo Horizonte, onde fiz o meu curso superior sustentado por ele. É com remorso que me lembro de que lhe escrevi apenas umas minguadas cartas. Em nenhuma delas perguntei como ele ia na sua velha arte. Fiquei sabendo por uma carta de vovó Naninha que ele tinha morrido. Voltei imediatamente a Duas Pontes. Vovó Naninha disse que ele morrera de pé, feito queria, sem curtir leito de doente, à grande mesa da sala de jantar, tirando um enorme caracol. Tinha encontrado o seu nada. Vovó Naninha me deu o seu canivete preferido. Não sei o que fazer com ele, é de outra maneira que procuro o meu nada.

138. BARÃO DE ITARARÉ. Logo que Santo Ivo morreu, encaminhou-se ao Céu e bateu à porta, que São Pedro não se atreveu a abrir, subestimando as razões do bom santo.— Faço o que quiseres — repetia o porteiro do Céu —, mas não acho que deva permitir a entrada a um advogado, não só porque nem um tem assento entre os santos, mas também porque; muito ao contrário, juraria que se encontram no inferno todos os de tua profissão. Santo Ivo não se desconcertou; antes, como bom advogado, teve tão convincentes razões para rebater as de São Pedro que este lhe permitiu finalmente entrar no Céu, mas com a condição de permanecer junto à porta. O hóspede entrou calmamente, sentou-se no lugar indicado por São Pedro, que foi participar a Nosso Senhor o sucedido...— Fizeste mal! Muito mal, Pedro! — respondeu Deus, quando acabou de escutá-lo. — Havia resolvido que nenhum advogado entraria no Céu, e tinha cá minhas razões para isso. Mas já que está, deixa ficar; sem embargo, não deixes que ele se misture com os outros santos, pois do contrário acabarão no Céu a paz e a boa harmonia. Não o deixes passar além da porta. Aborrecido e cabisbaixo, voltou São Pedro aonde estava Santo Ivo e comunicou-lhe as ordens dadas pelo Senhor. O Santo advogado encolheu os ombros e, à guisa de passatempo, começou a entabular conversa com São Pedro.— Que posto ocupas aqui no Céu?— Não sabes? Sou o porteiro.— Por quanto tempo?...— Para todo o sempre.— Deixa disso. Só se tiveres algum contrato firmado...— Não há contrato nem coisa que o valha, e para dizer a verdade não há necessidade disso.— Como assim? Então não estás vendo, grande ingênuo, que qualquer dia Deus pode ter a idéia de te destituir, sem mais nem menos, do cargo que com zelo vens desempenhando há tanto tempo, sem que possas fazer valer teus direitos? São Pedro coçou a orelha, e, mais amofinado que antes, foi novamente falar com Deus.— Vamos lá, que é que pensas?— Preciso de um contrato em que se declare que sou o porteiro do Céu para todo o sempre. Até hoje temos deixado as coisas andar à vontade; mas se vos der na idéia, qualquer dia me destituís do cargo que com tanto zelo...— Não te dizia eu? Tudo isso são trapaças daquele advogadozinho que tens na porta e que soube encher-te a cabeça. E ajuntou depois, tomando uma resolução:— Anda, Pedro, corre e manda-o entrar imediatamente, pois prefiro tê-lo perto de mim a vê-lo junto à porta. Eis como entrou no Céu o primeiro advogado.

139. BARÃO DE ITARARÉ.  Joaquim Rebolão estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situação ainda mais se agravava pelo fato de ter que dar assistência a um filho, rapaz inexperiente que também estava no desvio. Joaquim Rebolão, porém, defendia-se como um autêntico leão da Núbia, neste deserto de homens e idéias. O seu cérebro, torturado pela miséria, era fértil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graça; aos quais sempre se saía galhardamente das aperturas diárias com que o destino cruel o torturava. Naquele dia, o seu grude já estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimônia, em homenagem a um alto figurão que estava necessitando de claque. Mas o nosso herói não estava satisfeito, porque não conseguira um convite para o filho. À hora marcada, porém, Rebolão, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salão, onde se celebraria a cerimônia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto:— Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu também tomes parte no festim. Já estavam todos os convidados sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao começar o bródio, Rebolão se levanta .e exclama:— Senhores, em vista da ausência do Sr. Vigário nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Espírito Santo!— E o filho? — perguntou-lhe um dos convivas.— Está na porta — responde prontamente. E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritário e enérgico:— Entra de uma vez, menino! Não vês que estes senhores te estão chamando?

140. BERNARD SHAW. PEQUENO BREVIÁRIO SHAWIANO. Não há amor mais sincero que o da comida. Cabe à mulher casar-se o mais cedo possível e ao homem ficar solteiro o  mais tempo que pode. A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm. Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever. Quem nunca esperou não pode desesperar nunca. Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra. O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade. Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo. Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o Governo e a opinião pública lhes permitem fazer. (Jogo de xadrez). É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo. O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher. O martírio... é a única maneira de ganhar fama sem ter competência. Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele. Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus. Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem. Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões. Nunca espero nada de um soldado que pensa. Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha. Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro. De uma pequena tolice e uma enorme curiosidade resultam muitos casamentos. Um homem sem endereço é vagabundo; com dois endereços é libertino. Quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que está cumprindo um dever. O dever de qualquer mulher é casar o mais cedo possível; o de todo homem, continuar solteiro pelo tempo que puder. Os melhores reformistas do mundo são os que começaram por reformar-se. Quem sabe faz; quem não sabe, ensina. De quanto mais coisas um homem se envergonha, mais respeitável se torna. A juventude é tão maravilhosa que chega a ser criminoso desperdiçá-la em crianças. Há duas tragédias na vida. Uma é não fazer o que o coração deseja. A outra é fazer. "Frases de cabeceira": Dirigir uma empresa não é vê-la como ela é... mas como ela será (John Teets). Algo só é impossível até que alguém duvida disso e acaba provando o contrário (Einstein). O cérebro é como um pára-quedas. Só funciona quando está aberto (Sir James Dewar). Ter idéias fechadas e só aprender com o tempo, a pauladas, é o preço corriqueiro que se paga em toda a parte pela tranqüilidade de não pensar (Roberto Mangabeira Unger). Deus é contra quem faz a guerra, mas fica do lado de quem atira bem (Voltaire). O poder é como violino. Toma-se com a esquerda e toca-se com a direita (Esperidião Amim). Quem vai na frente bebe água limpa (Ulysses Guimarães). Se grito resolvesse, porco não morria (pára-choque de caminhão). Quando você aponta uma estrela para um imbecil, ele olha para a ponta de seu dedo (Mao Tsé-Tung). Posso resistir a tudo, menos à tentação (Oscar Wild). Deus está nos detalhes (Mies Van Der Rohe). Notei que estava ficando velho quando o locutor da FM disse "flash back" e tocou uma música que eu não conhecia. (Cao Hering). Nunca me preocupo com o futuro. Muito em breve ele virá. (Albert Einstein). As mulheres gostam de bunda de homem porque fica perto da carteira. (Eugênio Mohallen). Ter medo não ajuda a viver. (Ivo Pitanguy). Nada é impossível para quem não tem que resolver o problema ele mesmo. (L. A. Dias da Silva). O mundo é perigoso não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que vêem e deixam o mal ser feito. (Albert Einstein). Não conheço seu ex-marido, mas já começo a me solidarizar com ele. (L. A. Dias da Silva). Na vida, quem não sabe escrever sessenta é sempre obrigado a preencher dois cheques de trinta. (Paulo M. Cerqueira). Se você é inteligente, cede. Até se tornar num idiota. (Frida Berg). Quem tem muito dinheiro pode ser burro o quanto quiser. (Ovídio). O hálito faz o longe. (Cao Hering). Um homem com mais de 55 anos acha que não faz mais besteiras. Isso é o que ele pensa. (Maurice Chevalier). Um quadro é como um homem. Se você consegue viver sem ele, não há sentido em mantê-lo. (Lila Wallace). É uma coisa solitária estar certa. (Mary Tylor Moore). A receita de um médico é como um bilhete de loteria - de repente dá certo. (Schopenhauer). Todas as grandes idéias são perigosas. (Oscar Wilde). Sempre que uma mulher faz o melhor que pode, deve fazer duas vezes melhor que o homem para ser considerada apenas 50% à sua altura. Ainda bem que não é difícil. (Charlotte Whitton). Os homens são ensinados a se desculpar por suas fraquezas. As mulheres, por sua força. (Lois Wyse). O processo de morte começa no momento em que você nasce, mas se acelera consideravelmente durante os grandes jantares. (Carol Matthau). O homem é melhor que sua experiência. (Adorno). O melhor marido que uma mulher pode ter é um arqueólogo. Quanto mais velha ela fica, maior o interesse dele. (Agatha Cristie). Eu não sou tão pacifista a ponto de não entrar numa guerra pela paz. (Madeleine Stark). Sou incapaz de fazer mal a uma formiga. Bem que tentei, mas não entrava. (Eugênio Mohallen). Ao homem tudo, porque nada peca; à mulher, nada, porque tudo peca. (Ditado cigano). Minha filha de 23 anos é mais velha do que eu. (Betty Lago). É bom lembrar que todos os psicanalistas são ex-malucos. (Serge André, psicanalista francês). Já vi maiores. Mas também já vi menores. O dele era apenas bonitinho. (Divine Brown). Nem todos os peitos olham para cima a vida toda. (Carla Camurati). Eu li todos os volumes de O Capital, de Marx. Mas não entendi quem é que casa com quem no final. (Marcelo Aragão). Calcinha e sutiã me dão falta de ar. (Sônia Braga). Cansei dessa história de ficar feia para provar o meu talento. (Cláudia Ohana). Deus criou o mundo em seis dias e, no domingo, descansou; quando criou a mulher, na segunda, ninguém mais descansou. (José Simão, o Macaco Simão). Não fazer barulho já é fazer muito. (Juvenal de Souza Neto). Metade da humanidade passa fome e metade faz regime. Resumindo, a humanidade inteira passa fome. (Paulo M. Cerqueira). Só dois tipos de pessoas querem se casar atualmente: bichas e padres. (Plínio Marcos). O Rio foi assolado, nos últimos tempos, por uma sucessão de infortúnios: Chagas, Brizola, Moreira, Brizola... Nem a Suíça ficaria de pé. (Paulo Cesar Amorim). Eu seria um louco se dissesse que me sinto seguro no Rio de Janeiro. (General Euclimar da Silva, ex-secretário da Segurança). Alguns divórcios são amigáveis, mas todo casamento é litigioso. (Eugênio Mohallen). Palavras cruzadas são o chicle do cérebro. (Pitigrilli). Quando o homem casa, ou trai sua natureza ou trai sua mulher. (Guime Davidson). A era das belas frases acabou. (Theodor Fontane). O sol nasceu para toldos. (Sylvio Abreu). Na meia idade, as emoções se tornam sintomas. (Irvin S. Cobb). Em traseira de burro, dianteira de padre e cabeça de juiz não se pode confiar. (Ney Maranhão). A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção faz mais sentido. (Mark Twain). O preço da justiça está no canhoto do meu talão de cheque. (Sérgio Naya). Livros de frases são ótimos para pessoas sem instrução. (Winston Churchill). O melhor do susto é esperar por ele. (Mário Quintana). É melhor morrer de vodca do que de tédio. (Vladimir Maiakovski). Narcisista é uma pessoa mais bonita que você. (Gore Vidal). A história mostra que a gente agrada a Deus fazendo o que o diabo gosta. (Raul Seixas). Pitanguy, um pioneiro na reciclagem do lixo. (Anacleto Neves). A língua é a última coisa que morre numa mulher. (Hipócrates). Não chame de honesto um homem que nunca teve a oportunidade de roubar. (Ditado iídiche). Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria. (Jorge Luis Borges). Roses are red, violets are blue, I'm schizophrenic, and so am I. (Frank Crow). O avião ainda é o meio mais seguro, rápido, sofisticado e caro para se chegar atrasado em qualquer lugar (Ozires Silva). Ironia é a higiene da mente. (Elizabeth Bibesco). Um homem apaixonado confunde espinha com covinha. (Provérbio japonês). Eu fumo porque, na minha idade, se não tenho algo em que segurar, eu caio. (George Burns). Para evitar o estresse, evite excitação; passe mais tempo com sua esposa. (Robert Orben). Mostre-me um bom perdedor que eu te mostro um idiota. (Leo Durocher). Não saio com mulheres famosas porque nunca pago acima da tabela. (Tim Maia). O mundo está tão confuso que o Papa faz discurso e o Fidel dá sermão. (Claudio Lembo). Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira. (Manoel de Barros). No Brasil, a dívida externa é que governa. Quer dizer, é o rabo que abana o cachorro. (Pedro Malan). Nem que seja para ganhar a eleição, não como buchada. (Ciro Gomes). A má informação é mais desesperadora que a falta de informação. (Charles C. Colton). O Tiradentes devia ser o padroeiro do Brasil; tá todo mundo com a corda no pescoço! (José Simão). Para mim, mulheres são como elefantes — ótimas de olhar, não de ter. (W. C. Fields). Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não. (José Saramago). Deus é a resposta. Mas qual era a pergunta? (Grafite nova-iorquino). O psiquiatra é a primeira pessoa com quem você deve falar depois que começa a falar sozinho. (Fred Allen). Nada é bastante para quem considera pouco o suficiente. (Confúcio). As fontes de todos os problemas são três: barra de ouro, barra de terra e barra de saia. (Tancredo Neves). Jesus não agradou a todos. Não é eu que vou agradar. (Carla Perez). O que os presidentes não fazem com suas esposas acabam fazendo com o seu país. (Mel Brooks). Pra gaúcho esse tal de Viagra é overdose. (Leonel Brizola). Estou apaixonado pela mesma mulher há quarenta e um anos. Se minha esposa descobrir, vai me matar. (Henry Youngman). Com alguns deputados, só conversando na sauna, e pelado. (Sérgio Motta). Se você se parece com a sua fotografia de passaporte, sem dúvida precisa viajar. (Sir Angus Wilson). Uma ex-mulher é para sempre. (João Fernando Camargo). A única coisa necessária é o supérfluo. (Oscar Wilde). Amor e tosse não dá para esconder. (Provérbio romano). Quem decide pode errar. Quem não decide já errou. (Herbert Von Karajan). Não compro bilhetes. Já ganhei na loteria quando nasci. (Roberto Irineu Marinho). Eu sei que quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade. (Guimarães  Rosa). O sexo é a fonte da vida, mas que deixa a gente morto, deixa. (Sérgio Maldonado). A lesma é lenta. Ainda bem. Já pensou se esse bicho nojento corresse? (Sérgio Maldonado). A meleca é a melhor amiga do motorista solitário. (João Empolgação). O único homem que não pode viver sem mulheres é o ginecologista. (Arthur Schopenhauer). Eu vejo catástrofes. Pior: eu vejo advogados. (Woody Allen). Conheci várias mulheres melhores que um PC, mas nenhuma melhor que um Mac. (Guime Davidson). Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Ele pode responder. (Justine Espírito Santo). Não dá para acreditar num país que comprou o Acre. (Eugênio Mohallen). Só porque você vai para jantar com alguém, não quer dizer que tem que ser a sobremesa. (Dora Bria). Diplomata é um indivíduo cuja cor predileta é o arco-íris. (Millôr Fernandes). Não me lembro do que ele morreu. Só me lembro que não era nada sério. (Carlos Leonam). Quem gosta de pau duro é viado; mulher gosta é de cheque. (Neil Ferreira). Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. (Guimarães Rosa). A única coisa do planejamento é que as coisas nunca ocorrem como foram planejadas. (Lúcio Costa). A mentira é uma verdade que se esquece de acontecer. (Mário Quintana). Maior que o impulso sexual é o impulso de mexer no texto alheio. (Claudius Ceccon). A bicicleta ergométrica é uma viagem sem ida. (Casseta & Planeta). É impossível ser ridículo dentro de um Mercedes. (Nelson Rodrigues). A lei é como uma cerca — quando é forte a gente passa por baixo; quando é fraca a gente passa por cima. (Coronel Chico Heráclito). Brincar é condição fundamental para ser sério. (Arquimedes). A gente só diz sim ou não no casamento e, ainda assim, às vezes erra. (Itamar Franco). A bomba atômica é o Viagra dos energúmenos. (Alfredo Sirkis). Hippie é alguém que parece o Tarzan, caminha como a Jane e cheira como a Chita. (Ronald Reagan). Não interessa se o remédio é ou não farinha, o que cura é a bula. (Luis Fernando Veríssimo). Gostaria de criar home pages, mas não sei o que elas comem. (Anônimo da Internet). Se não fosse o Van Gogh, o que seria do amarelo? (Mário Quintana). Criar filho é como jogar videogame: a fase seguinte é sempre mais difícil. (Silvio A. D. da Silva). Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. (José Saramago). Pessoalmente nada sei sobre sexo. Sempre fui uma mulher casada. (Zsa Zsa Gabor). Há pessoas tão chatas que nos fazem perder um dia em cinco minutos. (Jules Renard). Quem não se ocupa, se preocupa. (Otto Lara Resende). Salve as baleias, destrua um spa. (Gisela Rao).

141.BERNARDO ÉLIS. NHOLA DOS ANJOS E A CHEIA DO CORUMBÁ. — Fio, fais um zóio de boi lá fora pra nóis. — O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o pé, riscando com o dedão uma circunferência no chão mole — outra e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo eqüilátero. Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou: — Pronto, vó. — O rio já encheu mais? — perguntou ela. — Chi, tá um mar d'água! Qué vê, espia, — e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi até a porta e lançou a vista. Para todo lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, é que estava mais enxuto, pois o braço do rio aí era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara um "ar de estupor" e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram. Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal. O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, — que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, — tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha. — Mãe, o vau tá que tá sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajudá, nóis se muda. Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água escorrida da calça de algodão grosso. A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar, com a colher de pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra. Agora a gente só ouvia o ronco do rio lá embaixo — ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrâneo. A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha, como se pegasse fogo. Já tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do Capivari no Corumbá. O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo. de que dois lados eram formados por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era rasa e podia-se vadear perfeitamente. No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o avô de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho morreu, já estava quase extinto pelas ervas daninhas. Daí para cá foi a decadência. No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas. "— Este ano, se Deus ajudá, nóis se muda." Há quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido: "— Nóis precisa de mudá, pruquê senão a água leva nóis". Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado. A chuva caía meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas, o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo à inundação, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote. Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia céu, não havia horizonte — era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem é que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia. No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado. — Ocê bota a gente hoje em riba do jirau, viu? — pediu ela ao filho. — Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto é mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não. Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta. Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar. Lá fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro. — Adonde será que tá o chulinho? Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os torrões de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caíam nágua com um barulhinho brincalhão — tchibungue — tibungue. De repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas vieram banhar as pernas inúteis de mãe Nhola: — Nossa Senhora d'Abadia do Muquém! — Meu Divino Padre Eterno! O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de madeira, cuias, coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas contorções diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas. — Cá, nego, cá, nego — Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pelo molhado, trêmulo, e começou a lamber a cara do menino. O teto agora começava a desabar, estralando, arriando as palhas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco — que se diluía na cortina diáfana, leitosa do espaço repleto de chuva — e que arrastava as palhas, as taquaras da parede. os detritos da habitação. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por embiras. Quelemente nadou, apanhou-a, colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejão, e lá se foram derivando, nessa jangada improvisada. — E o chulinho? — perguntou o menino, mas a única resposta foi mesmo o uivo do cachorro. Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim de alcançar as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos acima da superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores. sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Daí em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, até cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira. — É o mato? — perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite. Sim. O mato se aproximava. discerniam-se sobre o líquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável— deviam ser as copas das árvores. De súbito, porém, a sirga não alcançou mais o fundo. A correnteza pegou a jangada de chofre, fê-la tornear rapidamente e arrebatou-a no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis. mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação, que agora corria na garupa da correnteza. Quelemente viu a velha cair nágua, com o choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar à cachoeira. cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentado enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira. A velha debatia-se, presa ainda à jangada por uma mão, despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada já não suportava três pessoas. O choque com o tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha não podia subir. sob pena de irem todos para o fundo. Ali já não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima. As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, não havia força capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente trepar novamente para os buritis. arrastando as pernas mortas que as águas metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforço da velha estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela já estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte que chegava. abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem fim. Tapando a sua respiração, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho que era perrengue e estava grudado nele. Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa ainda à borda da jangada, os olhos fuzilando numa expressão de incompreensão e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d' água espirrou no escuro. Aquele último coice, entretanto, desequilibrou a jangada, que fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio. Ao cair, porém, sem querer, ele sentiu sob seus pés o chão seguro. Ali era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O diabo da correnteza, porém, o arrastava, de tão forte. A mãe, se tivesse pernas vivas, certamente teria tomado pé, estaria salva. Suas pernas, entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo. Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois coices na cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse... Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as pernas escorrendo ao longo do rio? Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira. Cujo ronco escurecia mais ainda atreva? — Mãe. Ô. mãe! — Mãe, a senhora tá aí? E as águas escachoantes, rugindo, espumejando. refletindo cinicamente a treva do céu parado, do céu defunto, do céu entrevado, estuporado. — Mãe, ô, mãe! Eu num sabia que era raso. — Espera aí, mãe! O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo por ele a dentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos ásperos de cães danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre túmulos. — Mãe! — lá se foi Quelemente, gritando dentro da noite, até que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos à voz da mãe que não respondia, e foi deixá-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.

142. CAIO FERNANDO ABREU. LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL. PARA SÉRGIO KEUCHGUERIAN. "Você nunca ouviu falar em maldição nunca viu um milagre nunca chorou sozinha num banheiro sujo nem nunca quis ver a face de Deus." (Cazuza: "Só as mães são felizes"). Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro — agora, que cor? — e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta. Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim — de fora, de dentro da casa —, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois. — Tu não avisou que vinha — ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil. Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro. — A senhora não tem telefone — explicou. — Resolvi fazer uma surpresa. Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho. — Sai, Linda — ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. — Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte. — Que idade ela tem? — ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe. — Sei lá, uns quinze. — A voz tão rouca. — Diz—que idade de cachorro a gente multiplica por sete. Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito: — Uns noventa e cinco, então. Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar: — O quê? — A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos. Ela riu: — Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. — Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. — Quer um café? — Se não der trabalho — ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta. As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar — enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria — ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado. — Tá fresquinho — ela serviu o café. — Agora só consigo dormir depois de tomar café. —A senhora não devia. Café tira o sono. Ela sacudiu os ombros: — Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário. A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha. — Vá dormir — pediu. — É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone. Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café. — Que que foi? — perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos. — Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo. Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe: — Me dá o fogo. Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta: — Bonito, o isqueiro. — É francês. — Que é isso que tem dentro? — Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê. Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado. — Parece o mar — sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. — Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.  Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela. — Vim, mãe. Deu saudade. Riso rouco: — Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho? Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada: — Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal. Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara. — É sina — disse. — Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. — E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria. — Já faz tempo, mãe. Esquece — ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. — Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha? Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim. — E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. — Bateu o cigarro. — E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto? Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte. — Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que. Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada. — Deixa eu te ver melhor — pediu. Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela. — Tu estás mais magro — ela observou. Parecia preocupada. — Muito mais magro. — É o cabelo — ele disse. Passou a mão pela cabeça quase raspada. E a barba, três dias. — Perdeu cabelo, meu filho. — É a idade. Quase quarenta anos. — Apagou o cigarro. Tossiu. — E essa tosse de cachorro? — Cigarro, mãe. Poluição. Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão(*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo. — Mas vai tudo bem? — Tudo, mãe. — Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele: — Saúde? Dizque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros: — Coitada. Mais esclerosada do que eu. — A senhora não está esclerosada. — Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? — Esperou um pouco, ele não disse nada. — A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.— A Cândida morreu, mãe. Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.— Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? — Abriu os olhos. — Quer comer alguma coisa, meu filho? — Comi no avião. Ela fingiu cuspir de lado, outra vez. — Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? — Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. — Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. — Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. — Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta? — A gente acostuma, mãe. Acaba gostando. — E o Beto? — ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele. Se eu me debruçasse? — ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido. — Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele. Ela voltou a olhar o teto: — Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. — Apertou os olhos. — Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo. — Casserole, mãe. La Casserole. — Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. — Foi boa aquela noite, não foi? — Foi — ela concordou. — Tão boa, parecia filme. — Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela. — O Beto gostou da senhora. Gostou tanto — ele fechou os dedos. Assim fechados, passou—os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. — Ele disse que a senhora era muito chique. — Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. — Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. — Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? — Voltou a olhar dentro dos olhos dele. — Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo. — A gente não se vê faz algum tempo, mãe. Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias — os três, ele, a mãe e Linda. — E por quê? — Mãe — ele começou. A voz tremia. — Mãe, é tão difícil — repetiu. E não disse mais nada. Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e — como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo — disse: — Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro. Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor. — Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem. Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha. Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô — rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido. Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque. Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada — agora, que cor? —, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

143. CAIO FERNANDO ABREU. AQUELES DOIS. HISTÓRIA DE APARENTE MEDIOCRIDADE E REPRESSÃO. PARA ROFRAN FERNANDES. A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou. Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam. Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois. Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam. Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro. Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava. Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia. Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia. Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul. Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme. Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido. Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas. Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual. Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi. Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma. Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda. Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa. No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto. Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender. Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde. Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou. Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras. Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos. Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio. Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina. Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

144. CARLITO MAIA. A VOLTA POR BAIXO. De dom José Cavaca, humorista inesquecível: "Criminosos brasileiros brilham na Inglaterra, cuja polícia só está preparada para crimes inteligentes". Verdade: somos especialistas em crimes burros, irreparáveis; tal a grandeza das perdas que acarretam. Sem falar da impunidade. Crimes contra a Pátria, contra o povo, contra a Humanidade. Como no tempo da Inventona de 1° de abril de 64, quando a ditadura militar deitou e rolou, sem que os criminosos fossem punidos e, em muitos casos, sequer identificados. Caso de Sete Quedas, hoje só uma saudade para os que conheceram aquela maravilha da Natureza, que foi por água abaixo, literalmente, porque os milicos no poder (e bota poder nisso) assim o quiseram. Resolveram (resolviam tudo) fazer a hidrelétrica de Itaipu, de parceria com os donos do Paraguai, e mandaram alagar tudo. O fim da picada. Em nome do sinistro binômio "segurança & desenvolvimento", que os levou também à loucura das usinas atômicas, feitas só para salvar da falência a indústria nuclear alemã, jogando fora (boa parte na Suíça) bilhões de dólares. Os jovens que me honram com a sua leitura não fazem idéia do que foi aquele tempo, embora estejam sofrendo como todo mundo — as conseqüências do desvario do "Brasil potência". Ou onde vocês acham que teve início a rebordosa em que estamos, heim? E o pior é que a pusilanimidade aqui reinante botou uma pedra em cima da imundície e nunca mais se tocou no assunto. Outro crime monstruoso, e igualmente irreparável: a morte de Henfil. Paradigma da dignidade, da coragem, do patriotismo, Henfil foi assassinado. Hemofílico, como seus irmãos homens, submetia-se a freqüentes (e caríssimas) transfusões de sangue para sobreviver. Numa dessas — em busca da salvação — encontrou foi a morte. Injetaram nele sangue contaminado pela Aids. Também em Chico Mário e Betinho, seus manos. Mas a viúva de Chico Mário acaba de ser reconhecida pela Justiça, que condenou a União e o Estado do Rio pelo seu desaparecimento. E, claro, também pelo de Henfil. Mas o juiz teve uma recaída e não reconheceu o direito de Lúcia Lara, brava e digna companheira de Henrique por mais de dez anos, impedindo-a de fazer jus a indenização pela brutal perda sofrida. A verdade é que Lucinha não cogitou jamais de receber dinheiro em troca da vida de Henfil, o que não o traria de volta. Mesmo que — num acesso de loucura, dando uma de amoral nato — exigisse a execução dos responsáveis pelo crime nefando, não teríamos de novo o exemplar cidadão. Crime irreparável e, portanto, impunível. Mas Henfil acaba de dar a volta por baixo, se deu! Henfil vive! "Se não houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se não houver flores/ valeu a sombra das folhas/ E, se não houver folhas, valeu a intenção da semente". Suas lições não serão esquecidas jamais. Valeu, Henfil!

145. CARLOS COQUEIJO. JORGE OXOSSI AMADO. No alto mastro da República Independente do Rio Vermelho tremula, invicta, a bandeira de Iemanjá, a dos cinco nomes. No peji, os deuses que vieram da África começam a se inquietar. Exigem o tam tam dos grandes atabaques, porque o dia é hoje. O Pai Branco de não sei quantos capitães de areia, saveiristas, gente da beira do cais, capoeiristas, amigos de Rosa Palmeirão, de Besouro irmão, vai sair do seu terreiro para batizar novos filhos que ele deu à Grande Cidade, onde vão morar, correr, gargalhar, roubar, sofrer, amar no areal do cais, onde as negrinhas são derrubadas nas noites estreladas e perdem a sua virgindade sem muitos ais de amor. Lá vai ele, o Pai, que é filho de Inaê e habita as terras de Aioká, onde acena a bandeira de Janaína, a que é Maria. Vai carregado de alegria e com ele vão todos os que saíram dos seus livros, como os Orixás que nasceram do ventre de Iemanjá, numa noite de temporal terrível. E desde então Inaê nunca mais teve sossego, seu filho Orungan perseguindo-a sem piedade. Vão para a Cidade Alta, onde vivem os que sorriem a boa vida e se divertem às custas de Pedro Bala, do Sem Pernas, de João Grande, do Gato, e nem se lembram que a bexiga roeu Almiro, mesmo com as rezas do Querido de Deus e com a bondade do Padre José Pedro. Eles não sabem porque Volta Seca quer retomar ao cangaço para o seu "padrim", seu herói que vinga os meninos das malvadezas da Polícia tirando a vida e o couro dos macacos do sertão, nem conhecem as estórias que contam a valentia de João de Adão e enchem as noites de lua dos capitães de Areia, que são os donos da Cidade. O cortejo já engrossa, o chefe branco vai na frente, batendo pernas com eles por essa Cidade que é só deles. Mas ainda há muita gente para aumentar as fileiras desse povo sofredor, que ama nas noites da Bahia como Iemanjá ama os seus filhos do mar. É preciso não esquecer Jubiabá, o pai preto, que tem o poder nas mãos, todo o mistério das rezas, dos filtros de amor, das benzeduras que curam tudo. Com ele irão Antônio Balduino, sem as suas luvas de box, que nessa hora ele não é mais escravo do empresário Luigi, e Zé Camarão, que lhe ensinou os segredos dos rabos de arraia e do violão. Augusta das Rendas diz que está vendo lobisomem mas vai sem medo. E Felipe o Belo, o Gordo sempre rezando, o Sem Dentes, o Anão Viriato, saem todos da "Lanterna dos Afogados", sob o comando do Capitão de Longo Curso Vasco Moscoso de Aragão, e se unem ao grupo. Do cais partem os que não podem faltar à festa do Grande Pai que os gerou na Cidade da Bahia. Guma e Lívia estão de mãos dadas, tanto amor enche seus corações, mas ele vai escrabriado, porque seu peito dói quando vê Rufino, e sente na carne o pecado daquela noite em que Lívia à morte no quarto, ele no chão da sala se perdia na carne de Esmeralda. Rosa Palmeirão deixou suas armas no cais, não leva a navalha no cós da saia nem o punhal no seio, porque hoje é dia de festa, não de lutar pelos seus direitos e de seus irmãos perseguidos. Vêm também o invencível Besouro, o velho Francisco, o misterioso Leôncio, que chegou só para a grande data, o Dr. Rodrigo, com sua maleta de médico, seu Manoel e Maria Clara cantando aquelas cantigas que embalam o saveiro nas viagens disparadas. Todos vieram do "Farol das Estrelas" onde combinaram encontro, tomaram um trago e quem pagou foi Quincas Berro d'Água, para quem "o impossível não há". Estão todos com o olho da piedade bem aberto, que hoje é dia de festa no peji de Dmeval, na rua da Ajuda, novos irmãos vão nascer nas estórias de d. Flor e suas complicações com os dois maridos. Vão todos se misturar no mundo mágico que Oxossi do Rio Vermelho, o de corpo fechado pelas mandingas de Jubiabá, criou para eles.

146. CARLOS HEITOR CONY. A sede e a água. O ditado é antigo. Recebeu a confirmação, o veredicto dos séculos. Nunca se deve dizer: "Desta água não beberei", na vida de cada um de nós, no dia a dia de nossos desafios e deslumbramentos, o bom senso e a experiência, a nossa e a alheia, recomendam cuidado a respeito da água que em dado momento desdenhamos, achando que nunca beberemos dela. Nunca se sabe o dia de amanhã. O deputado José Genoíno, presidente do PT, no passado e até recentemente, preferiria morrer de sede, no mais escaldante dos desertos, a aceitar a água de Paulo Maluf, no suculento oásis criado pelo segundo turno das eleições na capital paulista. Em princípio, não se devia estranhar a opção que o partido dos trabalhadores será obrigado a engolir. Faz parte do jogo político formar e aceitar alianças pontuais. Acontece que entre o PT e Maluf o fosso não é apenas político nem ideológico. É pessoal, visceral, integral. Evidente que Genoíno, Marta Suplicy, todo e qualquer petista de São Paulo e do resto do Brasil, garantirão que o partido não firmará nenhum acordo com Maluf, não lhe dará qualquer compensação em caso de vitória. Afinal, quem ficou sem opção foi o próprio Maluf, que terá de apoiar um ou outro de seus adversários. Se Marta vencer a parada, Maluf terá um argumento poderoso não para pleitear qualquer coisa do governo municipal petista, mas para engrossar a sua crítica com mais autoridade. Dirá que a prefeita traiu o eleitorado, traiu inclusive a Maluf e aos malufistas que nela votaram, esperando um governo bom e decente, e, no entanto, etc etc. E não adiantará a Marta alegar que nada pediu a Maluf. Ela só chegará ao segundo mandato se beber aquela água que jurou nunca beber.

147. CARLOS HEITOR CONY. Lição de humanidade. Vi o documentário sobre o desastre com o Concorde, em Paris, que matou mais de 100 pessoas, em não me lembro mais qual ano. Foi o início do fim do primeiro supersônico disponível na aviação comercial. Pouco depois, os Concordes que sobraram foram retirados de circulação e parece que destinados a museus e exposições. Não foi o custo do aparelho nem o alto preço das passagens para se voar nele que motivaram a sua aposentadoria. Tampouco o desastre em si, uma vez que qualquer homem e qualquer coisa por ele produzida estão disponíveis ao desastre. O que espantou os especialistas foi a insignificância da causa que provocou a catástrofe. Ao rolar na pista para a decolagem, um dos pneus do aparelho foi cortado por uma pequena peça metálica, de 40 centímetros, desprendida de um outro avião que decolara pouco antes. O piloto do Concorde não poderia ver objeto tão pequeno e aparentemente tão inofensivo. A peça fez explodir um dos pneus das rodas que estavam sendo recolhidas. Um pedaço do pneu bateu com violência na asa esquerda, fazendo um furo, pelo qual saiu o combustível, logo inflamado por uma fagulha. Menos de dois minutos após a decolagem, mais de cem mortos, a poucos quilômetros do aeroporto De Gaulle. A desproporção entre a causa e o efeito me horrorizou. As criações mais sólidas do homem, que parecem indestrutíveis, perfeitas, costumam ir para o brejo por motivos banais, como o iceberg que afundou o Titanic. No caso do Concorde, a tecnologia da época era bem mais adiantada. Mas o resultado foi o mesmo. Os dois casos são uma lição de humildade que habitualmente esquecemos não apenas na vida pública, mas na vida pessoal de cada um de nós.

148. CARLOS HEITOR CONY. Não tenho nem pretendo ter procuração das louras para defendê-las das acusações de burrice e cafonice, que estão se avolumando nos últimos tempos contra elas. Leio num jornal que as louras não estão com nada, nem no cinema, na TV, nem na vida em geral. As deusas de alguns anos atrás estão com dificuldade para renovar contrato e já não causam gritos e sussurros por onde passam. Pior: uma caçadora de talentos, dessas que dão dicas para empregos de futuro, recomenda que as pretendentes façam as unhas, usem vestidos comportados, falem só o essencial mas em hipótese alguma sejam louras, nem naturais nem artificiais. "O quê que é isso?" - era o bordão de famoso locutor esportivo do passado, quando via jogadas violentas que mereciam cartão vermelho. É o que me pergunto: "O quê que é isso?" Onde está a lei que pune a discriminação, seja a discriminação que for? Não aceito a teoria de que a onda contra as louras possa ser atribuída ao despeito, à inveja. O furo deve ser mais em cima. O que há de morena burra também não é mole. Quanto à beleza em si, há gosto para tudo. Helena de Tróia, segundo a tradição, é a mulher mais bonita da história e da lenda. Segundo a tradição, era loura, diferenciando-se de outras mulheres do Mediterrâneo que costumam ser morenas. E a mulher mais inteligente que conheci era loura, uma loura até suspeita, parecia artificial, no detestável estilo de "amarelo ovo". Não chegava a ser feia mas não era bonita, embora não merecesse ser jogada fora. Herdei de meu pai um ditado esquisito: "Fugir de gato que faz him e de mulher que sabe latim". Esta loura não sabia latim mas sabia tudo da vida e o pouco que me ensinou foi o bastante. Se não cheguei lá, a culpa não foi dela.

149. CARLOS NASCIMENTO SILVA. DESCONCERTO. — Papai Noel não existe — disse Ninico, baixinho, concentrado no fundo do copo de conhaque Napoleão. Já eram onze horas da noite e os quatro, em volta da pequena mesa de tampo de mármore mal polido, terminavam a quinta rodada, um pouco sonolentos, meio nostálgicos pelo passamento da data, o bar vazio de fregueses, o Joaquim da Maria a cabecear cochilos sobre o alto banco de madeira, por trás do balcão. — O quê que você disse? — assustou-se Feliciano, levantando a cabeça para olhar o amigo — Que Papai Noel não existe? O que você quer dizer com isso? — Ele quer dizer que Papai Noel não existe — confirmou Mariano, tautológico, os olhos vidrados, mirando de esguelha a luz amarelada do poste, no outro lado da rua — Ora, você não sabe que o Ninico adora afirmações controvertidas? Ele sabe muito bem que não pode provar isso. E só provocação. — Não... eu acho mesmo que não existe. Não é polêmica, não, só que ele não existe — confirmou Ninico mansamente, ainda olhando o fundo do copo. — Deixa de bobagem, isso você sabe desde os cinco anos! Feliciano, terra a terra, evitando a armadilha da filosofia barata de Mariano. — Tá bom, se vocês querem passar a noite de Natal dizendo coisas sem sentido, por que não? — Mariano, cansado. — Eu não tenho ninguém me esperando em casa; nem vocês. Só o João. Mas vocês têm que concordar comigo que não se pode provar isso: nem afirmar, nem negar. Não de forma consistente — concluiu exato, taxativo. — Como você coloca, em termos puramente lógicos, é claro que não. Mas você também vai ter que concordar que, nesses termos, o que se pode discutir é muita pouca coisa. Afinal, se você descarta o que não é passível de prova, o que se pode discutir? O que está provado? Mas isso, por definição, não dá margem à opinião, portanto, à discussão — Feliciano, perdendo a paciência com Mariano. — De mais a mais, isso é uma conversa, só isso, uma discordância entre duas pessoas que têm diferentes opiniões. Mariano ia responder à aporia absurda, mas emburrou, e caiu um silêncio incômodo sobre a mesa. Amigos antigos, aquilo não era anormal em sua convivência diária. Cada qual conhecia, demasiadamente bem, o pensamento do outro, havia mais de vinte anos, o que permitia um entendimento rápido entre eles. Os desacordos eram conhecidos, paredes intransponíveis de há muito reconhecidas, respeitadas, ou talvez, apenas toleradas, meras impossibilidades interpessoais: convicções vivenciais, definiria Feliciano. E foi, com surpresa, que os três ouviram João Pedroso dizer: — Não, Ninico, você está errado. Todos vocês estão errados. Não só ele existe como pode ser provado. Quero dizer, eu posso provar, e outros, talvez, também. Ninico tirou os olhos do copo, lentamente, discordante, suspeitoso. Os dois outros olharam o amigo sorrindo, suspicazes. Não era discordância, mas incredulidade ou, talvez, a expectativa de uma brincadeira do João. Mas o rosto do amigo estava sério, vincado. — Ah! Pára com isso, João! Você também? — exclamaram ambos, rindo, com pequenas variações de palavras, mas a mesma significação. João Pedroso olhou cada um dos amigos com o rosto tenso, amargurado, e não se deu ao trabalho de responder a qualquer deles, o pensamento vagueando por um mundo antigo, perdido, passado. — Eu nunca contei isso a vocês. Nunca falei disso a ninguém, aliás. Só de pensar, já me faz sentir mal, como uma nuvem escura de tempestade, um certo mal-estar, algo maligno. O ambiente da mesa mudara. A descontração da conversa se fora, deixando uma tensão progressiva nos corpos, no ar. A própria iluminação no bar, na rua, mudara, como que enfraquecida por uma queda de voltagem tão comum naquela cidadezinha. Ninico contraiu os músculos dos ombros, os intercostais, sem se dar conta. Os demais, mexeram-se nas cadeiras, incomodados, sem saber com o quê. — Eu devia ter uns sete anos, por aí, e o colégio já se tinha encarregado de tirar algumas ilusões que minha mãe alimentara por toda a meninice. Esta não foi, certamente — disse João Pedroso com o ar sonhador de quem relembra a primeira infância — a última delas. Ele já não se lembrava mais das circunstâncias exatas, das causas ou do motivo que o levara a fazer o comentário com a mãe, mostrando a sabedoria que adquirira longe do ninho que, afinal, o enganara com aquela mentirinha. — Eu estava me mostrando, para minha mãe, orgulhoso de como eu já estava crescido, virando homenzinho. Não era uma recriminação a meus pais, nem nada parecido, e fiquei muito assustado com sua reação violenta, seus gritos que só terminaram com minhas lágrimas, abraços, beijos e pedidos de desculpa. João Pedroso virou o resto do conhaque e olhou os amigos buscando encorajamento. — Em resumo, minha mãe disse que o Natal só existia para quem acreditava nele. Era pegar ou largar, simples assim. Quem era bom, obedecia aos mais velhos e acreditava no que o Natal significava era recompensado com os presentes, mimos e doces que eu sempre conhecera. Em caso contrário, nada feito: a escolha era de cada um. E esse era o motivo pelo qual muitos meninos não acreditavam em Papai Noel, ou o inverso, como queiram. João Pedroso pediu mais uma rodada de bebida, nesta altura muito bem-vinda, e contou que relatara aos colegas de colégio o que ouvira da mãe. — Vocês podem imaginar como fui alvo das mais cruéis caçoadas no grupo escolar. Foi uma experiência bastante dura, dada minha idade. Não só riam de mim, me apontavam, no pátio da escola, como aquele que acreditava em Papai Noel e isso resultou num forte isolamento dentro do grupo. É claro que o menino havia procurado diminuir o atrito insuportável. Naquela altura, a apostasia de suas crenças era o que menos o preocupava, mesmo que ele desconhecesse a palavra. Além disso, sua confiança na mãe estava abalada. — Vocês entendem? Não era apenas uma questão de coragem moral, o que já é bem difícil para adultos quanto mais para uma criança pequena. Mas uma ruptura entre meu mundo primeiro, materno, e minhas crenças grupais, etárias, se vocês quiserem, enfim, do meu mundo, ou do mundo que se armava, não só à minha volta mas com minha participação, já que eu era parte integrante, ativa, dele. A divisão era profunda, não pela questão em si, apenas, mas por tudo que significava. Afinal, aos sete anos não se tem senso crítico, e a cisão se tornou funda, sem termo médio que a diminuísse. — De mais a mais — continuou João Pedroso — a forma como minha mãe colocara a questão, ou seja, em termos de crença, tornou impossível uma decisão. Claro, hoje eu posso ver isto com algum distanciamento. Mas naquela idade, eram pontos irreconciliáveis, um abismo de incerteza e indecisão que não podia ser aproximado. Enfim, uma polaridade insuportável que se estendia a toda matéria ética, estética, religiosa, abrangendo, mais tarde, todas minhas convicções sociais, políticas, econômicas. Em resumo, o mundo das idéias e das ações, como vocês mesmos colocavam o assunto, ainda há pouco. — E então — perguntou Ninico, com seu jeito manso — como você saiu dessa? — Não saí. Não havia como sair, e do meu ponto de vista infantil não só a questão não era nítida como seria a causa do mais completo desastre, dada a importância que o Natal tinha para mim, naquela época. Acho que minha aversão à data vem daí. Reparem nas implicações: ou me tornava um pária social, isto é, dentro da minha sociedade, a escola, meus amigos, ou minha mãe saberia de minha descrença, já que o Natal nada me reservaria, se ela tivesse razão. Mas o pior ainda não estava aí: não importava o que eu declarasse a uns e outros, a divisão permaneceria, interna, dentro de mim, mesmo que eu "quisesse" aceitar uma ou outra opinião, uma ou outra crença, já que era disto que se tratava. E então, a angústia foi excessiva e adoeci. — Meu Deus, João, por que você não falou com sua mãe? Obviamente não tinha sido esta a intenção dela — apartou Feliciano. — Ou mesmo seu pai, um tio, avô. — A criança tem sua lógica própria. A reação dos dois lados, minha mãe e os amigos, foi tão oposta que o assunto se tornou, tabu, proibido, para mim. João Pedroso contou, então, como sua doença veio diminuir o conflito. Chegavam os primeiros dias de novembro e o médico o proibira de qualquer esforço, o que incluía sua ida à escola. Em casa, filho único, acamado nos primeiros dias pela febre nervosa, João Pedroso teve que enfrentar muitas horas de solidão e decorrente ensimesmamento. Filho obediente, ele queria muito acreditar no que a mãe lhe dissera, o que foi facilitado pela ausência dos colegas e amigos. Outra vez no ninho materno, a adequação ao movimento da casa, seus tempos, suas práticas, permitiram finalmente ao menino o retorno à cultura materna, matriarcal? E a doença se evaporou, como se jamais se houvesse instalado. A seqüência das férias consolidou seu melhor estado de saúde, e mesmo a aproximação do Natal não lhe trouxe maiores sobressaltos, uma vez que sua divisão interior quase desaparecera. Cerca de meio século depois, João Pedroso saiu para o alpendre elevado, aonde raramente ia, tanto pelo vento cortante dos dias frios, como pela inclemência da luz, que galgava os céus, fronteira à fachada do sobrado nos dias de verão, e dirigiu-se à terceira coluna de tijolos ingleses envernizados. Contou sete blocos, de baixo para cima e, lentamente, sacou o pequeno tijolo, no silêncio da casa ainda adormecida. Apanhou algo que meteu no bolso da calça e voltou a encaixar o bloco em seu lugar, bem justo, sem deixar qualquer irregularidade que o diferenciasse dos demais. A construção esquinada cavalgava um outeiro que lhe permitia sobrever, da rua em cotovelo que subia à esquerda, as casas menores, pouco acima do peitoril de suas janelas, enquanto à direita, telhados e beirais acompanhavam a íngreme descida. A quem passava, na rua, pouco mais lhe era permitido notar que a alta estante de livros, quase a atingir o teto de um dos cômodos, quando as pesadas cortinas não estavam corridas. João Pedroso herdara do pai, na década de sessenta, o que a cidadezinha preguiçosa gostava de considerar sua mais bela construção, produto da corretora de café, então localizada no rés-do-chão do prédio, amanhada com proficiência e algum descortino comercial, desde os anos trinta. Diferentemente do pai, João Pedroso nunca tivera a mesma capacidade, ou sua habilidade no jogo do comércio atacadista. Compras infelizes e vendas precipitadas tinham dilapidado o capital diligentemente acumulado, e a década de setenta viu a ruína do rendoso negócio paterno. Não que João Pedroso trabalhasse pouco ou mal. Ao contrário, a época adulta fora um nunca findar de trabalhos, esforços e preocupações cujos resultados, sempre negativos, haviam aportado no naufrágio mais completo. "Quase como uma maldição", repetia ao correr da vida, como um refrão ominoso, um dobre de finados. E então seu pensamento voltava ao pequeno pedaço de papel, cuidadosamente dobrado, metido sob o tijolo da sétima fileira da terceira coluna do alpendre. Foi quando João Pedroso começou a jogar, na esperança de equilibrar o orçamento da casa, já que ao da firma não restava qualquer esperança. Da loteria estadual ao bingo, e deste ao bookmaker da cidade mais próxima, foi uma evolução tão rápida quanto danosa, desastrosa. A tentativa de sonegação fiscal da corretora de café, por um desses acasos improváveis, redundou numa multa que montava a quase dez vezes o valor do imposto, como uma pá de cal sobre a firma paterna. A venda da parte inferior do prédio e suas instalações evitou mal maior, permitindo a João Pedroso manter a moradia no sobrado, embora o passadio fosse escasso e fortemente controlado. Móveis, roupas, enfim, qualquer despesa era eternamente, ou quase, protelada, ao custo de muito cuidado no uso de cada objeto, sentindo-se mesmo, na casa, a falta de qualquer comodidade que não viesse dos bons tempos. Ternos, gravatas, camisas sociais de colarinho engomado, o vinco das calças de tropical, os sapatos engraxados, tudo era alvo do trabalho cotidiano da mulher e duas pretas, retaguarda doméstica raramente entrevista entre o corredor e as áreas de serviço, partes da casa sem forro, construídas em telha-vã. O João Pedroso dos amigos era, por assim dizer uma ponta de iceberg, mostruário, vitrina da vida do sobrado e, por ele, a cidadezinha jamais saberia do real estado das finanças familiares. E assim ele arrastara os últimos anos, vivendo de pequenos expedientes, de despesas inexistentes. Mas naquela manhã da véspera de Natal João Pedroso não estava preocupado com isto. Não dormira bem, rolando na vasta cama de casal que fora dos pais, ora puxando as cobertas até o pescoço, com arrepios de frio, ora empurrando-as para longe do corpo, em calores inusitados. E tão logo a luz cinzenta da manhã se filtrou pelas venezianas de madeira azul-claras, saltou do leito e, de camisolão e chinelas, dirigiu-se ao alpendre em silentes passos de gato. De posse do objeto demandado e, talvez porque o não tivesse tocado por mais de cinqüenta anos, meteu-o no vasto bolso sem lançar-lhe uma única mirada, dirigindo-se ao banheiro, para as abluções matinais. Durante o café, enquanto passava uma vista ao jornal, João Pedroso sentia o pequeno papel — um bilhete? — como um objeto morno, no bolso do paletó, a pesar-lhe incomodamente o peito, e perguntou-se por que o pegara, após tantos anos, e com que finalidade. — Bem, foi então que Alberto chegou — disse João Pedroso, baixinho, dando uma bicada no conhaque, sem mesmo se aperceber. — Que Alberto, o Gaguinho da Maria Preta? — interrompeu Feliciano, mal contendo a curiosidade. — Não, não é do tempo de vocês. O Alberto Monteiro era meu primo, por parte de pai. Moleque traquinas e malcriado, o Alberto era o terror de minha mãe e das criadas. Um ano mais velho que eu, era sempre quem inventava os malfeitos, as travessuras, quem começava as brigas e brincadeiras brutas, maldosas. Vocês sabem, cuspir, do sobrado, na cabeça dos passantes, prender barata viva entre a xícara e o pires da mamãe ou amarrar os cadarços dos sapatos da negrinha, por baixo da mesa. Toda a casa ficava em polvorosa, entre os malfeitos e as zangas e castigos. E, como não podia deixar de ser, em muitos eu embarcava, mesmo a contragosto. Enfim, mesmo assustado com sua ousadia, eu admirava o Alberto e me divertia, como qualquer criança, com as traquinadas que ele inventava. Quando a Maria Preta correu como alma penada pelo meio da casa, embrulhada no lençol, por causa do calango que o Alberto colocara debaixo de seu travesseiro, a mamãe perdeu a paciência e nos decretou três dias de castigo, presos no quarto grande, sem revistas ou brinquedos. Saíamos só para as refeições, na sala de jantar, com papai e mamãe de cara feia e voltávamos para o "retiro espiritual", como ela dizia, a fim de que "puséssemos a mão na consciência", como "meninos de família" e não "bugres do mato".Faltavam poucos dias para o Natal, mas não foram dias muito amargos, mesmo com a liberdade perdida, já que Alberto não sossegava, nem mesmo preso num quarto. Arremedava a mamãe, imitava a Maria Preta, tecia planos mirabolantes para quando saíssemos da "prisão", jurava vingança contra a negrinha que, segundo ele, fora a delatora, no episódio do lagarto. — Enfim, apartou Mariano — uma criança normal. — É claro, normal — sorriu João Pedroso pela primeira vez, desanuviado pela lembrança do primo — mas duvido que você ainda o classificasse dessa forma, caso ele passasse um dia em sua casa. Enfim, contei isso para vocês terem idéia de como era o Alberto, naquela época. E assim, ao final do segundo dia de castigo e como minha mãe mencionasse manhosamente o Natal a meu pai durante a refeição, quando voltamos ao nosso castigo contei ao Alberto o que ela me dissera sobre assunto tão palpitante. Alberto quase engasgou de tanto rir, de minha credulidade. — Ô, João, Papai Noel são nossos pais! Ela te contou essa história pra você ser um bom menino, ficar quietinho e não encher a paciência dela. Ela me acha um bom menino? Eu acredito em Papai Noel? Então como você explica que eu ganhe presentes de Natal todo ano? A bola de futebol, a bicicleta, como você explica isso? — Bem, é inútil dizer o quanto essa terceira guinada nas minhas crenças, em tão curto período de tempo, mexeu com a minha cabeça. Então ela tinha mesmo me enganado Pensei na vergonha que eu passara na escola, nas caçoadas, nos meus esforços para acreditar nela, nas minhas boas intenções e prometi, a mim mesmo, nunca mais ser tão crédulo, nem mesmo com meus pais. Prometi, também de mim para mim, sem nada dizer ao Alberto que, quando saíssemos do maldito quarto, ele não seria o único a inventar maldades. Só que eu teria mais cuidado, muito mais cuidado do que ele. Além de fazer as travessuras, eu cuidaria para não ser implicado nelas. E então meu prazer seria duplo, já que o castigo cairia sempre sobre outra pessoa. E por que não a negrinha que me fizera ficar trancado por três dias? Assim, o último dia de castigo foi o mais prazeroso deles. Alberto, cansado de não fazer nada, se calara, emburrado, num canto, enquanto eu aproveitava para imaginar um monte de pequenas maldades com todos da casa mas, principalmente, como evitar que se pudesse saber a autoria do malfeito. Aquela semana de Natal foi muito atribulada, lá em casa, para eles e para nós, e mamãe acabou telefonando ao tio para que fosse buscar o Alberto, pois que, com dois, ela já não estava agüentando. O primo se foi e, livre dele, eu pude armar meus álibis com mais facilidade. Ninguém entendeu como tanta coisa saía errado sem causa aparente. E foi um Natal realmente atabalhoado. — E nunca te pegaram? — perguntou mansamente Ninico. — Você quer dizer alguém lá de casa? Mamãe, papai, as empregadas? Não. Segundo eu pensava, eu já tinha sido apanhado, não é mesmo? E só podia me vingar não pagando pelo malfeito que viesse a cometer; esse era meu primeiro e último cuidado, ou não haveria vingança. Alguém mais, qualquer um, devia pagar o preço, desde que não fosse eu, ou as contas não seriam acertadas. Lembrem-se, eu me sentia credor de um mau pagador. O equilíbrio só viria no caso de, tendo sido mau, eu receber meu presente de Natal, como Alberto dissera que receberia. — Em resumo, através de ações, não de palavras, você discutia ética com sua mãe — definiu Mariano. — Não creio que tenha sido apenas isso — retrucou Feliciano. — Já não se tratava apenas de "provar" a existência ou não de Papai Noel, ou do espírito de Natal, como querem alguns, mas o valor prático do comportamento ético como fonte de justiça. A vingança, que equilibraria a balança, nos força a entrar no terreno da justiça, como compensação ao bem e ao mal, se entendi bem a sua reação infantil. E agora já não mais estamos no terreno da filosofia, mas da religião ou, como você disse no início da história, da crença. — Mas eu creio que se tratou sempre disto, não? Quero dizer, a história de João. A discussão ética foi sempre uma ferramenta, não um fim em si mesmo — raciocinou Ninico em sua voz mansa — desde que eu disse que Papai Noel não existia. Só não entendo como você pretende provar a existência dele. — Bem, me deixem terminar a história e vocês vão entender — retrucou João Pedroso, com rosto amargurado. As lembranças infantis das traquinadas já estavam longe, como ficou claro para todos,e o ambiente tenso voltou a tomar conta dos amigos, do bar, da noite. — A noite de Natal chegou e eu fui me deitar cedo, cheio de expectativa, como vocês podem imaginar. Não sem antes, no entanto, realizar todos os ritos anuais ensinados por minha mãe. E deles fazia parte uma grande meia pendurada, símbolo da gratidão, a mão aberta à oferenda. Escolhi a maior de todas, a meia de futebol de que eu tanto gostava e prendi-a em um prego na parede da sala. Custei muito a pegar no sono em meio a tanta excitação. Afinal, tratava-se mais do que de um simples Natal. Por trás daquilo, houvera muito sofrimento. Aos sete anos, porém, não há insônia que dure mais de cinco minutos, e eu dormi como um anjo até manhã alta, o sol entrando pelas venezianas, zangado por ter que se espremer tanto, como minha mãe dizia, me chamando de preguiçoso. Já acordei pulando da cama, desinsofrido, e corri descalço, de pijama, à sala, onde ficava a árvore de Natal. Não havia nada para mim sob a árvore enfeitada. Eu não pude acreditar e olhei, então, para onde deixara a minha meia de futebol. Mas tampouco ela estava lá. Ficou apenas um pedaço de papel, espetado no prego da parede, com um poema cujo texto é o seguinte: Os bons vi sempre passar, no mundo graves tormentos; E para mais me espantar, os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim o bem tão mal ordenado, fui mau, mas fui castigado: Assim que, só para mim anda o mundo concertado. — O Desconcerto do Mundo — gritou Ninico — a mensagem de Camões é clara: não há justiça no mundo, exceto para ele, paranóico que era. Como vocês vêem, eu estava certo. Papai Noel não existe — gargalhou triunfante.— Neste caso — gritou Feliciano, acima da risada de Ninico — quem espetou o bilhete no prego e levou a meia? Você se ateve ao significado do bilhete, não à sua existência! Sua análise foi parcial, então Papai Noel existe! — concluiu vitorioso. — Pronto, voltamos à discussão maluca! — Mariano, cada vez mais cético. — Que importa quem colocou o bilhete no prego? E se foi a mãe ou o pai de João, como castigo por seus atos? Ou seja quem for? Como deduzir daí a existência de Papai Noel? — Pelo próprio bilhete, meu amigo. Ele está escrito num dialeto esquimó oriental que, segundo o lingüista da universidade, só é falado em determinada região do Pólo Norte — disse João Pedroso cansado, o rosto tenso, colocando o papel amarelado pelo tempo sobre o mal polido mármore do tampo da mesa do café.

150. CARLOS SUSSEKIND. O ANTI-NATAL DE 1951. No documento emitido pelo Juizado de Menores lê-se o seguinte: "Requisito-vos" (ao agente da Estação D. Pedro II, no Rio de Janeiro) "duas passagens de ida e volta em 1ª classe dessa estação até a Estação Presidente Franklin Roosevelt, em São Paulo, para o Dr. Lourenço Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, e um menor, que viajam a serviço deste Juízo".Muito atencioso, o agente-ajudante que me atende na Central. Não me faz esperar. Mas, depois de carimbar a requisição, objeta-me que só amanhã poderá dar as passagens, pois o regulamento ferroviário exige antecedência de três dias, não de quatro. Adiantei-me, pois. Evito discutir, para que não surjam obstáculos futuros. A idéia de fazer essa viagem na companhia unicamente de meu filho, tendo eu me comprometido a não desviá-lo de suas leituras nem durante o percurso nem durante o dia inteiro (25 de dezembro) que passaremos em São Paulo, corresponde satisfatoriamente à nossa concepção (minha e dele) do anti-Natal. Atravessaremos a véspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 estaremos de volta. Não daremos nem receberemos presentes. O único presente tolerado é essa viagem de graça, que, a bem dizer, não é um presente, é um direito que me dá o cargo de Curador de menores. Doutor Lourenço e o filósofo Lourencinho estarão na deles, numa boa. Verifico que, se fosse de noturno, com leito de luxo, no "Santa Cruz", em cabine individual de dois passageiros, a viagem de ida e volta custaria ao Estado o triplo do preço desse trajeto feito em poltrona comum. Sairíamos do Rio às 22:30 do dia 24 e chegaríamos a São Paulo às 9 da manhã de 25. Magnífico, sem dúvida. Mas repugna à minha consciência abusar da requisição, proporcionando-nos esse luxo nababesco que ficaria documentado para sempre. Basta a fraude de dizer que eu e o Lourencinho vamos "a serviço do Juízo". Tentarei, em todo caso, combinar ida em noturno e volta em diurno, numa última homenagem ao meu escrúpulo. O abuso já não será tanto, nem deixarei de proporcionar a meu filho uma viagem repousada. Se tiver de ir e vir de diurno — o que seria a hipótese mais econômica —, a consciência ficará mais leve, mas não sei como se comportariam o fígado dele e os meus rins. Enfim, veremos. Precipitado no meu otimismo, faço, depois do jantar, uma descrição para a família toda reunida de como é o trem encantado em que viajaremos os dois. Vagões de aço inoxidável. As poltronas forradas de camurça. Giratórias. Ninguém em pé, todos acomodados, de fisionomias risonhas. A composição move-se deslizando, sem nenhuma trepidação, nenhum ruído, não entra pó, o ar que circula é como o do cinema Metro, trem de cinema, primeiro você pensa que é por causa do dia chuvoso, mas deixe chegar uma estação, abrir-se a porta e verá que é como se se abrisse uma fornalha. É a temperatura que faz lá fora. Dentro do carro, no entanto, a mesma inalterável e suavíssima ambiência! Moças e rapazes falam-se aos beijos. Quando não se beijam, cantam. Um sonho! Diante da minha expansão, Lourencinho tem o comentário desalentador de que só vai a São Paulo para me acompanhar, e que não sabe, afinal, se isso de anti-Natal funcionará mesmo. Se nem o anti-Natal o seduz, meu Deus, que se pode esperar desse rapaz? Deve ser a perspectiva da viagem fatigante. Mas não é só isso, não. Quando lhe falo no que faremos para conhecer a cidade, onde não piso desde 1920 — há mais de 30 anos, portanto —, adverte logo: — Desista disso de querer mostrar parques e avenidas e monumentos e pessoas! Iremos cada qual para seu lado. Vou buscar as passagens na estação. Outro subagente. Atencioso, como o de ontem. Entretanto, fez-me esperar 25 minutos para verificar se a assinatura era mesmo do juiz de menores, um desaforo. Conclui dizendo, amabilíssimo, que só amanhã, 22, poderá me dar os bilhetes, pois o regulamento fala em "três dias antes da viagem": sendo esta no dia 24, os três dias contam-se 22, 23 e 24. Considera 24 como sendo ao mesmo tempo o dia da viagem e a véspera! Evito discutir etc. Risadas do homenzinho quando lhe falo em "noturno" e "Santa Cruz". A requisição menciona apenas "passagem de 1ª". Sem especificar "noturno", só se pode subentender "diurno". A fim de não dificultar a interpretação favorável em São Paulo, para a volta, escreve "tarifa noturna", o que permitirá que eu cogite de noturno de lá para cá. Mas, noturno em "trem de madeira", sem leito de qualquer espécie. Nem, sequer, poltrona. A poltrona, mesmo para o diurno, tem de ser paga à parte. São 60 para a ida e outros 60 para a volta. Quer dizer que a requisição do Juízo de Menores só me deu o direito de andar dentro do trem até São Paulo e de São Paulo aqui. Custará isso ao Estado 568 cruzeiros redondos. Acho infinita graça, agora, na minha ingenuidade de falar em "escrúpulo" de pleitear coisa melhor... O Governo sabe com quem lida. As bandalheiras não se fazem assim, com recibo. Elas se aninham noutras dobras. Volto no dia seguinte, o guichê das passagens está se abrindo, sou o primeiro passageiro atendido. Entretanto, não posso ter os assentos que peço, na sombra. "Nós aqui desconhecemos os lugares que são no sol e os que ficam na sombra. As ordens são para destacá-los automaticamente, sem intervenção de quem quer que seja". Conformo-me. Ele lê a requisição. O outro funcionário, ao datá-la, pôs certo 21.12.1951; mas, quando se referiu ao dia da viagem, escreveu, sabe-se lá por que, 24.12.1952, equívoco palpável, evidente. Mas S. Exa. o bilheteiro do guichê nº 1 acha que deve ser retificado. Atendo-o, ainda nisto. No guichê n° 5 já está outro funcionário, diverso do "amabilíssimo" com quem falei ontem. Objeta-me que a retificação não é da sua competência, e que o funcionário que poderia fazê-la só começará a trabalhar às 4 da tarde. Não posso tolerar semelhante absurdo. Volto então ao agente substituto. Ouve-me em silêncio. Manda chamar o bilheteiro. Fala-lhe. E se volta para mim, austeramente: — O funcionário tem razão. Ele não pode retificar um erro que não cometeu. Mas o senhor, também, não vai pagar pelo que se fez sem sua culpa. Atenda-o, portanto, Sr. Freitas. Se o algarismo puder ser modificado, modifique-o. Se não puder, extraia outro passe. E dá-me as costas. O algarismo não pôde ser modificado. Depois de ajustar pachorrentamente os carbonos e de "experimentar" noutro papel, de rascunho, Freitas pega solenemente o lápis, calca-o, descobre o carbono e diz: — Não deu certo. — Espero, pois, 15 minutos para que ele extraia novo passe.  Seria justo que minha odisséia terminasse aí. Mas não terminou. Vou para o bilheteiro do guichê n° 1. Examina os novos passes, pede-me a carteira funcional e me diz secamente: 60 cruzeiros pelas duas poltronas. Dou-lhe o dinheiro, mas pergunto: — Que é que essas poltronas têm de mais? Ele não demora na resposta: — Nada. — Então por que se paga à parte? Se eu não pagasse, iria em pé? O homem ajusta os óculos ao nariz, fita-me serenamente, reflete no que vai dizer. Responde-me: — Iria. Quer dizer: um funcionário, viajando a serviço do Estado, tendo sua passagem requisitada pelo Juízo de Menores, em nome do Ministro da Justiça, não tem direito sequer a viajar sentado nas 11 horas do percurso. Mas ainda há mais. Pergunto, delicadamente, ao ditador que tenho pela frente, se as poltronas 37 e 38 do carro "B" ficam, ou não, na sombra. Com uma irritação mal disfarçada em calma "superior", responde-me: — Meu caro senhor, quer um conselho? Peça a Deus que sejam na sombra, porque só Ele pode decidir. Ali a justiça divina já está feita de antemão. Qualquer dos lugares é igual nos benefícios e nas desvantagens. Em 11 horas de viagem, de 7:25 às 18:25, quem tiver sol pela manhã não o terá mais à tarde, e quem, pela manhã, gozar da sombra, escaldará com o sol de depois do meio-dia. Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensíssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providências que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, já estão tomadas.

151. CARMEN ROCHA. ISABELA, FUGITIVA DO PASSADO. Aquela confissão transtornou a minha vida... A tempestade desabou, e as imagens voltaram fortes em seu espírito atormentado, daquele longínquo ano de 19..., e, meu marido do outro lado do leito, dando-me as costas, confessava em desespero, em gemidos contundentes, como ela, Isabela, o amara, tanto e tão apaixonadamente como só se pode amar uma primeira vez... E o quanto tentou corresponder-lhe: Isabela, Isabela - soluçou ele, quase como um fantasma - sua silhueta me vinha através do espelho, e sua tristeza... envolvia-me. Como conseguiste tocar-me assim!- continuou em devaneio - o meu amor é tão forte e verdadeiro. "Eu irei para tão longe, amado" ele sussurrava por ela, em memórias - sentiu-a em sua imagem fantasmagórica, perdido em lembranças, e lágrimas desceram de seu rosto - "farei tudo para melhorar e voltar para ti, prometa não me esquecer, vamos prometa-me, pois ficarei tão só... e está tão frio..." - Sim, sim, eu te prometo... - meu marido engasga-se em sua dor, e só ouço sua respiração entrecortada. Suas lembranças eram tão claras, tão verdadeiras, que eu própria vertia lágrimas. Virei-me mais um pouco. Sabia que a imagem que via, pois refletida, era a sombra do desespero daquele homem, totalmente tomado pelo passado tenebroso, que não percebia o meu desalento, nem minha dor, talvez nem minha presença... Claro que prometo, irei esperá-la até sua cura ... - continuou dolorosamente em lembranças - nunca imaginei o que isso mudaria a minha vida... voltou-se um pouco para mim. e num desabafo, partilhando... Que desgraça, meu Senhor, onde andaste Tu? - voltou-se um pouco mais, - Ela escrevia-me a cada dois dias. Eu de nada sabia, pois minha tia escondia suas cartas. No entanto, sofria calado, e em total desespero, imaginando sua dor, perdoando o que achava a precariedade dos seus sentimentos, por não escrever-me. Passava fome e frio... para ofertar-lhe em paixão, pois compartilhava tudo o que sentia. Suas febres... suas dores... sua fragilidade... nunca desconfiei da verdade - continuou. Foi quando veio a funesta notícia. Ela expôs-se à morte, em desespero, por amor a mim. Imaginou que eu a abandonara. Pobrezinha! Nunca pôde saber como foi amada... - estendi-lhe a mão penalizada, mas não pude tocá-lo. Por sua confissão, minha própria vida se desmoronava naquele mesmo instante... naquele dia fatal - continuou sua confissão, em total alucinação, como se contasse para ele próprio- ela levantara-se do leito e arrastando-se ficara à janela do imenso corredor. Nada se fechava ali. Era norma dos sanatórios, nem portas ou janelas, para que o ar se conservasse o mais puro possível, e se renovasse à noite... - e - continuou com a voz enfraquecida - naquela ânsia de me vislumbrar na noite tenebrosa, pois assim foi em nossa despedida, ela se nutriu daquela friagem suicida, como se pudesse me absorver inteiro. A carta... - voltou-se para mim - chegou dias depois, e esta sim, minha tia fez questão de mostrar-me, como se quisera pôr fim à minha paixão e à minha vida. Seus olhos opacos mostravam-se, doloridos, enquanto punha sua desdita a nu. E então eu soube. Aquela vida de sofrimento louco, não era por mim, sua esposa... mas por outra mulher cujo amor fôra tão forte, que o acompanhou vida afora, em nossa vida, chegando agora, através daquela imagem refletida a incomodar-me, a insultar-me, anos e anos após aqueles acontecimentos insólitos. Meu marido, em sua louca lembrança, num desafogo irracional, vertia lágrimas, para meu espanto, e soluçava, de forma incontida e sem pudor, pela pessoa que tanto amara num passado-remoto, e cuja imagem o matava aos poucos e marcava seus dias tão tristes e vãos - sua mão desabou exausta. Sentei-me desajeitada no leito e voltei-me mais para o espelho acusador, quase encobrindo a imagem de meu marido, para evitar seu rosto-reflexo-dor. Queria o meu, isso sim, a minha imagem, com ousadia, para enfrentar essa realidade que, de repente, me é revelada, dessa forma abrupta. Virei-me mais. Olhei-me de frente. Que silhueta triste. Quão pouco fora amada... ah... quão pequeno fora o meu papel na vida desse homem. Ele não partilhara da minha. Ele nunca me pertenceu. Essa mulher, paixão pungente, em forte imagem transformada e presente em reflexos vigorosos e doloridos, de lembranças tão poderosas, destruiu sua vida e até mesmo a minha. Ah, meu Deus! Será a vida uma realidade, ou apenas uma lembrança... Quem fui eu na vida desse homem? Vive-se ou imagina-se que vive? Senti uma vertigem. Eu sim, em sua vida, fôra apenas um reflexo.

152. CARMEN ROCHA. O HOMEM QUE VÊ A VIDA. ...ele precisou muito amor para se resolver... Bom humor está no ar, nesta bela manhã - puro cheiro de mato, dos arvoredos do Morumbi. Assobio. São sete e meia da manhã. Tiro o carro da garagem e em velocidade moderada faço o curso rotineiro para o escritório. Tudo em sossego. Alegria. Mas estranhamente aos poucos, meu coração acelera suas batidas conforme ritmos insolentes de garotos na idade das danceterias. Sinto um tênue déjà vue. E consigo respirar com certa dificuldade. Coisas diferentes estavam me acontecendo? Continuação de sonho mal? Como se fora caso de vida ou morte... esses fatos futuros, que eu achava que desconhecia, já estavam me abalando... E de repente, minha cabeça começa a latejar horrivelmente. Seria outro dia maluco, como tinha sido algum tempo atrás, quando coisas estranhas começaram a dar sinal? O que estaria acontecendo aos meus olhos. Estaria eu tendo alguma doença desconhecida? Resolvi reagir a toda essa loucura que estava me tomando, me torturando, como se eu fosse um robô e devesse obedecer a não sei lá o quê, ou não sei a quem. Perceberam? Alguma coisa estava tomando conta de mim. Isso mesmo, comandava meus olhos, e eu via. Via o quê? Não, vocês não podem imaginar o que eu via! Engreno a primeira e rápido breco para não atropelar a moça que atravessa em minha frente, vira-se para mim, e um brilho estranho é emanado de seus lábios. Mais percebo do que vejo. Intrigado, fico toda a vida olhando pelo espelho retrovisor para entender. Então, escuto o apito do guarda de trânsito arrebentando os tímpanos e percebo o brilho: idiota! - que fica flutuando a certa distância. O carro pára quase na esquina, e percebo a sua silhueta quase à minha frente. Tento fechar os olhos, mas como guiar? Torno a abri-los e lá vem... preciso mostrar serviço... vou multar esse bobalhão... se ele avançar... - aparece a frase brilhante de sua boca. Seguro o carro, para não andar um milímetro sequer, abre o sinal, continuo. O suor poreja minha fronte. Na quadra seguinte... o homem do caminhão: Passo em cima desse idiota. Como segura o trânsito! - Aperto a direção do carro. Estou péssimo e realmente tudo se embaralha em minha vista e só vejo o que não quero. Contorno e desço para a garagem, estaciono. O manobrista se aproxima sorridente e amavelmente me diz: Bom dia! - E horrorizado vejo em luz forte - como estaciona mal. ...se esse idiota não der minha gorjeta... - fecho os olhos e tateio o elevador. Subo para o 3ºandar. Cumprimento a moça da recepção. Bom dia, senhor... Como é feio! Tem cara mesmo é de pastel, eu hem?... O suor escorre pelo meu pescoço. Meu sossego foi quebrado definitivamente. Meu olho esquerdo começa a tremer, dando aviso de estranho, estranho... Sigo apreensivo, tentando manter a calma. Passo pela secretária rapidamente. Fecho-me em minha sala. Viro-me daqui e dali à procura de paz, de calma salvadora à minha frente. Respiro fundo. Minha secretária bate à porta Entre, Eunice - pão duro, quando virá o aumento? - Tento fechar imediatamente os olhos. Bom dia! O senhor não passa bem? - pergunta assustada. Reanimado pelo tom cortês abro os olhos e vejo claramente, escrito em seus lábios, com todas as letras... se esse cara chato bater as botas, fico sem emprego... - Saia, Eunice, eu chamo depois. Senti profunda falta de ar, e a iniqüidade do ser humano. Tentando disfarçar, chamo o boy e peço com certa urgência - Vá ao primeiro camelô que encontrar e compre uns óculos grandes, curvos e bem, bem escuros, maiores que este, está bem? Tá bem, chefe - o diabo que te carregue, acabei de tomar café, não tenho sossego, ache! - Estremeço. Finalmente, sento-me e pego os papéis empilhados à esquerda e começo a despachá-los, sem prestar muita atenção. Minha irritação e meu susto são tão grandes que necessito recompor o fôlego em grandes respirações. O boy entrega-me o embrulho. Abro. Suspiro. Horrivelmente grande e negro, como pedi. Quando vou pô-los... quase nos olhos, a secretária adianta-se e assustada pergunta apontando meu rosto: Patrãozinho o que é isso? - mais parece uma coruja, coitado, como é feio! - Acabo de colocá-los rápido. Deu certo, e passo a usá-los. Quase sorrio de alegria... a mais pura, aquela que pode me tirar daquele mal-estar insano, pois passo a ver somente umas luzinhas na boca das pessoas. Volta o fôlego. - Tem recado? Sim, a Cobrança. Ah! A D. Marieta telefonou! Diga-lhe que não estou bem e que hoje irei direto para casa, PAM! - dando um murro na mesa - ela estremece. O mal humor correu o andar todo até a mulher do bolinho-para-acompanhar-o-café e transbordou até o andar de baixo. Começam instintivamente a andar nas pontas dos pés. Acho melhor tirar de uma vez os óculos. Será que a besta vai se vingar em nóis - brilhou na boca da mulher da limpeza. Ponho os óculos. Protegido pela grossa e escura armação desse enorme visor, quase me acalmo, pois não percebo mais os pensamentos do pessoal piscando em minha frente. Respiro. Assim o dia passa, e eu em atitude submissa não encaro mais ninguém. Aposento os óculos, até que minha secretária pergunta: - Sr. Chato! Precisa de mais alguma coisa, patrãozinho? - Estremeço. Dou sinal que ela pode ir. Que vá logo. Recoloco os óculos. Respiro fundo e retorno a casa, quase feliz, pois usando os especiais made in camelô, sinto um quase sossego. No outro dia, a secretária amável: Patrãozinho, hoje é seu dia, não é? Mais um aninho, hem? - Uau, como disse? Como você sabe? Bem, parece que... foi a D. Marieta, aquela moça italiana que falou que ia dar uma festa surpresa. Ai!, já falei, agora não será mais surpresa! - tampou a boca, vexada. Moça, nem pensar nisso. Dê uma desculpa, e fale que eu, mais tarde passo na casa dela e só. Afasto-me de todos e principalmente de Marieta, minha amada, pois não poderia suportar sequer pensar em ver seus pensamentos. A semana passa assim, assustadora. Alguns dias depois, na verdade, não sei quantos, pois fui perdendo a noção do tempo, mal agüentando a realidade espantosa que virou a minha vida. Eu estava vendo o invisível! O invisível da nossa vida suja. Eunice pergunta-me se é para mandar convites para a minha namorada e os outros, pois, no meu aniversário, costumo convidar o meu pequeno mas seleto grupo de amigos. Eu não poderia! Amigos? Até que ponto? Já não sabia dizer, meu deus! E de repente, assusto-me. Teria que enfrentar uma festa? Já estou afastado deles há quase um mês. Como sair desta? Nada de festa, pronto, dessa vez não tenho mesmo nada para comemorar. Comemorar a verdade das coisas que me são apresentadas de maneira tão crua? O ser humano em sua dimensão real, percebendo uma realidade de forma tão clara e cruel? Meus olhos estupefatos captando essa realidade? Quem agüentaria? Viver essa vida totalmente iludido? Encarar? Mais tarde dou uma desculpa, me embebedo e tchau. E pronto o telefone toca e lá vem novamente o convite para o sábado próximo. Estavam com saudades. Queriam fazer a minha festa na casa de Marieta, e confirmar o dia para a comemoração! Passaram-se três dias. Foram os dias mais insuportáveis da minha vida. Nele eu imaginei qual seria a verdade que iria enfrentar de cada um dos meus pseudo-amigos, agora sabia. Realidade dura, trilha infame, mundo cão. Descubro cada vez mais a baixeza, a vida crua e a duplicidade do ser humano. Era essa a revelação, afinal? Como conviver com ela? Onde os pensamentos amistosos, sinceros, cordiais? Eu, pobre mortal, me contentaria com algum deles, somente. A alegria pura, a amizade sincera... Não sou exigente, compreendo a fraqueza humana... Mas o que tem se passado em minha vida?! Insuportável, simplesmente insuportável. Nunca contei a ninguém sobre tudo o que suportei da raça humana nesses dias. Para que contar? A sordidez, ao expô-la teria que admiti-la. Não poderia. E esse processo estranho? O que estava se passando comigo? Até quando? De que forma surgiu? E principalmente, para que serviria, eu conhecer toda a maldade do homem? Para quê? Um banho relaxante, uma TV, uma cachaça temperada, toca o telefone. Marieta, com seu sotaque, abre o jogo: Venha, caro mio, estamos todos reunidos para uma champanha. Toda a turma! Incrusive o seu chefe, tá bem, belo? Puxa, pensei, era melhor fazer uma força e ir. Tá bom, logo mais estou chegando. Um bacio, me esforcei. Arrumo-me para a festa com o maior esforço. Tomo uns bons drinques para enfrentar essa realidade que eu não supunha tão obscena... Como estava acostumado, vesti-me com apuro, colônia discreta, um toque de seda na lapela. Uma gravata italiana, presente da amada, apanho os sedutores óculos. Dirijo-me para o conversível amarelo ovo, já meio-meio alegre, sem esquecer a máquina filmadora, especial para boas fotos. Num salto ágil pulo para o carro, reajusto a direção conforme minhas medidas e dou uma arrancada. Após vinte minutos, rodeio o jardim da residência, estaciono ao lado da porta, apanho a máquina, coloco os lindos óculos e esquecido das mágoas, aproximo-me rápido da porta. Nem bem bato a belíssima aldrava de bronze, as portas se escancararam e um coral de mais de vinte amigos com o Parabéns a Você. Apesar do susto, rápido, empunho a máquina e filmo a cena toda. Beijinhos, abraços, aquele grupo animado conseguiu alegrar-me. Por que os óculos? Meus óculos? Desculpas. Bem uma ligeira inflamação. Olhem! Nada de mais. Não, não posso tirar. Os champanhes espocam. Muitas risadas. Começo a perceber as luzinhas na boca de todos. Desvio o pensamento. Alegria, presentes, tapinhas nas costas. Se soubessem! A festa foi correndo amistosa, afável, alegremente, com muita emoção, vibrante! Vinhos e deliciosos canapês. Esqueço-me de tudo, e viajo naquele sonho de felicidade, apesar de muitas luzinhas ao falar com meus amigos e principalmente com a querida Marieta. Finjo para mim mesmo, e a noite corre feliz. Petiscos deliciosos e bebidas. Tudo em paz, nada mais me aborreceu. Consegui tornar-me quase feliz. Dei volta ao drama, e no final, me sentindo atordoado, não podendo mais esticar, após belas despedidas e beijos retorno a casa,bêbado eu sei, mas alegre e penso que tudo era um sonho, querendo fugir dessa duplicidade tão pouco suportável. Entro. Meio bêbado. Vou para a TV para passar a filmagem. As imagens perfeitas... A entrada festiva... As pessoas sorridentes. Nos lábios, as luzes tremelicando. Meu amigo: como é petulante; meu vizinho: aturar esse cara o ano inteiro, ufa! meu chefe: como é burro, talvez eu o despeça; minha amada: transo com outro e esse imbecille não percebe... Deixei-me cair no divã estupefato. Ao revelar a filmagem, para o meu pavor, revelo mais uma vez o mundo sórdido, infame que já supunha. Em cada boca, que na festa me cumprimentou e me beijou, em cada boca, leio a sentença de morte que agora aí está estampada e que irá selar a minha vida. Pobre Marieta, como você me amaldiçoou nesses últimos meses. Mas... sempre sorrindo... Sim, darei descanso a todos, não mais imporei esta presença tão odiada a vocês, queridos amigos! É por isso que agora, tiro os meus óculos escuros e abro os meus olhos. Já não importa. No entanto, peço desculpas, mas preciso entender a vida, a vida maior, não o significado obtuso desta, pois essa realidade não é a real, impossível. Preciso da outra, mais verdadeira. Parto, queridos amigos, com um grande abraço amoroso e fraternal, à prova de quaisquer olhos muito abertos. A culpa com certeza não é desse mundo, nem de vocês. Por que me indignar tanto? Talvez a resposta aqui, nem seja necessária. O difícil é entender porque fui eu o escolhido para passar por essa desastrosa realidade. Está bem, eu me ofereço em sacrifício para descobrir a resposta.A verdadeira resposta. Quero entender o lado de lá, quero realmente entender, preciso ver o que esta além dos fatos. A vida, agora eu sei, é uma ilusão!Qual é a minha realidade, a realidade de todos? Eis a revelação. Eu sempre intuí esse lado mau. Mas por que eu? Por que fui escolhido? Todos sabem, mas ninguém enfrenta isso com tanta clareza, nem lhes é revelado com tanta crueldade. Eis a verdade dessa vida suja. Que calor insuportável nesse meu corpo frágil. Saber dos pensamentos mais íntimos e verdadeiros das pessoas que eu quero bem! Nossa, começo a tremer e a suar. Sinto-me muito mal, infinitamente triste. Vou tirar o casaco... a gravata... Que gravata colorida Marieta me deu! Verde! É com certeza a cor da esperança... Terei alguma? Como conviver com isso? Não, não posso ir adiante. Não posso. Ah, desespero! Sim, essa seria uma bela saída... O banquinho tombou.

153. CECÍLIA MEIRELES. Muita gente me pergunta se deixei de escrever o meu sobrenome com letra dobrada devido à reforma ortográfica; e quando estou com preguiça de explicar, digo que sim. Mas hoje tomo coragem, abalanço-me a confessar a verdade, que talvez não interesse senão aos meus possíveis herdeiros. A verdade nunca é simples, como se imagina. E em primeiro lugar, devo dizer que o meu sobrenome simplificado só vale na literatura. Nos documentos oficiais prevalece a forma antiga, e eu por mim gosto tanto da tradição que não me importava nada carregar um ípsilon, um th, todas as atrapalhações possíveis que enrugam e encarquilham um idioma. Por outro lado, as reformas ortográficas são sempre tão arrevesadas que já perdi as esperanças de estar algum dia completamente em condições de escrever sem erros, descansando assim no tipógrafo e no revisor, que são os grandes responsáveis pelas nossas faltas e pelas nossas glórias. Não foi, portanto, por afeição às reformas que sacrifiquei uma letra do meu nome. A história é mais inverossímil. Todos na vida atravessamos certas crises. Dever-se-ia mesmo escrever sobre a gênese, desenvolvimento, apogeu e fim das crises. Se uma pessoa está sem emprego, o natural é que se empregue. Se está doente, o natural é que morra ou se cure. Mas o fenômeno da crise é importante precisamente por ser o contrário do natural. De modo que se a pessoa está desempregada, não há maneira de arranjar emprego, e se está doente não há maneira de se curar, etc... As crises são muito variadas. Há crises sentimentais, econômicas, de inspiração, de talento, de prestígio — e o povo classifica essa situação, que ele, em sua sabedoria, já observou, com o fácil nome de azar. O azar não é lógico. Isso é que o torna desesperador. A pessoa sai de casa, bem com a sua consciência, com as faculdades mentais em perfeita ordem, os músculos, os nervos, tudo bem governado, atravessa a rua como um cidadão correto, observando o sinal, e quando chega do outro lado, apanha na cabeça um tijolo que um operário, inocente, deixou cair do sétimo andar de uma construção. Naturalmente, todo o mundo tem refletido sobre as razões secretas dessas coisas inexplicáveis. E foi assim que, com o correr do tempo, se chegou à caracterização de um certo número de fatos e objetos que servem de prenúncio ao azar: espelhos quebrados, relógios parados, sal entornado na mesa, sapato emborcado, tesoura aberta, gato preto, mariposas, sexta-feira dia treze, mês de agosto, gente canhota e estrábica, vestido marrom, para só falar dos principais. Penetrando mais no estudo de todas essas superstições, pessoas entendidas têm procurado explicá-las pelas correlações existentes com as crenças do paganismo, estas por sua vez baseadas no empirismo e na ignorância dos nossos antepassados, e assim por diante, o que não impede que as pessoas ainda hoje se benzam, quando bocejam, para que o Demônio não lhes entre pela boca; e não cruzem a mãos, quando se cumprimentam, para não atrapalharem algum matrimônio, e não se deitem com os pés para a rua, e não façam muitas outras coisas, só pelo medo das suas conseqüências ocultas. Outras pessoas, igualmente entendidas, dão rumo diverso aos seus estudos, descobrem o entrelaçamento das causas e efeitos universais, chegam até a afirmar que tudo quanto nos acontece nesta encarnação é fruto remoto de encarnações anteriores, e respeitam o que diz um provérbio oriental — que o simples roçar da roupa de um passante, na nossa roupa, é indício de alguma proximidade de vidas, em tempos imemoriais. E há os que seguem o caminho dos astros, e com uma circunferência, umas retas, uns planetas, uns cálculos, dizem e predizem os nossos destinos, com todas as suas inesperadas trajetórias. E há os que lêem nas linhas das mãos, e contam as nossas viagens, os nossos padecimentos de fígado, o que vamos fazer daqui a vinte anos, e o minuto em que empalidece a nossa estrela... Está claro que creio em tudo isso. Eu justamente creio em tudo. Creio até no contrário disso. A minha faculdade de crer é ilimitada. Não compreendendo por que as pessoas crêem numas coisas e noutras não. Tudo é crivei. Principalmente o incrível. Não estou fazendo paradoxo. A vida é que já é por si mesma paradoxal, desde que seja vista não apenas pela superfície. Ora, uma vez, todas as coisas começaram a correr contra mim. Fazendo a mais profunda e leal introspecção, estou bem certa de que não merecia tanto. Se punha roupa branca, chovia; se precisava ver a hora, o relógio estava parado; muitas coisas pequenas, assim e outras maiores, já com intervenção humana, e que, por isso, não é necessário contar. Então, considerando que tal concordância de acontecimentos desagradáveis devia ter uma razão secreta, pus-me a procurá-la. Ao contrário do que geralmente se faz, comecei por atribuir a mim mesma a razão dos meus males. É certo que todos temos muitos defeitos. Mas nunca me dei ao luxo de ter tantos que justificassem a conspiração que se fazia contra mim. Admitida a minha inocência, passei ao exame das circunstâncias que por acaso estivessem sob a minha responsabilidade. Nem espelho partido nem vestido marrom nem gato preto nem número fatídico na porta. E assim descendo de observação em observação, e consultando algum conhecido — e os nossos conhecidos sempre sabem essas coisas ocultas e se não nos ajudam com as suas luzes é pela timidez em não acreditarem o momento propício — passei a analisar o meu nome. Esqueci-me de dizer que estava disposta a todos os despojamentos. Se a culpa fosse de algum mau sentimento, de alguma ação malvada, eu me castigaria energicamente. E até para me estimular recordava o exemplo daquela senhora americana que arrancou um olho e cortou a mão, convencida de que esses dois fragmentos do seu corpo estavam estragando a sua alma.Foi nessa ocasião que me explicaram o valor cabalístico das letras, e a razão por que muitas pessoas mudam de nome, trocando aquele que lhes foi dado por outro em que haja uma combinação de valores mais favorável aos seus destinos. Todos os conhecimentos têm uma profunda sedução. Quem conseguisse saber tudo ficava igual a Deus. Por isso é que muitos são de opinião que se saiba o menos possível, para não se ter a mesma sorte de Eva, que logo no princípio do mundo estragou o Paraíso com o pecado do saber. Digo isto porque um tratado de biologia me atrai com a mesma força que um volume de ciências ocultas, e os números e as letras me parecem tão organizados, tão sensíveis, tão vivos, tão poderosos, enfim, como um animal, uma planta, um átomo. Naturalmente, desmontei o meu nome, peça por peça, calculei, pesei, refleti, devo ter chegado a alguma conclusão de que já não me lembro, e não tenho a impressão de que os meus cálculos fossem assim desfavoráveis. Mas pelo sim, pelo não, como havia uma letra disponível, achei melhor sacrificar essa letra. Há os que sacrificam os filhos, os carneiros, as aves, e há os que sacrificam o seu coração. Sacrifiquei o meu. Porque eu gostava de todas as minhas letras, fervorosamente. Ter de cortar uma, não foi assim coisa tão fácil como as reformas ortográficas ordenam. Uma letra é um signo, é uma coisa misteriosa que as gerações vêm carregando consigo, modificando de longe em longe, por mão inexperiente, por súbito esquecimento, por ignorância de algum escriba emprestado. Deu-me um trabalho muito grande, ficar sem essa letra. Quando olhava para o meu nome sem ela, sentia como se me faltasse um pedaço, como se estivesse realmente mutilada, sem a mão ousem o olho. Consolava a letra perdida. Escrevia-a sozinha, do lado, sorria-lhe, contava-lhe coisas, para distraí-la. Tudo era muito infantil e muito triste. A pobrezinha ficava para trás, e dava-me saudade. Recapitulando estas coisas, sinto-me entristecer, e preciso recobrar a minha força de vontade para não alterar outra vez o sobrenome. Afinal, como último trabalho convincente, estabelecemos este acordo. A letra não ficaria perdida: seria usada nos documentos oficiais, nesses lugares respeitáveis em que a firma é a garantia da nossa pessoa recebendo e pagando os lugares que nos vemos que merecem a consagração e a estima unânimes dos nossos colegas humanos. Quanto às coisas literárias, essas efêmeras coisas pelas quais vamos morrendo dia a dia, não são assim de tal modo graves que precisem da firma autêntica, daquela firma por que os juízes nos podem perguntar um dia, brandindo um papel pavoroso e fulminante: "Dize, bandido, foste tu que assinaste este documento?" Não, as coisas literárias não chegam a esse ponto. O mais que nos pode acontecer é tirarem o nome que escrevemos no fim e substituírem-no por outro, sem juiz, sem fulminação, sem defesa... Isto posto, a letra abandonada e eu nos abraçamos ternamente, e nos separamos. Como era uma letra suave, terá querido dizer com o seu romantismo: "Quero apenas que sejas menos infeliz. Acompanhei-te durante tanto tempo! Tiveste tanta dificuldade em aprender a escrever-me... Pensavas com inocência no mistério das letras dobradas... Sentias orgulho, na escola, por essa letra dobrada no nome... Mas talvez eu esteja pesando demais na tua vida. Não fiques triste. Adeus." Fiquei muito triste. Faltava-me a letra. Já não era como se me faltasse um pedaço de mim, — mas, um parente, um amigo extraordinário. A minha vida, porém, mudou tanto que, por mais saudade que me venha dessa letra perdida, não me animo a fazê-la voltar. E está feita a confissão. Como se vê, uma história longa, que não se pode repetir a cada instante. Principalmente porque é uma história íntima, e ninguém deve cortar as letras do seu nome só por ter visto outras pessoas fazê-lo. E fica explicado para sempre que assino deste modo por motivos sobrenaturais, fantásticos, como quiserem, mas não pela reforma ortográfica, aliás muito cautelosa com os nomes próprios, respeitando-os tanto quanto me parece deverem ser respeitados, principalmente pelos mistérios que dentro deles vão navegando.

154. CECÍLIA MEIRELES. A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas. Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido! Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos. Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita. Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão. E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos. Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

155. CECÍLIA MEIRELLES. Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim. Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.

156. CECÍLIA MEIRELLES. Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antigüidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos. Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e "querejuás todos azuis de cor finíssima...". Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é leitura... Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar. E é pena, pois com esse nome que tem — e que é a sua própria voz — devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria. O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: "...te-vi! ...te-vi", com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano. Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão — como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? — animou-se a uma audácia maior Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar apenas daqui, dali, invisível e brincalhão: "...vi! ...vi! ...vi! ..." o que me pareceu divertido, nesta era do twist. O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol — que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram. Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: "Bem-bem-bem...te-vi!" Pensei: "É uma nova escola poética que se eleva da mangueira!..." Depois, o passarinho mudou. E fez: "Bem-te-te-te... vi!" Tornei a refletir: "Deve estar estudando a sua cartilha... Estará soletrando..." E o passarinho: "Bem-bem-bem...te-te-te...vi-vi-vi!" Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: "Que engraçado! Um bem-te-vi gago!" (É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira...)

157. CHICO ANYSIO. Andando há 40 anos por este país, catando dinheiro para levar pra casa, eu aprendi a acreditar. Acreditar na terra, no homem, na chuva, na benção, na semente, no fruto, no coração, na mente… na inteligência. Aprendi, com o meu povo, que quando uma coisa está muito séria, o melhor que se faz é brincar com ela. E, naquelas tardes terríveis, sozinho num quarto de hotel, esperando a hora do show, eu comecei a desenhar o pais dos meus sonhos. Um país onde cada lavrador tenha um par de bois para puxar seu arado e que de tarde, ao voltar para casa, encontre um par de filhos o esperando e à noite quando for dormir, tenha um par de pernas para amar; no país dos meus sonhos, todo pobre vai comer, todo hospital terá remédios, todo aluno terá colégio, todo professor ganhará um salário decente e todo policial apenas prenderá os bandidos, em vez de os ajudar a matar e a roubar; no país dos meus sonhos todo cego vai ver, todo surdo vai ouvir e todo mudo vai ver e ouvir coisas tão lindas que nem será preciso dizer nada; no país dos meus sonhos a integração do homem com a natureza será tanta que eu chego a imaginar uma árvore dizendo a um homem: “Você me tratou tão bem, foi tão legal comigo, que eu gostaria de me transformar na mesa da sua casa, nas cadeiras onde sua família sentará, no berço do seu filho”. No país dos meus sonhos, o homem branco, afinal, vai descobrir que o coração do negro é do tamanho do seu e o sangue da mesma cor. O país dos meus sonhos um dia será verdade. E ele será tão feliz que nem vai precisar de mim para fazer rir um pouco. Não faz mal. Eu perco o emprego, mas não perco o meu sonho. Boa noite.

158. CHICO ANYSIO. Houve um tempo, no Rio de Janeiro, que cada bairro tinha o seu valentão. Era o Frederico em Copacabana, o Raul na Urca, o Waldemar no Catete, o Silvão no Cosme Velho. Tudo no bairro tinha que acontecer dentro do desejado por eles, de acordo com a vontade do valentão. O interessante é que todos se respeitavam e ninguém soube, nunca, de um ter que encarar o outro numa disputa, uma briga, fosse por que motivo fosse. O fato de mandar na sua circunscrição era mais que suficiente para todos eles. No Leme, o valentão era o “Chave Inglesa”. Ninguém sabia o seu nome de batismo, mas no Rio não havia quem não soubesse da existência do “Chave Inglesa”, mandando e comandando do Leme até o Lido. “Chave Inglesa” morava na Ladeira Ary Barroso – que naquela época chamava-se Ladeira do Leme, numa casa de madeira, pobre, mas isto não interessava para ele. Tinha – segundo se dizia – apenas um amigo, o ex-salva-vidas “China”, também morador da Ladeira e que mantinha um Centro Espírita em sua casa. China foi um dos primeiros banhistas do Rio e professor da maioria deles. Mas o fato de ser amigo do China não aliviava ninguém de uma pressão do “Chave”, se este fosse o desejo dele. Ao China ele respeitava – até mesmo pela idade, mas ser amigo do China não livrava a cara de ninguém. Um dia um jovem casal, saído da praia, dirigia-se para seu carro e passou pelo “Chave” que conversava com um amigo perto do “Sacha’s”, cheio de palavrões. O rapaz deixou a moça um pouco afastada e veio até o “Chave” e seu amigo, muito gentil: - Oh, amigo… eu estou passando aqui com a minha menina e o senhor aí com a boca cheia de palavrões… O amigo do “Chave” foi quem respondeu: - Esquece isso e vai embora, garotinho, porque esse aqui é o Chave Inglesa e ele faz o que quiser. O rapaz, que era faixa-preta de jiu-jitsu, segurou com o polegar e o indicador nas banhas da cintura do “Chave” e, enquanto apertava o que podia, foi falando, mansamente: - E então ? Sendo o Chave Inglesa é até um motivo mais forte para ter a boquinha limpa, porque vamos que eu me aborreça e resolva lhe dar uma surra. Vai ficar bonito para o famoso Chave Inglesa apanhar feito boi ladrão de um garotão que ninguém sabe quem é… aqui, na casa dele ? Passe a tomar conta do que fala, para não apanhar e muito quem sabe até sem ter conserto. OK? E como apertava mais a cada frase falada, Chave Inglesa, no final, já estava todo retorcido. O rapaz soltou as banhas dele e foi embora com a namorada, enquanto Chave Inglesa levantou a camisa e, dando massagem naquela poça de sangue da cintura, comentava com o amigo: - Rapazinho forte…

159. CHICO ANYSIO. Eu sou da safra de 31. Uma boa safra. Muita gente de boa categoria é desta safra. Não digo os nomes deles por não ter certeza de que eles não se aborrecerão por terem sido citados, mas gente de importância. Só que eu tenho comigo um problema muito esquisito. Apesar de ter nascido em 1931 – 12 de abril – a minha certidão de idade é de 1929. Seria impossível eu ter nascido em 29, porque eu sou de abril e minha irmã de julho. Ela, nascida em 1929. Minha mãe, apesar de ter sido uma pessoa especialíssima, jamais poderia ter um filho em abril de 29 e 3 meses depois uma filha. É que a minha certidão de idade não veio de Maranguape, mas de Maracanaú e eu a recebi e, sem olhar, imediatamente a entreguei ao colégio. Só nos demos conta do erro quando o exército me convocou para servir. Eu tinha 16 anos. Fomos verificar e ali estava o grande grilo: eu oficialmente era de 29. Apresentei-me ao exército com dezesseis anos. É claro que seria impossível eu ser aceito, porque a minha magreza era algo  fora do comum. Basta dizer que, aos 10 anos, eu pesava 18 quilos e calçava 39. Eu era um L. No quartel onde me apresentei, em São Cristóvão, as pessoas chegavam a rir de mim. Fui gozado e apresentado a todos como uma figura ímpar…Meu certificado de reservista ficou sendo de terceira categoria, e o capitão que me deu este documento fez questão que eu ficasse em sua companhia por mais algum tempo, o que não me criou problema algum. Acabou que eu tive o prazer de ser convidado por ele para almoçar com os oficiais. Eu havia me transformado numa espécie de talismã daquele quartel, eu acho. E foi aí, na hora da refeição, que eu presenciei algo de que nunca mais me esquecerei. Um soldado chegou ao capitão com um prato e o mostrou ao oficial. - Por favor…capitão. O que é isso? O capitão olhou, deu uma ligeira provada, cuspiu de lado e disse de modo definitivo. - Ora, soldado. Isto é piche. E o soldado: - Pois é, capitão… O cozinheiro quer convencer a gente de que isso é tutu. Nesta hora eu dei graças a Deus pelo certificado errado que me enviaram de Maracanaú.

160. CHICO ANYSIO. Quando o Carlos Manga, na Excelsior, me deportou para São Paulo, para que eu trabalhasse numa emissora que tinha um único estúdio e duas câmeras, talvez pensasse que estava decretando a minha morte; o negócio é que, ao mesmo tempo, ele me deu o direito de escolher um diretor e eu escolhi Daniel Filho. O Manga riu muito ao saber que meu escolhido era o Daniel e disse uma frase ao telefone que eu de longe escutei: - Vai no primeiro avião. O Daniel foi, e o Edson Leite, diretor geral da Excelsior, resolveu nos ajudar. Alugou um equipamento de externas, uma unidade móvel e o Daniel e eu, com a ajuda do Irvando Luiz e do Marcos Cesar, escrevemos programas a serem gravados em externa. Tudo in loco. Uns oficina era gravado numa oficina, (essa frase está meio truncada, meu primo) um colégio num colégio real… e um dia combinamos com a direção e o treinador e foi escrito um programa para ser gravado na concentração do Santos. Quando, na terça-feira, o caminhão de externa e o ônibus com os atores chegaram à Vila Belmiro, às 7.30 da manhã, o porteiro nos informou que, como o jogo de quinta era considerado fácil, o Lula (o técnico) havia cancelado a concentração. Eu, imediatamente, fui à casa do Pelé, de quem durante muito tempo fui vizinho. Dona Celeste me atendeu sempre gentil e, ao saber do caso, sugeriu que eu o acordasse. Fui ao quarto do rei e… - Pelé…Pelé… Ele acordou num pulo e tomou um susto ao me ver. - Que aconteceu ? Eu contei o caso e ele, sem titubear: - Me espera aí. Eu vou tomar um banho e vou acordar os jogadores e mandar todos eles pra Vila. Eu sei onde eles moram. 15 minutos depois ele saiu, e eu voltei para o estádio. Daniel já começou a posicionar as câmeras e preparar tudo para filmagem. Meia hora depois começaram a chegar os craques do Santos: Orlando Peçanha, Rildo, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pepe, Zito… Ao meio-dia chegou o Pelé. De táxi. - Mandei um cara com o meu carro a São Paulo buscar o Gilmar e o Mauro. A que horas eu posso chegar ? Daniel disse que ele poderia chegar apenas à noite, pois a cena dele era a última. O programa terminava com o Pelé e eu trocando cabeçadas e eu sugeri que eles me levantassem e saíssem comigo, como se me fosse jogar na piscina. O Pelé com a camisa do Santos e eu com a do Palmeiras. Tudo bem. Eles me levantaram… o Daniel gritou: “Corta”. O programa acabou. Pelé chegou para o Daniel e pediu: - Por favor, não põe no ar esta cena da gente levantando o Chico. - Por quê? - Eu manjo esse safado. Ele vai dizer que isto é o Santos reconhecendo a superioridade do Palmeiras. Nem pude reclamar, porque era exatamente isso que eu iria dizer. Por causa dessas coisinhas é que igual ao Pelé… ninguém. Ou “nadie”- como diria o Maradona. 

161. CHICO ANYSIO. Cada um de nós tem o seu conceito de feiúra e isto é um assunto bastante discutível. Há pessoas que são feias na sua opinião e que na minha não são, assim como muitas a quem eu considero horríveis, vivem cheias de namorados que se encantam com elas. Há ainda a não ser esquecido aquele papo de que "quem come cara é bexiga" e, diante disto, uma mulher não deve ser medida pelo que o rosto promete ou deixa de prometer. Mas somos obrigados a reconhecer que há as irremediavelmente feias, porque mulheres cujas feiúras são absolutas e nada têm de relativo. Feiúra total. Roberinha nem era assim tão feia, mas parece que ficou combinado que era. É verdade que ela nasceu feia. Contam que o médico que a aparou ao se deparar com a carinha de Roberinha, passou-a para os braços da enfermeira e saiu em desabalada carreira. Roberinha nasceu no interior e, quando o pai a levou para ser batizada o padre a olhou, examinou bem e disse: -Sr. Gonçalves, vamos combinar o seguinte: o senhor leva a menina para casa. Se dentro de três dias ela não latir, o senhor traz de volta que eu batizo. Roberinha, aos quatro anos vinha com seu pai a cavalo, sentadinha ali junto ao Santo Antonio da sela e uma vizinha convidou o pai para um café. -Bom dia, Seu Gonçalves. Suba até aqui. Venha tomar um café... Sr. Gonçalves subiu para a entrada da cozinha, apeou do cavalo e tirou Roberinha de sela, segurando-a no colo. O vizinho, que se aproximava... -Sua filha ? -Sim. Roberinha. –Bonitinha. E o pai: -Liga, não, filha. Ele está falando isso só pra te agradar. Roberinha sempre soube que era feia e, por esta razão, não se aborreceu ou se surpreendeu quando, ao contar a uma autoridade o que sabia de um assalto havido na rua, o homem disse ao policial. -Eu vi tudo. Ele assaltou a mulher e depois botou a mulher dentro de um carro e sumiu com ela. -E como era a mulher ? -Feia. Assim como essa mocinha aqui. A mocinha era Roberinha. Mas depois de casar, ou melhor, depois de ter conseguido casar, Roberinha parou de aceitar esta discriminação. E sua decisão incluía o próprio marido. Assim, quando ela perdeu o avião que a levaria para Roraima e só havia outro no dia seguinte, ao voltar para casa e entrar, dizendo... -Perdi o avião. Na hora em que Cláudio, seu marido, a olhou exclamando feliz por tê-la de volta ao lar: -Mas que beleza !...Roberinha rebateu. -Vai pra... E deu o endereço de um lugar para onde ele ir.

162. CHICO ANYSIO. Acho que todos sabem que eu morei dois anos nos Estados Unidos e foi lá que eu descobri uma coisa interessante: os americanos inventaram o automóvel mas esqueceram de inventar a garagem. Em Manhattan, coração de New York, que é coração dos Estados Unidos, não adianta ter carro, porque não há onde o guardar. Os prédios super-novos estão construindo garagens nos 3 primeiros andares, mas nos antigos é impossível, porque se furar o chão para fazer uma, dá no metrô. E os prédios continuam sendo construídos sem quarto de empregada. Assim, à primeira vista, parece um erro, mas não é, porque lá é muito difícil alguém ter empregada. As empregadas têm os latinos, acostumados a este luxo. Mas será que é luxo,mesmo? Os apartamentos americanos são mínimos, inteiramente diferentes dos daqui que, muitas vezes, têm quatro suítes, três salas, três quartos de empregada e seis vagas na garagem. Mas numa coisinha o negócio continua absurdo: o tamanho do quarto de empregada. Uma mulher que tenha um metro e setenta não pode tentar este emprego, a não ser que concorde em dormir em pé. Cama, num quarto de empregada, o máximo que pode ter de tamanho é um metro e sessenta e cinco. Ali, então, você coloca um armário de uma porta e fim. Não cabe mais nada. Janela, nem pensar. Basculante de uma folha e, vizinho, um banheiro que se a porta abrir para dentro não dá para a empregada entrar. A porta abre para fora, ela entra e o seu banho tem que ser tomado sem que ela queira se dar ao luxo de virar de frente ou de costas para a água que cai nela, no vaso, na pia de palmo e meio, na parede geral e na porta, além da toalha, é claro. Um dia, os engenheiros vão chegar à conclusão de que empregada doméstica é um ser humano e vão construir quartos e banheiros de serviço pelo menos SUPORTÁVEIS. Estou falando deste assunto, porque uma empregada maravilhosa que eu havia encontrado, ontem foi embora. Achei que era por uma questão de salário e lhe propus um aumento, mas ela recusou e me deu a explicação numa frase que achei muito interessante: -O problema é o banheiro, Sr. Francisco. -Qual é o problema ? -Quando tomo banho, o papel higiênico fica encharcado, e papel higiênico molhado, o senhor sabe: não serve para cumprir sua finalidade.

163. CHICO ANYSIO. Eu comecei cedo a trabalhar no rádio, num tempo em que eu ainda estudava e tinha, portanto, minhas obrigações escolares a cumprir. Isto me obrigava a escrever seis programas semanais, além de ser locutor, narrador, rádio-ator, enfim… essas tantas, as minhas obrigações, me impediam de “inventar” um tempo para ir ao Ministério do Trabalho cuidar da minha carteira profissional. Por uns três anos (primeira na Guanabara e depois já na Mayrink Veiga) eu consegui driblar o homem do Departamento do Pessoal, que vinha pelo menos duas vezes por semana com a mesma reclamação: - Anysio, sua carteira profissional. - Esta semana eu estou em provas, Sr. Varela, mas na próxima o senhor pode ficar descansado que… Era uma época em que ninguém podia ficar descansado. A diminuição do dinheiro na Mayrink a obrigou a diminuir o elenco e, de uma hora para outra, eu escrevia treze programas semanais, atuava em todos e estudava. Um dia o Sr. Varela não agüentou mais minhas transferências e, sem briga ou aborrecimento, me deu o bilhete azul. Eram três e quinze da tarde. Às três e meia eu já estava empregado. Ronaldo Lupo, com quem me encontrei no saguão, com um telefonema para o Sr. Arnaldo Pinto, no Recife, me colocou na Rádio Clube de Pernambuco, a gloriosa Pioneira da Avenida Cruz Cabugá, no Recife. Era um contrato de três anos e eu estava, numa terça-feira, escrevendo o meu programa de estréia que aconteceria na sexta quando o Luiz Maranhão, diretor do rádio-teatro, entrou na sala e me pediu para fazer um papel (uma pontinha de um capítulo só) na novela “Três Vidas” do Amaral Gurgel. - Está aqui o papel. Não precisa nem ensaiar. Na hora o contra-regra vem lhe buscar. - OK. Eu faço. Era um monólogo, onde um homem contava a uma mulher, em pleno Times Square de New York, uma aventura que lhe acontecera. O contra-regra me chamou, eu fui e entrei no estúdio onde não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. Estava no intervalo comercial. Eu disse um “alô”geral, em cumprimento e recebi de volta um gemido total. A cena abria com o meu monólogo, e a mulher para quem eu contava o caso era desse tipo de atriz que gostava de falar uma coisinha nos vazios. - Você nem imagina o que me aconteceu. - Sim…(Ela falou sem estar escrito). Ao perceber isto eu já fui deixando os brancos para os murmúrios que ela adorava. Até que cheguei ao final do monólogo: - … devolvi a carteira a ele na casa dele e imagine que ele me deu, de presente, dois mil dólares ! E ela, pernambucana de Casa Forte, nordestina da gota, cachorra da mulesta, vivendo o papel de uma americana, em Times Square: - Arre, égua ! Saí do estúdio mijado. Era o único modo de segurar o riso. 

164. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. A CASA DO OSCAR. A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira. Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquale casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar. Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar.

165. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. ANDANDO COM TOM. Eu era um garoto que, como os outros, amava a Bossa Nova e o Tom Jobim. Queria ser um compositor igual ao Tom Jobim. Não gostava mais das canções desesperadas. Só queria aquela música que era toda enxuta, porque derramada para dentro. Queria tocar piano igual ao Tom Jobim. Como nada me saísse direito, eu disse "este piano é uma droga" e fugi de casa. Queria contar histórias igual ao Tom Jobim. Fui dar na casa de Tom Jobim em Ipanema. Aloysio de Oliveira me apresentou a ele e eu mostrei meu samba no violão. Tom olhou. Noutro dia, inventou um acorde para o meu samba, ficou repetindo o acorde dele e dizendo "você é um craque". Quando o Tom entra com um acorde dele, parece que abriram a janela. Foi para Nova Iorque, gravou com Sinatra e o pessoal disse "poxa". Voltou porque sentiu saudade dos chatos. Se mudou para o Leblon, mas continuou no bar de Ipanema. Me deu parceria, um pouco para se vingar de Vinícius, que estava saindo muito com Baden e Edu. Nossa Sabiá foi vaiada no Maracanãzinho e ele chorou um pouquinho no túnel Rebouças. Me telefonou de Londres para Roma, preocupado com a poluição do ar. Desligou 50 minutos depois. Me acordou de madrugada porque se lembrou que a poluição no ar também é coisa grave. Esteve comigo em Roma, mas não gostou da cerveja. De volta ao Rio, passeamos bastante. Bebemos uísque no Antonio's, no Luna Bar, na sauna, no Canecão, depusemos juntos no Dops. Vi Águas de Março sendo rabiscada. Às vezes, acho que é o samba mais bonito do mundo. Me deu dois dicionários de espanhol, um de inglês, me emprestou The wast land em italiano, me releu Drummond, me emprestou seu feiticeiro, me ensinou arquitetura. Gostava do meu pai. Me falou do seu pai e um dia me levou para a sua sessão de análise, mas isso foi muito antes. Me ajudou a comprar um piano e me explicou que eu não levo jeito para pianista.

166. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. PASQUINO. O Departamento de Pesquisas decidiu inaugurar suas atividades em Roma rebuscando as origens remotas do PASQUIM. Seu generoso arquivo de amizade informara-lhe que a palavra pasquim deriva de Pasquino, personagem que habitou e abalou a Roma do Século XV. Partindo desse dado o Departamento passou a desemaranhar os livros e as ruas desta cidade para, após cuidadoso e exaustivo exame, salvar de traças e ruínas o serviço que segue abaixo. Mestre Pasquino teria sido o barbeiro predileto dos figurões da corte e do clero. Corta daqui, apara dali, e a nobre clientela fofocando. Pasquino fazia-se de surdo e bobo, mas na manhã seguinte os vícios dos ilustres já eram do conhecimento público. Outras versões sustentam que Pasquino foi um alfaiate ou, ainda, proprietário dum restaurante. Uma última fonte classifica-o "literator seu magister Iudi (vide Carmina qua ad Pasquillum fuerunt posita in anno MCCCCCIX)", coisa que o Departamento de Pesquisa não pode constatar por absoluta ignorância do latim. De um modo geral, porém, as indicações coincidem na imagem dum Pasquino intimamente ligado à classe dominante, da qual gozava os melhores favores e publicava os piores segredos. O privilégio da informação direta e o talento para o verso satírico valeram-lhe uma reputação que lhe sobreviveu. Ainda depois de morto, Pasquino continuou a desacatar autoridades através de manifestos pendurados numa estátua de origem obscura. Escondidos sob o prestígio e o estilo do mestre, seus "secretários" compuseram célebres pasquinadas, muitas delas impublicáveis, que atacaram desde os papas do renascimento até os líderes do fascismo. Com o tempo, Pasquino ficou sendo nome da estátua que servia de mural às pasquinadas. E esse monummento, que na verdade ninguém sabe o que representa, acabou por superar a reputação do mestre. Tanto é que, em 1500 e tantos, o Papa Adriano VI, ficou fulo da vida e resolveu destruir a estátua, ordenando que se a mutilasse e atirasse no Tibre. Torquato Tasso, com muita sabedoria, dissuadiu o Papa afirmando que, mesmo no fundo do rio, Pasquino contaria com a voz das rãs para espalhar o vitupério. Como testemunha da História e das lendas, sobra apenas um rosto desfigurado sobre um tronco de mármore corroído. Trata-se da outrora implacável estátua de Pasquino, encostada discretamente na pequenina praça do mesmo nome. Ultimamente Pasquino tem andado quieto, protegido ou censurado por uma cerca de um guarda civil. Entretanto, graças à fotografia de Araújo Netto e à ousadia dum alpinista eventual, o Departamento de Pesquisa conseguiu reanimar a velha estátua em versão tropical. Desafiando a polícia, eis o fruto da temível pasquinada: um papagaio de Copacabana, uma alusão ao rato televisivo, um exemplar do Pasquim e o boneco Fio travestido em tricolor.

167. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. PRIMEIRO ANIVERSÁRIO. Outro dia completei um ano de Roma. Triste aniversário, um frio de cão. A cidade chuvosa e sem assunto, igual a quando cheguei e com um Vinícius a menos. Os amigos italianos só pensam em San Remo. Glauber Rocha, que, felizmente, nada tem com San Remo, está montando um leão de sete cabeças que não quero incomodar. Os jornais têm omitido os fatos brasileiros, com exceção do milésimo gol, e do Apolo 12. Enfim, a gente acaba aqui isolado, apavorado com a idéia de virar estrangeiro. Nisso aparece Jorge Ben e o Trio Mocotó, vindo do "Midem" de Cannes e já de saída para São Paulo. É o tempo de jantarmos juntos, o que me dá muita alegria, apesar de Nereu Mocotó misturar água com açúcar no vinho italiano. Jorge Ben, que eu praticamente só conhecia de samba, é a cara de seus sambas. Pertence a outro mundo, outro critério. Só ele tem direito a cantar uma mulher de nome Domingas. Pode dizer tranqüilamente que "é olímpica a sua beleza" ou que "sambaby, eu sou um menino de mentalidade mediana". Pode até, imaginem só, afirmar que é Flamengo sem arriscar vexame. Um conhecido meu andou tentando julgar friamente os versos de "Domingas", "País tropical", "Crioula", "Silva Lenheira", etc. Isso de julgar samba friamente é como extrair raiz quadrada com excessivo calor humano, quase sempre dá errado. Mas Jorge e seus Mocotós partiram depressa sem explicar direito como foi o negócio lá em Cannes, no festival do "Midem". Agora cá está o jornal italiano que não me deixa nem exagerar. "O Pranto de Jorge Ben" é a manchete. "Não é sempre que a gente vê - diz o jornal - um grande negro de calças escarlates chorar tão desconsoladamente como chorava esta noite o cantor brasileiro. Seus próprios acompanhantes pareciam preocupados, embora continuassem sorrindo ao público para tranqüilizá-lo. Jorge Ben chorava sobretudo com o nariz que se lhe dilatou e inchou..." e vai por aí afora. O enorme sucesso de sua música, para o jornalista europeu, é de menos, estava previsto. Inédita é a sinceridade, a ingenuidade de Jorge chorando, enquanto sua cotação subia tantos pontos e seu nome era cogitado, cochichado, pechinchado, revendido e valorizado no mercado internacional do disco. O que parece melancólico, mas é ótimo, é de morrer de rir. É de mandá o plá pegá o tutu, comprá outro fu, machucá as escô e beliscá o mocotó das criô do pa-tro-pi. Mudando de pato pra ganso, deixa dizer que recebi do Brasil um caderno escolar da "Coleção Pra Frente" com minha fotografia sorridente na capa. Até muito bem. Aproveito inclusive para agradecer ao layouter que teve a delicadeza de me limpar a nicotina dos dentes. O diabo é a contracapa, onde resolveram imprimir e atribuir a meu nome uma espécie de poema intitulado "Jovem estudante". A honestidade profissional obriga-me a confessar que não sou autor de tal obra. Eu não poderia, não seria capaz. Portanto, peço desculpas ao jovem estudante, mas nunca me passou pela cabeça exortá-lo a "amar até mesmo os sonhos, acordado", ou a "nutrir na alma uma vontade enorme de vencer". Peço, enfim, o perdão do poeta, o autor verdadeiro, que tão humildemente sacrificou seu nome em meu favor.

168. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. BRASILEIROS EM ROMA. Jornalista Araújo Netto garante que é Roma a cidade mais bonita do Brasil. Não sei não, será? Vejo Rio, Bahia, Ouro Preto e não encontro termos de comparação. Vamos lá que seja Roma a cidade brasileira onde se ouve o melhor samba de rua, exceção feita ao carnaval carioca. Em nenhum outro lugar, em nenhum outro agosto, você pode assistir a um bom sambinha grátis como o que Toquinho, ao violão, e Gláuber Rocha, à caixinha de fósforos, balançaram na Piazza Santa Maria in Trastevere. Juntou tanta gente que a polícia interveio, desconfiada de maconhas e mulheres nuas que ali não havia. E a cantoria seguiu até o dia seguinte. Por outro lado, pelos Alpes, vinha chegando Antônio Carlos Jobim. Mais descia no mapa e mais o desnorteava a familiaridade crescente, na paisagem, nos homens. O trem fazendo mais barulho, o calor, o milho vadio invadindo os trilhos, a gravata arreada do cobrador de passaporte, a senhora gorda ocupando o lugar errado, enfim Roma, o chofer de táxi falastrão, a minha casa, a feijoada, e uma batida de limão. Espiando pela janela, Tom olhou bem no capinzal do terreno baldio: - Pois é, Chiquinho, e eu certo que você tinha deixado Brasil. - Que nada, Antônio, continuo por aqui. Vamos jantar no Moro, sede da melhor mais legítima cozinha romana. Não é restaurante para turista, lógico. Só tem brasileiro. Entre outras vantagens, no Moro você pode pendurar a conta no cabide aí em frente. - Que bom que você veio, diz Odette Lara a Tom Jobim. Assim eu aproveito e faço a entrevista que O PASQUIM me pediu. - Como? - Sou correspondente d'O PASQUIM em Roma, diz Odette. Muito ofendido, este repórter vai protestar mas é interrompido. Juca Chaves, que está noutra mesa, Maristella Denner, mete o nariz na conversa: - Diga a O PASQUIM que eu não disse nada do que disse contra eles. - O Carlinhos de Oliveira é que está do contra, diz uma terceira mesa lendo O Jornal do Brasil. Aí todas as mesas começam a falar ao mesmo tempo, na maior animação. Só quem parece triste é o Grande Otelo, por causa de seu enorme sucesso em Veneza: - Estou com 54 anos, que vantagem... - O poeta é um ressentido, diz Tom Jobim. Não gosto de entrevista porque vivo citando o Drummond, e cito certinho, depois vem aquêle copy-desk e resolve corrigir. Então fica feio, sabe como é, e o Drummond vai acabar com raiva de eu ficar errando os versos dele por aí. Carlos Leonam aparece na porta e pergunta por Hugo Carvana, mas este já se mandou na Ponte Aérea para o Rio. - Senta aí que ele não deve demorar. Cacá Diegues está muito satisfeito com a acolhida de Os Herdeiros no recente festival de cinema: - É mas preciso vender o filme em Paris. Aqui é difícil, o mercado é limitado. Nara Leão acompanha o marido na viagem e na satisfação: - O filme foi muito bem recebido. Pena ter caído no mesmo dia do Fellini. O Fellini fez a maior onda, mil promoções, essas coisas de brasileiro. Brasileiros continuam entrando e saindo pelo ladrão. -Oi, bicho. Oi, meu querido. Como vai essa força? É genial! Aquêle abraco. Caio Mourão distribui amuletos às senhoras e explica: - São chifres. Ponha os chifres de molho até amarelar e assim eles ficam com cara de chifre velho. -Conversa vai, conversa vem, o tempo passa e fecha o restaurante. Lá fora bate o primeiro ventinho frio e o grupo vai-se dissolvendo. Amanhã vai esfriar de verdade. A gente vai usar sapatão pesado, paletó pesado, sobretudo, luva de lã. Ninguém vai falar português, muito menos cantar samba na praça. É claro, que bobagem, o Brasil fica longe pra burro, cada vez mais longe. - Vamos tomar á última no bar que fecha tarde? - Que nada, bicho, deixa eu puxar um ronco que não sou leão.

169. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. NOSSOS CRAQUES SÃO TODOS MAIS ARTISTAS. PARIS Sou veterano em Copas. Posso dizer que assisti no Pacaembu a um Brasil e Suíça pelo Mundial de 50, embora mal me lembre do jogo. Na verdade, só me lembro do uniforme dos suíços, a camisa vermelha com a cruz branca no peito, e quando eles entraram em campo pensei que fossem os salva-vidas. Talvez eu fizesse pouco da partida por causa do Pacaembu, que já estava enjoado de ver aos 6 anos de idade. E a vedete daquele Mundial não era Zizinho ou Ademir, mas o Maracanã recém-concluído, o maior estádio do mundo. Fora o Rio Amazonas, era a primeira coisa maior do mundo que faziam no Brasil, e a molecada enchia a boca para falar "Maracanã". De modo que a verdadeira Copa, para quem morava em São Paulo, chegava pelas ondas da Rádio Panamericana. Mais que o locutor, era o eco do Maracanã quem narrava o jogo. O estádio fazia "óóóóó", e era jogada de efeito. Fazia "úúúúú", bola raspando a trave. Fazia "hhhhhhhhhhhhhhh", Brasil de novo no ataque. Gol, e o Maracanã explodia, e a gente cantava as Touradas de Madri pulando na cama. No dia em que perdemos a taça para o Uruguai, claro que desliguei o rádio e taquei a culpa no Maracanã. Eu tinha razão. Batendo o recorde mundial de público, e portanto cheio de si, o Maracanã não via motivo para se preocupar com a seleção brasileira. A seleção, por sua vez, qualquer um sabe que estava nas mãos do Maracanã. E quando os jogadores mais precisaram do Maracanã, o Maracanã emudeceu. Quer dizer, a estádio de futebol não se pode dar confiança, lição que calou fundo em nossos atletas a partir de 50. Anos a fio, se eram recebidos com fanfarra e foguetório, fechavam a cara. Alinhavam-se para as fotos, cinco agachados e sete em pé, contando o massagista gordo, mas dava para notar que posavam de má vontade, olhando cada qual para um lado, e todos para lugar nenhum. Bola rolando, seguiam alheios à torcida, que se esgoelava, e quanto mais alheios seguiam, mais se esgoelava a torcida. A turba fazia "óóó", "úúú", "hhhhhhhh", e nossos heróis viravam as costas. Na hora do gol, aí sim, comemoravam. Mas comemoravam entre si, com efusão, com estardalhaço, com pirâmides humanas, com mãos nas bundas, que era mesmo para tripudiar sobre o adversário. E o grande adversário, evidentemente, era o estádio de futebol. Com o tempo veio uma espécie de anistia, prescreveu a culpa do Maracanã, e as novas gerações não guardavam ressentimentos. Quebrou-se o gelo, ou aquilo que em teatro se chama a quarta parede, separando atores de platéia. A parede de vidro, suspeito agora que foi o Pelé quem a espatifou a socos, no gesto que aos nossos olhos desentendidos parecia solto no ar. E a impulsão com que Pelé celebrava o gol chegava a superar aquela, já extraordinária, com que subira para cabecear. Era como se, na celebração do gol, o homem saltasse de dentro do atleta. Não só com a alegria, mas sobretudo com o orgulho que fez falta a Garrincha, Pelé impunha-se ao estádio, antes mesmo que o estádio o aclamasse. Ou coroava a si próprio, como Napoleão ao deixar o Pala de mãos abanando. O último centroavante introvertido que vi jogar chamava-se Oxímoro. Jogava no Bonsucesso e retirou-se com a chegada da televisão, para quem o artista importa mais que a sua arte. Hoje, num espetáculo que prescinde da bola, muitos artilheiros já excedem Pelé, pois até gol de pênalti festejam com saltos mortais. E correm para as arquibancadas, dançam para as arquibancadas, trepam no alambrado e querem abraçar o público, ou se imolar por ele. Consciente de seu papel, a platéia em peso também não tarda a se levantar, levando os braços ao céu numa formidável onda, ou ola. E durante aquele minuto em que as câmeras dão a volta completa do estádio, fica evidente que os povos são fraternos, que a humanidade é generosa e tudo mais. Ou nos enganamos redondamente, e é o jogo lá embaixo que está um tédio. A seleção brasileira conta nesta Copa com o estímulo de sua imensa torcida e o crédito dos expertos internacionais, apesar de tudo. Mesmo entre os donos da casa, deu numa pesquisa que ela tem 80% das simpatias, e não é sempre que se encontra um francês 80% simpático. Pela qualidade de seu elenco, é possível que o Brasil chegue à final no Stade de France recém-concluído, o mais elegante coliseu do mundo. Ostentando-se em tarde de gala para um bilhão de telespectadores, o estádio estará inchado. Mas nem assim há de inibir os nossos craques. Não que eles recordem a lição do Maraca, ou tenham mais arte que Zizinho e Ademir. Mas porque agora, sem dúvida, são todos mais artistas.

170. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. UM LUGAR AO SOL. Chico conta a longa luta de um brasileiro em Capri querendo um lugar ao sol. O vosso correspondente em Roma não se encontra em Roma. Em Roma não há ninguém. Fugiram todos à praia em gozo de sol e férias. Sigo a multidão com minha tenda, meu trapézio e meus leões. Essa é a vida de artista, correr aonde está o público para poder fingir que é o público a nos correr atrás. Dia desse baixei em Capri, que segundo o cicerone, ostenta as praias mais lindas do mundo depois do Rio de Janeiro. Comovido, agradeci, dobrei a gorjeta e fui conferir. Realmente o azul do mar, com as rochas brancas e a mata cheirosa, é um espetáculo único. Mas ir à praia, aí é que são elas. Convenci-me de que brasileiro não sabe tomar banho de mar, e olha que tive o maior empenho em aprender. - Paga-se a entrada!! Pois não. Paga-se o vestiário? Pois não. O mictório também? Não tem problema. Entrada, vestiário, mictório, guarda-sol, cadeira, bóia, desci à praia cheio de tickets e privilégios. Irrepreensível, pensei. Agora que descobri os macetes é só deitar na areia, comprar um chica-bom e pensar besteira, igual a Copacabana. Mas qual não foi minha surpresa quando cheguei à areia (pedregulhos) e a encontrei literalmente repleta de cabeças, pernas, barrigas e bumbuns. Tentei abrir caminho, pedi um passinho à frente, por favor, disse que ia saltar no próximo ponto, mas os corpos estavam surdo-moles no mormaço. Recuei alguns metros, pisei nas partes duma senhora e subi os degraus de volta. Lá em cima, sobre o cimento, havia um colchão de ar jogado à toa. Deitei e ameacei um cochilo mas o bilheteiro balneário veio perguntar em inglês se eu era da família americana. À minha primeira pronúncia ficou evidente que eu não era não de tão boa família, diante do que fui convidado a me retirar do colchão esplêndido. Nisso me revoltei bradando que queria um lugar ao sol, queria um lugar ao sol, frase que aprendi nos bastidores da televisão. Na minha terra, insisti, a praia é do povo como o céu é do condor. - Mas aqui o colchão é dos americanos - disse o bilheteiro friamente. Eu não ia discutir, ainda mais que os americanos tinham acabado de invadir a lua, uns dias antes. Eu não ia discutir por causa dum colchão de ar. Não discuti mas fiquei com aquilo atravessado na garganta, por isso fui até o bar para engolir melhor. Uma droga dum colchão de ar. Sentei no bar e fiquei vendo os americanos prostrados ao sol. Pareciam cada vez mais bonitos, saudáveis, bronzeados, e eu muito cinzento e verde. Assim passavam-se as horas e nada de vagar um só buraquinho. Pelo contrário, chegavam sempre novos banhistas, desses gordos, sem ossos, gelatinas. Iam falando please e acabavam se encaixando. O aglomerado já formava uma massa tão comprimida que dali a pouco, com mais um aperto, dava a impressão que uns e outros iam estourar para o alto que nem pipoca. E quando alguém se levantava, deixava sempre um chapéu para garantir a vaga. Às cinco e meia resolvi desistir, mas aí abriram um primeiro espaço. Saiu um, saíram dois, saí eu e corri a reservar meus pedregulhos. Sobrou uma cadeira, tomei conta. Apossei-me duma bola, dum colchão, dum guarda-sol, tudo junto. Afinal eu tinha os tickets, estava no meu direito. Só achei estranho aquele êxodo assim precipitado, pois em pouco minutos eu estava sozinho na praia. Engraçado, porque americano não é de abandonar um bom lugar sem mais nem menos. Que diabo, se eles foram embora é porque algo de ruim vem por aí. Pensei em chuva, tempestade, tubarão, mas nada. Só os bilheteiros que estavam recolhendo tudo, o bar que estava fechando, o último ônibus que estava partindo e eu que estava sendo expulso. Expulsão não é bem a palavra, não é exata. Mas ficam aqueles garçons resmungando e olhando para a sua cara. E vem aquele empregado mandando você erguer os pés, os dois ao mesmo tempo, para passar o escovão debaixo. Como boteco de português à meia-noite. Que é isso, perguntei, vai fechar a praia? Pois é claro, disse o empregado, às seis horas nós fechamos tudo. E continuou a esfregar sabão na praia. Não era o caso de contestar a organização lá dêles, mas confesso que fiquei perturbado. Ainda mais quando, ao deixar o local, olhei para o mar e vi o que vi. Aliás, não sei se vi mesmo, é difícil acreditar. Vai ver que o sol me batera na cabeça de mau jeito. Ou então fora o gin, sei lá, gin é uma bebida desleal. Não posso jurar nem peço que me creiam, mas o que vi foi o seguinte: o mar esvaziando, esvaziando, os barcos acomodando-se entre as pedras e o Mediterrâneo sendo chupado pelo ralo, dando lugar a magníficas auto-estradas, caminhões, ferrovias, semáforos, supermercados, perdendo-se de vista no horizonte.

171. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. ATÉ A PRÓXIMA. Entro num bar repleto de franceses e já começo a cantar seus hinos, sem saber se estou torcendo pela França ou contra os croatas. Defronte da tela gigante os franceses cantam, cantam muito, improvisam refrões a todo momento, dão vivas e bravos sempre que o goleiro bate o tiro de meta. É divertido, é como se eu visse o jogo em qualquer cidade do Brasil, num bar feminino. Aqui na França muita gente acaba de descobrir o futebol, a exemplo de tantas brasileiras que, na copa do mundo, sofrem algum tipo de desordem no seu metabolismo. De um dia para outro essas mulheres mudam de figurino, de penteado, de temperatura, almoçam em pé, falam dormindo, de madrugada pronunciam nomes de homens misteriosos, tipo Zinedine Zidane. Devo dizer que assistem às partidas com sincera aplicação, disparando vez por outra observações bastante originais, que jamais ocorreriam a um comentarista graduado. Agora, naquele bar, os franceses festejam o terceiro gol, de Zinedine Zidane, que eu francamente não havia percebido. Passa o replay, é um belo lance, mas a bola bate na rede pelo lado de fora. Era o que eu tentava argumentar, quando fui expulso. A festa toma as ruas, e os refrões já anunciam o Brasil como a próxima vítima. Busco asilo em restaurante italiano, onde a derrota para a França, dez dias atrás, ainda é prato quente. Brasiliano? A casa, que já estava fechando as portas, num instante se reacende feito casa de jogos clandestina. "Mozzarella in carrozza, carcioffi alla giudia...", declama o garçom, porque nessas cantinas dispensam o menu, sendo os pratos italianos tão saborosos aos ouvidos. "Cafu"!", intervém o ajudante de garçom, que logo rabisca na minha toalha uma estratégia, de sua autoria, para o nosso lateral chegar à linha de fundo e espaventar os franceses. É romanista, justifica um terceiro, torcedor do Milan e fã do Leonardo, que deve investir em velocidade pelo centro do ataque. Desta vez é o patrão quem sai de seus cuidados, abandona a caixa registradora e põe-se a recitar: "spaghetti alla puttanesca, pesce all'acqua pazza...". É um velho juventino, e já sentado à minha mesa, depois de um gole de grappa confessa sua admiração por Zinedine Zidane. Turim, Milão, Roma, Parma, Gênova, há franceses jogando em cada uma dessas cidades, e os italianos são, antes de tudo, fanáticos por seus clubes. A Itália que Garibaldi unificou, lamenta o patrão, o futebol parte em pedaços. Neste domingo, porém, ele, os garçons, a torcida do Juventus, a Itália inteira estará com o Brasil. Para se vingar da França, suponho. Não, senhor, em homenagem a Ronaldinho. É o cozinheiro calabrês quem traz pessoalmente o tiramisù e o resumo da ópera: "Ronaldo è amato da tutti". Ronaldinho anda lento, gordo, ganhando muito dinheiro, assim falava um brasileiro nos arredores do Velódromo de Marselha, para quem quisesse ou não quisesse ouvir. Passou por mim, a obesa criatura, e tinha o nome Ronaldo impresso nas costas da camisa estufada, com o número 9 tão largo, que mais parecia um zepelim. Coisa de brasileiro? Não, nem tudo é coisa de brasileiro. Para a turma do bar, a França só tem retaguarda. Para a turma da cantina, a Itália tem medo de vencer. Falta harmonia, diz a Holanda a respeito da própria seleção. A Nigéria é badulaque só, diz a Nigéria. A Alemanha está velha, diz a Alemanha. A copa do mundo às vezes lembra um concurso de misses, com mães desnaturadas na platéia. E aos olhos das mães alheias, o futebol do Brasil continua sendo o mais bonito, o mais alegre, o mais espetacular, essas coisas que nos habituamos a ouvir em língua estrangeira. Mesmo quando não está em seus melhores dias, padece de um mal passageiro, é uma miss resfriada, porque ao Brasil tudo se perdoa, exceto que não jogue como joga o Brasil. Apontam ainda em nossa equipe virtudes que, por conhecê-la de muito perto, não enxergamos. Um pouco como, em família, se demora a admitir que a filha adolescente criou corpo. E eu aqui, na véspera da decisão, com esse nome absurdo na cabeça, Zinedine Zidane. Bobagem. A França tem um único craque capaz de nos preocupar, quando for aclamado pelo estádio em coro. Chama-se A Marselhesa, e naqueles minutos os brasileiros podem vacilar, morder a língua, ou cantar junto. Segunda-feira, seja quem for o campeão do mundo, as mulheres acordarão meio enjoadas. Terça feira, nos bares, os franceses dirão "uff" e "bof". E o Brasil? Na quarta-feira, querida, o Brasil desaparecerá do mapa-múndi, e durante quatro anos quedará submerso, para ressurgir glorioso na copa do Japão. Não é um país sério, teria dito o general francês. Houve desmentidos, houve indignação, não sei por quê. O Brasil talvez seja isso mesmo, um país que impõe respeito, quando brinca.

172. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. COM OS MEUS BOTÕES. Tostão me perguntou meses atrás, aqui mesmo em Paris, se o futebol do Denilson lembrava o Canhoteiro (ponta-esquerda do São Paulo que só eu vi jogar, na década de 50). Vinda de quem vinha, aquela pergunta me paralisou. Fiquei postado na praça, sem raciocínio, olhando para o Tostão. Se bem que, quando topamos um craque de bola no meio da rua, vestido à paisana, andando como a gente anda, falando como a gente fala, nós, amadores, sempre nos atrapalhamos. Viramos idiotas. Certa vez fui apresentado a um antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encará-lo. O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. Então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão. Formiga tinha sido um dos meus melhores botões, apesar de meio oval, um botão de galalite, vermelho. Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos com flanela, concentrados em caixa de charuto e inegociáveis. Pois bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer desmerecê-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se lhe compare, como nunca haverá ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro que só eu vi jogar. Desde já discordo de quem, concordando comigo, sustenta que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrário de nós mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas na permanente edição da nossa memória vão produzindo novos lances memoráveis. Posso vê-los sempre de uniforme, uniformes diferentes uns dos outros, num vestiário com o teto cheio de chuteiras penduradas. Reúnem-se em torno do técnico, ouvem a preleção em silêncio, mas não prestam muita atenção. Dispensam alongamentos, entram em campo e já começam a jogar. Não dão entrevistas. Não fazem cera, não atrasam a bola, não cobram lateral, não ficam na barreira, faz cada qual o que lhe dá na telha. E no entanto exibem um belo conjunto, mantendo-se invictos há anos e anos, mesmo porque contra eles não há quem se atreva a jogar. Me vendo de boca aberta, naquela tarde gelada, o Tostão não fazia idéia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça. "Ele te lembra o Canhoteiro?", perguntava o Tostão, e de cinco em cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo, enquanto vejo o Brasil jogar no Stade de France, sem Denilson. Há o grande Rivaldo, seu estilo de ema, há o nosso Ronaldinho, de quem tudo o que se diz não basta, e há um oco. Sim, a ausência do Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa Zagallo usurpou na Copa de 58, privando o planeta de ver o que só eu via. Estamos no segundo tempo, Brasil e Escócia um a um, e já me pergunto se, barrando o Denilson, Zagallo não pretende barrar o Canhoteiro de novo, 40 anos depois. Maldade minha, claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola rente à lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e toca para o meio, de calcanhar. A jogada foi bem em frente à minha cadeira, permitindo-me ver até o branco dos olhos do Denilson, e não direi o que se passou naquele instante com a fisionomia dele. Não direi de quem era a figura que vi num relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu próprio acredito nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses também viram, e ali se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que têm, e bateram cabeças entre si e fizeram um gol contra. É um garoto, o Denilson, e imagino o que será seu futebol daqui a mais ou menos 30 anos, quando estarei abarrotado de memórias. Seu drible na corrida, calculo que possa chegar a algo como a velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais à do Canhoteiro. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do bico do pé do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem tocá-la, talvez com um assobio - ele tem boca de assobiador. Verei o molejo dele, trançando as pernas diante do próximo adversário, e, de repente hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito. Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor botão. De tampa de relógio, acho. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do pé do beque.

173. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. GRITOS E SUSURROS. Em apartamento perto da Bastilha, brasileiros se reúnem neste sábado para ver Brasil e Chile pela televisão, com feijão preto, caipirinha e tudo. Aposto que durante o primeiro tempo haverá vastas emoções, urros, sobressaltos no sofá, cerveja no tapete, quem sabe algum rojão. Já na etapa final, infelizmente, pesado silêncio baixará na sala. Prevejo ranger de dentes diante do aparelho, com o próprio locutor bastante temeroso, contido, transmitindo a partida como se fosse um segredo. E se aos noventa minutos Denilson desbaratar a defesa chilena, centrando para Ronaldinho fazer um gol de letra, nossos convivas vão se entreolhar e sorrir. Um grito de gol, e da janela em frente viria a resposta de bate-pronto: "silence, merde!". Franceses não compreendem a que ponto um silêncio pode incomodar o vizinho. Brasileiros, de sua parte, não compreendem um povo que pode se afeiçoar a caracóis, bem mais que a um jogo de bola. A partir das dez da noite, mesmo que o gol seja francês, e de bicicleta, em prédios residenciais a lei do silêncio é absoluta. Durante a copa do mundo, porém, pelo menos ali nos baixos da Bastilha, essa lei é relativamente absurda, porque a paz que emana das janelas retorna janela adentro em forma de buzinas, cornetas, tambores e gaitas de fole. A vida noturna de Paris pertence às torcidas triunfantes e aos escoceses, que continuam comemorando a sua desclassificação. Com ou sem futebol, vá lá, um estrangeiro incomoda muita gente. Não me refiro ao imigrante que pega o serviço boçal nos subterrâneos, e que por instinto de defesa é mudo. Penso no viajante que, nem bem atravessa a alfândega, adquire um volume de voz acima do que tinha, como se aqui também trocassem vozes em casa de câmbio. E toma o táxi satisfeito com sua voz convertida, ciente de que falando alto todo mundo se entende. Dois estrangeiros, três estrangeiros, dez estrangeiros, patrícios que se esbarram casualmente no bulevar, e a festa já principia num idioma agudo: "você por aqui?" Encontros de viagem se assemelham nisso aos sonhos, porque colocam rostos familiares em lugar improvável. Daí os abraços, o se apalpar uns aos outros, mesmo entre quem nunca teve intimidade, e as gargalhadas quase histéricas, todos falando ao mesmo tempo, as perguntas que não esperam resposta, as extensas respostas sem pergunta. Do ponto de vista do habitante da cidade, esse sonho se inverte e é mais perturbador, pois é seu espaço doméstico que se vê ocupado por visitas imprevistas. Um hooligan na banheira, eis um pesadelo capaz de atormentar o sono de damas parisienses, nestas noites de verão. Mas os hooligans ainda não chegaram, e Paris, bem ou mal, recebe milhões de turistas todo ano. Por isso já não se abala com seus restaurantes apinhados, croatas bebendo no balcão, búlgaros berrando em dialeto búlgaro. A ninguém mais espanta que, lado a lado com uma japonesa em trajes de alta costura, sente-se um dinamarquês de tênis, meião, calção e camisa com número nas costas. Um mexicano de sombreiro, em restaurante de queijos e vinhos, se pedir uma coca-cola não será mais deportado. O fato é que tenho visto de tudo nesta terra, menos o mau humor do francês. Percebo, isso sim, que Paris está muito ofendida. Porque Paris foi feita para ser olhada, necessita ser olhada, não pode passar sem, é um vício. Mesmo o exército de ocupação, quando entrou com seus tanques em Paris, rendeu-se a ela. Tanto se apegou a ela, o alemão, que ao perdê-la por pouco não a explodiu. E hoje, pela primeira vez em séculos de história, a cidade é invadida por forasteiros que não lhe prestam a menor atenção. Em algum momento Paris deve se perguntar, estarei gorda? Os forasteiros nem sequer andam nela, ela que foi feita para ser andada. Os forasteiros se estabelecem nos bares e ficam olhando para o futebol na telinha. Desdenham seus jardins, seus museus, seus palácios, suas pontes, instalam-se nas praças, de costas para os monumentos, e ficam vendo o futebol no telão. No fundo, eu às vezes também acho que copa do mundo em Paris é um contra-senso, como um congresso de cegos em Granada, ou no topo do Pão de Açúcar. Bebi um conhaque, e agora sou tomado de carinho por esta cidade. A noite é propícia para uma caminhada, tendo cessado a chuva. Brilham as pedras do calçamento antigo, pedras arredondadas tipo pé-de-moleque, o que me traz súbito desejo de sapatear. Sapateio e, sinceramente, consigo tirar um belo som, que repercute na rua estreita. Vejo então uma janela que se abre, vejo surgir a cabeça de uma senhora de touca, sua cara nada boa, posso ver sua garganta, já sei o que ela vai gritar, mas dobro a esquina e aperto o passo. Atravesso o Sena, desço as Tulherias, deslizo pé ante pé por ruas cheias de glória, de placas, de luto. Aqui nasceu Voltaire, aqui viveu Victor Hugo, Cézanne pintava nesta casa, Debussy morreu aqui, e lá vou eu mais orgulhoso que Paris, pensando em Nilton Santos, Zizinho, Pagão, pensando em Castilho, Píndaro e Pinheiro.

174. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. COM REVERÊNCIA, CHICO BUARQUE REVELA OS BASTIDORES DE UMA PARCERIA MUSICAL. Essa carta revela, de modo luminoso, os bastidores de uma importante parceria musical. Valsinha, música de Chico Buarque e Vinicius, tem um parto difícil. Chico, filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, um amigo do poeta, trata Vinicius com reverência. Sabe o que pensa e o que deseja, conhece as vastas diferenças entre ambos, mas desfia seus argumentos com firmeza, sem descuidar da suavidade. Os dois constroem um currículo de canções famosas como o Samba de Orly - composta a seis mãos com Toquinho - e Gente Humilde - letra a quatros mãos,sobre uma melodia de Garoto. E constroem, sobretudo, uma amizade erguida sobre o afeto e sobre o susto. Rio, 2 de fevereiro (sem o ano). "Caro Poeta, Recebi as suas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o Apesar de Você. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gessy, e se não gostar L. se, ou f..me eu. - Valsa Hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí. Valsa Hippie, ligado à filosofia hippie como você o ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da t... final. "pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que "pra seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens. Vamos lá: - Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. E gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ó poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisa estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, também dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos. - Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe. - A terceira é que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz "e cheio de ternura e graça" em vez de "e foram-se cheios de graça". Agora estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você me disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente. Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, porque deu bolo como o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho solando Primavera. Dê um abraço na Gessy, um p... no Toquinho e peça à Silvina para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

175. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. O MOLEQUE E A BOLA. À espera da Noruega, e estudando outros rivais com gráficos e afinco, vi Áustria x Chile, vi Itália x Camarões, depois vi mais uma partida cujo resultado não recordo, pois era um sonho e só me lembro do gramado azul. Acordo, almoço vendo a resenha da copa, vejo África do Sul x Dinamarca, vejo Arábia Saudita x França, e na minha cabeça as idéias já começam a carambolar. Porém, ainda que esses times jogassem com uniformes embaralhados, penso que não seria difícil distinguir o país rico do país pobre. Os pobres são os folgados, os esbanjadores, os exibicionistas, matam a bola no peito, a bola gruda ali que nem uma goma e o locutor francês faz "ôôôôô, bien joué, magnifique!". Ou, como diz o locutor brasileiro, eles têm intimidade com a bola. De fato controlam, protegem, escondem, carregam a bola para cima e para baixo, e em vez de intimidade, talvez tenham ciúmes dela. Já os ricos são alunos de outra escola, uma escola prática. Recebem a bola e um-dois, tocam, recebem, desprendem-se dela, não fazem questão dela, correm soltos por toda parte. Parecem conhecer e ocupar melhor o espaço de jogo, podendo se dizer que têm intimidade com o campo. Assim, quando se enfrentam países ricos e países pobres - na Holanda eles se enfrentam dentro do mesmo time - estão se enfrentando os donos do campo e os donos da bola. Eram eles os donos da bola, marca Mac Gregor, quando sem refletir a desembarcaram na América do Sul, um século atrás. No Rio, em São Paulo, em Buenos Aires, os ingleses detinham, além de todas as bolas, o monopólio das chuteiras, das camisas listradas e dos campos de grama inglesa, como manda a regra, perfeitamente planos e horizontais. Em sensacionais torneios, com turno e returno, jogavam então Inglaterra versus Inglaterra. Aos nativos, além da liberdade de torcer por uma ou outra equipe, sobrava a alegria de catar e devolver as bolas, que já naquele tempo os britânicos catapultavam com freqüência. Em 1895, segundo a crônica paulistana, confrontavam-se Railway Team e Gas Team, quando huma pellota imprensada entre dous athletas subiu aos céus e foi cahir às mãos de hum assistente. D'improviso, o cidadão seqüestrou a pellota. Metteu-a sob o braço e escafedeu-se no matagal, perseguido por dezenas de crioulos. Foi alcançado ao cabo de meia hora, às margens do rio Ypiranga. E celebrou-se alli, em terreno pedroso e cascalhudo, o primeiro jogo de bola entre brasileiros, com cincoenta actuantes e nenhum goalkeeper. Livremente inspirada no football association, a pelada é a matriz do futebol sul-americano e, hoje em dia mais nitidamente, do africano. É praticada, como se sabe, por moleques de pés descalços no meio da rua, em pirambeira, na linha de trem, dentro do ônibus, no mangue, na areia fofa, em qualquer terreno pouco confiável. Em suma, pelada é uma espécie de futebol que se joga apesar do chão. Nesse esporte descampado todas as linhas são imaginárias - ou flutuantes, como a linha da água no futebol de praia - e o próprio gol é coisa abstrata. O que conta mesmo é a bola e o moleque, o moleque e a bola, e por bola pode se entender um coco, uma laranja ou um ovo, pois já vi fazerem embaixada com ovo. Daí, quando o moleque encara uma bola de couro, mata a redonda no peito e faz a embaixada com um pé nas costas. E quando ele corre de testa erguida no gramado liso feito um mármore, com a passada de quem salta poças por instinto, é uma elegância. Mas se a bola de futebol pode ser considerada a sublimação do coco, ou a reabilitação do ovo, ou uma laranja em êxtase, para o peladeiro o campo oficial às vezes não passa de um retângulo chato. Por isso mesmo, nas horas de folga, nossos profissionais correm atrás dos rachas e do futevôlei, como o Garrincha largava as chuteiras no Maracanã para bater bola em Pau Grande. É a bola e o moleque, o moleque e a bola. No fim da tarde vejo entrar um bando de garotos, de seus dez, doze anos, num desses complexos esportivos que a prefeitura administra na periferia de Paris. Não estão para brincadeiras. Chegaram todos paramentados, provavelmente de metrô, e gastam quinze minutos correndo em círculos. Há meninos muito, muito brancos, outros muito, muito pretos, e outros tantos bastante árabes. Já se dispõem em campo, no sistema três-cinco-dois, antes mesmo do primeiro apito. Um marmanjo vestido de escoteiro autoriza a saída, e a bola rola correta na grama sintética. Penso nas escolinhas de futebol como a do Zico, ou a do Rivelino, onde o Toquinho matriculou o filho. Aliás, o Rivelino disse que o menino leva jeito, porque puxou à mãe. Tento imaginar - e não consigo - que espécie de futebol será o nosso, se um dia tivermos escolinhas para todos os moleques com o talento de um Pelé, ou pelo menos com o da mulher do Toquinho. Distraído, quase perco o primeiro gol, assinalado pelo árabe da camisa 9. Mas posso descrevê-lo: driblou dois na corrida, ficou cara a cara com o goleiro, fez que ia chutar, arrastou a bola com a sola do pé direito, estatelou o goleiro, concluiu com um toque de canhota, abriu os braços e saiu cantando: "Ronaldôôôôô".

176. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. OS MELHORES MOMENTOS. Hospedou-se no Hotel Fraternité, perto da Estação do Norte. Quarto de dez metros quadrados, televisão vinte polegadas, pia, frigobar, banheiro no corredor, estava de bom tamanho. Dia dez de junho foi a Saint Denis, misturou-se aos brasileiros na porta do estádio, gritou "ah, eu tô maluco", tomou o metrô de volta e no Hino Nacional já estava sentado na ponta da cama, a janela escancarada. Vitória do Brasil, e ele ali respirando o clima da copa. Tão logo terminou o jogo ligou para Naná, mas caiu na secretária eletrônica. Naná odeia futebol. Chegou com dois mil dólares costurados por dentro da calça de moletom, que não tira do corpo. Na bagagem trouxe as cuecas, as meias, doze camisas amarelinhas e o terno xadrez para ocasiões especiais. Descobriu a dois passos do hotel um bar chamado 44 e simpatizou com o garçom tunisiano, pinta de cearense. Almoça ali todo dia por quarenta e quatro francos, gorjeta incluída, prato completo, doce, café expresso, tudo muito bom. Mas também não é lá dessas coisas que ouvia falar. Dá direito a um copo de beaujolais, que é o que ele mais aprecia. "Vinho nacional!", fala, e o tunisiano ri muito, ri além do necessário, deve entender outra piada. Foi a Nantes, respirou o clima, gritou "ah, eu tô maluco", viu a goleada num telão, voltou de madrugada no TGV, coisa de primeiro mundo. No bar repleto de brasileiros tocando corneta, bebeu vinte latas de cerveja com uma japonesa de Tupã, meio barriguda porém meiga. Na chegada a Paris ela disse "foi um prazerão", entrou num ônibus com seu grupo, e era ele o único brasileiro sem grupo. Voltou a pé para o hotel, chegou às cinco da manhã, meia-noite no Brasil, achou que era uma boa hora para pegar Naná em casa. Secretária eletrônica. De certa forma foi ótimo, porque ele estava assim eufórico e ela era capaz de nem saber quem jogava. A viagem à França é vapt-vupt, foi o que lhe disse no Galeão, porque esse timeco não passa da primeira fase, e Naná com voz mole respondeu "Deus te ouça". Entre um jogo e outro, dá tempo de ver o Louvre, Notre Dame, adquirir conhecimentos, mas com duas semanas não restam grandes atrações. Vitrines, passa longe, já tendo escolhido o perfume de Naná, um frasco tamanho família imitando a taça Jules Rimet. À noite compra um sanduíche de presunto e leva para comer na cama com o vinho, que encontra barato no supermercado. Vê a partida, qualquer partida, estuda a tabela, adormece assistindo a uns debates confusos, sonha com o matemático Oswald de Souza, acorda de madrugada com a garganta seca e o aparelho chuviscando. Aí toma água do frigobar, faz xixi na pia, torna a se deitar, apaga tudo. Custa a dormir porque tem pensamentos, e o quarto é abafado, os farelos da baguete pinicam a pele. Mulher, até agora não rolou. Também é verdade que não são dessas coisas que ouvia falar. A melhor que viu, na estação do metrô, era morena e talvez fosse carioca, vista de costas até lembrava Naná. Aproximou-se, quis puxar algum assunto, tossiu, de repente falou "nasceu o bebê da Xuxa", mas a moça nem piscou, continuou olhando os trilhos com cara de doida. Para ir a Marselha, o orçamento andava curto. Viu a derrota da ponta da cama e achou mesmo que voltaria mais cedo para casa, pois aquele timeco não ganhava nem do Chile. O hindu que manda no hotel talvez pensasse a mesma coisa, e solicitou em péssimo espanhol que ele pagasse sem embargo a quinzena vencida. Esgarçou o moletom ali na cara do hindu, sacou quinhentos dólares e quitou a conta. Era alta, por causa dos quinze telefonemas internacionais, e ele nem ao menos falava com Naná. Se bem que, só para deixar um beijo no coração e o telefone do hotel - que Naná pode ter perdido quinze vezes - tinha de ouvir umas músicas lentas que ela agora punha na máquina antes do bip. Jurou que nunca mais ligaria, mas não agüenta quando Cesar Sampaio abre o placar contra os chilenos. Secretária. É depois desse lance que, sem mais nem menos, dá pane na televisão, a imagem rateia, fica impossível ver o jogo. Muda de canal, e na tela só vê Naná. Dá um cascudo no aparelho, arranca o fio da tomada e continua a ver Naná na tela, corada, exuberante como em seus melhores momentos. Só que ela evolui num apartamento esquisito, e usa boné, usa short azul e camisa amarela, e grita que está maluca nos gols do Brasil. Na noite de sexta-feira despiu a camisa para o exercício de torcer contra o Brasil, e era exatamente como se tivesse uma adaga enfiada entre as costelas. Porque a cada arrancada da seleção, sorria sem querer com o corpo inteiro, e se doía todo. Se era a Dinamarca que atacava, falava baixinho "dá-lhe, Dina", e com isso a adaga se mexia ali dentro. Corria o segundo tempo, o jogo lá e cá, e ele já era um ser contorcido. Mas quando Rivaldo marcou o terceiro gol, saltou contra a vontade, deu um murro no teto, uivou, caiu prostrado na cama e pensou em Naná. Respirou fundo. Tomou um banho no fim do corredor e vestiu o terno xadrez. Saiu em direção a Pigalle, entrou numa boate chamada Les Chiens, pediu uma garrafa de champanhe em balde de gelo e convidou a garçonete para um brinde. Superpintada, voz grave e sensual, peitos grandes, a saia que era um lenço, quando cruzou as pernas parecia atriz americana, exceto pelos joelhos que eram de jogador de futebol. Entornou três garrafas, deixou a espelunca chutando o balde, rodou pela cidade, voltou ao hotel dia claro. Sentiu culpa por ter feito mau juízo de Naná, telefonou para escutar os boleros e deixar um beijo no coração, mas foi Naná em pessoa quem atendeu, falou "viva o timeco", soltou uma gargalhada e desligou sem esperar explicação. "Alô!, alô!, alô!", gritou, e o hindu da portaria respondeu "si?". Então mandou chamar um táxi para o aeroporto. Amontoou na mala as camisas imundas, as meias, as cuecas, o perfume de Naná, desceu as escadas, meteu as unhas no moletom, jogou os dólares na cara do hindu e saiu batendo a porta do Hotel Fraternité.

177. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. FRANCESCO DE ROMA. Tinha oito anos em fevereiro de 1953, quando desembarquei em Roma com minha mãe e tantos irmãos. Meu pai já estava aqui há alguns meses, como professor de Estudos Brasileiros. Recordo-me de que era já noite funda quando entramos no palazzo (como os italianos chamam os antigos edifícios) da Via San Mariano, que papai nos tinha descrito nas suas cartas. Achei o apartamento um tanto grande demais, muito velho, muito escuro, muito úmido. E tinha um problema com o aquecimento. Naquela noite, vestido com o capote, debaixo dos cobertores, fiquei imóvel na cama, os olhos abertos. No dia seguinte, já tinha sol no jardim da casa e tudo era novidade. Tinha a pastaciutta, o copo de vinho, a Via Nomentana, Villa Torlonia, Porta Pia, o ônibus pela Piazza Fiume, tinha o Cine Capranica, o Cine Capranichetta, tinha a Lollobrigida, tinha Pane, amore e fantasia. E eu corria em bicicleta pelo Viale Gorizia, brincava com novos amigos, aprendia belas palavras, como calcio di rigore (pênalti), rovesciatta (rebatida), Sampdoria (clube de Gênova), Sentimenti IV (goleiro do Juventus), e palavrões que ensinava às minha irmãs. Minha mãe conhecia bastante bem o italiano, mas não os jogadores de futebol e palavrões, e meu pai tinha um certo acento napolitano, porque imitava roberto Murolo ao cantar Anema e core. Papai tinha também uma professora de italiano, e eu me lembro bem do dia em que a apresentou à família, mais ou menos com o mesmo orgulho com que tinha nos introduzido naquele palazzo frio, empoeirado e meio arruinado. A signorina, porém, era muito jovem, viçosa, luminosa, a pele muito clara, os cabelos muito negros, os olhos enorme, e ao olhá-la compreendi logo a palavra desiderio (desejo). Tinham me explicado que a Itália era um país pobre, apenas saído de uma guerra atroz. Não nos faziam estudar numa escola italiana porque o ensino não era satisfatório, assim diziam. Fomos matriculados na Notre Dame International School, e eu pensava sempre no meu pai que, vindo de tão longe, talvez não fosse um professor satisfatório ou dava lições numa escola atroz. A minha casa era uma escola onde se falava em inglês, lia-se Mark Twain e se jogava beisebol. Quando a bolinha era atirada fora dos muros, coisa que acontece a cada minuto naquele esporte bizarro, cabia a mim procurá-la lá na Via Aurelia ou pedi-la ao jardineiro de uma casa vizinha. Quase todos os meus colegas eram meninos norte-americanos que não tinham o hábito ou a necessidade de falar a língua dos outros. Ali também fiz algumas amizades, mas na verdade não amava tanto a escola americana, porque lá dentro me sentia mais estrangeiro do que na rua. De fato, para os meus colegas, eu, um certo Francisco, originário de um vago Brasil, era italiano e me chamava Francesco. Em janeiro de 1969, quando voltei a Roma, reencontrei os monumentos, os palazzi, as fontannne (fontes), os viali (avenidas), tudo ali, tudo igual às minhas recordações, somente um pouco menor. Logo na primeira manhã caminhei pelas ruas da minha infância, certo de poder rever os mesmos personagens de tantos anos atrás, talvez pequeninos eles também. Senti-me porém como o míope de Italo Calvino, encontrando rostos desconhecidos ou cumprimentando gente que não me respondia. À hora do almoço, perdi-me num labirinto perto do Pantheon. Vaguei pelos becos desertos, entre casas amarelas com portas e janelas fechadas, depois me encontrei numa praça com a estátua de um elefante, e à sombra da igreja tinha um carabiniére que dormia sentado no cavalo. Despertei o carabiniére, porque precisava de uma indicação, mas em seguinda permaneci mudo. Vinham-me à mente palavras soltas como Sampdoria, calcio d'angolo (córner), e naquele momento me dei conta de que não sabia mais falar o italiano. Humilhado, voltei ao hotel, onde minha mulher, grávida, falava ao telefone com o Rio de Janeiro. As notícias do Brasil não eram maravilhosas, de modo que minha permanência no exterior, prevista para três semanas, devia se prolongar por uma duração incerta. Estabeleci-me em Roma, deixando o Albergue Raphael por um apartamento num bairro que parecia mais um subúrbio do Rio. Roma, a sentia agora mais dura, como se suspeitasse de que vivia nela pensando numa outra. Era verdade, mas ao mesmo tempo estava sinceramente decidido a não pensar mais na minha cidade. O meu coração queria pensar em Roma, somente Roma. Gravei um disco em italiano quase sem acento, fui à radio e à televisão, cantei no meio da Piazza Navona, mas Roma não me compreendeu. Inventei um samba em dialeto romanesco, mas Roma não é boba. Disse a Roma que no Rio não me queriam, disse-lhe que não podia viver assim no ar, sem uma cidade. Era ridículo, queria desesperadamente que Roma me aceitasse. Então ofereci a Roma minha primogênita. Minha filha Sílvia nasceu romana no fim de março, e Roma mandou à Clínica Moscati dois poetas. Vinícius de Morais fez uma enfermeira gravar o primeiro choro da criança. E à mãe ainda adormecida, Giuseppe Ungaretti dizia: "Bella!, bella!". Depois Roma me acolheu no Piazzele Flaminio, num apartamentinho com um balcãozinho de onde se via a Villa Borghese. Dali saía a pé pela Via del Corso, Piazza Colonna, o Cine Capranica, o Cine Capranichetta e daí pela Via Tritone, Fontana de Trevi e o restaurante Al Moro, do qual uma noite vi sair Federico Fellini e emudeci, porque me pareceu que viesse a cavalo. No fim, Roma me deu poucos amigos, mas amigos feitos como Roma, para sempre. Nesta cidade vivi ainda um ano e meio, e aqueles não podiam ser os tempos mais felizes da minha vida. Mas com o consenso de Roma, nela vivi um tempo que, em outra parte, talvez teria sido invivível. Em Fiumicino (aeroporto romano), o policial olha e torna a olhar cada folha do meu passaporte, sacode a cabeça, procura o meu nome no computador, chama alguém pelo telefone. Já esperava toda essa operação. Estamos já num país rico, e o meu documento é sempre aquele de um cidadão sul-americano. Fecha o passaporte, reabre o passaporte, me observa e observa a foto, na qual nem eu mesmo me reconheço, porque me vejo com a cara de meu pai quando veio ensinar na Universidade de Roma. "Músico", exclama enfim o policial, e de repente se põe a tocar um tambor imaginário. Revela-me que ele também é um contrabaixista diletante, e me restitui o passaporte dizendo-me um fã da nossa música, a música étnica. "Musica latina", acrescenta, e me diverte saber que no coração do Lácio se chama latina uma música tão estranha. Giro agora pelo aeroporto que não recordava tão grande. Depois de 30 anos o ampliaram, sem dúvida, mas é possível também que com o tempo os objetos da memória comecem a comprimir-se, como se estiessem dentro de um ônibus superlotado. Quando consigo pegar minha maleta, que rodava também solitária no aeroporto, me vejo diante de uma jovem com um sorriso que me é familiar. É uma signorina tão viçosa, tão luminosa, com a pele tão clara, os cabelos tão negros, os olhos tão grandes, que poderia ser uma professora de italiano. Mas ao contrário é a agente de turismo que me pergunta: "may I help you?". No, grazie, le dico, il mio nome é Francesco. (Discurso escrito em Italiano e lido por Chico Buarque de Holanda, no dia 31 de março, ao receber o Prêmio Roma-Brasília, Cidade da Paz, conferido pelo prefeito de Roma, Francesco Rutelli. A versão do italiano para o português foi feita por Araújo Netto, correspondente do JB em Roma.)

178. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Estava mal chegando a São Paulo, quando um repórter me provocou: "Mas como, Chico, mais um samba? Você não acha que isso já está superado?" Não tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em voga. Já era hora de enfrentar o dragão, como diz o Tom. Enfrentar as luzes, os cartazes, e a platéia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra frente, de franca oposição. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionária, pelo meu desinteresse em participar de uma passeata cívica contra a guitarra elétrica. Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o tamborim. O importante é ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco. Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua música estereotipada, onde samba, toada etc. são ritmos virgens para seus melhores músicos, indecifráveis para seus cérebros eletrônicos. "Só tenho uma opção, confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimúsica. Veja, os Beatles, foram à Índia..." Donde se conclui como precipitada a opinião, entre nós, de que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malícia, a malemolência. É certo que se deve romper com as estruturas. Mas a música brasileira, ao contrário de outras artes, já traz dentro de si os elementos de renovação. Não se trata de defender a tradição, família ou propriedade de ninguém. Mas foi com o samba que João Gilberto rompeu as estruturas da nossa canção. E se o rompimento não foi universal, culpa é do brasileiro, que não tem vocação pra exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos ansiosos por um primeiro prêmio. Mas não é bom usar de qualquer recurso, nem se deve correr com estrondo atrás do sucesso, senão ele se assusta e foge logo. E não precisa dar muito tempo para se perceber "que nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha."

179. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Acordo com nova disposição, penteado novo. Jornalista Francisco, prazer, exercendo meu ofício com toda a assunção. Já começo até a receber cartas, vejam só. Um jornalista recebe muitas cartas. Transcreve as amáveis quando falta assunto e responde às odiosas com fina ironia. De qualquer modo, o jornalista sai-se sempre tão bacana que é comum duvidar-se da autenticidade de sua correspondência. Pois dou hoje minha entrada no rol dos suspeitos afirmando que desde a minha estréia neste pasquim, recebi um trecho de carta, dois pacotes de cigarros, um telefonema e uma dúzia de lingüiças. A carta partiu da Sra. Lúcia Reis, de Ipanema, flamenguista, casada com flamenguista, naturalmente. No gostou do meu primeiro artigo, isto é, não gostou da vitória do Fluminense. A Sra. Lúcia Reis, de Ipanema, informa que ser Flamengo é morar no Encantado. É tomar umas e outras, sentar na geral, participar do suor comum, coisas que também aprovo sem o menor pudor. Depois ela fala da coluna social, de impedimento, de Armandinho, e de outros argumentos que não entendi bem. Mas deixo de responder diretamente à Sra. Reis, em cuja caligrafia reconheço a inspiração do marido, para desfazer um equívoco maior. Duma vez por todas: sou Flamengo. Todo bom tricolor, a princípio, é rubro-negro. Porém, é um rubronegro tão curtido e fermentado pela vida que, um belo dia, pode chegar à mesa e declarar: "Irmãos, consegui! Finalmente torço pelo Fluminense." E os irmãos, pondo-se em fila indiana, inclinando-se e cumprimentando-o: "Parabéns, companheiro, você merecia." Bem-vindos os vinte maços do meu cigarro enviados por João Manuel Fernandes, de São Paulo. Menos bem-vinda a notícia que os acompanha: a minha marca preferida está acabando. Parou no Rio, parou em Minas. Seu último reduto é a valente capital bandeirante que não pode parar. Aí fico meditando sobre a ingratidão humana. Porque, quando a gente adota um cigarro, presume estar fazendo uma opção para o resto da vida. Assim fiz eu aos 15 anos, com precoce determinação. Vieram os cigarros com filtro, não me alterei. Não me arrebataram os cigarros longos king size, marca de nobreza e distinção. Resisti até ao anúncio da moça loira, aquela da boca grande, disposta a qualquer aventura com o homem que fumasse mentolados. Veio o cigarro americano, a propaganda do câncer, veio o aumento, a tosse, e cá estou eu inexpugnável, dez anos de fidelidade, cinqüenta cigarros por dia. Façam as contas, senhores fabricantes, pensem no caso e tenham piedade de mim. Tom Jobim telefona de Londres... Diz ele que Londres é bom, é civilizado, é civilizado mas é bom. Então ele mostra o bolero que compôs para o filme. O João Gilberto faz muito bem de estar lá no México, diz ele. O Vinícius voltou ao Brasil, né? É, o Vinícius é que está certo. O Caetano Veloso também. Aí ele manda eu esperar um pouco e fica aquela linha pendurada na Europa. A telefonista não gosta disso e começa a brigar comigo. Volta o Tom e diz que o Drummond é que tem razão: "O poeta é um ressentido, o mais são nuvens." O Caymmi também sabe o que diz. Quando o cobrador pergunta pelo último samba, o baiano responde que emburreceu, só isso. Em Londres ninguém cobra nada, tem aquela cerveja inteligente e aquela grama bem cortada. Em Londres só não come bem quem não conhece o Mercado e as sutilezas da língua. Tom, por exemplo, vai à compra toda manhã e ordena: "Dry meat and string beans", ou seja, carne seca e feijão de corda, que além de bom engorda. Por falar em comida brasileira, e para terminar, quero agradecer à alma bondosa e anônima que deixou lingüiça na porta de casa. Era só o que faltava. Enfim tenho a matéria prima para organizar a maior feijoada de Roma, assim que as fraldas de minha filha desocuparem o caldeirão.

180. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. A exemplo da galinha e do ovo, esporte e indústria têm-se gerado reciprocamente na Itália. A melhor época da bicicleta italiana coincidiu com a glória de Fausto Coppi nos giros ciclísticos europeus. Escalando barrancos a trancos e pedaladas, Coppi foi o justo herói para os anos difíceis de após guerra. Agora, pernas pro ar que ninguém é de ferro. A monotonia vingou na Itália como em nenhuma outra parte. E para ilustrar o sucesso da mercadoria, eis que surge imbatível o campeão mundial de motociclismo, um italiano, boa pinta, chamado Agostini. No entanto, dizer que Agostini foi simplesmente inventado pela indústria é como insinuar que Pelé jogue do jeito que ele joga para satisfazer a fábrica que exporta chuteiras com o seu nome. A verdade é que esse corredor está atingindo a popularidade dos grandes nomes da canção, do futebol e do cinema. É o modelo que faltava para desenfrear de vez o já fabuloso consumo de bicicletas motorizadas. Sempre em dia com a onda, comprei também a minha motoneta. É uma vespa de 50 cilindros, ou 50 cilindradas, ou pistões, não sei bem, é uma vespa de 50 alguma coisa. Todos os meninos do bairro têm a sua, e domingo a gente promove umas corridas legais, lá na vila Borghese. Com isso evito a amolação de viver pedindo chave de carro ao papai. E não bastasse o prazer que a motoneta proporciona, precisa ver como ela é útil durante a semana. Segunda-feira, de gravata e capacete, vou motorizado ao centro da cidade e estaciono a bicha de qualquer jeito. O diretor tem uma Mercedez grande e uma raiva enorme de minha pessoa. Cáspite, Tchico, você deveria ser o último a montar nessas bicicletas. Venha cá que te faccio vedere una cosa. Ecco, vedi questo? Ele abre um fichário e mostra a crise do disco na Itália. A queda começa no ano passado, justamente quando aparece a moda desses motorini maledetti. Pois é natural, digo eu. O jovem que, até então, comprava dois discos por mês, com as mesmas duas mil liras paga a prestação de uma mini motocicleta. Depois, as garotas não vão sair comigo só porque tenho um disco do Morandi em casa. Você sabe, elas hoje querem saber é de velocidade, emoção, aventura, e com a minha vespa chego a dar oitenta por hora na descida. Ma stai attento, Tchico, que você já não é um ragazzo. Se os seus discos encalharem, se a fábrica falir, quem é que vai pagar a benzina del tuo motorino? Quem paga o latte de tua figlia? Ora velho, não tem problema, adoro correr esses riscos. Adoro apostar em cavalo azarão. Não é à toa que escrevo para um jornal carioca que toda semana é motivo de apostas, se vai a falência neste ou no próximo número.

181. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. É difícil voltar a O PASQUIM depois de tanta ausência, principalmente porque prometi, e vou ficar devendo, uma entrevista com Josephine Baker. Para quem não se lembra ou não era nascido, Josephine foi a bacana lá da Martinica, a tal que se vestia de banana nanica. Profetizou a minissaia, valorizou a pele mulata, espalhou o charleston, depertou paixões e escandalizou os puros. Pouco a pouco foi trocando o escândalo pela caridade pública, as bananas pelo vestido longo. Hoje, com 63 anos, volta ao palco porque não tem outros meios e precisa sustentar 14 filhos adotivos. Acompanhei-a, junto ao bravíssimo chitarrista brasiliano Toquiño, em seus 45 dias de tournée pela Itália. 45 vezes esperei a oportunidade de lhe falar d'O PASQUIM, do Sérgio Cabral que reclama e da leitora que me chama de relapso. Mas Josephine só dá entrevistas coletivas, sempre muito simpática, sempre muito profissional, sempre mãe adotiva de 14 crianças de todas as raças. Evidentemente não a impressionei, nem como repórter amador, muito menos como menino desamparado. Num desses coquetéis à imprensa cheguei até a posar ao lado dela para as fotografias. Dia seguinte comprei todos os jornais, mas só deu retrato de Josephine Baker às vezes com um pedaço de bochecha minha. Sem fotos e sem entrevista, resta-me a lembrança de 45 espetáculos assistidos vagamente dos bastidores. Josephine entra em cena pedindo desculpas, pois na sua idade não há pernas que agüentem um charleston. Aí ela dança um charleston. Hélas, mes amis, já não tenho pernas para a minissaia. Aí ela senta lá dum jeito que o público aplaude com entusiasmo os 63 anos sem varizes ou celulite. Segue uma bossa-nova francesa que não é boa não. Boa é a sua interpretação de "La vie en rose". Fala de Edith Piaf com muito carinho, muda para um potpourri de boogie-woogies, desce à platéia e vai conversar com a primeira fila. Geralmente perco essa parte do show porque tem alguém que me procura no camarim. Chego lá, não paga dez, é brasileiro. "Eu estava aqui passando e vi seu nome..." Brasileiro está sempre passando em qualquer fim-de-mundo. Feitas as confraternizações pergunto como vão as coisa no Brasil e o brasileiro diz que vão mal, apesar da classificação nas eliminatórias para o México. No resto, diz ele que as coisas vão muito mal porque a televisão é aquela mesma coisa, os programas não mudam, só tem um agora que as pessoas ficam provocando até que Rio e São Paulo começam a brigar. "Fora isso, Juca, muitas saudades de você, daquela sua música, A praça, minha filha sempre pergunta onde é que anda o Juca, e tem meu filho que todo mundo acha que é a sua cara." Antes de se despedir, o brasileiro ainda me chama de Juca umas cinco vezes e diz que é meu muito admirador. Voltando ao show, encontro tudo mudado, a luz roxa, a música solene e Josephine que dedica uma mensagem de paz à humanidade. Canta "Quand je pense a ça", e o ça que ela pensa são os pobres órfãos, as guerras, os preconceitos raciais, etc. Quando pensa nisso, dá-lhe uma espécie de tonteira e ela cai no chão com as mãos no rosto, a cortina sobe e desce, o público aplaude e só então ela esquece os pobres órfãos, as guerras e os preconceitos raciais. Levanta-se e manda todo mundo sorrir ao amor, sorrir à vida, sorrir ao próximo, sourrir toujours sourrir, encerrando o espetáculo com aquilo que o Ciro Monteiro costuma chamar de hipotenusa final.

182. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Saiu evasão, a palavra da moda. Neste verão todos vão de evasão. Contestam a evasão. Dão os jornais: o movimento financeiro das indústrias discográficas italianas, em 1968, superou os 170 bilhões de cruzeiros velhos. Sublinhe-se que os melhores fregueses habitam a região mais pobre do país, tais como a Calábria, a Sicília e a Sardenha. Que significa isso? Evasão. A torcida do Cagliari, na Sardenha, impediu que se vendesse o centroavante Riva, Pelé mediterrâneo, pela soma de 9 bilhões de cruzeiros velhos. Os trabalhadores da cidade decidiram sacrificar parte do salário para manter seu herói em casa. Evasão, é claro. Tem um outro Riva, industrial de Milão, que enfiou a bancarrota no bolso e fugiu para o Líbano. Evasão? Não senhor, ai é que você se estrepa. Evasão, no sentido atual do termo, é uma fuga sem dinheiro, sem remédio e sem sair do lugar. A música e o futebol italianos estão, comercialmente, mais desenvolvidos que no Brasil. Vide prova no preço de um jogador ou na vendagem de um disco, aqui mais que lá, dez vezes mais. Portanto, dez vezes mais ferozes urlam os críticos da evasão. Sem querer perder meu emprego (de futebolista, lógico), peço permissão para urlar junto. Também acho um absurdo. O pobretão de bicicleta sonhando com os astronautas. A mocinha sem namorado comprando disco de consolação. O menino descalço fazendo gol com bola de vento. O preço que pagam por um minuto de evasão é de fato escandaloso. Eu mesmo, ao ver o Imposto de Renda, fiquei achando que não deveria ter ganho tanto assim. Mas o que me espanta é a agressividade que os técnicos em evasão descarregam sobre os ídolos populares. Aí já deixo de compartilhar, porque excesso de rancor afeta sempre o funcionamento do pâncreas. Os mais irritados são justamente os jornalistas encarregados de comentar a música popular. Exercem seu ofício com tamanha má vontade que a gente fica pensando: de duas, uma. Ou esse cara queria cantar e não tem voz, ou queria comentar política internacional e o diretor do jornal não deixa. No mundo da canção italiana não há lugar para a canção desvinculada do esquema industrial. Se faz sucesso, o crítico dá nota três porque é aquela besteira comercial de sempre. Se faz fracasso, a nota é dois porque onde já se viu uma canção popular que ninguém entende, é produto encalhado, é prego de duas cabeças. Apenas a título de informação deixa acrescentar que cantor mais compositor, juntos, não percebem num disco mais que 12% de seu preço de custo. Nos demais 88% ninguém ousa atirar tomates. Diga-se de passagem que a maior acionista da maior fábrica de discos italiana é uma potência econômica religiosamente protegida de qualquer repreensão. E olha que não tenho nada de pessoal contra esse Papa. Só acho que o João XXIII era mais bacana.

183. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. Ser antiflamenguista e ostentar no meio da cara um diploma de ressentido. É detestar Mangueira, o carnaval e tudo o que cheire a popular e unânime. O neném desmamado, o menino asmático e o homem traído, esses terão sempre o direito de gritar contra o Flamengo. Por isso mesmo é muito fácil ser rubro-negro. Fácil de mais. É como ser a favor do sol no meio do deserto, ou comemorar o Dia da Árvore no coração da Amazônia. Aliás, nunca existiu um flamenguista. Flamengar é verbo imperfeito que só se conjuga no plural. Por exemplo: E advogo, tu bates o ponto, ele mata mosquito; nós flamengamos, vós flamengais, eles flamengam. Mas torcer pelo Fluminense, modéstia à parte, requer outros talentos. Precisa saber dançar sem batucada. O tricolor chora e ri sem ninguém por perto. Ele merece um campeonato, ele merece. Antes mesmo de ser informado, via satélite, por essa estranha seita chamada "Jovem Flu", fiquei sabendo da notícia por meu pai, que é Bonsucesso. Um "Velho Bom", em suma. Depois veio o telefonema dum bando de amigos, jogadores e rodrigues, cujo amontoado de vozes deixou-me entender pouco mais que a confirmação da vitória. Mas foi o bastante para me deixar emocionado e sem sono, fumando na janela. Eram cinco horas da madrugada e ninguém se manifestava nas redondezas do Vaticano. Ignoravam o campeão carioca num silêncio canônico, donde pude constatar que, naquele exato momento, em assuntos de futebol eu era o homem mais feliz de Roma. O amigo Franco Beretta, co-proprietário do bar Nuova Sicília, ofereceu-me um vinho pela vitória do Fluminense no campeonato brasileiro. Bom, eu disse brasileiro para simplificar, porque eles não entendem os nossos campeonatos regionais. Disse também que a bandeira do campeão brasileiro era igual à da Itália, vermelha, verde e branca, mas evitei jurar que se tratasse de uma homenagem. O Franco Beretta achou que era uma homengem sim, que tem muito italiano no Brasil, ele mesmo tem um primo que está milionário em Montevidéo. Para dizer a verdade, o vermelho do Fluminense é mais chegado ao tom do vinho barolo que o Franco ofereceu mais um. E o verde da camisa tricolor é o mesmo das azeitonas que a gente foi comendo e comendo, falando de futebol. Não, o Pelé é do Santos. Se o Fluminense ganhou do Santos? Ora, pois já não lhe disse que o meu clube foi campeão? (Franco Beretta, como todo italiano, desconfia muito de futebol brasileiro sem Pelé). Você pode comparar o Fluminense com o time da Fiorentina, campeão da Itália. No lugar do Superach temos o Félix, goleiro da seleção. No lugar de Amarildo temos o Lula, e daí? Se achar pouco um Lula, tome um Lulinha que eu nunca vi mas já gostei. Pega o Ferrante, líbero da cabeleira loura e abundante, faz uma permanente e pinta todo de preto, pinta de novo porque não ficou no ponto, passa uma terceira mão de tinta, fosforescente, e você tem o Denílson. O De Sisti, capitão fiorentino e gênio nacional, é um Samarone sem malícia. Se o Samarone é do escrete? Não é não. Nem o Galhardo. O Chiarugi, ah. Chiarugi é um maluco, segundo o meu amigo italiano. Chegou a ser afastado do primeiro time porque dribla muito mais, engraçado, foi com a sua volta que a Fiorentina partiu firme para a liderança. Vem cá, O que Chiarugi seria capaz de marcar um gol com a mão? Ah, aquele é capaz de tudo, diz o italiano, pode ser até que o juiz confirme o gol. E então meu caro Beretta, você não acha que ele é um ponta-direita para a seleção italiana? Para a seleção está bem, diz ele, se o Chiarugi marcar gol de mão contra a minha Roma desço no campo e faço um estrago naquela cara.Franco Beretta ia sendo convertido mansamente. Passei do Wilton para o Oliveira, deste para o Assis, daí ao Silveira e a bola foi parar nos pés do Cláudio. Nisso o Franco centrou e perguntou pelo nosso Riva, o artilheiro. Mas qual Riva, qual nada, muito melhor! (Riva foi o goleador do campeonato italiano: 19 gols em trinta partidas.) E você vem falar de Riva. Olha aqui, não sei como lhe explicar, mas o campeonato carioca começa com doze clubes e de repente tem oito, quer dizer... O fato é que o Flávio foi o artilheiro do Brasil com 49 gols e pronto. Se é novo esse Flávio? É, começou este ano. Não, antes dele a gente não costumava fazer gols. Antes do Flávio jogava de centro-avante o fantasma do Valdo. E tem mais: a revelação do ano é um sujeito que se chama Cafuringa. Mas ao aouvir Cafuringa o meu amigo achou demais, disse que eu já estava exagerando e foi cuidar da vida.

184. CHICO BUARQUE DE HOLANDA. No dia 28 de março, nascia a filha de Chico Buarque de Hollanda e Marieta Severo. O parto, induzido e difícil, causou algumas complicações. A menina nasceu com algumas manchas no rosto e a cabeça ligeiramente deformada. Mas, apesar da preocupação do pai, os problemas desapareceram no terceiro dia e Sílvia já está em boa forma. Marieta, que foi internada na Clínica Moscatti, nos arredores de Roma, resistiu bravamente ao seu primeiro parto e assim que pode, numa rápida assembléia com Chico, escolheu Vinícius de Moraes para padrinho, Na confusão dos três primeiros dias de sua filha Chico fala para Fatos e Fotos sobre a menina, o trabalho e as saudades do Brasil. Estou em Roma desde o início do ano e pretendo ficar até julho, mais ou menos, depende... É preciso tomar um chá de tranqüilidade assim de vez em quando. A Itália oferece trabalho, Roma é apaixonante e o italiano é quase irmão da gente. Saudades do Brasil é claro que tenho. Da praia, do Antonio´s, do futebol, dos amigos. Dos amigos, principalmente, mas ainda bem que puseram um satélite lá em cima e a gente se telefona volta e meia. Não vou vou dizer que estou estourando na praça européia porque é mentira. Meus discos vendem bem, está dando para viver, já é muito. Os críticos aplaudem, os teatros também, mas o sucesso popular, popular mesmo, não é mole, sabe? A gravação Far Niente (bom tempo), as aparições na televisão e um programa fixo na rádio estão ajudando. Pelo menos o público já sabe que eu sou Tchico Barcue, cantautore brasiliano, conterrâneo de Pelé, Garrincha e Altafini. Vou a Paris gravar um álbum em francês, com as mesmas músicas do disco italiano. Isso de ficar cantando em língua estrangeira não estava nos meus planos, mas é o mínimo que a gente pode ajudar para se fazer entender. Esse tal de velho mundo tem o ouvido cansado, carece de um ritmo novo, de melodia diferente. Mas é preciso ir aos poucos, facilitar, senão eles acham que samba é exotismo nosso. É por isso que faço questão de acopanhar as traduções, mesmo convencido de que é impossível traduzir o espírito, as rimas e os ritmos que o samba tem. Ainda bem que tenho como tradutor a excelente figura de Sérgio Badotti, italiano que ama o Brasil como poucos brasileiros. Agora ele está trabalhando também com o Vinícius. Ele paquera o samba com amor e tempo integrais. Tenho composto sim, devagar e sempre, coisas novas para lançar no Brasil. Aliás, no fundo tenho pensado mesmo é nas gravações brasileiras. A essa altura já deve ter saído por lá um disquinho com umas e outras. Taí uma gravação que me deu gosto. O resto segue num elepê até junho. É bom mesmo que faça esse disco correndo, senão a fábrica continua lançando meus discos estrangeiros no Brasil. Quanto a festivais, trato de tirar o corpo fora. É justo que o público exija caras novas e vice-versa. Eu já estava virando cara velha. Não, minha filha não vai se chamar Rita, nem Carolina. Nem Roda-Viva. Talvez Sílvia, não sei. Temos ainda um mês para decidir e registrar no consulado, brasileirinha sim senhor. Olha aí, pode dizer até que eu sou esse artista de projeção, mas deixa eu brincar de vez em quando. Três anos de vida pública cansam qualquer um, mas não quero que minha filha me encontre circunspecto. Afinal, ela é afilhada do Vinícius, há de ser minha amiga. É por isso que, à noite, sempre vou grudar o rosto no vidro do bercário. Ela é muito preguiçosa e dorme o tempo inteiro, rindo. Mas, quando abrir o olho, ela talvez me veja como vejo meu pai. Sabe duma coisa? Ela não vai ser filha de Chico Buarque nenhum. Eu é que vou ser pai dela.

185. CLARICE LISPECTOR. Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode­ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare­cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem! Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros. Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto. Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

186. CLARICE LISPECTOR. A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata. Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. "Vim para não deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês. Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta. E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos. Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday!", em outros "Feliz Aniversário!"  No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa. E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vôo da mosca em torno do bolo. Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema. Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa. Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca. — Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos. Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.— Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa. A velha não se manifestava. Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.— Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa. A velha não se manifestava. Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.— Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!— Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.— Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe! Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos. E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhou esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês. Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira. Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor - e acendeu a lâmpada.— Viva mamãe!— Viva vovó!— Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.—  Happy birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett. Bateram ainda algumas palmas ralas. A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.— Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: — parta o bolo, vovó! E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.— Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.— Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais fôlego do que eu, disse Zilda amarga. Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha. Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de rebuliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda. E quando foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado? E por assim dizer a festa estava terminada. Cordélia olhava ausente para todos, sorria.— Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante.— Está certo, está certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manoel sorrir e uma contração passou-lhe rápido pelos músculos da cara.— Hoje é dia da mãe! disse José. Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! — disse baixo, angustiada. — A senhora nunca fez isso! — acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.— Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos. Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos — provavelmente já além dos cinqüenta anos, que sei eu! — os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos — ainda mais fracos e mais azedos — haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não agüenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos — nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.— Me dá um copo de vinho! disse. O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão.— Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha.— Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. — Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me dá um copo de vinho, Dorothy! — ordenou. Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, como máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis. Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade. Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido. Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérolas, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia. Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar. E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a atenção voltada para dentro de si, à espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amável, o estômago cheio daquelas porcarias que não alimentavam mas tiravam a fome. As crianças, já incontroláveis, gritavam cheias de vigor. Umas já estavam de cara imunda; as outras, menores, já molhadas; a tarde cala rapidamente. E Cordélia, Cordélia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que é que ela tem? alguém perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabeça, mas também não responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranqüilidade da noite, as crianças começavam a brigar. Mas as luzes eram mais pálidas que a tensão pálida da tarde. E o crepúsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso.— Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vários se ergueram sorrindo. A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha. E, impassível, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efusão ao que não era mais senão passado: a noite já viera quase totalmente. A luz da sala parecia então mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianças já estavam histéricas.— Será que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas. Mas ninguém poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada à cabeceira da mesa imunda, com a mão fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua última palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta. Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu — enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar. Mas a esse novo olhar — a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa. Passara o relance. E arrastada pela mão paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada.— Nem todos têm o privilégio e o orgulho de se reunirem em torno da mãe, pigarreou José lembrando-se de que Jonga é quem fazia os discursos.— Da mãe, vírgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graça.— Nós temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Nós temos esse grande privilégio disse distraído enxugando a palma úmida das mãos. Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança e confiança a próxima frase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas — José enxugou a testa com o, lenço — como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de mãe era duro de suportar: José enxugou a testa, heróico, risonho. E de repente veio a frase:— Até o ano que vem! disse José subitamente com malícia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! Até o ano que vem, hein?, repetiu com receio de não ser compreendido. Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano.— No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeiçoando o espírito do sócio. Até o ano que vem, mamãe! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para José. E a velha de súbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alusão. Então ela abriu a boca e disse:— Pois é. Estimulado pela coisa ter dado tão inesperadamente certo, José gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos úmidos:— No ano que vem nos veremos, mamãe!— Não sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada. Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo. As crianças foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingança no filho alegre demais e já sem gravata. As escadas eram difíceis, escuras, incrível insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na ação de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras — pisado o último degrau, com alívio os convidados se encontraram na tranqüilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.— Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloqüente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: "Pelo menos noventa anos", pensou melancólica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora. Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.

187. CLARICE LISPECTOR. O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro — o que ninguém lhe ensinara. — Trabalhava numa pequena calçada de cimento em sombra, junto à última janela do porão. Quando queria com muita força ia pela estrada até ao rio. Numa de suas margens, escalável embora escorregadia, achava-se o melhor barro que alguém poderia desejar: branco, maleável, pastoso: frio. Só em pegá-lo, em sentir sua frescura delicada, alegrezinha e cega, aqueles pedaços timidamente vivos, o coração da pessoa se enternecia úmido quase ridículo. Virgínia cavava com os dedos aquela terra pálida e lavada — na lata presa à cintura iam se reunindo os trechos amorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os pés descalços e ela mexia os dedos úmidos com excitação e clareza. As mãos livres, ela então cuidadosamente galgava a margem até a extensão plana . No pequeno pátio de cimento depunha a sua riqueza. Misturava o barro à água, as pálpebras frementes de atenção — concentrada, o corpo à escuta, ela podia obter uma porção exata de barro e de água numa sabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada. Conseguia uma matéria clara. e tenra de onde se poderia modelar um mundo. Como, como explicar o milagre... Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, não se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedirá de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que não sou nada. Era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e água e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difícil, frágil e tensa; sentia em alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como a ausência — compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la; como uma criança, como uma pessoa. Depois de obtida a matéria, numa queda de cansaço ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Então ia vivendo para a frente como uma menina. Um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz — esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo... de súbito, como era vago viver. Tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno. Mas às vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o pátio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianças, cavalos, uma mãe com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando... Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores, m:to eram nada...Ás vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas sério e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela já soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que não existia!... Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ninguém lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no chão, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, não enrugava, não rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e úmido. E ela própria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rápidas, quase como se fossem se desmanchar — e isso era como se elas fossem se movimentar. Olhava para o boneco imóvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa força viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperança, numa força de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava à figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora não soubesse o que, talvez. Sim ela às vezes possuía um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a força e o cansaço — era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no coração: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rápido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso — e isso poderia ser perigoso — ela encostava um dedo apenas, um dedo pálido, polido e transparente, um dedo trêmulo de direção. No mais agudo e doído do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação. Assim juntara uma procissão de coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos — às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os santos. Virgínia podia fitá-las uma manhã inteira, que seu amor e sua surpresa não diminuiriam.— Bonito... bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num ímpeto imperceptível e doce. Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por si mesmos, se isso fosse possível. As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram pálidos. Se ela queria sombreá-los não o conseguia com o auxílio da cor, e por força dessa deficiência aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino traço de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro à terra, obtinha ainda outro material menos plástico, porém mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CÉU? Nem começar podia! Não queria nuvens — o que poderia obter, pelo menos grosseiramente — mas o céu, o céu mesmo, com sua existência, cor solta, ausência de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matéria mais leve que não pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas. E às vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfície lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranqüila.

188. CLARICE LISPECTOR. Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera. Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera. O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher. O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida. Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito. A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram. O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa. Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca. Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite. Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico. Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo. A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu. Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber. Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo. Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto. Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o. Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver. Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão. Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar. Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos. Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos. Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.— O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

189. CLÁUDIO MELLO E SOUZA. OS MAIAS, DE EÇA DE QUEIROZ. UMA TRAGÉDIA MODERNA. Em junho de 1888, os livreiros portugueses começaram a vender os primeiros dos cinco mil exemplares da primeira edição de Os Maias. É tiragem que impressiona ainda hoje. O que dizer então naqueles tempos de um Portugal pouco habitado e não muito lido? Foi uma temeridade, mas à audácia dos editores correspondeu a curiosidade dos leitores e o interesse da crítica. E o livro do desconfiado Eça de Queiroz transformou-se, desde então, num sucesso de vendas. E assim é (ou voltou a ser) hoje em dia. Andou uns tempos esquecido, é verdade, mas bastou que a televisão fosse buscar inspiração (palavra perigosa) no velho romance, para que as novas reedições sumissem, recém-chegadas às livrarias, pouco antes do Natal, e fossem totalmente consumidas pouco antes do novo ano. Eça de Queiroz foi impreciso e modesto ao dar a Os Maias o subtítulo "episódios da vida romântica". Na verdade, o seu mais famoso romance é uma tragédia, tal como a entendia Sófocles quando, já na maturidade, compôs o seu Édipo. Uma tragédia burguesa, mas quand même uma tragédia, pois que lá está a grave transgressão moral, cometida em completa inconsciência por seus dois personagens centrais — Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Da Maia, ambos; irmãos, apaixonados e incestuosos ambos, e belos e trágicos. Invejo quem agora, instigado pela minissérie, vai ler esse livro pela primeira vez. Terá prazer único e irreproduzível. As releituras que hão de vir, mais tarde, servirão de consolo, mas não de substituto. Esse prazer estará certamente na elegância barroca da forma e no desenvolvimento astucioso do entrecho. Mas estará também, ou principalmente, nos admiráveis retratos que Eça faz de seus tipos principais, com a elegância e a minúcia de um genial pintor romântico, mas com "o seu olho à Balzac". A começar não por um tipo, mas por uma casa, mais exatamente a "casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875", que surge, penumbrosa e prenunciadora, logo na primeira frase do livro, e que era conhecida como a casa do ramalhete "ou, mais simplesmente, o Ramalhete". Então, lemos, já encantados: "Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas". Ai está o cenário da tragédia. O Ramalhete é, pela ordem de entrada, o primeiro personagem em cena, com suas paredes sempre fatais àquela antiga família da Beira, tão rica e tão infeliz. E será no Ramalhete e em torno dele que vamos ser apresentados aos personagens nos quais Eça de Queirós se insinua, para nos falar através de suas muitas vozes. Seus retratos eram sempre perfeitos e, ao longo da trama, coerentes. A única personagem que o confunde é Maria Eduarda, por sua beleza de deusa. Quando ela aparece — e como custa a aparecer! —, "é alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carne"; algumas páginas adiante, Carlos a revê e nota que "os cabelos não eram louros, como julgara de longe, à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa". Falei de retratos e o mais correto é falar de auto-retratos. Se Fernando Pessoa tinha seus heterônimos, Eça tinha os seus "eus", como diz Beatriz Berrini, que eram muitos e muito se pareciam. Ele nos fala pela voz severa do velho Afonso da Maia, que "era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes...o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve, aguda e longa", a reclamar melhores destinos para o seu lamentável país e a cobrar, do neto tão promissor, menos diletantismo e mais realizações. Fala-nos também com as palavras cruéis e desassombradas do neto Carlos, "um formoso e magnífico moço, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, dum negro líquido, ternos como os dele e mais graves", e que costumava vociferar: "A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo". Ao que o avô respondia, já impaciente com esse diletantismo do neto, como se falasse em nome do autor:— Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa! Mas nenhum de seus "eus" foi mais ele mesmo que João da Ega, ou João da Eça, ou o Ega de Queirós, que todos esses trocadilhos, embora fáceis, têm cabimento e justeza. Talvez só o Fradique Mendes se lhe possa comparar, mas esse não vem ao caso, agora, porque não é personagem d´Os Maias. Eram "eus" idealizados e muita vez caricaturados, mas que, no fundo, o reproduziam com verdade e o exprimiam com coerência. Ao Ega, deu-lhe o Eça a existência que gostaria de ter tido: discutido e admirado, com a mãe devota, rica e viúva, a lhe garantir o presente e o futuro, permitindo-lhe desfrutar as sofisticações, as intimidades e os desvelos de uma família de aristocratas, como era a dos Maias; mais alguns amores ardentes e com saúde razoavelmente forte para gozar, sem medos nem cuidados, o prazer das boas comidas e dos bons vinhos, dos conhaques e das águas ardentes, das noitadas com espanholas e das devassidões vespertinas, com amantes de luxo. É conclusão a que se chega no momento em que Eça retrata o Ega — e se auto-retrata: cheio de verve e de irreverência, de frases retumbantes e ditos irônicos, um talento amaldiçoado, temido e exaltado. Vejamos o Ega pelos olhos do Eça: "O esforço da inteligência (...) terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito — tinha alguma coisa de rebelde e de satânico". Ora, se não é esse ou quase esse o retrato do próprio Eça, tal como captado na célebre caricatura que dele fez Rafael Bordalo Pinheiro, então já não sei ver nem distinguir. É ainda o Ega que, em momento de impaciência com a mediocridade e a hipocrisia da sociedade burguesa, e como que falando em nome de seu criador, deixa Lisboa e corre para restaurar-se no interior, lançando a Carlos e a Craft, os dois grandes amigos que o foram acompanhar à diligência, esta frase aterradora: — Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro. Tal como Carlos da Maia, também João da Ega era um diletante. Ambos têm revoltas pouco profundas e de pouca duração. As suas grandes promessas de realização pessoal e de transformação do mundo terminam por desmaiar no culto quase religioso do luxo e do tédio. Passam a representar o que mais incomodava o inconformado Eça: a renúncia e o conformismo. É com mãos hábeis, orgulhosas e brilhantes que Eça os faz florescer em Coimbra, em tempos de sonho e de estudo, a prometer insubmissão e luta. É com olhar de desalento e pessimismo que Eça os deixa vencidos e melancólicos, a "correr desesperadamente pela rampa de Santos", atrás de um bonde e de um jantar, "sob a primeira claridade do luar que subia". Tal como o próprio Eça se sentia, Ega e Carlos eram, naquele momento, dois "vencidos da vida". E assim a tragédia se consuma e nos obriga a repensar o ser humano com inquietação e desconfiança.

190. CLÁUDIO MELLO E SOUZA. OS MAIAS, DE EÇA DE QUEIROZ. EÇA, PINTOR E FOTÓGRAFO. Foi ainda no primeiro ano clássico, e hoje nem sei mais ao que equivale essa antigualha, para me valer de palavra tão castiçamente portuguesa. O ano era o de... deixemos isso pra lá. Por dever curricular, vivia preso, às ordens do professor Mário Barreto, entre as paredes severas de Alexandre Herculano, que impressionavam mas sufocavam, e as extravagâncias sintáticas de Camilo Castelo Branco, que maçavam a leitura e emperravam o entrecho (como vêem, insisto em castigar o estilo, um pouco à maneira daqueles dois). Eles muito me ilustravam, mas pouco ou nada me comoviam. A minha primeira grande e devastadora comoção literária só me veio mesmo, pouco depois, com a leitura de Eça e, principalmente, com a travessia inaugural d´Os Maias. Ainda me lembro das aflições que passei a sentir quando, contando as páginas que faltavam, me dei conta de que me aproximava do desfecho da tragédia e — tragédia ainda maior! — que chegava ao fim do livro. Não vou fazer aqui e agora o inventário das virtudes e grandezas literárias que me seduziram e ainda seduzem em Eça — no romancista, no cronista, no memorialista, no jornalista, no polemista e — o que chega a ser estranho em se tratando de um literato! — no pintor e no fotógrafo que ele foi, com olho sagaz e mãos precisas. Fico apenas — e é bastante — com esses dois últimos. Sim, porque entre as mais fortes impressões que me ficaram, dessa primeira leitura, e que se repetiram, nas seguidas releituras, estavam os personagens que ele retratava, e as paisagens e prédios que reproduzia, dos mais elevados aos mais torpes, das mais belas às mais miseráveis, dando-lhes vida e paixão, velhacaria e nobreza, ventura e tragédia. Não é à toa que essa obra, mesmo na perigosa forma de uma adaptação, chega à TV, como já poderia ter chegado ao cinema. Porque ela é, antes de tudo, mas não acima de tudo, uma visualização. Não há descrições decorativas. São todas lindíssimas, mas todas definidoras de uma circunstância, de um caráter, de um trecho de paisagem significante, que completa a psicologia de um tipo — como o de Afonso da Maia, ao contemplar o Tejo, na sua volta ao Ramalhete e a Lisboa. Quando tive a idéia de lhes apresentar os personagens d´Os Maias, tal como Eça os viu e os escreveu, pensei se não estaria a desmembrar e a apequenar o romance. Concluí que não. Primeiro, porque esses retratos são quase autônomos. Têm valor literário em si mesmos. Podem, por isso, ser entendidos e admirados fora do contexto. Depois, porque, por força de atração, esses retratos acabarão por convencê-los a conhecer o grande painel de que fazem parte, esse empolgante épico das paixões humanas a que o Eça dedicou oito anos de cuidados e talentos — todos recompensados. E agora, chega de papo e vamos à prosa. Comecemos pelo cenário da tragédia e, depois, vamos em frente, a mostrar os retratos. Não todos, que são muitos, mas os principais ao menos. 1 - O Ramalhete: A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sra. D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto dum revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números duma data. 2 - Os Maias. Os Maias eram uma antiga família da Beira, sempre pouco numerosa, sem linhas colaterais, sem parentelas — e agora reduzida a dois varões, o senhor da casa, Afonso da Maia, um velho já, quase um antepassado, mais idoso que o século, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Afonso se retirara definitivamente para Santa Olávia, o rendimento da casa excedia já cinqüenta mil cruzados: mas desde então tinham-se acumulado as economias de vinte anos de aldeia; viera também a herança dum último parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia em Nápoles, só, ocupando-se de numismática. 3 - Afonso da Maia: Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes: e com a sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve aguda e longa — lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das idades heróicas, um D. Duarte de Menezes ou um Afonso de Albuquerque.(...) Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela idade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã, que era um grande mergulho na água fria. (...) Em Santa Olávia as chaminés ficavam acesas até abril; depois ornavam-se de braçadas de flores, como um altar doméstico; e era ainda aí, nesse aroma e nessa frescura, que ele gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tácito, ou o seu querido Rabelais. 4 - Carlos da Maia. Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, dum negro líquido, ternos como o dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanha-escura, rente na face, aguçada no queixo — o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença. 5 - Maria Eduarda (I) (quando ela aparece, pela primeira vez, à porta do Hotel Central): ... uma senhora alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor de sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem-feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Gênova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz de suas botinas. 6 - Maria Eduarda (II) (quando, afinal, Carlos da Maia conhece-a, pessoalmente): Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de si. Foi como uma inesperada aparição — e vergou profundamente os ombros, menos a saudá-la, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrasar-lhe o rosto. Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta, um colarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um pequeno lenço de renda. (...) E depois dum instante de silêncio, que lhe pareceu profundo, quase solene, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, dum tom de ouro que acariciava. (...) Os cabelos não eram louros, como julgara de longe à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura de seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muito doce. 7 - Pedro da Maia: O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda [Eça refere-se à mulher de Afonso, mãe de Pedro, também Maria Eduarda], tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval dum trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a umedecer-se, faziam-no assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, a flores, a livros. 8 - Maria Monforte: Nunca Maria Monforte aparecera mais bela: tinha uma dessas toilettes excessivas e teatrais que ofendiam Lisboa, e faziam dizer às senhoras que ela se vestia "como uma cômica". Estava de seda cor de trigo, com duas rosas amarelas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o colo e nos braços; e estes tons de seara madura batida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabelos, (...) banhando as suas formas de estátua, davam-lhe o esplendor duma Ceres. 7- João da Ega: João da Ega, com efeito, era considerado não só em Celorico, mas também na Academia, que ele espantava pela audácia e pelos ditos, como o maior ateu, o maior demagogo que jamais aparecera nas sociedades humanas. Isto lisonjeava-o: por sistema exagerou seu ódio à divindade, e a toda Ordem social: queria o massacre das classes médias, o amor livre das ficções do matrimônio, a repartição das terras, o culto de Satanás. O esforço da inteligência neste sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito — tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satânico, (...) perorando com os seus gestos aduncos de Mefistófeles em verve... 9 - Eusebiozinho: Do fundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha, o Eusebiozinho de Santa Olávia, estendia também o pescoço, afogado numa gravata de viúvo de merino negro e sem colarinho, sempre macambúzio, mais molengo que outrora, com as mãos enterradas nos bolsos — tão fúnebre que tudo nele parecia complemento do luto pesado, até o preto do cabelo chato, até o preto das lunetas de fumo. 10 - Raquel Cohen: Era alta, muito pálida, sobretudo às luzes, delicada de saúde, com um quebranto nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lírio meio murcho: a sua maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meio solta sobre as costas, como num desalinho de nudez. Dizia-se que tinha literatura , e fazia frases. O seu sorriso lasso, pálido, constante, dava-lhe um ar de insignificância. O pobre Ega adorava-a. 11 - Tomás de Alencar: E apareceu um indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com a face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os anéis fofos de uma grenha muito seca caíam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgubre. (...) E parecia mais lúgubre com a sua grenha de inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do chapéu, a sobrecasaca coçada e malfeita colando-se-lhe lamentavelmente às ilhargas. 12 - Dâmaso Salcede: Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastron azul-celeste. (...) Ega apresentou a Carlos o Sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto (...) Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera ali, naquele moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e profunda; o próprio verniz dos seus sapatos, a cor das suas luvas eram para o Dâmaso motivo de veneração, e tão importantes como princípios. (...) E as suas perguntas foram terríveis. O senhor Maia achava chic ter um cab inglês? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que quisesse ir passar o verão lá fora, Nice ou Trouville? Depois ao sair, muito sério, quase comovido, perguntou ao senhor Maia (se o senhor Mais não fazia segredo) quem era o seu alfaiate. 13 - A Condessa de Gouvarinho: Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil coisas; em certos movimentos, o cabelo crespamente ondeado, tomava tons de ouro vermelho: e em torno dela errava, no calor do gás e da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de preto, com uma gargantilha de rendas negras, à Valois, afogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um arzinho de provocação e de ataque. 14 - O Craft (De um diálogo entre João da Ega e Carlos da Maia): Ega teve um grande gesto. Era indispensável conhecer o Craft! O Craft era simplesmente a melhor coisa que havia em Portugal... — É um negociante do Porto, não é? — Qual negociante do Porto! — exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face, enojado de tanta ignorância. — O Craft é filho de um clergyman da igreja inglesa do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou da Austrália, um nababo, que lhe deixou fortuna. Uma grande fortuna. Mas não negocia. Dá largas ao seu temperamento byroniano, é o que faz (...): coleciona obras de arte. (...) Carlos desceu também do coupê, achou-se em face de um homem baixo, louro, de pele rosada e fresca, e aparência fria. Sob o fraque correto percebia-se-lhe uma musculatura de atleta. 15 - O Cruges (ainda o mesmo diálogo): ...um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de gênio... 16 - O conde de Steinbroken e outros íntimos do Ramalhete (sempre o mesmo diálogo): No Ramalhete, o avô fazia o seu whist com os velhos parceiros. Ia o Diogo, o decrépito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes...Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estourar de sangue, à espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken... — Não conheço. Refugiado? Polaco? — Não, ministro da Finlândia...Queria-nos alugar umas cocheiras e complicou essa simples transação com tantas finuras diplomáticas, tantos documentos, tantas cousas com o selo real da Finlândia, que o pobre Vilaça, aturdido, para se desembaraçar, remeteu-o ao avô. O avô, desnorteado também, ofereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken considera isso um serviço feito ao rei da Finlândia, à Finlândia; vai visitar o avô, em grande estado... — Isso é sublime! — O avô convida-o a jantar...E como o homem é muito fino, um gentleman, entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma autoridade no whist, o avô adota-o. COISAS DO B. B. Há muito tempo, quando o Banco do Brasil era considerado o maior banco rural do mundo, mantinha em sua Carteira Agrícola um quadro de avaliadores (também conhecidos por "fiscais") que eram pessoas com conhecimentos na área, contratadas para verificar "in loco" se os pedidos de financiamento estavam em ordem, etc, etc. Ocorre que nem sempre eram pessoas com bom nível de escolaridade. O que valia era o conhecimento prático. Daí nos relatórios constarem algumas "batatadas" que alguns gaiatos, como não poderia deixar de ser, anotaram para gáudio de todos nós: - "O sol castigou o mandiocal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram". - "Mutuário triste e solitário pelo abandono da mulher não pode produzir". - "Acho bom o Banco suspender o negócio do cliente para não ter aborrecimentos futuros". - "Vistoria perigosa. As chuvas pluviais da região inundaram o percurso, que foi todo feito a muito custo". - "Mutuário faleceu. Viúva continua com o negócio aberto". - "O contrato permanece na mesma, isto é, faltando fazer as cercas que ainda não ficaram prontas". - "Foi a vistoria feita a lombo de burro com quase 8 km". - "A máquina elétrica financiada era toda manual e velha". - "Financiado executou trabalho braçalmente e animalmente". - "O curral todo feito a capricho, bem parecendo um salão de baile a fantasia". - "Visitamos o açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos  que o mesmo estava vazio". - "Os anexos seguem em separado". - "A lavoura nada produziu. Mutuário fugiu montado na garantia subsidiária". - "Era uma ribanceira tão ribanceada que se estivesse chovendo e eu andasse a cavalo e o cavalo   escorregasse, adeus fiscal!". - "Tendo em vista que o mutuário adquiriu aparelhagem para inseminação artificial e que um dos touros holandeses morreu, sugerimos que se fizesse o treinamento de uma pessoa para tal função". - "Assunto: Cobra. Comunico que faltei ao expediente do dia 14 em virtude de ter sido mordido pela epigrafada".

191. CORA CORALINA. CONCLUSÕES DE ANINHA. Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas. O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula, entregou sem palavra. A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar e não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais? Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Da mesma forma aquela sentença: "A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar." Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador. Você faria isso, Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome? Conclusão: Na prática, a teoria é outra.

192. CORA CORALINA. MINGA, ZÓIO DE PRATA. Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote. Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado... Passasse quieto e bonzinho. Não se engraçasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escândalo de mulher-dama não dava; nunca deu; também, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Família de respeito podia passar toda hora, não via nada. Macho, porém, que não se fizesse de besta... Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestígio. Duas irmãs, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zóio de Prata. Já a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele só. Também eram conhecidas por As Cômodas, na roda da macheza. Minga era durona. Não tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa... Um que tentou a rasteira, ela alcançou já fora do beco e deixou sem as calças no meio da rua. Tinha mesmo um bugalho branco, saltado, e era vesga do outro. Espinhenta, de cabelo sarará, mulatona encorpada, de bacia estreita, peito masculino, de mamilos duros, musculosa; servindo bem no ofício, de fala curta, braço forte, mãos grandes. Um dia, voltava ela do mercado com um frango na mão, deu de cara com a irmã chorando, de cara amassada e beiço partido. Tinha entrado na peia do amigo — o Izé da Bina — à-toa, ruindade de pingado ordinário. Dei'stá — disse ela — sai fora e deixa por minha conta. Óia, vai depená esse frango pra nóis na casa da vizinha e só entra quando eu chamá... Dondoca foi fazer o mandado. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango, quando chegou o Izé da Bina, todo mandante, de paletó preto, gravata borboleta, calça engomada. Entrou no quarto e gritou autoritário pela Dondoca. Quem apareceu foi a Zóio de Prata, de manga arregaçada e porrete na mão. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. Bateu com sustância, sovou com fôlego, quebrou as carnes, moeu bem moído. No fim, jogou fora o cacete e entrou de corpo. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no chão. Sentou em cima e esmurrou à vontade. Quebrou as ventas, partiu dois dentes, entrou no olho... xingou nomes... desses de ouvindo dizer o Antônio Meiaquarta, tipo de rua, rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes... Zóio de Prata sabe cinco contos... apanhei dela, bateu em mim... tou descarado, apanhei dela... muié praceada... êta muié sagais. Depois de ver o cabra mole, estirado, fungando, Zóio de Prata assungou a saia, abriu as pernas e mijou na cara de Izé da Bina. Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cômodas.

193. CORA CORALINA. O LAMPIÃO DA RUA DO FOGO. Ali, naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio, morava Seu Maia, casado com Dona Placidina, numa casa de beirais, janelas virgens da profanação das tintas, porta da rua e porta do meio. Portão do quintal, abrindo no velho cais do Rio Vermelho. Isso, há muito tempo, antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada de platibanda. Seu Maia era muito conhecido em Goiás e era porteiro da Intendência. Boa pessoa. Serviçal, amigo de todo mundo e companheirão de boas farras. Gostava de uma pinguinha em doses dobradas, dessas antigas que pegavam fogo. Então, se misturava vinho, conhaque e aniseta; só voltava para casa carregado pelos companheiros, que o entregavam aos cuidados da mulher. Esta, acostumada, embora com a sina ruim, como dizia, não poupava a descalçadeira quando recebia o marido naquele fogo, arrastando a língua, de pernas moles, isto quando não virava valente, quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia. Dona Placidina era muito prática, nessas e noutras coisas... Ajeitava logo um café amargo, misturado com frutinhas de jurubeba torrada, que o marido engolia careteando e o empurrava para a rede, onde roncava até pela manhã ou se agitava e falava a noite inteira. — Coitada de Dona Placidina, comentavam as amigas. Seu Maia é um santo homem sem esse diabo da pinga. E ensinavam remédios, simpatias, responsos, rezas fortes. Simpatia que dera certo em outros casos, era nada para ele. Remédios? Inofensivos como a água do pote. Os próprios santos se faziam desentendidos dos responsos, velas acesas e jaculatórias recitadas. Dona Placidina, cansada daquele marido incorrigível, acabou botando o coração ao largo, embora achasse, no íntimo, que melhor seria uma boa hora de morte para ela... ou antes, para o marido, esta parte no subconsciente. Naquele dia, como a dose da boa fosse mais pesada, Seu Maia, que já vinha se ressentindo do fígado com passamentos e vista escura, se achou pior. Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter entre as cobertas. De nada valeu a chazada caseira. No dia seguinte, chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doença do coração. Receitou um purgativo e uma poção. Seu Maia piorou. Dona Placidina se desdobrou em cuidados especiais. Esqueceu o defeito do marido, as desavenças, os pratos quebrados e passou a sentir, antecipadamente, os percalços da viuvez. Os amigos não arredaram. Faz-se a conferência médica das vizinhas prestativas. Escalda-pés, benzimentos, sinapismo, nada deu jeito. Nem valeu promessa de muito boa cera ao senhor São Sebastião. Seu Maia morreu. Os companheiros tomaram conta do morto. Levaram o corpo.Vestiram-lhe o fato preto de sarjão, que tinha sido do casamento. Calçaram meias, ajuntaram-lhe as mãos no peito. Pearam as pernas e passaram um lenção branco, bem apertado, no queixo. Chamaram um canapé, largo de palhinha, para o meio da sala, deitaram o cadáver, cobriram com um lençol. Cuidou-se do pucarinho de água benta, com seu ramo de alecrim. Acenderam-se as quatro velas e, nos pés do morto, botou-se um caco de telha com brasa e grãos de incenso. Era assim que se arrumava defunto em Goiás, antigamente. Os amigos foram chegando, tomando posição e começou o velório. Dona Placidina, entregue aos cuidados das amigas, mal escapava de uma vertigem, caía noutra. Afinal, à força de chás de arruda, de casca de tomba e de Água Florida de Murray, voltou a si e, como era decidida e de espírito prático, botou de parte o abatimento e passou a cuidar do pessoal que fazia sentinela. Café com biscoito pelas 10 horas. Mais tarde, mexido de lombo de porco e ovos fritos com farofa, comido na cozinha, e requentão quando a noite esfriou mais e os galos passaram amiudar. Entre a diligência caseira e suspiros puxados, a viúva, de vez em quando, levantava a ponta do lençol que cobria o marido e enxugava umas lágrimas hipotéticas. “Bom marido”, lastimava e, lá consigo, “não fosse a pinga, era a falta que tinha...” No dia seguinte, veio o caixão com tampa solta, como de costume. Agasalharam ali o defunto. Chegaram mais amigos e mais comadres. Dona Placidina louvava as virtudes conjugais do finado, em crises nervosas de choro seco — sem lágrimas, o choro mais difícil que existe. A cada visita que chegava, com seu carinhoso abraço e formalíssimos “meus pêsames”; havia uma exaltação no choro ressecado da viúva. Pelas duas horas, começou a fazer vento de chuva e um trovão surdo se ouviu ao lado da Santa Bárbara. Como o caixão teria mesmo de ser carregado na força dos braços, os amigos resolveram apressar o saimento, antes que o tempo enfarruscado se decidisse em água. Vento da Santa Bárbara é chuva certa no São Miguel. E enterro debaixo de chuva era a coisa mais estragada que podia acontecer em Goiás. Dona Placidina se debruçou em cima do morto. Não queria deixar sair Seu Maia, coitado... As amigas com chazadas de alecrim. Os amigos tomaram conta das alçadas e ganharam a rua. Entraram na outra, que era Direita, naquele tempo. Passaram a ponte da Lapa, subiram e entraram no Rosário para encomendação do corpo. Os sinos das igrejas, todas, dobrando a lamentação de finados. Pela intenção do morto, cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas, quanto quisesse. Ainda que os sinos tocam como a gente quer, alegres ou soturnos. Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. Essas duas palavras, em Goiás, delimitavam as circunstâncias da idade, sem mais explicações. Anjinho era criança mesma ou moça virgem e, defunto, gente pecadora. Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alças, que o morto estava pesado. Com a doença curta, nem tivera tempo de emagrecer. Iam depressa, que a chuva já tinha posto uma carapuça branca no cocuruto do Canta Galo. Na frente, um popular, afeito àquele préstimo, carregava a tampa que só ia ser colocada na beira da cova. Outros levavam os dois tamboretes, tradicionais, para o descanso do ataúde, quando se trocavam os que iam carregando. Os músicos, de fardão escuro, tocavam um funeral muito triste. Sendo de notar que não havia enterro em Goiás sem acompanhamento de música, somente os muito pobrezinhos. Na rabeira, a molecada da rua. Queriam ver o caixão descer no buraco, se divertiam com aquilo. Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia, existiu, durante muito tempo, um poste de lampião antigo, saliente, fora de linha, puxando mesmo para o meio da rua. Era um tropeço. Coisa embaraçosa. Não foram poucos os esbarros, cabeçadas, encontrões verificados ali. Enterros que subiam, já de longe, começavam a torcer à direita para se desviar do lampião, que não tinha outra conseqüência senão atrapalhar. Naquele dia, com a aflição da chuva que vinha perto e com o peso do caixão que era demais, ninguém se lembrou do poste. Foi quando o compadre Mendanha, que ia na alça dianteira pela esquerda, pisou de mau jeito num calhau roliço, falseou o pé, fraquejou a perna e... bumba! Lá se foi o caixão bater com toda força no lampião. Com a violência do baque, o defunto abriu os olhos, desarrumou as mãos e fez força de levantar o corpo. A essa hora, o pessoal do enterro tinha se desabalado, em doida carreira pela rua abaixo e largado o morto se soltando da laçada das pernas. O dia inda estava claro, não era hora de assombração. Alguns, mais esclarecidos, resolveram voltar e ver de perto o acontecido. Encontraram Seu Maia de pé, muito amarelo, escorado no poste, com tremuras pelo corpo e olhando, com desânimo o caixão vazio. Reconheceram, então, que o mesmo estava vivo e que era preciso voltar com ele para casa. Guardaram o caixão inútil na igreja da Abadia e desceram a rua, amparando o ex-morto. Todas as janelas, agora, com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. A meninada na frente, gritava:— Evém o defunto... De dentro das casas, os moradores corriam para as portas e só se ouvia:— Vem ver, Maricota... vem ver, Joaninha. Óia o defunto que evém voltando... Amparado pelos amigos, metido naquele sarjão preto, desusado, calçado só de meias, lenço na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta. Um portador foi na frente avisar Dona Placidina, daquela ressurreição e conseqüente retorno, ao que ela só teve expressão sintomática: — Seja pelo amor de Deus. Seu Maia chegou afinal, entrou, recebendo um abraço de boas-vindas mais ou menos calorosas da mulher. Bebeu um cordial. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia. Este veio. Examinou, apalpou, auscultou, pediu para ver a língua. Concluiu, com sabedoria, que tinha sido um ataque de catalepsia, muito parecido com a morte, mas que não era morte, não. A providência tinha sido o lampião do meio da rua, senão teria sido mesmo enterrado vivo. A cidade comentou o caso por muito tempo. Seu Maia foi entrevistado por todos os sensacionalistas da terra — gente insuportável daquele tempo. Muita língua desocupada levantou a suspeita de que vários fulanos e sicranos daquele tempo tivessem sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Os letrados foram até o Chernoviz e Langard. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente. Enquanto os comentaristas faziam roda, o doente recuperava a saúde. Dona Placidina, muito prática como sempre, aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia doméstica, complicada e cheia de boa dialética feminina, de que “aquilo fora aviso do céu e castigo de Deus...” E já pelo choque emocional — vá lá que naquele tempo não havia destas coisas não — já pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo, o certo é que o homem moderou a bebida. Dona Placidina, no entanto, já havia, no seu foro íntimo, aceitado a idéia da viuvez e aquela volta inesperada do marido vivo não melhorou de muito os pontos de vista da ex-viúva. Alguns meses depois, Seu Maia adoecia gravemente. Vieram os amigos da primeira viagem. Apareceram as clássicas e inefáveis comadres. Deram-se os remédios. Da botica e extrabotica. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Nada serviu. Seu Maia morreu. Seu Foggia então declarou que, por via das dúvidas, só levassem o morto quando começasse a feder. Fez-se de novo o velório com todas as regrinhas de costume. Café com biscoito pelas dez horas. Viradinho de feijão e lingüiça comidos, com voracidade e discrição na cozinha, e quentão forte de canela e gengibre, quando a noite esfriou e os galos amiudaram. Contaram-se casos. Louvaram as virtudes do finado, num breve necrológio. Passaram a anedotas discretas. Falou-se da carestia da vida, dos erros do governo e se fez a filosofia da morte. A viúva chorou, mais ou menos conformada com aquela segunda via. O compadre Mendanha tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo, de regrar o pucarinho de água benta com seu raminho de alecrim. No dia seguinte, quando perceberam que não mais haveria engano, os amigos ajuntaram as alças e levantaram o caixão. Dona Placidina, muito experiente, despediu-se do morto em soluços alternados. Teimou com as amigas: dessa vez havia de acompanhar, ao menos até a porta. O compadre Mendanha, muito metódico e apegado aos velhos hábitos de sempre pegar caixão pela alça da frente e da esquerda, tomou posição. Outros pegaram pelos lados, adiante saiu a tampa, carregada por um popular e os tamboretes indispensáveis, renteando o caixão aberto. Espalhado pelas ruas, o acompanhamento, só de homens. Agrupada com seus instrumentos enlaçados de crepes, a banda do funeral. Arrumado o cortejo, Dona Placidina botou o corpo fora da porta e chamou alto: — Compadre Mendanha... Escuta, compadre, cuidado com o lampião da Rua do Fogo, viu... Não vá acontecer como da outra vez.

194. CORA RONÁI. INICIAÇÃO. Nasci em Ardnamurchan, você não vai conseguir nem pronunciar, quanto mais entender. Mas não faz mal, Maria Clara, porque isso já foi há tanto tempo. Hoje não importa mais. Basta você saber que fica na Escócia e que é um lugar muito frio e muito úmido a maior parte do ano, onde as pessoas são tristes e fechadas em si mesmas. Talvez assim você compreenda por que sou como sou de vez em quando. Ou não, quem sabe. De qualquer forma, tudo isto está muito além do que precisamos saber um sobre o outro. Um café? Archibald ergue-se da poltrona devagar, toma cuidado para não derrubar os livros que tem sobre os joelhos. Escolhe um disco na estante. — Bach, Maria Clara, que tal? Gottes Zeit ist die alerbeste Zeit, tenho certeza de que você vai gostar. Maria Clara estica-se no tapete, fecha os olhos aos primeiros compassos. Ultimamente, esforça-se para entender Archibald, gostar das cantatas, sonatas e motetos que povoam a casa. Já consegue reconhecer a música de alguns compositores, pequenos testes que ele lhe apresenta. Vamos ver se você adivinha de quem e este cânon? Sentam-se à mesa, arrumam as xícaras, o café, está bom de açúcar? Archibald remexe uma pilha de cadernos, procura a pagina certa. — Então, vamos ver o que você fez de bom? Gosta de dar aulas para Maria Clara: elas são, hoje, fugas da rotina da universidade da qual começa a sentir-se cansado, ensinando, pelo décimo ano consecutivo, as mesmas coisas a pessoas invariavelmente desinteressadas e desinteressantes. Seu relacionamento com os alunos é frio, quase impessoal: um pouco por timidez, um pouco por européias noções de hierarquia que se recusa a abandonar. Isso nunca chegou a incomodá-lo, especialmente há alguns anos atrás, quando a presença de Lillian tornava outras presenças desnecessárias. Depois, as relações entre ambos foram-se deteriorando e, quando mudou-se para o Brasil, ela recusou-se a acompanhá-lo. Embora tivesse sentido algum prazer em mortificar-se com o fracasso de seu casamento, anos depois Archibald se viu forçado a reconhecer que, na época, o que sentira fora principalmente uma sensação de alívio e liberdade. Não havia mais ninguém para controlar-lhe os movimentos ninguém para reclamar dos cachimbos, impedi-lo de dedicar-se a seus poemas ou abaixar o volume da vitrola. Não havia mais ninguém, igualmente, para afagar-lhe os cabelos, nenhum corpo à noite. Esta ausência, entretanto, só veio a notar muito tempo depois na verdade, quando começou a dar aulas para Maria Clara. Agora gostaria de ter, eventualmente, alguém com quem conversar, algum amigo. Mas os anos de solidão e uma timidez que, geralmente, não se encontra nos homens atraentes, o desacostumaram de conversas íntimas, de confidências sussurradas a meia luz por sobre os cinzeiros. Na universidade, não consegue trocar mais do que polidos cumprimentos com os colegas; dos alunos, sente-se cada vez mais distante com o passar dos anos. Aos 40 anos é um homem só — e, se por um lado, a solidão ensinou-lhe muito a respeito de si mesmo, há sentimentos sobre os quais não lhe disse nada, dos quais começa a ter medo porque os julgava esquecidos para sempre. Maria Clara, marcando o ritmo da cantata com os dedos, conta o número de ripas da veneziana entreaberta, percorre as estantes com os olhos, as lombadas verdes, vermelhas, a imensa pilha de livros de bolso alaranjados. Observa seu professor, a cabeça curvada sobre o caderno, cachimbo numa das mãos enquanto com a outra anota erros, faz correções. Os cabelos muito lisos, desmaiados entre o louro e o cinza, caem-lhe sobre os olhos: quando o cachimbo está preso entre os dentes, a mão, livre, joga-os para trás num gesto inútil. — Muito bom o trabalho. Você está melhorando, sabe. Ainda tem alguma dificuldade em expor seu raciocínio numa linha uniforme, mas acho que, na sua idade, nem poderia ser de outra maneira. E erros de ortografia, precisa prestar mais atenção ao que escreve, menina. — Mas é que inglês é muito complicado. Muito mesmo. — Um pouco de atenção resolve muitas complicações. Há um texto de Saroyan muito bonito que eu quero que você conheça. Vou ditá-lo para você, a metade hoje, a metade amanhã. Onde será que coloquei o livro? Levanta-se da mesa, vai até uma das estantes onde percorre os livros com a ponta dos dedos, puxa um volume pequeno, encadernado em amarelo. Escolhe também outro disco, que leva para a vitrola. — Mais Bach Suite em Ré Maior para violoncelo, Rostropovitch. Pegue o caderno, escreva: pronta? Esta prestando atenção? In the time of our life, live — so in that good time there shall be no ugliness or death for youself or any life your life touches. Seek goodness everywhere and when it is found, bring it out of its hiding-place... — O quê? — Hiding-place. Esconderijo. Bring it out of its hiding-place and let it be free and unashamed. Place in matter and in flesh the least of values, for these are the things that hold death and must pass away. Lê muito devagar, separando as frases com cuidado. Maria Clara gosta das palavras, gosta do som que adquirem na pronúncia clara e um pouco cantada de Archibald. Se ao menos não precisasse anotá-las! Sente que poderá passar ali o resto da vida, ouvindo-as uma após a outra, absorvendo-as tão completamente que, depois de algum tempo, perderiam todo o significado para tornarem-se apenas fragmentos de sons encadeados, como a sonata de Bach que a vitrola repete em surdina. Ou seria uma suite? — Discover in all things that which shines and is beyond corruption. Vamos parar por aqui, hoje. Não e bonito? Deixe o caderno comigo. Não vou poder corrigir nada agora, dentro de meia hora tenho que estar numa reunião na faculdade, você vai ter que ir embora mais cedo. Sabe que os Beatles vão tocar nos Estados Unidos? — Claro que sei. — Então este vai ser o seu dever de casa: escrever trinta linhas sobre a tournée. — Mas como é que eu posso escrever sobre alguma coisa que ainda não aconteceu? — Usando a sua imaginação, por exemplo. Poderia passar ali o resto da vida, entre os sons, o cheiro do fumo e os olhos acinzentados. Depois de quase um ano, ainda não sabe exatamente por que aceitou dar aulas para Maria Clara, filha de um professor de física que acabara de voltar da Inglaterra: para que a menina não perca todo o inglês que aprendeu por lá. Pensou, então, que a experiência talvez valesse a pena. Mas quando a conheceu, jeans surrados, os cabelos escuros e compridos presos num rabo de cavalo, um jeito preguiçoso, disco dos Beatles embaixo do braço, chegou a arrepender-se de não ter afastado a idéia definitivamente. Para sua surpresa, porém, Maria Clara interessava-se muito mais pelo inglês do que julgara a principio. E embora inicialmente a tratasse com o mesmo distanciamento que reservava a todos os alunos — e, de resto, a todo o mundo, sem distinções — começou, com o correr do tempo, a descobri-la e, através dela, toda uma geração que nunca despertara seu interesse antes. Começara a descobrir em si próprio reações que julgava impossíveis, o riso, a conversa fácil e aberta. Divertia-se ouvindo-a contar o dia-a-dia do ginásio, ouvindo-a falar de colegas e professores, dos últimos lançamentos dos Beatles, dos olhos de Paul MacCartney ou das letras de John Lennon. Mais tarde, tornou-se cúmplice de cigarros fumados às escondidas pelos banheiros, corridas em motocicletas clandestinas e aulas mortas no terraço entre brincadeiras e jogos de batalha naval. Eu contei para você mas você jura que não vai contar para o meu pai? Maria Clara também começou a descobrir coisas novas como as crises de choro sem motivo algum, as horas passadas ao lado da vitrola, os olhos perdidos no espaço ao som de concertos e motetos. Há dias em que não sabe se vai conseguir sobreviver a todas as terças, quintas e fins de semana que a esperam sem aulas de inglês. Especialmente quando o tempo começa a escurecer, quando não há sol, não há passeios nem piscinas. As horas passam devagar e, na escola, há o sentimento do tempo e das aulas perdidas, para que matemática, história, geografia se tudo o que precisa aprender é inglês, se sabendo inglês conquistará o mundo e quem sabe Archibald, conseguirá ir até Ardnamurchan onde quer que fique e conhecer os vales verdes, as altas montanhas, o clima que sabe frio e úmido a maior parte do ano. Quinta-feira escorre inútil, a sexta arrasta-se pelas aulas de desenho e francês, pela geografia escamoteada no terraço, o cigarro escondido atrás das costas. De tarde, as horas são ainda mais lentas e há o tamborilar da chuva nas vidraças, há uma goteira na sala e uma professora irritada com a chuva, com a goteira, com os alunos. Há também um ensaio da classe de teatro às quatro e meia e, às quinze para as seis, há a sineta e a liberdade. Sacola as costas, Maria Clara corre feliz, enfrenta a chuva, atravessa a rua, segue a avenida, dobra a esquerda, novamente atravessa uma rua e, quando toca a campainha de Archibald está molhada da cabeça aos pés, a roupa colada ao corpo, a blusa branca transparente de chuva. — Mas não é possível! Será que você não tinha um guarda-chuva, não podia esperar uma carona? — É que não pensei que estivesse chovendo tanto assim. Nossa, estou ensopada. — Entre. Você não vai poder ficar assim. Vá até o banheiro, tome um banho bem quente e vista o meu roupão que está pendurado ao lado do chuveiro. Depois nós poderemos colocar as suas roupas em frente ao fogão, acabarão secando. Ande depressa. Na cozinha, Archibald liga a cafeteira elétrica ouvindo o barulho do chuveiro. tenta concentrar-se nas colheradas de pó, na água, mas não consegue esquecer a blusa molhada de Maria Clara, os seios de Maria Clara, Maria Clara nua no chuveiro, a água escorrendo pelo corpo jovem e moreno. Tenta pensar nos vinte e seis anos que os separam, na tampa da cafeteira que não quer fechar. Volta para a sala e, acendendo o cachimbo, procura o Saroyan da aula passada, relê o ditado de Maria Clara, os seios de Maria Clara, sua pele molhada e brilhante... — Ficou meio grande o teu roupão, estou me sentindo ridícula. — Não há motivo. Está linda, e pelo menos não vai ficar gripada. Estou preparando um café, achei que você precisaria beber algo quente. Vou buscar. Maria Clara senta-se no tapete, pernas cruzadas, tenta ajeitar o roupão lilás em volta do corpo. As mangas cobrem suas mãos, diverte-se levantando-as e olhando para as pontas caídas como hastes dobradas. Archibald traz a bandeja, coloca-a em cima da mesa, inclina-se sobre Maria Clara para entregar-lhe a xícara. A proximidade súbita, o roupão entreaberto, os seios de Maria Clara criam uma atmosfera carregada que os cadernos e uma missa de Haendel não conseguem disfarçar. Volta para a poltrona, olha-a de frente, os cabelos molhados, o roupão, as pernas cruzadas, o rosto pálido. Maria Clara estremece, sente que alguma coisa está acontecendo mas não sabe o que é. Imagina que Archibald a quer, repele o pensamento que volta, intenso, segundos depois. Luta com as mangas do roupão para segurar a xícara, ri, nervosa. — Estou parecendo uma débil mental. — Espere. Vou dobrar as mangas para você, do jeito que estão você nunca vai conseguir beber este café. Deixa-se escorregar da poltrona, caminha sobre o tapete com os joelhos no chão, aproxima-se de Maria Clara. Toma-lhe uma das mãos, começa a dobrar a manga com cuidado, como se mexesse com alguma coisa frágil e quebradiça. — Você está tremendo...! — Estou congelada. Segura a mão tremula e fria entre as suas, levanta o rosto devagar. Os olhos de Maria Clara em frente aos seus, o cheiro de Maria Clara, os seios de Maria Clara... puxa-a para si, beija-lhe a testa, os olhos, a boca. — Eu te queria tanto. Ela treme, tem medo, está feliz. A mão de Archibald atravessa o roupão, acaricia os seios. Tenta afastá-lo. — Não faz isso. A mão foge, sobe para os ombros, abaixa o roupão. — Archie, não. — Por que não? Eu quero você, eu amo você. Vem, você é minha. Bem quietinha, não se mexe. Maria Clara senta-se imóvel, a respiração ofegante. Archibald desamarra o cinto, o roupão escorrega, Maria Clara nua, tremula de medo e de expectativa, o coração aos saltos. As mãos a percorrem, acariciam os seios, a barriga, procuram as pernas, escondem-se entre as coxas. — Vem. Eu vou ensinar tudo para você, tudo. Isto é uma coisa muito mais bonita do que o inglês, vem, muito mais, vou te ensinar tudo. Deita. Maria Clara deita-se no tapete, olha para o lado. Tem vontade e vergonha de olhar Archibald despir-se, mas sente seus movimentos, a camisa atirada em direção a poltrona, os pés que empurram as calças e estremece quando o tem ao lado, quando as mãos a envolvem e guiam suas mãos tímidas, quando os dedos percorrem seu corpo, caminhando de leve pelas pernas, subindo sentindo-a úmida e entregue, quando o tem por cima de si, tão suave e aflito, quando os joelhos forçam suas pernas, as palavras perdem o nexo e o mundo explode, eu te queria tanto. Dez anos depois, Archibald deu um tiro na boca. Teve morte instantânea. Há nove não via Maria Clara que soube do suicídio vários meses depois, através da carta de um amigo que a cumprimentava pelo vigésimo quarto aniversário.

195. DALTON TREVISAN. CRIANÇA. — Tua professora ligou. De castigo, você. Beijando na boca os meninos. Que feio, meu filho. Não é assim que se faz. — ... — Menino beija menina. — Você é gozada, cara. — ... — Pensa que elas deixam? Ele sai do banheiro, a toalha na cintura. — Pai, deixa eu ver o teu rabo. É a tipinha deslumbrada no baile da debutante de três anos. — Rabo, filha? Ah, sei. O bumbum do pai? — Seu bobo. — ... — Esse pendurado aí na frente. O pai telefona para casa: — Alô? — ... Reconhece o silêncio da tipinha. Você liga? Quem fala é você. — Alô, fofinha. Nem um som. Criança não é, para ser chamada fofinha. Cinco anos, já viu. — Oi, filha. Sabe que eu te amo? — Eu também. "Puxa, ela nunca disse que me amava". — Também o quê? — Eu também amo eu.

196. DALTON TREVISAN. Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho. Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia. Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate -- meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor. O Negócio. Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana: -- Como é o negócio? De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa a recusa: -- Deus me livre, não! Hoje não... Abílio interpelou a velha: Como é o negócio? Ela concordou e, o que foi melhor, a filha também aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou: Como é o negócio? Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada. O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o vizinho repetiu: Como é o negócio? Diante da recusa, ele ameaçou: Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto! Espere um pouco -- atalhou Julietinha. -- Já volto. Abriu a janela, despejou água quente na mão do negro, que fugiu aos pulos. A moça foi ao boteco. Referiu tudo ao velho Abílio, mão na cabeça: Barbaridade, ô neguinho safado! O vizinho não contou e o cometa nada descobriu. Mas o velho Abílio teve medo. Nunca mais se encontrou com Julietinha, cada dia mais bonita.

197. DALTON TREVISAN. Dois velhinhos. Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo. Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora. Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:— Um cachorro ergue a perninha no poste. Mais tarde:— Uma menina de vestido branco pulando corda. Ou ainda: — Agora é um enterro de luxo. Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela. Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo. Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.

198. DALTON TREVISAN. A pobre mãe deu Betinho àquele homem: agradasse ao tio Galileu, com os dias contados, podia ser o herdeiro. Depois de partir lenha, puxar água do poço, limpar o poleiro do papagaio, o menino enxugava a louça para a cozinheira. Toda noite, Betinho subia a escada, para levar o urinol e tomar a bênção ao tio Galileu. Batia na porta: Entre, meu filho, O rapaz beijava a mão — branca, mole e úmida mãe-d’água. No domingo recebia a menor moeda, que o padrinho catava entre os nós do lenço xadrez. Tio Galileu raramente saía e, ao tirar o paletó, exibia duas rodelas de suor na camisa. Arrastava o pé, bufando, sempre a mão no peito. Afagava o papagaio, que sacudia o pescoço e eriçava a penugem: Piolhinho... piolhinho... Subindo a escada, dedos crispados no corrimão, isolava-se no quarto. O assobio através da porta: alegria de contar o dinheiro? Fechava a porta e conduzia a chave. Diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela negra, nunca por Mercedes. Sentado na cama, coçando eterno pozinho na perna, vigiava. E não assobiava com alguém no quarto. Instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem permitir que virassem o colchão de palha. Mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. O homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina. Domingo, a negra de folga, Betinho preparava o.café para Mercedes. Abria a porta, esperava acomodar-se à penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os lençóis a fragrância de maçã madura guardada na gaveta. Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. Já deitado, luz apagada. Sentou-se ao pé da cama, casara com tio Galileu por ser velho, a anunciar que morria de uma hora para outra. Mentira, para iludir a pessoa e servir-se dela. Não sofria do coração, nem sabia o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colchão lá no quarto o avarento remexia no tesouro. Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo fosse roubá-lo. Ó diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara ali no dedinho. O rapaz inclinou-se para beijar a unha de sangue. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse. O rapaz não pôde dormir. Meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o papagaio, cabeça escondida na asa — os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. Torceu o pescoço do bicho e o enterrou no quintal. Dia seguinte o homem buscou a papagaio, a assobiar debaixo de cada árvore. Betinho sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bênção ao padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho — um dos piolhos vermelhos da peste. Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto. Noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: inteirinha nua.— Vá — disse a mulher. — Vá, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho. Betinho ficou de pé. Tremia tanto, ela o amparou até a porta:— Vá, meu amor. A vez do velho. Hora de pedir a bênção. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. Aquela noite nada falou. Betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo espalhado no colete de veludo. O último cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos imóveis... Olho arregalado, a boca negra não abençoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca mais fingiria. Tio Galileu não gritou. Nem mesmo fechou o olho, mais fácil que o papagaio. Betinho afogou debaixo do travesseiro a boca arreganhada. Os pés descalços de Mercedes desciam a escada. Ele ergueu o colchão, rasgou o pano, revolveu a palha: nada. Deteve-se à escuta: os passos perdidos da mulher. Avisá-la que o velho os enganara. Era tarde, abria a janela aos gritos:— Ladrão. Assassino! Socorro...

199. DALTON TREVISAN. Insinua-se pela cortina de veludo vermelho — úmida e pegajosa —, afasta a mão com nojo: filho bastardo do rei Midas, tudo o que toca se desfaz em podridão. No rosto o bafo quente da sala; entre casal suspeito e velho pervertido e o seu abrigo. Senta-se na última fila, os pés sobre cascas de amendoim, pipoca, papel de bala. Alheio às sombras na tela, enfrentará a passagem do Natal. Escorraçou-o do bar a celebração ruidosa dos bêbados. Mais que ela, dois olhos aflitos no espelho da parede... Exílio de negridão viciosa, no cinema está defendido. Distingue a tosse do guarda que, vez por outra, circulando no corredor, assusta os casais de tarados. No canto, a lâmpada amarela sobre a cortina que, ao ser erguida, espalha nuvem fétida; pela sua agitação incessante, o interesse do público é mais lavar a mão do que assistir ao filme. Entorpecido de álcool e do ar corrupto, cabeceia na cadeira dura. Uma voz melíflua pede-lhe docemente licença, enrosca-se no seu joelho — de todas as cadeiras vazias escolhe a do lado. Sonolento, mal sustém a pálpebra aberta. Mascando e soprando a goma de bola, o mocinho a explode com beijo obsceno. Patinhas de mosca na face, João espanta-a com a mão. Mosca não, o óculo brilhoso da criatura grudado no seu rosto: uma loira de voz rouca senta-se na cama. Estende a perna roliça, que o tipo lhe descalce o sapato. Ele arranca brutalmente o sapatinho dourado. Não é assim, meu amor, assim não. Repete o mocinho no sopro da bola:— Não gosto de bruto. O herói resmunga, a camisa estraçalhada de mil tiros — por amor dela bateu-se com o vilão? A loira estira a outra perna: Não sou a sua gatinha?— Gatinha não sou? — a queixa lamuriosa ao lado. Com as duas mãos, o tipo a descalça e beija a ponta do pé. Bem assim, meu amor. Sabe ser gentil. O olho do mocinho escorre-lhe no rosto — baba fosfórea de lesma —, sem perder a legenda:— Vai ser gentil, amor? O durão de pé, a heroína à beira da cama; ergue o vestido de cetim brilhante, desprende a meia da cinta, oferece a linda perna comprida — mão tremente, ele enrola a meia desde a coxa. Raivoso, atira-a no tapete.— Quieto, benzinho.— Quietinho, meu bem — a voz aliciadora é sufocada pela tosse do guarda. Pisoteando cascas, novo espectador instala-se duas cadeiras na frente, revolve o pacote de amendoim, chupa frenético o dente. Estou doente, vou morrer — lamenta-se o machão, atingido pela bomba de cobalto, no deserto de provas ocultou-se da policia. Minha carne é gélida. Bala de revólver não a atravessa metade homem, metade monstro de ferro. O maníaco do amendoim assobia, o mocinho rumina a bola, João sofre as penas do herói. Agora a loira corre o fecho do vestido, a nudez entrevista: Eu sou Rosinha. Posso derreter o aço. Sei abrasar o corpo gélido.— Rosinha... sei abrasar... — insiste o eco suspiroso do mocinho. Rebenta a bola de goma, esbarra-lhe no joelho e, entre as cadeiras vazias, senta-se ao lado do chupador de dente. Na tela a heroína furiosa rasga a camisa do tipo, descobre o ombro sardento. Unhas rapaces enterram-se — apesar do metal — na carne fofa. João estremece: uma ratazana ali no corredor? Prestes a levantar-se, enxuga a mão no joelho. À sua frente cochicha o moço com o vizinho, que deixa de assobiar. João não ergue o pé, e mordendo o uivo, segue a corridinha da ratazana. Virá, em seu passeio tonto, enroscar-se no sapato e atarantada subir na perna? No silêncio da sala escuta o alarido do peito. O guarda não tosse, o maníaco não assobia, apenas o crepitar das cascas, agora mais perto. Violado o santuário, outra vez em pânico: uma gota de suor brinca-lhe na pálpebra. Perdido com as vozes sem respostas: Onde está minha casa, minha mulher onde está? E onde estão afinal os Natais de antanho? Luta com a imagem na tela, repete em voz baixa a legenda. Surgem das cadeiras vazias as filhas, tão pálidas, meu Deus, camisolinha em farrapos, descalças, a vagar gementes no deserto. Chorosa, indaga a menor, sem vê-lo na penumbra: Onde foi papai? Que fim o levou? Por mais aflito, não pode sair — ainda não, há que esperar a passagem do Natal. Ficará até a explosão da última bomba. Tudo menos o quarto do hotel, medroso de certa gaveta, entre as meias sem pares o brilho da navalha... Ali no cineminha pode esconder-se de si mesmo. Rei da terra, que foi feito de quem ele era? Sem mover a cabeça, relanceia o olho no corredor: as dores do mundo trazidas no focinho úmido da rata piolhenta. Espavorido, o pé plantado nas cascas de amendoim — a ratazana que belisca a barra da calça? Lá fora os sinos, buzinas, gritos de bêbados.— Outro de menos — resmunga João. — Deste eu estou livre. Passada a hora pior, eis que é um homem. Está salvo daquele Natal. Outro não haverá antes de um ano inteiro.

200. DALTON TREVISAN. Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça - galiii-nha-óóó-vos - não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental discursa para a estátua do Tiradentes. Viajo Curitiba dos conquistadores de coco e bengalinha na esquina da Escola Normal; do Jegue, que é o maior pidão e nada não ganha (a mãe aflita suplica pelo jornal: Não dê dinheiro ao Gigi); com as filas de ônibus, às seis da tarde, ao crepúsculo você e eu somos dois rufiões de François Villon. Curitiba, não a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhões de imortais, mas a dos bailes no 14, que é a Sociedade Operária Internacional Beneficente O 14 De Janeiro; das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que envelhecem de pé no balcão, mais gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhaço Chic-Chic; dos Chás de Engenharia, onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar chá; das normalistas de gravatinha que nos verdes mares bravios são as naus Santa Maria, Pinta e Nina, viajo que me viaja. Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor no prostíbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetões - com seu rei Candinho - e da sociedade secreta dos Tulipas Negras eu viajo. Não a do Museu Paranaense com o esqueleto do Pithecanthropus Erectus, mas do Templo das Musas, com os versos dourados de Pitágoras, desde o Sócrates II até os Sócrates III, IV e V; do expresso de Xangai que apita na estação, último trenzinho da Revolução de 30, Curitiba que me viaja. Dos bailes familiares de várzea, o mestre-sala interrompe a marchinha se você dança aconchegado; do pavilhão Carlos Gomes onde será HOJE! só HOJE! apresentado o maior drama de todos os tempos - A Ré Misteriosa; dos varredores na madrugada com longas vassouras de pó que nem os vira-latas da lua. Curitiba em passinho floreado de tango que gira nos braços do grande Ney Traple e das pensões familiares de estudantes, ah! que se incendeie o resto de Curitiba porque uma pensão é maior que a República de Platão, eu viajo. Curitiba da briosa bandinha do Tiro Rio Branco que desfila aos domingos na Rua 15, de volta da Guerra do Paraguai, esta Curitiba ao som da valsinha Sobre as Ondas do Iapó, do maestro Mossurunga, eu viajo. Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a de Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo. Eu sou da outra, do relógio na Praça Osório que marca implacável seis horas em ponto; dos sinos da igreja dos Polacos, lá vem o crepúsculo nas asas de um morcego; do bebedouro na pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos piás vão beber água. Viajo Curitiba das conferências positivistas, eles são onze em Curitiba há treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo. Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo. Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é - província, cárcere, lar - esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.

201. DALTON TREVISAN. Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca. Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las. Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade. Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes. O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão. A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

202. DALTON TREVISAN. GRANDALHÃO, voz retumbante, é adorado pelos filhos. João não vive bem com Maria ambiciosa, quer enfeitar a casa de brincos e tetéias. Ele ganha pouco, mal pode com os gastos mínimos. Economiza um dinheirinho, lá se foi com a asma do guri, um dente de ouro da mulher. Ela não menos trabalhadeira: faz todo o serviço, engoma a roupinha dos meninos, costura as camisas do marido. Inconformada porém da sorte, humilhando o homem na presença da sogra. Para não discutir ele apanha o chapéu, bate a porta, bebe no boteco. Um dos pequenos lhe agarra a ponta do paletó:— Não vá, pai. Por favor, paizinho. Comove-se de ser chamado Paizinho. Relutante, volta-se para a fulana: em cada olho um grito castanho de ódio.— O paizinho vai dar uma volta. Tão grande e forte, embriaga-se fácil com alguns cálices. Estado lastimável, atropelando as palavras, é o palhaço do botequim. E, pior que tudo, sente-se desgraçado, quer o conchego do corpo gostoso da mulher. Mais discutem, mais ele bebe e falta dinheiro em casa. Maria se emboneca, muito pintada e gasta pelos trabalhos caseiros. Desespero de João e escândalo das famílias, a pobre senhora, feia e nariguda, canta no tanque e diante do espelho as mil marchinhas de carnaval. Os filhos largados na rua, ocupada em depilar sobrancelha e encurtar a saia — no braço o riso de pulseiras baratas. Com uma vizinha de má fama inscreve-se no programa de calouro:— Sou artista exclusiva — ufana-se, com sotaque pernóstico. — A féria é gorda! Aos colegas de rádio oferece salgadinhos e cerveja. João escapole pelos fundos, envergonhado da barba por fazer. Volta bêbado e Maria tranca a porta do quarto, obrigado a dormir no sofá da sala. Noite de inverno, o filho mais velho, ao escutá-lo gemer, traz um cobertor:— Durma, paizinho. A cada sucesso de Maria — o quinto prêmio da marchinha, o retrato no jornal, a carta com pedido de autógrafo:— Ela ainda recebe uma vaia — é o comentário de João. - Com uma boa vaia ela aprende! Ó não — essa aí quem é de cabelo oxigenado? Acompanhada a casa, horas mortas, pelo parceiro de vida artística. Ora o cantor de tangos, ora o mágico de ciências ocultas. Demora-se aos beijos na porta e as mães proíbem as crianças de brincar com os dois meninos. João sabe que é o fim — dona casada que tinge o cabelo não é séria. Vai dormir no puxado da lenha, encolhido na enxerga imunda, a garrafa na mão. Dois dias fechado (assusta-lhe a própria força e jamais bate nos filhos), urra palavrão e desfere murro na parede. Maria faz as malas e, sem que os pequenos se despeçam de João, muda-se para casa dos pais. Lá deixa os meninos e amiga-se com um pianista de clube noturno. Mais uma bailarina, que obriga os clientes a beber. O pianista, vicioso e tísico, toma-lhe o dinheiro e, se a féria não é gorda, ainda apanha. Cansada de surra, volta à casa dos pais. Então a velha sai em busca de João e sugere as pazes.— Ela que fique onde está. Não quero Maria, nem pintada de prata. Despedido da fábrica por embriaguez, sobrevive com biscates. Ao vestir o paletó, da manga surge uma cobra e, aos berros, lança-o no fogo. Aranha cabeluda morde-lhe a nuca; inútil esmagá-la com o sapato, de uma nascem duas e três — enrodilha-se medroso a um canto e esconde nos joelhos a cabeça. Domingo recebe a visita dos filhos, enviados pela sogra. Divertem-se no Passeio Público a espiar os macaquinhos. O pai compra amendoim e pipoca, que os três mordiscam deliciados. Afasta-se de mansinho e, atrás de uma árvore, empina a garrafa saliente no bolso traseiro da calça — as mãos cessam de tremer. Os meninos desviam os olhos: sapato furado, calça rasgada, paletó sem botão. Alisando a mão gigantesca:— Não, paizinho. Não beba mais, pai. Lágrimas correm pelo narigão de cogumelo encarnado. Despede-se com sorriso sem dentes. Na esquina gorgoleja a cachaça até a última gota. Em delírio na sarjeta, recolhido três vezes ao hospício. A crise medonha da desintoxicação, solto quinze dias mais tarde. Mal cruza o portão, entra no primeiro boteco. Maria cai nos braços do mágico de ciências ocultas e, proibida de cantar com voz tão horrorosa, consola-se no tanque de roupa. Nem o amante nem os velhos querem saber dos piás, internados no asilo de órfãos. Cada um aprende seu ofício e, no último domingo do mês, com permissão da freira, vão bem penteadinhos à casa do pai. Ainda deitado, curte a ressaca; com alguns goles sente-se melhor. Os pequenos varrem a casa, acendem o fogo, olhinho irritado pela fumaça. No almoço apresentam café com pão e salame rosa. Sentado na cama, o pai contenta-se em vê-los comer. Sorri em paz, um deles enxuga-lhe o suor frio da testa. Sem coragem de abandoná-lo, os filhos a seu lado durante a noite: fala bobagem, treme da cabeça aos pés, bolhas de escuma espirram no canto da boca. Os meninos adormecem, ouvindo o ronco feio do afogado. O maior acorda no meio da noite, vai espiar o pai em sossego, olho branco. Fala com ele, não se mexe. Tem medo e chama o irmão:— O paizinho morreu. Sem chorar, encolhidos na beira da cama, à escuta dos pardais da manhã.

203. DARCY AZAMBUJA. CONTRABANDO. Marchavam em fila indiana. Na frente ia o Fidêncio Lopes, o maioral do negócio. Dirigia do pescante a travessia arriscada, com tino e segurança de velho boleeiro de diligência que fora, batendo, anos, a mesma estrada. Logo atrás o Zeca e o Osório, em seguida os cargueiros sem arreta, pelas dúvidas, que acolherados num aperto, atrasariam qualquer manobra. Fechavam a marcha o Bento e o castelhano Negrito, que se lhes agregara, de acaso, — "pa mirar de mas cercano a los guitas". E como quarteador, para garantir nos repechos, a umas cinqüenta braças na frente, ia o Chiru — novilho de aspa fina, como dizia o Fidêncio —, para bombear o caminho. A noite pendia para a madrugada, mas a névoa, adensada já nos baixios, cerrava mais a escuridão. Mal se divisavam, diluídos na noite os vultos negros das coxilhas mais próximas, e as árvores e as moitas fundiam-se na tinta escura, surgindo de chofre, a roçar os ombros e as bombachas dos cavaleiros. De quando em quando, ao contornar-lhes as faldas, os coxilhões elevavam-se numa grande mancha negra dentro da cerração e pareciam crescer, barrando a estrada. Silencioso dentro da noite perdia-se o campo enorme, imerso nos vapores cada vez mais densos no ar frio e calmo. Fidêncio Lopes fazia empenho em entregar o contrabando sem desconto algum, não só pelo valor das mercadorias, como por orgulho e capricho de velho cruzador clandestino das fronteiras. Era para diversos negociantes da vila e ia nos três cargueiros; sedas, jóias e armas, afora alguma miudeza de pouca monta. Dezessete a dezoito contos. Mas o comandante da guarda aduaneira, que de há muito lhe seguia os passos fugidiços, esperava desta vez seguramente apreender-lhe o negócio. Fidêncio sabia disso e era, pois, uma questão de honra profissional o enredar o rasto ao fisco e chegar a salvo. — Ultimamente para que serve o quarenta e quatro? — arrematava disposto, antevendo escaramuça quente. Pouca gente levava sempre consigo — que em tropa grande há mais refugo que matambre gordo. Do ponto em que estavam, pouco mais de três léguas havia para entrar na porteira do Capão Grande, já em terras do Fidêncio. Depois de alcançarem-na, estava concluída a empreitada, pois "nos campos dele, só Deus". Tinham passado a linha divisória um pouco acima do Centurion. Mais de uma semana de tempo ruim — as chuvas tinham levantado a água aos galhos — ilhara-os do outro lado da fronteira, na pulperia do Aguirre, a comer carne assada e jogar o truco. Aberto o tempo, fizeram-se de viagem, à boquinha da noite. O rio campo fora. Não era para qualquer achar o caminho certo naquele mundo de água solta. As picadas do passo, borradas pela enchente, perdiam-se por mais de duas quadras entre o mato baixo das margens, torcendo em cotovelos, mergulhando mato a dentro, contornando sangas e atoleiros, sumidas na noite densa. Amarraram os cargueiros uns aos outros para não se extraviarem e levantaram as canastras, se bem que tudo viesse retovado com oleados e as bruacas fossem de couro inteiriço. Mas, pelas dúvidas, que água não é brinquedo. Fidêncio, com as botas atadas nos tentos, cutucou com o calcanhar o colorado, que dava bufidos na beira d'água, e caiu na frente, certo que nem capincho em porto velho. — Rédea curta e venham vindo no mais, que eu aqui estou mesmo que em casa. A água marulhava, soturna, nas patas dos cavalos, subindo às vezes até meia costela. Através da noite grande e negra vinha o rumor abafado da cachoeira, quadras abaixo, afogada pelas águas grossas da cheia. O Negrito, que vinha na retaguarda, chasqueou para o Bento: "Pero, chê, por acá ni los biguás". — E, livrando o corpo a um galho baixo: — "Palos, antonces, adrede pa rachar las aspas a um cristiano. Por lo seguro no me quedo aficionau".O Bento, crioulo daqueles pagos e veterano em passagens idênticas, respondeu no mesmo calão: — "Hace fuego em los ojos, castejano, que te plantas em el charcó".Passado o fio da correnteza, embrenharam-se pela picada que serpejava entre os caponetes ilhados, através dos sarandizais fechados, nunca em linha reta, sempre quebrando à direita, à esquerda, procurando a feição propícia da terra firme. Afinal tinham saído para o campo limpo, e já traziam duas léguas de marcha cautelosa e suspicaz, cada um com a Winchester atravessada no lombilho, a mão no delgado, esperando pelo que desse e viesse. Era a zona perigosa. De dentro da treva podia a cada momento surgir, de abrupto, a guarda que velava. Desafeita e confundida na noite opaca, a emboscada podia atalhar, estrupindo de chofre numa arrancada, atacando à queima-roupa. Por isso, na frente, distanciado da coluna, ia o Chiru, de bombeiro. Nele e na sua perspicácia e sangue-frio, estava a segurança de todos. Era simples mas arriscadíssima a incumbência. Não tinha mais que, ao pressentir a guarda, avisar os companheiros. Se, ao perceber o perigo já não pudesse voltar, preveni-los-ia com um tiro, e depois cuidasse da vida... Era posto que demandava coragem e dedicação. Todos, porém, confiavam no Chiru que, mesmo a custo da vida, não os deixaria cair desapercebidos sob as carabinas da guarda. Não as temiam, porém. Afeitos àqueles perigos e sobressaltos, sempre em risco, na iminência da morte, cristalizara-se-lhes em hábito a existência errante e insegura, noite e dia sobre as coxilhas da fronteira. Ora cautos, resvalando em fugas contornantes, ora afoitos, rebatendo de frente, a bala, o fisco vigilante, carregavam sempre as mercadorias que a tarifa fazia preciosas. Entre a vida e a morte, aproximadas na expectativa dos recontros, passavam calmos, quase indiferentes, derivando para aquele comércio perigosíssimo a bravura e o estoicismo da raça, vindos de longe, do passado guerreiro, aceso outrora nas lutas que haviam feito vibrar o imenso arco da fronteira, distenso do Iguaçu ao Chuí, nos vaivéns incertos das guerras e revoluções. O Zeca, tentando divisar estrelas no céu encoberto pelo nevoeiro, murmurou a meia-voz para o Osório, que vinha logo atrás: "Deve ir virando para as quatro. Como quer, parece que escapamos".Negrito, que não se sofria muito tempo calado, pôs o cavalo ao lado do Bento — "Sabes, chê, que estoy c'una gana danada de pitar?" — O Bento sacudiu os ombros. Que era ordem. Não se fumava. Acender farol aos guitas, não é? Só se fumasse com a brasa para dentro. De feito, naquelas ocasiões bania-se tudo que pudesse assinalar a presença de passantes. Não se fumava e a conversa era pouca e em voz baixa. E deslizavam assim, cortando o campo em silêncio, evitando os pedregulhos da estrada, onde os cascos dos cavalos fariam ruído. O Fidêncio ia sempre alerta, ouvido atento aos mínimos ruídos que dissonassem do rangido abafado dos cargueiros e arreios. Por sorte, nem quero-queros haviam encontrado, que os denunciassem com o alarma estrídulo de eternas sentinelas dos campos. O velho contrabandista prelibava já, no íntimo, mais aquele buçal passado aos aduaneiros. Também, era que nem sorro velho naquelas coxilhas, onde conhecia restinga por restinga, de há tanto que cruzava por ali. Mais algumas quadras e estavam em casa. Depois era um brinquedo. Na frente, meio indistinto, ouviu um estrépito surdo, como de cavalo que tropeça. — Havia de ser o Chiru. Indiozinho de confiança, aquele! Ia certo e vivo no rumo da querência. Com efeito, o Chiru ia na frente, no tranco do picaço, furando com os olhos a treva cinzento-negra da madrugada de névoa, orgulhoso daquele posto de honra que lhe dera o patrão. Era, apesar de muito moço, a confiança do velho Fidêncio. Morrera-lhe o pai o ano atrasado, e ele passou a ser o capataz, o faz-tudo da fazendola da Limeira, onde o dono quase não parava. Deixara o rancho com a mãe e instalara-se definitivamente na casa do patrão, tomando a si todo serviço. Pouco mais que adolescente, a vida do campo fizera-o homem depressa. Fidêncio estimava-o deveras, passando ao filho a velha gratidão que tivera ao pai, de quando andavam na revolução de 93, curtindo juntos as durezas da campanha, e onde fora por ele salvo, num entrevero, baleado na perna e destinado a morrer sob as patas dos cavalos, se o amigo o não tirasse na garupa. Morto o velho companheiro, que jamais juntara pecúlio, a proteção e a amizade reverteram ao filho, aquela amizade funda e concentrada, niveladora de peões e de patrões, criados nas mesmas lides, onde gradua, não o nascimento ou fortuna, mas o valor de cada um. O Chiru ia pensando na sua vida. Tinha ainda que cangar duas juntas antes do inverno e debulhar as carradas de milho que estavam no girau do galpão pequeno. Afora todo o trabalho do campo. Inda mais agora, com a compra das duzentas reses do Ferico. Gado lindo. Tudo pampa. Cada novilha de sobreano que dava gosto olhar-se. O patrão já dera ordem de ajustar mais um peão, que os dois que havia não davam conta do serviço. E ia passando em revista tudo o que havia a fazer, toda a sua vida simples e laboriosa, sem desvios nem ânsias perturbantes, onde mal aflorava uma ambição. Mais tarde, com certeza, assim que tivesse a sua juntinha de tambeiros, podia então, mesmo sem deixar a estância da Limeira, dar uma arrumação na vida. Essa "arrumação" era a Lavica... E ao pensar enchia-se-lhe o peito de uma onda doce. Ah! a Lavica... Como um homem se deixa bolear... A sua imaginação abria uma clareira na noite e, num retângulo do sol, via-a, todo o rosto trigueiro da chinoquinha inundado da luz dos olhos. Mais que os lábios úmidos, mais que o peitinho redondo de rola, mais que tudo nela, prendiam-no aqueles misteriosos olhos de mulher, onde havia o infinito e a suavidade das coxilhas, ora banhadas de sol, cantando de vida, ora imersas na saudade e no langor das noites enluaradas. Neles moravam todos os seus sonhos mal definidos e profundos. Queria-a e, pois, trabalharia para possuí-la. E uma doce certeza confortava-o. Era só mais... Aqui, porém, interrompeu as cismas. Pareceu-lhe ouvir adiante um ruído de metais, qualquer rumor abafado quebrando o silêncio, agora pressago e inquietador. Puxou a pistola para frente e foi seguindo, de ouvido atento, os olhos muito abertos para absorverem a luz escassa da noite nas pupilas dilatadas. Nada percebeu, no entanto, e foi avançando. Raio de noite! Está que nem forno.  Cresceu-lhe à direita o vulto negro de uma reboleira de arbustos, e não a passara ainda, quando uma voz grossa e seca intimou: — Faça alto, amigo! E bem junto, como nascendo da treva, vultos de cavaleiros cercaram-no. Percebeu os reflexos frouxos de botões de metal em dólmãs escuros. Sentiu um nó na garganta, as fontes latejaram-lhe e nos ouvidos rolava como um trovão de intermitências surdas. — Não se mexa e diga quem é. A hesitação foi rápida; aquela voz restituiu—lhe a calma. Num segundo lembrou os companheiros que se aproximavam do perigo sem suspeitar. Tinha que preveni-los. Viu o cano do revólver do guarda apontando-o. Talvez morresse, mas tinha que preveni-los. Foi levantando a mão direita, devagar, colada ao corpo; encontrou o cinto, apertou a coronha da pistola, o indicador tateava o gatilho. — Fale, amigo, senão... Torceu o cano para o lado e premeu o dedo. Uma linguazinha de chama relampejou, chamuscando-lhe os pelegos. O guarda, supondo-se alvejado, atirou também. Era o quanto bastava. Prevenidos pelo duplo sinal, os contrabandistas executaram logo o preconcebido. O Zeca e o Osório, com os cargueiros, penderam por uma encosta, sem ruído, furtando a volta. Fidêncio e os outros infletiram à esquerda, coxilha acima, disparando as armas. Era a manobra de sempre. Os guardas seguiram a direção dos tiros, enquanto o contrabando mesmo, contornando, retomava longe o caminho, já à retaguarda do perigo, reaviado e certo no destino. Fidêncio com os companheiros continuavam retirando. Diferenciava-se o estampido sonoro das Winchesters e a deflagração seca das Mausers da guarda, em tiroteio frouxo, ao acaso dos alvos móveis e indistintos, afastando-se dentro da noite. Tênues, começaram a dealbar no oriente as primeiras claridades do dia. Uma aura leve foi dispersando a névoa adormecida nas baixadas. Em pouco surgiu o sol, longe na imensidão do horizonte, dourando a silhueta dos capões de mato que demoravam no campo como manchas escuras. Arrastado pelo cavalo, Chiru ficara estendido num alto, os braços abertos e o rosto voltado para o céu. O primeiro raio de sol, tangenciando a lombada das coxilhas adormecidas, veio incidir-lhe na face, onde coagulara um fio de sangue. Banhado daquela luz tépida, o gaúcho parecia apenas dormir, tão sereno tinha o rosto e tanto, para aquela alma nobre, era simples a lealdade e até mesmo a morte.

204. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. ORGIA. As filhas, já às oito ou nove horas, perguntavam, devagarinho, boiando num resto de sono, tomando o café com leite: — "A senhora também hoje se levantou antes das quatro"? — "De certo, meninas. Que é que se vai fazer? Antes das quatro a fila já estava um colosso! Ia até a esquina. Ah! Vocês são umas preguiçosas. Não sabem quanta gente se levanta cedo!". As filhas e o marido se impressionavam com aquele estranho zelo da dona de casa. Por que não mandar a empregada? — "Na leiteria já me conhecem. Se eu mandar a criada, vocês nem vêem a cor do leite. E para mim o leiteiro vende quantos litros eu queira”. Começou a fazer uns vestidos, não tão leves, não tão leves, não... para a fila do leite. As quatro, sempre corria uma aragem friorenta, vinda das bandas da praia. Os vestidos eram folgados — "pra gente estar à vontade" — e também assim eram os sapatos de salto baixo: — "Esses são mesmo próprios. Não cansam. Meninas! Não quero que usem os meus sapatos da fila, Vão deformar o calçado. Eu preciso de toda a comodidade." Era estranho aquele requinte. Dizia o pai à filha: — "Você já reparou como sua mãe agora deu para gostar de fila?" O marido resolveu experimentar a mulher: — "Amanhã eu vou. Ainda tiro um soninho depois". — "Vai, nada ! Você tem trabalhado muito. Mais um sacrifício — e a senhora suspirou — já não é nada para mim !" Ontem, esperava um táxi para a viagem a São Paulo e por acaso surpreendi a dama da fila da madrugada. Uma espessa, íntima união estava naquela fila da leiteria. Encostava-se a dona molemente, um pouco tonta ainda de sono, à árvore. Uma vizinha contava qualquer coisa. Ela ria, um riso ainda com resto de lençol, de travesseiro fofo. 0 cinqüentão do apartamento do primeiro andar coara o próprio café, o cheirava bem o seu hálito na madrugada. Era uma fila limpa, perfumada a dentifrício, a roupa fresca plena de comodidades caseiras. A madame do dezenove, justamente a mais bonita, com um vestido parecendo quimono, dobrou um jornal sobre o chão da calçada. Sentou-se rindo, distribuindo o seu gostoso sorriso, como vinho para todos. E logo, outras a imitaram. Passavam rente as criaturas que voltavam das boites. Um homem largava seus recalques cantando, do outro lado da rua. Sua voz era cálida, um pouco pastosa. Nunca aquele homem cantaria assim em casa. A rua da madrugada era a rua das ousadias. As janelas estavam fechadas sobre mistérios e intimidades. Pela fila agora passavam uns moços morenos, bonitos, que iam à pesca. As aventuras do mar bafejaram a pequena multidão. Os rapazes falavam alto, excitados. O mar noturno vinha molemente até a calçada, por intermédio dos passantes joviais. O dia já se vem anunciando. Em breve a leiteria levantará sua cortina metálica e estudantes, caixeiros, a turba do trabalho, estará na rua. A vida será estúpida, na atividade doméstica. E só amanhã, às quatro horas, haverá a transfiguração da cidade, mostrando seus segredos, mansa, íntima, tão perto, cheia de histórias balbuciadas, plena de orgia da madrugada.

205. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. HISTÓRIA DE MINEIRO. Estou sabendo de uma historinha que bem valia um conto e feito por quem a narrou, o contista que anda arrebatando todos os prêmios dos concursos em que se inscreve: Edson Guedes de Morais. É um caso de mineiro. Trata de gente pobre e de filho que veio trabalhar no Rio, prosperou e um dia mandou uma carta ao pai: Meu pai, com a graça de Deus, posso dizer que já tenho economia suficiente para pretender realizar qualquer sonho seu. Minha maior felicidade estará em poder propor: que possa fazer para alegrá-lo? 0 que mais desejaria na vida? Tenho pensado muito em sua luta de sacrificado e não me lembro de tê-lo ouvido falar sobre qualquer aspiração. Não se acanhe, papai, mande dizer se o senhor quiser alguma coisa." Lá da cidadezinha das Minas Gerais veio uma carta. Daquele homem religioso, devoto de Nossa Senhora Aparecida, austero, confiando nos seus deveres e trabalhos: o homem que jamais manifestara ao filho o seu desejo de possuir, por exemplo, um carro, ou ter um negócio só seu, ou, no mínimo, de adquirir uma lavadeira automática para desafogar o trabalho da mulher: — "Meu filho, com a graça de Deus, todos vão com saúde. Não me falta nada. Assim como vivo, vivo bem. Mas se você quiser saber de um desejo que sempre tive fique sabendo agora que toda a vida quis ver o mar. É só isso, meu filho, mais nada." Tão pouco lhe pedia o pai ! Mandou-lhe o filho a passagem, depois de ter escolhido um bom hotelzinho na Tijuca, freqüentado por gente de pequenas posses, mas pessoas escolhidas — só família, enfim. E o velho chegou com a alegria de ver o filho que realizara o que inúmeras gerações de sua gente não haviam conseguido: ter dinheiro sobrando. Vieram as efusões, as lágrimas. O primeiro dia passou, e, logo no segundo, o filho veio buscar o pai: Papai, vista-se que eu vou levá-lo a Copacabana. Está na hora de realizar o desejo." 0 velho olhou-o piscando meio trêmulo: — "Hoje, não. Quero visitar a prima Carlota, que mora aqui perto. Amanhã eu vou". Chegou amanhã, e o pai, sempre tremendo e piscando, disse que não se sentia bem para ir a Copacabana. No terceiro e no quarto dias também, afirmou que não podia ir e que queria comprar uma lembrancinha para a mulher e para a filha. Alguns dias decorreram e o grande encontro entre o mineiro e o mar foi sendo protelado. Já, então, o filho estava meio triste com aquela estranha atitude do pai e, afinal, desabafou: — "Parece que o senhor não está querendo mesmo ir ver o mar! Desde que chegou aqui não encontra um dia para realizar aquilo que afirmou ser o único desejo de sua vida!" 0 pai chegou a pegar o chapéu, passou a mão no ombro do filho mas estava tão perturbado, que desta vez, realmente, parecia doente. — "Meu pai, o que é que o senhor tem? O que há?" O velho mineiro, de olhos nublados, hesitou. Por fim, largou o peso da verdade de uma vez : — "Acho uma coisa tão maravilhosa poder ir ver o mar que quero entregar a Nossa Senhora o meu sacrifício. Meu filho, não se zangue. Vou voltar hoje mesmo para casa sem ir a Copacabana". — "Mas por que, meu pai? Por quê? Nem Nossa Senhora vai aceitar esse seu sacrifício. Todo mundo vê o mar todo dia. Gente há que nem liga, passa pela praia e nem volta o rosto para ele..." Mas, a essa altura, o velho já ia juntando os seus trens. Nesse mesmo dia voltou para sua cidade das Minas Gerais, levando em sua imaginação a idéia do abismo de assombro que ele jamais encontraria.

206. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. O HOMEM QUE SE EVADIU. Ele costumava olhar a cidade como quem passa de trem, e não pode possuir a paisagem. Que belas mulheres, que admiráveis lugares de diversões, e que restaurantes... e que bebidas! Feliz era o turista que chupava a cidade por um canudo. Mas ele — ele era o seu escravo! De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Quando chegava o dia de folga — a mulher, que estava dia a dia ficando mais feia e ácida, se agarrava com ele. Ela era quem escolhia o cinema, ou a visita... Numa segunda-feira, em que o homem sentia a vida como um nó na garganta, um companheiro de trabalho deu certa notícia: - "Sabe? O chefe vai mandar-me a Buenos Aires por quinze dias!" - "Mas você é um homem de sorte! Eu que sempre quis conhecer aquela terra!" A viagem do colega a Buenos Aires deu ao nosso conhecido um complexo: o da liberdade! A inveja nele doía. E então, pediu ao felizardo: - "Tive uma idéia. Vou tomar férias. E como não tenho dinheiro para viajar... fico por aqui mesmo. Mas quero que minha mulher pense que estou fora. Meu amigo — eu vou é me acabar! Vou-me divertir para o resto da minha vida. Você vai para Buenos Aires, mas a gente rica de lá vem passear aqui. Quer dizer que isto é bom. O de que se precisa é liberdade, para gozar o Rio." Como o amigo concordasse com sua fantasia — o carioca que queria gozar o Rio como turista disse à mulher: — "Meu bem, tenho uma novidade para contar. O chefe me despachou para Buenos Aires por duas semanas! Vou ter muitas saudades de você. Nós que não nos separamos nunca!" E ele não quis que a mulher o acompanhasse ao Aeroporto: — " Vou ficar muito emocionado." Nesse dia em que deveria embarcar, ele madrugou e foi levar o amigo, entregando-lhe meia dúzia de telegramas que deveria passar... E caiu na orgia. À noite, depois de um dia de companhia alegre, de passeio de lancha, de teatro ao lado de uma loira, à noite, lá pelas onze horas, uns conhecidos que chegavam a uma boate deram com nosso personagem num pileque terrível. Daí a meia hora estava dormindo sobre a mesa: ninguém sabia que ele tomara um quarto em hotel... nem conhecia sua trama inventada. Os amigos, penalizados, o puseram num automóvel e sabendo do seu endereço, o deixaram em casa, onde a mulher o recebeu com espanto, que se transformou em cólera tremenda. Quando, de manhãzinha, o homem acordou em seu quarto — mediu toda a extensão da sua ... desgraça: — " Meu bem, os amigos, lá no aeroporto... O avião atrasara quatro horas... me deram uma festinha de despedida... e eu perdi a hora... Mas não foi minha culpa. Você me perdoe. Isso aconteceu, porque eu não tenho hábito dessas coisas... Mas eu me arranjarei com o chefe... Até foi bom. Ele manda outro funcionário, e eu não me separo mais da minha mulherzinha." A senhora estava furiosa. Foi preciso muito juramento e muita declaração de amor para que amansasse um pouquinho. À tarde, quando estava já querendo fazer as pazes tocou a campainha da porta. Era um telegrama. Ela o abriu: — " Viagem ótima. Morrendo saudades querida mulherzinha." Foi a tempestade. A senhora arrumou a bagagem. Ia para a casa do pai, pois não era uma abandonada. O marido se arrojou ao chão, inventou histórias, disse que se mataria. Ela ficou. Mas quando se recolhiam ao quarto de pazes feitas, chegou novo telegrama: — " Buenos Aires sem ti não vale nada." E os quinze dias do homem que quis quebrar sua rotina foram tremendos. Mesmo porque o amigo que levara os telegramas mudara de hotel, em Buenos Aires, e se desincumbiu religiosamente da sua missão. O último despacho que mandou foi assim: — " Volto amanhã teus braços." E estava gentilmente assinado: " Maridinho".

207. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. CASA PARA ALUGAR. Ontem fui ver uma casa vazia, que espera seus inquilinos. Onde fica, qual o seu aluguel, isto não são coisas contidas no ofício da cronista. Estava toda escancarada para um sol que lampejava enviesado, desconcertando pelo seu absurdo de má pintura. Já era quase noite num canto do céu. E havia um rasgão azul cintilante, feito para clarear a casinha, que se oferecia, toda branca e nova, para quem quisesse e pudesse. Quando entrei — um operário cantava, outro metia a cabeça pintalgada de branco sob a torneira do jardim. Havia água, espaço, terra em torno, muros cercando o pequeno domínio. Muitas pessoas têm ido ver a casinha vazia. As mulheres ficam perturbadas por um amontoado de sonhos que se desencadeiam, mal elas põem os pés no pequeno terraço. "Aqui fecharei com persianas; será quase um jardim, para que o neném não saia. E mandarei pintar da mesma cor da parede essa tremenda barra de cor verde, na sala de jantar, fingindo mármore".Depois de uma pausa, talvez ainda acrescentem: "Este quarto será transformado em escritório, porque tem muita parede, e bem se pode nele instalar a grande estante de dois metros e oitenta. E neste canto do quarto cabe a cama de casal". A casinha será medida, considerada por uma respeitável quantidade de pessoas. Alguém se alegrará com o quintal, nele instalando em imaginação a casa do seu cachorro ou o galinheiro. Pessoas poéticas verão crescidas, aninhando as paredes, amorosas trepadeiras, assim como as begônias no terraço, mais as avencas e os gerânios. Gostei de ver a casinha desalugada. Ainda não se sabe de quem será! É um palco pequeno e adornado, esperando por seus atores. Até a música que o operário cantarolava me parecia qualquer canto de apresentação, antes de uma peça, cuja primeira parte constará, talvez, da invasão de uma família com sua velha e seu papagaio, seu piano que não encontra parede, sua moça que reclama tudo, e a mãe que briga com os fornecedores. Um gato morrerá, quase, de susto, traumatizado com a alvura das paredes desconhecidas. A jovem achará a barra de imitação de mármore o tipo da coisa suburbana. 0 pai, vindo de uma era de casas mais enfestadas, defenderá aquela aparência de suntuosidade com o calor que só as discussões domésticas podem ter. Haverá um filho estudando, brigas sobre o horário do almoço, objetos perdidos na mudança, e o martirológio da dona da casa entoado por ela própria, sem que ninguém se importe com seu drama. Pode ser que a moça se case, que haja na salinha de barra verde uma mesa com comes e bebes. Acontecerá, quem sabe, em certa madrugada, riscar o escuro o choro de uma criancinha recém-nascida pungentemente cantando dos difíceis começos, doloridos começos de qualquer vida. Haverá alegria, haverá dívidas de dar nó na garganta, e festa de formatura, e discussões políticas. A casinha nova, então, terá paredes riscadas, gordura sobre o forro da cozinha, portas sem chave, torneiras escorrendo. Na ex-cobiçada pequena casa pessoas baterão portas com raiva: — "Esta casa é um inferno!" Outras chegarão nela, já toda sabida e experimentada, como amante sem segredo, e irão diretamente a um canto mais fresco do terraço, ou para a profundeza de um quarto. — "Eu estava morrendo de calor (ou de cansaço). Não agüentava mais a rua." Terá a casinha tão perfeitamente pura, hoje, pregos caídos da parede, ladrilhos que faltam, como dentadura incompleta. Se passar algum tempo mais — talvez que o velho morra, e se enterre com a roupa feita ainda para o casamento da filha em seu caixão, que no alto será levantado, quando atravessar o portãozinho. Ah, casinha que espera seus donos, branca e bonita como uma noiva menina! Estás preparada para teu destino. E, antes dos moradores — compactos fantasmas de vida e de morte já te povoam, eu sei.

208. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. A moralista. Se me falam em virtude, em moralidade ou imoralidade, em condutas, enfim, em tudo que se relacione com o bem e o mal, eu vejo Mamãe em minha idéia. Mamãe — não. O pescoço de Mamãe, a sua garganta branca e tremente, quando gozava a sua risadinha como quem bebe café no pires. Essas risadas ela dava principalmente à noite, quando — só nós três em casa — vinha jantar como se fosse a um baile, com seus vestidos alegres, frouxos, decotados, tão perfumada que os objetos a seu redor criavam uma pequena atmosfera própria, eram mais leves e delicados. Ela não se pintava nunca, mas não sei como fazia para ficar com aquela lisura de louça lavada. Nela, até a transpiração era como vidraça molhada: escorregadia, mas não suja. Diante daquela pulcritude minha face era uma miserável e movimentada topografia, onde eu explorava furiosamente, e em gozo físico, pequenos subterrâneos nos poros escuros e profundos, ou vulcõezinhos que estalavam entre as unhas, para meu prazer. A risada de Mamãe era um "muito obrigada" a meu Pai, que a adulava como se dela dependesse. Porém, ele mascarava essa adulação brincando e a tratando eternamente de menina. Havia muito tempo uma espírita dissera a Mamãe algo que decerto provocou sua primeira e especial risadinha: — Procure impressionar o próximo. A senhora tem um poder extraordinário sobre os outros, mas não sabe. Deve aconselhar... Porque... se impõe, logo à primeira vista. Aconselhe. Seus conselhos não falharão nunca. Eles vêm da sua própria mediunidade... Mamãe repetiu aquilo umas quatro ou cinco vezes, entre amigas, e a coisa pegou, em Laterra. Se alguém ia fazer um negócio, lá aparecia em casa para tomar conselhos. Nessas ocasiões Mamãe, que era loura e pequenina, parecia que ficava maior, toda dura, de cabecinha levantada e dedo gordinho, em riste. Consultavam Mamãe a respeito de política, dos casamentos. Como tudo que dizia era sensato, dava certo, começaram a mandar-lhe também pessoas transviadas. Uma vez, certa senhora rica lhe trouxe o filho, que era um beberrão incorrigível. Lembro-me de que Mamãe disse coisas belíssimas, a respeito da realidade do Demônio, do lado da Besta, e do lado do Anjo. E não apenas ela explicou a miséria em que o moço afundava, mas o castigo também com palavras tremendas. Seu dedinho gordo se levantava, ameaçador, e toda ela tremia de justa cólera, porém sua voz não subia do tom natural. O moço e a senhora choravam juntos. Papai ficou encantado com o prestígio de que, como marido, desfrutava. Brigas entre patrão e empregado, entre marido e mulher, entre pais e filhos vinham dar em nossa casa. Mamãe ouvia as partes, aconselhava, moralizava. E Papai, no pequeno negócio, sentia afluir a confiança que se espraiava até seus domínios. Foi nessa ocasião que Laterra ficou sem padre, porque o vigário morrera e o bispo não mandara substituto. Os habitantes iam casar e batizar os filhos em Santo Antônio. Mas, para suas novenas e seus terços, contavam sempre com minha Mãe. De repente, todos ficaram mais religiosos. Ela ia para a reza da noite de véu de renda, tão cheirosa e lisinha de pele, tão pura de rosto, que todos diziam que parecia e era, mesmo, uma verdadeira santa. Mentira: uma santa não daria aquelas risadinhas, uma santa não se divertia, assim. O divertimento é uma espécie de injúria aos infelizes, e é por isso que Mamãe só ria e se divertia quando estávamos sós. Nessa época, até um caipira perguntou na feira de Laterra: — Diz que aqui tem uma padra. Onde é que ela mora? Contaram a Mamãe. Ela não riu: — Eu não gosto disso. — E ajuntou: Nunca fui uma fanática, uma louca. Sou, justamente, a pessoa equilibrada, que quer ajudar ao próximo. Se continuarem com essas histórias, eu nunca mais puxo o terço. Mas, nessa noite, eu vi sua garganta tremer, deliciada: — Já estão me chamando de "padra"... Imagine! Ela havia achado sua vocação. E continuou a aconselhar, a falar bonito, a consolar os que perdiam pessoas queridas. Uma vez, no aniversário de um compadre, Mamãe disse palavras tão belas a respeito da velhice, do tempo que vai fugindo, do bem que se deve fazer antes que caia a noite, que o compadre pediu: — Por que a senhora não faz, aos domingos, uma prosa desse jeito? Estamos sem vigário, e essa mocidade precisa de bons conselhos... Todos acharam ótima a idéia. Fundou-se uma sociedade: "Círculo dos Pais de Laterra", que tinha suas reuniões na sala da Prefeitura. Vinha gente de longe, para ouvir Mamãe falar. Diziam todos que ela fazia um bem enorme às almas, que a doçura das suas palavras confortava quem estivesse sofrendo. Várias pessoas foram por ela convertidas. Penso que meu Pai acreditava, mais do que ninguém, nela. Mas eu não podia pensar que minha Mãe fosse um ser predestinado, vindo ao mundo só para fazer o bem. Via tão claramente o seu modo de representar, que até sentia vergonha. E ao mesmo tempo me perguntava: — Que significam estes escrúpulos? Ela não une casais que se separam, ela não consola as viúvas, ela não corrige até os aparentemente incorrigíveis? Um dia, Mamãe disse ao meu Pai, na hora do almoço: — Hoje me trouxeram um caso difícil... Um rapaz viciado. Você vai empregá-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxílio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou... contando a sua miséria. É um desgraçado! Um sonho de glória a embalou: — Sabe que os médicos de Santo Antônio não deram nenhum jeito? Quero que você me ajude. Acho que ele deve trabalhar... aqui. Não é sacrifício para você, porque ele diz que quer trabalhar para nós, já que dinheiro eu não aceito mesmo, porque só faço caridade! O novo empregado parecia uma moça bonita. Era corado, tinha uns olhos pretos, pestanudos, andava sem fazer barulho. Sabia versos de cor, e às vezes os recitava baixinho, limpando o balcão. Quando o souberam empregado de meu Pai — foram avisá-lo: — Isso não é gente para trabalhar em casa de respeito! — Ela quis — respondeu meu Pai. — Ela sempre sabe o que faz! O novo empregado começou o serviço com convicção, mas tinha crises de angústia. Em certas noites não vinha jantar conosco, como ficara combinado. E aparecia mais tarde, os olhos vermelhos. Muitas vezes, Mamãe se trancava com ele na sala, e a sua voz de tom igual, feria, era de repreensão. Ela o censurava, também, na frente de meu Pai, e de mim mesma, porém sorrindo de bondade: — Tire a mão da cintura. Você já parece uma moça, e assim, então... Mas sabia dizer a palavra que ele desejaria, decerto, ouvir: — Não há ninguém melhor do que você, nesta terra! Por que é que tem medo dos outros? Erga a cabeça... Vamos! Animado, meu Pai garantia: — Em minha casa ninguém tem coragem de desfeitear você. Quero ver só isso! Não tinha mesmo. Até os moleques que, da calçada, apontavam e riam, falavam alto, ficavam sérios e fugiam, mal meu Pai surgisse à porta. E o moço passou muito tempo sem falhar nos jantares. Nas horas vagas fazia coisas bonitas para Mamãe. Pintou-lhe um leque e fez um vaso em forma de cisne, com papéis velhos molhados, e uma mistura de cola e nem sei mais o quê. Ficou meu amigo. Sabia de modas, como ninguém. Dava opinião sobre os meus vestidos. À hora da reza, ele, que era tão humilhado, de olhar batido, já vinha perto de Mamãe, de terço na mão. Se chegavam visitas, quando estava conosco, ele não se retirava depressa como fazia antes. E ficava num canto, olhando tranqüilo, com simpatia. Pouco a pouco eu assistia, também, à sua modificação. Menos tímido, ele ficara menos afeminado. Seus gestos já eram confiantes, suas atitudes menos ridículas. Mamãe, que policiava muito seu modo de conversar, já se esquecia de que ele era um estranho. E ria muito à vontade, suas gostosas e trêmulas risadinhas. Parece que não o doutrinava, não era preciso mais. E ele deu de segui-la fielmente, nas horas em que não estava no balcão. Ajudava-a em casa, acompanhava-a nas compras. Em Laterra, soube depois, certas moças que por namoradeiras tinham raiva da Mamãe, já diziam, escondidas atrás da janela, vendo-a passar: — Você não acha que ela consertou... demais? Laterra tinha orgulho de Mamãe, a pessoa mais importante da cidade. Muitos sentiam quase sofrimento, por aquela afeição que pendia para o lado cômico. Viam-na passar depressa, o andar firme, um tanto duro, e ele, o moço, atrás, carregando seus embrulhos, ou ao lado levando sua sombrinha, aberta com unção, como se fora um pálio. Um franco mal-estar dominava a cidade. Até que num domingo, quando Mamãe falou sobre a felicidade conjugal, sobre os deveres do casamento, algumas cabeças se voltaram quase imperceptivelmente para o rapaz, mas ainda assim eu notei a malícia. E qualquer absurdo sentimento arrasou meu coração em expectativa. Mamãe foi a última a notar a paixão que despertara: — Vejam, eu só procurei levantar seu moral... A própria mãe o considerava um perdido — chegou a querer que morresse! Eu falo — porque todos sabem — mas ele hoje é um moço de bem! Papai foi ficando triste. Um dia, desabafou: — Acho melhor que ele vá embora. Parece que o que você queria, que ele mostrasse que poderia ser decente e trabalhador, como qualquer um, afinal conseguiu! Vamos agradecer a Deus e mandá-lo para casa. Você é extraordinária! — Mas — disse Mamãe admirada. — Você não vê que é preciso mais tempo... para que se esqueçam dele? Mandar esse rapaz de volta, agora, até é um pecado! Um pecado que eu não quero em minha consciência. Houve uma noite em que o moço contou ao jantar a história de um caipira, e Mamãe ria como nunca, levantando a cabeça pequenina, mostrando a sua nudez mais perturbadora —seu pescoço — naquele gorjeio trêmulo. Vi-o ao empregado, ficar vermelho e de olhos brilhantes, para aquele esplendor branco. Papai não riu. Eu me sentia feliz e assustada. Três dias depois o moço adoeceu de gripe. Numa visita que Mamãe lhe fez, ele disse qualquer coisa que eu jamais saberei. Ouvimos pela primeira vez a voz de Mamãe vibrar alto, furiosa, desencantada. Uma semana depois ele estava restabelecido, voltava ao trabalho. Ela disse a meu Pai: — Você tem razão. É melhor que ele volte para casa. À hora do jantar, Mamãe ordenou à criada: — Só nós três jantamos em casa! Ponha três pratos... No dia seguinte, à hora da reza, o moço chegou assustado, mas foi abrindo caminho, tomou seu costumeiro lugar junto de Mamãe: — Saia!... — disse ela baixo, antes de começar a reza. Ele ouviu — e saiu, sem nem ao menos suplicar com os olhos. Todas as cabeças o seguiram lentamente. Eu o vi de costas, já perto da porta, no seu andar discreto de mocinha de colégio, desembocar pela noite. — Padre Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome... Desta vez as vozes que a acompanhavam eram mais firmes do que nos últimos dias. Ele não voltou para a sua cidade, onde era a caçoada geral. Naquela mesma noite, quando saía de Laterra, um fazendeiro viu como que um longo vulto balançando de uma árvore. Homem de coragem, pensou que fosse algum assaltante. Descobriu o moço. Fomos chamados. Eu também o vi. Mamãe não. À luz da lanterna, achei-o mais ridículo do que trágico, frágil e pendente como um judas de cara de pano roxo. Logo uma multidão enorme cercou a velha mangueira, depois se dispersou. Eu me convenci de que Laterra toda respirava aliviada. Era a prova! Sua senhora não transigira, sua moralista não falhara. Uma onda de desafogo espraiou-se pela cidade. Em casa não falamos no assunto, por muito tempo. Porém Mamãe, perfeita e perfumada como sempre, durante meses deixou de dar suas risadinhas, embora continuasse agora, sem grande convicção — eu o sabia — a dar os seus conselhos. Todavia punha, mesmo no jantar, vestidos escuros, cerrados no pescoço.

209. DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ. TARCISO. Além da ponte cinzenta e empedrada começava o muro dos Vilares. Por cima dele se inclinavam alguns chorões desgalhados e sofredores, pendendo para o chão poeirento, ansiando por um descanso. Um vento morno e enervante roçava-lhes as folhas mais altas, fazia tremer as janelas vermelhas do sobrado, como se as forçasse de propósito. O jardineiro dos Vilares, de joelhos sobre a terra, arrancava, com cuidado para não magoar as flores, aqui e ali, pequenas plantas daninhas. De vez em quando olhava o céu. A terra pedia chuva, e era só aquele vento seco e ruinoso soprando em cima das plantas e das criaturas, com impiedade. Estava no seu trabalho, quando a porta da frente se abriu, e Maninha apareceu com os cabelos voando, o vestido branco palpitando igual a uma asa, fininha, comprida e pálida: — Se chegar alguém de automóvel, espie a entrada da ponte. Avise para ter cuidado com a vala. — Está direito — assentiu o jardineiro. Eu aviso. Espera cá a menina! Pôs-se em pé, apanhou um molho de algumas altas flores vermelhas, inchadas, grandes, tão viçosas que pareciam artificiais, e levou-as à Maninha. — Estas são fortes. Não há vento que dê cabo delas.Maninha sorriu, apanhou as flores, e voltou correndo. Ao entrar na sala sentiu a mesma atmosfera tensa e irritante que ali deixara havia poucos momentos. A mãe e o pai continuavam a discutir, com aquele modo especial. Feriam-se mutuamente numa guerra severa e contida. Nem gritos, nem desabafos, nem acessos de ira, ou crises de choro. Mas uma batalha fria e metódica, em que todos os gestos eram estudados, todas as palavras determinadas e inflexíveis, nunca apaixonadas e descuidosas. Passou Maninha como uma lufada branca e leve pela sala de móveis escuros e pesados, com a mancha vermelha das flores em uma das mãos. Subiu a escada de ferro. Lá em baixo, fitando a filha, disse Carlos Vilares à sua mulher — Luísa. — Já sei para que são estas flores! O menino está doente, talvez em perigo de vida, e você impele a sua própria filha para fazer o irmão piorar, num exagero de beatice! Carlos havia dito isto mais como ironia, com um repuxar nos lábios finos, que queria ser um sorriso, tornar menos graves suas palavras, mas Luísa respondeu erguendo a face fina de ave, fixando-o de perfil, com um olho apenas, como prestes a dar uma bicada violenta, à traição: — São flores para o altar, que Tarciso mesmo fez quando era pequenino. Seu filho sempre foi crente e calmo. Você o mergulhou na dúvida. Você, com seu materialismo, com seus discursos fora da moda! Não foi a minha fé; não foram as flores com que eu e Maninha enfeitamos os pés de Nossa Senhora, que confundiram o menino, que o desnortearam. Foi você! — "Meu filho há de ser mais feliz do que eu, ter mais prazeres na vida. Tome dinheiro, meu filho! Eu não tive. Você tem. Vá divertir-se. Deixe as saias da mãe." Lembre-se! Lembre-se de que foi isso que precipitou a crise — os seus conselhos. Carlos Vilares desabotoou o paletó, começou a dar passadas e mais passadas, que pareciam calmas e medidas: — Chamei Tarciso aqui como qualquer pai o faria. Dei-lhe algumas explicações. É claro! Meu filho não podia continuar como um maricas. Quantas vezes eu mesmo — vendo-o do meu tamanho, já quase um homem feito, me envergonhava da sua timidez. Incrível! Luísa virou a face magra, de todo, focalizou o marido com seu olhar duro: — Sua vaidade sacrificou o menino. A verdade é que de repente você sentiu que ele me pertencia. Era meu! Toda a sua eloqüência, e todas as suas idéias de um materialismo grosseiro não encontraram apoio em Tarciso. O que você fez... foi crime. Sim! — eu digo com a maior clareza e assumo a responsabilidade do que estou dizendo: você fez o menino ficar doente; talvez para sempre! — Minha família não tem malucos. A sua já não é a mesma coisa. Aquele seu tio que vestiu uma opa — e saiu pelo mundo: — "Esmola para os pobres! Esmola para os pobres! " Deu tudo que tinha, botou dinheiro fora com toda a espécie de vagabundos. Minha família é de gente equilibrada! A face de Luísa tremeu, mas sua voz era firme e áspera: — Você?... Nem se deu o respeito. Mostrou livros indecentes a Tarciso... Isto é, não mostrou, mas "esqueceu" de propósito para o menino ler! O que está acontecendo com nosso filho é que... foi um choque que ele teve — grande demais para sua inocência. Carlos passou a mão pelos belos cabelos grisalhos: — Quando o Doutor Laertes chegar — você me chame logo. A fala de Luísa subiu um tom: nunca ela se pareceu tanto com uma ave arisca: — Chamei Padre Nicolau. Os meus direitos são iguais aos seus. Você acha que Tarciso precisa de um médico. Eu acho que não. Prefiro um sacerdote. O marido pôs o pé na escada, pronto para subir: — Coitado! Até tenho pena de você meter o Padre Nicolau nessa história. Aquele jeito dele — não sei se escrúpulo, se falta de inteligência — de pensar meia hora, antes de dizer qualquer coisa! Pode chamar à vontade. Chame o jardineiro, se quiser, também... contanto que o Doutor Laertes venha. Isso é que é o principal. E Carlos foi subindo devagar. No meio da escada encontrou Maninha; vinha correndo para junto da mãe. Enquanto o pai entrava no quarto de Tarciso, Maninha se chegava a Luísa, com maneiras assustadas: — Mamãe — eu jurei, mas pra senhora eu conto: até não foi mesmo um juramento, eu enganei Tarciso, e disse: "Juro por Deus!" bem depressa, ele pensou que eu estava jurando. Eu agora sei tudo! Ele falou! Ele contou! — Fez alguma coisa... malfeita, quando saiu de casa? Hein? Fez? Fale, mas fale baixo por causa de seu pai. Senão tudo arrebenta em cima de mim... — Foi horrível, mamãe. Não sei. Acho que não fez. Mas teve vontade de fazer. Maninha ergueu os olhos, olhou para a porta de Tarciso. Estava fechada, não havia perigo: — Tudo foi por causa de uns sonhos. Foi por isso que ele foi embora. A senhora se lembra quando ele ficava acordado, estudando noites e noites? A senhora zangava e ele dizia que não tinha sono. Mas estava enganando... Ele não queria dormir... com medo dos pesadelos. Meu Deus, como é que uma pessoa como Tarciso pode sofrer tanto? A campainha tocou. — Deve ser o médico. Quieta! — disse Luísa a Maninha, enquanto rápida se encaminhava para a porta. Mas, para sua surpresa, quem chegara era o lento e ofegante Padre Nicolau. — Vim depressa — disse ele, com pequenas pausas para respirar. — O Coronel Juliano me trouxe... de automóvel. Que há... então? E se atirou pesadamente numa poltrona, antes que Luísa o mandasse sentar: — Este vento... me faz mal. Por pouco que o carro não bateu... na quarta da ponte. Quando levamos o susto... apareceu... seu jardineiro para nos avisar... que tivéssemos cuidado... Luísa disse, polida: — O senhor desculpe. Sinto muito. Mas foi só o susto, não foi? — Isso mesmo. Que é que a senhora... quer? Alguma... dificuldade? Esta menina... Maninha disse, viva: — Não é comigo. É com meu irmão Tarciso. Eu não tenho nada. Luísa fê-la interromper-se com um gesto brusco: amaciou a fala, dirigindo-se ao padre: — Tarciso anda esquisito. Meu marido acha que ele está doente. Porque deu pra fugir de casa, e ficar horas e horas, depois, sem querer dar a palavra a ninguém.— Ah! — fez Padre Nicolau. — Então o Tarciso... aquele que brincava de dizer missa, quando era... pequenino... deu para fugir? — Nós pensávamos... que fosse coisa de meninote — disse Luísa. — Até uma paixão...— era a Maninha quem falava, e coma gravidade de irmã mais velha: O padre se abriu num sorriso: — Isso deve ser... um excesso de amor. Talvez... mimos. Mimos demais. — Mamãe, eu posso falar? Posso contar ao Padre Nicolau? — Decerto, Maninha. Mas fale baixo. Olhe seu pai. Seu pai é capaz de ouvir. — Padre Nicolau, — começou Maninha — é uma coisa tremenda. Nem sei como começar. — Minha filha, pense que é como se você... estivesse no confessionário. Não tenha medo. — São os pesadelos de Tarciso. No princípio, ele disse que sempre fazia um esforço... e acordava antes... Era horrível, mas depois... A mocinha fixou o padre e a mãe com os olhos mergulhados num medo denso. — Ele via chagas. Uma porção de chagas. Homens sem rosto, os ossos de fora, a carne escorrendo para o lado, como trapos sangrentos. Via pernas inchadas, via gangrenas, via lábios comidos de ferida, via tumores exalando pus, e o pior... Os olhos de Maninha estavam rasos d'água: — O pior é que tudo isso agradava Tarciso. Não sei. Ele disse assim mesmo: "Maninha, eu não quero mais guardar segredos de você. Nem uma daquelas... posso falar, posso, Padre Nicolau?... Nem uma daquelas figuras de mulheres dos livros — que é pecado a gente ver — me atraíram tanto! Em vez de me encher de nojo, tinha vontade de apalpar aquelas feridas... de beijar aquelas chagas, de mergulhar o dedo no pus." Houve um silêncio. Depois Maninha prosseguiu: — Tarciso disse que no começo reagia. Vinham aqueles homens horríveis à sua frente... Luísa comprimiu os lábios. Logo disse num tom fundo, doído: — Pobre do meu filhinho! Padre Nicolau se tornara vermelho, e mais ofegante ainda, quase apopléctico. Com voz difícil perguntou: — Depois? Ouviu-se o ruído de uma porta que se abria. — Depois os sonhos começaram a ficar confusos: aqueles homens cheios de chagas iam ficando pequeninos, pequeninos, e Tarciso se sentia grande e forte. Eles o enlaçavam com seus braços esqueléticos, cobertos de feridas, pedindo uma esmola, ou o quê, nem Tarciso sabia: — "Não nos deixe! Não nos deixe!", gritavam. E Tarciso sentia vontade de se deixar abraçar, queria beijá-los também. Uma vontade louca de ficar com eles, de se unir a eles. Mas meu irmão não podia explicar direito o que sentia, como era aquela atração terrível, a mais terrível... Mas de repente ele ficava com medo, fugia. E os homenzinhos desfigurados o perseguiam, agarravam-se às suas pernas como anões pavorosos..." — Então era isso! Carlos, muito pálido, estava diante de Maninha: — Conte para seu pai — disse ele. — Eu devo saber! Eu preciso... Não acontece nada. Eu não faço nada! Mas quero saber! Por que Padre Nicolau há de entender melhor o que se passa em minha própria casa? Por que escondem de mim? Diga, então! — Só isso, papai! Nos dias seguintes a esses sonhos tremendos, Tarciso... tinha vontade de ir à igreja... Carlos balançou a cabeça, num gesto raivoso: — Justamente como eu pensava. E então? — Então ele se chegava à escada, ficava... ficava olhando fascinado para os mendigos. Sabe? Aquela mulher com erisipela, a perna inchada — o homem com uma chaga no lugar do nariz... Tarciso ficava olhando, olhando. Dentro dele subia uma vontade esquisita. Beijar! Apalpar aquela chaga, acariciar a perna doente. Depois fugia dali, e dizia para si mesmo: — "Meu Deus! Salvai-me! Estou ficando louco!" — Uma noite andou, andou sonhando confusamente com chamados misteriosos... e o dia veio, e ele sempre sonhando de olhos abertos e andando como se fosse empurrado. Carlos olhou Luísa com um ar ao mesmo tempo vitorioso e triste: — Eu não lhe disse? Ainda imagina que eu sou o culpado? E voltando-se para Padre Nicolau: — Luísa pensou que certas revelações... tivessem chocado demais Tarciso. Pensou, ora, pensou que tudo fosse obra do meu "materialismo". Diga lhe o senhor mesmo que isso — de Tarciso — é uma doença, uma doença cuja culpa não me cabe. Como está vendo! Padre Nicolau estava ansioso: — As vezes... dois... o pai e a mãe, em seu excesso de amor... podem fazer mal... levar um filho à confusão. Querem imprimir sua alma... na alma de seu filho. E lutam por estampar o próprio retrato no coração da criança. Querem destruir seu espírito, por um egoísmo natural, às vezes... Luísa baixou os olhos: — Padre Nicolau, vamos ver o menino? — Tarciso está dormindo. Está extenuado. Não devem acordá-lo agora — disse Carlos. Maninha falou aflita: — E o médico que não vem!... Tarciso me disse que essa força que ele sente é tão grande... Ele tem medo de ir não sabe para onde! Eu tirei a chave lá de cima da porta do quarto que dá para a escada. Primeiro — tranquei, naturalmente. Acho que tranquei direito, nem vale a pena ver — concluiu baixinho. Padre Nicolau, visivelmente perplexo, atirava palavras a esmo: — O menino sempre me pareceu... calmo... normal. E se dirigindo a Luísa: — Minha filha, Deus é bondade, é doçura. Em vez de combater seu marido... dele devia tentar aproximar-se tanto quanto ele da senhora. Não oferecer a Tarciso essa contradição tão viva... que, decerto, feriu o rapaz. Pobrezinho! Não sabia em quem devia crer... Na sua confusão... ficou-lhe perturbado o cérebro, sim... deve ser isso. Não lhe parece... Dr. Carlos? Também não pensa assim? Agora? E é preciso que se não esqueçam — neste momento — do poder da oração... Mas Carlos dardejava sobre Luísa um olhar carregado de intenções: — "Eu não falei?" — parecia significar. Enquanto isso, Maninha abria a porta. Entardecia. Ainda ventava. "E o Doutor Laertes que não chega!" pensava. O automóvel veio muito devagar. Um homem pôs a cabeça para fora. O jardineiro gritou: — Passe por aqui que passa, sim! Por aqui!... Logo que atravessou a ponte o homem freou o carro, e saltou: — Eu bem reconheci você! Logo no mesmo momento... O jardineiro ficou lívido: — Doutor Laertes! — Eu mesmo! Você pensou que pudesse escapar do hospital, assim? A figura do médico tomava certa atitude suficiente, autoritária, semelhante à de um chefe militar: — Por que fez isso? Eu devia puni-lo, Mandar o carro dos doentes pegá-lo aqui mesmo, diante de todos, e depois prendê-lo! Prendê-lo na cela! — Doutor... eu não estou doente... E o jardineiro cruzava os braços atrás das costas, ao mesmo tempo que olhava súplice para o médico. — Você está doente: sabe que está doente. Não esconda as mãos. Quer enganar-me? Pensa que me engana? O homem tremia de emoção: — Já ando muito velho para acostumar-me no hospital... Trinta anos cuidando das flores, mexendo na terra. Ai! Que triste a vida lá, "seu' doutor, para um pobre como eu, que nem sabe ler, nem gosta de ouvir rádio, como os outros... Doutor Laertes... por Deus que está no céu, não me faça voltar! E o pobre homem rompeu em soluços, como uma criança. Depois, continuou: — Mesmo dizer que eu viva com esta família — isto não vivo, não! Durmo num quarto lá para os fundos da casa... Tenho os meus pratos, faço minha comida... — É inútil — disse o médico. — Sou obrigado a dar parte! Se não quiser ir por bem — agora mesmo — pior para você! O carro virá buscá-lo! O doente limpou os olhos com a manga da camisa: — Não é pelo dinheiro que perco, nem pela liberdade de andar pelas ruas... É pelo amor que sinto às plantinhas de Deus. É também pelo menino. Pode-se lá governar o coração? O pequeno vinha por aqui, dava-me prosa... Por alma de minha mãe! Nunca vi uma criança daquele jeito. Gosta-se logo dele, como... um filho. Mas doutor! Só converso com ele assim, como estou falando com o senhor... Nunca lhe ponho as mãos. O médico consultou o relógio, a fisionomia fechada: — Arrume-se, e vá embora; já lhe disse. Se quiser, invente uma desculpa qualquer para se despedir. Mas ande depressa! E o Doutor Laertes, com seus passos rígidos, tomou a direção da casa dos Vilares. O jardineiro então, resolutamente, se encaminhou para os fundos do quintal. Diante do seu quarto, porém, hesitou, e, voltando, começou a subir a escada que dava para o quarto de Tarciso. O homem estava trêmulo, comovido, e sentia o suor correr pela face, como se levasse em si um peso descomunal. Bateu fracamente na porta. Depois, quis torcer o trinco. Mas, ao encostar a mão, a porta cedeu. Talvez fosse o próprio vento que a abrisse e não ele. Lá no canto, sobre a cama de madeira, uma vaga claridade descia da janela alta, semicerrada. O jardineiro aproximou-se, devagarinho. Sentia a fronte latejar. "O menino estaria adormecido? Deus o guarde. Deus o guarde", pensava. Tarciso, ainda imóvel na cama, abriu os olhos. Rodou-os pelo quarto, viu o jardineiro. — Ah, é você? Pode entrar. Sente-se. Eu não estava dormindo. Estava só de olhos fechados. O empregado chegou mais perto do leito: — Pois então aqui venho eu... dizer adeus ao menino. — Você? Você vai embora? Por quê? Então não gosta mais da gente?— Bem que eu não queria dizer... Mas com o menino Tarciso eu não sei mentir. Eu queria continuar... sempre. — Quem sabe se você está ganhando pouco? Quer que eu fale com papai? — Não, meu pequeno. Não precisa falar com seu pai. É que me vou... por andar doente... — Mas não parece! Tarciso sentou-se, e continuou: — Parece vender saúde. Tão forte! Acho que você não quer é mais morar conosco. Deve ser isso. — Pois se não confia em mim... Foi o médico, que agora está lá em baixo, que me mandou... voltar para o hospital. Tenho que estar internado... O menino nunca reparou... que trago doentes as mãos? Verdade é que as tenho sempre sujas de terra. A expressão de Tarciso subitamente mudou, num pressentimento. A tarde declinava, e um raio de luz alaranjada, o sol filtrando através da poeira, descia reto sobre seu rosto. A pele estava estirada, brilhante, cor-de-rosa, tão lisa como se fora de louça. Podia-se acompanhar, transparecendo profundamente, como estava, em seu rosto, uma intensa emoção que lhe ia no íntimo. — Pensei que fosse do trabalho. Mas... Deixe ver suas mãos — ordenou Tarciso, com um estranho tom. — Meu pequeno... O homem ainda estava na sombra, e vinha mais e mais perto do leito iluminado. Porém, chegando rente à cama de Tarciso, parou. Juntou as mãos atrás de si, com receio, envergonhado. Tremia. Balbuciou "não", debilmente, medroso, de súbito, quase como uma criança. — Quero ver suas mãos. As suas mãos. Ande! O homem parecia hipnotizado. Relutou por segundos, depois estendeu as mãos, que penetraram na claridade, ganhando logo um mágico relevo. Eram mãos manchadas e tortas, pisadas, roxas e crescidas. Tarciso nunca reparara nelas. Estavam ali diante de seus olhos, pedaços marcados pela morte próxima, e no entanto vivos, bulindo como dois animais feridos, condenados. Então o menino sentiu em si aquela impetuosa onda de esquisito carinho, avassaladora como um doce fogo de amor, e agarrando as pobres mãos doentes — paralisado o jardineiro por força invencível — inundou-as de longos beijos, de transbordantes beijos, juntando-lhes seus lábios devagar, interminavelmente. Depois que Carlos explicou ao Doutor Laertes a doença de seu filho, disse o médico com certa gravidade afetuosa: — Com quinze anos! Hum! Não deve ser tão grave quanto o senhor pensa. Tudo faz supor que se trate de uma crise de puberdade. Não vi ainda o garoto... Mas assim... como me contam... o caso parece revestir-se de um aspecto fácil até para a moderna psicologia. O temor religioso, infundido pela mãe — desculpe-me, Padre Nicolau! — desviou, com certeza, uma tendência normal. As chagas, as deformidades... tudo não passa, senão, de instinto sexual mascarado, que se não quer revelar... ao próprio menino, de índole tão religiosa, como o senhor disse. Luísa e Padre Nicolau se entreolharam. Maninha fixava o médico com modo indagador. Não estava entendendo, via-se logo. Doutor Laertes consultou novamente o relógio: — Bem. Agora vamos ver o doentinho. Mas um grito, um grito de homem, forte, cortante, encheu o ambiente. O jardineiro abriu a porta do quarto, projetou-se quase caindo pela escada, e chegou diante de todos rindo e chorando ao mesmo tempo, como um louco: — Deus do céu! Deus do céu! Doutor Laertes perguntou severo: — Que é isso, homem? Que é que tem? Por que ainda está aqui? Quer então ser levado pelo carro do hospital? — Eu vou dizer-lhe, doutor, vou dizer-lhe... Aconteceu uma coisa... Preciso falar — e não posso! Eu me fui despedir do pequeno, lá no quarto. — Não, não fique zangado, "seu" doutor. Eu pensava em só dizer adeus... nem queria que ele soubesse... da minha doença. Então... — As lágrimas desciam livremente pelo rosto. — Não sei... ele quis ver as minhas mãos quando sem saber como, fui-lhe dizendo que eram... doentes. Luísa apertou a boca contendo-se apavorada. — "Seu" doutor, aconteceu... aconteceu que o menino ao vê-las ficou mudado de rosto, tão diferente, que causava espanto, parecia outra criatura. Todos cercavam o jardineiro, atônitos, abismados. Algo de terrível sucedera — eles sentiam. O homem continuou: — O menino Tarciso pegou-me as mãos... Meus braços pareciam de pedra. Quis retirá-las, doutor; por Deus que não tive forças! E Tarciso começou a beijá-las... Beijá-las com uma decisão muito meiga e muito carinho, que nem se pode contar direito... E então... aconteceu... O jardineiro sufocava, quase. Por fim, disse com voz liberta, num impulso delirante: — Um milagre! Um milagre! Doutor Laertes: olhe para minhas mão!... Elas foram branquejando com os beijos daquele anjo de Nossa Senhora... Foram desaparecendo as nódoas. Até que se foram de uma vez as manchas! Repare! E o homem estendeu para o médico as mãos puras, lisas, finas, como nascidas de novo. Enquanto todos contemplavam o prodígio, e Padre Nicolau dizia baixinho, como que se lamentando: "e eu que não soube...", "e eu não vi...", Maninha subiu a escada: — Tarciso! — gritou. Abriu a porta e, depois de um momento, tornou a descer: — Ele saiu! — disse, e acrescentou: — mas juro que fechei a porta... Eu me lembro perfeitamente! — Não há mais portas que segurem o menino Tarciso! — gritou o jardineiro. Maninha, acompanhada de Carlos e de Luísa, precipitou-se para o jardim. Os pais foram ficando para trás. Maninha corria leve, o vestido branco flutuando como uma vela no mar. Atravessou a ponte... Mais adiante ia indo Tarciso. — Tarciso, não vá embora! Espere, espere por mim, Tarciso! Apesar do esforço sobre-humano, não conseguiu alcançá-lo. De longe ele acenou sereno, dizendo adeus. Maninha sentiu vertigens imaginando o mundo tremendo de doentes, de miseráveis, de infelizes e deformados para o qual — ela adivinhava agora — seu irmão partia sem retorno, numa ânsia de amor. Todo o crepúsculo, tão violentamente sangüíneo, parecia concentrar-se na sua figura, que estranhamente crescia, ganhando em majestade, em vez de diminuir, na distância sempre maior.

210. DOM ROSSÉ CAVACA. O PENSAMENTO INVENCÍVEL DE... Tenho em mãos uma verdadeira jóia. Uma coleção dos primeiros números do "O Pasquim", lançado aqui no Rio em 26 de junho de 1969, com preço de capa de NCr$ 0,50. Para quem não sabe, isso queria dizer "cruzeiros novos". Passo horas me deliciando com os textos, charges, anúncios - que eram feitos pelos seus proprietários e jornalistas, dentre eles Tarso de Castro, Sérgio Jaguaribe (Jaguar), Sérgio Cabral, Carlos Prósperi, Cláudio Ceccon (Claudius) e tantos outros. O que quero mostrar para vocês é a releitura de alguns pensamentos de Dom Rossé Cavaca. Excelente jornalista, ator genial, produtor e ator de TV, inventor e construtor de coisas (consta que construiu um automóvel no quintal de sua casa, a alavanca de marchas era uma maçaneta de porta), humorista, poeta, boêmio. Enfim, um cara formidável. Em 1961 reuniu alguns trabalhos num livro de alto nível, Um riso em decúbito, (editado e distribuído pelo autor, nem Deus sabe como, segundo ele). Morreu pouco depois, quando voltava da redação da Tribuna da Imprensa, jornal carioca, num estúpido desastre de lambreta. Os textos abaixo constam do citado livro e foram publicados pelo "O Pasquim" número 4, de julho - 1969. Meus mais sinceros agradecimentos aos amigos Regina Werneck e Luiz Jorge, que cederam o material para pesquisa. Na promiscuidade dos bairros que crescem em sentido vertical, há binóculos de comprovada experiência sexual. A Bíblia conta à sua maneira que Adão também comia maçãs em outra macieira. O solteirão sem atrativos segue o destino: Cibalena à noite para dormir com algo feminino. Na reunião de cúpula do Centro de Pesquisas, a ciência revelou aspectos surpreendentes: descobriram doze moléstias até então inexistentes. Morreu de enfarte o João. Comentário geral: um ótimo coração. Chinelo em baixo da cama conforto é. Mas cadê o outro pé? Graças à liberdade de ir e vir, assegurada pela Constituição, o nordestino tem oito milhões, quinhentos e vinte e cinco mil quilômetros quadrados para morrer de inanição. Vendo para Seleções um conto neo-realista bem do tipo Seleções. Tanto que narra a história de um soldado destemido que perdeu pernas e braços, ficou cego, surdo e mudo. Azar inqualificável: até neurose incurável. Voltou da guerra e internou-se no Centro de Readaptação de Ex-Combatentes. Lá se casou por amor com a filha do diretor, que lhe tirou da cabeça todas as coisas complexas. Hoje ele é UM FELIZ FAZENDEIRO NO TEXAS. Na situação em que me encontro, se puserem um revólver na minha frente eu o vendo imediatamente. É tanta polícia que a gente fica sem a mínima garantia. A sífilis e as capitanias eram hereditárias. Bons tempos aqueles! Como se ganhava pouco! Não é para te elogiar não, mas o enterro do teu pai estava um show. Humoristas lutam agora por um mundo menos engraçado. É a quinta massa fria vinda do Sul que o Rio desmoraliza. Agora gostaria que as senhoras fizessem silêncio, mas todas ao mesmo tempo. Os dois são Deuses, mas o da direita tem mais experiência. Letra V da cartilha contemporânea? Vina viu vovô se virando. Alguns átomos também se consideravam íntegros. Depressa, Pedro! Grite logo, que estamos às margens do Ipiranga e a letra do hino já está pronta. Há milhares de notas falsas em circulação, mas tão prestativas que conquistaram a confiança de todos. Que corrupção é esta que a gente morre sem conseguir atingi-la? Flagrei minha mulher me pegando em flagrante. Um destes viveiros que matam de inveja os passarinhos livres. Acredito na sua honestidade mas a quadrilha já está formada. Tem cura, doutor? Se tem, vamos desenterrá-lo. Bebeu veneno e o legista descobriu que era uma solução. Só sabe contar pré-histórias. Que foi que você sentiu quando soube que havia nascido no Brasil?

211. EÇA DE QUEIROZ. A MULTA MUNICIPAL PARA O LIRISMO SENTIMENTAL. No folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher. Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!) — e que na arte não entra realidade, justiça ou moral pública porque (acrescenta) a arte nada tem com os direitos civis. Colocado assim à larga, na anarquia da voluptuosidade e do lirismo, aí está o que o poeta expõe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de 20.000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura! Começa por dizer: — Que é bom amar no campo, à tarde e a sós! Depois continua: — Que prefere o campo, porque nas salas do mundo não lhe é dado beijar a mão dela às largas! Que o campo é livre e as sombras dão refúgio!.... Por fim acrescenta: — Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele só com ela, erguidos em êxtase, longe de quanto é vil... (Quanto é vil, na gíria da poesia lírica, é o mundo real, a família, o trabalho, as ocupações domésticas, etc.). Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas. Aquelas bastam para legitimar as seguintes observações: Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa; Nenhum homem que as escrevesse ousaria lê-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer palavras; Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria citá-las. Como se consente então a sua publicação em verso? A higiene não é só a regularização salutar das condições da vida física; nela devem também entrar os factos da moralidade. Se é proibido que um monturo imundo ou um cão morto corrompam o ar respirável das ruas — porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranqüilidade virgem? Há uma postura da Câmara que impõe uma multa a quem pronuncia palavras desonestas: porque não há-de ser igualmente proibido publicar idéias desonestas? Um ébrio, um pobre homem a quem se não deu educação, a quem se não pode dar leitura, a quem quase se não dá trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de três ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 réis. Um poeta lírico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num jornal de cinqüenta mil leitores em letra impressa, permanente e indelével, uma série de desonestidades, e é apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma candidatura! Pedimos pois: Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades; Ou que a multa da Câmara Municipal seja aplicada a todos — e que tanto o ébrio que não sabe o que diz à esquina de uma rua, como o poeta lírico que escreve, com reflexão e rascunho duma semana, ao canto dum jornal, paguem os 3$000 réis à Câmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.

212. ELIO GASPARI. O ministro Tarso Genro, da Educação, meteu-se numa encrenca. Faz água a moralidade de seu programa “Universidade Para Todos” (um dos slogans mais descerebrados já produzidos pela marquetagem de Brasília). O repórter Josias de Souza o chamou de Promamata e a Associação Nacional dos Fiscais da Previdência diz que a medida provisória que criou o ProUni contém um dispositivo imoral. Tomado pelo lado da propaganda, o Programa se destina a assegurar vagas nas universidades particulares para estudantes pobres. Tomado pelos afagos que a MP faz ao mercado, deu-se outra coisa. O ministro da Educação se atribuiu o poder de revalidar os registros de universidades filantrópicas que tiveram seus benefícios tributários cassados pelo Conselho Nacional de Assistência Social. Nos últimos seis anos foi cancelada cerca de uma centena de registros de instituições que desrespeitavam as normas da Previdência. Em junho do ano passado, instituições como as universidades Mackenzie, Metodista, Cásper Líbero e Gama Filho tiveram seus registros suspensos. Tarso Genro poderá devolver os benefícios às escolas que aderirem ao ProUni. Disso resultará que serão restabelecidos os benefícios fiscais de entidades em débito com a Previdência. Coisa de gente que deve muito, porque a choldra que deve pouco não consegue um refresco desses. Os fiscais do INSS que batalharam para acabar com as mamatas e autuaram instituições desonestas, ficarão no papel de bobos. Pior: a MP transfere ao MEC o poder de fiscalizar as contas e os programas da filantropia universitária. A Previdência, que dispõe de um aparelho fiscalizador, foi substituída pelo MEC, que não tem aparelho nenhum. Já houve universidades filantrópicas com jatinho para seus diretores (Universidade de Marília e Unoeste). Auditores da Receita e do INSS que fiscalizaram algumas dezenas de escolas superiores encontraram esquemas de enriquecimentos das famílias controladoras das escolas, contabilidades paralelas e, como sempre, dinheiro de campanha eleitoral. No ano passado estimou-se que os benefícios fiscais do ensino filantrópico somavam perto de R$ 1 bilhão. Instituições que seguiram a lei e os bons costumes, como quase todas as PUCs e um punhado de universidades comunitárias do Sul do país acabam sendo punidas pela anistia oferecida à pilantropia. A leveza com que o MEC lida com o ensino superior privado levou o professor José Arthur Giannotti a se demitir do Conselho Nacional de Educação, em 1997. Sabendo-se que Giannotti é um dos melhores amigos de FFHH e que se hospedava no Alvorada quando ia a Brasília para as reuniões do Conselho, vê-se quão poderosos são os argumentos da confederação de interesses do ensino superior privado. O que há de mais triste nesse episódio é que a anistia aos educadores punidos por suas malfeitorias sai de uma repartição que se denomina Ministério da Educação.

213. ÉRICO VERÍSSIMO. OS DEVANEIOS DO GENERAL. Abre-se uma clareira azul no escuro céu de inverno. O sol inunda os telhados de Jacarecanga. Um galo salta para cima da cerca do quintal, sacode a crista vermelha que fulgura, estica o pescoço e solta um cocoricó alegre. Nos quintais vizinhos outros galos respondem. O sol! As poças d'água que as últimas chuvas deixaram no chão se enchem de jóias coruscantes. Crianças saem de suas casas e vão brincar nos rios barrentos das sarjetas. Um vento frio afugenta as nuvens para as bandas do norte e dentro de alguns instantes o céu é todo um clarão de puro azul. O General Chicuta resolve então sair da toca. A toca é o quarto. O quarto fica na casa da neta e é o seu último reduto. Aqui na sombra ele passa as horas sozinho, esperando a morte. Poucos móveis: a cama antiga, a cômoda com papeis velhos, medalhas, relíquias, uniformes, lembranças; a cadeira de balanço, o retrato do Senador; o busto do Patriarca; duas ou três cadeiras... E recordações... Recordações dum tempo bom que passou, — patifes! — dum mundo de homens diferentes dos de hoje. — Canalhas! — duma Jacarecanga passiva e ordeira, dócil e disciplinada, que não fazia nada sem primeiro ouvir o General Chicuta Campolargo. O general aceita o convite do sol e vai sentar-se à janela que dá para a rua. Ali está ele com a cabeça atirada para trás, apoiada no respaldo da poltrona. Seus olhinhos sujos e diluídos se fecham ofuscados pela violência da luz. E ele arqueja, porque a caminhada do quarto até a janela foi penosa, cansativa. De seu peito sai um ronco que lembra o do estertor da morte. O general passa a mão pelo rosto murcho: mão de cadáver passeando num rosto de cadáver. Sua barbicha branca e rala esvoaça ao vento. O velho deixa cair os braços e fica imóvel como um defunto. Os galos tornam a cantar. As crianças gritam. Um preto de cara reluzente passa alegre na rua com um cesto de laranjas à cabeça. Animado aos poucos pela ilusão de vida que a luz quente lhe dá, o general entreabre os olhos e devaneia... Jacarecanga! Sim senhor! Quem diria? A gente não conhece mais a terra onde nasceu... Ares de cidade. Automóveis. Rádios. Modernismos. Negro quase igual a branco. Criado tão bom como patrão. Noutro tempo todos vinham pedir a benção ao General Chicuta, intendente municipal e chefe político... A oposição comia fogo com ele. O general sorria a um pensamento travesso. Naquele dia toda a cidade ficou alvoroçada. Tinha aparecido na "Voz de Jacarecanga" um artigo desaforado... Não trazia assinatura. Dizia assim: "A hiena sanguinária que bebeu o sangue dos revolucionários de 93 agora tripudia sobre a nossa mísera cidade desgraçada". Era com ele, sim, não havia dúvida. (Corria por todo o Estado a sua fama de degolador). Era com ele! Por isso Jacarecanga tinha prendido fogo ao ler o artigo. Ele quase estourou de raiva. Tremeu, bufou, enxergou vermelho. Pegou o revólver. Largou. Resmungou "Patife! Canalha!" Depois ficou mais calmo. Botou a farda de general e dirigiu-se para a Intendência. Mandou chamar o Mendanha, diretor do jornal. O Mendanha veio. Estava pálido. Era atrevido mas covarde. Entrou de chapéu na mão, tremendo. Ficaram os dois sozinhos, frente a frente. — Sente-se, canalha! O Mendanha obedeceu. O general levantou-se. (Brilhavam os alamares dourados contra o pano negro do dólmã). Tirou da gaveta da mesa a página do jornal que trazia o famoso artigo. Aproximou-se do adversário. — Abra a boca! — ordenou. Mendanha abriu, sem dizer palavra. O general picou a página em pedacinhos, amassou-os todos numa bola e atochou-a na boca do outro. — Come! — gritou. Os olhos de Mendanha estavam arregalados. O sangue lhe fugira do rosto. — Coma! — sibilou o general. Mendanha suplicava com o olhar. O general encostou-lhe no peito o cano do revolver e rosnou com raiva mal contida. — Coma, pústula! E o homem comeu. Um avião passa roncando por cima da casa, cujas vidraças trepidam. O general tem um sobressalto desagradável. A sombra do grande pássaro se desenha lá em baixo, no chão do jardim. O general ergue o punho para o ar, numa ameaça. — Patifes! Vagabundos, ordinários! Não têm mais o que fazer? Vão pegar no cabo duma enxada, seus canalhas. Isso não é serviço de homem macho. Fica olhando, com olho hostil, o avião amarelo que passa voando rente aos telhados da cidade. No seu tempo não havia daquelas engenhocas, daquelas malditas máquinas. Para que servem? Para matar gente. Para acordar quem dorme. Para gastar dinheiro. Para a guerra. Guerras covardes, as de hoje! Antigamente brigava-se em campo aberto, peito contra peito, homem contra homem. Hoje se metem os poltrões nesses "banheiros" que voam, e lá de cima se põem a atirar bombas em cima da infantaria. A guerra perdeu toda a sua dignidade. O general remergulha no devaneio. 93... Foi lindo. O Rio Grande inteiro cheirava a sangue. Quando se aproximava a hora do combate, ele ficava assanhado. Tinha perto de cinqüenta anos mas não se trocava por nenhum rapaz de vinte. Por um instante, o general se revê montado no seu tordilho, teso e glorioso, a espada chispando ao sol, o pala voando ao vento... Vejam só! Agora está aqui, um caco velho, sem força nem serventia, esperando a todo instante a visita da morte. Pode entrar. Sente-se. Cale a boca! Morte... O general vê mentalmente uma garganta aberta sangrando. Fecha os olhos e pensa naquela noite... Naquela noite que ele nunca mais esqueceu. Naquela noite que é uma recordação que o há de acompanhar decerto até o outro mundo... se houver outro mundo. Os seus vanguardeiros voltaram contando que a força revolucionária estava dormindo desprevenida, sem sentinelas... Se fizessem um ataque rápido, ela seria apanhada de surpresa. O general deu um pulo. Chamou os oficiais. Traçou o plano. Cercariam o acampamento inimigo. Marchariam no maior silêncio e, a um sinal, cairiam sobre os "maragatos". Ia ser uma festa! Acrescentou com energia: "Inimigo não se poupa. Ferro neles!" Sorriu um sorriso torto de canto de boca. (Como a gente se lembra dos mínimos detalhes...) Passou o indicador da mão direita pelo próprio pescoço, no simulacro duma operação familiar... Os oficiais sorriam, compreendendo. O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum prisioneiro fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase soou-lhe na mente: "Inimigo não se poupa".O general agora recorda... Remorso? Qual! Um homem é um homem e um gato é um bicho. Lambe os lábios gretados. Sede. Procura gritar: — Petronilho! A voz que sai da garganta é tão remota e apagada que parece a voz de um moribundo, vinda do fundo do tempo, dum acampamento de 93. — Petronilho! Negro safado! Petronilho! Começa a bater forte no chão com a ponta da bengala, frenético. A neta aparece à porta. Traz nas mãos duas agulhas vermelhas de tricô e um novelo de lã verde. — Que é, vovô? — Morreu a gente desta casa? Ninguém me atende. Canalhas! Onde está o Petronilho? — Está lá fora, vovô. — Ele não ganha pra cuidar de mim? Então? Chame ele. — Não precisa ficar brabo, vovô. Que é que o senhor quer? — Quero um copo d'água. Estou com sede. — Por que não toma suco de laranja? — Água, eu disse. A neta suspira e sai. O general entrega-se a pensamentos amargos. Deus negou-lhe filhos homens. Deu-lhe uma única filha mulher que morreu no dia em que dava à luz uma neta. Uma neta! Por que não um neto, um macho? Agora aí está a Juventina, metida o dia inteiro com tricôs e figurinos, casada com um bacharel que fala em socialismo, na extinção dos latifúndios, em igualdade. Há seis anos nasceu-lhe um filho. Homem, até que enfim! Mas está sendo mal educado. Ensinam-lhe boas maneiras. Dão-lhe mimos. Estão a transformá-lo num maricas. Parece uma menina. Tem a pele tão delicada, tão macia, tão corada... Chiquinho... Não tem nada que lembre os Campolargos. Os Campolargos que brilharam na guerra do Paraguai, na Revolução de 1893 e que ainda defenderam o governo em 1923... Um dia ele perguntou ao menino: — Chiquinho, você quer ser general como o vovô? — Não. Eu quero ser doutor como o papai. — Canalhinha! Patifinho! Petronilho entra, trazendo um copo de suco de laranja. — Eu disse água! — sibila o general. O mulato sacode os ombros. — Mas eu digo suco de laranja. — Eu quero água. Vá buscar água, seu cachorro! Petronilho responde sereno: — Não vou, general de bobagem... O general escabuja de raiva, esgrime a bengala, procurando inutilmente atingir o criado. Agita-se todo, num tremor desesperado. — Canalha! — cicia arquejante — Vou te mandar dar umas chicotadas! — Suco de laranja — cantarola o mulato. — Água! Juventina! Negro patife! Cachorro! Petronilho sorri: — Suco de laranja, seu sargento! Com um grito de fera o general arremessa a bengala na direção do criado. Num movimento ágil de gato, Petronilho quebra o corpo e esquiva-se do golpe. O general se entrega. Atira a cabeça para trás e, de braços caídos, fica todo trêmulo, com a respiração ofegante e os olhos revirados, uma baba a escorrer-lhe pelos cantos da boca mole, parda e gretada. Petronilho sorri. Já faz três anos que assiste com gozo a esta agonia. Veio oferecer-se de propósito para cuidar do general. Pediu apenas casa, comida e roupa. Não quis mais nada. Só tinha um desejo: ver os últimos dias da fera. Porque ele sabe que foi o general Chicuta Campolargo que mandou matar o seu pai. Uma bala na cabeça, os miolos escorrendo para o chão... Só porque o mulato velho na última eleição fora o melhor cabo eleitoral da oposição. O general chamou-o a intendência. Quis esbofeteá-lo. O mulato reagiu, disse-lhe desaforos, saiu altivo. No outro dia... Petronilho compreendeu tudo. Muito menino, pensou na vingança mas, com o correr do tempo, esqueceu. Depois a situação política da cidade melhorou. O general aos poucos foi perdendo a autoridade. Hoje os jornais já falam na "hiena que bebeu em 93 o sangue dos degolados". Ninguém mais dá importância ao velho. chegou aos ouvidos de Petronilho a notícia de que a fera agonizava. Então ele se apresentou como enfermeiro. Agora goza, provoca, desrespeita. E fica rindo... Pede a Deus que lhe permita ver o fim, que não deve tardar. É questão de meses, de semanas, talvez até de dias... O animal passou o inverno metido na toca, conversando com os seus defuntos, gritando, dizendo desaforos para os fantasmas, dando vozes de comando: "Romper fogo! Cessar Fogo! Acampar". E recitando coisas esquisitas. "V. Exa. precisa de ser reeleito para glória do nosso invencível Partido". Outras vezes olhava para o busto e berrava: "Inimigo não se poupa. Ferro neles". Mais sereno agora, o general estende a mão pedindo. Petronilho dá-lhe o copo de suco de laranja. O velho bebe, tremulamente. Lambendo os beiços, como se acabasse de saborear o seu prato predileto, o mulato volta para a cozinha, a pensar em novas perversidades. O general contempla os telhados de Jacarecanga. Tudo isto já lhe pertenceu... Aqui ele mandava e desmandava. Elegia sempre os seus candidatos; derrubava urnas, anulava eleições. Conforme a sua conveniência, condenava ou absolvia réus. Certa vez mandou dar uma sova num promotor público que não lhe obedeceu à ordem de ser brando na acusação. Doutra feita correu a relho da cidade um juiz que teve o caradurismo de assumir ares de integridade de opor resistência a uma ordem sua. Fecha os olhos e recorda a glória antiga. Um grito de criança. O general baixa os olhos. No jardim, o bisneto brinca com os pedregulhos do chão. Seus cabelos louros estão incendiados de sol. O general contempla-o com tristeza e se perde em divagações... Que será o mundo de amanhã, quando Chiquinho for homem feito? Mais aviões cruzarão nos céus. E terá desaparecido o último "homem" da face da terra. Só restarão idiotas efeminados, criaturas que acreditam na igualdade social, que não têm o sentido da autoridade, fracalhões que não se hão de lembrar dos feitos dos seus antepassados, nem... Oh! Não vale a pena pensar no que será amanhã o mundo dos maricas, o mundo de Chiquinho, talvez o último dos Campolargos! E, dispnéico, se entrega de novo ao devaneio, adormentado pela carícia do sol. De repente, a criança entra de novo na sala, correndo, muito vermelho: — Vovô! Vovô! Traz a mão erguida e seus olhos brilham. Faz alto ao pé da poltrona do general. — A lagartixa, vovozinho... O general inclina a cabeça. Uma lagartixa verde se retorce na mãozinha delicada, manchada de sangue. O velho olha para o bisneto com ar interrogador. Alvorotado, o menino explica: — Degolei a lagartixa, vovô! No primeiro instante o general perde a voz, no choque da surpresa. Depois murmura, comovido: — Seu patife! Seu canalha! Degolou a lagartixa? Muito bem. Inimigo não se poupa. Seu patife! E afaga a cabeça do bisneto, com uma luz de esperança nos olhos de sáurio.

214. ÉRICO VERÍSSIMO. AS MÃOS DE MEU FILHO. Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros. Beethoven. Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado. Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria. Adágio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda. Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol... A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente. Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a platéia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos. Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico. Suggestion Diabolique. D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos. Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê. Mexe os dedos do pé com delícia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele está tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho... Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados — todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho! D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali está ele a seu lado, pequeno, encurvado, a calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridículo nesse smoking! O pescoço descarnado, dançando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhaço de circo. D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mãos, aquelas mãos brancas, esguias e ágeis. E como a música que o seu Gilberto toca é difícil demais para ela compreender, sua atenção borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabeça duma senhora lá embaixo (aquele diadema será de brilhantes legítimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mãos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho é um bebê de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mãos... Deitado no berço, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos pés, com os olhos sempre fitos nas mãos... De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrível quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocêncio começou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado... Tinha perdido o lugar na fábrica. Andava caminhando à toa o dia inteiro. Más companhias. "Ó Inocêncio, vamos tomar um traguinho?" Lá se iam, entravam no primeiro boteco. E vá cachaça! Ele voltava para casa fazendo um esforço desesperado para não cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. "Com efeito, Inocêncio! Você andou bebendo outra vez!" Ah, mas ela não se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e não trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe café bem forte sem açúcar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos já estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia... De súbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocêncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lágrimas, pescoço vermelho e pregueado, o ar humilde... Gilberto faz curvaturas para o público, sorri, alisa os cabelos. ("Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapagão bonito). A escuridão torna a submergir a platéia. A luz fantástica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projéteis sonoros. Navarra. Embalada pela música (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado. Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo... — Inocêncio, quando é que tu crias juízo? O pior era que ela não sabia fazer cenas. Achava até graça naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graças a Deus nunca lhe faltava trabalho. Um dia Inocêncio fez uma proposta: — Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras... — Minha Nossa! Será que tu queres fazer casas ou pregar botões? — Olha, mulher. (Como ele estava engraçado, com sua cara de fuinha, procurando falar a sério!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita. Ela desatou a rir. Mas a verdade é que Inocêncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro mês a cobrança saiu direitinho. No segundo mês o homem relaxou... No terceiro, bebeu o dinheiro da única conta que conseguira cobrar. Mas D. Margarida esquece o passado. Tão bonita a música que Gilberto está tocando agora... E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros dançam, as mãos dançam... Quem diria que aquele moço ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, políticos... o diabo! — é o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalço brincando na água da sarjeta, correndo atrás da banda de música da Brigada Militar... De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da mãe e lhe faz um sinal breve com a mão, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroçadamente com os dedos do pé, puro contentamento. Tem ímpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: "Vejam, é o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colégio para ele! Com estas mãos, minha gente. Vejam! Vejam!" A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mágoas de Chopin. No fundo do camarote Inocêncio medita. O filho sorriu para a mãe. Só para a mãe. Ele viu... Mas não tem direito de se queixar... O rapaz não lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o público aplaude Gilberto, sem saber está aplaudindo também Margarida. Cinqüenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinqüenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se não fosse ela, era possível que o rapaz não desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a fé de Margarida que fizeram dele um grande pianista. Na sombra do camarote, Inocêncio sente que ele não pode, não deve participar daquela glória. Foi um mau marido. Um péssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! Às vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar tão confiado, tão tranqüilo, tão puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! Lá vinha um outro dia e ele começava a sentir aquela sede danada, aquela espécie de cócegas na garganta. Ficava com a impressão de que se não tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia também os maus companheiros. O Maneca. O José Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam... No fim de contas ele não era nenhum santo. Inocêncio contempla o filho. Gilberto não puxou por ele. A cara do rapaz é bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graças a Deus. Que belas coisas lhe reservará o futuro? Daqui para diante é só subir. A porta da fama é tão difícil, mas uma vez que a gente consegue abri-la... adeus! Amanhã decerto o rapaz vai aos Estados Unidos... É capaz até de ficar por lá... esquecer os pais. Não. Gilberto nunca esquecerá a mãe. O pai, sim... E é bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bêbedo. Lágrimas brotam nos olhos de Inocêncio. Diabo de música triste! O Betinho devia escolher um repertório mais alegre. No atarantamento da comoção, Inocêncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura: — Margarida... A mulher volta para ele uma cara séria, de testa enrugada. — Chit! Inocêncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, já mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memória, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem. Ele tinha chegado bêbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade: — Tenho vergonha de ser filho dum bêbedo! Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que não só cortam as carnes como também rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu. No saguão do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moças o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda: — Estou impressionado, impressionadíssimo. Sim senhor! Gilberto enlaça a cintura da mãe: — Reparto com minha mãe os aplausos que eu recebi esta noite... Tudo que sou, devo a ela. — Não diga isso, Betinho! D. Margarida cora. Há no grupo um silêncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam. Inocêncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do espírito, dando-lhe uma vergonha tão grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguão. Afasta-se na direção da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praça, a grande estátua, as árvores paradas... Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de não poder voltar ao passado... Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias... O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cáqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise. — Linda noite! — diz Inocêncio, procurando puxar conversa. O outro olha o céu e sacode a cabeça, concordando. — Linda mesmo. Pausa curta. — Não vê que sou o pai do moço do concerto... — Pai? Do pianista? O porteiro pára, contempla Inocêncio com um ar incrédulo e diz: — O menino tem os pulsos no lugar. É um bicharedo. Inocêncio sorri. Sua sensação de inferioridade vai-se evaporando aos poucos. — Pois imagine como são as coisas — diz ele. — Não sei se o senhor sabe que nós fomos muito pobres... Pois é. Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraçadas. Um dia... o Betinho tinha seis meses... umas mãozinhas assim deste tamanho... nós botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mãozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente está nesse dorme-não-dorme, fica o mesmo que tonto, não pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sofá. Mas não. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabeça pesada. Veja como são as coisas... Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis... Não podia ser o artista que é. Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partícula da glória do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, começa a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silêncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocêncio tira do bolso das calças uma nota amarrotada de cinqüenta mil-réis e mete-a na mão do mulato. — Para tomar um traguinho — cochicha. E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.

215. FERNANDO SABINO. A MULHER DO VIZINHO. Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco. O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia. O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte: — O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido? O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento. — Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou? Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente: — Da ativa, minha senhora? E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado: — Da ativa, Motinha! Sai dessa...

216. FERNANDO SABINO. EMPREGADAS. DESAVENÇA. Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou: — A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar. Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:— Então isso não pode causar um incêndio? FALAR DIFÍCIL. A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada. Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira: — Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas! Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto: — Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus. Os simples de coração. Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria: — Afinal de contas, a gente diz "ócris" ou "zócris"? A empregada veio anunciar o almoço: — Gente, tá na hora de murçá. — Não é assim que se fala — corrigiu a patroa. E ela, imperturbável: — Eu sei que é "armuçá". Mas eu quero falar murçá.  O TAL DA TELEVISÃO. Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada: — Telefonou um moço para o senhor. — Deixou o nome? — Disse que era o tal da televisão. Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa... No dia seguinte, a mesma coisa: — O tal da televisão tornou a telefonar. — Se ligar de novo, pergunta o nome dele. Da terceira vez, perdi a paciência: - Eu não disse que era para perguntar o nome? — Eu perguntei! — protestou ela. — Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão. Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão — que, aliás, estava em perfeitas condições. Até que ele voltou a telefonar — só que desta vez eu estava em casa: — O tal da televisão está chamando o senhor no telefone. Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan. COME E DORME. E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado: — Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme. Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera — mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo? Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey. SÓ UMA VEZ. Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão. Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou: — O padeiro. — Mas você só foi uma vez à padaria! — estranhou a patroa: — Como foi acontecer uma coisa dessas? Ela ergueu os ombros, com um suspiro: — Deus quis...

217. FERNANDO SABINO. MINEIRO POR MINEIRO.  A maneira enrolada com que um mineiro fila cigarro? Aqui vai. Ele estava em São João del-Rei admirando um chafariz, quando viu por ali a rondá-lo um velhinho mirrado e seco, roupa de brim e chapéu na cabeça, que acabou se chegando: — Tá aí preciano, moço? — Estou. Não é bonito? Passou a mão pelo queixo, enquanto buscava assunto: — O senhor não é daqui não, é? — Sou de Minas, mas moro no Rio há muito tempo. — Ah, foi educado lá. — Isso mesmo. — Posso saber qual é a sua graça? O velho ouviu o nome e sacudiu a cabeça. Depois perguntou candidamente:— Por acaso o senhor tem um fósforo aí? Em resposta, o outro estendeu-lhe a caixa de fósforo. O velho correu as mãos a ao longo do paletó, como se procurasse alguma coisa, enquanto dizia: — Quer dizer que o senhor fuma...— Fumo sim — e ele tirou o maço do bolso, acendeu um cigarro: ­ E o senhor? Não fuma?— Dez vez em quando — admitiu o velho. — Aceita um? — Já que o senhor dispõe... O velho tirou com dedos finos um cigarro do maço que lhe era estendido e, certamente para não desperdiçar fósforo, acendeu-o no cigarro do outro. E se despediu, levando a mão ao chapéu: — Obrigado, moço. Muito prazer, viu? DAR NOME AOS BOIS é coisa que mineiro não faz, nem mesmo em Uberaba. Ainda me lembro da eleição para Presidente da República em 55, quando, no mais aceso da campanha, Juarez Távora entrou por Minas adentro e encontrou várias cidades cheias de faixas e cartazes aclamando a sua candidatura. Algum tempo depois é que pôs reparo na sutileza daquela manifestação de apoio:a adesão dos mineiros se exprimia através das palavras "Salve o Nosso Candidato!", "Viva o Futuro Presidente da República!". O nome do candidato não aparecia, por uma questão me­nos de esperteza que de economia: as faixas e cartazes eram os mesmos, serviam para qualquer um deles. DE PASSAGEM por sua terra natal, no interior de Minas, foi visitar uma velha tia, cujo filho ganhara um bom dinheiro na loteria esportiva. Espantou-se ao encontrá-la na mesma casa humilde, vivendo pobremente como sempre viveu, da mão para a boca. Então seu filho milionário não lhe dera nada do que havia ganho? — Deu sim — afirmou ela: — Me mandou um presente. — Que presente ele te mandou, tia? — Duas latas de bolachas. Não podia acreditar: latas de bolachas! Vai ser sovina assim na... — Pelo menos as bolachas deviam estar boas — desconversou, para não desapontar a velha. — Não sei, porque não provei — ela explicou: — Eram latas vazias. Pra guardar mantimento. DESDE QUE ENVIUVOU, ficou morando com os três filhos, todos solteirões. E nunca mais se falou em mulher naquela casa. Até que um dia o filho mais novo, e já nem tão novo assim, conheceu uma moça, gostou da moça, acabou se casando com a moça. Casou e mudou. Tempos depois, indo a Minas visitar o pai e os ir­mãos, não escondeu seu entusiasmo: — Gente, vocês não sabem como mulher é bom! Serve pra tanta coisa... OUÇO A PRÓPRIA sabedoria de Minas na voz de um conterrâneo meu, afirmando com segurança, quando lhe propõem um negócio o seu tanto duvidoso: - Eu topo, mas naquela base do Salim. Reza a crônica mineira que o Salim, inegavelmente turco mas criado em Belo Horizonte, vivia em plena prosperidade, embora se expusesse ao que há de mais temerário em Minas Gerais: era avalista do primeiro que aparecesse. Bastava que lhe pedissem e ele metia logo o seu jamegão em caracteres turcos nas costas do papagaio. Até que um dia começou a pipocar promissória vencida em tudo quanto era Banco. Convocado por telegrama a assumir, o Salim comparecia, contestando a assinatura:— Isto aí não é meu nome. Chamava-se um tradutor juramentado, para que ficasse oficialmente estabelecido que, em vez de assinar seu nome, ele havia se limitado a escrever na promissória, em turco: “Salim fica de fora”.

218. FERNANDO SABINO. MINAS ENIGMA. Minas, além do som, Minas Gerais. (Carlos Drummond de Andrade). Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona. (Sei lá por que ela está perguntando!). Sou de Belzonte, uai. Tudo é conforme. Basta nascer em Minas para ser mineiro? Que diabo é ser mineiro, afinal? Inglês misturado com oriental? É fumar cigarro de palha, como o poeta Emílio, de Dores do Indaiá? Autran fuma cachimbo. Tem até quem fume cigarro americano. (No bairro do Calafate havia uma fábrica de "Camel"). Em suma: ser mineiro é esperar pela cor da fumaça. É dormir no chão para não cair da cama. É plantar verde pra colher maduro. É não meter a mão em cumbuca. Não dar passo maior que as pernas. Não amarrar cachorro com lingüiça. Porque mineiro não prega prego sem estopa. Mineiro não dá ponto sem nó. Mineiro não perde trem. Mas compra bonde. Compra. E vende pra paulista. Evém mineiro. Ele não olha: espia. Não presta atenção: vigia só. Não conversa: confabula. Não combina: conspira. Não se vinga: espera. Faz parte do decálogo, que alguém já elaborou. E não enlouquece: piora. Ou declara, conforme manda a delicadeza. No mais, é confiar desconfiando. Dois é bom, três é comício. Devagar que eu tenho pressa. Apólogo mineiro: o boi velho e o boi jovem, no alto do morro — lá embaixo uma porção de vacas pastando. O boizinho, incontido: — Vamos descer correndo, correndo e pegar umas dez? E o boizão, tranqüilamente:— Não: vamos descer devagar, e pegar todas. Mais vale um pássaro na mão. A Academia Mineira, há tempos, pagava um jeton ridículo: duzentos cruzeiros — antigos, é lógico. Um dos imortais, indignado, discursava o seu protesto:— Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros é uma vergonha! Ou quinhentos cruzeiros, ou nada! Ao que um colega prudentemente aparteou:— Pera lá: ou quinhentos cruzeiros, ou duzentos mesmo. Quem nasce em Três Corações é tricordiano — haja vista Pelé. Quem nasce em Barbacena tem de escolher a Maternidade: ou é do Zezinho ou do Bias. E a Manchester Mineira, terra do Murilo Mendes? O poeta Nava foi-se embora: "parabéns a Pedro Nava, parabéns a Juiz de Fora". Itabira, calçada de ferro: não aceitou chamar-se Presidente Vargas, continuou digna do itabirano Carlos. E Ouro Preto continua digna de ser vista: ali é a casa do Rodrigo; Renato de Lima, ex-delegado e pianista amador, pintando junto à Casa dos Contos. Afonso é de Paracatu. Em Sabará nasceram Lúcia e Aníbal, além de outros ilustres Machados. Alphonsus, o solitário de Mariana. Os profetas de Congonhas. A cidade de Tiradentes — o que não tinha barbas. O Aleijadinho não tinha mãos. São João del Rei, onde nasceu Otto, o que morrerá batendo papo. Solidário só no câncer? Absolutamente, dona: nas virtudes também, uai. Haja vista a Tradicional Família Mineira, que Deus a tenha. As estações de águas: lembrança de São Lourenço, escrito num copinho. E Lambari, terra de Henriqueta! Monte Santo tem a rua mais iluminada do mundo. E uma ambulância com sirene, que seu filho Castejon arranjou. Itaúna fica num quarto andar do Leblon, no apartamento de Marco Aurélio, o bom. Jeremias, outro bom, mineiro como Ziraldo. Os bonecos de Borjalo só ganharam boca depois que começaram a falar. Mineiro por todo lado! O poeta Pellegrino, como psiquiatra, tem garantida uma numerosa clientela. Amílcar modela Minas em arame. Paulo encontrou Minas depois que saiu de lá. João Leite levou-a para São Paulo, Alphonsus para Brasília, Guilhermino para o Sul. João Camilo ficou. Etiene voltou. Paulo Lima voltou. Iglezias voltou. Jaques voltou. Figueiró continua, Rubião recomeçou. Um Estado de nariz imenso, um estado de espírito: um jeito de ser. Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — prudência e capitalização. O guarda-chuva da proteção financeira, não como lema do Banco do Magalhães mais o Zé Luís, e sim como regra de conduta: — Meu filho, ouça bem o seu pai: se sair à rua, leve o guarda-chuva, mas não leve dinheiro. Se levar, não entre em lugar nenhum. Se entrar, não faça despesas. Se fizer, não puxe a carteira. Se puxar, não pague. Se pagar, pague somente a sua. Mas todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão, tutu de feijão com torresmos, lingüiça frita com farofa. De sobremesa, goiabada cascão com queijo palmira. Depois, cafezinho requentado com requeijão. Aceita um pão de queijo? biscoito polvilho? brevidade? ou quem sabe uma broinha de fubá? Não, dona, obrigado. As quitandas me apertencem, mas prefiro bolinho de januária, e pronto: estou sastifeito... É a hora e a vez de Guimarães Rosa sorrir e dizer pra cumpadre meu Quelemén: perigoso nada, mira e veja, nas Gerais, essas coisas... Falar de Minas, trem danado, sô. É falar no mundo misterioso de Lúcio Cardoso, Cornélio Pena ou Rosário Fusco, no mundo irônico, esquivo ou pitoresco de Cyro dos Anjos, Oswaldo Alves, Mário Palmério, seus romancistas. E num mundo de gente, seus personagens, que vão de Antônio Carlos a Milton Campos, de Bernardes a Juscelino — vasto mundo! ah, se eu me chamasse Raimundo. Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações antigas, fluindo como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais. Leopoldina, doce de manga, terra de meus pais... Prefiro estancá-las no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços, e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim — o mistério da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu enigma: decifra-me , ou devoro-te. Prefiro ser devorado.

219. FERNANDO SABINO. MAIS UM NATAL. Aviso num restaurante de Brighton, que o dono fez imprimir no cardápio, à revelia dos garçons: Somos seus amigos e lhe desejamos um Feliz Natal. Por favor, não nos ofenda, dando-nos gorjetas." Junto à porta de saída, entretanto, os garçons fizeram dependurar uma caixinha sob o letreiro: "Ofensas”. E no dia de Natal, como sempre, todos os bares de Londres permanecem fechados. Mas consegui realizar o milagre de encontrar em Chelsea um bar aberto, lá para as dez horas da noite. Meio desconfiado, fui entrando — logo um dos fregueses se adiantou, copo de cerveja na mão: — Perdão, cavalheiro, mas o senhor já foi à igreja hoje? E se justificou estendendo o braço ao redor, para apontar os demais fregueses, que bebiam cerveja em silêncio. — Porque aqui dentro, nós todos já fomos. E sem esperar resposta, passou-me o seu copo de cerveja, pedindo ao barman outro para si. Festejou-se o Natal, já se festeja o Ano Novo. Há, porém, muita gente na triste perspectiva de passar ambas as festas em completa solidão. Como é o caso de Ethel Denham, ma velhinha com mais de oitenta anos de idade. Dona Ethel não tem filhos nem marido: nunca chegou a se casar. Mora sozinha numa pequena casa de Exeter, fruto de sua aposentadoria. Para que não lhe aconteça alguma coisa sem te