Alimentação Saudável e Nutritiva

AUTORIA, PESQUISA, REVISÃO, ORGANIZAÇÃO: JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO.

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E-MAIL: sitenotadez@sitenotadez.net

Este texto contém 53 e-mails de Nutricionistas e Endocrinologistas de todo o Brasil e 29 textos do Programa Globo-Repórter, relacionados às áreas de saúde e nutrição, e mais outros capítulos sumamente importantes.

Você está a fim de emagrecer, sem sacrifícios nem traumas, ou de melhorar, consideravelmente, a qualidade de sua alimentação?

Nos textos integrais do arquivo encontrará as respostas para todas as suas dúvidas relativas à área de nutrição.

CAPÍTULO I.

E-mails que recebi de Nutricionistas e Endocrinologistas de todo o Brasil que tiraram minhas inúmeras dúvidas com presteza, carinho e muita competência. São criaturas fantásticas e maravilhosas, extremamente sensíveis, humanas e solidárias. Estejam certas de que as guardarei bem no “fundo” do coração até os últimos dias de minha vida.

1. Sua dieta está excelente. Continue assim. Atenciosamente, Alberto. albertofilho@mail.cultura.com.br

2. Prezado amigo, nada tenho a ensiná-lo. Ao contrário, está me dando uma lição de vida.  Sua dieta e estilo de vida são perfeitos. Só estou lhe escrevendo para dar-lhe parabéns.  Que DEUS o abençoe e a seus familiares. Um abraço, Wesley. NOTA. Recebo centenas de e-mails diariamente, sendo-me impossível responder todos, mas você merece .

3. Meu caro José Carlos, parabéns, não só pelo seu cardápio, mas pelo seu estilo de vida. Você faz o que a grande maioria, infelizmente, é covarde bastante para fazer: reconhecer que um estilo de vida saudável é a chave do bem-estar. Siga em frente. Que Deus o ilumine e passe seu exemplo a todos que puder. Um fraternal abraço. Durval Damiani, MD, PhD. Pediatric Endocrinology, São Paulo, SP.

4. Prezado José Carlos, acho que seu plano está muito bom. O que de fato importa no controle é a disciplina, e isso você prova que tem. Como sugestão, a cada 3-4 meses devem ser realizados os seguintes exames: glicemia em jejum, glicemia pós-prandial (2h), hemoglobina glicosilada, lipidograma, hemograma e sumário de urina. Anualmente, realize fundo de olho e microalbuminúria. Boa sorte, Ana Márcia, jmcls@uol.com.br 

5. Prezado JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO, sua dieta contém todos os nutrientes necessários a uma alimentação saudável. Uma observação seria a concentração de pão à noite; poderia comer uma parte do pão pela manhã. Mas, como pratica exercícios físicos a partir das 18h, talvez fique com mais apetite depois. Se for o caso, continue assim. Não volte a usar bebida alcoólica, e que Deus o mantenha com saúde e alegria. Grato pelas mensagens. ABRAM.

6. Prezado José Carlos, parece-me que leva uma vida saudável e tem uma alimentação adequada. É importante, sem dúvida, fazer exames de rotina para acompanhamento do seu caso clínico, como, por exemplo: glicemia de jejum e pós prandial, hemoglobina glicada, amilase, tgo, tgp, uréia, creatinina, Na, K, Ca, Hemograma, etc. Obrigado pela mensagem. Atenciosamente, www.ezequiel.med.br ,falecomigo@ezequiel.med.br 

7. Tudo bem? Sou diabético tipo I, diferente do seu. Sua dieta, a princípio, é boa. Para saber se seu controle é bom mesmo peça a seu médico o exame de hemoglobina glicosilada, para saber como anda seu controle nos últimos dois meses. Esse exame vai avaliar se está tudo bem com você. Suas mensagens me caíram muito bem e trouxeram-me uma luz, pois ando muito ansioso ultimamente devido a um caminho que terei de escolher na vida profissional. Obrigado. Escreva-me. Sem açúcar, Nélson.

8. Bom dia, José Carlos. Meu nome é Leon e sou pai de uma diabética. Minha filha tem 11 anos e é diabética há 7 anos. A dieta dela não lhe serve. Quanto aos exames, o que vai lhe dar mais segurança é o da HEMOGLOBINA GLICOSILADA, que lhe dará a informação de como andou sua taxa nos últimos três meses. Aconselho-o a acessar o Site da APDJ-ASSOCIAÇÃO DOS DIABÉTICOS JOVENS, que é muito bom. Sem mais nada a acrescentar no momento, estarei disposto a tirar qualquer dúvida que estiver ao meu alcance. Leon.

9. Prezado José Carlos. Desculpe-me pela demora em responder-lhe, mas o excesso de trabalho muitas vezes impede-me de manter as correspondências em dia. Seu plano alimentar está muito bom. Li-o em todos os seus detalhes. A única ressalva seria com relação às seis tangerinas às 22h que consome. Poderiam ser reduzidas para três unidades, sem problemas. No resto, pareceu-me uma pessoa muito disciplinada e consciente de que saúde e bem-estar passam pela alimentação, atividade física e bem-estar mental. Continue assim. Parabéns! Um abraço, Josefina.

10. Caro José Carlos, desculpe-me pela demora em responder-lhe. É que estava viajando. Seu cardápio está muito bom e bastante saudável e equilibrado! Acho que não tenho nada a acrescentar nele, pois cuida muito bem do seu corpo (alimentação e atividade física) e da sua alma (paz de espírito). Parabéns. Dra. Adriane. NOTA. Obrigada pelas mensagens. Aproveito e também envio-lhe uma: "Não são os fatos, considerados pelas pessoas que estão ao seu redor, que o farão feliz ou infeliz. Ao contrário, é você que, sendo feliz ou infeliz, construirá circunstâncias felizes ou infelizes. Quando entender isso, terá a felicidade ao seu redor." Dr. Celso Charuri (Pró-Vida). adrianerodrigues@uol.com.br

11. Caro José Carlos, não sou nutricionista, logo não poderei responder todas as suas questões de maneira completa e precisa, mas algumas delas são interessantes para se observar. Arroz, macarrão, lentilha, pão,  mesmo integrais, são ricos em açúcar, logo o seu consumo é desaconselhado. Chá de erva-doce e cidreira ajudam o funcionamento do rim, mas não a eliminação do açúcar. O melhor óleo é o de Canola.  Alimentos ricos em gorduras também são prejudiciais.  Sorvetes “lights” são mais doces porque são fabricados com uma grande quantidade de adoçantes e aumentam a quantidade de gorduras nesses produtos. Não existem (cientificamente comprovado) alimentos que diminuam a absorção de açúcar. André Luiz, Toxicologista, Fundação Oswaldo Cruz, andrebio@fiocruz.br   

12. José Carlos, sua dieta poderia sofrer pequenas modificações, mas de forma geral está muito boa. Deveria tomar suco de laranja natural até 30min depois de preparado para não perder vitamina C. Nunca aqueça o azeite de oliva: ele perde todo o efeito benéfico e se torna óleo de cozinha. Na hora de comprá-lo, prefira o extra-virgem, extraído a frio. Não coloque raízes na salada, pois contêm carboidratos. Não coma muitas frutas de uma só vez, porque possuem pequena quantidade de carboidrato e podem elevar a glicemia. Seu jantar tem pão em excesso. Carboidrato e refrigerante diet de boa qualidade podem ser consumidos moderadamente, mesmo por diabéticos, já que não contêm açúcar (exemplos: coca, antártica). Espero ter colaborado em alguma coisa. Atenciosamente, Dra. Adriana.

13. José Carlos, não sou médica nem nutricionista, mas tenho diabete do tipo I, insulino-dependente desde os 15 anos de idade (hoje estou com 45 anos) e ao longo de todos esses anos sofri bastante, mas também adquiri muito conhecimento com relação ao diabetes. Com tudo que já vivi e pelas dietas que me foram prescritas por nutricionistas, acredito que seu cardápio precisa de um ajuste o mais rápido possível, para que não venha comprometer o controle de sua glicemia e originar complicações ao longo do tempo. Sugiro que acesse os seguintes sites e tente contato com o pessoal da área médica ou nutricional: www.adj.org.br www.diabetesnoscuidamos.com.br Espero tê-lo ajudado e qualquer dúvida ou se quiser trocar idéias sobre o assunto pode mandar-me um e-mail francimello@terra.com.br Um sorriso, Franci.

14. Caro José Carlos, sua mensagem não constitui importúnio. Sua dieta me pareceu adequada tanto do ponto de vista quantitativo (quantidade total de calorias) quanto qualitativo. Aliada à sua atividade física (realmente intensa) e a uma vida pouco estressada, caracteriza um estilo de vida invejável e que deveria ser imitado por todos os indivíduos, mesmo os aparentemente saudáveis. Todavia, gostaria de fazer-lhe algumas observações. Não conheço estudo científico que comprove as propriedades medicinais do suco morno. Trata-se, como diz, de crendice popular. Se não tem colesterol elevado, até duas gemas de ovo por semana não lhe fará mal. A ingestão de líquidos durante as refeições não é benéfico nem maléfico para a saúde. Deveria substituir o carboidrato da noite (pães) por proteína de origem animal. Obrigado pelas mensagens finais e lembre-se de que um prazer eventual à mesa não lhe fará mal. Parabéns. Dr. Augusto Costa.

15. Caro José Carlos, avaliei seu cardápio e de forma geral possui bons hábitos alimentares e um bom estilo de vida, porém algumas modificações podem ser feitas. Pode acrescentar às saladas de frutas farelo de aveia, pois possui muita fibra auxiliando na absorção. O azeite não deve ser levado ao fogo. Torna-se uma gordura ruim quando aquecido. Use-o somente em saladas. Para preparar os alimentos utilize um bom óleo: milho, girassol, canola. Deve-se evitar o caldo de cana. Ele possui alta quantidade de carboidrato, elevando, assim, a glicemia. Quanto à ingestão de água não tem importância se for logo após as refeições. Não deve ingeri-la durante as refeições. Bom, para um ajuste nas quantidades e horários seria necessário uma consulta personalizada com a presença da pessoa. Estou à disposição em meu consultório. sac@diabetesbrasil.com.br  ivaniacatia@bol.com.br

16. Prezado José Carlos, agradecemos-lhe pelas mensagens enviadas. Em relação às suas dúvidas, gostaríamos de esclarecer que por questões éticas não fazemos consultas via Internet. Em nosso arquivo de notícias e na seção do dia-a-dia, poderá encontrar diversos artigos sobre os mais variados alimentos, onde poderá esclarecer muitas das suas dúvidas. Sugerimos-lhe, também, que leia o artigo sobre alimentação saudável, coma um pouco de tudo e de tudo um pouco: http://www.emedix.com.br/dia/nut001_1f_comadetudo.shtml As barras de cereais são encontradas nas farmácias, supermercados e lojas de produtos naturais. O azeite extra virgem é um tipo de azeite e pode achá-lo nos grandes supermercados. O ideal é que consulte um médico de sua confiança, que é a pessoa indicada para avaliar sua dieta e fazer as sugestões necessárias. Contamos com sua compreensão. Boa Sorte. Cordialmente, Emedix contato@emedix.com.br

17. Boa Noite, José Carlos. Desculpe-me a demora em responder-lhe, mas não tive tempo de avaliar seus dados com calma. Pelo que calculei, seu peso está ideal (índice de massa corporal normal). O controle do seu diabetes, pelo que entendi, é apenas com dieta, certo? O importante é manter a glicemia de jejum entre 70-110 e a pós-prandial (2h após o almoço) abaixo de 140 e a hemoglobina glicosilada (HbG) dentro da faixa normal. Peça para seu médico acrescentar estes exames junto à glicemia de jejum, que devem ser feitos de três em três meses. Dosagem de colesterol total e frações e triglicerídeos a cada 6 meses/1 ano. Se conseguir manter sua HbG normal, a chance de complicação do diabetes diminui muito (esta é a meta). Sua alimentação está saudável e ficará adequada desde que mantenha o peso. Faça atividade física regular, que é indispensável para uma boa saúde. Parabéns pela força de vontade. Um abraço. Ana Tereza de A. Oliveira, anaterezaoliveira@hotmail.com 

18. Olá, Dutra, está no caminho certo, preocupa-se com a alimentação e faz atividade física. Assim, só ganha benefícios. Sua dieta está adequada. No entanto, poderia fazer a refeição da manhã mais ou menos como a do jantar (com pão, queijo, leite, etc ). Está usando muita fruta, que é rica em açúcar! Usada isoladamente, acarreta aumento da glicemia após a digestão. O ideal é não consumir fruta ou outras fontes de carboidratos simples sozinhos. Quando comer fruta, inclua uma proteína como iogurte ou leite. Se consumir pão, faça-o com proteína ou gordura, como queijo ou manteiga. Se comer doce, use-o na sobremesa, nunca isoladamente. Assim, a digestão fica mais lenta e a glicemia não aumenta de repente no sangue. Quanto aos exames, é sempre aconselhável medir a glicemia, mas o exame mais importante é a CURVA GLICÊMICA. Faça, também, exames de urina (24h) e sangue básicos. Bebidas alcoólicas, elimine-as para sempre de sua vida. Espero tê-lo ajudado. Um abraço, Fabiana.

19. Olá, José Carlos. Bom, não sou endocrinologista nem nutricionista, ainda. Afinal, é a carreira que pretendo seguir. Tenho 18 anos e diabetes há 9 anos. Gostaria de parabenizá-lo pela dedicação em manter sua saúde, cuidando da alimentação, fazendo atividades físicas... É uma lição de vida. Sempre fui muito cuidadosa com a alimentação, muito responsável, mas com o tempo fui deixando os cuidados de lado, tomando a insulina em horários desregulados, comendo o que tivesse vontade e isso só me fez mal. Não vale mesmo a pena. Agora voltei à rotina dos meus cuidados diários e estou bem melhor. Com relação a sua alimentação, não posso dizer-lhe muito. Só o fato de tomar caldo de cana é que me deixou em dúvida, afinal ele contém muito açúcar. Como seu diabetes é do tipo 2 pode ser que não tenha problema. A banana também é uma fruta bastante doce e calórica, mas para você que pratica atividades físicas não deve fazer mal, afinal tem o potássio que combate as famosas cãibras. As mensagens são lindas. Bom dia. Carolina.

20. José Carlos, sou diabético há 14 anos, insulina dependente, problema renal e já tive 2 AVC (derrame cerebral), pesava 105 kg, 1,80 m altura. Há seis meses conheci um produto natural que venho tomando diariamente. Emagreci 14 kg e hoje tenho meus exames todos normais, inclusive a glicose. Tomo esse produto no café da manhã e na janta, pois preciso emagrecer (o que não é o seu caso). Minha vida mudou por completo, hoje tenho mais saúde, não me sinto cansado e não tenho fome. Vendo esse produto, mas não estou querendo ganhar nada sobre isso. Se quiser, procure um distribuidor da Herbalife na sua cidade e experiente-o. Vai ver sua vida mudar. O produto não cura nada, mas previne inúmeras doenças e controla todo o seu organismo para trabalhar bem em todos os sentidos. Isso é apenas uma ajuda. Se quiser conhecer os produtos, acesse http://www.sucec.com.br/net/clovis/herbalife Repito-lhe: não estou querendo vender-lhe nada, mas se quiser o produto procure algum representante na sua cidade. Abraços, Clovis Trizzine. ctrizzine@ig.com.br 

21. BEM, “ZÉ” CARLOS, INFELIZMENTE NAO SOU NUTRICIONISTA, MAS, SIM, BIÓLOGA. TENTAREI RESPONDER SEU E-MAIL NA MEDIDA DO POSSÍVEL. ACONSELHO-O PROCURAR OS VIGILANTES DO PESO MAIS PRÓXIMO DE SUA CASA. PRECISA FAZER UMA RE-EDUCAÇÃO ALIMENTAR. COM OS VIGILANTES DO PESO OBTERÁ UMA DIETA BALANCEADA, SEM  A DITADURA IMPOSTA POR ALGUMAS DIETAS. O ALHO É UM PODEROSO ANTI-INFLAMATÓRIO. QUANTO À BERINJELA, AINDA NÃO ESTÁ PROVADA, CIENTIFICAMENTE, A SUA EFICIÊNCIA. MAS OS RESULTADOS EMPÍRICOS SÃO PROMISSORES. ATÉ ÁGUA EM EXCESSO PODE CAUSAR DANOS À SAUDE. OS ADOÇANTES ARTIFICIAIS SÃO MALÉFICOS À SAÚDE. O MELHOR É INGERIR SUA BEBIDA SEM AÇÚCAR BRANCO OU UTILIZAR  O MASCAVO. PREFIRA OS CHÁS BIORGÂNICOS. ACREDITO QUE OS CHÁS NÃO ELIMINAM O AÇÚCAR EM EXCESSO QUANDO TEM OS SEUS RINS FUCIONANDO COM DEBILIDADES, COMO NO CASO DA DIABETE. Ana Paula de Amorim, Curitiba, PR.

22. Prezado José Carlos. Analisei atentamente seus registros nutricionais e atividade física. Seu estilo de vida está dentro dos preceitos de boa saúde para a qual a alimentação saudável associada à atividade física são essenciais. Não há nada que poderia sugerir-lhe, a não ser alguns conselhos. Livre-se em absoluto de qualquer alimento industrializado parcial ou inteiramente processado (por exemplo, guloseimas, frangos de granja - resfriados ou congelados, todos os embutidos, inclusive salsichas e lingüiças, etc.). Enquanto mantiver atividade física não mude em nada sua dieta. Se, por algum motivo, deixar de se exercitar por longos períodos, diminua pela metade a ingestão de grãos, farináceos, raízes e açúcar livre. Não se prive, jamais, das folhas verdes (claras ou escuras) e frutas, principalmente mamão formosa, melão, morango, melancia, maracujá, kiwi, ameixa preta fresca, etc. O importante é manter seu peso no mesmo patamar por um longo período sem alteração apreciável do seu estilo de vida. Atenciosamente, Prof. Dr. Daniel Giannella Neto. Lab. Endocrinologia Molecular e Celular. Equipe Médica de Diabetes. Hospital das Clínicas-FMU, SP.

23. José Carlos, desculpe-me a demora para responder-lhe. Analisando seu cardápio diário percebo que deve ter realmente feito uma boa reeducação alimentar. Mas pode, ainda, acertar algumas coisas. No café da manhã mantenha um potinho da salada de frutas. No entanto, seria importante acrescentar-lhe uma fatia de pão integral com uma fatia média de queijo branco, por exemplo. O chá pode mantê-lo pela manhã e durante o dia também. Entre o café da manhã e o almoço ingira mais um potinho de salada de frutas ou uma banana. O almoço está certinho, assim como o lanche da tarde. O jantar também está correto, podendo ser inserida nele uma salada variada, retirando-lhe, assim, um pão de sal, dando preferência às fatias de pão integral. Com relação às frutas no jantar, prefira de uma a duas frutas apenas, não mais que isso. Lembre-se de que antes do exercício deve comer alguma coisa, como, por exemplo, frutas, sucos de frutas, pão integral. Após 1h da atividade física, precisa alimentar-se: leite com uma fruta, iogurte desnatado com cereais, etc. Qualquer dúvida, escreva-me novamente. Atenciosamente, Raquel Dammous, Nutricionista CRN 15152/p.

24. Prezado “Zé” Carlos, meu nome é Marlete Pereira da Silva e atualmente respondo pela Chefia do Serviço de Nutrição e Dietética do HUCFF e sou Conselheira do CRN-4 (Conselho Regional de Nutricionistas da 4ª Região). Terei o maior prazer em atendê-lo. Como não disponho de tempo, no momento, responderei um pouco agora. Comprometo-me a tirar todas as suas dúvidas. Gostaria da sua colaboração no sentido de cobrar das autoridades da sua cidade um concurso para nutricionista, um profissional muito necessário. Infelizmente, muitos desconhecem o nosso papel na prevenção e na promoção à saúde. É importante fazer de 4 a 6 refeições diárias, a fim de não sobrecarregar o sistema digestivo. Comer em demasia causa gastrite. Os alimentos que possuem propriedades "medicinais" são chamados funcionais; tanto o alho quanto a berinjela estão entre eles. Segue as suas funções: Alho: é um antibiótico natural, rico em vitaminas e minerais, protege contra a arteriosclerose, combate doenças cardíacas, é anticoagulante, potencializa as funções mentais  e o sistema imunológico, diminui a pressão arterial; Berinjela: é antioxidante, calmante, depurativo do sangue, diurético e laxante suave, diminui o colesterol do sangue. Até breve! Marlete. marlete@hucff.ufrj.br

25. José Carlos, desculpe-me pela demora em responder-lhe. É que tenho muitos e-mails para responder diariamente e isso ocupa bastante meu tempo. Quanto ao seu cardápio, o consumo de carne branca, vegetais e frutas está excelente. Todavia, em razão do seu diabetes, o consumo de frutas está um pouco acima do adequado. Não ingira mais de seis porções diárias e evite consumi-las separadamente, sem usar um alimento proteico ou rico em gordura, como, por exemplo, frutas oleaginosas. Consuma castanhas, nozes ou amêndoas em pequena quantidade junto com a salada de frutas. Ou prepare uma vitamina contendo semente de linhaça, farelo de aveia, fruta e leite de soja. Esta é uma boa opção de café da manhã. Inclua, também, azeite de oliva extra-virgem na salada do almoço. São alimentos ricos em ômega 3, um ácido graxo essencial que nosso corpo não produz e lhe é indispensável. Consuma duas a três colheres de sopa de farelo de aveia por dia, pois ele é excelente para retardar a liberação de glicose dos alimentos. Quanto ao consumo de chá, inclua jambolão ou chapéu de couro no seu chá branco e ingira, ainda, duas xícaras de chá verde por dia, porque é um excelente antioxidante. Um abraço e continue acompanhando meu site, que sempre traz informações úteis. Maribel. Nutricionista.

26. Oi, amigo, boa tarde. Não sou nutricionista nem endocrinologista, mas apenas um diabético que chegou ao máximo do que não podia e teve conseqüências graves por isso, como a perda dos rins e da visão e má circulação nas pernas. Cada organismo reage de uma maneira, mas se fizesse sua dieta estaria morto com uma alta glicêmica enorme. Cana de açúcar e água de coco, esta última um pouco menos, são um veneno para o diabético. O açúcar natural das frutas e dos legumes também é açúcar como outro qualquer! Você come inúmeras bananas por dia..., prato fundo com carne, frutas... Depois de pouco tempo de comer banana, toma água de coco! Quem lhe passou essa dieta?! Tomar um copo de cana de açúcar ou consumir três colheres médias de açúcar branco puro é a mesma coisa. Será que o paladar doce da cana e o próprio nome da cana, sendo cana de açúcar, não lhe diz nada? Bem, qualquer médico do diabetes responsável lhe diria o mal que sua dieta poderá fazer-lhe. Por essa razão, penso que deve consultar um médico, apesar de que minha experiência poder nos dizer algo, mas é muito traumática, pois todas as canas-de-açúcar que tomei ficaram nos rins e na vista! Bem, como lhe disse antes, e repito-lhe, não sou médico. Só não entendo um diabético comendo tanto açúcar diariamente. Abraços preocupados do MAQ. maq@esc.microlink.com.br 

27. Boa noite, José Carlos! Meu nome é Juliana, faço Gastro-Pediatria e sou especialista em Nutrição Enteral e Parenteral. Antes de mais nada, gostaria de agradecer-lhe pelas mensagens e parabenizá-lo pela "revolução" que conseguiu fazer em seu cardápio, sem que isso trouxesse alterações nas taxas de glicose, mantendo um peso aceitável para sua estatura. O que tenho a dizer-lhe é que, se esse cardápio lhe dá prazer, embora em algumas refeições cometa excessos, continue com ele. Talvez pudesse variar um pouco as frutas, ou, quem sabe, um dia na semana, em vez de comer três tipos de proteína em uma refeição (ovo, frango e peixe), poderia substituí-los por sua paixão: carne de porco (de preferência sem gordura). Um dos exames indispensáveis para o real controle da glicemia é a HEMOGLOBINA GLICOSILADA (mostrará o controle glicêmico não só do dia do exame), triglicerídeos, colesterol total, LDL, HDL, creatinina, EQU. Acredito que a elaboração mais adequada de seu cardápio fique a critério de uma nutricionista, visto que essa é sua especialidade. Em relação aos exames, são algumas sugestões, mas é indispensável uma avaliação médica e exame físico por um profissional de sua confiança. Estou à sua disposição. Espero ter toda essa disposição com a sua idade, melhor, estar de bem com a vida como aparenta estar. Um abraço! Juliana. jceloi@hotmail.com

28. Boa tarde, José Carlos. Meu nome é Fernanda e sou nurtricionista do HASP. Analisando seu cardápio, notei algumas coisas: consumo muito alto de frutas. É importante que realmente se alimente de uma forma fracionada, mas poderia espaçar mais os horários. Os diabéticos podem comer de tudo, isto é, normocalórica, normoproteica e normo lipídica. Alimentos proibidos: açúcar simples, demerara e mascavo, mel, refrigerantes, sucos com açúcar tipo Tang, doces de colher, cocada, doce de banana, doce de mamão, pão doce, bolacha recheada, bebidas isotônicas: tipo Gatorade, leite condensado, sorvete. Proposta de cardápio. Desjejum. Duas fatias de pão integral com requeijão, um copo de leite com achocolatado diet (não é light), uma fruta. 10horas. Um copo de iogurte. Almoço. Uma porção grande de salada temperada com limão, sal e azeite, cinco colheres de arroz, cinco colheres de feijão, um bife médio (frango, peixe ou bovino), legumes refogados, uma fruta. Merenda. Uma xícara de chá com adoçante, três bolachas cream craker e queijo branco. Jantar. Duas fatias de pão integral com queijo, alface e tomate, uma fruta, um copo de leite ou sopa de legumes e uma fruta. Ceia. Um copo de leite e duas bolachas cream craker. Como não o conheço pessoalmente, esta seria uma orientação geral. Qualquer dúvida, entre em contato comigo. Fernanda Lina Torihara.

29. Prezado José Carlos, infelizmente não estou qualificado para prestar-lhe orientações profissionalmente, pois não sou nutricionista. O pouco que pude saber é que o medicamento Daonil, conforme consta nas informações do fabricante, não tem a obesidade como efeito colateral. O limite máximo de peso em relação à sua altura seria 72 kg; portanto, o excesso é de 16 kg. O chá pode ajudar no funcionamento do rim no sentido de que contribui para evitar a formação de cálculos renais, pois é diurético. Café, chá ou limonada, se estiverem com adoçante, não há problemas. A beterraba possui bastante açúcar, mas pode ser consumida na medida de meia beterraba média por dia. A berinjela também deve ser limitada à meia berinjela média por dia. Couve, quiabo e repolho não têm problemas. A substituição do pão francês pelo integral é vantajosa pelas fibras que a pessoa passa a ingerir. O leite deve ser limitado a um copo por dia. Se for desnatado, 1 copo e meio diariamente. Como não pude responder às dúvidas, recomendo-o entrar em contato com o Dr. George Guimarães, que é um nutricionista profissional conhecido. Emails: nutriveg@iname.com  e nutriveg@terra.com.br Telefones: 031-11-3884-1731/3884-4575/5533-3861. Sua página: http://www.nutriveq.com.br/   Atenciosamente, Fernando. fmendes@email.com 

30. Caro José Carlos, desculpe-me pela demora em responder-lhe. À primeira vista, seu cardápio e seu estilo de vida (não beber, não fumar, praticar regularmente atividade física), estão ótimos. É provável que baste isso para seu controle. No entanto, é bom lembrá-lo de que o bom controle do diabético não é apenas o da glicemia de jejum e pós-prandial. Faz-se necessário, também, a dosagem da Hemoglobina A1c, que reflete a média das glicemias em todos os horários do dia. De preferência, use a metodologia que mede a HbA1c (normal até 6,2%). Existem outros métodos para a hemoglobina glicada que não mede apenas a A1c. São menos precisas mas, por conta do preço, são as utilizadas pela maioria dos laboratórios (valor normal geralmente até 8%). Além disso, é importante manter a pressão arterial abaixo de 125 x 85 mmHg, colesterol total abaixo de 200, LDL abaixo de 100, HDL acima de 45 e triglicérides abaixo de 150. Se não conseguir estes índices com as mudanças de estilo de vida, é obrigatório o uso de medicamentos. Além disso, deve ser feita a dosagem da microalbuminúria, avaliações cardiológica e oftálmica pelo menos uma vez por ano. Na ausência de endocrinologista em sua cidade um clínico ou cardiologista pode acompanhá-lo. É importante que ele conheça os consensos mais recentes para o tratamento do diabetes (www.diabetes.com.br) da hipertensão (VII JOINT) e da dislipidemia (NCEP III). Atenciosamente, Alberto Ramos, ajsr@uol.com.br

31. Bom dia, José Carlos. Seguem-lhe, abaixo, algumas colocações que lhe seriam importantes, de acordo com seu quadro estável de diabetes e dados antropométricos. 8h30min. Acrescente um alimento que contenha carboidrato complexo (de absorção lenta), que vai manter sua glicemia estável durante toda a manhã: 1 biscoito água e sal ou uma fatia de pão integral de forma. Comece a refeição pela MASTIGAÇÃO dos alimentos ricos em fibras, pois eles lhe dão saciedade prolongada e reduzem a assimilação dos carboidratos, estabilizando, assim, a glicemia por mais tempo. 20h. Antecipe um pouco esse horário para as 19h ou 19h30min, bem como o horário do lanche da tarde para as 16h, no máximo. Use alimento rico em fibras: uma laranja com bagaço, ou uma maçã com casca, ou uma pêra, ou outra fruta, exceto manga, banana e caqui, ANTES de comer o pão, porque a absorção dos carboidratos será mais lenta e gradativa, não provocando "picos" glicêmicos e se estabilizando por mais tempo. 22h. Coma apenas duas frutas ou, como opção, alimentos proteicos: leite, ou iogurte light, ou queijos brancos. Nunca faça exercícios em jejum. Seria conveniente fazer, a cada seis meses, uma avaliação da composição corporal, realizada com freqüência em academias de ginástica. A finalidade é aferir as massas gorda e magra, para verificar se não está perdendo massa muscular, muito comum nos diabéticos descompensados. Um fraterno abraço e que Deus o ilumine e o guarde. Luiz Sinicio.

32. A pedido da Dra. Hermelinda, estou enviando os comentários a respeito do seu cardápio. Suco de laranja natural esquentado: crendice popular. O suco de laranja é rico em vitamina C. Perde parte dessa vitamina quando é aquecido. Lembre-se de que um copo de suco puro de laranja contém cinco laranjas. A fruta, quando consumida em maior quantidade, eleva a glicemia pós-prandial. Café da manhã. Consumo excessivo de frutas. O ideal é uma unidade ou uma porção pequena por refeição. É bom conter leite ou derivados, desnatados, pois são alimentos ricos em cálcio. Estão faltando carboidratos complexos (pão integral, aveia, cereais sem açúcar, tapioca, cuscuz, biscoito integral), que devem ser controlados e não usados à vontade. Lanche da manhã. Faça uso de um lanche no intervalo da manhã (fruta, suco de fruta ou água de coco), sendo uma unidade ou uma porção pequena. Almoço. O almoço está correto e bem equilibrado. No entanto, use mais feijão e menos arroz. Carnes de frango e de peixe, coma-as moderadamente. Saladas à vontade, sempre variadas, com temperos naturais. O azeite de oliva puro é interessante consumi-lo cru. Lanche da tarde. Suco de frutas, em pouca quantidade. Jantar: 19h. Sugestões. Igual ao almoço ou saladas completas com frango, carnes magras ou peixe. Sopa de legumes com frango, carne ou peixe. Suco de fruta e sanduíche natural. Lanche Leve: 21h ou 22h. Sugestões. Leite desnatado e fruta. Leite desnatado e cereais sem açúcar. Mingau de aveia com leite desnatado, canela e adoçante (ralo). Iogurte desnatado e fruta. Iogurte desnatado e três unidades de biscoito integral. Leite desnatado e uma fatia de pão integral. Queijo magro e fruta. OBSERVAÇÃO. Produtos lácteos, use-os sempre desnatados ou magros (leite, requeijão, iogurtes e queijos). Fruta, sempre uma unidade pequena. Grata. Nilza.

33. Boa Tarde, José. Fiz uma análise QUALITATIVA de sua dieta. Veja as observações a seguir. Exames laboratoriais que deve fazer: teste de tolerância a glicose, triglicérides, colesterol e cálcio. Tem pancreatite aguda ou crônica? Se sua glicemia está dentro do normal, até além para um diabético, PARABÉNS! Qual diabetes tem: tipo I ou II? Seu IMC (Índice de Massa Corporal), que é a altura ao quadrado dividida pelo peso, deu limítrofe para sua idade (24,9). Não sei se tem bastante massa magra, pois para esse método isso influencia, ou seja, superestima o resultado. Com relação à sua dieta, faça as seguintes modificações. Tome chá verde em vez desses que está tomando. Ele tem ação efetiva na saciedade e ajuda na perda de peso. Coloque uma colher de sopa cheia para um litro de água e tome o chá o dia todo. Está comendo muita fruta. A recomendação é de 3/4 porções/dia. Mesmo que sua glicemia esteja ótima, o açúcar das frutas pode alterar esse valor. Às 10h30min passe a comer somente salada de fruta. No almoço, coma as duas bananas que estavam no lanche da tarde. No desjejum falta o consumo de leite desnatado para atender as necessidades de Cálcio. Duas fatias de pão ou um pão francês de manhã lhe proporcionará quantidade suficiente de energia para suas atividades. Também diminuirá sua fome no lanche da manhã. No lanche da tarde, coma somente salada de fruta e uma bolacha cream cracker, torrada com requeijão ou geléia diet. Na ceia, deve comer a menor quantidade possível, como, por exemplo, uma porção de fruta e um copo de leite desnatado. Com relação ao azeite, prepare sua refeição com uma colher e meia de sopa em cada uma (jantar e ceia) e o total deve ser de três colheres de sopa.  Bom, José Carlos, quanto ao resto, está tudo muito bem equilibrado. Se incorporar essas pequenas modificações tenho certeza de que irão fazer uma grande diferença. Espero que o tenha ajudado. Um grande abraço. Andressa Penteado Fantinatto, CRN 13562, afantinatto@hotmail.com

34. Santos, 22 de maio de 2003. Prezado José Carlos, em resposta a seu e-mail, primeiramente sugiro-lhe que consulte um profissional especializado, nutricionista ou médico endocrinologista, pois a presença do paciente é muito importante para qualquer avaliação e para melhor atendê-lo em suas dúvidas. Nessa consulta serão analisados os seus hábitos alimentares atuais, preferências nutricionais e a necessidade ou não de mudanças alimentares, com o objetivo de controlar o peso e a glicemia, principalmente para ajustar a alimentação e a atividade física que já  pratica. Não são necessárias mudanças bruscas, como passar fome, mas, sim, disciplina e muita força de vontade para seguir uma dieta saudável e equilibrada. Uma das mudanças é a necessidade de realizar 6 refeições diárias e a inclusão de todos os tipos de alimentos, em todas as refeições, desde o café da manhã até o lanche noturno. As variedades dos alimentos e as quantidades adequadas devem ser individualizadas de acordo com as preferências do paciente. Quanto aos chás brancos, são excelentes e existem outros: camomila, hortelã, melissa e maçã. Os chás pretos e mate contêm cafeína que, em excesso, podem deixar o paciente mais ansioso. O café contém duas substâncias: cafestol e kahweol, que elevam o colesterol sérico, por isso é recomendado sempre que possível o uso do filtro de papel, que tem a propriedade de reter as substâncias citadas. As frutas são compostas de frutose, que é um carboidrato, não é um açúcar simples, mas ingeridas em excesso podem alimentar a taxa de glicose do sangue. Por isso, a necessidade de uma dieta individualizada. Os biscoitos, mesmo os água e sal, têm que ser ingeridos com controle, porque são carboidratos e o excesso ajuda a  aumentar a glicose. As margarinas light contêm menores quantidades de gordura, portanto não importa a marca. Todos os alimentos têm sua importância: frutas, fibras, alimentos integrais e todos devem ser ingeridos adequadamente, e calculados em consulta com o profissional e o paciente. Atenciosamente, Jussara P. Bueno, Nutricionista do HOSPITAL ANA COSTA, anacosta@anacosta.com.br

35. Olá, José Dutra. Meu nome é Nair Rabello, sou nutricionista da equipe do Dr. Levimar Araújo, que me enviou seu email. Em primeiro lugar quero pedir-lhe desculpas na demora em respondê-lo. Passei por uma série de mudanças nas últimas semanas, mas não me esqueci do seu pedido. Estive analisando as informações que me enviou e preciso fazer alguns comentários. A faixa de variação de peso teórico para você é: Peso mínimo, 58Kg; peso médio, 65KG; peso máximo, 72KG, que é justamente o peso que tem atualmente. Você tem um bom conhecimento quanto à variabilidade dos alimentos da dieta, mas precisa rever as quantidades ingeridas em cada refeição. Veja, a seguir, uma SUGESTÃO de cardápio. Desjejum. Leite (um copo duplo desnatado) ou duas fatias de queijo branco. Pão integral (duas fatias ou um pão de sal ou cream cracker). Fruta (uma unidade ou uma fatia média ou um copo de salada de frutas). Requeijão cremoso (uma colher de sopa). Colação. Uma banana ou uma maçã ou outra fruta. Almoço. Arroz (cinco colheres de sopa), podendo ser TROCADO por: Farofa, angu, batata, macarrão. Exemplo: três colheres de sopa de arroz e duas de batata. Feijão (cinco colheres de sopa), que pode ser trocado por: Grão de bico, lentilha, soja, ervilha. Vegetais folhosos (à vontade). Legumes (duas colheres de sopa): abóbora, chuchu, cenoura, etc. Quanto mais variado melhor (mais colorido o prato). Carne (um bife ou um pedaço pequeno), preferencialmente branca (peixe ou frango). Os temperos pode continuar usando-os. Lanche. Um pão (ou substituto, conforme já descrito). Leite (idem). Fruta (idem). Lanche. Um pão, carne (filé de frango, peixe ou quatro colheres de sopa de atum). Vegetais folhosos à vontade. Uma Fruta. Ceia. Duas fatias de queijo ou leite. Cinco unidades de cream cracker ou um pão de sal. Procure reduzir o intervalo entre as refeições: máximo de 3 horas. Ingerir no mínimo dois litros de água por dia (evitar fazê-lo somente no almoço) uma hora antes, durante e uma hora após. Mantenha a prática da atividade física e o controle emocional que são de fundamental importância para o sucesso do seu tratamento. Em caso de mais alguma dúvida, coloco-me à disposição para solucioná-la. Obrigada pelas lindas mensagens e que DEUS continue abençoando-o. Se quiser conhecer um pouco mais nosso trabalho, entre no site www.diabetes.med.br Um grande abraço, Nair Rabello.

36. José Carlos, uma orientação nutricional completa só é possível pessoalmente, pois necessita de algumas medidas  da estrutura física e uma análise  alimentar mais completa no que diz respeito aos hábitos e alimentos usados. Entretanto, tentarei diminuir as suas dúvidas, conforme solicitado. É importante conhecer o padrão da glicemia e o uso de hipoglicemiantes. Se as dúvidas persistirem, pode fazer novo contato. Essa  orientação não substitui uma consulta com um nutricionista. O seu peso ideal, de acordo com a altura e a faixa etária, é de 65 Kg . Os alimentos devem ser ingeridos a cada 3 horas para controlar o esvaziamento gástrico, otimizar a produção de insulina e tornar constante a absorção de glicose, evitando os picos de hiperglicemia e hipoglicemia. Esse hábito é fundamental para controle de peso e do apetite. O alho e a berinjela são alimentos importantes como fonte de vitaminas, minerais e fibras. Os chás de cidreira e erva-doce com adoçante podem ser usados sem restrições (para pacientes diabéticos), tanto a folha in-natura como o industrializado de saquinho. Os adoçantes mais indicados são à base de aspartame. Arroz e macarrão são alimentos com concentração alta de glicídios (açúcares), portanto devem ser usados como substitutos, preferindo sempre os tipos integrais. Todos os óleos podem ser usados no preparo dos alimentos, em quantidades moderadas. O importante é não usá-los sob a forma de frituras (para não causar obstrução das artérias). O azeite-de-oliva deve ser usado para temperar saladas. Lentilha e ervilha secas, grão-de-bico, feijão branco, feijão preto, podem ser usados como substitutos do feijão mulatinho. Coma vegetais (crus ou cozidos) e frutas, sem restrição. Tome qualquer leite desnatado (pó ou líquido) sem medo. “Bagaços” são fibras alimentares importantes no controle do colesterol, da glicemia e na regulação do ritmo intestinal (as frutas e os vegetais são ricos em fibras solúveis e insolúveis).  A aveia é um alimento muito importante como fonte de energia, ferro, vitaminas do complexo B e fibras. O fato do alimento ser rico em fibras não significa “pouca caloria”. É importante uma avaliação mais completa, incluindo exames de laboratório, para a elaboração de um plano alimentar. Entretanto, as dúvidas mencionadas são bem pertinentes para o controle metabólico do diabetes. Atenciosamente, Gildete Fernandes,  Nutricionista do Hospital Português, Salvador, BA, flavio@hportugues.com.br

37. Caro JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO, realmente apresenta excesso de peso. O seu peso deve ser em média 70 kg. O fracionamento da alimentação é indispensável tanto para reduzir peso, quanto para o controle do diabetes. O ideal são 6 refeições, mas pode ser 5 também. O alho e a berinjela são dois alimentos com nutrientes com efeitos positivos para nossa saúde, mas propriedades medicinais talvez seja um termo muito forte. A ingestão deles ajuda para uma boa saúde. O Daonil não engorda, ajuda no controle do diabetes e um diabetes descontrolado leva a redução de peso, pois as células não conseguem receber os nutrientes. Com a medicação o organismo passa a funcionar adequadamente, aproveitando tudo o que ingerimos. Diferente de engordar. Pode tomar qualquer chá de erva ou outro de fruta que preferir. Os chás ajudam no bom funcionamento do intestino. Evite os chás que contêm cafeína, como o preto e o mate, porque estimulam o sistema nervoso central e o deixam mais ansioso. Retire as peles do peixe e do frango antes de consumi-los. Beba 2 litros de água por dia, no mínimo. As frutas contêm açúcar que alteram o controle da glicemia. Coma somente 5 a 6 por dia. Evite comer uva, jaca e abacate. Pode substituir uma fruta por uma barra de cereal sem açúcar. Lentilha, ervilha, feijão, grão de bico e soja pertencem à mesma família das leguminosas. Uma substitui a outra. Não devem ser consumidas juntas. Fruta de casca: maçã, pêra, goiaba, caqui, ameixa. Fruta com bagaço: laranja e mexerica. No momento, não pense na aveia: é muito calórica. Cevada, nada contra nem a favor. Existem alimentos ricos em fibras, como a aveia, que são bem calóricos. Cuidado. Alimentos integrais: arroz integral, pães integrais, verduras, legumes, grãos (lentilha, ervilha, milho, etc). Existem macarrão e arroz integrais de marcas variadas. Combine-os com o seu paladar. A ingestão de farelo de trigo é para um bom hábito intestinal, ou seja, o intestino funcionar diariamente sem fazer força e produzir fezes de consistência pastosa. Margarina e manteiga não são muito saudáveis. Evite-as. Troque o óleo de cozinha por azeite extra-virgem. Use o adoçante stévia, muito mais natural, pois é retirado das plantas. Coma oleaginosas diariamente como amêndoas, avelãs, macadâmias, pistache, nozes e castanha-do-pará, que contêm óleos "bons" e protegem as artérias.  Cuidado, em excesso trarão aumento de peso. No máximo uma ou duas unidades por dia. Espero ter ajudado a contento. Um abraço, Maria Izabel Lamounier de Vasconcelos. Nutricionista ABCD. secretaria@abcd.org.br 

38. José Carlos, recebi seu e-mail hoje e vou começar a tirar-lhe algumas dúvidas. Realmente, de acordo com o seu IMC (índice de massa corporal), está com obesidade de grau 1. Seu peso ideal é 66 Kg, então seria desejável uma redução de 23 Kg. Para se emagrecer de maneira saudável, não se deve perder mais que 4 Kg por mês (essa margem permite emagrecer com saúde e com menor risco de voltar a engordar). No seu caso, tanto para emagrecer como por causa de diabetes, é mesmo indispensável a realização de 6 refeições diárias. Este é um princípio da nutrição "maior fracionamento e menor volume". Se fica por muito tempo sem comer, seu corpo pensa que está passando por um período de falta de alimento e diminui a velocidade do metabolismo, estocando tudo que é ingerido. E, devido a diabetes, está mais suscetível a uma hipoglicemia se ficar muito tempo sem se alimentar. Estarei calculando quantas calorias seriam o ideal para ingerir por dia. Entrarei em contato com você novamente, respondendo as outras dúvidas. Atenciosamente, Flávia Morais, Nutricionista,  Mundo Verde Franquia, nutricao@mundoverde.com.br http://www.mundoverde.com.br/inicio.asp OBS: A MUNDO VERDE tem várias lojas em Salvador. Localize-as abrindo o seu site. Bom dia, “Zé” Carlos, tudo bem? Espero, realmente, que sim. A essa altura já deve está realizando as seis refeições diárias, “né”? Se ingerir 1700 Kcal por dia emagrecerá 4 Kg por mês. Essas 1700 Kcal devem estar divididas nas 6 refeições diárias, da seguinte forma: 340 Kcal no café da manhã, 120 Kcal na colação, 500 Kcal no almoço, no lanche da tarde 170 Kcal, no jantar 425 Kcal e 85 Kcal na ceia. Não é aconselhável fazer somente uma refeição pela parte da manhã, porque, como diabético, pode ter uma crise de hipoglicemia. Continue consumindo alho e berinjela, pois o alho tem ação depurativa, diurética e digestiva. É um antibiótico natural, devido a alicina, além de vermífugo e anticoagulante. Previne as tromboses, purifica as mucosas e evita a formação de catarro. Também tem efeito contra o excesso de ácido úrico, o reumatismo, a pressão alta e a arteriosclerose. A berinjela é diurética, desobstrui as vias biliares e auxilia na redução do colesterol. Que bom que toma chá! Além de erva-cidreira, camomila, capim-limão, funcho, pode usar o chá verde, o abajeru e o pata-de-vaca, que ajudam a baixar a taxa de glicose sangüinea. O melhor adoçante é o stévia, feito do chá das folhas de uma planta de origem do sul do país e do Paraguai. Pode ser usado sem causar efeito colateral algum. A maioria dos chás são diuréticos, mas nem todos ajudam a diminuir a taxa de açúcar no sangue. Um abraço, Flávia, nutricao@mundoverde.com.br

39. Olá, achei muito interessante a maneira como vem adotando novos hábitos em sua vida. Primeiramente, parabenizo-o pela força de vontade e superação que demonstra ter. É, realmente, difícil responder seu e-mail da maneira mais completa, discursando sobre as questões propostas de modo satisfatório; afinal, cada tópico, cada questionamento daria horas de discussão. Sinto-me frustrada por não ter todo o tempo para debatermos como gostaria sobre o que propôs em sua mensagem, mas o que lhe posso adiantar é: Seu peso não está 19 Kg acima do ideal como relatou. A faixa de IMC (Índice de Massa Corporal) para pessoas acima de 62 anos não é a mesma para os mais jovens cronologicamente. Portanto, concluí que está, em média, 10 Kg acima do seu peso ideal. Gostaria de salientar, porém, que hoje sua perda de peso deverá ocorrer em conseqüência da mudança de seus hábitos. Continue praticando a fé, a atividade física e reduzindo alimentos ricos em gordura e açúcar. Desta maneira, terá controlado quaisquer enfermidades cardiovasculares ou crônico-degenerativas, como o próprio diabetes. Faça, sim, um esforço e fracione mais sua dieta, ou seja, reduza um pouco a quantidade ingerida no almoço (mantenha a qualidade), coma um lanche no meio da tarde, alguma coisa pela manhã e sua saúde agradece. Continue ingerindo bastante água. Se for do seu agrado, mantenha os chás e evite os “pretos”, porque aumentam a ansiedade. Cuide do estômago! Ingira produtos integrais, pois sua absorção é mais lenta, elevando, gradualmente, e de forma reduzida, a taxa de glicose no sangue. Varie ao máximo os adoçantes que usar. Não existem estudos conclusivos sobre os efeitos de nenhum deles no organismo, portanto a recomendação é de trocá-los freqüentemente. Todos os leites desnatados, com selo de fiscalização e no formato “longa-vida”, são mais confiáveis do que qualquer outro. Nenhuma restrição ao presunto de peru. Margarinas “lights” a sua escolha – nocivas somente pelo excesso em seu consumo. Barras de cereal contêm açúcar mascavo, porém seu aporte de fibras pode reduzir seu efeito negativo – consuma com moderação. Qualquer alimento, rico ou pobre em fibras, engorda se consumido em quantidades superiores a sua necessidade energética. Tenha por hábito ler o rótulo das embalagens. A princípio, será complicado entender, mas a prática e a comparação de produtos o tornarão um consumidor atento às quantidades relativas principalmente de fibras, gorduras (saturadas e insaturadas), carboidratos ou açúcares (evite os simples), proteínas, cálcio e ferro. No mais, disponho-me a ajudá-lo em quaisquer outras dúvidas e desculpe-me por não poder me aprofundar mais. Atenciosamente, POLYANA SELVATICI.

40. Olá, José Carlos. Apesar de fazer pesquisa culinária e escrever textos sobre o tema, não sou nutricionista e, portanto, não estou habilitada a dar-lhe conselhos médicos. No entanto, vou tentar responder algumas de suas dúvidas, baseadas em meu conhecimento empírico. Acho que consome alho demais, o que pode ter um efeito irritante no estômago, apesar de alho ser notoriamente bom para a saúde. Também cultiva pouco o prazer da comida e se angustia com a possibilidade de ter que deixar certos hábitos, o que pode provocar ansiedade e compulsão alimentar. A alimentação saudável, acredite, é muito gostosa e criativa. Visite meu site para ver algumas receitas e conhecer possibilidades criativas: www.clipfit.com Experimente, de manhã, comer 1 fruta, como mamão, algum cereal, tipo aveia ou granola, sem açúcar, misturado ao suco de laranja. Pode dispensar a berinjela e o alho, pois foi provado que berinjela crua não tem os efeitos medicinais que andaram divulgando, além do que o gosto deve ser terrível. Os chás são naturalmente diuréticos e pode experimentar chá verde, que é antioxidante. É importante tomar pelo menos 2 litros de água por dia, é saudável e auxilia na perda de peso. Evite usar óleo para cozinhar. Use o azeite virgem como condimento, apenas para dar gosto, sem nunca aquecê-lo. Gordura aquecida aumenta os radicais livres e faz mal para o coração. Seu almoço está bom, mas pode temperar a salada. A beterraba é rica em açúcar mas também tem fibras, o que retarda a liberação do açúcar para o sangue. Pode comê-la sem exagero. Experimente refogar as verduras com “shoyo” (molho de soja) ou mesmo água. O sabor fica mais rico e é mais saudável. O açúcar das frutas vem sempre combinado com vitaminas e fibras, e é, portanto, saudável, sem exageros. Pode consumir 4 ou 5 frutas por dia, sem problema. Não se preocupe com tantas restrições e coma as frutas de que gosta, sem exageros. Não sou a favor de laticínios. Pode substituí-los por soja. Há várias receitas ótimas com grãos de soja. Procure consumir somente cereais integrais, a fibra realmente retarda a liberação do açúcar para o sangue. Evite comer alimentos refinados, como arroz branco, biscoitos e bolos feitos de farinha de trigo refinada. Quanto à margarina, não faz bem à saúde. Elimine os adoçantes artificiais. Use o açúcar natural das frutas. Barras de cereal são um produto processado, como se fosse um biscoito grosso; elimine todo alimento processado e refinado, se possível: nunca se sabe o que vai dentro deles. Cascas e bagaços: a casca das maçãs, por exemplo, é saudável, o bagaço das laranjas também. Os alimentos ricos em fibras têm tantas calorias quanto os refinados, portanto, controle a quantidade; no entanto, dão uma sensação de saciedade e o efeito retardador de liberação do açúcar para o sangue existe. Além disso, as fibras estimulam a regularidade intestinal. Procure lojas de produtos naturais. O Mundo Verde é uma rede que tem lojas no Brasil inteiro. O site deles é: www.mundoverde.com.br . Arroz integral é muito comum e há macarrão integral também, sempre neste tipo de loja mais natural. Na verdade, hoje em dia até os grandes supermercados têm uma seção de alimentos naturais; pesquise. Um último conselho: farelo de trigo pode ser saudável, mas é muito desagradável como o suco de berinjela e alho cru. Pare de se preocupar tanto e busque mais o prazer da vida, sem feijoada e torresmo, e sem exageros. A Wickbold fabrica pães integrais e é uma empresa grande, mas as soluções caseiras são sempre melhores. Um abraço e boa sorte, Noga Lubicz, vendas@clipfit.com

41. Olá, José Carlos, como vai? Recebi seu e-mail hoje e estou um pouco surpresa pela maneira como colocou seu problema a nós, nutricionistas. Aí perto de Ipiaú não há nenhuma Universidade próxima, para atendimento nutricional? Bom, você tem muitas dúvidas, por isso acho interessante procurar um nutricionista que esteja próximo de onde mora. Somos impedidos de fazer consultas virtuais. Além disso, há técnicas importantíssimas que só em contato com os pacientes é que conseguimos realizar, como por exemplo: Peso, Altura, Pregas Cutâneas, entre outras medidas, que é de exclusiva competência do nutricionista. Atendo pacientes em seus domicílios, por isso sei da importância de se avaliar pessoalmente cada indivíduo, entende? A seguir, algumas respostas que posso lhe fornecer. Segundo seu peso e sua altura, está obeso, mas o emagrecimento deve ser cauteloso, aos poucos. Primeiramente, precisa chegar ao sobrepeso e depois se houver necessidade com relação à saúde, aí sim, chegar à eutrofia (normalidade). Tudo isso cruzando exames laboratoriais, para se certificar que níveis de colesterol, triglicérides, uréia, creatinina, hemoglobina, hematócrito, etc, estejam adequados. O emagrecimento nunca pode colocar o estado de saúde em jogo, por isso devem existir tais cuidados. O alho tem poder anti-oxidante, que retarda o envelhecimento precoce e pode auxiliar na prevenção de problemas imunológicos. Mas não há a necessidade de se tomá-lo batido com suco! Outros alimentos, mais aceitáveis, também são fontes deste nutriente, como as frutas, fontes de vitamina C (é só um exemplo!). A berinjela é conhecida como auxiliar na diminuição dos níveis séricos de colesterol. Mas o recomendável é que se tome batido com suco de laranja, em jejum, pela manhã. O paciente diabético não deve exceder 3 porções de frutas/dia, pois o açúcar próprio destes alimentos também eleva os níveis de glicemia (frutose). Por isso, quando preparar um suco, nunca o faça puro, sempre o dilua em água. E respeite o limite de quantidade de frutas. Os chás mais indicados, para qualquer patologia, realmente são os de ervas: erva-doce, cidreira, capim-limão, camomila, ou os de frutas como o de maçã (feito com a casca), o de maracujá, etc. Mas nunca tome os mais escuros, pois contêm cafeína, que é prejudicial por estimular demasiadamente o Sistema Nervoso Central, além de "competir" na absorção de vários nutrientes. Sendo os chás de ervas, podem ser consumidos livremente, puros ou adoçados com edulcorantes artificiais. Se não for Hipertenso (Pressão Alta) pode tomar qualquer tipo. O Stévia tem procedência natural, mas no seu caso não há necessidade. Compre os não calóricos! O melhor líquido para "limpar" os rins é a água pura! Quanto ao fracionamento da dieta, 5 a 6 refeições por dia são ideais. Vou enviar-lhe uma Orientação Nutricional. A sua dieta não está ruim! Qualquer alimento diet é aquele que é fabricado com o ingrediente principal modificado ou substituído por um de função terapêutica. Por exemplo: o açúcar é substituído pelo adoçante, entende? Os edulcorantes (adoçantes) têm um sabor aparentemente mais forte porque o poder adoçante deles á muito maior do que o da sacarose (açúcar). Por isso os sorvetes e todos os produtos diets (e não necessariamente os lights) são mais "doces". Desejo que consiga agendar uma consulta com o nutricionista! Mas, mesmo assim, espero tê-lo ajudado. Um abraço e não esqueça de ler a Orientação em anexo! Sílvia Regina, snd@hospitalsantamarina.com.br Hospital e Maternidade Santa Marina, Tel. 031-11-5013-1240/1241.

42. Prezado José Carlos Dutra do Carmo, em retorno ao seu e-mail gostaríamos de nos desculpar pela demora em respondê-lo, devido ao grau de questionamentos e das buscas realizadas. Se ficamos muito tempo sem ingerir alimentos, o organismo “economiza” energia, não queimando a mesma quantidade que queimaria se houvesse ingestão de alimentos em curto espaço de tempo. Com relação aos chás, a Jasmine oferece chá de Maçã (lançamento). Maçã é benéfica para o coração: pela presença de potássio, elemento indispensável na geração de energia para atividade celular, nas contrações musculares e na transmissão de estímulos nervosos. Pela presença de pectina, que evita a deposição de gordura na parede arterial, evitando a arteriosclerose. É depurativa do sangue: Contém acido málico, que elimina detritos provenientes do metabolismo. Efeito emagrecedor: pela presença de pectina, que dificulta a absorção das gorduras, da glicose e elimina o colesterol. O potássio contido na maçã faz eliminar o sódio excedente e conseqüentemente o excesso de água retida no corpo. 40 g de maçã seca equivale a 2/2,5 maçãs in-naturas. Os chás auxiliam nas funções gástricas e digestivas. Com relação a outros chás, é muito complicado indicar algum especifico, pois cada chá natural, principalmente de ervas, são indicados para algumas funções determinadas. Os chás ajudam no funcionamento do rim, assim como a ingestão de água é vital para o funcionamento do rim, que é o “filtro” do nosso organismo. A cafeína presente no café e nos chás pretos tem ação “estimulante” no sistema nervoso e pode aumentar a pressão. O coador de pano não tem nenhuma influência no colesterol. O colesterol é dado pela ingestão de gordura de origem animal. O ideal é um balanceamento de proteínas, carboidratos, fibras, gorduras e vitaminas. O arroz e o macarrão são carboidratos. A beterraba contém bastante açúcar. Quanto à ingestão de verduras e legumes, o bom é  consumir um “mix” colorido (vitaminas). A frutose é metabolizada independente da insulina. Somente seu médico poderá indicar-lhe a quantidade de frutas a ser consumida. Quanto à eliminação do suco, o melhor é consumir a fruta, pois contém fibras, que são indicadas para diabéticos e pessoas com colesterol alto. Todas as frutas têm frutose. Frutose não é o mesmo que sacarose (açúcar comercial). Sacarose é um dissacarídeo (glicose + frutose). As frutas contêm frutose que não necessitam de insulinas para serem metabolizadas. É muito importante o consumo de fibras. Está agindo corretamente, consumindo produtos integrais. Evite os produtos beneficiados e refinados. Com relação às margarinas, não podemos afirmar qual é a melhor. O mais indicado é não consumi-las. Não consuma manteiga e seus derivados! A respeito dos biscoitos, os da marca Jasmine são ricos em fibras, principalmente os salgados que possuem poucas calorias. Relativamente às mudanças de atitudes em seu cardápio e nas atividades da vida, parabéns pela determinação e força de vontade. Barra de cereais é um conjunto de elementos integrais com versões diferenciadas. Por exemplo, ingredientes que contenham aveia, mel, flocos de arroz, coco. As barras não substituem as frutas e existem nomes comercias. Quando a Jasmine as fabricava, chamava-as de Suply. Lentilha e grão de bico são leguminosos e podem ser consumidos como sopas, saladas, etc. Consumir aveia moderadamente é recomendável, pois ajuda a reduzir o teor de gordura e açúcar no sangue. Recomenda-se que a aveia seja utilizada, de preferência crua, reidratada em água, para que as vitaminas e minerais sejam aproveitados integralmente. As fibras auxiliam para o bom controle da taxa de glicose no sangue. O ideal é utilizar o máximo possível de alimentos integrais e naturais. A Jasmine é uma empresa há 12 anos no mercado e tem como linha mestra levar a seus clientes produtos integrais e naturais desenvolvidos com muito critério e extremo respeito. Temos grande preocupação em oferecer produtos de alta qualidade e estamos sempre trabalhando para que os nossos clientes estejam totalmente satisfeitos. Colocamo-nos também à sua disposição para maiores informações através do telefone 0800-7018003 (discagem gratuita) nos dias úteis, de segunda-feira a quinta-feira, das 8 às 18h e sexta-feira das 8 às 17h. Daniela Ricco Pinheiro, Engenheira de Alimentos.  www.jasminealimentos.com.br sac@jasminealimentos.com.br

43. É muito importante sua preocupação em melhorar a qualidade da alimentação. Com ela balanceada poderá evitar e ajudar (ou sanar) doenças adquiridas por hábitos alimentares errôneos. Quanto ao seu porte físico, está entrando na obesidade. Seu peso ideal seria entre 65 a 71 kg. Sendo portador de diabetes, mais um motivo forte para perder os quilos a mais. Alimentar-se 6 vezes ao dia é indispensável, ou seja, comer mais vezes com menores quantidades. Procedendo assim, estará evitando, também, uma hipoglicemia ou problemas gastro-intestinais. O alho ajuda a combater infecções e a berinjela abaixa o colesterol ruim (LDL) no sangue. O café da manhã é uma das refeições mais importantes, pois o seu principal papel é o fornecimento de nutrientes e, em especial, de energia para as primeiras horas do dia e para as necessidades globais. Saltar o café da manhã, como vem fazendo, implica em afetar parcialmente, de forma aguda, a capacidade de atenção, além de reorientar os aportes nutricionais para outros horários de alimentação, o que possui uma associação reconhecida com o risco de obesidade. Tudo em excesso é prejudicial, inclusive a quantidade de chá que está ingerindo. Os chás têm propriedades específicas e sem um controle na sua ingestão fica difícil medir o quanto dessas propriedades o organismo está recebendo. Ajudam o bom funcionamento do rim, como qualquer outro líquido, sempre tomado nos intervalos das refeições e nunca durante as grandes refeições, porque isso acarretará uma dilatação do estômago e diluição do suco gástrico, o que dificultará a digestão. A quantidade ideal é de 1,5 a 2 l/dia. O excesso de chá não elimina açúcar da urina. O que elimina o excesso de açúcar é a fibra. As fibras ajudam o organismo a eliminar o excesso de glicose, colesterol (LDL), triglicérides e previnem o câncer do colon. Os chás de cafeína eliminam o cálcio do organismo e estimulam a mucosa gástrica e o sistema nervoso central. Quanto aos adoçantes artificiais, todos são de boa qualidade. Cada pessoa tem a sua preferência, visando o paladar. Pode comer arroz com lentilha, pois os grãos (leguminosas e cereais) são ricos em fibras. Todo alimento integral é mais saudável e mais rico em fibras e vitaminas. Os óleos mais indicados no uso de tempero ou para cozinhar, são chamados monoinsaturados e polinsaturados, que são de origem vegetal e combatem o colesterol ruim. Toda gordura animal é chamada saturada e aumenta o colesterol ruim no sangue. Mas lembre-se de que os alimentos com fibras também engordam, se consumidos em excesso. Procure ingerir vegetais crus e sem temperos (no caso das saladas), aproveitando o sabor natural desses alimentos. Tudo é uma questão de hábito. O óleo aquecido aumenta a produção de radicais livres, devido a sua oxidação. Portanto, o ideal é usá-lo uma única vez, quando se tratar de frituras. Pode consumir feijão com grão-de-bico ou isoladamente, mas em pequenas quantidades. O lanche da tarde também tem o seu valor, portanto mude os seus hábitos alimentares, incluindo esta refeição. No seu caso, as frutas em excesso podem prejudicar devido ao teor de açúcar monossacarídio existente nelas (frutose). Por que 2 copos de leite à noite e os 2 pães com presunto? O ideal seria distribuí-los durante o dia, o que facilitaria um sono mais tranqüilo devido à digestão das proteínas. Cientificamente, a melhor margarina é a Becel Pró-Active, que tem antioxidantes que combatem os radicais livres. A barra de cereal não substitui a fruta, mas pode ser usada em refeições pequenas, entre o desjejum e o almoço. Continue praticando exercícios, pois melhorará o nível de açúcar e evitará outras doenças resultantes do sedentarismo. Mantenha toda essa esperança e satisfação interna confiante no seu Deus. Dê preferência às carnes magras. Retire as peles do peixe e do frango antes de consumi-los. Prefira os adoçantes como FINN, ZERO-CAL E GOLD. Evite o ASSUGRIM, DIETYL, DOCE MENOR, TAL E QUAL, SUCARYL E DOÇURA, pois poderão alterar sua pressão. Use os alimentos “DIET” com moderação. As massas (macarrão, farinha, angu, etc) e vegetal (batatas, mandioca, cará) deverão ser usadas em substituição ao arroz, ou quando usá-los juntos, diminuir a quantidade de arroz. Alimentos ricos em fibras: feijão, verduras, legumes crus, frutas com casca e bagaço, cereais integrais (arroz, pão, aveia). As fibras são muito importantes para ajudar no controle da glicemia. Elimine do seu cardápio: açúcar, rapadura, pudim, torta, bala, refrigerante, mel, bombom, sorvete. Atenciosamente, Maria Elisabete Chemim, Nutricionista Clínica dos Hospitais André Luiz e Arapiara S/A, Belo Horizonte, MG.

44. OI, SOU KEYLI, NUTRICIONISTA. Vou tentar esclarecer suas DÚVIDAS. Demonstrou ser uma pessoa muito preocupada com sua saúde. Parabéns e obrigada desde já por confiar em mim. Como você mesmo disse, não é uma consulta e por isso nem vou lhe dizer o preço que cobro. Mas saiba que estou muito feliz pelo carinho da sua mensagem. A MÉDIA DE PESO PARA SUA IDADE É 65 Kg, MAS ATÉ 73 Kg é normal pelo IMC. Fazer seis (6) refeições por dia é realmente indispensável para qualquer dieta. O medicamento DAONIL não engorda. TODOS OS CHÁS BRANCOS PODEM SER CONSUMIDOS COM ADOÇANTE. Evite os chás que contêm cafeína, como o preto e o mate, pois estimulam o sistema nervoso central e o deixam mais ansioso. Café demais faz a pressão subir. ACRESCENTE UM FIO DE AZEITE DE OLIVA NA SALADA. COMA AS FRUTAS QUE CONTÊM MAIS ÁGUA: MELANCIA, MELÃO, ABACAXI, LIMA. Evite comer jaca, uva e abacate. As frutas são ricas em um açúcar chamado frutose, que é absorvido no sangue e se transforma em glicose, no fígado. Sendo assim, não aumenta muito a taxa de glicose no sangue após a absorção, exceção feita às uvas, que possuem uma quantidade maior de glicose que as outras. Suco de fruta, apesar de natural, contém frutose, que é o açúcar da fruta que também altera a glicemia. Portanto, quando tomá-lo, misture-o com água. PODE USAR O QUEIJO BRANCO PARA SUBSTITUIR O PRESUNTO. No lugar de uma fruta pode comer uma barra de cereal LIGHT. Lentilha e grão-de-bico substituem o feijão. FRUTAS COM CASCAS E BAGAÇOS: MAÇÃ, PÊRA, LARANJA, MANGA, TANGERINA, LIMA. A ingestão de alimentos ricos em fibras é fundamental para auxiliar o bom controle da taxa de glicose no sangue. Prefira alimentos à base de grãos integrais, como pão, arroz e biscoitos integrais. Eles contêm mais fibras, são mais nutritivos, acabam com a fome mais rápido e diminuem e velocidade de absorção da glicose no sangue. Substitua o pão comum (francês, branco) pelo integral. O pão integral é aconselhado por ser rico em vitamina B e em germe de trigo, que possibilita o perfeito funcionamento dos intestinos. Uma marca de pão integral idônea é a PLUS VITA. Substitua o biscoito conhecido como “água e sal” pelo GRAN DIA DANONE. Não ingira líquidos durante as refeições e prefira carnes cozidas e assadas com pouco óleo. Recomendo ler o rótulo antes de consumir os alimentos industrializados. Se contiver as palavras glicose, sacarose, açúcar ou açúcar invertido, evite esses alimentos. O alimento dietético (“diet”) que deve ser usado é o adoçante. Utilize os que contêm CICLAMATO DE SÓDIO, SACARINA OU ASPARTAME. Alimentos “diets”: Não contêm açúcar, mas têm gorduras e outras substâncias prejudiciais em excesso. Seguindo a dieta prescrita pelo nutricionista, não é preciso consumir alimentos artificiais. Alimentos “lights”: Podem conter açúcar e por isso não devem ser consumidos. Uma alimentação equilibrada deve conter frutas e hortaliças de cores bem variadas todos os dias, pois esses alimentos são ricos em vitaminas e minerais. EVITE: Açúcar branco, mascavo, doces preparados com açúcar, mel, melaço, rapadura e frutas em calda; neston, farinha láctea, mucilon, cremogema, e excesso de farinhas de mingaus; bebidas alcoólicas e refrigerantes. Excesso de: ervilha, milho, aipim, batata-doce e inglesa, inhame, fruta-pão, bananas, uvas, cereja, castanha. Alimentos com muito sal e gorduras: Carnes salgadas, lingüiças, enlatados, frituras e biscoitos doces, principalmente os recheados. MODERE: Alimentos dietéticos, manteiga, margarina, creme de leite, leite de côco, azeite de dendê e gorduras animais; pães e massas; frutas secas (ameixa, uva passa). PREFIRA: Adoçantes, por exemplo: Stevia, Assugrin, Dietil, Sucaryl, Doce Menor, Holda, Finn, etc. Óleos Vegetais (soja, milho, canola, azeite doce e outros). Leite e iogurte desnatados, queijos brancos. Folhosos (alface, agrião, brócolis, repolho, couve, cheiro verde). Verduras (abóbora, quiabo, berinjela, jiló, maxixe, pepino, tomate, cebola, cenoura). Frutas (abacaxi, laranja, cajá, caju, goiaba, melancia, melão, tangerina. Alimentos ricos em fibras: frutas e verduras cruas e cereais integrais (aveia, por exemplo). ESPERO QUE TENHA COLABORADO COM VOCÊ. SE AINDA FICOU COM ALGUMA DÚVIDA, ESCREVA-ME DE NOVO. FOI UM PRAZER AJUDÁ-LO. QUE DEUS O ABENÇOE. KEYLI. E-mail: kquirelli@ig.com.br Oi! Como vai? Espero que esteja tudo bem. Fiquei muito feliz em saber que consegui esclarecer suas dúvidas. Mas, se ainda quiser perguntar algum coisa, estarei sempre à disposição! Lembrei de mais um site bom que fala de muitas coisas legais sobre alimentos: www.soscozinha.com.br Resolvi mandar-lhe mais algumas orientações sobre diabetes. Espero que goste. Atualmente estou trabalhando no Restaurante Baby Beef, em Salvador. Você o  conhece? Veja o site: www.babybeef.com.br  Quando vier a Salvador, fale-me, para quem sabe nos conhecermos pessoalmente. Tem esposa e filhos? Sua mãe ainda é viva? Diga a elas que lhes desejo um ótimo Dia das Mães. Um abraço, Keyli.

45. Oi, “Zé” Carlos, enviei-lhe um pacote via postal cheio de informações sobre diabetes e alimentação. Se tiver alguma dúvida, escreva-me. Um abraço. Clarice Helena Couto, Endocrinologista e Clínica Médica, Clínica Saúde Consciente, Blumenau, SC. claricecouto@uol.com.br A seguir, os dados coletados do material fantástico e maravilhoso que me enviou CLARICE. Utilize somente 20 ml de óleo por dia no preparo dos alimentos. Verduras de folhas cruas, que podem ser consumidas à vontade: Acelga, agrião, almeirão, aspargo, brócolis, chicória, couve, espinafre, repolho, palmito, rabanete, tomate, pepino, cebola. Legumes saudáveis: abóbora, abobrinha, moranga, beterraba, berinjela, cenoura, chuchu, vagem, quiabo, nabo, ervilha (fresca), jiló, couve-flor, pimentão. Tubérculos e raízes recomendados, com moderação: aipim, batata inglesa, batata doce, batata baroa (mandioquinha), cará, inhame. Frutas indicadas: abacaxi, ameixa, banana d’água, banana maçã (branca ou preta), caqui, caju, figo, goiaba, jabuticaba, laranja (pêra ou lima), maracujá, melancia, melão, morango, maçã, mamão, manga, pêra, tangerina, pêssego, uva. GRUPO DE ALIMENTOS. Vegetais do Tipo A. Podem ser ingeridos sem restrições: Acelga, agrião, alface, almeirão, chicória, couve-manteiga, brócolis, couve-flor, espinafre, mostarda, nabo, pepino, rabanete, repolho, tomate. Vegetais do tipo B: Abóbora, abobrinha, berinjela, beterraba, cebola, cenoura, chuchu, ervilha, palmito, pimentão, quiabo, vagem. FRUTAS: Abacaxi, ameixa, banana, caqui, goiaba, laranja, maçã, mamão, manga, melão, melancia, morango, pêra, pêssego, tangerina, uva. Carnes e peixes devem ser cozidos, grelhados ou assados. Não frite os alimentos. Alimentos que devem ser evitados: Açúcar, balas, chocolate, bombons, mel, bolo, tortas, geléias, marmelada, leite condensado adoçado, refrigerantes, cerveja, vinhos doces, champanha, alimentos fritos, azeitonas, castanhas. Alimentos sem restrições: Chá (sem açúcar), caldo de carne ou galinha (sem gordura), limão, mostarda, picles (não adoçados), vinagre, edulcorantes não calóricos, condimentos (alho, baunilha, canela, cebola, cebolinha, cominho, louro, orégano, pimenta, salsa, salsão). Alimentação equilibrada é aquela que contém todos os nutrientes: carboidratos ou açúcares, proteínas, gorduras, sais minerais, vitaminas, fibras vegetais e água. TIPOS DE ALIMENTOS. ENERGÉTICOS. —Fontes de carboidratos (glicose): cereais (arroz, milho, trigo, aveia, centeio, cevada) e seus produtos (farinhas, pipoca, pão, macarrão, massas, biscoitos) e tubérculos (batata, batata-doce, mandioca, cará, inhame). —Fontes de gorduras: óleos vegetais, margarina, frutas oleaginosas (amendoim, nozes, castanhas, avelãs, amêndoas). CONSTRUTORES. —Fontes de proteínas: carne de boi, aves, peixes, frutos do mar, ovos, leite, queijos, iogurte, coalhada, leguminosas (feijões, ervilhas, lentilha, grão-de-bico, soja). REGULADORES. —Fontes de vitaminas, sais minerais, fibras vegetais, água, verduras, legumes e frutas. Lembre-se de que o equilíbrio nas refeições garante boa nutrição e melhor controle da glicemia. O que são fibras vegetais? São nutrientes importantes para a saúde do aparelho digestivo e prevenção de algumas doenças como prisão-de-ventre, hemorróidas, gastrite, colite e tumores do aparelho digestivo. As fibras macias são responsáveis pelo menor aproveitamento da glicose e das gorduras durante a digestão. Exemplos de alimentos com fibras: leguminosas (feijões, ervilhas, lentilha, grão-de-bico, soja); cascas e bagaços de frutas; legumes e verduras; aveia e cevada. GORDURAS E COLESTEROL. O alto consumo de gorduras favorece o aumento dos seus níveis no sangue e de doenças decorrentes desse péssimo hábito alimentar. Prepare os alimentos com óleos vegetais (de soja, arroz, girassol, gergelim, canola, oliva). Evite carnes gordas, embutidos, queijos gordos, creme de leite, maionese e manteiga. SÓDIO. Largamente encontrado no sal de cozinha, alimentos industrializados e de origem animal, o sódio é um componente relevante para o desenvolvimento da hipertensão arterial (pressão alta) e, portanto, deve ser consumido com moderação. Prefira temperos e alimentos frescos e congelados. Abuse de ervas aromáticas, alho, cebola e cheiro verde. Alguns adoçantes à base de sacarina e ciclamato contêm alto teor de sódio. Não abuse dos adoçantes e de outros produtos dietéticos. O açúcar (refinado, cristal e mascavo), mel, doces, refrigerantes e o álcool contribuem de forma acentuada para o descontrole da glicemia. Evite-os. Mantenha o peso dentro da faixa de normalidade (20 a 25 kg/m²), que se calcula dividindo o peso por altura vezes altura (IMC). Fracione a alimentação em 3 refeições principais ao dia e coma frutas entre as refeições, evitando longos períodos em jejum. Inclua nas refeições os três grupos de alimentos: Energéticos (arroz, massas, pães, batatas); construtores (carnes, ovos, leite e derivados) e reguladores (verduras, legumes e frutas). Substitua produtos refinados por integrais (o arroz branco pelo integral, por exemplo), devido ao maior teor de fibras que ajudam a controlar o índice glicêmico. Consuma 2 a 4 porções de frutas por dia (1 por vez) e prefira as frutas com menor quantidade de glicose e frutose. Não abuse de uva, melancia e caqui. Prefira comer a fruta em vez de tomar o suco de frutas, pois este, além de ser mais calórico, contém menor teor de fibra. Evite açúcar (refinado ou mascavo), refrigerante, doce, mel, pois aumentam rapidamente a glicemia. Use produtos “diets” com moderação, pois alguns apresentam maior valor calórico (chocolate, bolacha e bolo “diet”). Evite café, chá mate, carnes gordas, queijos amarelos, frituras e bebidas alcoólicas. O exercício físico é um santo remédio para a saúde. Pratique-o sempre, todos os dias, de segunda a sexta-feira.

46. Oi, “Zé” Carlos, tudo bem? Li seu e-mail hoje, e, em breve, estarei respondendo TODAS as suas dúvidas. É um imenso prazer tê-lo como meu cliente e tentarei tudo que for possível para ajudá-lo. Como sabe, no código de ética dos nutricionistas é proibido passar dieta por e-mail sem que façamos uma análise com nosso paciente pessoalmente. Mas sei, também, como está inseguro quanto à sua alimentação, e então irei colaborar com você, pois me disse que pediu ajuda a algumas nutricionistas e não ficou satisfeito. Enviar-lhe-ei um cardápio depois. Antes, porém, peço-lhe que responda algumas perguntas que lhe mandarei em breve para ajudar-me a entendê-lo bem. Por enquanto, é isso. Aguarde ainda nesta semana. Abraços, Aline Arouca de Castro. E-mail: Nutrielite@aol.com “Zé” Carlos, aí vai a resposta às suas dúvidas. Fazer pelo menos 5 refeições diárias seria o ideal. Se forem 6, é melhor ainda: seu organismo “gasta“ mais energia para fazer a digestão em cada horário, então esta também é uma forma de fazer o metabolismo “acelerar”. O alho e a berinjela contêm propriedades medicinais. A berinjela ajuda a diminuir o colesterol ruim porque suas fibras, que são do tipo “solúveis”, “englobam” moléculas de colesterol LDL, excretando-as para fora do organismo. Portanto, faz bem ao coração. Daonil é um hipoglicemiante oral que pode trazer como efeito colateral o aumento de peso em algumas pessoas. Pode ser ou não o seu caso (se bem que pelo que come, pode até ser que ele esteja fazendo ganhar mais peso). Nunca deixe de praticar exercícios físicos diariamente e alimentar-se corretamente. Chás indicados: chá verde, banchá, jasmim (ajuda no processo de digestão), camomila, maracujá (só de noite, porque dá sono), erva-cidreira, hortelã. Não tome chá preto. Os chás ajudam no bom funcionamento do organismo em geral, desde que não sejam tomados em excesso, pois alguns podem conter compostos antinutricionais, ou seja, que irão diminuir a absorção de outros micronutrientes da dieta. Duas a quatro xícaras de chá ao dia são suficientes. Não é que o chá ajude a “limpar” o organismo, é que a pessoa ingere “tanta” água (do chá), que acaba urinando bastante, e fazendo o rim funcionar melhor. Não tome chás que contêm cafeína, nem café, porque aumentam a ansiedade. Óleo de cozinha: deve variar as fontes cada vez que for comprar óleo. Uma vez compre óleo de canola, outra vez de milho, na outra de girassol... e assim por diante. O melhor mesmo é o de canola. As verduras e legumes devem ser consumidas com bastante variedade de cores (o melhor é ter um alaranjado, um vermelho, um amarelo e um verde escuro). Acrescentar sempre um vegetal folhoso verde escuro (exemplo: espinafre cozido ou couve – crua ou cozida). Coma algum alimento na parte da tarde. Não deve ficar todo este tempo de jejum, porque poderá entrar em acidose (que é a queima de energia através da gordura, só que esta “queima” é incompleta, podendo levá-lo a ter vertigens e irritabilidade). Por ter diabetes, evite comer o carboidrato simples: acrescente uma proteína, ou uma gordura ou uma fibra junto. Exemplo: 2 fatias de pão (que é o carboidrato) com 3 pontas de faca de requeijão light (ou manteiga), biscoitos com patê, ou requeijão ou manteiga (em pouca quantidade). O carboidrato é um açúcar, então se não há uma proteína, ou uma fibra ou uma gordura para retardar sua absorção, ele “entra” de uma vez no organismo, aumentando sua glicemia. No almoço, deverá haver sempre junto com o carboidrato um peixe (que é a proteína), fibras, etc., então não terá tanto problema, porque a absorção do carboidrato será mais lenta. Nunca coma as frutas sozinhas. Acrescente a elas alguma fibra (farelo de trigo, ou aveia = 1 colher de sopa) para retardar a absorção da glicose do carboidrato da fruta. Frutose é um carboidrato simples também e não deve ser consumido em excesso, pois as frutas contêm glicose e frutose (e não só frutose). Abacate, jaca e uva deverão ser consumidas em quantidades muito pequenas. O abacate contém muita caloria (gordura vegetal, mas não contém colesterol). A uva e a jaca têm muita glicose e frutose por grama de alimento. Adicione água nos sucos naturais das frutas para que fiquem mais diluídos e a absorção mais lenta. As frutas que pode consumir, em quantidades limitadas, são: Maçã, abacaxi, ameixa vermelha, banana, pêra, goiaba, pêssego, laranja, caqui, Kiwi, figo, manga, melancia, mamão, morango, melão, uva, mexerica. As que mais contêm fibras são: laranja (com bagaço), ameixa fresca, mamão... Peito de peru: nenhuma restrição, desde que não coma mais que 2 fatias, já que é rico em sódio. Pode optar por biscoitos naturais da marca “Jasmine”, que não contêm em sua composição a gordura vegetal hidrogenada, que é péssima gordura, presente nos biscoitos em geral, sorvetes, salgadinhos, margarinas, etc. O biscoito água e sal não contém tanto sódio assim a ponto de preocupar, ainda mais porque você já não coloca sal nas refeições. Prefiro que coma manteiga (em menor quantidade) ou requeijão “light” do que margarina. Pode substituir uma fruta por uma barra de cereal de vez em quando. Há várias marcas e diferentes sabores no mercado. Sites sérios: http://www.rgnutri.com.br/ ,  http://www.nutricaoempauta.com.br/novo/46/nutriclinica.html  Lentilha é uma leguminosa que tem muita fibra e carboidrato. É deliciosa e seu tempo de preparo é menor que o feijão (20 minutos na panela de pressão). Grão-de-bico é um alimento rico em fibras e carboidrato e o tempo de seu cozimento é um pouco lento. As fibras não contêm calorias, portanto não engordam. Marcas de produtos integrais: Jasmine (cereais integrais), Wickybold (pães). O telefone do dono de uma loja de produtos naturais de Campinas é: 031-19-3252-9046/9113-1370 (Arnaldo ou Marilda). Atendem pelo correio. As melhores marcas de arroz e macarrão integrais: arroz Ráriz e macarrão Renata. São muito bons e mais fáceis de serem encontrados. “Farelo de trigo” é bom para fazer o intestino funcionar bem e retarda a absorção da glicose. Azeite, marcas mais saudáveis: Azeite de Oliva Extra Virgem, Azeite Puro de Oliva. Não sei se consegui tirar todas as suas dúvidas. Espero que tenha ficado satisfeito com as respostas. Caso ainda tenha dúvida, envie-me um e-mail: nutrielite@aol.com  Aline Arouca de Castro. Telefone: 031-19-3251-1670.

47. José Carlos, sou nutricionista do Hospital das Clínicas da UFMG e professora do Curso de Nutrição do Centro Universitário Newton Paiva. Recebemos seu e-mail no Serviço de Nutrição. Espero poder atendê-lo adequadamente. Aqui vão algumas orientações. Tomando por base seu peso, estatura e idade, recomendo uma dieta de 1800 Kcal/dia. A dieta com a lista de substituições enviarei pelo correio amanhã. Faixa de normalidade de peso para a estatura, sem considerar a idade: 53,5 a 72,3, sendo a média de peso esperado = 63 Kg. Considerando ± 30 Kcal/Kg, a dieta chegaria a 1890 Kcal, aproximadamente. O fracionamento das refeições é imprescindível para o diabético. Faça, pelo menos, 5 refeições por dia (desjejum, lanche, almoço, jantar e ceia). O alho, segundo a medicina natural, tem propriedades anti-inflamatórias. Já quanto à berinjela nada foi comprovado a respeito de redução dos níveis séricos de colesterol. O chá pode ser ingerido, sem excesso, pois pode levar a perdas consideráveis de eletrólitos, tais como os minerais sódio, potássio, cloretos, etc. Prefira os chás de hortelã, camomila, erva-cidreira, erva-doce. Evite o mate e o chá preto pelo conteúdo de cafeína. A ingestão de líquidos, preferencialmente de água, num volume de pelo menos 2 litros por dia, auxilia o funcionamento dos rins, aumentando o volume urinário, prevenindo a concentração da urina e evitando as infecções do trato urinário. Caso haja algum comprometimento renal, o volume de líquidos deve ser controlado. Não exagere no uso de adoçantes. A stévia ainda não tem estudos mais conclusivos. Utilize os adoçantes à base de ciclamato com sacarina (Assugrim, Doce Menor, Adocyl, Zero-Cal líquido) e alterne-os com os à base de aspartame (Zero-Cal em pó, Finn, Gold-fructofibras em pó, Adocyl em pó). A hipertensão arterial é muito comum em sua faixa etária, incidindo em mais de 50% da população nesta idade. É uma complicação perigosa associada ao diabetes. Portanto, use o sal com moderação. Enviarei também uma orientação para dietas hipossódicas. Os óleos mais indicados para cozinhar são os vegetais de soja, milho, algodão, girassol. Não importa a marca ou embalagem. É recomendável o uso de azeite pelo menos uma vez ao dia, podendo ser utilizado na salada (1 colher de sobremesa), uma vez que contém ácidos graxos monoinsaturados, importante fonte de lipídio para a saúde. A composição da dieta e como agrupar os alimentos, poderá entender melhor com as orientações que enviarei, posteriormente. Evite ingerir numa mesma refeição arroz e massas ou feijão com outra leguminosa, porque são do mesmo grupo de alimentos. Entretanto, se as quantidades não forem demasiadas, eventualmente podem ser consumidos, se for um hábito que lhe agrada. Não se deve ingerir líquidos durante as refeições, podendo fazê-lo de uma a duas horas antes ou após. Não conheço todos os sites da Internet para recomendar algum específico. Deve haver critérios para absorver as informações de modo geral. Portanto, use o bom senso, priorizando os que têm embasamento científico ou que estejam associados a instituições confiáveis. A cada ano  que passa, é bom ingerir porções menores de alimentos. Aí está nossa maior dificuldade, pois reproduzimos os hábitos alimentares incorporados ao longo de nossa vida. Com a idade, o metabolismo basal diminui e, por essa razão, é mais saudável consumir menos alimentos e, conseqüentemente, menos calorias. As frutas não devem ser consumidas em excesso na dieta de diabéticos, já que possuem frutose, um açúcar simples, semelhante ao metabolismo da glicose, podendo elevar os níveis sanguíneos da glicose. Três a quatro porções de frutas ao dia é o suficiente, de preferência com outros alimentos. O pão de sal não apresenta nenhum inconveniente; portanto, não precisa evitá-lo. Torradas ou pão macio não têm diferença calórica. Esta é uma falsa idéia que muitas pessoas têm. Ao torrar o pão, retirou-se apenas água ou umidade do alimento. O biscoito água é a melhor opção para o diabético hipertenso, pois não contém sal nem açúcar. Dois biscoitos equivalem a meio pão de sal, em relação às calorias. O presunto de peru é mais indicado, contendo menor teor de gordura e colesterol. As margarinas vegetais são mais apropriadas que as manteigas. Sugiro-lhe as mais cremosas e as “lights”. Quanto mais duras, apesar de vegetais, têm a estrutura química mais parecida com a manteiga animal. O processo industrial das margarinas, para adquirirem a consistência cremosa (tranformando óleos líquidos em creme) conferem-lhes a característica de saturação encontrada nas manteigas (origem animal). A barra de cereais é um bom alimento, entretanto não substitui as frutas. São ricas em fibras e auxiliam na saciedade, sendo uma boa alternativa entre as refeições. Podem provocar distensão abdominal em algumas pessoas, apresentando-se muito fermentativas. A aveia é uma boa fonte de fibra solúvel e insolúvel, auxiliando o controle glicêmico, a função intestinal, desde que em quantidades moderadas. Assim como a cevada é fonte de vitamina B. O mais importante é ter uma alimentação a mais variada possível. Não é necessário exagerar em quantidade e freqüência de certos alimentos. Coma com prazer quantidades apropriadas e devagar. Os alimentos ricos em fibras, principalmente as insolúveis (folhosos, bagaço e cascas de frutas) são pobres em calorias e têm a função principal de formar o bolo fecal e facilitar a sua eliminação. Os alimentos integrais são geralmente ricos em vitaminas do complexo B, exigem maior tempo de digestão, muitas vezes aumentam a saciedade. Enfim, espero ter atendido sua solicitação e lhe tirado algumas dúvidas. Parece que já é bastante disciplinado e preocupado com sua saúde. Parabéns. COMPLEMENTO. Evite: ameixa seca, biscoitos salgados, queijo, margarinas e manteigas com sal, doce de leite, sardinha em lata, sucos concentrados. Utilize com moderação: ameixa fresca, biscoitos doces, margarinas e manteigas sem sal, chás naturais, doce de frutas, leite tipo C, pão doce, sardinha fresca, sucos naturais. Para aumentar o sabor dos alimentos, acrescente neles: orégano, limão, manjericão, coentro, pimentão, noz moscada, pimenta, hortelã. Mastigue bem os alimentos, comendo devagar para facilitar a digestão. Evite tomar líquidos junto com as refeições, pois é um hábito que dificulta a digestão. Faça 4 a 6 refeições diárias. Evite o uso de gordura de porco, peles, bacon ou torresmo. Consuma carnes magras, frango sem pele, peixe sem couro, retirando toda a gordura que enxergar. Evite os alimentos que contêm açúcar (mel, balas, pudins, chocolates e similares). Os vegetais cozidos permitidos em sua dieta são: chuchu, abobrinha, beterraba, moranga, jiló, vagem, berinjela, brócolis, couve-flor. Vegetais crus indicados: couve, alface, taioba, almeirão, agrião, acelga, rabanete, tomate. Utilize alimentos ricos em fibras: feijão, verduras cruas, frutas com casca e bagaço, cereais integrais, farelo de aveia, legumes.  Rosângelis Del Lama Soares, Serviço de Nutrição do Hospital das Clínicas da UFMG, Belo Horizonte, MG, rodis@terra.com.br

48. Caro José Carlos, meu nome é Edith, sou nutricionista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e seu e-mail chegou em minhas mãos através da Secretária da Superintendência do Hospital. Tentarei esclarecer suas dúvidas de maneira clara e objetiva, porém, como você mesmo relatou, fica difícil através de e-mail dar-lhe uma orientação adequada. Com relação ao pagamento, não tem sentido, pois estou me propondo apenas a tirar suas dúvidas. Peso desejável: mínimo - 57,800 Kg; médio - 65,00 Kg; máximo - 72,300 Kg. O ideal é que chegue ao peso desejável médio (65 Kg). Sua necessidade calórica é de 1950 Kcal por dia, portanto não deve ultrapassar esse patamar. No entanto, deve diminuir para 1500 Kcal se quiser mesmo perder peso, manter a glicemia controlada e prevenir as complicações do diabetes. Fracione a alimentação em 5 a 6 refeições ao dia. Mantenha intervalos entre cada refeição de 2 a 3h. Inclua em cada refeição um alimento de cada grupo (roda dos alimentos). Substitua os alimentos, mas que sejam do mesmo grupo e de valor calórico semelhante. Exclua açúcar e doces. Utilize óleo no preparo dos alimentos em pequena quantidade. Evite frituras e alimentos gordurosos. Diminua o uso do sal de cozinha e alimentos industrializados. Prefira alimentos frescos, naturais e integrais, em vez dos industrializados. Pratique atividade física regular. É a melhor maneira de manter uma alimentação equilibrada e peso corporal adequado. Se quer mesmo emagrecer e controlar sua glicemia tem que mudar seus hábitos.  Sua alimentação não é bem fracionada, tente fazer as 5 ou 6 refeições com intervalos de 3horas. Isso não significa passar fome, mas comer pouco várias vezes ao dia. Atividade física é muito importante. Continue praticando-a todos dias, mas não vá além do seu  limite. Tente, não é tão difícil como parece, logo  estará adaptado! Uma alimentação saudável e equilibrada deve ser composta de alimentos variados para que forneça todos os nutrientes de que o corpo precisa. Para entender melhor é importante conhecer os grupos dos alimentos. Grupo dos Alimentos Reguladores: São os que fornecem em maior quantidade as vitaminas, sais minerais e fibras que vão regular as funções do corpo. Grupo dos Alimentos Construtores: São alimentos que fornecem em maior quantidade as proteínas que servem para manter a estrutura do corpo. Grupo dos Alimentos Energéticos: São aqueles que fornecem em maior quantidade os glicídios (hidratos de carbono) e lipídeos (gorduras) que servem para dar energia (calorias) de que o corpo precisa para funcionar. É importante saber que os alimentos ricos em glicídios, depois de ingeridos, serão transformados em glicose. São eles o açúcar, as farinhas em geral, arroz, macarrão, pães, doces, etc. Portanto, os diabéticos devem consumir com moderação e aprender como  fazer a substituição destes alimentos. Os alimentos dos grupos construtores e reguladores também contêm glicídios, porém em menor quantidade. Prato fundo: Talvez seja muita quantidade! Coma um prato de sobremesa de salada, dando preferência às verduras e depois faça um prato raso composto de arroz, feijão, verdura, legumes, um pedaço pequeno de carne e um copo de suco ou uma fruta de sobremesa. Berinjela: Tem valor calórico baixo e possui boa quantidade de  fibras solúveis e insolúveis. Fibras solúveis: excelentes para o bom funcionamento intestinal, dão sensação de saciedade e retardam a absorção dos hidratos de carbono (glicídios), evitando elevação rápida da glicemia. Os alimentos ricos em fibras têm calorias, portanto devem entrar como substitutos. As verduras são fontes de fibras insolúveis e contêm baixas calorias. Alho: Tem alicina, que funciona como anti-oxidante. Alguns estudos mostram que possui ação anti-inflamatória. Chás: Não têm valor nutricional, mas são uma maneira de aumentar ingestão hídrica. Alguns estudos mostram os benefícios dos chás. Para o bom funcionamento dos rins recomenda-se tomar bastante líquido, mas não necessariamente chá. O açúcar (glicose) é eliminado pela urina quando a glicemia está alta. Adoçante: Não existe o melhor. A recomendação atual é variar os tipos de adoçantes e usá-los apenas para melhorar o sabor e em pequena quantidade. Macarrão: É substituto do arroz, assim como batata, mandioca, batata doce, milho e outros cereais. Diabéticos e obesos devem fazer a substituição e não ingeri-los juntos em uma mesma refeição. Lentilha: É substituta do feijão, assim como ervilha, grão-de-bico e soja. São ótimos alimentos e devem fazer parte do cardápio, escolhendo um ou outro. Com relação à marca, não sei a melhor, mas deve prestar atenção na data de validade, aspecto do alimento e da embalagem. É sempre melhor escolher os integrais do que os  refinados. Óleos: milho, girassol, canola e oliva contêm maior quantidade de ácidos graxos polinsaturados e, portanto, são considerados os melhores. Mas contêm a mesma quantidade de calorias, devendo ser utilizados em pequena quantidade por obesos. Legumes e verduras: todos devem fazer parte das refeições, o importante é a variedade. Líquidos: Durante as refeições pode tomar suco de fruta ou água. As pessoas que têm esse hábito, quando não ingerem líquidos, tendem comer mais para sentir a sensação de estômago cheio, mas as enzimas não diminuem. A ingestão de líquidos deve ser de 2 a 3 litros por dia através de suco, chá, leite ou água. A dica é ingerir 1 copo de líquido a cada uma hora, mas não abuse de suco e leite, pois têm calorias. Biscoitos: São substitutos do pão. Observe que ½  pão francês (25g) equivale a 3 biscoitos água e sal, ou 1 fatia de pão de forma tradicional, ou ½  colher de aveia (tem fibra solúvel e por isso é vantagem substituir o pão pela aveia). Margarinas: Use apenas 1 ponta de faca, pois as gorduras têm alto valor calórico. Escolha a de sua preferência. Barra de cereal: Ótima opção para lanche, apesar de ser industrializada, mas fruta é natural e mais nutritiva. Cascas e bagaços: Contêm boa quantidade de fibras e algumas frutas podem ser consumidas com casca e bagaço como laranja, pêssego, nectarina, uva, maçã, pêra, tangerina, goiaba, caqui. Cevada: pode ser usada como infusão em substituição ao café e chá. Cafeína: Realmente é um estimulante do sistema nervoso, mas tomado com moderação (3 xícaras pequenas por dia) não causa problema. Frutose: É o açúcar das frutas e do mel. Se consumida em excesso pode levar ao aumento da glicemia e ganho de peso. As frutas devem ser ingeridas para fornecer vitaminas, minerais e fibras na porção de uma unidade ou fatia por refeição. Salada de fruta deve ser na quantidade de 1 xícara de chá cheia e em substituição à fruta. Leite: Não se preocupe com as melhores marcas, o importante é fervê-lo antes de consumi-lo e comprá-lo observando data de validade, aspecto da embalagem e carimbo de inspeção. Presunto de peru: Pode ser consumido esporadicamente no lugar da carne. Sites recomendados: www.diabetes.org.br     e    www.diabete.com.br Espero ter contribuído para que consiga perder peso e manter um bom controle da glicemia. Continue sempre buscando novas informações, pois só tem a ganhar! Edith, nutricao@hcrp.fmrp.usp.br 

49. Oi, José Carlos, segue abaixo as respostas das suas dúvidas. Está com excesso de 11 Kg. Para a sua altura, o seu peso deve variar entre 64 a 78 Kg. OBSERVAÇÃO. O peso ideal depende de cada pessoa, ou seja, o peso que quer e pode ter. É difícil opinar sem conhecê-lo, mas acredito que deve emagrecer, pois o ajudará no controle do diabetes. Disse que não quer passar fome e com razão, mas para emagrecer é necessário fazer uma reeducação alimentar, aliada ao controle de calorias e atividade física, não implicando em passar fome, MAS O SUCESSO DA DIETA DEPENDE EXCLUSIVAMENTE DA FORÇA DE VONTADE DO PACIENTE. Se quiser emagrecer, terá que fazer algum esforço. O fracionamento da dieta é importante, pois evita que fique muito tempo de jejum e acabe exagerando na refeição seguinte, além de ajudar no controle da glicemia. Como não se adapta a 6 refeições por dia, pelo menos deve tomar café da manhã (desjejum), almoçar, merendar e jantar, passando para 4 vezes ao dia. O alho e a berinjela são exemplos de alimentos funcionais, que possuem alguns componentes com funções especiais para o organismo. No caso do alho, é bom para o coração e anti-cancerígeno e a berinjela ajuda na diminuição do colesterol como, também, no controle da glicose. É importante ressaltar que a nutrição é uma ciência em crescente evolução. Há vários estudos científicos com estes alimentos e as quantidades diárias recomendadas é que variam muito. Tudo em excesso é ruim! O importante é saber dosar. No caso dos chás, alguns possuem componentes anti-nutricionais e competem com os minerais. São irritantes gástricos, como o chá preto e o mate. O chá com maior restrição é o chá preto. Os demais: camomila, erva-cidreira, erva-doce, capim santo, são mais liberados. A marca dos chás vai do seu gosto. Os que são vendidos no supermercado teoricamente possuem o registro do ministério da agricultura e da ANVISA. Os chás feitos da planta devem ser consumidos somente quando souber a procedência deles, para evitar contaminação microbiana. Cuidado quando for adquiri-los em feiras livres. Os chás são diuréticos, mas não ajudam a eliminar o açúcar da urina. É verdade que o chá mate e o preto possuem cafeína e por isso estimulam o sistema nervoso da maioria das pessoas. Quanto aos adoçantes, alguns não podem ser usados em alimentos que vão ao forno, por isso há limitações. O stévia é bom, mas indico-lhe um chamado SUCRALOSE (linea), que  pode ser usado em várias preparações quentes e frias e é mais natural. OBSERVAÇÃO. O stévia é feito da planta stévia, que tem poder adoçante. O sucralose é um açúcar invertido, que não é absorvido pelo organismo, sendo melhor que os demais que têm limites de uso. A mistura do arroz com a lentilha não tem problema, mas vai depender da quantidade que está ingerindo. Os óleos vegetais que listou podem ser consumidos em pouca quantidade e não têm colesterol, pois são de origem vegetal. O que diferencia uns dos outros é o perfil da gordura de cada um. O melhor óleo é o de girassol, seguido do milho e da soja. O azeite de oliva é rico em uma gordura chamada monoinsaturada, que auxilia no aumento do colesterol bom (HDL). Pode ser usado nas saladas, sem exageros! O óleo utilizado em frituras e reaproveitado possui a substância acroleína, que é cancerígena. O feijão e o grão-de-bico podem ser consumidos juntos, MAS VAI DEPENDER DA QUANTIDADE INGERIDA. As verduras que listou não tem restrições. A cenoura é um pouco mais calórica que as demais e deve ser quantificada. A ingestão de líquidos durante as refeições tem controvérsias no meio científico. Ora dizem que pode, ora relatam que não. Indico aos meus pacientes o uso de frutas, em vez de sucos. Não aconselho tomar água nas refeições, pois dificulta a digestão por “encher” o estômago. NÃO ESTÁ COMPROVADO QUE DIMINUI AS ENZIMAS DIGESTIVAS; HÁ OUTROS FATORES QUE FAZEM ISSO.  Os sites que lhe indicaria são os das associações de cardiologia, diabetes, de universidades, de hospitais, pois são mais sérios. Evite revistas que não sejam especializadas em nutrição. Poderia acessar o www.google.com.br  e pesquisar os sites de nutrição, procurando os referentes aos listados acima. Alimentos “lights” possuem redução de até 30% de algum componente (carboidratos, gordura, proteína, etc). No entanto, se ingeridos sem controle engordam tanto quanto os alimentos não “lights”. Exemplos: o sal “light” tem menos sódio que o sal normal; o creme de leite “light” tem menos gordura do que o normal, etc. O importante é sempre ler os rótulos para verificar as diferenças. LEMBRE-SE: há produtos “lights” que possuem açúcar e o diabético não pode comê-lo. No caso do sorvete “light”, tem sabor mais doce porque tem como ingrediente algum adoçante artificial, que deixa o produto mais doce. O açúcar das frutas é chamado de frutose, que não aumenta tanto a glicemia quanto a sacarose (açúcar de mesa), mas AUMENTA, dependendo da quantidade que é consumida. As frutas não podem ser ingeridas em excesso, porque aumentam a glicemia e engordam. FRUTAS COM MENOS AÇÚCAR: cereja, figo, goiaba, pêra, framboesa, uva, morango, amora, maçã, laranja, melancia, pêssego, limão, romã, groselha. Com relação às fibras, consuma as frutas com casca e bagaço, que o auxiliará no controle da glicemia e do colesterol. Beba o leite desnatado que achar mais gostoso! Olhe no rótulo a data da fabricação, procedência, enriquecimento com vitamina D para ajudar na escolha também. A restrição ao presunto de peru é só a procedência e a validade. Se tiver pressão alta, não o use. Procurar variar com “blanquet” de peru (menos calórico) e peito de peru. Evite os DEFUMADOS. O biscoito água fica a seu critério, sempre observando os rótulos. Particularmente, gosto da marca fortaleza.  A margarina becel foi desenvolvida para o controle de dislipidemias. É muito boa, porque tem menor quantidade de gordura saturada, prejudicial ao organismo. Os fabricantes relatam que o processo de produção dela difere das demais margarinas. A barra de cereal tem de várias marcas no mercado e é encontrada em qualquer supermercado, como da neston e nutri. É um alimento energético, que pode ser usado como lanche, variando de 90 a 110 Kcal. É diferente da fruta no que se refere à quantidade de carboidratos, minerais e vitaminas. Os exemplos de frutas com casca e bagaço são: maçã com casca, pêra com casca, mamão com sementes (ajuda muito na prisão de ventre), laranja (com bagaço), mexerica (com bagaço), ameixa com casca. Com relação aos exercícios que faz é difícil avaliar, pois não é minha área, MAS O IMPORTANTE É QUE PRATIQUE EXERCÍCIO FÍSICO PELO MENOS 3 VEZES NA SEMANA, SE NÃO TIVER PROBLEMAS CARDÍACOS OU OUTRA RESTRIÇÃO, com intensidade boa. O profissional de educação física poderá auxiliá-lo sobre a freqüência cardíaca, que deve estar adequada para a perda de peso. Indico-lhe o exercício aeróbico, como caminhada, andar de bicicleta, natação, pelo menos 40 minutos diários, com a freqüência cardíaca normal. A aveia e a cevada podem ser usadas. No caso da aveia, o melhor é o farelo, porque tem mais fibras. Pode ser adicionada em bebidas lácteas ou frutas. Use cevada da mesma forma. A quantidade vai depender da dieta (as calorias destes alimentos devem ser computadas). De forma geral, uma vez por dia no desjejum é uma boa opção. A ingestão de fibras é muito bom no controle da glicemia. Contudo, o controle da glicose não depende só do consumo de fibras, mas de vários fatores: ingestão adequada de calorias, atividade física, fracionamento da dieta, alimentos ricos em fibras, retirada de açúcares simples da alimentação, baixo consumo de colesterol e gorduras, etc. Os alimentos ricos em fibras engordam, sim! O ÚNICO ALIMENTO QUE NÃO ENGORDA É A ÁGUA! Os alimentos ricos em fibra têm um índice glicêmico menor que os não integrais e ajudam no controle da glicose. Os alimentos integrais têm mais fibras, dão maior saciedade e diminuem a velocidade de absorção da glicose. OBSERVAÇÕES IMPORTANTES. José Carlos, ao avaliar de maneira geral sua alimentação diária, nota-se algumas coisas importantes. Está de parabéns por se preocupar com sua alimentação, pois o diabetes tipo 2 necessita de cuidados para não haver necessidade de usar insulina no futuro. O seu café da manhã pode ser melhorado com a introdução de um alimento protéico tipo leite desnatado, uma porção de carboidratos e fruta. No almoço, a qualidade dos alimentos está boa. Atenciosamente, VANESSA. E-mail: vanessa.menezes@terra.com.br 

50. José Carlos, sua faixa de peso deve variar entre 68 a 72 kg. As seis (6) refeições diárias são muito importantes, para perder peso, controlar sua glicemia (diabetes) e, também, manter o seu metabolismo corporal saudável. O alho e a berinjela são alimentos funcionais, pois além de fornecerem calorias e nutrientes como os demais, possuem princípios ativos que beneficiam a saúde. Só aconselho café descafeinado ou chás pobres ou ausentes em cafeína, como os de espinheira santa, camomila, de frutas (cítricas ou não) e de capim limão. A água e os chás estimulam o funcionamento dos rins, que são os filtros do nosso organismo. Use o sal “light”. Troque o óleo de soja por azeite de oliva extra-virgem. Alho, cebola, açafrão, tomilho, alecrim, manjericão e outros temperos e ervas naturais devem ser utilizados em bastante quantidade em nossa alimentação diária. Use arroz, macarrão e outros produtos integrais. Com relação ao consumo de carne, diversifique seu cardápio entre carne vermelha magra, peixes ou frutos do mar e frango sem pele. É verdade que a beterraba possui um tipo de açúcar, mas pode comê-la nas quantidades certas, 1 a 2 vezes por semana. Ingira água ou chás nos intervalos das refeições. Coma jaca, uva e abacate com moderação. As frutas são ricas em um açúcar chamado frutose, que é absorvido no sangue e se transforma em glicose, no fígado. Substitua o pão francês pelo integral. A margarina “light” da marca BECEL é a melhor de todas. Dê preferência aos biscoitos integrais, sem sal. Utilize o adoçante stevita, que não possui aspartame, sacarina e ciclamato. O telefone de contato do produtor é 031-44-224-4335 e o e-mail www.stevita.com.br Além de tomar água, meia hora antes dos exercícios, deve comer um lanche leve à base de carboidratos (pão ou bolacha integral, ou aveia com granola e similares) e de proteínas (queijos brancos, blaquetes de peru ou frango, iogurte natural desnatado). Pode consumir as barras de cereais, mas somente as dietéticas (sem açúcar). O grão-de-bico e a lentilha são leguminosas, parentes do feijão. Como são do mesmo grupo, deve comer uma apenas em cada refeição. As frutas que têm cascas e bagaços são: maçã, laranja, tangerina, uva e outras similares. A ingestão de alimentos ricos em fibras é fundamental para auxiliar o bom controle da taxa de glicose no sangue e, também, ajudam a regular a absorção e excreção de gorduras e colaboram para o bom funcionamento do intestino. Os alimentos integrais são mais saudáveis por conterem maior quantidade de nutrientes benéficos ao organismo. Contêm mais fibras, são mais nutritivos, acabam com a fome mais rápido e diminuem e velocidade de absorção da glicose no sangue. Substitua o pão comum (francês) pelo integral, pois este é mais rico em vitamina B e em germe de trigo, que possibilita o perfeito funcionamento dos intestinos. A SEVEN BOYS é uma das melhores marcas de pão integral. O telefone do fabricante é 0800-313288 e o site http://www.sevenboys.com.br/ O biscoito GRAN DIA, da Nestlé, é uma marca de biscoito “light” e integral muito boa. Não tome sopa de farelo de trigo (com água, leite desnatado ou na comida). Evite tomar líquido durante as refeições, pois dilata o estômago e diluem as enzimas digestivas. A melhor oleaginosa que existe é a castanha do Pará. GRUPO DAS VERDURAS. COMA PELO MENOS 2 TIPOS POR REFEIÇÃO, TODOS OS DIAS. Acelga, aipo, espinafre, repolho, pepino, agrião, brócolis, escarola, tomate, alface, chicória, rabanete, palmito, almeirão, couve, rúcula, endívia, aspargo, cebola, bertalha, salsão. GRUPO DOS LEGUMES. COMA SOMENTE 2 TIPOS POR REFEIÇÃO, TODOS OS DIAS. Abóbora, cenoura, nabo, vargem torta, abobrinha, chuchu, pimentão, berinjela, couve-flor, quiabo, beterraba, moranga, vagem. GRUPO DAS FRUTAS. Abacate, abacaxi, ameixa, bananas (branca, caturra e maçã), caju, caqui, figo, goiaba, kiwi, laranja-pêra, maçã, mamão, manga, maracujá, melancia, melão, morango, nectarina, pêra, pêssego, tangerina, uva. As principais causas do excesso de peso são: —Consumo alimentar excessivo. —Falta de atividade física regular (vida sedentária). —Tendência familiar. —Distúrbios psicológicos (ansiedade e depressão). —Hábitos alimentares errôneos. As doenças que estão freqüentemente associadas ao sobrepeso são :—Diabetes tipo II. —Hipertensão arterial. —Doenças cardiovasculares. —Aumento nos níveis sanguíneos de colesterol e de triglicerídeos. —Dificuldades respiratórias. —Cálculos vesiculares. —Problemas articulares e distúrbios intestinais. O tratamento dietoterápico é: —Faça 5 a 6 refeições por dia, com pequenos volumes, para diminuir o apetite, evitar o jejum prolongado e prevenir problemas como a má digestão e má absorção de nutrientes. —Mastigue bem os alimentos antes e ingeri-los, pois a digestão deles começa pela boca. —Não consuma líquidos durante as refeições, porque prejudicam a digestão (ingira-os somente 30 minutos antes ou após as refeições). A ingestão de líquidos junto com os alimentos causa a diluição do suco gástrico, dificulta a quebra dos nutrientes, atrapalha a absorção deles e propicia a formação de gases, causando a distensão do abdômen. —Evite comer duas fontes de amido (carboidrato) na mesma refeição, porque o corpo selecionará um para digerir enquanto o outro ficará esperando para ser digerido, o que provoca gases, fermenta e acidifica o estômago. Evite, também, a combinação de proteínas e gorduras na mesma refeição. A presença de gordura nos alimentos diminui a atividade glandular da secreção gástrica, baixa a quantidade de ácido clorídrico no suco gástrico, atrasando a digestão por tempo considerável. —A quantidade é um fator que intervém na digestão. Comer sem fome ou em excesso são fatores desequilibrantes na digestão, já que o corpo não assimila o que é ingerido em excesso. —Consuma bastante água ou chás sem açúcar (no mínimo, 2 litros diários), nos intervalos das refeições. Outras opções de líquidos de baixa caloria são a água de coco e sucos de fruta como o de limão, melão e maracujá com adoçantes e diluídos em água. —Aumente o consumo de saladas de folhas verdes nas refeições, antes do prato principal, para diminuir a saciedade. Use e abuse do consumo das saladas verdes. Tempere as saladas com azeites extra-virgem (de oliva, linhaça ou de gergelim), pois auxiliam na função intestinal, no combate ao colesterol, no processo de emagrecimento e na manutenção da saúde do seu organismo. Acrescente sementes de linhaça e de gergelim em suas saladas. Elas possuem óleos essenciais e fibras importantíssimas para a saúde de seu organismo. —Prefira os alimentos cozidos a vapor, grelhados ou assados, eliminando de sua dieta as frituras e os ensopados gordurosos. Prepare tudo com pouquíssimo azeite de oliva extra-virgem. Elimine os alimentos ricos em gorduras saturadas de sua dieta. —Dê preferência aos alimentos integrais, que são ricos em fibras e nutrientes indispensáveis à manutenção da boa saúde, ajudando na eliminação das gorduras pelo organismo, na regulação da sua função intestinal e no processo de emagrecimento. —Evite estes alimentos: doces em geral, chocolates, frituras, maionese, carnes gordas, refrigerantes, queijos gordos, sorvetes e outros. Lembre-se de que precisa fazer certas escolhas para melhorar sua saúde e qualidade de vida. —Evite o consumo de produtos enlatados e desidratados (industrializados) e controle a quantidade de sal na sua alimentação. Ambos possuem alto teor de sódio, podendo causar retenção de líquidos e celulite. Consuma alimentos ricos em potássio (ameixa seca, ervilha, banana, figo, lentilha, espinafre, laranja, tomate, arroz integral), que regulam a excreção de sódio e elimina seus excessos no organismo. —Se é viciado em café, tome cuidado. A cafeína aumenta a ansiedade e irrita o sistema nervoso, podendo fazê-lo extrapolar na dieta. Opte por uma xícara de chá de ervas, como cidreira, hortelã ou camomila. O chá preto contém grande quantidade de cafeína. —Use os produtos dietéticos com moderação. Leia os rótulos e verifique, principalmente, o valor calórico dos produtos. Nem sempre um produto dietético tem poucas calorias. —Saiba utilizar os produtos “lights” em sua dieta, prestando muita atenção nos rótulos e nas informações nutricionais. Há vários produtos que, apesar de “lights”, possuem calorias em excesso e açúcar. —Use sal com moderação, pois pode causar retenção líquida. Dê preferência aos temperos naturais como: cebolinha, salsa, sálvia, manjericão, manjerona, tomilho, orégano, que só devem ser acrescentados aos alimentos já preparados ou no final do cozimento. —O consumo regular de soja e seus derivados é importante para manutenção da saúde. Para cozinhar grãos de soja como se fossem feijão, deixe-os de molho por cinco minutos em água fervente. Depois lave-os em água fria e cozinhe-os com alho, louro e caldo de legumes. IMPORTANTÍSSIMO. —Não persiga metas impossíveis. Peso ideal é aquele que consegue atingir e manter de maneira saudável. O objetivo do seu tratamento é a mudança de hábitos alimentares, buscando mais saúde e qualidade de vida! Dicas importantes para evitar maiores perdas dos alimentos. —Quando for usar metade do abacate, deixe a outra com o caroço, para evitar que se deteriore com rapidez. —A abóbora é altamente nutritiva e deve ser aproveitada inteira: casca, folhas, polpa e o cabo. Seus caroços, quando torrados com sal, servem como aperitivo. Use o mesmo procedimento para a soja e as sementes do melão. —Cascas, talos e folhas das hortaliças são ricos em fibras e podem ser utilizados em refogados, sopas, bolinhos, recheios para tortas, farofa, etc. —Não adicione bicarbonato de sódio ou outras substâncias químicas na água do cozimento para acentuar sua cor. Alguns nutrientes são destruídos por elas. —Pó de Casca de Ovo. Separe a casca, ferva por cinco minutos e seque-a ao sol. Bata no liquidificador e depois passe por um pano fino. Deve ficar como pó. Utilize uma colherinha nos refogados, sopas, arroz, feijão e molhos. O pó de casca de ovo é riquíssimo em cálcio, nutriente importante para o crescimento e prevenção da osteoporose, na gravidez e amamentação. —Talos de Agrião. Faça bolinhos ou refogados com carne moída. —Casca da maçã. Utilize-a no preparo de sucos e chás. Um abraço. ROBERTA DA LUZ, NUTRICIONISTA, ESPECIALISTA EM ALIMENTOS FUNCIONAIS, e-mail: beta@costao.com.br

51. Salvador, 10 de maio de 2003. Prezado José Carlos. Terei o maior prazer em esclarecer suas dúvidas. Analisando, “superficialmente”, sua vida nutricional, está com um consumo relativamente bom dos nutrientes fundamentais para uma boa alimentação, além da prática regular de atividade física que, como sabe, é essencial. A avaliação nutricional depende de vários fatores, não apenas peso, altura e idade. Baseado, apenas, nas suas informações, pude calcular o seu IMC (índice de massa corporal), que corresponde ao seu peso dividido pela sua altura ao quadrado, obtendo o valor de 30,79Kg/m2. Com esse valor analisado isoladamente, seu diagnóstico nutricional é de obesidade grau II. Entretanto, não é um diagnóstico fiel, pois precisaria avaliar sua composição nutricional (percentuais de gordura corporal e de massa magra – músculo), através de um adipômetro ou por meio da bioimpedância, além da avaliação física e de resultados de exames laboratoriais (colesterol, triglicérides, hemograma, etc.). Como a “consulta” é virtual, não será possível realizar tais métodos. Portanto, esclarecerei suas dúvidas e darei algumas dicas que poderão ajudá-lo no controle da redução de seu peso, associada a uma boa qualidade de vida. Suas necessidades energéticas, baseadas em um peso teórico de 72 kg (calculado a partir do limite máximo de normalidade do IMC, que é de 24,9 Kg/m2), será de 1800 a 2200 Kcal. Sua taxa metabólica basal (o mínimo que seu organismo “precisa” para manter-se vivo), a TMB,  corresponde a 1459 Kcal (ou seja, essa é a quantidade energética mínima para que seu organismo mantenha suas funções vitais normais). Portanto, com esse valor calórico estipulado para você (1800 a 2200 Kcal), poderá consumir alimentos em quantidades suficientes e não sentirá fome, além de contribuir com perda de peso através da reeducação alimentar. Em relação ao fracionamento alimentar (5 a 6 refeições ao dia), é FUNDAMENTAL, sim. Quanto maior o fracionamento das refeições, menor será a quantidade de alimentos ingerida por horário. Além disso, nosso organismo precisa de energia (fornecida através dos alimentos), só que em quantidade suficiente para mantê-lo em atividade. Se consumir quantidades moderadas, várias vezes ao dia, o organismo absorverá apenas o necessário para repor a energia despendida (daí não haverá reservas e, conseqüentemente, ganho de peso). Consumindo apenas 3 refeições por dia, sentirá mais fome, ingerindo uma maior quantidade de alimentos, causando uma sobrecarga de substrato energético em um mesmo momento. Isso fará com que o organismo absorva o excesso, armazenando-o sob a forma de gordura (daí o ganho de peso, ao longo do tempo). Vale ressaltar que o estômago é um órgão elástico, que vai se distendendo a depender do volume presente em seu interior. Com o estômago maior, caberá mais alimentos – e o organismo “pedirá” sempre mais, para tornar-se saciado. Portanto, vale a pena iniciar a sua reeducação alimentar pelo fracionamento e “qualidade” da alimentação. A seguir, responderei às suas perguntas, com comentários. A substituição do café pelo chá verde (ou chá de ervas), é muito interessante. Poderá consumir o que mais lhe agradar: cidreira, erva-doce, capim-santo, camomila... Evite tomar os chás pretos e o mate, além do café (devido à presença da cafeína), pois causam ansiedade e insônia. Os chás têm efeito diurético e calmante. Em relação ao excesso de café contribuir com o aumento da pressão arterial, é verdade, devido à extrapolação do consumo da cafeína. Não vejo necessidade de eliminar a beterraba. Ela é uma boa fonte de vitaminas e minerais e poderá contribuir para a sua alimentação. Não há nenhuma restrição em relação aos vegetais (couve, repolho, quiabo...). O importante é consumir uma variedade de vegetais, em quantidades adequadas. Em relação à retirada do suco durante as refeições, foi uma boa opção por estar consumindo menos calorias (deixe-o para os lanches). O ideal será o consumo da água pelo menos 30 minutos após as refeições (para evitar a distensão abdominal, além do prejuízo à digestão). IMPORTANTE: aumentar o fracionamento e reduzir o volume das refeições – é uma regrinha básica para a reeducação alimentar. Portanto, deixe de se alimentar em pratos fundos, coma devagar, mastigando bem os alimentos. Inicie sua refeição principal (almoço) sempre com um prato de salada, de preferência crua (alface, acelga, couve, tomate, pepino, cebola...), que o ajudará na saciedade, além de contribuir para o bom funcionamento do processo digestivo. O consumo do alho com berinjela pode ser mantido. São dois alimentos saudáveis, que poderão trazer benefícios para o seu organismo. Todas as frutas realmente têm frutose, que, no entanto, produz um menor aumento pós-prandial (após a alimentação) da glicose plasmática que os demais carboidratos (glicose, sacarose...). Portanto, poderá consumi-las, variando os tipos (as frutas possuem índices glicêmicos variados), desde que ingeridas nos horários certos e moderadamente (nunca em excesso, pois mesmo em se tratando de alimento saudável, todo excesso irá prejudicar no seu tratamento).  Prefira as frutas menos calóricas. Poderá consumir melancia, lima, laranja, tangerina, melão, carambola, acerola, pitanga, morango, sempre uma unidade por vez: 1 laranja ou 1 tangerina, ou 1 fatia de melancia, ou 2 carambolas, ou 10 morangos, ou 10 pitangas. À noite, nosso metabolismo está reduzido (pois “paramos” nossas atividades), portanto devemos consumir refeições mais leves, levando sempre em consideração o VOLUME. O ideal será beber apenas 1 copo de leite (e não 2, como vem consumindo), evitando a concentração de alimentos em um único horário. Isso também serve para o consumo do pão: apenas 1 (ótima escolha os integrais). Utilize o queijo branco (queijo minas “light”) ou a ricota. E poderá ainda substituir o pão por inhame, aipim ou batata doce, ou cuzcuz... As margarinas “light” (Becel e Mila são as melhores) devem ser preferidas às manteigas, pois são boas fontes de gorduras insaturadas, benéficas à saúde, além de não conterem colesterol. O COLESTEROL ESTÁ PRESENTE APENAS NAS GORDURAS ANIMAIS. Os biscoitos de água e sal poderão ser substituídos por biscoitos integrais, caseiros (à venda em lojas de produtos naturais). Na ceia deverá consumir apenas 1 fruta, ou 1 copo de iogurte “light”, ou 1 copo de leite desnatado, ou 1 copo de suco sem açúcar. O melhor adoçante que tem no mercado atualmente é o “Stevita”, à base de stévia, que é 100% natural, porque isento de aspartame, ciclamato, sacarina. É encontrado nos supermercados. Se sentir vontade de comer algum doce, opte por uma fruta. A prática regular de atividade física é FUNDAMENTAL para o bom funcionamento do organismo, associado a uma melhor qualidade de vida. O importante é manter o hábito de exercitar-se REGULARMENTE, pelo menos 40 minutos no MÍNIMO 3 vezes por semana. Como quer perder peso, aconselho-o a exercitar-se diariamente, pelo menos durante 30 minutos constantes. As barras de cereal são “concentrados” de cereais com outros nutrientes. São saudáveis, por conterem ingredientes integrais, mas têm calorias (habitue-se a ler os rótulos dos alimentos, atentando-se sempre para os carboidratos – se têm sacarose  e aos lipídeos – se têm muita gordura, teor de saturados, etc.). Poderá consumir as barrinhas “diets”  e “lights” (sempre as que forem ISENTAS de chocolate na composição – menos calorias). Será uma boa opção para os lanches da manhã e da tarde. São práticas e fáceis de carregar. As lentilhas e o grão-de-bico são do grupo das leguminosas, ricos em nutrientes saudáveis (vitaminas e minerais). A lentilha pode ser utilizada em sopas, cremes, ou misturada ao arroz (lentilha com arroz fica ótima e é bastante nutritiva. Substitui o feijão). O grão-de-bico é muito utilizado em saladas, cozido normalmente e consumido como preferir. As cascas dos alimentos são ricas em nutrientes. Daí a importância de consumi-las, sempre que possível (casca da maçã, casca da cenoura, casca da uva, casca da goiaba...). A laranja, tangerina, lima, contêm “bagaço”, que deverá ser consumido, pois são boas fontes de fibras, importante na regularização do trânsito intestinal e também auxiliam no controle do colesterol sérico, além de manter os níveis glicêmicos normais. A aveia e a cevada também são fontes importantes de fibras, principalmente as fibras solúveis, que contribuirão para o controle da taxa glicêmica do sangue. Os ALIMENTOS INTEGRAIS são fontes importantes de vitaminas e minerais, além de conterem fibras que aumentam a saciedade, fazendo com que tenhamos a sensação de plenitude por um tempo maior, além disso este tipo de carboidrato tem menor influência no aumento do índice glicêmico, o que se torna ideal para o diabético. Em relação ao local de aquisição de produtos integrais, em Salvador são encontrados facilmente em todos os supermercados e em lojas de produtos naturais. Uma marca muito conhecida e fácil de ser achada é a “Mãe Terra”, que tem a linha completa de integrais: arroz, macarrão, semente de linhaça, trigo, aveia, cevada, pão... Os produtos integrais geralmente são bem mais escuros que os convencionais, por não passarem por processos químicos, além de terem uma consistência mais “durinha”, mesmo após preparados. Os pães integrais caseiros são os melhores (contêm 100% de trigo integral). São firmes (mais durinhos que os normais) e pesados. A marca “Plus Vita”  também fabrica pão integral. Não conheço o mercado de Ipiaú no ramo dos produtos naturais. Poderá sugerir aos principais supermercados a aquisição deles (em Itabuna e Jequié talvez encontre com mais facilidade). O farelo de trigo (esse é o nome correto do cereal) é rico em fibras e possui todos os benefícios mencionados anteriormente. A grande vantagem do consumo do “farelo de trigo” para quem está fazendo restrição alimentar (dieta), é que ele dará uma maior saciedade e, com isso, irá consumir uma menor quantidade de alimentos. Consuma 1 a 2 colheres de sopa, diariamente, antes do almoço ou do jantar. Espero, de alguma forma, ter contribuído para essa nova etapa de sua vida, a da reeducação alimentar. Através dessas orientações, tem tudo para alcançar seus objetivos. Lembre-se sempre: a qualidade de vida depende de uma alimentação saudável, além da prática regular de atividade física. Estou à sua disposição para maiores esclarecimentos. Atenciosamente, Renata Alves Gonçalves Felice, Nutricionista CRN 1428, renatafelice@hotmail.com

52. Prezado José Carlos, seguem-lhe as respostas para suas indagações. Caso permaneça com alguma dúvida, entre em contato comigo. Atenciosamente, Elaine Martins Pasquim, Nutricionista/Sanitarista, CGPAN/MS, elaine.pasquim@saude.gov.br Telefone: 031-61-448-8282, Tatiana Lotfi de Sampaio. Não havia visto as perguntas finais, pois quando as imprimi não saíram. Segue-lhe a complementação. Os doces, refrigerantes, sorvetes, sem açúcar, pode consumi-los. Como faz muita atividade física, tem que ter cuidado, pois a taxa de glicose pode abaixar rapidamente. É preciso comer algo com amido (arroz, pão, bolacha de água) antes. Se demorar muito  a atividade física, coma uma fruta durante. Ao final, uma fruta também, pois mesmo quando paramos de nos exercitar o corpo continua por um tempo em atividade mais acelerada, por isso ficamos com calor, por exemplo. A aveia e a cevada têm fibras, e, como lhe disse, todos os alimentos que possuem fibras são bons, pois ajudam a diminuir a glicose, dão sensação de saciedade, ajudam o intestino a funcionar melhor. Os alimentos integrais - possuem seus nutrientes originais - como fibras, vitaminas e minerais, são mais nutritivos. Entendo sua indignação em não conseguir as repostas para suas dúvidas. No entanto, e infelizmente, somente serão sanadas por completo com uma consulta pessoal com um(a) nutricionista. Portanto, existem, sim, muitos profissionais competentes, porém sem uma consulta pessoal se torna impossível que não permaneça com dúvidas. Nesse sentido, tentarei amenizar seus questionamentos e lhe darei o contato do Conselho Regional de Nutricionista da Bahia, além de encaminhar-lhes seu e-mail, a fim de que lhe indiquem aonde poderá encontrar um profissional de modo mais fácil. Como não fazemos consulta por e-mail, justamente pelos problemas já identificados por você,  não lhe cobrarei por isso. Diabetes tipo 2 é uma doença causada essencialmente pelo estilo de vida inadequado. Se não receber o cuidado adequado pode precisar de insulina tal qual o diabetes tipo 1. O diabetes é uma doença que altera a maneira como o corpo usa o açúcar. A glicose é um açúcar que circula no sangue para levar energia ao corpo, para isso precisa da insulina, um hormônio que ajuda a glicose a entrar nas células. A doença está associada ao aparecimento de doenças cardiovasculares. CAUSAS PRINCIPAIS. É uma doença hereditária, ou seja, com antecedentes na família. Está associada com o tipo de alimentação, com a obesidade, a falta de exercícios e a idade. A necessidade das 6 refeições é essencial para todos, mas principalmente para o portador de diabetes. Nosso corpo precisa de energia mesmo quando estamos dormindo. Ao dormir, a respiração não pára, o coração continua batendo, o cérebro funcionando, os rins filtram o sangue. Na presença de alguma doença as células de defesa se multiplicam e defendem o corpo mesmo quando estamos dormindo. Portanto, para pessoas que não têm uma atividade pesada durante o dia, na maioria das vezes essas atividades básicas para a sobrevivência gastam muito mais energia do que se somar a energia gasta para andar, trabalhar, vestir-se, escovar os dentes... O diabético tem dificuldade em gerar essa energia. A energia vem normalmente pelo amido de pães, massas, arroz, macarrão, açúcar complexo, ou pelo açúcar simples. Quando falta energia o corpo começa a quebrar o músculo (proteína) para fornecer energia (e não a gordura, como muita gente pensa). Como o diabético já tem dificuldade em conseguir esse açúcar, acaba usando a proteína. Só que isso causa uma série de problemas, pois a proteína está presente no rim, no coração, no cérebro, etc, já que esses órgãos são feitos de músculo, e isso leva a um mau funcionamento deles (como ocorre com a desnutrição). Por quê das 6 refeições? Porque como o corpo tem dificuldade em absorver o nutriente dos alimentos, é preciso que o ajude, dando alimento em pequenas quantidades, várias vezes ao dia. Assim, ele sempre terá energia quando precisar, mesmo quando for dormir (pois estará fornecendo energia vinda da ceia, ou lanche da noite). Pelo Índice de Massa Corpórea, que pode calcular, como lhe mostrarei a seguir, encontra-se com um índice de 30,79 kg/m2. Isso significa que está no limite entre sobrepeso e obesidade. Para que fique no IMC de 25 (normal), deveria ficar com 72 kg, o excesso perdido de forma lenta e gradual, pois a perda de peso rápida faz com que haja esse mesmo gasto de músculos (proteína) acima. Daí a necessidade fundamental de um nutricionista acompanhá-lo por um período maior, pois é este profissional que saberá qual a quantidade de calorias deverá comer durante o dia e de que forma estará distribuída. O diabetes pode ser controlado somente com mudança no estilo de vida, especialmente alimentação e atividade física. No entanto, pode ser necessário uso de medicamentos. Uma dieta personalizada deve ser feita pelo nutricionista e a prescrição dos medicamentos pelo médico responsável. O alho é bom para reduzir o colesterol e para controlar infecções. Os efeitos da berinjela não estão comprovados. Mas ela possui muitas fibras assim como as outras verduras, que ajudam a controlar o diabetes. Isso porque as fibras ajudam a eliminar o açúcar do corpo. Qualquer coisa em excesso faz mal. Por que está bebendo chá tão cedo em jejum e várias vezes ao dia? Alguma recomendação? POR FAVOR, NÃO FAÇA ISSO. É muito perigoso, especialmente para o diabético. Lembre-se do que escrevi acima: o jejum prolongado é ruim, pois o corpo vai continuar precisando de energia e você não a estará fornecendo. Então ele vai arranjar energia de algum lugar, ou seja, do músculo. O adoçante stevia é bom porque não deixa gosto amargo, adoça bem mais que o açúcar normal, não tem calorias, só que o preço é maior que de outros. No entanto, como o efeito a longo prazo de nenhum adoçante está comprovado, recomenda-se a troca deles freqüentemente. Alguns chás têm efeitos terapêuticos, mas o melhor para eliminar o açúcar da urina são as fibras das verduras e das frutas, alimentos integrais e bastante água. O chá preto e o mate, assim como a coca-cola, o café, e os alimentos que possuem cafeína realmente estimulam – daí as  pessoas tomarem café para ficarem acordadas. Por que nunca come macarrão com arroz? Alguma coisa que leu em algum lugar? Não é problema comer os dois juntos e sim a quantidade de amido (arroz ou macarrão ou farinha ou  batata, etc) que está comendo. Como lhe disse, tudo em excesso faz mal. Todo óleo vegetal é bom para reduzir o colesterol, desde que seja cru. Seja de soja, de oliva, de canela, de girassol, de algodão, etc. Portanto, quando se frita ou cozinha, por exemplo, bifes, batatas, legumes, qualquer óleo se torna ruim, e, ao contrário, ajuda a aumentar o colesterol. Pode, sim, comer feijão com grão-de-bico misturados. O ideal é comer somente uma porção de carne por refeição e não duas como escreveu, mas isso quem tem que saber é a nutricionista que avaliará quanto de proteína precisa por dia. Em relação ao churrasco, tome cuidado, pois se formar aquela crosta preta é algo ruim que se consumido por muito tempo está relacionado ao surgimento de câncer. Quanto às verduras, quanto mais melhor. Pode temperá-las com limão, alho, cebola, ervas (orégano, salsa, etc.) para dar mais sabor. Quanto à quantidade, deve ser menor, mas mais vezes ao dia (lembra das 6 refeições – não precisa passar fome e sim dividir melhor). Sites sugeridos e confiáveis: www.anvisa.gov.br  www.abeso.org.br www.saude.gov.br/alimentacao www.who.int www.eatright.org http://www.navigator.tufts.edu/ (este site analisa as homepages da Internet com informação de nutrição e os classifica se são bons, ruins, mais ou menos) www.usda.gov  As frutas também têm açúcar (chamado frutose) e em excesso também fazem mal, por isso mais uma vez repito-lhe que é importante comer em pequenas quantidades várias vezes ao dia. No entanto, o açúcar da fruta é diferente do açúcar normal, pois demora um pouco mais para ser absorvido, e vem com vitaminas, minerais e fibra que, como falei antes, ajuda a reduzir a absorção do açúcar. Não precisa se preocupar tanto quais frutas deve comer. Lembre-se: Não precisa retirar nada da alimentação, apenas comer em pequenas quantidades com moderação. E isso é para todos os alimentos. O leite desnatado de qualquer marca é bom, desde que tenha boa procedência. O melhor é comprar o tipo A, que não possui bactérias, pois é esterilizado. Os tipos B e C possuem certa quantidade de bactérias e são mais utilizados pela indústria e não pelo consumidor. Em relação à restrição do presunto de peru ou do pão francês, não é preciso restringir nada, pois é preciso ter prazer em comer. Deu vontade, não tem problema comer, é só se alimentar com moderação (para tudo). Sobre o biscoito de água, também não tem uma marca preferencial. Mas é bom saber que 3 biscoitos é o mesmo que comer 1 pão. Qual prefere? Acredito que o pão dê maior saciedade que as 3 bolachinhas e seja mais prazeroso. Margarinas: realmente não precisa se preocupar tanto com a marca, só com a questão da boa procedência. Os produtos químicos – conservantes, aditivos – estão em vários produtos. O ideal realmente seria não consumi-los e somente comprar produtos orgânicos, mas estes são mais caros e se esses aditivos não estivessem acrescentados nos alimentos, todos os produtos que estão no supermercado estragariam, pois são eles que ajudam a preservar, por exemplo, o que chamamos de vida de prateleira. Barra de cereal: Nutri, por exemplo, ou outros podem ter açúcar, aí terá que procurar por produtos “DIET”. Lembre-se de que “DIET” é quando se tira totalmente UM nutriente do alimento (pode ser açúcar, gordura, sal). Por isso tem que conferir no rótulo se foi o açúcar mesmo que foi tirado. Só para completar, o “LIGHT” é aquele em que UM nutriente foi reduzido (pode ser o açúcar, a gordura, ou sal, etc). A fruta tem açúcar simples, portanto, talvez seja melhor comer algo com amido como um pão ou bolacha de sal antes de dormir. O açúcar simples é rapidamente absorvido, acabando com o fornecimento de energia em poucos instantes, e, como falei acima, mesmo dormindo o corpo precisa de energia. A laranja tem bagaço, a maçã tem casca, a goiaba tem casca, etc. Não busque informações na Internet, a não ser nos sites de boa qualidade. Não precisa retirar nada da sua alimentação. A moderação e a pequena quantidade é que devem ser levadas em conta. Se comer feijoada uma vez por semana, sem exagero, sem encher o prato, não faz mal. Comer uma fatia de carne de porco de vez em quando, desde que não seja frita, ou beber um copo de cerveja no fim de semana, não mata ninguém! O melhor, no entanto, é não beber nunca. Abaixo, como lhe prometi, o contato do Conselho Regional de Nutricionista da Bahia. CRN - 5ª REGIÃO, PRESIDENTE: ELIANA DE CARVALHO GOMES. ESTADOS: Sergipe e Bahia. CONTATO: AV. 7 de Setembro, 174, Edifício Santa Rita, Sala 701, 40.060-000/Salvador, BA. Telefone: 031-71-322-8037. E-MAIL: crncinco@atarde.com.br Gostaria de lhe dar uma dica, independente do profissional, pago ou não pelo serviço: acho que a graciosidade como se referiu continua sendo importante.

53. Prezado José Carlos, recebi seu e-mail e vou contribuir para o esclarecimento de suas dúvidas. Estarei respondendo suas questões. Se lhe for possível, gostaria que após o recebimento me enviasse alguns dados que se fazem importantes para entender um pouco mais de quais restrições necessita. Tentarei ser bem objetiva, mas, às vezes, onde menos se espera podem haver pontos a serem esclarecidos. Avaliando os dados de peso, altura e idade, realmente está acima de seu peso em 19 kg, como informado. Quando se calcula o seu índice de massa corpórea = IMC, este está acima do recomendado pelo órgão que institui valores de referência: Organização Mundial de Saúde. O seu índice atual é 32, indicador da obesidade de grau 1. Deveria ter o IMC igual a 24, com peso ideal em torno de 70-72 Kg. No entanto, relata que pratica atividade física várias vezes por semana. É necessária uma avaliação mais completa para saber o que realmente precisaria ser perdido em relação à gordura, pois existe também massa muscular que não gostaria de eliminar. Concordo quando diz que não quer passar fome e que o seu cardápio ajusta-se ao seu limite. Como nutricionista, não costumo proibir o consumo de alimentos (exceto em situações específicas) e aqui em nosso Hospital respeitamos o hábito alimentar do paciente, aspectos culturais e psicológicos, sempre de forma individualizada. No entanto, critérios como número de refeições ao dia, combinação de ingredientes e restrições alimentares são inseridas de forma a tornar a alimentação mais equilibrada e saudável em casos como do portador de diabetes. O fracionamento das refeições é muito importante para a perda de peso, mas caso não consiga realizar 6 refeições, faça 5. Mas para que serve o fracionamento? Durante o dia, quanto mais refeições fizer, maior será a sensação de saciedade. Não adianta comer 5 vezes ao dia em grande quantidade. As porções têm que ser o suficiente para deixá-lo satisfeito. Concordo que é uma mudança de hábito alimentar, mas é necessária, e com o passar do tempo irá se acostumar e mesmo se esquecer de comer... Claro que, eventualmente, durante sua rotina de trabalho, haverá dias em que não conseguirá comer no horário determinado. Todavia, tão logo tenha oportunidade, faça sua refeição e lembre-se de que as refeições principais como café da manhã, almoço e jantar têm de ser respeitadas nos horários definidos. Alho e berinjela possuem propriedades medicinais, mas com qual finalidade toma essa mistura com suco de limão? Se formos avaliar, uma infinidade de alimentos possuem propriedades medicinais: gengibre, tomate, cebola, soja, etc e cada um deles possui um estudo direcionado para alguma patologia. A mistura relatada, segundo alguns estudos, está ligada à diminuição de colesterol e triglicérides. Os estudos indicam a diminuição dos níveis sanguíneos de colesterol e triglicérides, mas não são conclusivos nem reconhecidos pelo Conselho de Medicina e Nutrição, portanto não provado cientificamente. Estaria realizando, também, uma dieta pobre em gorduras? Se afirmativo (devido a problemas constatados laboratorialmente), é valido o consumo, pois alguns estudos INDICAM a redução de gorduras no sangue, mas isso não o isenta de uma dieta! Sobre o consumo de chás, tudo o que é ingerido em excesso faz mal. Mas o que poderia causar o consumo excessivo de chás? Nas ervas utilizadas para infusão de chá, há dois componentes chamados taninos e fitatos que podem causar irritabilidade da mucosa do estômago. Os chás possuem menores quantidades desses componentes e segundo a quantidade indicada no seu consumo não há problema. Sobre o adoçante, o único natural é o stévia, os demais são à base de aspartame (artificial), portanto se quer uma alimentação mais saudável o stévia é indicado. Mas por que o stévia é o mais recomendado? Justamente por ser extraído da folha de stévia, que possui esteviosídio, a substância que promove o poder de adocicar. Quais chás poderia indicar-lhe? Todos, desde que consumidos com moderação. No seu caso, adoçados com adoçantes, porque o consumo de sacarose (açúcar) está proibido. Os fabricantes de chás mais conceituados do mercado são Leão e Vemat. No entanto, estas marcas mudam de região para região e  podem ou não ser encontradas. Os chás não são os principais ajudantes do rim. O que propicia o bom funcionamento deste é a água, que por sua vez é utilizada para a infusão de chá. Quanto a eliminar o açúcar na urina a informação não procede, pois uma vez diabético e não controlado sempre haverá um excesso de açúcar na urina: glicosúria. Se tiver um diabetes controlado, não haverá açúcar na sua urina. Evite os chás que contêm cafeína, como o preto e o mate, pois estimulam o sistema nervoso central e o deixam mais ansioso. Chá verde também possui cafeína, portanto não o tome em excesso. Avaliando suas dúvidas em relação ao almoço, observo que talvez desconheça a composição dos nutrientes, pois mistura os mesmos nutrientes. Há vários grupos de alimentos: proteínas (alimentos de origem animal: carnes, leite, queijos); carboidratos (pães, massas, batata, cará, arroz, inhame, farinhas, etc.); gorduras (óleos), leguminosas (grãos, como lentilha, feijão, grão-de-bico); verduras e legumes (alface, repolho, agrião, rúcula, espinafre, cenoura, beterraba, berinjela, pepino, tomate) e todas as frutas. Quando se está fazendo uma alimentação equilibrada, consome-se 1 alimento de cada grupo. Exemplo: arroz, feijão, frango, cenoura cozida, repolho refogado, salada e fruta. Quando se fala de verduras cruas usadas nas saladas, pode-se utilizar mais do que uma pois possuem baixo valor calórico e fibras. Quando pergunta se pode comer arroz e macarrão integral com lentilha a resposta é não. Arroz e macarrão são do mesmo grupo de alimentos (carboidratos) e, portanto, não devem ser consumidos juntos pelo paciente diabético, pois deve controlar os carboidratos. O fato de ser integral não permite que consuma os dois. As marcas mais conhecidas dependem igualmente da região. Sobre os óleos, indico-lhe os de origem vegetal, ou seja: soja, canola, girassol, etc. Todos são isentos de colesterol. Azeites extra-virgem e óleos crus podem, igualmente, ser utilizados, mas os azeites custam mais caro. A afirmação de que óleos reaquecidos aumentam os radicais livres e faz mal ao coração é verdadeira, mas isso só ocorre quando o óleo é reutilizado várias vezes. Quando são reaquecidos várias vezes, a altas temperaturas, podem favorecer o aparecimento de substâncias que são prejudiciais à saúde. Sobre feijão e grão-de-bico, pertencem ao mesmo grupo de alimentos e, portanto, deve-se evitar consumi-los juntos. Os peixes podem ser consumidos, sem problemas, desde que grelhados ou assados. O quibe e o espetinho de frango, se assados, tudo bem; deve-se evitar comê-los fritos. É bom variar, durante a semana, a saber: bife acebolado, frango assado, peixe assado, peito de frango grelhado, etc. Quanto às verduras, devem ser consumidas cortadas em pedaços bem pequenos, a não ser que haja algum problema de mastigação ou deglutição. Evite beber água ou sucos durante as refeições, por causa das enzimas digestivas e da dilatação do estômago. O consumo de suco de frutas é indicado após as refeições para beneficiar o aproveitamento melhor de algumas vitaminas e minerais como o ferro. Não há necessidade de se adicionar adoçante no suco, porque a fruta já é doce.    Os sorvetes “lights” são mais doces do que o normal porque o poder de adoçar do adoçante aspartame é 4 vezes maior do que a sacarose (açúcar comum). O consumo de produtos “lights” deve  ter uma atenção especial. Nunca se pode pensar que consumir somente produtos “lights” não engorda. Os produtos “diets” não possuem açúcar e são mais indicados para diabéticos. A variedade do cardápio é o segredo da dieta. Evita a monotonia e é essencial para não enjoar. O açúcar das frutas chama-se FRUTOSE, um açúcar diferente da sacarose (açúcar refinado). As frutas devem ser consumidas por quem tem diabetes com moderação, mas sua frutose não é prejudicial. Pode consumir de 2 a 4 unidades por dia (preferencialmente como lanche e após as refeições). As que possuem mais frutose são: uva, caqui, manga, jaca. O leite desnatado, se for pasteurizado, nada contra. Leites como parmalat possuem boa credibilidade. Chocolate “diet”, café, podem ser acrescidos ao leite com a utilização de adoçante. Não vejo problemas em relação ao consumo de pão francês, mas o integral é melhor, pois possui fibras. Mesmo assim deve ser consumido com moderação. Não há restrição quanto ao consumo de queijo tipo minas, ricota e cottage, já que possuem pouca gordura e pouco açúcar. O peito de peru está aprovado! Mas, que tal variar: torradas com geléia “diet” e bolacha de água com ricota? Não há restrição para o consumo de bolacha de água. Margarinas Becel e Mila estão indicadas. Consuma produtos orgânicos (sem agrotóxicos). A variedade é importante e pode-se substituir a fruta por uma barra de cereais “diet”, que nada mais é do que granola prensada. Comercialmente, recebem o nome de NUTRY. Frutas que têm cascas e bagaço: laranja, tangerina, mexerica, carambola. Sobre a cervejinha, se fosse você tomaria umas duas (sem álcool), afinal de contas do que vale a vida? Entenda: trata-se de moderação, sensatez e consciência de que obtendo uma alimentação equilibrada pode-se desfrutar de tudo. A proibição do consumo de bebidas só pelo diabetes não se justifica, mas não se deve abusar. Sabia que alguns médicos indicam o consumo de vinho para pacientes cardíacos? Não sofra com a dieta. Se faz controle de colesterol e gorduras, evite a carne de porco, que não é muito boa. Se fosse meu paciente, liberaria você para comer uma copa de lombo grelhada uma vez ao mês. Feijoada? Depende de como é preparada e da quantidade de gordura. A proibição do açúcar, no seu caso, é uma realidade. O uso de adoçante é obrigatório. Bolo, refrigerante, café, sorvete, tudo “diet”, podem ser consumidos, com moderação. A atividade física é muito importante. O acompanhamento de um profissional de educação física para monitorar os batimentos cardíacos e orientá-lo da freqüência cardíaca máxima e mínima é recomendado. Cevada e aveia podem ser consumidas entre duas a três colheres de sopa por dia. Quando se utiliza fibras como estas na alimentação deve-se ingerir no mínimo 2 litros de água por dia. Toda fibra precisa de água para contribuir com a massa fecal, ou seja, fibras mais água ajudam no funcionamento normal do intestino. Quanto à afirmação das fibras ajudarem na redução da taxa de açúcar sanguínea é verdadeira, além de promover o bom funcionamento do intestino. Mas não se engane, ter fibras não significa que possuem menos calorias e, portanto, podem engordar da mesma forma. Uma alimentação equilibrada inclui na dieta alimentos com diferentes nutrientes. Quanto mais colorida for sua refeição, maior quantidade de vitaminas contém. Sua dieta é monótona, restritiva demais para um diabetes tipo 2, pobre em frutas e com horários muito espaçados. Espero tê-lo ajudado e respondido a algumas de suas perguntas que outros profissionais não puderam. Fico contente. Com relação à cobrança, é meu dever como profissional da saúde prestar orientação quando solicitada. Atenciosamente, Marisa Fernandez Meizoso, Nutricionsita, Supervisora do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Santa Cruz, snd@hospitalsantacruz.com.br

CAPÍTULO II.

TEXTOS de 29 programas do Globo-Repórter, da Rede Globo de Televisão, pesquisados no site http://redeglobo.globo.com/globoreporter/ com reportagens nas áreas de nutrição e saúde. Uma linguagem simples, objetiva, direta e com poucos termos técnicos. São textos belíssimos e muitos se constituem em autênticas lições de vida.

GLOBO-REPÓRTER: COMO ENVELHECER BEM—13 DE OUTUBRO DE 2000.

LONGA VIDA.

Começamos a envelhecer no final da adolescência e nessa fase a maioria das pessoas comete erros. Mas a corrida da vida é longa e, com alguma disciplina, podemos virar o jogo, arrancar para a vitória e chegar longe. Desculpas para continuar parado no lugar existem várias. Pode dizer, por exemplo, que não tem tempo para nada. O oftalmologista carioca André Cechinel também não: "Já fui para a clínica, atendi os pacientes de rotina e, agora à tarde, vou fazer 11 0cirurgias". Os filhos exigem muito, dão trabalho? A filha dele também: "Tenho uma filha de quatro anos que procuro acompanhar o máximo possível. Vejo-a quase todos os dias, levo-a para nadar duas vezes por semana e duas vezes busco-a no colégio". Mesmo com a vida agitada, consegue uma brecha quase diária para os exercícios: "Às vezes tenho que usar horários alternativos. Chego na academia às 21h30min, às vezes vou aos domingos, porque sinto que para mim é extremamente importante". André largou bem. Desde moleque faz exercícios, nunca fumou e bebe pouco. A partir dos 40, redobrou os cuidados: mais exercícios e alimentação balanceada. "Não precisa enfartar aos 40 anos para mudar radicalmente de vida. Se tomar cuidados básicos necessários, diminui muito a possibilidade de isso acontecer". Como se não bastasse ser um modelo de corredor rumo à velhice bem sucedida, André tem nas mãos o que os médicos consideram um elixir da juventude: um “hobby” que lhe enche de prazer. Tocar piano é terapia: "A música me leva para os melhores lugares do mundo". Com essa disciplina, André tem chances de ser um centenário. Não é preciso ser um super-homem para viver tanto. Aliás, nem existe um super-homem geneticamente perfeito. Mas já se sabe que, se a natureza não caprichou, a gente pode dar um jeitinho. Ou não, depende de cada um. "Descobrimos que existem genes bons e ruins e podemos driblá-los. Conhecemos pessoas que são filhos e netos de centenários e enfartaram porque fumam, são sedentários, emocionalmente estressados, têm uma percepção ruim da vida e uma baixa intelectualidade", diz a biogerontóloga Ivana Cruz. Ivana estuda o envelhecimento no Instituto de Geriatria da PUC de Porto Alegre. Tem um olho na genética e outro no estilo de vida. Comparando idosos muito diferentes, vai reforçando outros estudos de diversos países: "Só 25% do processo de envelhecimento depende da nossa herança genética e 75% de como levamos a vida".

RECEITA DA ALEGRIA.

Uma mulher vive no Rio Grande Sul, em um clima frio, quase europeu. Outra mora na Bahia, terra de sol e calor o ano inteiro. Uma se alimenta seguindo a mistura de receitas dos imigrantes italianos, portugueses e alemães. A outra herdou o paladar dos índios e africanos, gosta dos produtos da terra. Uma é católica praticante, ajuda a comunidade e adora ler. A outra é devota de São José, reza duas vezes ao dia e tem paixão pelos pontos do crochê. Mas, afinal, o que faz mulheres tão diferentes como a gaúcha Guilhermina e a baiana Carmen passarem dos 80 anos, tão cheias de vida? "É saber levar a vida, não beber, não fumar, não perder muitas noites, saber se alimentar", opina Carmen. "Levo a vida tranqüila, não tenho ódio nem raiva de ninguém, gosto de fazer amigos, aqui na rua não tem ninguém que não sabe quem é Guilhermina", conta a gaúcha. Entrando um pouco na vida de cada uma, aprendemos que não é tão complicado envelhecer bem. O segredo parece estar na maneira como elas vão saboreando cada tarefa, alimentando bem o corpo e o espírito. "Adoro ler. À noite, quando não vejo TV, leio e escrevo. Gosto de amor e aventura", diz dona Guilhermina. "Gosto do crochê. Fico com o pensamento longe, não penso no que não presta", explica dona Carmen. Elas também preparam a própria comida do jeitinho que gostam e estão sempre em movimento. Caminham por Gravataí, pelas ruas de Salvador. Aos 82, dona Guilhermina descobriu o teatro. Dona Carmen nunca deixou de freqüentar a igreja. Essas duas senhoras fazem parte de um grupo maior que está sendo estudado pela Escola Baiana de Medicina e pela PUC de Porto Alegre. O resultado vai beneficiar os idosos de amanhã.

ALIMENTOS SAUDÁVEIS.

A ação do tempo sobre o nosso corpo é semelhante ao que acontece com o metal exposto ao ar, à chuva, ao desgaste do uso. A ferrugem é resultado visível desse processo. No nosso corpo, o nome é oxidação. Invisível aos olhos, ela comanda o envelhecimento. A oxidação age fazendo verdadeiros furos na membrana das células, exatamente como a ferrugem é capaz de esburacar ou transformar em pó um objeto de ferro. Podemos enferrujar muito e rápido ou menos e mais devagar, dependendo dos nossos hábitos. O cigarro, o excesso de gordura e o estresse aceleram o processo de oxidação. Mas a proteção é coisa simples e está ao alcance das mãos. Os grandes aliados nessa batalha contra a oxidação são os alimentos naturais: quanto maior e mais variado o consumo de frutas, verduras, legumes e carnes, melhor. Alguns alimentos têm muito poder de fogo. "Agem fazendo a proteção celular. São grandes combatentes da formação de radicais livres, que são os destruidores da nossa membrana celular, e agem fazendo exatamente a proteção dessa membrana", explica a nutricionista Míriam Naja. Algumas vitaminas encontradas nos alimentos naturais lideram esse exército do bem. A vitamina C pode ser encontrada na laranja, na manga, na goiaba, na acerola e no caju. A vitamina E está presente nos óleos vegetais e no mais saudável deles, o azeite de oliva. A vitamina A está nas folhas de verde escuro, como a couve e o espinafre, e nos legumes amarelos, como cenoura e abóbora. Os minerais antioxidantes são o zinco presente nas carnes e o selênio encontrado na batata, na mandioca e na vedete do momento: a castanha do Pará. "Ela é tida como grande fonte de selênio e a ingestão de uma castanha do Pará por dia seria necessária para manter a nossa recomendação diária", diz a nutricionista. Num passeio pelo supermercado, Míriam chama a atenção para um inimigo invisível e perigoso. "A gordura hidrogenada é a gordura saturada que está presente em praticamente todos os alimentos industrializados, nas bolachas, nos pães, nos bolos, nesses alimentos preparados com gordura hidrogenada, saturada, que faz os depósitos das gorduras na corrente sanguínea". Com uma alimentação de qualidade e moderada na quantidade, as chances de envelhecer bem aumentam. Quem seguir a receita também estará melhor preparado para enfrentar o quase inevitável. Um estudo da Escola Paulista de Medicina mostra que, depois dos 65 anos de idade, cerca de 85% das pessoas têm pelo menos uma doença crônica. Mas isso não é o fim do mundo. "Aqueles que envelhecem bem não são necessariamente os que não têm doença, mas sim os que têm as doenças controladas e com isso conseguem manter sua função, sua independência", esclarece o geriatra Luís Roberto Ramos.

SEM PREGUIÇA.

Mário e Ana correm dentro da água. É uma modalidade esportiva pouco conhecida, mas que caiu como uma luva para a necessidade dos dois. Mário tem taxas de colesterol e triglicérides altíssimas. Precisa de exercício para diminuir riscos e fortalecer o coração, mas não suporta academias. "Acho a piscina democrática. Você fica com a cabeça fora da água, todo mundo é igual, não tem aquele exibicionismo. É legal", opina ele. Ana sofre de osteopenia, o estágio anterior da osteoporose, uma doença que enfraquece os ossos das mulheres principalmente depois da menopausa. Ela teve também um problema no joelho e não pode fazer exercícios de impacto. "Tive uma inflamação de menisco. Fiz sessões de fisioterapia e o médico recomendou esporte aquático", lembra ela. Ana e Mário estão seguindo à risca a recomendação médica de não dar tréguas às doenças, para que não atrapalhem a velhice. Uma perigosa ilusão é achar que existe uma poção mágica capaz de brecar a passagem do tempo. Já foi assim com o hormônio do crescimento, apresentado há dez anos como uma espécie de elixir da juventude e, logo depois, descartado pelos médicos sérios. A reposição de hormônios sexuais também já provocou muita controvérsia, mas a evolução das fórmulas e o uso criterioso atenuaram a polêmica. "Assim como grande parte das mulheres precisa de reposição hormonal, uma pequena parte dos homens pode se beneficiar com a reposição do hormônio masculino. Só que essa reposição não pode ser feita ao acaso. Precisa de exames e uma avaliação clínica boa", explica o endocrinologista Marcelo Bronstein. Da pele à atividade sexual, os efeitos aparecem no corpo todo quando é feita a reposição dos hormônios sexuais que diminuem com a idade. "Não é ir contra a natureza. Se formos pensar assim, catarata é um processo natural do envelhecimento e, portanto, não iríamos operar. Mas você não vai deixar as pessoas cegas. Tem que tratá-las na medida em que alguma coisa está interferindo no bem-estar dela", conclui Marcelo.

ESTILOS DE VIDA.

O carrão é antigo, mas sai tinindo da garagem. Ao volante, o motorista que aprendeu a dirigir aos 34 anos. Hoje tem 87 e também continua em plena forma, levando a mulher e o carrão pelas ruas da cidade. Mas isso é só um passeio para manter o motor nos trinques. No batente diário, é o corpo de seu Inésio que funciona como uma máquina de boa qualidade, muito bem conservada: "Vou dizer-lhe o remédio: em seis meses, não tomei duas aspirinas". Seu Inésio é dono do hotel onde dá expediente todos os dias. E trabalha de verdade. Sobe e desce escada o tempo todo e com grande desenvoltura. Alongamento. Musculação. A academia dele é aqui mesmo. "Venho de manhã cedo dobrar todos os acolchoados e depois vem a moça e faz o resto. Dou uma revisada geral. É importante trabalhar. Quem pára de uma vez se entrega para ir ao cemitério", diz. Que ninguém duvide. Seu Inésio mora em Veranópolis, na Serra Gaúcha. Se a fonte da juventude não fica aqui, deve estar por perto: o pessoal da terra vive em média dez anos mais do que os outros brasileiros. Já se sabe que isso se deve menos à genética e mais ao estilo de vida que levam. Remexer a terra, cultivar alface e as frutas. Seu Ferronato segue fazendo o que aprendeu na roça, "na colônia", como dizem os gaúchos: "Trabalhava na colônia até os 30 anos. Plantava trigo, milho e feijão". A diferença é que a plantação de morangos, verduras e figos agora está na varanda do apartamento na cidade. "Tenho prazer de ver nascer, crescer e levar os amigos para ver. A figueira veio dos EUA. Não existe figo mais doce. Este tipo agora tem na colônia, porque eu dei. No primeiro ano, deram 145 figos". Os grandes números. Seu Ferronato gosta deles. Aos 83 anos, ainda prevê muitas colheitas pela frente: "Meu pai viveu 105 anos. Quero ser assim também". Velhinhos poderosos como seu Ferronato, cheios de disposição, dão lições de vida o tempo todo. Com certeza, o que eles são a natureza transferiu para os filhos, netos e bisnetos. Pena que as novas gerações não dão muita bola para as lições mais importantes: os bons hábitos de alimentação, atividade física e convivência. Carla Schwanke, geriatra da PUC de Porto Alegre, faz parte de um grupo que há seis anos pesquisa a longevidade em Veranópolis. Uma nova etapa da pesquisa já mostra que o abandono dos bons hábitos pode influir na saúde da nova geração. O filho do seu Ferronato é dono de lanchonete e é estressado, mesmo vivendo em Veranópolis, uma cidade de 19 mil habitantes: "Tenho que permanecer na sorveteria e fico bastante parado. Só caminho aqui dentro, praticamente". Preocupação com tudo, falta de atividade física. É difícil mesmo imitar o pai e o avô. Entre as tentações da lanchonete do pai, olha o neto do seu Ferronato indo pelo mau caminho: "Pediria um hambúrguer e um refri". A equipe que estuda envelhecimento em Veranópolis agora ganhou o reforço do pediatra Manoel Pitrez. Ele e a equipe examinaram 250 crianças e adolescentes. "Tivemos uma prevalência de sobrepeso de 25% dos adolescentes. Um em cada quatro tem peso acima do desejável. Também tinham os níveis de pressão entre 22 e 23% e colesterol entre 12 e 13% acima de 200", explica o pediatra.

SEXO E DESEJO.

Eles redescobriram o amor e o sexo numa pista de dança depois dos 50 anos de idade. Cledy, 66 anos, estava separada desde os 30. Osvaldo, 62, ficou viúvo há seis meses. "Freqüentava um clube da terceira idade durante três anos. Uma senhora de lá deu uma festa e conheci Osvaldo", conta Cledy. "Uma amiga nossa me apresentou a Cledy. Ela me dava empadinha, coxinha, e eu pensei: “Essa aí é cozinheira'", lembra Osvaldo. "Dei-lhe uma atenção especial porque o achei bonito", esclarece ela. E começou o amor do jeito que todo amor começa: com insegurança e desejo. "Viagra, medicamento, nunca precisei, mas se precisar tomo", garante Osvaldo. "Acredito que quando está tranqüila e calma com a pessoa de que gosta, confia no outro, pode levar uma vida sexual em qualquer idade", opina Cledy. Cledy e Osvaldo confirmam o que dizem os especialistas: não é a passagem do tempo, mas sim o preconceito o principal inimigo do sexo. "O indivíduo que abdica da sexualidade quando maduro é alguém que já se dispôs a isso quando jovem. Estipula uma faixa etária na cabeça dele e pára de atuar porque se condicionou a isso", explica o endocrinologista Marcelo Bronstein. "Os indivíduos que aceitam bem a sua sexualidade, as modificações que ocorrem, são pessoas que até o fim da vida não vão abdicar do sexo", continua Marcelo. Amor e sexo na terceira idade. Quem vive sozinho? São 90 anos de idade e de lembranças. Do cartão postal de Florianópolis, dona Lauda guarda recordações de menina: "Vi a Ponte Hercílio sendo construída. Passei lá muito antes de ser inaugurada. O que me entristeceu muito foi a Segunda Guerra Mundial". A viúva que há quase três anos decidiu deixar a casa dos filhos surpreende ao falar de solidão: "Não, nunca a senti, porque solidão tem quem não gosta de ler, de passear, de conversar e outras coisas também. Nunca senti solidão, apesar de estar só". Não exatamente só. Dona Lauda encontrou um lugar para morar feito sob medida para pessoas idosas e independentes como ela: é um projeto pioneiro da Igreja Metodista de Santa Catarina, mas que aceita moradores de todas as religiões. Mistura a seriedade de um condomínio particular e a alegria de uma república de estudantes. Cada morador tem um apartamento decorado com seus próprios móveis e objetos. Entram e saem quando querem. Algumas atividades são coletivas, como as refeições e a ginástica, que acontece durante 40 minutos, três vezes por semana. As senhoras que encontramos em Florianópolis adicionam também aquela dose de sabedoria que pode fazer da terceira idade uma das melhores fases da vida. "Quando somos jovens, há pressões para provar quem somos. Não queremos ter a angústia de pensar se vamos ser amadas ou não. Depois de um certo tempo de vida, já sabemos do que somos capazes. Podemos sabiamente saborear a vida sem pressões", diz a psicanalista Suely Gevertz.

VOZES DA EXPERIÊNCIA.

A professora tem 91 anos. A aluna, 71. "Nunca é tarde para realizar um sonho antigo. Sempre digo que com dona Lindalva é uma aula de felicidade". E é mesmo. A professora doce e paciente é apaixonada por música desde que se entende por gente. O caso de amor com o piano começou na Manaus do início do século: "Desde os quatro anos sonhava com o piano. Quando completei seis, minha mãe me chamou, sentei no banquinho e ela mostrou aquelas teclas brancas e pretas para mim. Eram teclas caídas do céu". A música deu forças para a menina sem recursos sair do Amazonas e vir para o Rio de Janeiro estudar na Escola Nacional. Ajudou também dona Lindalva a superar uma doença grave, ganhar a vida e chegar serena, lúcida e saudável aos 91 anos. "Todas as minhas decepções, até o amor que perdi, foi a música que me ajudou a curar". Generosa, retribui ensinando tudo que a música lhe deu. Descobriu talento no porteiro do prédio onde mora, no Rio de Janeiro, e abre o piano para que solte a voz. Generosa também é essa paulistana de 86 anos. Todo mês costura cem fraldas para crianças carentes: "Tem gente que diz que já se aposentou e vai ficar em casa. É opção. Talvez eu seja um pouquinho carente. Preciso de qualquer coisa útil. Somos uma máquina: se não engraxa a máquina com atividade, enferruja". E dona Laurinha segue no ritmo da metrópole. Não pára nunca. Duas vezes por semana, administra o bazar da igreja: "Sou muito religiosa, com a graça de Deus. É um apoio. Assim como se precisa do psiquiatra na parte física, necessita-se ter o psiquiatra da parte espiritual lá em cima". Da saúde, dona Laurinha também cuida muito. Todos os dias faz 40 minutos de caminhada no maior pique. Dá só uma paradinha: "É um costume oriental de abraçar uma árvore. Você pede bons pensamentos, para a raiz dar-lhe forças". Com energia redobrada, segue a caminhada. "Não penso no dia de amanhã, mas no de hoje. Estou bem, ótima. Agradeço lá em cima. Já estou com juros e correção monetária". Além de um belo capital, quem vive muito pode ter boas surpresas. Dona Lindalva, que ouvia música no gramofone e tocou no cinema dos filmes mudos, gravou, aos 91 anos, com a ajuda de amigos, o seu primeiro CD. São composições dela, uma mestra na arte de tocar e de viver. "É uma emoção muito grande. Para mim significa muita coisa. Significa o céu, a terra, as cachoeiras, todas essas músicas foram inspiradas na grande saudade que tenho da Amazônia". Saudade do que passou, dos que se foram. É um sentimento natural de quem desafiou o tempo levando a vida tão longe. Mas quem soube envelhecer parece mesmo é gostar do presente, de apreciar cada dia. E se a vontade é chegar lá, nada como ouvir a voz da experiência. "Ter as pazes com Deus e consigo mesmo, com os outros, porque não há nada pior do que estar brigando com a gente mesmo e não perdoar os semelhantes", diz dona Edith. "Na velhice, é preciso se sentir útil. Não pode deixar a peteca cair", afirma dona Laurinha.

GLOBO-REPÓRTER: DIETAS—16 DE FEVEREIRO DE 2001.

MODELO DE VIDA.

Atrás de qualidade de vida, fizeram uma mudança radical. Foram viver em uma praia de Santa Catarina onde a vida anda mais lenta. E as condições do mar e o tempo ainda determinam o que se põe à mesa. Paulo Zulu e a mulher, Cassiana, construíram mais do que uma casa - um estilo de vida baseado em uma filosofia alimentar. "Sou o que eu como", afirma. Só vai para a mesa de Zulu o que ele pesca e planta. Comida sem defensivos, sem agrotóxicos, sem hormônios. Para o modelo de 37 anos, uma fórmula de beleza e juventude. O glamour que Zulu esbanja nas passarelas tira da vida doméstica simples. "Estou fissurado para colher esse milho faz tempo. Está bom quando os cabelinhos estão totalmente sequinhos”, mostra. Os tomatinhos também enfeitam o jardim, plantados ao pé das árvores de um pomar que começa a crescer com os carinhos do dono. "Aqui é meu pezinho de caqui, que venho namorar todo dia. Desse tamanho e já tem mais ou menos 15 frutos. O mamão papaya é menor porque não tem agrotóxico, nem adubo químico". Nada é desperdiçado. Maracujá que vai ao chão também vira suco. "Essa é a minha rotina o ano todo. Venho, colho as coisas, vou lá, pesco. Parece que é “marketing”, mas não é não. É verdade. É porque, para mim, a vida é isso. Se não for assim, não tem graça”, conta.

HÁBITOS ALIMENTARES.

O beija-flor come mais da metade do próprio peso em açúcar, todos os dias. Só que, batendo as asas 70 vezes por segundo, gasta tudo o que come. Para o biólogo Armando de Luca, é uma conta que nunca fechou. Nascido numa família boa de garfo, come mais do que gasta desde que se conhece por gente. Depois de 40 anos de dietas e ainda incapaz de controlar o quanto comia, Armando decidiu controlar quanto cabe no estômago. Emagreceu 22 quilos, em 45 dias, porque um balão dentro do estômago ocupa quase todo o espaço que antes enchia com comida. É o primeiro paciente brasileiro a experimentar a técnica, desenvolvida nos Estados Unidos. Os médicos levam o balão de silicone até o estômago através de uma endoscopia. Preenchido por um líquido, chega a ocupar 80% do espaço. O paciente não consegue comer muito, nem querendo. O almoço agora é assim: salada farta e “uma” sobrecoxa de frango assada, sem pele, índice mínimo de gordura. Ele agüenta? “A gente ainda dá uma misturadinha do que é fome com o que é vontade de comer”. O pouco espaço que sobrou no estômago faz Armando rejeitar as comidas pesadas. Cíntia Capella, 26 anos. Na adolescência, chegou a pesar 120 quilos. Aos 17 anos, inventou a própria dieta - vivendo no extremo do que o corpo pode agüentar. Duas salsichas por dia. Mais nada. Foi assim durante um ano. Perdeu 60 quilos. Manteve-se magra, mas não mudou a relação mal-resolvida com o que come. No restaurante a quilo, escolhe o menos saudável: bolinho frito de arroz, macarrão na manteiga, deixa a cenoura, leva o purê. O prato de Cíntia é cheio de gordura e carboidratos. O que vai comer no jantar? “Nada”. Não quer engordar e nem deixar de comer tudo o que gosta. Então submete o estômago a longos períodos sem comida e o organismo à falta de nutrientes essenciais. Como no tempo das salsichas, a filosofia é: alguns instantes de prazer e a privação total. “Acho que preciso me reeducar. É a próxima etapa”. Não é uma decisão fácil. Requer mudanças de hábito que vão além de uma temporada de regime. O único método comprovado para ser magro com saúde funciona a longo prazo, mudando os hábitos alimentares e a forma de vida.

SEGREDO DAS ESTRELAS.

Além da fama, o que têm em comum Brad Pitt, Demi Moore, Cindy Crawford, Sharon Stone e Madona? Seguem a dieta das estrelas, também conhecida como dieta da zona. Os seguidores atingem a zona de melhor aproveitamento dos alimentos e maior queima de gordura. A nutricionista Cora Hogue orienta um programa baseado na dieta da zona. Explica que a refeição ideal deve combinar 40% de carboidratos, como legumes, verduras e frutas; 30% de proteínas, peixe, galinha ou carne vermelha; e 30% de gordura, uma colher de azeite, por exemplo, ou um punhado de amêndoas. A comida é preparada por um “chef” caribenho, Kennedy Deroche. A comida é entregue em casa, a cada dois dias, durante uma semana. O bom na dieta das estrelas é que os pratos nunca se repetem. No café da manhã, mingau com amêndoas. No almoço, camarões com molho italiano. No jantar, filé de peixe recheado e espinafre. Para o lanche, uma pêra, um queijinho e uma noz. Além da variedade, a comida é gostosa e nunca se fica com fome. Nas refeições, nota-se a ausência de arroz, macarrão, batata, pão, biscoito e sucos. Cora diz que esses alimentos entopem o organismo de açúcar e viciam o cérebro. Fundamental é fazer exercício todo dia. De preferência, musculação orientada por um instrutor. Para relaxar, os adeptos da zona fazem ioga. É um regime difícil. Há regras complicadas para balancear os alimentos. Por isso, as pessoas preferem que a comida venha pronta, o que torna a dieta cara. É só mesmo para as estrelas. Elas são magras, mas o público está cada vez mais gordo: 60% dos americanos estão acima do peso e 25% são obesos. Mas gastam com dietas 33 bilhões de dólares por ano. Um estudo recente do governo americano conclui que quase todas as dietas estão erradas. Todas fazem perder peso nos primeiros dias, mas quase sempre a gordura volta. A única que dá sempre certo, segundo o estudo, é a dos Vigilantes do Peso. Baixa caloria, pouca gordura e muita fibra. E o mais importante: acompanhamento a longo prazo, com incentivo de um grupo de apoio. O segredo do sucesso dos Vigilantes talvez seja o mesmo que explica a magreza das estrelas. Estar de bem com a vida.

PRATO PERFEITO.

O problema da carne vermelha é que a gordura, tão saborosa, é um veneno a longo prazo. Mas, na composição de uma dieta saudável, os médicos não dispensam um bifinho. “A carne vermelha tem suas utilidades, como o ferro e o zinco. Se comer só peixe, vai ficar anêmico”, explica o vice-presidente da Associação Internacional para Estudo da Obesidade, Alfredo Halpern. O ferro pode ser encontrado no feijão, no zinco, nos cereais. Mas é muito mais fácil para o organismo absorver o ferro e o zinco da carne. A vantagem do peixe sobre a carne vermelha está no tipo de gordura que carrega. O ômega-3 é um ácido graxo que combate o colesterol - a gordura que se acumula nas paredes das veias e artérias. É o ômega-3 o responsável pela boa reputação dos peixes. Os nutricionistas recomendam peixe pelo menos duas vezes por semana. Em termos de quantidade de ômega-3, o salmão e a truta, peixes importados, perdem feio para a nossa tainha. Para achar o campeão de combate ao colesterol, basta procurar pela sardinha. Em lata não vale - perde o ômega-3. E frita, nem pensar: além de perder a gordura boa, fica três vezes mais engordativa. A doutora Anna Beatriz aceitou nosso convite para mostrar como se prepara uma sardinha sem perder os nutrientes. “Assada. Sal, alho, alecrim, vinho branco e água. O tempero tira o gosto forte da sardinha e evita que fique seca. Para acompanhar, batatas, tomates e azeitonas”, ensina. “É um prato completo, não precisa de acompanhamento nenhum. Se quiser, uma boa salada, para dar o teor de fibras”. No forno pré-aquecido, em 40 minutos está pronta. Livrar-se das espinhas é fácil depois de assada. Basta passar a faca, com jeitinho, nas costas da sardinha. Exposta, a espinha sai inteira. Sabor é importante. Partindo desse princípio, o endocrinologista Alfredo Halpern inventou uma dieta onde se pode comer de tudo, mas com um limite de pontos. É um sistema para controlar a quantidade de calorias que se ingere durante o dia. Faça as contas: um cachorro quente completo tem 519 calorias. Um sonho - só um - 504. E um prato feito bem brasileiro, com feijão, arroz, bife e salada, só 306 calorias. “O brasileiro está largando o carboidrato - arroz e feijão - e entrando na gordura. É por isso que está engordando”, avisa o doutor Halpern.

OBESIDADE MÓRBIDA.

Como os outros animais, temos um dispositivo no organismo que avisa quando já comemos o suficiente. É quando nos sentimos saciados. Para algumas pessoas, essa mensagem parece nunca chegar ao cérebro. A falta de controle pode levar à obesidade mórbida. É quando o excesso de peso representa risco de vida porque provoca diabetes, apnéia do sono e complicações cardíacas. O biólogo Armando de Luca vai fazer uma cirurgia para reduzir o tamanho do estômago e resolver de vez o problema da compulsão por comida. O balão que está usando agora é temporário. “Esse paciente, em um período de quatro a seis meses em que vai utilizar o balão, pode perder em torno de 30 quilos. Assim, a cirurgia tem um risco bem menor”, explica o doutor Sallet. Armando se adapta: “Estou comendo um volume de comida muito menor do que estava habituado. Mas receio que, sem o balão, volte a comer mais”. Pressão alta e apnéia do sono, paradas respiratórias de mais de um minuto, botaram o biólogo num grupo de altíssimo risco. Os médicos calculam que já temos um milhão de obesos mórbidos. “Dependendo da faixa etária, eles têm até 12 chances a mais de morrer em um ano do que a população em geral”, diz o cirurgião gástrico Arthur Garrido. A equipe do doutor Garrido já fez mais de duas mil cirurgias de redução do estômago só em São Paulo. Há dois anos, treina médicos de outros estados para ampliar o atendimento nos hospitais públicos. Ainda assim, só no Hospital das Clínicas de São Paulo a lista de espera para a operação é de 15 anos.

UM CASO RARO.

Quem vê Joyce Fornari hoje, toda animada, nem pode imaginar a história que carrega. “Fiquei quase um ano e meio dentro de casa sem querer sair. Sentia-me um monte de lixo. Um saco de banha”. Pesava 153 quilos. “Tentei fazer vários regimes, todos: sopão, dieta da lua, comer só carboidrato, não comer proteína, comer proteína, não comer carboidrato, não comer nada... Tentei remédios também”. Depois da operação, 64 quilos mais magra, Joyce conheceu o outro extremo dos distúrbios alimentares. Ficou anoréxica, com aversão à comida. “Meu pesadelo é engordar de novo. Tenho medo disso o tempo inteiro. Foi o que me levou à anorexia”. O conflito era com o espelho. O gordo olha no espelho e não se reconhece naquele corpo refletido. O que aconteceu com Joyce mostra que o oposto também acontece. A cada quilo que perdia, Joyce enxergava uma estranha no espelho. Até hoje vive uma crise: tem medo de que a imagem da memória tome o lugar da magra do espelho. Joyce foi um caso raro, mas encontrou o equilíbrio com a ajuda de um terapeuta. Joyce quase não sente fome. Agora, precisa seguir uma dieta específica de nutrientes para não ficar doente. “Hoje como porque tenho que comer. Não quero entrar nessa história de depressão por causa disso, de novo”, conta. Joyce é metade do tamanho que já foi, uma nova mulher descobrindo a própria identidade, aos 41 anos de vida. “Outro dia estava deitada e tomei o maior susto porque era o osso do meu joelho! Não sentia o osso do meu joelho há anos! Tenho descoberto meus ossos. É pura felicidade. É melhor do que namorado novo”.

DISCRIMINAÇÃO CONTRA GORDOS.

“O problema é que os obesos não cabem em um mundo onde a estética é tamanho P. É uma pressão muito grande pelo emagrecimento. Há um endeusamento da figura magra. Se for magro, não muda só o corpo, muda a sina. Vai ter sorte, ser maravilhosa, ter muitos amigos e ficar rica!”, explica o psiquiatra Taki Cordás. Poucos conseguem se manter magros por tanto tempo. “A gente sabe muito bem o que deve e o que não deve comer, mas muitas vezes acaba não raciocinando na hora de comer. É uma compulsão”, desabafa Armando. A compulsão por comida é uma doença. Um sintoma é comer escondido, até de si mesmo. Sem controle, tem gente que, todas as noites, se levanta da cama para assaltar a geladeira e nem sabe o que está fazendo, porque está dormindo. “É como se estivessem em transe hipnótico. Algumas tendem a negar o que comeram. É diferente de mentir”, diz o cirurgião gástrico José Afonso Sallet. Mauro Bernardes nunca escondeu nada. Começou a comer demais e engordou. Pulou de 85 para 120 quilos e passou a carregar um peso invisível. “A gente se sente humilhado pela discriminação feita de forma embutida”. Ele era comissário de bordo de uma companhia aérea. Acabou se demitindo e agora processa a empresa por discriminação. Quanto mais pressionado, mais comia e engordava. Ficou para trás uma carreira premiada por bom desempenho, com longa ficha de elogios. A rejeição aos obesos no mercado de trabalho foi medida por uma pesquisa em São Paulo. Foram consultados 1.400 executivos: 73% disseram que não contratariam um gordo. Reféns de um organismo desordenado, ainda têm que enfrentar limitações objetivas e específicas. “Deixamos de ir a teatro e cinema por um bom tempo porque aquela situação constrangedora de não caber na cadeira não dava para agüentar. Isso já é uma forma que a gente se sente discriminado”, diz Armando. Parece que tudo leva ao isolamento. É enfrentar isso ou a intolerância.

GORDO E ATLETA.

Como será a vida de alguém tão gordo? Andar com dificuldade, sem fôlego, com pouca saúde. Mas as aparências enganam. David Alexander é gordo e triatleta. Já competiu em 276 triatlos e nunca deixou de completar uma prova. Mede 1,70 metro e pesa 130 quilos. Começou tarde, aos 38 anos, tão pesado quanto é hoje aos 55. Chamou a atenção da imprensa esportiva e logo ficou famoso como o gordo mais atlético do mundo. David tem uma coleção de bicicletas. Com elas, viaja o mundo todo competindo. Todo dia de manhã, sai de casa e vai treinar. O triatlo é uma prova pesada. Natação, bicicleta e corrida. David aceitou o desafio do Globo Repórter e nadou em um lago gelado. “Só vou fazer isso para provocar meus amigos brasileiros, Djan Madruga e Fernanda Keller”, diz. A temperatura da água estava pouco acima de 0º. Depois de nadar, pega a bicicleta super incrementada e pedala alguns quilômetros. A bicicleta agüenta firme. Por fim, a corrida em uma trilha de terra cheia de pedras, na paisagem agreste do Arizona. David não é exatamente um campeão. Carregar esse peso todo não ajuda. Mas tem excelente condicionamento e nunca se cansa. Na faixa dele, dos mais velhos, não se sai mal nos triatlos. “Queria ser menos gordo, mais competitivo. Mas não perco peso de jeito nenhum. Nem meu médico sabe explicar porque não emagreço com tanto exercício”. É um mistério, mas David não se importa. É melhor ser gordo e em forma do que magro fora de forma. A diferença entre David e os atletas magros é que eles, depois do exercício, podem comer um prato de macarrão, bife, “pizza”, e David tem que comer só uma saladinha. David explica que o corpo dele é muito eficiente, queima poucas calorias. Se não fizer dieta, engorda. Procura comer poucos carboidratos, mas nem assim emagrece. David recomenda que os gordos como ele façam exercício todo dia, mas não façam triatlo como ele, porque é preciso ter muito treinamento. “O mais importante”, diz David, “é que me divirto muito”.

GLOBO-REPÓRTER: GORDURA—1º DE MAIO DE 2001.

HERÓIS E VILÕES.

É festa para quem tem muito fôlego. Feira de São Cristóvão, Rio de Janeiro. O forró diminui a saudade e aumenta o apetite. Para alimentar o entusiasmo, fartura de calorias. “Gordurinha” é palavra elegante. São camadas de gordura impressionantes. Carne mesmo, mal dá para enxergar. A receita faz sucesso. “Baião de dois com carne de sol. Uma delícia; isso aqui é uma beleza”. Foram quatro pratos, me servi várias vezes e vou pedir mais um. Hoje em dia diz que para passar na vistoria tem que ter “air bag”, brinca um dos freqüentadores da feira. Dona Lídia é uma quituteira de mão cheia em São Leopoldo, cidade da Grande Porto Alegre. Quando cozinha, enfrenta um drama: das comidas que faz, só sente o cheiro. “Gosto muito de fritura, mas não posso comer”. Aos 68 anos, dona Lídia descobriu uma bomba-relógio. “Fui ao médico e fiquei muito surpresa porque o meu colesterol estava muito alto - 420. Foi um susto muito grande. Tenho hipertensão e teria que mudar de vida ou enfrentar a doença. Minha médica me deu medicação e fechei a boca”. Professora aposentada, dona Lídia cozinha para fora. Faz lasanhas, bife a role, mas é famosa pelos fios de ovos. A dieta, na porta da geladeira, é à base de frango grelhado, peixe, frutas e verduras. “O colesterol baixou para 190; a pressão, para 12/8. Então, funcionou mesmo a dieta cortando gordura. Funcionou muito”, comemora. O café é polêmico até hoje. De bom para a saúde a péssimo - fala-se de tudo. Até o leite, tido como um rico alimento, é bombardeado. Em excesso, poderia causar envelhecimento precoce. Arroz e feijão, para quem todo mundo torcia o nariz, hoje são recomendados com louvor. E o macarrão, grande vilão até alguns anos atrás, está absolvido. A gordura parecia ser a única unanimidade que restou. Todo mundo contra. Mas agora até ela tem defensores. O professor Rui Curi, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, diz que as pessoas saudáveis podem comer gordura sem medo. Apenas usando bom senso. Ele acha que houve uma histeria contra os lipídios ou gordura, na alimentação. Mas são importantes até na reprodução das células. Numa experiência com ratos, uma equipe da USP descobriu que uma dieta sem gorduras enfraquece o sistema imunológico, as defesas do organismo. O médico Emílio Moriguchi é diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia e acha que a gordura continua no banco dos réus. Tem motivos para isso: “Temos várias evidências na literatura. Gordura na dieta aumenta o risco de infarto, mesmo para as pessoas com risco baixo”. O brasileiro come gordura demais. Em Brasília, a alimentação de cada pessoa, em média, é 42% gordura pura. Os índices mais baixos estão em Curitiba, com 26%, e Belém, com 24%. Mas nem nessas cidades, a alimentação pode ser considerada saudável. Henrique, com 130 quilos, não tem problemas de diabetes nem de coração. Muito menos a mulher dele, Vivian, que pesa só 48 quilos. A preocupação é outra. Com ou sem gordura, como comer uma alimentação equilibrada se as necessidades são tão diferentes? Henrique quer emagrecer e Vivian luta desesperadamente para engordar. Vivian faz um frango com quiabo no almoço. A comida, para os dois, é a mesma. A diferença está no antes e no depois. Quinze minutos antes do almoço, Henrique devora um pão doce. Assim fica muito difícil harmonizar a dieta. Sem radicalismo e sem separação, Vivian e Henrique continuam procurando a solução. 

A COR DA SAÚDE.

Salada na mesa, dieta controlada. Bacalhau é coadjuvante. Nem parece uma casa portuguesa. Mas para seu Alexandre não foi fácil aceitar os limites da cozinha saudável. Ele viveu 30 anos cercado pelas tentações. Por trás do balcão, um cotidiano engordurado. O dono de padaria brigava com outra balança. Dez quilos acima do peso, estressado, hipertenso, fumante e com uma úlcera no estômago. Não tinha hora para se alimentar. “O grande inimigo era a gordura que comia em excesso. Comia muito sanduíche de presunto. Não quero dizer com isso que o sanduíche faz mal, mas em excesso prejudica. Passei a ter problemas de colesterol. A minha pressão vivia numa faixa de 18/12 e 18/10”, conta. Seu Alexandre passava dez horas por dia no balcão. Tanto esforço para pagar os estudos da única filha. Lúcia se formou em nutrição e hoje é professora universitária. Com o conhecimento adquirido na escola assumiu o poder em casa. Criou uma dieta limpa, espantando a gordura dos pratos do pai. O pão nosso de cada dia. Tido como alimento sagrado, pode causar algum mal quando acompanhado de recheios gordurosos. Por isso, aqui vale o ditado: antes só do que mal acompanhado. O pão enriquecido seria um santo aliado para combater doenças da terceira idade. O professor Yoon Kil Chang, da Unicamp, vai nos mostrar por que o pão é matéria obrigatória. “A Universidade montou uma padaria. A idéia surgiu para atender uma nova concepção da atualidade: fornecer além da fonte calórica para quem consome o pão. Acrescentamos outros ingredientes que possam beneficiar a saúde humana”, explica. Há 20 anos o professor Yoon põe a mão na massa para descobrir novos ingredientes. A novidade agora é um pó amarelo. O cientista quer acrescentar farinha de soja ao pão dos brasileiros. Ele diz que o alimento contém substâncias como isoflavonas que ajudam a reduzir o risco de doenças degenerativas. No prato tipicamente brasileiro, o feijão deveria ser mais valorizado. É um alimento rico em fitatos - substâncias bioativas, que protegem o organismo. Ajudam a eliminar o chumbo que todos ingerimos, na dieta do dia-a-dia, tomando água ou leite. O excesso de chumbo no sangue provoca redução do coeficiente de inteligência. Uma das conseqüências é a queda no desempenho escolar. “O importante é saber que a criança deve comer feijão, não deixar de consumir o arroz polido e, sempre que puder, um pouco de pão integral de trigo, que também possui os fitatos”, explica Jaime Amaya, engenheiro de alimentos da Unicamp. As pesquisas revelam mais: os alimentos são também uma forma de compensar deficiências genéticas. Muitas pessoas trazem dentro das células, por herança familiar, genes que aumentam o risco de desenvolver doenças graves, como o câncer de mama. Em Porto Alegre, o estado com maior incidência de câncer de mama no Brasil, são 76 casos para cada 100 mil mulheres - quase o dobro da média nacional. A principal explicação está na mesa das gaúchas: muita carne e gordura de origem animal. A salada fica de lado. Uma pesquisa canadense reforça a tese sobre as gaúchas. As mulheres com defeito genético, que não comiam frutas e verduras, tinham quatro vezes mais chances de desenvolver o câncer de mama. E o mais interessante é que quem comia fruta e verdura simplesmente zerava o risco. A pesquisa está sendo feita com 200 mulheres gaúchas. Graziela e Maristela são biólogas e participam do estudo como voluntárias. Tiraram sangue para análise. O teste de DNA revelou uma diferença decisiva: Maristela, 32 anos, não tem propensão genética para câncer de mama. Já o exame de Graziela mostrou que possui o defeito genético, aumentando as chances de desenvolver o câncer. Por enquanto, Graziela não se previne. Aos 23 anos, estuda e faz estágio na universidade. Vive de sanduíche, não faz exercícios e fuma. Quando almoça de verdade, o prato vem cheio de gordura. A outra bióloga já faz isso, mesmo sem a ameaça genética. Se almoça no trabalho, procura montar um prato colorido, cheio de folhas e legumes. Não fuma e freqüenta academia. Da família, Maristela recebeu mais do que herança genética.

DIETA DAS PROTEÍNAS.

Na hora do trabalho o banquinho serve para aliviar as dores na coluna. Roupas, só encontra em pouquíssimas lojas. Estas são algumas das muitas dificuldades na vida do paisagista José Augusto Campos, de 46 anos. Desde os 12, luta contra a balança. Já perdeu a conta de quantas vezes fez regime. A consulta com o cardiologista tem um motivo especial. Vai seguir a dieta do médico americano Robert Atkins, onde só é permitido comer alimentos ricos em proteína (carnes, peixes, frutos do mar, aves e ovos) e gordura (manteiga, azeite de oliva, maionese). Açúcar, pães, massa, cereais e a maioria dos vegetais ficam proibidos - são os carboidratos. Segundo a dieta, o emagrecimento acontece porque sem os carboidratos, a fonte de energia do corpo, o organismo é obrigado a consumir a própria gordura - uma teoria contestada por muitos médicos. Lingüiças fritando. Zeca engordava só de olhar. Agora, vigia bem de perto o que vai ser uma das refeições do dia. No comando da frigideira, dona Ana, que também quer perder peso com uma dieta tradicional. Desde a década de 80, o médico Alberto Serfaty recomenda a seus clientes a dieta das proteínas. Diz que 70% dos pacientes se mantêm dentro do peso ideal. “A gente não precisa criar uma situação de sofrimento ao paciente fazendo aquelas dietas de uma colherzinha de arroz, cem gramas de carne e capim à vontade”, diz o médico. Há 22 anos, Raul e Maria Luísa não comem carne. Também aboliram açúcar e frituras. Para ele, a opção vegetariana surgiu como terapia. “Tinha enxaqueca que nenhum remédio curava, afta e uma acidez no organismo enorme”. A alimentação tradicional brasileira é muito boa. Tem arroz, feijão e mistura. Um tanto de abóbora, um pouco de couve, de mostarda ou de taioba, uma poção de inhame, um pedaço pequeno de carne ou um ovo. Em todas as tradições se encontra uma tendência natural para um equilíbrio alimentar, onde os vegetais são muito presentes. No restaurante popular do centro do Rio de Janeiro, o preço do almoço é quase simbólico: R$ 1,00. Todos os dias são servidas, em média, três mil refeições. João e Sebastião Rosa passaram a freqüentar o restaurante por motivos opostos: João quer engordar e Sebastião emagrecer. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, um adulto que trabalhe e faça apenas uma grande refeição por dia precisa de uma média entre 1500 e 1700 calorias na refeição. Isso corresponde a mais ou menos 70% das nossas necessidades calóricas diárias. Mas é preciso que todos os elementos estejam bem equilibrados nessa balança. Proteínas e gorduras na carne, carboidratos no feijão e no arroz, fibras e vitaminas na salada, legumes e verduras. Por isso, o grande desafio é fazer um prato com variedade todos os dias. No computador, o controle de todos os ingredientes da refeição. Modo de preparo, peso, valor calórico, e a quantidade de proteínas, gorduras, carboidratos e colesterol. Pesado, medido e em destaque. Cinco nutricionistas fazem o controle da qualidade dos alimentos. A preocupação com a gordura não está só no papel. Até um forno especial é usado no preparo das carnes. “A carne é colocada em grelhas e no fundo desse forno fica uma bandeja onde toda a gordura desse alimento é dissolvida e depositada”, explica a nutricionista. Dez dias depois de iniciar a dieta das proteínas, José Augusto Campos está de volta ao consultório médico. Pela primeira vez, desde que começou a comer basicamente carnes, ovos e queijos, prepara-se para enfrentar a balança.

”LOW FAT”.

Americano adora novidade. A corrida, por exemplo. O doutor Kenneth Cooper lançou a idéia: correr era um santo remédio. O povo aderiu em massa, mas 20 anos depois o doutor Cooper caiu na real. Correr é para poucos. Bom mesmo é andar. Com a gordura é a mesma coisa. Nos anos 80 o governo lançou guerra à gordura. Não coma carne vermelha, leite integral, manteiga. Gordura mata. Mas essa moda também não deu certo. Os americanos pararam de comer gordura e ficaram muito mais gordos. A guerra à gordura tinha motivos: o coração e o colesterol alto. Nasceu uma nova indústria: a da comida sem gordura. Hoje existem à venda, nos Estados Unidos, mais de 15 mil produtos com baixo teor de gordura. A indústria gasta US$ 30 bilhões por ano para convencer os americanos a só comprar o que traz as palavras mágicas: “low fat”, que significa baixa gordura. As novas pesquisas indicam: o total de gordura que uma pessoa saudável come não tem relação com o risco de ataque cardíaco. Comer muito macarrão, pão, arroz e açúcar é pior do que comer carne vermelha. Gordura é vital para o organismo. As membranas de todas as células são feitas de gordura. Perdendo a gordura, as células ficam mais expostas à invasão de doenças. Só as pessoas com colesterol muito alto, acima de 240 miligramas por decilitro de sangue, correm sério risco de ataque cardíaco. Como reação à guerra contra a gordura surgiu nos Estados Unidos o excesso oposto. A dieta do doutor Atkins, por exemplo. Com muita carne e bacon. Faz sucesso, mas é muito pobre em carboidratos. A pessoa fica sem energia. Os americanos se entopem de pão, batata, refrigerantes, sucos, balas e guloseimas. Tudo vendido como “low fat”. Engorda mais que um bife. Um prato de macarrão, batata ou arroz desencadeia um desequilíbrio hormonal no organismo. Em pouco tempo a pessoa sente fome e volta a se entupir. Por isso, mais da metade dos americanos está acima do peso. Os povos da Espanha, do Sul da França e da Itália comem carne, peixe, legumes e verduras. Tudo regado a azeite. Por isso têm os mais baixos índices de doença cardíaca. Sem abrir mão da carne vermelha. Pesquisadores americanos acabam de descobrir que a gordura retirada na lipoaspiração poderá ser uma fonte de vida. Eles colheram células-mães na gordura de ratos e enxertaram essas células em outros tecidos. Transformam-se em músculo, osso ou cartilagem. No futuro haverá bancos de gordura. Você se livra da barriguinha e guarda as células mães. 

GULA MODERADA.

O despertador da maioria dos britânicos é o som de fritura e o cheiro de gordura. Um bom dia só começa assim: salsichão, lingüiça, bacon, ovos, torradas. É o “breakfast” - o café da manhã - enchendo a mesa e a barriga. Sempre se empanturraram, mas nunca como nos últimos dez anos. É o que revelam os números do Ministério da Saúde do Reino Unido. Obcecados por gráficos e tabelas, os britânicos transformaram em estatísticas o que a balança, a fita métrica e o espelho já mostravam: silhuetas avantajadas. O levantamento comprova que o peso dos homens da Grã-Bretanha aumentou em média 6% na década passada. As mulheres ficaram 10% mais pesadas. Se o problema era a falta de uma pesquisa para deixar os gordinhos com menos peso na consciência, os cientistas britânicos providenciaram uma. A gula moderada não chega a ser pecado. O professor Tom Sanders, do Departamento de Nutrição do Kings College de Londres, uma das mais renomadas universidades do mundo, acompanha todas as pesquisas sobre o assunto: “A gente precisa da gordura para o bom funcionamento do corpo. É como se fosse um depósito de energia em volta de órgãos vitais, o coração, por exemplo”. Por falar em órgão, a gordura já foi promovida na Grã-Bretanha. Os cientistas da Universidade de Oxford estão tratando pneuzinhos e outras sobrinhas explícitas como um órgão do corpo. Um dos pesquisadores explica que é preciso aliviar o peso das acusações sobre a gordura. Ser magro demais não é necessariamente ser mais saudável. “É um erro dizer que toda gordura faz mal. Mulheres magrinhas demais podem ter dificuldade para engravidar. No caso dos homens, a falta de gordura atrasa a puberdade”, explica o nutricionista Sanders. Os pesquisadores da universidade College London também se interessaram pelo tema. O trabalho deles mostra que a gordura moderada pode ajudar no raciocínio. O grau de inteligência de 3.900 pessoas nascidas há 55 anos foi testado durante toda a vida delas. A conclusão da pesquisa se manteve: os mais gordinhos sempre mostraram ser mais inteligentes. “Coincidência ou não, uma coisa é certa: mais alimentadas, as crianças se desenvolvem melhor”, afirma o professor Sanders. O nutricionista só faz uma advertência: “Os pais precisam saber que a vantagem dos bebês mais pesadinhos é muito pequena. Não vale a pena perder o controle sobre a gula dos filhos”. Existem pesquisas também para comprovar que os pais andam mesmo precisando de um puxão de orelhas. O resultado está na balança: as crianças de quatro a 11 anos estão engordando, e muito. Quase 15% das meninas e meninos britânicos andam gordinhos demais. Para tentar achar o equilíbrio entre a gordura necessária e o conforto diante do espelho, um professor da Universidade de Birmingham teve uma idéia mirabolante: propôs a criação de um superimposto sobre a comida com altas calorias. Só que o governo britânico não engoliu a proposta do doutor Tom Marchal. Ia deixar muita gente de mau humor. Outra pesquisa concluiu que a falta absoluta de comida gordurosa pode afetar o estado emocional. Por outro lado, o estudo reafirma que gordura demais pode deixar o comilão de cara feia. “Esse é o segredo”, diz o professor Sanders. Segundo ele, a pessoa tem que saber o que é melhor para ela e transformar isso em meta. E o mais importante: gostar de si mesmo. Quanto mais gordos, menos orgulhosos. Metade dos ingleses tenta trapacear a fita métrica comprando calças abaixo do peso. O autor da pesquisa, um professor universitário meio acima do peso, admite: “A gente abotoa a calça abaixo da cintura e acaba realçando ainda mais a pança”. Como diz o doutor Sanders, gordo ou magro, o importante é ter saúde.

GLOBO-REPÓRTER: REMÉDIOS—6 DE JULHO DE 2001.

HIPOCONDRÍACOS.

Brasil, país das farmácias? Somos o quarto mercado consumidor de medicamentos do mundo, movimentando US$ 7,5 bilhões por ano. Onze mil tipos de remédios. Uma avalanche sobre os pacientes. Só em São Paulo, terra dos restaurantes, são três farmácias para cada “pizzaria”. No país inteiro, são 55 mil drogarias. No tempo em que farmácia se escrevia com “ph”, os remédios ficavam trancados a sete chaves, longe dos fregueses. Hoje, as farmácias são supermercados, vendendo a idéia da saúde. Basta encher a cestinha e pagar. Com tanta facilidade, o brasileiro acaba se envolvendo numa relação muito íntima com os medicamentos. E, às vezes, perigosa. Exagerado, hipocondríaco ou apenas cuidadoso? Para não ficar sem remédio dentro de casa, Marzio Fiorini montou postos avançados. Tudo muito organizado. A caixa no quarto é o estoque principal. “Fica aqui guardada para emergências, gripes, dores de cabeça, inflamações de garganta, enfim, não é o que vou levar comigo na bolsa”. Dentro da pochete viaja uma farmácia móvel. “Esse aqui está sempre comigo, vai na minha bolsa de trabalho, na minha pasta de mão de viagem, tem todos os anti-alérgicos, desentupidor de nariz, para o estômago”. Mais remédio na cabeceira da cama. Seria um posto de emergência? “É o socorro noturno. Aquela coisa do calmante, do remédio para o estômago, mais forte, se tiver crise de gastrite, causada pela ansiedade. Tenho meu SOS noite. Se sentir alguma coisa estranha vou recorrer”. Não precisa nem levantar da cama. Ao alcance da mão, um guia de medicamentos. Ele estuda a composição dos remédios: quem sabe um dia pode precisar? “Esse é ótimo. Cetirizina. Pode até batizar uma filha com esse nome”. Brinca, mas jura que não toma nada sem consultar o médico. Mais do que a cura, dona Assunta procura segurança. “Quando está acabando o remédio, já mando comprar porque não posso ficar um dia sem tomar medicamento”. Aos 69 anos, como tantos aposentados brasileiros, gasta com saúde mais da metade do que recebe. São R$ 200,00 por mês com o convênio. E mais R$ 300,00 com os remédios. Estômago, intestino, depressão. Medicamentos para o corpo e a alma. “Desde pequena sempre fui nervosa. E os nervos foram abalando cada vez mais. Depois tive minha primeira nenê, nasceu morta, mexeu mais ainda. Depois perdi meu marido. Problemas da vida da gente”. Presa ao círculo vicioso dos remédios ou salva por eles. Quem pode julgar? “É a minha vida. Não posso ficar sem eles”.

VENENO.

A diferença entre um remédio que cura e um veneno que pode até matar está apenas na dose ingerida. À frente dos agrotóxicos e dos produtos de limpeza, os remédios são os campeões da intoxicação no Brasil. Os centros de toxicologia colecionam histórias de envenenamento: acidentes dentro de casa ou erros cometidos nos hospitais. Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas. Médicos e farmacêuticos em plantão permanente para orientar as vítimas dessa química perigosa. Há sempre uma emergência do outro lado da linha. Os especialistas têm pouco tempo para identificar o problema e aconselhar. A primeira coisa é não dar água, nem leite. De cada dez telefonemas, seis são resultado de intoxicação por remédio. A distração em gotas. Pegou colírio por engano, achou que era remédio para dor de cabeça e bebeu. “Teve uma senhora que tomou medicamento de uso veterinário. Deu o dela para o animal e tomou o do animal”. Parecem histórias engraçadas. Não para a doutora Cristina. Há dez anos no centro, sabe que pequenos erros diluídos podem ser a receita para a tragédia. “Teve um caso de uma mãe que foi à farmácia comprar medicamento. Mas a prescrição não estava legível. Era aminofilina, de quatro gotas, de oito em oito horas. E o balconista, para ajudar a mãe, escreveu na caixinha do medicamento: 48 gotas. Confundiu o “g” com o número 8. Nisso, a criança recebeu numa dosagem só 12 vezes a dose que deveria ter recebido. Ficou convulsionando mais de um dia e no fim acabou falecendo”. O erro não é só de quem receita. Para o doutor Anthony Wong, chefe do centro de assistência toxicológica, as crianças são as vítimas mais freqüentes. Atraídas pela aparência agradável e o sabor adocicado dos medicamentos. “Remédios xaroposos com sabor “tutti-frutti” a criança pede para a mãe dar porque acha aquilo agradável”, critica. Quanto mais remédio por perto, maior a possibilidade de intoxicação. Por isso, os hospitais são um terreno perigoso. O doutor Wong alerta: “Se estiver no hospital tenha certeza de que o medicamento que está sendo dado a seu filho ou a você mesmo seja exatamente o que o médico prescreveu. Toda vigilância é pouca”.

SOCIEADE ALTERNATIVA.

Quem usa, jamais esquece. As agulhas e o pó são para tratamento, as folhas secas podem ser remédios. Quem chega ao Hospital Alternativo de Goiânia, sabe que, apesar da espera, o sonho da cura verde pode ser realidade. “É diferente, acho que o médico dá atenção para o paciente, não tem pressa de tirá-lo do consultório”, diz a paciente. Medicina de baixo custo, atendimento gratuito. Há 14 anos o hospital público oferece possibilidades de cura sem agressões químicas com a medicina ayurvedica, que veio da Índia, o tratamento com plantas medicinais, a terapia chinesa das agulhas e a homeopatia. Na busca do equilíbrio entre o corpo e a mente. Salva pelas plantas! A cantora Dagmar veio em busca de socorro com uma infecção urinária. “Tratei nove anos e só veio arruinando minha situação. Deu gastrite, por causa dos remédios, fiquei péssima, tive que correr para a medicina alternativa, há um ano e estou me sentindo ótima, bem melhor”. Dona Terezinha reclama, mas volta. Sabe que para dores na coluna, acupuntura não tem igual. A doutora Maria Luiza espeta agulhas e aplica as môxas, bastões quentes de erva nos pacientes. O alívio é imediato.“O ponto de acupuntura tem acúmulo de energia, envia estímulo ao cérebro e tem uma resposta de acordo com o ponto”, explica a médica. Daniel está de volta ao consultório da doutora Maria José. Hoje, curado, caminhando ao lado da mãe. Há dois meses, não conseguia andar. Tinha uma inflamação intensa nas juntas, estavam bem vermelhas e doloridas ao tato. Estavam jogando na loteria dos remédios. Ortopedia, reumatologia, clínica geral. De tantas consultas com especialistas só restaram as receitas. Enquanto os médicos só tratavam uma parte do corpo, Daniel sofria com dores, febre, falta de apetite e medo. O mistério só foi desvendado quando a doutora procurou na história de vida do menino a origem do problema. A partir do dia que o irmão dele, de quem gostava muito, que dormia no mesmo quarto que ele, decidiu casar e sair de casa, Daniel adoeceu. A cura não tem preço, mas o tratamento de Daniel custou apenas R$ 2,00. Aqui também se produz medicamento fototerápico. Na horta, as plantas brasileiras crescem misturadas às indianas. Guduche, nim e azaganda se adaptaram bem ao nosso clima. Foram trazidas por mestres da Índia, que inspiraram a criação do hospital.

FARMÁCIAS VIVAS.

O professor Francisco Abreu Mattos é filho, neto e bisneto de farmacêuticos. O bisavô se encantou por essa espécie - operculinamacrocarpa. Ou batata de purga. “Meu bisavô usou uma batata que fica enterrada no chão, muito rica em resina. Extraía a resina e com ela fazia as pílulas, misturada com outras plantas. Chamavam pílulas purgativas do cirurgião Mattos”. Aos 77 anos, o pesquisador cearense aposta na cura pelo verde, desde que a ciência caminhe junto com a cultura popular. Durante 25 anos, o professor Mattos e o agrônomo Afrânio Fernandes vasculharam o Nordeste em busca de plantas e conhecimento. O herbário da Universidade Federal do Ceará já tem 32 mil exemplares, todos classificados. Para o professor, o uso das plantas sem identificação científica só gera confusão. Ele dá um exemplo: o alecrim-pimenta. Existem mais de 20 espécies com esse nome popular. “No Sul, se falar em alecrim-pimenta ninguém sabe o que é, pensa que é o alecrim do sul, usado como tempero”. “Lipia Cidoidis”, o verdadeiro alecrim, é um poderoso cicatrizante e anti-séptico. No laboratório, extrai o remédio da planta. Para ter amostras vivas, o cientista plantou um horto na universidade. Ensina: o açafrão é mais que tempero. “O pessoal não reclama que o colesterol e o sangue estão cheios de gordura? Açafrão baixa o colesterol”. Para que seja considerada de uso medicinal, é preciso saber se a planta tem eficácia. E se não oferece riscos para a saúde, afirma o professor. Avelós, ou dedo do diabo, é exemplo do perigo da automedicação com as plantas. “Tem gente que usa misturando leite, com recomendação de alguns leigos, com a promessa de que cura câncer e Aids”. Todo esse conhecimento acumulado o professor Mattos transformou num projeto generoso. As farmácias vivas. Hortas e pequenas fábricas de fototerápicos. Solução para que esses remédios não acabem nas mãos dos grandes laboratórios. A semente plantada no Ceará deu frutos em todo o Brasil. Na ilha de Paquetá, o projeto das Farmácias Vivas chegou na escola. Os alunos trabalham na horta, orientados pelos idosos da comunidade. A cura verde depende desse encontro de gerações. Do trabalho na terra brotam arruda, boldo e arnica. Matéria prima da cura, que vai para o laboratório da prefeitura, no Rio de Janeiro. Dona Maria de Fátima é diabética, vem buscar um composto de pata-de-vaca e carqueja. O remédio ajuda a controlar a taxa de glicose no sangue, que estava em 346 miligramas. “Em dez dias comecei a baixar o nível, cheguei a 182”, diz ela. “Meu sonho era de que todos os municípios do Brasil adotassem esse esquema. Pode não dar dinheiro, mas dá muita satisfação”, confessa Mattos.

”G” DE GENÉRICO.

Remédio sem a marca do laboratório. Na receita, só o nome químico. É o princípio ativo, substância que cura. Eles têm nomes estranhos - cloridrato de ambroxol, diclofenaco potássico - mas criam a perspectiva de um tratamento mais barato para a saúde do brasileiro. São os genéricos. A tarja amarela e a letra “G” identificam o medicamento, que começa a ocupar espaço nas prateleiras. Cerca de 300 já conseguiram autorização do Governo para venda e estão chegando às farmácias. Pouco, num país em que são comercializados 11 mil medicamentos, na maioria remédios de marca. Quem aposta na produção dos genéricos está se preparando para uma guerra. Os fabricantes sabem que, para conquistar território no mercado de remédios, tecnologia de ponta não basta. Só vão ganhar se produzirem muito. Quem vende por menos precisa vender mais. Os genéricos são obrigados a ser mais eficientes no seu processo de produção. O professor Gonzalo Vecina, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, prevê para o Brasil o mesmo caminho dos EUA. Em seis anos, os genéricos ocuparam a metade do mercado. “O problema é que não temos ainda um número muito grande de drogas. Por isso, o mercado situa-se na ordem de 1,5 a 2%”.  “No Brasil temos cerca de 37 milhões de pessoas que vão às farmácias e não compram a receita integralmente. Isso significa que não concluem o tratamento. O que precisamos nos genéricos é ampliar o consumo deles. Fazer com que pessoas que não usam medicamentos por falta de dinheiro possam, ao ter o genérico, concluir a terapia”, explica Jailton Batista, diretor de um laboratório. Outra batalha: conseguir aprovação do governo para fabricar os genéricos. Os medicamentos passam por testes de laboratório. Precisam provar cientificamente que fazem o mesmo efeito que o remédio de marca. Um dos centros de controle dos genéricos funciona na Fundação Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro. É numa máquina de nome complicado - extrator de base sólida - que os novos produtos passam pelo grande teste. Na máquina, o plasma sanguíneo de voluntários que tomaram o medicamento candidato a genérico é analisado. A Fundação Osvaldo Cruz controla e também produz genéricos. Far-Manguinhos é a fábrica da Fiocruz que fornece remédios para as campanhas de saúde. Sete, dos 12 medicamentos que compõem o coquetel contra Aids, distribuídos pelo governo, são feitos na Fiocruz. Aí começa uma guerra entre o governo e os grandes laboratórios. O Brasil acha que não deve pagar pelo uso das patentes quando vidas estiverem em jogo. O genérico custa mais barato, diz a doutora Eloan, porque os fabricantes não gastam com pesquisa para desenvolver o remédio e nem com propaganda e marketing. E a melhor notícia: a chegada dos genéricos pode contribuir para baixar o preço dos outros remédios. “O preço cai, porque o genérico começa a ocupar mercado de forma tão violenta que, se produtos de marca não derem algum tipo de respostas, deixam de ser comprados”. 

CURA SEM REMÉDIOS.

Luz e sombra na terra do sol. Uma cidade partida. De um lado a imagem da saúde. Do outro, a luta para superar os caminhos traçados pela doença. Avenida Beira Mar, com seus prédios e hotéis modernos, fica a menos de cinco quilômetros de uma parte da cidade menos conhecida, a favela de Pirambu. Na favela surgiu um projeto simples e revolucionário. Cuidar da saúde sem depender dos remédios caros. De olhos vendados, procuram reencontrar o orgulho, superar o medo. Adalberto Barreto, psiquiatra e antropólogo, professor de medicina social, criou a terapia coletiva. Um imenso divã na favela para quem não pode pagar consulta. “É a terapia que chamamos do resgate da auto-estima, porque a pior miséria não é a miséria externa, que a gente vê, é aquela que está internalizada nas pessoas, quando não acreditam mais que são capazes, que têm direitos”, explica Adalberto. Antônio Alves está voltando a acreditar. Vendedor ambulante, esforça-se na terapia. Quer superar o medo da morte, o pânico. Para fugir da doença, freqüenta as sessões de massagem. E a reza da benzedeira. “Os medicamentos me ajudam bastante, mas procuro mesmo a cura vindo dentro de mim, através do exercício. Ponho o medo para fora”, diz. Há três anos dona Zeneide entrou em crise. Buscou nos remédios a salvação: “Tomava três tipos de medicamentos. Passei por vários psiquiatras, só muito remédio. Perdi um ano da minha vida numa cama, sem comer, nem falar. Se tivesse tomando a droga lá fora, teria morrido, porque não existia nada. Foi uma coisa criada pela minha mente”. Canindé, a 100 quilômetros de Fortaleza, é santuário dos romeiros. Onde até a farmácia tem nome de santo: “São Francisco de Assis” - santo das chagas e da cura. No pátio da igreja, um ritual de sacrifício. Quando cruzam a porta na Basílica de Canindé, é como se os fiéis estivessem entrando num grande consultório. No sertão, São Francisco de Assis também é médico. Para milhares de brasileiros, a cura não vem só dos remédios feitos em laboratório. Depende muito da fé. Dona Angélica acredita na força das orações para afastar o mal. “Pedi muito pela minha saúde. A gente tem que acreditar em São Francisco e procurar os médicos”. O doutor Adalberto diz que os médicos não precisam compartilhar das crenças. Mas devem levar em conta o principio ativo da fé: “Talvez o verdadeiro milagre seja esse - quando nós, médicos, entendermos que o processo da saúde e da cura não depende só do remédio. Depende, também, do remédio que tem dentro de cada pessoa”. 

HORMÔNIOS E PÍLULAS.

Os medicamentos ajudaram a tornar a vida melhor e mais longa. O brasileiro que vivia em média 37 anos no início do século XX, vive hoje 68. Mas os remédios e as vacinas não fizeram tudo sozinhos: as condições sanitárias melhoraram e a pobreza diminuiu em algumas regiões. Mesmo assim, a tendência ainda é acreditar que essas drogas possam resolver nossos problemas instantaneamente. Para Sheila, a felicidade era ter uma casa cheia de filhos. Hoje, luta para recuperar os movimentos, pois o lado direito do seu corpo ficou paralisado e a fala, comprometida. Sheila recebeu um bombardeio de hormônios, mas não engravidou. No começo do ano teve um acidente vascular cerebral. "Nos oito anos que a gente tentou foi em vão. Não conseguiu nada e ela sofreu muito por tudo isso”, conta o marido. Junto com os hormônios, uma rotina perigosa: Sheila fumava muito, não fazia exercícios, alimentava-se mal e não largava a cerveja. “Fiz um estudo da terapia hormonal feita pelo colega. Estava correto. Faltou eliminar os outros fatores de risco”, explica o médico Anderson Medeiros. Ele, que hoje acompanha a recuperação de Sheila, alerta para outro perigo: as pílulas anticoncepcionais também são remédios e fazem vítimas entre as mulheres jovens, fumantes e estressadas. “Assim como hormônio usado na fertilização, o anticoncepcional, usado de forma inadequada, se somar fatores de risco, exporá a mulher a uma complicação vascular”, esclarece o doutor Anderson. O médico Henrique Aquino tem a receita para o futuro: “Primeiro, não há nenhuma pílula dourada que vá resolver todos os problemas. Segundo, os medicamentos são armas importantes, contribuíram para melhoria da qualidade de vida, mas têm que ser usados com extrema cautela e precisão".

GLOBO-REPÓRTER: ENVELHERCER BEM—3 DE AGOSTO DE 2001.

APOSENTADOS E BEM DISPOSTOS.

Seu Magalhães Motta faz trabalhos manuais; dona Nair Penteado Vianna não larga o tricô. Seu Magalhães é carioca; adora passar os fins de semana no sítio. Dona Nair mora em São Paulo. Tem orgulho dos tapetes que já teceu. Dona Nair agora se arrisca no computador, mas não passa do jogo de paciência. Seu Magalhães tem prazer em percorrer o sítio. O olho do dono engorda o gado. E nunca está satisfeito. Seu Magalhães, quase nos 80 anos, acredite, está pilotando um avião. Tranqüilo, apesar das manobras audaciosas. É brigadeiro aposentado, mas nunca quis parar de voar. Hoje, faz todas as loucuras e ainda esnoba: “Vôo bem alto, mas para vocês não é interessante. Parafuso aqui não tem graça nenhuma", gaba-se ele. A experiência é tanta que sobra confiança. “Esse pára-quedas tem uns três quilos. Não pretendo saltar. O bom é sentar em cima; emergência de saltar, nunca tive. Tenho um cartãozinho que diz que posso voar até o ano que vem; até os 80 anos e meio. Vou lá e faço os exames. E vou querer outra. Vou voar até quando os médicos deixarem". Dona Nair dirige como um piloto de provas. Tem agilidade e audácia. Se acha que terceira idade significa descanso, conforto, sossego, é melhor nem conhecer dona Nair. Se tiver problema de coluna, também. Dona Nair foi sempre uma dona-de-casa pacata, avó tranqüila. Até que, há seis anos, virou pelo avesso. Encontrou a felicidade na natureza, na liberdade, na aventura. Uma cratera no meio do caminho. Impossível passar, mas ela tenta. Vai e volta. O filho a ajuda, mas até dona Nair perde a paciência. Estamos muito próximos de um precipício. E em plena situação de perigo, dona Nair às vezes parece que está brincando. Mas o filho vai dando instruções. Aos poucos, vai saindo, passando rente ao buraco. Alguns minutos depois, estamos num pequeno paraíso. Santa disposição! Será que todos podemos chegar aos 80 desse jeito ou só vamos ficar morrendo de inveja? Nunca é tarde para tentar. Vida saudável hoje é investimento certo para a velhice amanhã. João Paulo Abdu pratica esportes com regularidade. Na alimentação, muita salada e uma certa distância de frituras e comidas pesadas. "O interessante é comer alguma coisa que tenha vontade no dia”. Nem sempre é assim. João Paulo é engenheiro; tem uma vida corrida. "Nossa geração tem que trabalhar um pouco mais do que as outras. A gente tem que trabalhar, se especializar e estudar. O mercado está cada vez mais difícil". 

VIDA SAUDÁVEL.

No piano, é professora. Com as tintas, uma aluna aplicada. Dona Lenita Fiqueiredo dá aulas de historia, literatura e é jornalista há quase 50 anos. Já escreveu doze livros, principalmente para as crianças. Dito assim, parece que dona Lenita é apenas uma compenetrada intelectual. Ledo engano. Sempre foi o que se poderia chamar de “da pá virada”. Dona Lenita andou pelo mundo. Tem fotos de Martin Luther King, general Figueiredo, Médici. “Mal sabia que depois ia ser presa". Foram três meses na cadeia, por causa dos artigos que escrevia. Dona Lenita foi considerada subversiva pela ditadura militar. “Fui torturada e me quebraram 11 costelas a murros”. E, com tudo isso, ainda tem uma memória privilegiada. "Sei até a cor das cuecas do Napoleão; onde os artistas nasceram, quem amaram, onde estão, em que museu estão representados". Fantástica memória essa que desaparece, como um passe de mágica, quando o assunto é idade. "Minha avó dizia: depois que trintei, nunca mais contei. Estou beirando os 80". Mais independentes, mais saudáveis e vivendo mais. Hoje mostram a cara. Vão para as ruas sem inibição. Ocupam espaços que pareciam fechados para sempre. Para sustentar a família, seu Davi Barbosa de Menezes já fez de tudo: vendeu pastéis, foi segurança e motorista. "Sempre com vontade de estudar, de melhorar a vida e de ser uma pessoa grande em informações". Seu Davi conseguiu o que queria: rompeu com o que estava predestinado, fugiu de uma velhice previsível. "Há muitas coisas que não valem nada: pensar em morrer, em doença, que tudo vai dar errado. Penso em estudar”, diz. Seu Davi estuda em uma universidade da terceira idade, das muitas que já se espalham Brasil afora. Só na Universidade de São Paulo, são quase 5 mil alunos com mais de 60 anos. Nos cursos, da psicologia à pintura, a disposição e o empenho são permanentes. De Tarsila do Amaral a Pablo Picasso, o Museu de Arte Contemporânea da USP tem de tudo um pouco. Mais jovens e criativos. No início do curso, os desenhos eram quase infantis. Hoje, são mais refinados, mas um artista não renega sua obra. A evolução traz estilo. Imaginação, cores, tomando formas, expressando emoções. Uma redescoberta. “A vontade de reaprender, com certeza, prolonga a vida. Esse é o segredo de uma longa sobrevivência", finaliza seu Davi.

JOVENS DE ESPÍRITO.

Aos 88 anos de idade, seu Tuplet de Vasconcelos corre, ou melhor, ganha maratonas. Já disputou 125 e venceu todas. "Segundo lugar não existe para mim. A não ser que coloque um cara de 20 anos para correr comigo”, desafia ele. Troféus, medalhas, já perdeu a conta. Foi seis vezes campeão Sul-Americano e quatro campeão mundial na sua categoria. Para os médicos, é um espanto. Para ele, apenas o resultado de um estilo de vida. “Não como carne. Alimento-me de muito de frutas, legumes. Além disso, o treinamento e dormir direito, não perder noites de sono. Em relação ao sexo, estou na ativa, pode crer”. Cada um tem sua receita. Mas algumas surpreendem. A musculação, antes tida como inimiga dos idosos, foi absolvida. "A musculação que se fazia não se faz mais com nosso atleta vovô. É um trabalho bem mais leve", ensina seu Tuplet. Leve mas eficiente. A partir dos 50 anos, o homem tem uma perda de massa óssea e muscular que chega a 2% ao ano. As mudanças não alcançaram apenas a musculação. Já chegaram até às ondas. "O surfe é um esporte recente. Não tem nem 40 anos no Brasil. E, como nenhum outro, tem a imagem da liberdade, paixão pela natureza. Além de tudo, lembra juventude. O que não quer dizer que é preciso ser jovem na idade. Lá no fundo, em cima da prancha, há um jovem de espírito", garante Afonso Freitas, de 69 anos. Seu Freitas tem estilo. Tinha 37 anos quando descobriu o surfe. “Gostei de estalo. Sabe quando vê uma mulher, como, por exemplo, olhei para a minha há 30 anos? Foi algo emocionante, tive que agarrá-la na mesma hora, sem explicação. Achei aquilo bonito, superior", lembra. Hoje, o remédio é o mar. Doses homeopáticas, todo santo dia. “Todo dia há uma coisa diferente: uma onda melhor, uma queda diferente, uma manobra mais ousada. O surfe pode parecer que é igual, mas nunca é". Não vai ao médico há algum tempo. “Cuido-me à base de mel de abelha, cápsulas de alho e comidas naturais. Não tomo leite de vaca. Bebo leite de soja, como de tudo, mas muito disciplinadamente". E tem disposição para muito mais. “Daqui a alguns anos, se ainda puderem me carregar para dentro d’água, vou pegar onda. Não consigo me imaginar longe do mar". Sua mulher, dona Júlia Freitas, agradece: “quando o conheci, era estressado, uma pessoa nervosa, autoritária. Atualmente, não. Hoje quem manda sou eu."

ENTRANDO NA DANÇA.

Florianópolis, 17h. Começa o baile. Os casais dançam animados. Mas o ambiente é um pouco estranho. Aliás, muito estranho. É uma clínica para cardíacos. “Tenho três pontes de safena”, conta o militar Luiz Souto, 67 anos. A dança é complemento importante. Junto com remédios e exercícios, faz milagre. O tratamento faz parte de um programa da Universidade Estadual de Santa Catarina. E tenta salvar os velhinhos de uma cirurgia que, às vezes, nem é necessária. “Um dos aspectos mais sérios do problema cardíaco é a aderência à idéia. Muitas vezes a proposta é chata, as pessoas não se sentem motivadas a continuar na atividade. A dança aumenta muito essa aderência”, explica o cardiologista Tales Carvalho. Alguns são acompanhados com controle da pressão. Padre José Rangel, de 82 anos, nem saía mais da cama de tão doente que estava. A dança recuperou o ânimo. "Acho que se parar é a morte. A vida é caminhar, andar. E dançar como dancei num ritmo que não estava habituado", opina o padre. As caras de felicidade já são um indício da transformação. A dança só não cura. Mas é um belo começo. Gravataí, cidade da Grande Porto Alegre. Com ginástica, algumas mulheres reaprendem a viver. Têm incontinência urinária, não conseguem controlar o fluxo de urina. É um problema que aflige pelo menos 10% dos idosos, a maioria mulheres. O tratamento é um projeto piloto do Hospital da Puc do Rio Grande do Sul. Uma ginástica que fortalece a musculatura do períneo, região posterior aos órgãos sexuais. "Dão-se conta de brincar com a questão de mexer o períneo. Mesmo que não haja mais vida sexual, têm lembrança e entendem qual é a musculatura. É bem saudável para a cabeça, além de ser para o corpo", diz o fisioterapeuta Leon Kluber. O casal Marly Heloísa Kus e Renê Carlos de Souza não se desgrudam. Na verdade, nem sempre foram assim. Um encontro tardio. Marly era viúva; Renê, separado. Só se encontraram sete anos atrás. Uma paixão incontrolável entre o funcionário público e professora. "O lado sexual é um complemento de todas as atividades. E vejo no sexo não só a cama. Há pessoa que fala em sexo e pensa que é cama. É mão na mão e frio na espinha", fala René. “Conheci o lado espiritual e idealizado do amor. Cheguei a ter um susto a primeira vez. O que está acontecendo comigo? Renê me fez descobrir até isso. O encanto da vida a dois", conta Marly.

COPACABANA: PALCO DA BOA FORMA.

Copacabana, 6h. A capital brasileira da terceira idade começa a funcionar bem cedo. Da população brasileira, 25% tem mais de 60 anos. Em cada quatro moradores, um já chegou à terceira idade. Uma das maiores concentrações de idosos do planeta. E Copacabana tem muito orgulho disso. Bate-papo, até dentro d’água. Frescobol, ginástica e vôlei. Ritmo puxado. Cada um se movimenta em um estilo muito próprio. Até na lentidão do tai-chi-chuan, ou de uns minutos de meditação. Copacabana é alto astral, é estado de espírito, não tem explicação. Jovens cantoras de setenta e poucos anos. O teatro, em Copacabana, fica lotado. O público de terceira idade é sempre maioria. O show é uma viagem pelo tempo. As cantoras foram estrelas da Rádio Nacional nos anos 50. No espetáculo, dão uma aula de como estar de bem com a vida. “Se eu, com 78 anos, estou fazendo o que faço, se tiver uma pessoa na platéia com a minha idade já querendo, com essa energia que a gente joga na platéia, ela vai renascer, reviver e ficar tão feliz quanto nós", diz a cantora Carmília Alves. Disse ter 78 anos. Dá para acreditar? Algumas, para não causar tanta surpresa, escondem a idade com convicção. “Não digo a idade porque acho desnecessário. Não canto com a minha carteira de identidade, interpreto com a voz que Deus me deu”, tenta explicar Ellen de Lima. 

GLOBO-REPÓRTER: PODER VERDE—24 DE AGOSTO DE 2001.

AMAZÔNIA: CELEIRO DE REMÉDIOS NATURAIS.   

Uma nova forma de riqueza - no cerrado, na Mata Atlântica, na Floresta Amazônica - a seiva das árvores, o veneno das plantas, a química dos insetos, as substâncias que lá sustentam e destroem a vida podem ajudar a salvar seres humanos? As novas expedições pela Amazônia não vão atrás das grandes árvores e predadores da região. Buscam moléculas naquela imensidão. Partículas que poderiam curar a Aids e o câncer estariam escondidas por lá? No Brasil estão 23% de todas as espécies conhecidas no mundo. Há centenas, talvez milhares, que nem foram catalogadas pelo homem. Uma equipe de cientistas brasileiros já recolheu mais de 1,2 mil amostras de plantas e árvores. De lá, são levadas para testes em laboratório. Um barco-escola navega pelas águas da Amazônia atrás de remédios que possam combater de poderosas bactérias a tumores do câncer. Há seis anos o doutor Dráuzio Varella comanda a equipe que vasculha as margens do Rio Negro em busca de plantas medicinais. “A gente colhe tudo o que alguém diz que serve para alguma coisa”, diz o doutor Dráuzio Varella. A expedição avança mato adentro e pára diante de uma árvore que também será testada no combate ao câncer. “Essa família da vinca tem uns alcalóides que têm ação antitumoral, principalmente contra linfoma, leucemias. Já está comprovado, de uso prático”, revela o cancerologista. Os frutos são conhecidos como pepino bravo. Quem sabe não está neles a cura para outras doenças? A ciência percorre trilhas abertas pela experiência dos povos da Amazônia. O mundo está de olho nas folhas e madeiras que teriam poder de remédio. O dono de um armazém exporta plantas para os Estados Unidos, a Europa e o Japão. “A procura é muito grande fora do país. Tem muita gente vendendo gato por lebre”, afirma o comerciante Antônio Celso Ussi. Um óleo tão difícil de extrair, que muitas vezes é misturado ao diesel para render mais, na Amazônia é remédio popular. Levado ao laboratório, a copaíba mostrou atividade em tubos de ensaio. “Temos indicações de que realmente tenha atividade anti-inflamatória, cicatrizante, até repelente”, diz Gislaine Pereira, farmacêutica da Fiocruz. 

O REPELENTE QUE SAI DA ÁRVORE.

Um mestre nos usos e costumes da vida no mato. Até a jibóia pode virar remédio nas mãos de Seu Estevão. Nada assusta o mateiro que tem 47 anos de experiência na selva. Com ele, o Globo Repórter desembarcou em uma trilha às margens do Rio Negro. É a farmácia natural onde Estevão vem coletar remédios quando a família ou vizinhos precisam. “Esse é um cipó conhecido como escada de jabuti. É para hemorróida e para mulheres que tenham problema de útero”, diz. Outro cipó, que Estevão separa e corta, a água que jorra para matar a sede também seria um remédio. A busca, agora, é por uma árvore rara, difícil de encontrar no meio da floresta. Surge um amapazeiro. Um golpe no tronco e o que seria um látex medicinal escorre como leite. Seu Estevão não fica sem o “leite do Amapá” em casa. Quem freqüenta a mata tem que se defender de muitos inimigos. Inclusive dos mosquitos transmissores de doenças. Uma árvore teria o remédio, um repelente natural. A resina que se acumula no tronco é o Breu, que os índios usavam para iluminar seus caminhos. “Acendemos para espantar onça, mosquito. A fumaça funciona como se fosse um repelente. Aí todo mundo vai embora”, ensina seu Estevão. No laboratório do Instituto de Pesquisas da Amazônia, em Manaus, o conhecimento popular está sendo testado. Um equipamento retira essência do Breu. Dentro de uma gaiola estão mosquitos que transmitem dengue. Só que eles não estão infectados porque foram criados em laboratório. Será feito um teste com um óleo essencial que foi feito a partir do Breu. No braço direito tem o óleo, o repelente. No braço esquerdo não. Em alguns segundos está clara a diferença. É nítido o ataque dos insetos no braço esquerdo. No momento do teste não tem nenhum mosquito pousado no braço onde tem o repelente. Foi a primeira vez que o material foi testado. É muito promissor. Mãos experientes para lidar com as ervas. Gente que já viveu na floresta usando plantas como remédio. Geni é índia mundurucu. Formada em bioquímica, comanda o resgate do conhecimento de seus ancestrais. Eles sempre buscaram a cura no meio do mato. A língua de um peixe nobre da Amazônia serve para que o pajé prepare o que seria um composto afrodisíaco. Uma receita dos índios que aproveita plantas e animais. É um mirantã que está sendo ralado. O guaraná já veio ralado. O pênis da anta se queima para dar mais força. De onde vem o poder das folhas, das raízes, das resinas e fungos? Como surgiram na natureza as substâncias que o homem tenta usar como remédio? Parecem não ter importância na hierarquia da floresta. Mas dos fungos nasceu uma revolução na medicina. No Brasil, são cerca de 13 mil espécies.

PLANTAS NO COMBATE AO CÂNCER.   

Congeladas em hidrogênio líquido, células do câncer. Em laboratório, serão bombardeadas por extratos de plantas. O câncer mata mais de 100 mil brasileiros por ano. Na Amazônia, a equipe do doutor Dráuzio Varella coleta as amostras que serão testadas. Os cientistas marcam o lugar de onde cada amostra foi recolhida, para poder voltar exatamente à mesma planta se ela mostrar atividade em laboratório. O catálogo é feito a bordo do barco-escola. “A vantagem desse tipo de método é que se pode ter grandes surpresas. Pode se descobrir uma molécula que tenha uma ação jamais esperada”, explica Varella. Isso aconteceu com o taxol, uma droga desenvolvida nos Estados Unidos. Teve origem na casca de uma árvore canadense, o teixo do Pacífico. Combate tumores de ovário e de mama impedindo a reprodução das células cancerígenas. A pesquisa que levou ao taxol demorou mais de 40 anos. No Brasil, o trabalho de investigar plantas para usar contra tumores é recente. Da Floresta Amazônica para um laboratório em São Paulo. Os cientistas querem saber se plantas têm o poder de controlar os tumores do câncer. Congelados num “freezer”, os 1.200 extratos estão prontos para testes. Serão aplicados contra células do câncer de mama, próstata, pulmão, intestino e leucemia. “As plantas produzem antibióticos desde sempre para poder se livrar das bactérias, agentes anti-tumorais para impedir que tumores se formem no caule, nas folhas. Essas substâncias existem, aí depende da gente conseguir localizá-las, identificá-las rapidamente”, diz Drauzio Varella. Foi um dos primeiros brasileiros a falar do combate ao câncer com o uso de plantas medicinais. Nos anos 60, o doutor Walter Accorsi já divulgava o poder da casca do ipê. Hoje, há pelo menos duas patentes nos EUA associando a árvore brasileira ao tratamento de tumores. O doutor Accorsi trabalha com um arbusto africano que há dois séculos foi trazido para o Brasil, o aveloz. “A planta é indicada para o câncer e a leucemia. E funciona. Tem um látex que se cair no olho, cega. Então, se a pessoa tomar mais gotas do que o necessário, pode morrer. Temos que ter cuidado para usar plantas também, pois podem ser venenosas. A dose é o limite entre envenenamento e cura”, conta o médico.

PLANTAS EM BENEFÍCIO DAS MULHERES.

Do campo para o laboratório. O conhecimento popular traduzido em ciência. Plantas produzidas em série para virar remédio. É uma busca incentivada pelos pacientes. Uma mulher perdeu o interesse pelo sexo. Queria um remédio natural. “No caso dela indiquei o Tribulus Terrestris, que é uma planta que estimula a libido, a atividade sexual, e, também, melhora a performance física”, diz o fitoterapeuta Décio Alves. Em menos de 15 dias a dona de casa Frigg de Oliveira já começou a sentir outra vez aquela motivação. Pai, mãe e filha vivendo em um paraíso. Que pode se transformar em inferno quando a jornalista Stela Grissoti entra na TPM, a tensão pré-menstrual. Na cápsula, o óleo de uma flor, a prímula. Há um mês Estela combate a TPM com o remédio. “Senti uma melhora logo no primeiro mês. Meu marido está querendo comprar um caminhão de pílulas”, conta. A nutróloga Jane Corona usa sementes como remédio para enfrentar a TPM. Diz que uma das principais causas da TPM é a prisão de ventre. Segundo ela, uma dieta rica em fibras elimina o excesso de estrogênio do organismo. “É só colocar no liquidificador uma colher de semente de linhaça, 1/2 xícara de amêndoa e uma xícara de semente de girassol. E todo dia de manhã coma com mamão”, ensina. A ambulante Neide Oliveira teria que fazer uma cirurgia para eliminar os sangramentos causados por miomas. Procurou o botânico Juan Revilla, que lhe receitou os chás de uxi-amarelo e de unha-de-gato. Ela escolheu um tratamento de medicina natural. Após 50 dias que está usando o produto pelo qual optou, teve redução em dois nódulos miomatosos. Um cogumelo descoberto no Brasil. Tornou-se tão famoso do outro lado do mundo que o cultivo se expandiu no interior de São Paulo e 95% de toda a produção brasileira é exportada para o Japão. Lá, esse cogumelo já é estudado há mais de 30 anos. Livros publicados no Japão dizem que o consumo do cogumelo reforça o sistema imunológico. Na Universidade Estadual de São Paulo, as pesquisas ainda não comprovaram que o cogumelo estimula o sistema imunológico. Um teste foi feito com camundongos que têm tumores do câncer. Quando o chá foi preparado a 100ºC, chegou a prejudicar os animais. Mas quando feito com água até 60ºC, os camundongos tiveram um aumento na vida de 15 a 20%. Bruna, de 12 anos, passou a maior parte da vida sofrendo com febres inexplicáveis. Começou a fazer um tratamento à base de vitaminas e sais minerais. Exames revelaram que tinha o baço inchado. A família decidiu incluir no tratamento o chá de cogumelo. Em 30 dias notaram diferença. A pele corou, a febre não vinha mais. E a surpresa: o baço voltou ao tamanho normal.

TURISTAS OU BIOPIRATAS.   

Um cipó conhecido como mariri; as folhas são de chacrona. Esmagado por homens e mulheres, o cipó libera sua poderosa química na hora da fervura. O cipó representa a força; as folhas, a luz. A união desses dois vegetais deu origem a uma doutrina que tem seguidores em todo o Brasil. Reúnem-se em torno do chá “ayuahasca”, que teve origem no tempo dos incas. Quem o bebe diz que é um remédio para os males do corpo e do espírito. O cozimento é acompanhado pelos seguidores da doutrina. Samara começou a tomar o chá ainda criança. “Desde os 9 anos de idade já éramos tratadas com o chá. Às vezes estávamos gripados, com febre ou problemas intestinais e os nossos pais nos davam uma colher de chá do vegetal”, conta Samara Cardoso, professora de dança. A biopirataria fez história na Amazônia. No caso da seringueira, sementes brasileiras levadas para a Malásia provocaram o fim do ciclo da borracha. Moradora das margens do Rio Negro, a dona de casa Adalgisa diz que recebe visitas de gente interessada no poder das plantas da região: “Quando chegam aqui, perguntam tudo e querem levar”. Em abril deste ano, o governo regulamentou o acesso ao patrimônio genético brasileiro. Mas o país tem fronteiras desprotegidas. Além disso, a exportação de folhas, plantas e madeiras para fins comerciais é permitida. Com os equipamentos de nova geração, um cientista estrangeiro não precisa de muito material para fazer sua pesquisa. Em um livro, a prova do acesso dos pesquisadores de fora a plantas originárias do Brasil. São trabalhos apresentados em um congresso. “Três pesquisadores japoneses trabalham em cima de um composto brasileiro”, revela Suzana Leitão, farmacêutica da UFRJ. Na área de biotecnologia, 97% de todas as patentes registradas no Brasil são de empresas ou inventores estrangeiros. “Claro que existem casos de biopirataria, porém mais preocupante do que esses casos individuais é a falta de pesquisa do lado brasileiro”, alerta o pesquisador do Inca, Charles Clement. E os cientistas brasileiros que pesquisam na área raramente protegem o que publicam. A espinheira-santa começou a ser pesquisada no Brasil nos anos 80. Mas as duas primeiras patentes, aproveitando a planta como analgésico e contra úlceras, foram registradas no Japão. “Obtivemos resultados significativos. Na época, chegamos a publicar alguns trabalhos com os resultados, mas não foi feito nenhum encaminhamento de um possível patenteamento desse resultado”, conta o biólogo da Escola Paulista de Medicina, Ricardo Tabach. Os brasileiros agora correm atrás do prejuízo. Estão testando o comprimido de espinheira-santa. No teste com seres humanos, a droga não teve efeitos colaterais. Agora será feito o teste contra úlceras, que já deu resultado em animais. “As úlceras não sumiram, mas tiveram índice de redução ao redor de 60% comparando com o animal que não foi tratado com espinheira- santa”, explica Ricardo Tabach.

GLOBO-REPÓRTER: ALIMENTOS QUE CURAM—11 DE JANEIRO DE 2002.

REEDUCAÇÃO ALIMENTAR.

Para Lilian Brandão de Abreu, de 20 anos, a doença foi o começo de uma vida nova. Lilian sabia que seguir em frente com saúde só dependia dela. A opção foi mudar os hábitos alimentares e isso incluiu a família inteira. O pai já reduz a quantidade de comida no prato, sem reclamar. E reconhece: “Nós melhoramos muito mesmo”. O controle da alimentação surtiu efeitos. “Perdi oito quilos”, conta Amélia Brandão, professora. No início, a recomendação médica de eliminar alguns alimentos prejudiciais à saúde era só para Lilian, mas ela aproveitou a situação. “Com a família inteira mudando os hábitos é bem mais fácil”, acredita Lilian. A necessidade de mudança surgiu há cinco anos, quando Lilian era uma das maiores promessas da natação do Brasil. Uma queda no rendimento dos treinos denunciou e os exames confirmaram o aparecimento de diabetes. “Pensei em largar tudo, mas percebi que aquele era o meu sonho e não ia ser uma doença que ia me vencer”. Lilian parou de competir e trocou o sonho de atleta pela faculdade de nutrição. Estudando, aprendeu como escolher melhor os alimentos. “Mudei meus hábitos para melhor, não sinto falta das besteiras que comia antes. A nutrição está ajudando muito a controlar minha saúde”. Foi também pensando no futuro que um grupo decolou com uma idéia que colore de verde o verão carioca. A plantação na Pedra Bonita parece e é capim. É do trigo germinado que se retira a clorofila. O grão de trigo é plantado e em poucos dias nasce o capim do trigo. É no broto que é encontrada a maior concentração de clorofila da natureza - 70% da substância. O capim pode ser colhido e o suco é retirado na hora no moedor elétrico. A clorofila virou a bebida preferida da geração saúde. Para Edson e Miriam já é rotina. O casal se exercita todos os dias e encontrou no suco de clorofila uma fonte de energia. “Comecei com a clorofila e meu cabelo parou de cair. Sinto muito mais disposição durante o dia”, conta ele. “Essa disposição aumenta quando há maior suprimento de oxigênio a nível celular. A clorofila é o sangue verde das plantas”, explica a médica ortomecular Jane Corona, uma estudiosa da clorofila. Já descobriu porque o suco da substância faz tão bem. “É rica em magnésio, boa para o sistema imunológico, para os ossos, para a digestão, é cicatrizante e bactericida”. Entre os benefícios está um que pode ser o fim do drama que atinge homens e mulheres - a clorofila tem a capacidade de fazer nascer cabelo e o cabelo branco voltar à cor natural. “Tem muito zinco, vitaminas B-1, B-2 e B-5 - vitaminas que temos em grande quantidade no cabelo, então provavelmente deve ter uma ação no cabelo”, diz Jane. Mas a clorofila pode ser encontrada também em todos os vegetais verdes. O suco de folhas foi uma alternativa encontrada por algumas mulheres da favela da Maré, no Rio, para conseguir o suco de clorofila, a um preço menor. “Alface, hortelã-pimenta, couve  e a folha de abóbora também é muito bom. Dá um total de 14 folhas”, ensina uma delas. Jane Corona diz que o ideal é beber cem gramas de clorofila por dia, o que equivale a dois copos de suco: “Com dois copos está fazendo um tratamento e repondo uma quantidade boa de vitaminas na sua dieta”.

GRÃOS DE SAÚDE.

Grãos que vieram da China e trazem lucros fabulosos. A soja é a maior fonte vegetal de proteínas. Um alimento rico, mas desprezado no Ocidente. O gosto é o grande inimigo da soja. É provocado por uma enzima, ativada quando o grão da soja entra em contato com a água fria. Para eliminar o sabor forte, a solução é simples - jogar a soja na água fervendo. Mas a receita ideal é investir em pesquisa. Londrina, no norte do Paraná, é um dos principais centros de pesquisa da soja no mundo. E o Brasil, o segundo maior produtor: 37 milhões de toneladas. Só 1% é consumido no país. Os cientistas tentam mudar o sabor da soja, para que fique mais atraente e conquiste espaço na mesa do brasileiro. Onze anos de trabalho - e surge um novo tipo de soja. A professora Mercedes fez o cruzamento da soja japonesa com a brasileira. “Não é um alimento transgênico, apenas uma soja de grãos mais claros. É mais fácil vender, inclusive exportar para o Japão”, explica. Numa cozinha criativa, a soja entra para enriquecer a mesa. Saladas, queijos, bolos e biscoitos. O prato de legumes foi reforçado com tofu, o queijo de soja tradicional da culinária japonesa. A soja não altera o sabor do bolo de laranja, nem dos biscoitos. Pode ser um bom complemento no café da manhã! Mas quais são os efeitos benéficos no organismo? Na busca de respostas, Elizabeth Zanini, professora de química, cumpriu uma façanha inédita: convenceu a turma de alunos do ensino médio, gente que não costuma querer nada com a soja, a participar de uma pesquisa. Os alunos se envolveram de corpo e alma com a soja. Aprenderam a preparar farinha de soja. Distribuíram o “kinako” e também cápsulas com gérmen da soja para três grupos de pacientes voluntários: mulheres na menopausa, gente com colesterol alto e uma turma de jovens com problemas de pele. “Senti o resultado em relação ao tempo que a acne durava. Aparecia e logo desaparecia”, conta Aline Vitali, de 15 anos. Dona Maria Natália sofria com as ondas de calor, provocadas pela menopausa. Doses diárias de “kinako” misturado ao leite trouxeram alívio para a dona de casa. “Tinha de seis a sete ondas de calor por dia, agora tenho duas”, comemora dona Maria Natália.

ENERGIA NUCLEAR.

Eles estão entre nós: milhões de inimigos invisíveis invadindo nosso organismo através dos alimentos. São fungos e bactérias, estragando a comida, trazendo doenças. “As pessoas têm diarréia, vômito. O botulismo, por exemplo, pode matar”, diz Roberto Figueiredo, biomédico. São muitas doenças que estão envolvidas com alimentos. Roberto Figueiredo, especialista em conservação de alimentos, alerta: é na geladeira de casa que a invasão pode começar. A salmonela é uma bactéria perigosa, que ataca os ovos. Roberto diz que não devem ser estocados na porta da geladeira. “Os ovos não podem sofrer trepidação e a parte que mais sofre trepidação da geladeira é justamente a porta! Com a trepidação, a casca do ovo se quebra, e isso aumenta o risco de contaminação. O ovo rachado deve ser jogado fora”, orienta o especialista. Mas na guerra contra as bactérias, a indústria de alimentos usa armas mais potentes. No passado mais distante, o homem usava o sal, o fogo e algumas especiarias para conservar a comida. Depois vieram a geladeira, a pasteurização, os conservantes químicos. Agora, no século XXI, a indústria já usa até energia nuclear. A irradiação de alimentos é uma forma de impedir que sejam contaminados pelas bactérias. As caixas com alimentos entram por trilhos e passam pela fonte de cobalto, que sobe para a superfície quando o irradiador entra em ação, entrando em contato com o produto e mata os microorganismos que estão presentes nos alimentos. Para o professor Dirceu Vizeu, da USP, o mais difícil é descobrir a dose certa para cada alimento. “O problema é fazer com que as modificações não desejáveis ainda deixem o alimento apto ao consumo humano. Não há risco nenhum, a não ser o fato de que eventualmente não vai ter gosto bom”, explica o físico. Pela lei, a indústria teria que indicar no rótulo que o produto foi irradiado. Isso poderia assustar os consumidores. “É uma tecnologia segura, não oferece risco nenhum para o consumidor, é apenas uma questão de esclarecer. Provavelmente, as pessoas já estão consumindo alguns alimentos irradiados sem saber”, declara Ariel Mendes, vice-presidente da União Brasileira de Avicultura. “Irradiamos, principalmente, especiarias, como pimenta-do-reino, cebola desidratada, alho desidratado. A empresa que vende não coloca isso no rótulo para o consumidor porque ela entra numa pequena parcela do alimento, como um tempero”, justifica o engenheiro Paulo Rela. Fernando Bignardi, médico homeopata da Universidade Federal de São Paulo, não recomenda alimentos irradiados. “Se o método de radiação se disseminar, vamos ter um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Cada um deles está dentro da faixa de segurança, mas juntando todos, não sei onde a gente chega”, questiona Fernando.

ALIMENTOS SADIOS.

Foi o medo do agrotóxico que fez o agricultor Luiz Carlos repensar o trato que vinha dando à terra. Cada vez que precisava usar o veneno na lavoura, se preocupava com a família. “Pedia para minha esposa recolher as crianças para dentro de casa. Sempre tive medo do agrotóxico”, conta Luiz Carlos. O alerta chegou há 11 anos para seu Milton, numa visita a uma feira de alimentos. Ele se impressionou com a falta de cuidado dos agricultores, queria produtos mais limpos e saudáveis e resolveu plantar sua própria lavoura. Em vez da terra, usou a água - a técnica é a hidroponia. As verduras são plantadas em tubos plásticos e irrigadas com água que recebe os mesmos nutrientes da terra. O resultado são alimentos limpos, como o seu Milton queria. O produto hidropônico ainda não é tão popular entre os consumidores, apesar de ser considerado um dos mais saudáveis. Mas deve-se ter cuidado com a água usada na plantação. A água utilizada por seu Milton vem de uma nascente e chega limpa ao reservatório. Em uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio, a nutricionista Márcia Madeira já identificou que 80% das hortas do estado do Rio têm algum tipo de contaminação. Com a poesia de Olavo Bilac, seu Targino faz uma declaração de amor ao ofício que escolheu. Em um pedaço de terra encravado na favela da Maré, no Rio, os canteiros de concreto ganharam cores. Homens e mulheres viraram agricultores voluntários, numa horta comunitária e totalmente orgânica. Seu Targino passa o dia todo na horta - foi ele quem plantou as primeiras sementes. O carinho é retribuído com os frutos que vão crescendo. Um orgulho que quer deixar de herança para outras gerações. “Não quero me engrandecer não, mas vou deixar isso para mostrar e para que as crianças sigam meu exemplo”. 

RECEITA IDEAL.

O cardápio do brasileiro mistura no mesmo prato arroz, batata frita, carne, massa, farofa. Tudo isso consumido ao mesmo tempo alimenta, mas nem sempre faz bem à saúde. A médica Jane corona mostra como os alimentos podem ser combinados de forma saudável: “Se botar muita coisa no prato, não absorve nada”. Segundo Dra. Jane, a mistura mais comum da comida do brasileiro, arroz, feijão e bife é também uma das melhores do nosso cardápio. “O arroz e o feijão têm aminoácidos que se complementam”, explica. O tutu de feijão, que vem com paio, cebola, farinha, é considerado uma mistura pesada. “Fica uma digestão difícil”. O mais comum é servir a massa com molho de tomate, mas esta não é a melhor combinação. “Dá muita acidez. O bom acompanhamento da massa são verduras e legumes”, ensina. A escolha deve ser feita também sempre entre o arroz e a batata, nunca os dois juntos. “Senão fica com excesso de carboidrato”. No bufê de saladas, poucas restrições e muitos alimentos que previnem doenças. “O broto é excelente, quando a pessoa precisa de energia e também tem muitas vitaminas do complexo B”. O tomate é rico em substâncias que nem todo mundo pode comer. Segundo Dra. Jane, ele tem licopeno, que é usado no combate ao câncer de próstata. “Mas aqueles que têm ácido úrico aumentado, deve evitar o tomate”, avisa Jane. Para quem não pode consumir tomate, existem substitutos. “A cenoura tem vitamina A, o pimentão amarelo, a pimenta. A cor amarela é boa para regenerar os tecidos”, explica a médica. A doutora Jane também diz que não se deve comer salada antes das refeições, como a maior parte dos brasileiros faz. “A salada ajuda na digestão da dieta. Você come um alimento - é bom comer essa comida junto com a salada ou a salada depois, pra facilitar justamente a digestão”.

GLOBO-REPÓRTER: GUERA CONTRA A GORDURA—8 DE MARÇO DE 2002.

UM TÍTULO DE PESO.

Lagoa dos Três Cantos, um lugarzinho desconhecido no noroeste do Rio Grande do Sul. São apenas 1.650 habitantes. Um médico da região descobriu que 60% da população está muito acima do peso. Com isso, Lagoa dos Três Cantos acabou ganhando um título que não é lá muito lisonjeiro: ela é, talvez, a cidade mais gorda do país. Quase todos os moradores são descendentes de alemães. Uma família magrinha é coisa rara. Normal por lá é ter mais de 100 quilos! “Aqui tem muita festa, muita cuca, muita cerveja. Os alemães têm por costume comer cinco, seis qualidades de comida ao mesmo tempo, e isso é coisa que engorda", justifica Sueli Koppher, dona de casa. Cuca é uma receita antiga dos imigrantes, obrigatória no café da manhã, no lanche, no almoço, no jantar. É uma massa de bolo, com recheio doce, e ainda tem açúcar caramelado por cima. A cidade vai experimentar vida nova. O objetivo de todos: perder dezenas de quilos e se livrar da ameaça das doenças que vêm com a obesidade - diabetes, hipertensão, trombose. A proposta de um regime coletivo foi de médicos de São Paulo. E o prefeito da cidade, orgulhoso dos seus míseros 69 quilos, adotou a idéia. "Para mim, vai ser um desafio saber como a população se comporta. Presumo que devam perder bastante peso, comendo muito bem, tendo pequenas modificações no seu hábito, como tirar a gordura, que parece estar presente em todas as comidas", explica o endocrinologista Alfredo Halpern. Uma despedida em cada casa. A família Hoffmann convidou a equipe do Globo Repórter para o último banquete. Para eles, em uma boa refeição, vai um pouco de tudo: pernil de porco, batatinha frita, macarrão com molho de carne, pão e salame e a cuca. Tudo feito com banha de porco, estupidamente calórica. É de enlouquecer. Na nova dieta, vão poder comer só metade disso, durante um dia todo. “Vão comer a cuca, mas provavelmente não tanta cuca quanto comiam anteriormente", diz o endocrinologista. E vai ter que ser um pedacinho mesmo. A meta para todos que fizerem o regime é perder 5% da massa corporal em três meses. Os Hoffmann apostam que vão conseguir.

REGIME COLETIVO.

É uma epidemia: 60% dos americanos estão acima do peso; 30% são obesos. Nos últimos três anos, a população dos Estados Unidos engordou duas vezes e meia o que havia engordado nas quatro décadas anteriores. Este ano, a obesidade vai ultrapassar o tabaco como o inimigo público número 1 da saúde dos americanos. O problema é social. Os mais ricos conseguem emagrecer, compram livros e programas de dieta, freqüentam “spas” e academias. Os mais pobres comem alimentos mais baratos - mas menos saudáveis -, têm menos acesso a informações sobre dieta e se exercitam pouco. Nas grandes cidades americanas, a cultura do automóvel incentiva a preguiça. A crescente epidemia de obesidade obrigou as autoridades a tomar providências. O primeiro prefeito americano a declarar guerra à gordura é um ex-obeso: John Street, o prefeito de Filadélfia. Há três anos, a cidade, de maioria negra, era a campeã da obesidade no país. Agora caiu para o quarto lugar. Filadélfia é o berço da independência dos EUA, declarada em 1776. Por isso, 76 é o número da cidade. Está até no nome do time de basquete de Filadélfia. No ano 2000, o prefeito lançou a campanha “76 toneladas em 76 dias”. Trinta mil pessoas se inscreveram no programa. O prefeito contratou a professora de ginástica Gwen Foster para ser a “czarina” da boa forma. Para a cidade emagrecer 76 toneladas, bastaria que cada participante perdesse 2,5 quilos. Mas, ao fim dos 76 dias, Filadélfia só tinha emagrecido onze toneladas. Hoje, Gwen Foster, que continua na guerra à obesidade, não se considera derrotada. Afinal, Filadélfia deixou de ser a cidade mais gorda. O que mais deu certo na campanha foi a idéia de formar grupos de apoio que se reúnem na hora do almoço. Surgiram grupos nos locais de trabalho, como enfermeiras que trabalham no mesmo hospital. Todo dia, saem para caminhar mesmo que a temperatura esteja bem perto de zero. Não é à toa que Filadélfia virou a capital dos gordos nos Estados Unidos. O prato mais popular da cidade, famoso em todo o país, é um sanduíche cheio de carne, queijo, cebola frita e muita gordura. Um cozinheiro garante que come só dez por semana, mas os colegas revelam que, na verdade, ele devora dez por dia. A campanha do emagrecimento dividiu Filadélfia. Quem é contra parece decidido a recuperar as toneladas que o outro lado está perdendo. No centro da cidade, um mercado demonstra que a gordura não tem nacionalidade. A mais popular é a comida dos Amish, colonos de origem holandesa, que oferecem porções gigantescas. A favor da campanha da prefeitura, só mesmo uma cozinheira que faz um “cheese steak” vegetariano. Parece carne assada, mas é uma massa de trigo, marinada no tempero especial de dona Alfonsi. Até dá para enganar, tem gosto de carne. O exemplo de Filadélfia serviu de inspiração para Brooklyn. O novo administrador da região mais obesa de Nova York vai lançar em abril uma campanha de emagrecimento. Será um concurso entre os bairros do Brooklyn para ver quem emagrece mais.

CRIANÇAS DE OLHO NA BALANÇA.

Faz um ano que Vinícius, Camila, Damião e Vânia estão em uma corrida, mas não é um contra o outro. Cada um nada na própria raia, lutando contra um problema comum: a obesidade. Não faz muito tempo, tinham outro perfil e muitos quilos a mais. Para quem morria de vergonha do próprio corpo, a piscina era um poço de angústias. Hoje, é vitrine para as novas medidas. A maior transformação é a de Vinícius. Aos 12 anos, pesava 75 quilos. Hoje, um ano mais velho, exibe feliz o novo visual, 16 quilos mais leve. Ao vencer a obesidade, Vinícius conquistou mais que um corpo saudável. “Era um menino deprimido, triste. Mudou muito com os amigos e com a família”, conta Neusa de Oliveira Ricci, mãe do Vinícius. Junto com a turma da natação, Vinícius virou exemplo, estímulo para um grupo de jovens que começam a luta para emagrecer. No campus da USP de Ribeirão Preto, a obesidade é atacada por todos os lados: enfermeiras, psicólogos, professores de educação física e nutricionistas ajudam jovens a perder peso em meio às transformações da adolescência. A idéia é recuperar o tempo perdido e compartilhar experiências, para não errar de novo. A partir de agora, a ordem é correr das gorduras e queimar os excessos. Exercício é bom para perder peso. Uma das maneiras clássicas e mais saudáveis para entrar em forma. Mas, para quem está acima do peso é preciso ir com cuidado, para todo o esforço não acabar em um gol contra. Uma lei contra a gordura. Em Santa Catarina, lanche de escola tem de ser saudável. Desde o começo do ano, é proibido vender frituras, salgadinhos, doces e refrigerantes nas escolas. Parece uma imposição indigesta, mas a lei catarinense foi sugestão de pais, nutricionistas e educadores preocupados com a dieta pesada das crianças. Só que não é fácil ditar um cardápio saudável. As bocas se acostumaram às delícias proibidas, e as novas regras não interferem no lanche que vem de casa. Mas a nutricionista Angélica Magalhães acha que, aos poucos, os alunos vão tomar gosto por um lanche mais sadio. Se a nova regra vai pesar no desenvolvimento dos alunos, é coisa que as balanças e fitas métricas dirão daqui a um ano. Mas os catarinenses não contam só com a lei. Nas creches de Florianópolis, é de pequeno que se planta o pepino, a melancia, o melão... que se aprende a gostar de frutas, verduras e legumes. Ainda longe das tentações das cantinas, os pequenos já crescem comendo com qualidade. Nada melhor do que aprender cedo o bê-á-bá da saúde. E se a escola vira parceira, a lição é para sempre.

UMA QUESTÃO DE SAÚDE.  

Uma imagem que choca: 180 quilos. Um desejo na fila de espera: fazer a cirurgia de redução do estômago para emagrecer e ficar um homem saudável como o irmão. O metalúrgico Marivaldo Barboza também já foi obeso. Pesava três vezes mais do que hoje. “Estava morto! Não vivia, não tinha vida, nenhum sentido. Não tinha amor próprio", conta. Com 160 quilos e deprimido, Marivaldo viveu trancado no quarto durante um ano. Não queria ser visto por ninguém. "Só quem sente o peso de carregar a gordura de uma obesidade mórbida sabe o quanto ela mata. Não é só a massa corporal, mata sentimentalmente. Você perde desejos do ser humano", diz Mário Barboza. Não é só uma questão estética. Marivaldo, gordo, teve uma sucessão de doenças: trombose nas pernas, e quase a amputação delas; uma embolia pulmonar que o deixou em coma na UTI. Não podia mais esperar. A sorte foi ter convênio médico, que bancou parte das despesas. “Hoje, estou fazendo coisas que não realizava. Ser pai, por exemplo”, avalia. Desempregado, Mário, irmão de Marivaldo, não tem convênio médico. Está há mais de dois anos na fila do SUS, aguardando uma chance. Por três vezes, já esteve praticamente na sala de cirurgia. Mas não havia vaga na UTI. A cada tentativa frustrada, Mário fica mais traumatizado, mais ansioso, e mais gordo. “No fundo, desisti”, revela. Mário corre contra o tempo. Está em um grupo de risco com centenas de outros obesos que vivem a agonia da espera na fila do SUS. Em quatro anos, a quantidade de operações nos hospitais públicos cresceu 700%. Mas não chega nem perto da necessidade. Hoje, só em um hospital de São Paulo são 300 pessoas aguardando a vez. Diminuir o tamanho do estômago de um obeso é muito mais do que uma simples cirurgia. Antes e depois, a operação exige o empenho de vários especialistas. Não é solução mágica, como muitos pacientes imaginam. "A cirurgia obriga o paciente a aprender a se realimentar e, a partir daí, perder peso", explica Carlos Arasaky, gastro-cirurgião. Eles ganham muito mais do que um corpinho elegante. A equipe da Universidade Federal de São Paulo já comprovou outros benefícios. Depois da cirurgia, a maioria dos pacientes não sofreu mais com a ansiedade e a compulsão alimentar. A depressão grave, que aparecia em 73% dos pacientes pesquisados, caiu para 10%. Não é mágica e pode não ser o fim de todos os problemas. A cirurgia, para muitos pacientes, pode trazer novos transtornos: alimentares e psicológicos. Às vezes, tão graves quanto à antiga obesidade mórbida. Era uma vez uma mulher que pesava 153 quilos. Um ano depois da cirurgia, tinha perdido 64 quilos. Um sucesso acompanhado de um pesadelo: em vez de comer compulsivamente, Joyce Fornari simplesmente parou de se alimentar. Era anorexia. Por falta de nutrientes, a depressão voltou. O remédio, um velho conhecido: a dieta, agora para fortalecer e equilibrar o organismo. “O que como hoje, faço-o com prazer. Então, uma salada de rúcula, com filé de frango, me dá água na boca", garante. Joyce, com 80 quilos e manequim 46, enfim, está em paz com a balança e com a comida. Já se passaram três anos. Agora, é saborear cada conquista.

LOUCOS POR COMIDA.   

A crise, muitas vezes, vem no meio da madrugada. O sono interrompido, e o ataque voraz à geladeira. Compulsão não é gula, nem falta de vergonha. É uma doença. Entre os obesos, 40% têm esse transtorno. Um destino traçado não só pela genética. "O que a genética discute é que, talvez, haja algum papel para o aumento da compulsão, não só para alimentos, mas para exercícios compulsivos, álcool, drogas, compras, jogos. Seria alguma coisa ligada à impulsividade", explica Taki Cordás, psiquiatra especialista em transtornos alimentares. Comendo, a fonoaudióloga Regina Segalla ganhou 30 quilos em poucos meses. Encontrou ajuda em um grupo de apoio a portadores de transtornos alimentares, que também trata de muita gente, vítima das chamadas dietas milagrosas. “Essas dietas são criminosas, realmente estimulam outras complicações, além da doença que o indivíduo já tem. A compulsão é uma delas e vem carregada com outros problemas psiquiátricos, principalmente a depressão", declara Taki Cordás. A medicina ainda não descobriu a cura para a compulsão. Mas, com o apoio de uma psicóloga e de uma nutricionista, Regina está conseguindo controlar as crises. E a mulher que um dia se sentiu destruída agora já sabe lutar para voltar a ser a pessoa que era. "Estou voltando a me controlar. Antes, quem me dominava era a comida ou outras situações", diz.

GLOBO-REPÓRTER: CURA PELOS ALIMENTOS—12 DE JULHO DE 2002.

SABOR APIMENTADO.

Nunca corte uma pimenta sem luvas - ela pode queimar a pele. Mas coma sempre, tudo o que quiser, com esse delicioso tempero. Pimenta faz bem à saúde. A Embrapa analisou várias pimentas e fez descobertas surpreendentes. Justamente a parte que arde, chamada capsaicina, é a melhor novidade para a saúde. Ela impede a coagulação do sangue e, portanto, evita tromboses. A pimenta também tem vitamina E, e chega a ter seis vezes mais vitamina C do que a laranja. “Reduz o risco de doenças como o câncer, a catarata, o mal de Alzheimer, diabetes”, explica a farmacêutica Daise Lopes. A pesquisa científica elevou o “status” da pimenta de simples tempero para poderoso aliado no controle da nossa saúde. Mas um detalhe importante: a pimenta-do-reino deve ser evitada porque não pertence ao grupo das pimentas com capsaicina. Das que são boas para a saúde, a malagueta e a dedo-de-moça são as mais conhecidas. A jalapeño, originária do México, tem uma ardência bem baixa, mas a pele é bem saborosa. A cumari amarela é do Pará. Tem ainda a pimenta-de-cheiro vermelha e amarela, que em algumas regiões do país é chamada de pimenta-bode. Fabiana estuda as pimentas há pouco tempo, mas já virou uma especialista. Nem todas ardem, e mesmo as mais poderosas são agradáveis se usadas com moderação. “O importante é a dose certa de pimenta, para que sinta o alimento. Não tem que sentir só a ardência, tem que ser saborosa", explica. Na sobremesa, que tal um sorvete de creme e biscoito de chocolate, com calda de abacaxi e pimenta? “Para fazer a calda, tem que colocar o abacaxi, a pimenta dedo-de-moça e o açúcar e deixar aproximadamente uma hora e meia apurando no fogo. Para cada abacaxi, meio quilo de açúcar e duas pimentas sem semente”, conta Fabiana. Pimenta também faz bem para o humor. Não é a toa que o povo baiano, um dos mais alegres do país, é também o maior consumidor de pimentas. Atuam no cérebro estimulando a produção de endorfina, o hormônio que produz a sensação de bem-estar. É um remédio natural, um alimento funcional completo.

A COR DA SAÚDE.   

A pesquisa avança. Há pouco tempo os cientistas anunciaram que o tomate ajuda a prevenir o câncer de próstata. Agora, descobrem que a melancia é tão boa quanto o tomate, que a goiaba vermelha é duas vezes mais poderosa. E a pitanga, essa frutinha quase esquecida, é a campeã quando se trata de fonte natural de licopeno. O licopeno, um pigmento encontrado principalmente nas frutas vermelhas, é um antioxidante capaz de controlar a ação destruidora dos radicais livres. “Com esse potencial antioxidante ingerido, você tem prevenção contra doenças como o câncer, por exemplo", explica Delia Amaya, coordenadora do laboratório da Unicamp. O laboratório da Universidade de Campinas é um dos mais respeitados do mundo na pesquisa de pigmentos naturais: os carotenóides. Matéria-prima para pesquisa é o que não falta por aqui. A variedade de frutas que temos é tanta, que o Brasil já poderia até dispensar a importação.  “O caso do kiwi, por exemplo, foi promovido no mundo inteiro por propaganda muito forte. Mas kiwi não tem o mesmo valor nutricional para a saúde que muitas frutas brasileiras. Kiwi não tem licopeno. Goiaba vermelha, como o Brasil produz, tem licopeno", explica Delia. Oscar controla há três anos um câncer de próstata com uma dieta rica em licopeno. “Estava no começo da próstata e meu médico me aconselhou a carregar no tomate”, conta Oscar. O PSA, que indica a gravidade do câncer de próstata, já esteve em quase nove. Agora, está em 0,1, apenas. Há cinco anos o urologista gaúcho Gustavo Sá vem recomendando uma dieta para complementar o tratamento convencional do câncer de próstata. Os pacientes podem fazer cirurgia, radioterapia, mas não podem deixar de comer alimentos ricos em anti-oxidantes. Tem funcionado para a cura e também para a prevenção. “Basicamente é isso: tomate, derivados de soja, grãos, e principalmente a baixa ou a diminuição das gorduras saturadas, principalmente da carne vermelha”, explica Gustavo. Seu Oscar venceu o câncer com medicamentos, sem nunca abandonar a receita do médico: comer, pelo menos, três porções de derivados de tomate por semana. Comer maçã todos os dias também não é nenhum sacrifício. Quem ajudou a mudar esta história foram os descendentes de italianos da serra gaúcha. Os pomares de Veranópolis estão entre os mais antigos do país. Foram plantados há mais de 60 anos. Aqui também é o lugar do Brasil onde as pessoas vivem mais tempo. Estudos estão revelando que não é simples coincidência. Foi em Veranópolis a descoberta dos pesquisadores da PUC do Rio Grande do Sul de que a maçã é um fator importante pra se chegar à idade avançada. Seu Pedro não aparenta os 68 anos de trabalho duro. “Como três por dia”, conta. Para a equipe que estuda estes hábitos desde 94, o consumo da fruta foi fundamental para que os moradores de Veranópolis atingissem a maior expectativa de vida do país. Os veranenses vivem 10 anos mais que a média nacional, que é de 68 anos. “A maçã é um antibiótico, um anti-inflamatório, auxilia nos tratamentos das diarréias, cânceres, previne doenças do coração, esquemia cerebral, melhora a função pulmonar”, explica a geriatra Carla Schawanke. Graças a uma substância chamada quercitina, que tem ação antioxidante e retarda o envelhecimento das células.

”PIZZA” SAUDÁVEL?

Comida de domingo. Para a família toda. Ou refeição naqueles dias de pressa. Com vocês, sua majestade, a “pizza”. A invenção italiana caiu no gosto dos brasileiros já faz tempo. A novidade agora é que esse alimento que para muita gente representa um risco à saúde pode ser exatamente o contrário. “Pizza” para prevenir doenças. Será possível? A fórmula é um segredo. Invenção de um grupo de universitárias: uma massa parda, onde está um nutriente que comemos pouco, mas precisamos muito. “Essa massa tem um alto teor de fibras, solúveis e insolúveis, e foi produzida tecnologicamente para que tivesse uma aceitabilidade alta”, explica Monique, uma das inventoras da receita. As fibras insolúveis são aquelas encontradas nas hortaliças, boas para o intestino. As solúveis são um tipo mais raro. Jiló, feijão carioquinha, aveia, maça e caqui - são alimentos que têm fibras solúveis. No organismo funcionam como barreiras contra o excesso de glicose e gorduras. Por isso, “pizza” enriquecida com fibra solúvel faz bem. “A fibra, por exemplo, pode regular o açúcar no sangue controlando a incidência de diabetes na população. Pode diminuir a absorção pelo organismo de triglicerídeos e gorduras, fazendo com que o indivíduo tenha menos arteriosclerose e menos doenças cardiovasculares”, explica a pediatra-clínica Cristina Senna. Sobre a massa, recheio leve. Molho, mussarela de búfala - que é menos gordurosa - e tomate. Será que tem gosto de remédio? “É crocante, “light” e muito gostosa”, garante um “pizzaiolo”. No coração do Brasil, na vegetação do cerrado, já brotaram outras duas fontes de fibras solúveis: a quinoa, um grão de origem andina, e o amaranto, espécie mexicana. As plantações em Brasília por enquanto são uma experiência da Embrapa. Mas na casa de dona Beatriz Pellizzaro os grãos já foram para a panela! “Fiz o biscoito com quinoa e com o biscoito preparei os canapés - usei patê de tofu, queijo de soja - coloquei um pouquinho de amaranto dissolvido em carragena, uma alga marinha”, conta. Até o corante e a sobremesa são naturais. “É gelatina de alga marinha”, explica. O suco vem de uma semente, feito de linhaça tostada. Mãe e filhos trabalham juntos na cozinha, unidos também pela dieta naturalista. “Nunca comi carne, chocolate só eventualmente. Gosto, mas não sinto falta”, diz a filha. Para a família Pellizzaro, comida é remédio. “Nabo é um ótimo desintoxicante e é bom para gripe também”, explica Beatriz. Para quem acha a dieta muito estranha, os Pellizzaro mostram resultados. Na família, ninguém toma remédio. Dificilmente adoecem. As filhas foram da escola pública direto para a faculdade. A família vive em harmonia. Praticam juntos montanhismo. Para eles, saúde é tudo isso. E todos vão bem. 

”YES”, NÓS TEMOS BANANAS.

Ao longo do litoral brasileiro, milhões de bananeiras revelam a nossa vocação tropical. Em algumas regiões, as plantações cobrem de verde milhares de hectares, como no Vale do Ribeira, sul de São Paulo. Foi lá que dona Heloísa tentou ser fazendeira. Mas descobriu, rapidinho, que o negócio não era tão fácil. Os cachos são colhidos ainda verdes. O que não encontra comprador vira lixo. E de tanto ver o desperdício, dona Heloísa foi inventando um jeito de aproveitar as sobras. “Comecei com a sopa, depois a casca. Como não tinha pão, nem nada, comia a casca, porque sentia que parecia uma vagem refogadinha”, conta. Comer banana verde é tradição no Vale do Ribeira. Depois de cozida, é claro. Mas ninguém imaginava que a banana verde poderia ser tão versátil. Dona Heloísa foi descobrindo que dá para fazer qualquer coisa com a massa. Batizou a receita de bio-massa e a usa para incrementar o cardápio - de bombom a pasteizinhos. É bom para economizar e agregar valor nutritivo à comida. A novidade é que só a banana verde tem amido resistente, uma substância que se perde quando a banana amadurece. O amido resistente funciona como um modulador dos níveis de colesterol e glicose no sangue. “A banana verde é bom para a redução do colesterol, para prevenção e tratamento do diabetes e do câncer do cólon, e para aumentar a absorção dos nutrientes do organismo, pois favorece uma boa saúde intestinal. Isso é uma idéia comprovada em animais, estamos agora começando a verificar em humanos", conta a nutricionista Valéria Paschoal. A dúvida é: será que o amido resistente continua funcionando, com todas as suas propriedades, depois que a banana verde é cozida? Essa é a pesquisa que uma equipe da Universidade Federal de São Paulo está fazendo. Esclarecer isso é fundamental para saber se a bio-massa da dona Heloísa é mesmo um novo alimento funcional ou apenas um complemento nutritivo. Depois de pesquisar 15 variedades de bananas, os cientistas já comprovaram vários benefícios da fruta. Uma delas, a banana missouri, surpreendeu até os pesquisadores. “Ela tem o dobro de fibras de outras variedades e metade do teor de açúcares”, explica o professor de nutrição Franco Lajolo. Acrescentar vitaminas ao prato do brasileiro também é desafio para os técnicos dessa fazenda experimental, em Brasília. A plantação é um exemplo da busca por um alimento mais saudável. Aqui está nascendo uma cenoura com  mais 35% de vitamina A do que as cenouras comuns. Falta de vitamina A pode causar desnutrição grave em crianças e até cegueira. O agrônomo mostra a diferença: a cenoura comum tem a parte superior esverdeada e é mais clara nas laterais. A nova cenoura desenvolvida recebeu o nome de alvorada. Tem a cor mais alaranjada, o que significa um maior teor de carotenóides. “Se tiver o hábito de comer uma cenoura que tem um conteúdo de carotenóide, de pró-vitamina a maior, vai ter reduzida a sua chance de contrair alguma doença, do tipo avitaminose A, que é um problema sério em algumas regiões do Brasil”, esclarece Jairo Vidal Vieira. De grão em grão, essas galinhas enchem o papo de milho, soja e carvão vegetal. A ração vitaminada servida em uma granja de Jaboticabal, no interior de São Paulo, é resultado de uma pesquisa para reduzir o teor de colesterol do ovo. Os cientistas descobriram que o carvão de churrasqueira moído cria uma espécie de purificador no organismo da galinha. O carvão retém parte do colesterol e os dois são eliminados nas fezes. Testes de laboratório comprovaram que o ovo da galinha alimentada com a ração com pó de carvão tem 22% menos colesterol do que os ovos comuns. Os cientistas constataram também uma redução de 30% do colesterol na carne das galinhas poedeiras.

PODER DO SOLO.

Já foi o tempo em que as flores serviam apenas para decorar. A capuchinha é uma das flores mais saborosas que se põe à mesa. O gosto lembra o do agrião. É mais um surpreendente alimento funcional. A capuchinha tem dois pigmentos que são essenciais para a prevenção da cegueira dos idosos. O Brasil é um dos países mais ricos do mundo em fontes de vitamina A. Todas as regiões têm suas estrelas. O buriti, no Norte. O pequi, no cerrado. O cajá e o óleo de dendê, no Nordeste. O óleo de dendê está sendo utilizado em programas de combate à deficiência de vitamina. Aos poucos, a ciência encontra nas frutas nativas o mesmo potencial antioxidante de outras frutas já conhecidas, como a laranja, o mamão, a manga. Aquilo que enche os olhos de tão colorido, é remédio puro, que o Brasil tem para dar e vender. "O Brasil ainda não aproveita todo o seu potencial. Tanto assim, que várias equipes internacionais vêm em busca do estudo desses alimentos brasileiros. É preciso que o país coloque o foco na sua riqueza, identifique-a e a aproveite”, acredita Gláucia Pastore da engenharia de alimentos da Unicamp. “O risco é que, se não sabemos o que temos, e outros grandes grupos internacionais sabem, vão estudar e depois retornam esse próprio alimento funcional como um nutracêutico, um comprimido, uma drágea”, diz Gláucia. 

A VERDADE DO “LIGHT”.

Obesidade nos Estados Unidos virou epidemia: 30% dos americanos são obesos e mais da metade está acima do peso. Essa explosão de gordura nos últimos dez anos coincidiu com a moda dos produtos “diet”, “light” e “fat free”, ou seja, sem açúcar, ou sem gordura. A indústria dos dietéticos fatura US$ 50 bilhões por ano. E pelo visto não está fazendo efeito. Roselle e Danielle são duas jovens americanas típicas. Para os padrões obesos do país até que não são muito gordas. Para casar, diz Roselle, os rapazes querem garotas cheinhas. Mas têm que se cuidar para não engordar mais. A geladeira está cheia de produtos dietéticos. Não adianta nada, dizem. “A gente come produtos “light” porque acha que são saudáveis. Acaba comendo muito mais do que deveria”, reclamam. A nutricionista Lisa Sasson foi conosco ao supermercado. Ela condena molhos “diet” de salada. “O azeite dos molhos normais faz bem à saúde”, diz. “Ajuda o coração. Tirar da dieta justamente essa gordura boa é perigoso. É um erro achar que a gordura é o inimigo. Algumas formas de gordura são essenciais”, complementa. Uma dúvida que a gente tem quando vai ao supermercado é que pão comprar. Qual é o pão saudável e que não engorda? Segundo Lisa, é o pão de trigo integral, que é supernutritivo. Já o pão “light” não é bom: pobre em nutrição, não satisfaz. “Você acaba comendo mais do que deveria”, explica. E os sorvetes sem gordura? Lisa dá a dica: “Não coma. A gordura é que dá um gosto bom e sacia o apetite. Por isso vai acabar comendo mais desse sorvete sem gordura. É melhor comer sorvete normal. Uma bola só já satisfaz, com frutas frescas. Não se deve comer sorvete “fat free”, avisa. Muita gente ao tomar café prefere botar adoçante em vez de açúcar achando que assim não vai engordar. “As pessoas se entopem de calorias na refeição e no fim tomam café com adoçante. É um erro. Os adoçantes estão cheios de produtos químicos. Podem fazer mal à saúde”, ensina Lisa. Arroz e feijão: o que o brasileiro come todo dia. Isso engorda ou não? “É super saudável. O feijão é muito nutritivo, tem bastante proteína, faz baixar o colesterol, é rico em fibra. E o arroz em pequenas porções também é ótimo”, garante a nutricionista. 

INFORMAÇÕES ÚTEIS.

PIMENTA:

- Fabiana Gonçalves - Especialista em pimentas. Telefones: 031-11-4427-8899/4437-1598.

- Alessandro Segatto - Chefe de cozinha dos pratos de pimenta. Telefone: 031-11-3068-8605. Rua João Manuel, 1156 – Jardins - São Paulo.

- Daise Lopes - pesquisadora farmacêutica. Telefone: 031-21-2410-7441. E-mail: dlopes@ctaa.embrapa.br 

- Risoto de Pimenta: 

2 xícaras de arroz arbóreo (de fácil cozimento, para risoto);

2 xícaras de moranga cortada em cubos;

500 ml de água com um tablete de caldo de galinha diluído;

2 colheres de sopa de manteiga;

1 colher de sopa de alho amassado;

2 pimentas de tamanho médio, doce, tipo cambuci;

1 pimenta doce americana;

1 pimenta jalapeño.

Modo de fazer:

Coloque a manteiga para fritar com o alho. Jogue a moranga para fritar. Pique as pimentas - sem sementes - em rodelas. Refogue na mistura de manteiga e alho. Coloque na panela o arroz lavado e frita a mistura por 15 minutos. Jogue os 500 ml de água na panela. Ferva por 15 a 20 segundos, em fogo médio, com a panela tampada. Regule o tempo conforme o gosto da consistência do arroz. Se preferir, sirva com queijo ralado.

- Sorvete com calda de pimenta:

Use sorvetes de creme, flocos - evite sorvetes de frutas.

Para fazer a calda:

1 abacaxi tamanho médio;

500 g de açúcar;

3 pimentas vermelhas dedo-de-moça sem sementes.

Modo de fazer:

Pique o abacaxi, coloque no fogo com açúcar. Deixe uma hora fervendo tampado. Pique as três pimentas, coloque na fervura do abacaxi com o açúcar e cozinhe por mais 10 segundos. Mexa bem para a pimenta pegar na calda. Sirva quente em cima do sorvete. 

TOMATE:

- Pesquisas com tomate e outras frutas com licopeno na Faculdade de Engenharia de Alimentos - FEA, da Unicamp, em Campinas – Telefone: 031-19-3788-4097 - glaupast@fea.unicamp.br 

- Dr. Gustavo Sá - urologista, que trata os pacientes com licopeno. Telefone: 031-51-3233-4832. Rua Antenor Lemos, 57, conjunto 811 - Porto Alegre - RS.

MAÇÃ:

- Pesquisadores da PUC do Rio Grande do Sul que fazem pesquisa com a maçã. E-mail: dcpuc@terra.com.br 

- Prefeitura de Veranópolis, terra da longevidade. Telefone: 031-54-441-1477.

Receita do Chá de maçã:

Uma maçã com casca, cortada em rodelas;

Um punhado de maçã seca;

3 a 4 cravos;

1/2 colher de chá de canela;

1 litro de água;

Modo de fazer:

Ferva a água com os ingredientes, por no mínimo 1h. Caso não encontre a maçã seca, pode fazer só com a maçã comum.

BANANA:

- Heloísa Freitas Valle - Ex-bananicultora que inventou a comida com a fibra da banana. Telefones: 031-11-3487-2065/3088-1513. E-mails: noelj@uol.com.br  filhmjm@ig.com.br 

- Dra. Valéria Paschoal - nutricionista que fala das propriedades da banana. Telefone: 031-11- 6966-6089 (VP Consultoria Nutricional). E-mails: nutrival@uol.com.br  artnutri@artinutri.com.br 

- Dr. Franco Lajolo - médico da USP que fala das pesquisas. Telefone: 031-11-3091-3656.

- Receitas da Biomassa de Banana Verde:

Lave bem com esponja e detergente 10 bananas verdes cortando as pontas sem deixar aparecer a polpa (a que tiver o custo mais acessível na região). Em seguida, leve em uma panela de pressão de sete litros com água fervendo, suficiente para cobrir as bananas. Conte oito minutos a partir do início da pressão da panela. Separe as cascas das polpas e num processador leve apenas as polpas bem quentes para processar, até que fique uma massa homogênea. Leve em um recipiente plástico e armazene em geladeira. Prazo na refrigeração: uma semana. Use apenas material de inox no processo, para não oxidar.

- Sucoban de laranja—Ingredientes:

- 4 colheres de sopa de biomassa de banana (desmanchada em 1/4 de copo de água quente);

- 600 ml de suco de laranja (natural ou pronto).

Modo de preparo:

Bata a biomassa dissolvida em água quente no liquidificador e acrescente o suco de laranja. Se preferir mais doce, acrescente açúcar ou adoçante a gosto. Sirva gelado ou sem gelo.

- Feijão Enriquecido com Biomassa—Ingredientes:

500 gramas de feijão: carioca, rosinha, roxinho ou de sua preferência;

5 litros de água para cozinhar;

0,5 colher das de café de colorau em pó ou urucum;

250 gramas de biomassa (sempre diluída em água quente);

temperos: alho, cebola, ou outros de sua preferência;

1 cubo de tempero próprio para feijão (se preferir).

Modo de Preparo:

Depois de cozido, tempere o feijão a seu gosto, retire oito conchas de caldo de feijão e leve ao liquidificador, onde já está a biomassa batida e o colorau em pó. Bata bem e retorne a mistura à panela do feijão já cozido. Deixe levantar a fervura e está pronto para servir. Desejando o caldo menos espesso, acrescente água fervendo e deixe ferver por mais alguns minutos e veja o ponto de tempero.

- Arroz Cascaban—Ingredientes:

2 xícaras de chá de arroz agulhinha;

500 gramas de casca de banana verde cozida e picada;

50 gramas de queijo ralado;

Sal a gosto;

1 colher das de sopa de margarina.

Modo de Preparo:

Cozinhe o arroz normalmente com os temperos de sua preferência. Num recipiente próprio para forno, despeje o arroz cozido, a casca da banana cozida, picada em cubinhos pequenos, e margarina. Desejando enriquecer mais, acrescente cenoura ralada. Se desejar: pulverize com queijo ralado e leve ao forno para gratinar. Se não deseja tão misturado, acrescente, apenas, a casca da banana verde picadinha.

- Viradinho de Casca de Banana Verde—Ingredientes:

Casca de 5 bananas verdes e picadas;

2 colheres (sopa) de cebola picada;

3 ovos inteiros grandes;

300 g de queijo parmesão ralado;

1/2 xícara (chá) de óleo;

1 limão grande, água.

Modo de Preparo:

Lave bem as bananas e cozinhe-as na panela de pressão por oito minutos. Depois, separa a polpa da casca. A casca será colocada numa vasilha com água e limão por meia hora ou até que saia toda a oleosidade. Corte-a com uma tesoura e, novamente, deixe de molho na água com limão por mais 10 minutos. Logo depois, escorra a água e refogue, numa panela, a casca com óleo, cebola e sal. Quando estiverem bem cozidas, junte os ovos e mexa com uma colher. Se preferir, acrescente queijo ralado e sirva imediatamente.

- Carne Moída Ban—Ingredientes:

300 gramas de carne moída;

700 gramas de casca de banana verde picada (igual o procedimento da casca da receita anterior);

Alho, cebola, pimentão, tomate, sal a gosto, salsa (temperos);

2 colheres de óleo.

Modo de preparo:

Numa panela, coloque óleo, deixe o alho dourar, coloque a cebola e acrescente no refogado a carne e deixe refogar bem. Junte as 700 gramas de casca de banana picadas em cubinhos (o tomate picadinho, o pimentão - se preferir). Coloque 1/4 de copo de água, sal e mexa, tampe e deixa abafar. Por último, coloque salsa picada e é só servir.

- Iogurte ban:

2 iogurte líquidos sabor frutas vermelhas (200 ml cada);

2 colheres de biomassa de banana verde (previamente diluída em leite quente).

Modo de Preparo:

No liquidificador, leve a biomassa diluída no leite quente, bata até ficar cremoso. Acrescente o iogurte e leve à geladeira. É só servir.

CENOURA:

Pesquisadores que desenvolveram a cenoura com mais caroteno em Brasília. Telefone: 031-61-385-9110. E-mail: sac.hortalicas@embrapa.br 

OVO:

- Professor Dr. Pedro Alves de Souza - galinhas que comem carvão e produzem ovos “light”. Unesp de Jaboticabal - Departamento de Tecnologia. Telefones: 031-16-3209-2675/2676/2677, ramais: 241 (sala) e 245 (laboratório). E-mail: pasoz@fcav.unesp.br 

“PIZZA” COM FIBRAS SOLÚVEIS:

- Patrícia Nunes - técnica em alimentos e estudante de Farmácia, www.pizzafibra.hpg.com.br pizzafibra@ieg.com.br 

GRÃOS: AMARANTO E QUINOA - GRÃOS SEM GLUTEN:

- Humberto Pelizaro - Da família naturalista que come e comercializa grãos, quinoa e amaranto. Telefone: 031-61-274-9510. W3 Norte, quadra 715 - Bloco F - LOJA 63.

- Carlos Spehar - pesquisador que trabalha com quinoa e amaranto. Telefones: 031-61-388-9965/388-9865.

- Associação Nacional de Produtores de Quinoa. Telefones: 031-11-3064-9564/3088-3487.

GLOBO-REPÓRTER: SAÚDE À MESA-19 DE JULHO DE 2002.

LOUCOS POR CARNE.

Para a maioria dos brasileiros, comer sem ela é uma tortura. Não há prazer na mesa se faltar a carne. Vermelha, de preferência. Pode ser assada, frita, cozida, de qualquer jeito, mas bem temperada. As pesquisas comprovam: no Brasil, uma pessoa come, em média, quase 40 quilos de carne bovina por ano. O rebanho é do tamanho da população: 170 milhões de cabeças. Um boi para cada brasileiro. E ninguém neste país entende mais do assunto do que o povo do Rio Grande do Sul. Faz bem ou faz mal à saúde? A maioria dos gaúchos tem noção dos riscos e benefícios da carne vermelha. Mas, para eles, o que menos importa é o teor de proteínas e toxinas. Importante mesmo é o sabor. E, no Rio Grande, carne saborosa vem sempre acompanhada de um ingrediente perigoso: a gordura. Gostosa e gordurosa. Mas no Rio Grande do Sul não se faz churrasco sem costela. É o que dizem dois doutores gaúchos: Fernando Lucchese, cardiologista, e José Antônio Pinheiro, gourmet, doutor nas especialidades da carne. Para ele, só há uma parte do boi capaz de concorrer com a costela: uma gorda picanha. É regra básica do mercado bovino gaúcho: carne magra, sinônimo de prejuízo. Um empresário vende 25 toneladas por mês. Venderia mais se traseiros encalhados no frigorífico também fossem gordos. Não tem jeito. Talvez seja mais fácil fazer o boi voar do que convencer o gaúcho a comer carne sem gordura. "Acho que é uma negociação mais complicada que a negociação da dívida externa", brinca doutor Lucchese. Como bom cardiologista, vive tentando mudar o cardápio do seu amigo gourmet. O hábito é cultural, segundo os especialistas. A carne interfere até na arquitetura das cidades. Construir prédios sem chaminés, em Porto Alegre, pode não ser um bom negócio. É que os gaúchos levaram a churrasqueira até para dentro dos apartamentos. “É como banheiro, tem que ter", diz o empresário Ivan Pinheiro Machado. Os médicos advertem: as mulheres gaúchas também são vítimas dos males da carne. "O Rio Grande do Sul tem a maior incidência de câncer de mama do país. E temos um dos maiores índices de colesterol do Brasil, com grande incidência de enfartos e doenças coronárias", revela o cardiologista. Há quatro anos as biólogas Ivana da Cruz e Maristela Taufer trabalham em uma pesquisa que investiga a herança genética dos brasileiros. O estudo revela que o gene responsável pela vontade de comer carne está relacionado à serotonina, uma substância que regula o nosso sistema nervoso, encontrada em proteínas de origem animal. "O que se viu é a que as pessoas comem muito mais carne quando têm a variante que precisa da serotonina", explica a geneticista Ivana.

DIETA VERDE.

Em uma fazenda no sul de Minas Gerais vivem monges que herdaram de seus ancestrais hábitos milenares, costumes sagrados dos grandes mestres indianos. Da vaca, só o leite para fazer iogurte. Da terra, quase tudo o que ela produz: frutas, grãos, verduras. Há milhares de anos a pimenta faz parte do cardápio dos monges. Receita da medicina védica, a mais antiga medicina do mundo. “Usamos em pouca quantidade, como remédio", diz o monge Dada Siddhesh. Mas a comida tem que ser farta. A recomendação é da doutrina indiana. A cozinha é uma das áreas sagradas da fazenda. É lá que eles buscam manter a força e o equilíbrio espiritual, alimentando bem o corpo. Uma comida que consideram muito saudável é a feijoada - vegetariana, lógico. Uma feijoada rica em ingredientes. Como em qualquer feijoada, vai tudo para a panela. Só falta a carne. Mas isso eles não querem nem ouvir falar. “Os grandes animais são vegetarianos - o elefante, o cavalo. O ser humano não precisa de proteína animal. Se comermos vegetais, frutas e grãos, teremos todas as proteínas", justifica Dada Siddhesh. Para eles, os vegetais também evitam um drama de consciência na hora de comer. Uma jovem alemã, adepta da doutrina dos monges, diz que carne significa morte. "Eu vi como eles matam os animais. A carne é cheia de sofrimento. Agora tenho consciência de que é um pedaço de morte", diz Anne Schultheiss, fisioterapeuta. Mas até nos vegetais há restrições. Alguns eles não podem comer. Existem dois ingredientes que são proibidos no cardápio dos monges: o alho e a cebola. Por quê? O alho e a cebola estimulam os chacras básicos e agitam nossas mentes. Para a prática de meditação, você tem que estar mais tranqüilo. Segundo o doutor Mauro Fisberg, especialista em nutrição, os vegetais podem mesmo alimentar, inclusive o espírito. Mas o corpo precisa também de outros nutrientes. De proteínas que só existem na carne, como a vitamina B12, muito importante para o nosso sistema nervoso. "Ela pode dar alterações no funcionamento cognitivo, relacionado com a inteligência, a memória e o aprendizado, e levar a alterações importantes do funcionamento do dia-a-dia”, alerta o nutrólogo Mauro Fisberg. O bom senso na hora de comer é a melhor receita para uma alimentação saudável, diz o doutor Mauro. 

REPOSIÇÃO HORMONAL SEM REMÉDIOS.

Os grãos amarelos guardam uma riqueza. Além de fontes de proteínas, a soja contém fito-estrogênio, isoflavonas, a versão natural do mais importante hormônio feminino, que regula a sexualidade, o envelhecimento, a memória, a rigidez dos ossos. Essa grande aliada feminina, os asiáticos conhecem há muito tempo. Na Coréia, por exemplo, onde a soja é à base de toda a alimentação, cada pessoa consome em média vinte gramas de grãos por dia, sob diversas formas. Já está provado que é isso que garante às coreanas o índice muito baixo de câncer de mama. Apenas três casos em cada cem mil mulheres. No Brasil a história é outra. Somos o segundo produtor mundial, com 41 milhões de toneladas na última safra, mas o consumo interno é insignificante. E que diferença isso faz! Entre as mulheres na menopausa que fazem reposição hormonal - e são cerca de quatro milhões -, poucas usam o hormônio natural. A grande maioria faz a reposição convencional, com hormônios sintéticos, enfrentando os riscos já conhecidos dessa medicação que vão do aumento dos casos de câncer de mama, a problemas cardíacos e derrames. Para repor hormônios na menopausa, só a alimentação não é suficiente. Entram em cena as cápsulas de isoflavona, o extrato de soja concentrado e o gel feito com inhame. A psicóloga Maria Lúcia Horta toma os hormônios naturais há quase oito anos, depois de várias tentativas com os hormônios sintéticos. “Cheguei a tentar vários tipos diferentes, dosagens diversas, todos os mais poderosos que iam chegando ao mercado o meu ginecologista mandava experimentar e nada funcionava bem. Com os fito-hormônios passou tudo, não sinto mais nada”, conta. Solange Lima, terapeuta energética, ainda nem chegou na menopausa. Mas já sente os efeitos desse período. “Comecei com muita depressão, o sono piorou bastante, muita insônia, dificuldade de dormir, acordar e não voltar a dormir e os calores noturnos. Nunca me agradou muito tomar hormônio sintético, queria alguma coisa alternativa”, conta. “Além dos sintomas clínicos da menopausa, que seriam fogachos, ondas de calor, depressão, tontura, vertigem, formigamento, que fazem parte dos sintomas da menopausa, observamos que a melhora foi de 85% das pacientes que fizeram uso da isoflavona”, revela Kyunk Koo Han, ginecologista da Universidade Federal Paulista. Mas o cardiologista Otávio Gebara adverte: a isoflavona é um medicamento, pode ter efeitos colaterais, e não deve ser usada sem critério. “Tem que ter um acompanhamento do ginecologista. Não acredito que o uso de isoflavona, de compra livre no balcão da farmácia ou loja de produtos naturais, seja recomendável ou seguro”, alerta o médico.

”DIET” X “LIGHT”.

O brasileiro está mais “diet”, ou, pelo menos, tenta ser. A cada ano, dezenas de novos produtos chegam ao mercado. Para alguns, promessa de saúde. Para a maioria, o desejo da beleza. Nesse mundo de silhuetas bem delineadas, homens e mulheres, aos poucos, trocam as delícias do verbo comer pela difícil tarefa de resistir. As sobremesas conquistaram paladares em todo o mundo, mas as preferências estão mudando. Nas casas de doces, o desafio é retirar destas maravilhas dois ingredientes que fazem mal à saúde: gordura e açúcar. O cardápio é variado, mas levar à mesa o prato certo exige conhecimento. Afinal, o que é “diet” e o que é “light”?  “Diet” é um produto que não tem um ingrediente na sua composição. Essa retirada tem uma finalidade terapêutica. Por exemplo: existem diabéticos que não podem consumir açúcar. Neste caso, o “diet” para o diabético é sem açúcar, e deve estar no rótulo. “Ele pode ser “diet” para hipertenso, sem sódio”, explica a nutricionista Adriana Pelloggia. “O “light” é aquele alimento que teve uma restrição de, no mínimo, 25% de um ou mais de ingredientes, como açúcar ou gordura”, continua a nutricionista. Na teoria, é simples. Na prática, nem tanto. Diante das prateleiras, começam as confusões. Por exemplo: quem nunca, durante um regime, tentando perder alguns quilinhos, não experimentou um chocolate “diet”? Afinal, o nome já diz: é “diet”. Não engorda. Certo? Errado! A mistura que enfeitiça tanta gente vira “diet” com a retirada do açúcar. Mas as gorduras continuam lá. Em alguns casos, para dar consistência ao chocolate, as indústrias até aumentam o teor de gordura. Em uma casa, produtos dietéticos estão nas refeições de todo dia. Pai, filha e neta são diabéticos. A variedade de produtos “diets” não é problema. A queixa é contra os rótulos. “Tenho que ler a embalagem inteirinha. Não pode ser só a formulação”, diz Graça de Carvalho Câmara, Diretora da Associação de Diabete Juvenil. A nutricionista Adriana Pelloggia acompanhou durante três anos um grupo de 390 consumidores de produtos dietéticos. Descobriu que muitos abandonam a dieta logo depois das primeiras confusões com as embalagens. “Isso pode levar os indivíduos a não acreditar no produto. Não porque realmente não é confiável, mas porque a leitura do rótulo dificulta a interpretação e a sua finalidade”, revela Adriana. A clareza que o consumidor deseja, já é lei. E já deveria estar nas embalagens. "Os rótulos dos produtos “lights” devem informar o nutriente do qual o produto é reduzido. No caso dos alimentos “diets”, devem dizer o nome convencional do alimento e a finalidade a que ele se destina", declara Antônia Maria de Aquino, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Para os refrigerantes, a regra é outra, definida pelo Ministério da Agricultura. Seja “light” ou “diet”, a bebida não pode receber nem um grama de açúcar durante a fabricação. Apenas adoçantes e uma pequena quantidade de frutose, o açúcar natural da fruta, no caso, por exemplo, de refrigerantes de limão ou laranja.

LEITE SEM GORDURAS.

O mundo “diet/light” em breve vai ganhar uma nova bebida, bem mais saudável: leite com baixo teor de gordura, direto do curral. Cientistas finlandeses, americanos e brasileiros estão em busca do superleite. E já colocaram as vacas de dieta. O segredo para ter leite “light” direto da vaca está em um ácido, produzido em laboratório a partir do óleo de soja que está sendo misturado à alimentação dos animais. Uma vez colocada na ração das vacas, a substância é absorvida pelo animal e faz com que sintetize menos gordura. A cor do leite é a mesma. Tem um sabor um pouco mais fraco do que o leite integral. “O leite de uma vaca que recebeu a ração comum, tem 3,5% de gordura. E o leite da vaca que recebeu o composto tem 2% de gordura. Portanto, há uma redução de 40 a 50%. É o equivalente ao leite semidesnatado que a gente encontra no comércio”, explica Dante Pazzanese Lanna, do Laboratório de Nutrição Animal da Usp. “O que sabemos é que esse produto tem um efeito benéfico para a saúde, porque tem a propriedade de inibir o aparecimento do câncer. Isso está muito bem mostrado em pesquisas feitas em tumores de mama, próstata e pele”, revela o pesquisador. Provar que o leite, mais magrinho, também pode evitar o câncer, ainda leva tempo, é o novo desafio dos pesquisadores em busca do alimento perfeito.

JOVENS, RICOS, FAMOSOS E VEGETARIANOS.

Eles são vegan. O apelido da moda para vegetariano. Jovens, famosos, não comem carne de jeito nenhum. Ser vegan é a palavra de ordem em Hollywood. Drew Barrymore, Joaquim Phoenix, Alicia Silverstone, Ashely Judd, todos são vegan. A cantora Shania Twain acaba de ser eleita a vegan mais sexy. Uma prova da revolução na imagem das vegetarianas. Agora elas são exuberantes, bonitas e gostosas, vendendo saúde. Nada daquela imagem raquítica e pálida do passado. O movimento vegetariano está nas capas das revistas e nos supermercados. Há uma enorme variedade de produtos sem nenhum ingrediente de origem animal. E restaurantes com o último grito da cozinha vegan. A grande novidade em comida vegetariana em Nova York é um restaurante que oferece uma refeição com um prato indiano, outro de origem chinesa. A sobremesa é francesa e tem até hambúrguer. A diferença é que lá nada é cozido - tudo é feito com vegetais crus. A chinesa Tolentin Chan é a dona e “chef” da Quintessence, uma cadeia que já tem três restaurantes. Tolentin era modelo e começou a comer tudo cru há cinco anos. Ganhou mais saúde e energia e resolveu cozinhar, ou melhor, preparar tudo cru para os outros. Em um forno de baixa temperatura, no máximo 90 graus, ela desidrata os alimentos para fazer bolinhos e hambúrgueres vegetais. Por que comer tudo cru? Segundo Tolentin, isso preserva as enzimas dos vegetais, que são destruídas no cozimento. E ajudam na digestão. O resultado é atraente e muito saboroso. Uma pesquisa da Revista Time revela que mais de dez milhões de americanos são vegetarianos. Um número bem maior complementa a dieta vegetariana com peixe e laticínios, mas evita a carne. O nutricionista John La Rosa aprova a dieta. Ele é o presidente do centro médico da Universidade de Nova York e um dos mais respeitados pesquisadores de nutrição nos Estados Unidos. “A dieta vegetariana é saudável, mas não é necessária”, diz. Não faz mal comer também peixe e laticínios sem gordura. Mas a gordura de origem animal deve ser evitada. O doutor La Rosa faz um alerta: uma boa dieta vegetariana tem que incluir alimentos ricos em proteínas vegetais, como feijões e nozes. O problema é que os jovens embarcam na moda vegan sem muita informação. Acham que basta substituir o hambúrguer pelo sanduíche de salada e ficam subnutridos. Gibby e Patty são vegetarianos há 30 anos e cheios de energia. Eles mostraram como escolher alimentos para compor uma dieta vegetariana equilibrada. Há uma grande variedade de feijões, todos com muita proteína. Produtos como tofu e tempeh, à base de soja, e seitan, feito com trigo, são ricos em proteína. A abundância de cereais é impressionante. Nos legumes e verduras, Patty recomenda compor um arco-íris. A variedade de cores oferece um leque de vitaminas. E para a sobremesa, sorvete feito com arroz. Gibby garante que é uma delícia.

BODE É “LIGHT”.

Vida dura é com ele mesmo. O bode resiste às maiores adversidades, sobrevive às piores secas, come o que encontra na caatinga. Animal rústico, exige poucos cuidados, quase nada de investimento e por isso é um companheiro histórico do sertanejo. Desde muito cedo. Bode assado, bode grelhado, lingüiça, hambúrguer, almôndega e quibe de bode! Para todos os gostos. Tem bode de sobra no Nordeste. Na região estão 90% do rebanho brasileiro de caprinos. E os criadores apostam que uma nova descoberta poderá multiplicar o consumo: bode é “light”. O bode tem bons motivos para justificar a fama. Os especialistas garantem que entre as carnes vermelhas, a de bode é a mais magra - tem a metade das calorias da carne de boi. O pequeno valor calórico é semelhante ao das aves. E as vantagens não param por aí. O bode alimenta mais e engorda menos do que a carne de boi. Tem seis vezes menos gordura, mas tem a mesma quantidade de proteína e de ferro. "O bode é “light”, principalmente o cabrito. A exemplo de outros animais, agora é a vez do cabrito ser industrializado", diz José Carlos Nascimento, engenheiro agrônomo da Universidade Federal da Paraíba. A fama de que bode é “light” acabou abrindo o apetite dos consumidores e atraindo investimentos. Se antes o bode era servido em restaurantes pequenos no sertão, hoje é o carro-chefe do cardápio de grandes restaurantes nas capitais nordestinas. O bode virou prato principal. Só em um restaurante no Recife, é matéria-prima para 15 receitas diferentes. O leite também tem fama de bom. É mais digestivo e faz tão bem quanto o leite de vaca. "Pode ser ingerido por crianças, adultos, idosos, pessoas convalescentes e as que têm intolerância ao leite de vaca. O leite de cabra pode substituir o leite de vaca tranqüilamente", diz Juliana Nóbrega, técnica em alimentos da Universidade Federal da Paraíba. É por isso que no sertão tem um ditado que diz: “Da cabra, nada se perde. Nem o berro".

INFORMAÇÕES ÚTEIS.

CARNE:

- José Antônio Pinheiro Machado – gourmet, com programa de TV na PBS, em Porto Alegre, defende a carne vermelha com bom humor. Telefone: 031-51-3228-1416. E-mail: anonymus@terra.com.br 

- Fernando Antônio Lucchese - médico cardiologista de Porto Alegre, fala sobre a carne. Endereço: Rua 24 de Outubro, 650, sala 501. Telefones: 031-51-3222-3595/7116.

- Ivana da Cruz - geneticista que faz as pesquisas a respeito da compulsão pela carne ser genética. E-mail: dcpuc@terra.com.br 

- Organização Ananda Marga - onde se formam os monges vegetarianos. Telefones: 031-21-2255-5549/2236-4754. Endereço: Travessa Santa Leocádia, 30 - Copacabana – Rio.

- Mauro Fisberg - médico nutrólogo, afirma que o corpo precisa de proteínas. Telefone: 031-11- 5575-3875.

- FEIJOADA VEGETARIANA—Ingredientes:

Feijão.

Legumes, que podem ser: inhame, abóbora japonesa com casca, cenoura, beterraba, vagem, couve-flor.

Provolone defumado.

Tofu.

Glúten.

Molho de soja.

Gengibre (ralar).

Ervas em geral.

Pimentão.

Modo de fazer:

Cozinhar o feijão por 20 a 30 minutos. Cozinhar os legumes de 8 a 10 minutos, sem deixar desmanchar. Fazer o refogado.

Refogado:

Esquentar o óleo e colocar gengibre ralado, as ervas, o glúten, tofu, molho de soja e pimentão, sal e pimenta. Refogar por um tempo e misturar os legumes e o feijão.

HORMÔNIOS:

- Doutor Yukio Moriguchi - geneticista da PUC do Rio Grande do Sul que trata da colônia japonesa. E-mail: dcpuc@terra.com.br

- Jane Corona - médica nutróloga, que recomenda soja e salada para ajudar na reposição hormonal.

Telefone: 031-21-2496-3768.

- SALADA RICA EM FITOHORMÔNIOS:

Tofu (Estrogênio), orégano e/ou tomilho (progesterona), azeite e sal para temperar, maçã, agrião, brócolis, rúcula, chicória.

(Todos contêm indóis que ajudam a metabolizar estrogênio).

Semente de linhaça e/ou gergelim.

Pão de linhaça.

- SUCO RICO EM CÁLCIO, PARA COMBATER A OSTEOPOROSE:

Couve + salsa + suco de laranja (tem a vitamina C que transforma o carbonato de cálcio em citrato, que aumenta a absorção). O suco tem: cálcio, magnésio, ferro, indol e fitohormônio.

- Kyung Koo Han - ginecologista da Universidade Federal de São Paulo que pesquisa a isoflavona da soja. Telefone: 031-11-5044-2963.

- Otávio Gebara - cardiologista que fala dos efeitos colaterais da isoflavona. Telefone: 031-11- 3040-8001.

“DIET” E “LIGHT”:

- Walmir Coutinho - endocrinologista “diet” e “light”. Telefone: 031-21-2493-5764.

- Adriana Garcia – médica que fala sobre a diferença de “diet” e “light”. Telefone: 031-11-9304-7717.

- Leite “diet” e anticâncer direto da vaca - faculdade Esalq – Piracicaba. Professor Dante Pazzanese Lana.

E-mail: lnca@esalq.usp.br Telefone: 031-19-3429-4478.

CARNE DE BODE:

- Local de criação de bode na Paraíba - Município de Cabaceiras. Telefone: 031-83-356-1117.

- Restaurante "O Amigo Bode". Telefone: 031-81-3466-2023. Endereço: Rua Marquês de Valença, 30 – Boa Viagem.

GLOBO-REPÓRTER: COMER ERRADO—13 DE DEZEMBRO DE 2002.

DIETA COMUNITÁRIA.

Algo de novo no horizonte de Lagoa dos Três Cantos. Na pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, há um movimento que, seis meses atrás, era impensável. O batalhão toma conta das ruas, é concentrado, ritmado e caminha unido em uma só direção: perder peso. Muitas toneladas! Mas como emagrecer com tanta fartura? Um terço dos moradores da cidade está fazendo dieta. Mais de 500 pessoas contando pontos em todas as refeições. O sistema permite comer de tudo, com controle da quantidade. Até a festa típica não é mais a mesma. Antigamente, os descendentes de alemães faziam da comemoração uma comilança. Em tempos de emagrecer, o almoço é simples: churrasco e saladas. Em pouco tempo de esforço, muita gente já tem o que comemorar. O sorriso da dona de casa Noeli Hoffmann vem de uma grande conquista. A cada regime, voltava a engordar em dobro. E era urgente emagrecer: o excesso de gordura ameaçava seriamente o coração. Hoje, no lugar da carne de porco, o destaque são as duas travessas de salada. Pobre do agricultor Elênio, marido de dona Noeli, que perdeu dez quilos, e nem precisava. A esposa perdeu outros 13 quilos. No total, a família ficou 40 quilos mais leve. Descobrir coisas gostosas que não engordem chega a ser motivo para competição nas aulas de culinária. O curso é outra novidade na cidade que decidiu enterrar o título de "mais gorda do Brasil". Quem diria: cuca “light”? E justo a cuca, que parecia o inimigo mortal da dieta! A cuca foi conhecida na padaria de Ivaldo Borghetti em fevereiro deste ano. Era véspera do regime coletivo na cidade e parecia que a cuca estava condenada à extinção. Mas, dez meses depois, a surpresa: a padaria está vendendo cuca como nunca. A freguesia local encolheu, com tanta gente de dieta. Em compensação, a fama aumentou o mercado externo. Com o novo forno, seu Borghetti quer passar a produção semanal de 300 para 2 mil cucas. No comércio da cidade, o novo padrão de qualidade é “tudo sem gordura”. Os fregueses fazem compras fugindo das calorias. Um pedaço de carne, que era consumido em dois dias, hoje rende o almoço da semana inteira. E ninguém reclama de comer menos. O esforço traz como recompensa a solução para problemas que pareciam insolúveis. O casal Petry está 26 quilos mais leve. É uma alegria que vai contaminando vizinhos, amigos e que prepara a turma para a segunda etapa do projeto: a atividade física. São caminhadas, aulas de aeróbica e a rotina da cidade, aos poucos, vai mudando radicalmente. E a vida das pessoas também. A agricultora Rejane Fries emagreceu 35 quilos. Junto com a auto-estima, veio um guarda-roupa totalmente novo. Sobraram uma antiga blusa de malha, que é quase um vestido, e uma calça jeans, que dispensa comentários. Quando o regime começou, o objetivo era de que cada morador da cidade perdesse 5% do peso. Mas o grupo, que levou a dieta a sério, superou a meta: chegou a 8%. Todos juntos, conseguiram perder 3,5 toneladas! As próximas gerações, provavelmente, não terão todo esse problema. O cardápio nas escolas também mudou. A criança aprende, desde cedo, o jeito certo de comer: sem frituras e gorduras; com muitas verduras e frutas.

CRIANÇAS NA COZINHA.

Algumas crianças já deixaram a mamadeira faz tempo, mas ainda não aprenderam a comer. É um longo caminho, de cheiros, sabores, comportamentos. Com 6 anos de idade, no máximo. Estão em uma aula de culinária onde têm uma missão muito importante: ensinar o boneco Boca-Mole a comer direito. A professora Ciça Ferreira é a mãe do Boca-Mole, um personagem cheio de problemas. Enquanto as crianças ajudam o boneco, elas é que superam suas próprias dificuldades. Legumes e verduras são sempre o capítulo mais difícil. A primeira vez de uma alface pode ser terrível. Mas, com um pouco de insistência, até a salada fica apetitosa. Na escola, tudo certo: João e a irmã Júlia comem o lanche sem reclamar. Em casa, cada refeição é uma queda-de-braço com a mãe. As crianças aprontam tanto que a mãe entrega os pontos: o almoço fica esquecido. Eles atacam a sobremesa e João dá um novo “show”, pois só quer saber de guloseimas. Júlia exagera: repete o prato até quatro vezes. Na casa de Cláudia da Purificação, mãe de Bianca e Matheus, nenhuma confusão na mesa. Ela pilota o fogão repetindo a tradição da família mineira. As crianças adoram. Tudo é permitido e está ao alcance, a qualquer hora. Lanche antes do almoço, pode. Pipoca e televisão à tarde, também. Ninguém é obrigado a comer o que não gosta. Desde que nasceu, Nicole passa a maior parte do dia com a avó. Foi com ela que aprendeu a comer de tudo. Até a mãe reconhece que ela comia as coisas mais detestáveis para a maioria das pessoas, como jiló, quiabo, bife de fígado. Mas a mesma avó que fez o milagre, agora quer agradar a netinha com um armário cheio de guloseimas. Nicole, que até os 2 anos não sabia o que era refrigerante, agora não vacila quando tem sede: assalta o cantinho da vovó. “A idéia de fazer esse cantinho do lanche é chamego de avó mesmo”, admite dona Lalá. A mãe, dentista, trabalha o dia inteiro, mas vigia de perto os hábitos da filha. No primeiro ano de vida, os bebês precisam de muito alimento para garantir um crescimento rápido. Ganham de nove a dez quilos. A partir dos 2 anos, tudo vai mais devagar. Aumentam, em média, dois quilos por ano. As crianças já não querem comer tanto. Mas as mães se apavoram com a "falta de apetite". “Muitas vezes, cometem erros terríveis, como mamadeira aos três, quatro anos. Até para a mãe ficar sossegada, porque a criança não comeu nada, mas pelo menos tomou a mamadeira. Conclusão: essas crianças acabam ficando obesas na maioria das vezes, porque comem muito mais do que deveriam", alerta o pediatra e nutrólogo Ari Lopes Cardoso. Cláudia sabe de tudo isso. A filha, de 8 anos, já está cinco quilos acima do peso ideal. As crianças se acostumaram. A mãe não consegue mudar. Não quer abrir mão do prazer de comer. Hábitos errados, que viram rotina, trazem resultados perigosos. Doenças que só apareceriam na vida adulta acontecem hoje cada vez mais cedo. “Pequenos erros diários vão levar a criança a uma vida adulta repleta de erros, principalmente pela obesidade e suas conseqüências: diabetes, hipertensão, doença cardiovascular. Manter horário e disciplina é fundamental. Em casa que não tem rotina, onde se come na hora que bem entende, com certeza esse filho vai ser um indivíduo com uma indisciplina alimentar para o resto da vida", observa o médico Ari Lopes.

EUA: UM PAÍS DE OBESOS.

Cesar Barber é o gordo mais famoso dos EUA. Entrou com um processo contra quatro redes de lanchonetes do país. Barber pesa 120 quilos e alega que ficou obeso, diabético e cardíaco por causa da comida. Poucos levaram o processo a sério, e ele virou até motivo de piada. Vai ser difícil convencer o júri de que foi vítima de um lugar onde se entupia de galinha, hambúrguer e batata frita. Em uma reunião de peso, dezenas de obesos recebem orientação em um hospital de Nova York para fazerem a cirurgia de redução do estômago. Uma medida extrema para quem não consegue perder peso por meios tradicionais. Consideram-se mais vítimas da genética e da gula do que da indústria alimentícia. A iniciativa de Barber pode levar a indústria alimentícia a enfrentar uma crise semelhante à do cigarro. Os ex-fumantes insistiram 30 anos processando fabricantes e venceram: receberam milhões e provaram que fumar faz mal à saúde. A nutricionista Marion Nestle espera que processos como o de Cesar Barber façam a indústria da alimentação acordar. Segundo ela, os bilhões de dólares gastos na propaganda de alimentos são a principal causa da epidemia de obesidade nos EUA. Em 20 anos, os obesos passaram de 10% para um terço da população do país. Dois terços dos americanos estão acima do peso. Isso agora vai piorar, porque a epidemia atinge as crianças. Tanto que 20% delas já são obesas. Entre os negros é pior: mais de 30% das crianças negras sofrem de obesidade. Uma das grandes indústrias americanas de “fast-food” já reagiu e anunciou que está usando um óleo mais saudável nas frituras. Mas a nutricionista afirma que a mudança não significa muita coisa, pois a batata frita não perde uma única caloria. Hambúrguer, batatas fritas e refrigerantes - o total passa de 2 mil calorias. Uma criança precisa de pouco mais do que isso por dia. Ou seja, duas refeições diárias podem levar o organismo a acumular gordura. Marion Nestle acha criminosa a propaganda que leva as crianças a se tornarem dependentes da comida altamente calórica. O vício é alimentado diariamente até no colégio. Com os cortes nos orçamentos da educação e da merenda escolar, as escolas públicas se vêem obrigadas a aceitar a presença das redes de lanchonetes e marcas de refrigerante. Na única escola pública de Nova York que ainda não foi invadida pelas lanchonetes, os pais se mobilizam para manter um refeitório onde a comida é saudável. Tem carne, legumes e verduras bem preparados. A escola tem curso de culinária, onde a professora, que é caribenha, ensina a usar alimentos frescos. Os alunos são incentivados a cozinhar em casa. Eles admitem que gostam de comer em lanchonetes, mas só de vez em quando. Depois de aprenderem na escola os princípios da boa nutrição, sabem seguir uma dieta equilibrada. Resultado: ao contrário da maioria das salas de aula nos EUA, lá ninguém é obeso. A nutricionista acha que é dos pais a responsabilidade de ensinar os filhos a comer certo. O sabor artificial que dá gosto à comida industrializada é a arma secreta que torna o ‘fast-food” tão irresistível. Química para enganar e conquistar o nosso paladar. O maior fabricante de sabores artificiais do mundo tem filiais em dezenas de países, incluindo o Brasil. O chefe de pesquisa, o inglês Brian Grainger, é um alquimista do século 21. Animado, Brian Grainger acabou revelando sua nova criação, que está em fase de teste com crianças. Refrigerantes de cores berrantes que dão uma sensação de frescor na boca. Uma mistura de sabores artificiais de frutas com um novo produto químico, super secreto. Já dá para imaginar o efeito que a novidade vai provocar entre a criançada.

O PESO DA ALIANÇA.

Disciplina, persistência e muita transpiração. É o psicólogo Eduardo Casarin, lutando para perder os quilos que ganhou depois de casado. Ele é o exemplo típico de uma tese anunciada este ano pelos médicos: o casamento engorda. A rotina, a comidinha caseira, a tranqüilidade, tudo colabora. "Os estudos mostram que 50% dos casados aumentam até 20% do peso nos primeiros cinco anos do casamento, o que é muita coisa. Um homem de 70 quilos pode ganhar até 14 quilos nos cinco primeiros anos", diz Bruno Molinari, clínico geral. Os maridos são as maiores vítimas: para cada mulher, três homens engordam depois do casamento. Eduardo ganhou 12 quilos em um ano. E o magricelinho de antes, agora, tem até barriga. "Ainda não fiz as pazes com a barriga. Está aqui, mas não me pertence, vai ter que sair!”, brinca Eduardo. Gordo, não ficou, mas se continuasse aumentando um quilo por mês, o risco era grande. "Comecei a perceber que estava com uma disposição muito baixa, cansava-me rapidamente e estava ficando feio. Então, pensei: tenho que fazer alguma coisa. Aí, parei de fumar, comecei a fazer um pouco de exercício, nada tão forçado e a ter um pouco mais de critério para me alimentar", conta Eduardo.

CUIDADOS NA TERCEIRA IDADE.

Exercício obrigatório e reeducação alimentar. Tudo muito suave, sem exageros. A psicopedagoga Maria Isabel Vieira precisa emagrecer só um pouco, para não agravar um problema de coluna. "Quanto mais peso carregar na sua hérnia, pior. Então, estou evitando isso", conta a psicopedagoga. Ela tem 69 anos, e o melhor, nesta idade, é evitar os radicalismos. Por exemplo, comer muito no almoço e eliminar o jantar. Os geriatras recomendam comer de tudo e dizem que, assim, é possível emagrecer. "O certo é a gente tentar comer várias vezes ao dia, e sempre um volume pequeno. Não temos que ter medo daquilo que é chamado beliscar, precisamos ter horário para beliscar. Esses horários, a cada duas horas e meia, três horas, seriam indicados para qualquer pessoa, não só idosa. Porque isso facilita a digestão”, orienta Míriam Najas, geriatra e nutróloga. Com esse regime, dona Maria Isabel melhorou muito da osteoporose e se livrou das crises de dor nas costas. “Com a perda de peso, a melhora nas crises, vai ser possível evitar, por exemplo, uma cirurgia. Tenho esperança de que evite, porque faço exercício e tenho uma alimentação saudável para manter meu peso", comenta.

A NOVA MERENDA ESCOLAR.

Em Minas Gerais, tomar leite e comer bem se aprende na escola. É o que está acontecendo com cerca de 300 crianças de uma escola municipal de Ouro Preto. Estão experimentando um projeto-piloto de alimentação escolar. Para quem estuda cedo, tem café da manhã, lanche e almoço. A turma da tarde, começa almoçando, toma lanche e só vai para casa depois de jantar. Arroz, feijão, angu, quiabo refogado - comidinha mineira, da boa. "A dieta está atingindo cerca de 30 a 40% das necessidades nutricionais da criança. É um valor que a gente consegue suprir na metade do turno em que o aluno está aqui, com alimentos bem interessantes, para ela ter um bom desenvolvimento", observa a nutricionista Waleska Dornas. Acostumar os alunos com a salada é trabalho feito em mutirão. Professoras, merendeiras, todas unidas em campanha a favor da alface, do quiabo, de tudo o que os alunos rejeitam. "A gente vai incentivando e eles experimentam a gostam", comenta Fátima Faria, diretora da escola. Para muitas crianças, essa nova merenda escolar veio em boa hora: faltava comida em casa. "Com certeza, isso pode refletir no aproveitamento escolar deles. A certeza de ter o almoço e o jantar já dá uma tranqüilidade, para ele e para sua família. Estudar de barriguinha cheia é muito melhor", comenta a professora Raquel Guimarães. Se o projeto for aprovado, pode virar um modelo para as escolas públicas de todo o Brasil. É para isso que está sendo testado em Ouro Preto.

INFORMAÇÕES ÚTEIS.

- Os contatos com a cidade gaúcha de Lagoa dos Três Cantos e com o médico que criou a dieta dos pontos, o endocrinologista Alfredo Halpern, podem ser feitos através site www.emagrecendo.com.br 

- Colégio Lourenço Castanho - escola que tem aula de culinária para crianças utilizando o boneco "Boca-Mole". Telefone: 031-11-3842-2302.

- Escola Coruja - escola que dá pepino e tomate no lanchinho da tarde. Telefone: 031-11-3661-8107.

- Ari Lopes Cardoso - médico pediatra e nutrólogo, chefe do Departamento de Nutrição Infantil do Hospital das Clínicas em São Paulo. Telefone: 031-11-3069-8610.

- Míriam Najas - médica geriatra e nutróloga. Telefones: 031-11-3842-5144/3841-9497.

- Escola Municipal Alfredo Baeta - escola em Ouro Preto, Minas Gerais, que está testando projeto-piloto de merenda escolar. Telefone: 031-31-3551-2731.

GLOBO-REPÓRTER: NUTRIÇÃO POPULAR—14 DE FEVEREIRO DE 2003.

FIBRA MILAGROSA.

Os olhos brilhantes e a alegria no rosto não deixam dúvida: chegou a hora do almoço no Abrigo Tereza de Jesus, no Rio de Janeiro. O feijão da dona Helena faz sucesso entre as crianças pequenas. E entre as grandes também. E hoje em dia tem algo diferente no panelão. “É o feijão com pectina. Faz bem para as crianças e para os adultos. É rico em vitamina”, anuncia a cozinheira. Até para as cozinheiras pectina é novidade. Quem diria: depois de 30 anos cozinhando quase todos os dias, agora vão ter que aprender com a nutricionista um jeito diferente de fazer o feijão. É para aproveitar. “Quando fazemos uma geléia e fica aquela cremosidade, aquele gel, é a pectina. Quando deixamos o feijão de molho na geladeira e, durante a noite, em cima do caldo se forma uma camada de gel, também é a pectina”, revela Lucília Caldas, professora de nutrição da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio). Um tipo de fibra que está em todas as frutas e em grande número de vegetais. Funciona como uma espécie de faxineira: neutraliza substâncias nocivas ao corpo, antes que provoquem doenças. Mas como aproveitar a pectina do feijão? Em vez de deixar de molho por doze horas antes de cozinhar, é só ferver dois minutos e deixar descansar por uma hora, o suficiente para eliminar fungos e outros microorganismos. Depois, é só cozinhar normalmente o feijão por mais uma hora. Mas tem um segredo, que é o mais importante. “Não joguem a água em que o feijão ficou de molho fora. Ali também está a pectina”, ensina a professora. “A pectina tem um papel importantíssimo no nosso intestino. Impede algumas doenças, como o câncer, doenças cardiovasculares, provocadas por excesso de gordura que vão fazer mal ao homem”, explica. É só prestar atenção no cardápio para encontrar pectina por todo o lado: na batata, na cenoura. Depois de cozidas, deixam a pectina no caldo que fica na panela e que muita gente joga fora, sem saber. “Nessa água tem vitaminas (betacaroteno), minerais (potássio), fibras (pectina) e carboidratos”, conta Lucília. Junto com a nutricionista, as cozinheiras também se sentem pesquisadoras. “Acho que a cozinha é a mesma coisa que medicina. Sinto-me um pouco cientista”, diz uma delas.

DO SUCO AO BAGAÇO.

Outro alimento popular, que está na dieta de ricos e de pobres, é a laranja. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de suco de laranja do planeta. E tanto na indústria quanto em casa, quase sempre só o suco é aproveitado. O bagaço, a parte mais clara, ou vira ração para animais ou vai para o lixo. Seiscentas e quarenta toneladas por ano no Brasil. O número impressionou pesquisadoras da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), que sabem: o bagaço da laranja é uma das maiores fontes de pectina existentes na natureza. “A gente está perdendo uma substância importante, porque tem atividades terapêuticas no organismo, como a diminuição dos níveis de colesterol. Para aqueles que são diabéticos, atua diminuindo o teor de glicose no sangue. Também melhora o trânsito intestinal”, diz a professora de nutrição da Uni-Rio Simone Boekel. Então, por que não transformar o que era considerado lixo em ingrediente? O laboratório de nutrição se transforma em uma usina de idéias, e o bagaço em pedacinhos virou ingrediente nobre em uma receita. Nove colheres de bagaço e polpa de laranja picado, tudo misturado com a receita tradicional de bolo de laranja. O que era desperdício virou tentação nutritiva para o café da tarde. Quem resiste a essa pectina? “A casca de laranja poderá evitar que se venha a tomar remédios. Tem um efeito preventivo e até terapêutico, principalmente das doenças cardiovasculares e do diabetes tipo II. Não é um remédio, mas uma substância de alto valor fisiológico”, explica Wilma Turano, professora de nutrição da Uni-Rio. As cientistas descobriram que, além do suco, da laranja também sai farinha. O bagaço desidratado e moído fica parecido com farinha de mandioca e pode enriquecer bolos, massas e biscoitos. Cada cem toneladas de bagaço jogadas no lixo levam junto 17 toneladas de farinha, que poderiam estar alimentando a população.

REMÉDIO NATURAL.

Em uma casa, em Niterói, no Rio de Janeiro, todo o cuidado é pouco com a alimentação. E um legume recebe atenção especial: a berinjela. Nos últimos quatro meses, três vezes por semana tem berinjela no cardápio. Quem nunca experimentou um prato novo por sugestão dos parentes ou dos amigos? Comer algo diferente porque alguém disse que faz bem? No caso das doutoras em Ciência de Alimentos Maria Heidi e Sandra Derivi, o cardápio mudou não porque alguém sugeriu, mas porque descobriram um dos segredos da berinjela. Não foi na cozinha, mas entre os equipamentos do laboratório. Há dois anos as pesquisadoras da Universidade Federal Fluminense estudam a berinjela. Tentavam descobrir os efeitos da pectina na saúde das pessoas. Mas acabaram descobrindo outra substância misteriosa ao fazer uma experiência com as cascas do legume. Uma ração especial feita com elas foi testada em ratos com diabetes. Duas semanas depois, uma surpresa: a saúde das cobaias melhorou. Era como se os ratos nunca tivessem tido diabetes. Agora, as cientistas precisam descobrir qual é a substância misteriosa que parece fazer a berinjela funcionar como um remédio natural. “Ela deve ter uma freqüência grande na mesa dos que são diabéticos, porque a experiência com animais mostrou resultados muito significativos”, acredita Sandra. As pesquisadoras lembram: nem sempre vemos tudo o que está em nosso prato. “A gente não conhece tudo. Ainda existe muita coisa a ser descoberta. Muitas substâncias que talvez tragam benefícios à saúde e que melhorem a qualidade de vida das pessoas. É preciso trazer o almoço para o laboratório”, diz Sandra. Em casa, a professora Heidi vai além: é diabética e decidiu aplicar nela mesma os resultados da pesquisa. “A berinjela pode melhorar muito meu diabetes. Posso atenuar, diminuir com o tempo a medicação e, com isso, ter uma qualidade de vida melhor. É a minha esperança”, comenta a pesquisadora.

ALIMENTOS FUNCIONAIS.

Antes de sair para o trabalho, Eloísa já planeja as refeições do dia inteiro. Guilherme está de volta às piscinas, depois de mudar a dieta, que foi decisiva também para acalmar o irrequieto André. No caso de Beatriz, era uma questão de vida ou morte. O que essas quatro pessoas têm em comum? Precisaram trocar o cardápio para viver melhor. Guilherme sofria com uma dor forte no ombro. Descobriu que o problema estava no leite, consumido em grandes quantidades. Eloísa tinha enxaquecas diárias provocadas por chocolate e iogurte. André parecia ligado na tomada – salgadinhos e refrigerantes eram liberados - e Beatriz teve câncer de mama. “Abria latinhas e vidrinhos de conservas”, conta. Os quatro descobriram, a duras penas, que um prato bem feito pode prevenir e até curar algumas doenças. O licopeno do tomate, o magnésio da alface, o betacaroteno da cenoura. Já imaginou fazer a feira com uma receita médica na mão, encher um carrinho com substâncias que a gente não vê, mas que estão ali, nas frutas e verduras, e funcionam como remédio para o nosso corpo? Fica mais barato do que correr para a farmácia, depois que as doenças aparecem. Isso já é possível graças à ciência dos alimentos funcionais. "Alimento funcional é aquele que traz substâncias que podem prevenir e curar certas patologias, como as frutas, as verduras, os cereais integrais e vários tipos de ervas", explica a nutricionista Joselaine Stürmer. Ela não é médica, mas assina receitas que mudam a vida de seus pacientes. A dor no ombro de Guilherme era resultado de uma tendinite dos repetidos exercícios de musculação. "O leite dava inflamação nas articulações e, por isso, as dores. Ele é um caso bem específico, porque também queria ganhar massa muscular e diminuir o percentual de gordura. Tive que trocar uma proteína por outra. Onde tinha leite e derivados, a gente substituiu por soja e derivados”. Joselaine cortou 30 itens da alimentação de Eloísa, para descobrir a causa da enxaqueca que durante oito anos atormentou a paciente. O chocolate e o iogurte eram os grandes vilões, mas havia ainda um outro motivo. "Tomava café da manhã, almoçava e ficava a tarde inteira sem comer nada e depois só jantava. Isso também pode causar enxaqueca, porque é um intervalo muito grande entre as refeições", diz Eloísa Teixeira, administradora. 20% da população sofre com a enxaqueca, segundo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo. Eloísa criou nova rotina para manter a dor bem longe. "Todas as manhãs, preparo meu sanduíche, boto na sacolinha com frutas, meus lactobacilos e levo para o trabalho. Às 10h, faço um lanche, como uma fruta", conta a administradora. O almoço ao meio-dia não mudou. Às 15h, lactobacilos e às 17h, mais um lanchinho, sem dar tempo para a dor de cabeça voltar. Há oito meses, André era considerado hiperativo (agitado demais). Os remédios pareciam ser a melhor opção para tratar o menino de 9 anos. A nutricionista Joselaine descobriu o que deixava André agitado: não era a falta de medicamentos, mas o excesso de alimentos inadequados. "Todo alimento condimentado, com conservantes e acidulantes, pode provocar em algumas pessoas essa reação de agito. Muitas bolachas recheadas contêm chocolate, cafeína e o refrigerante também. Diminuímos e até tiramos esses alimentos e introduzimos aqueles que ajudam a acalmar - frutas, verduras, sucos naturais, saladas cruas”, diz a nutricionista. Para André mudar, a família inteira teve que mudar junto. Hoje, a nova dieta não é nenhum sacrifício. Os pais saem para trabalhar e ele faz sozinho o lanche da tarde. Como os salgadinhos sumiram da dispensa, aprendeu novas alternativas. "Antigamente, comia todo dia uma carne bem gorda, uma boa costela. Na hora do jantar vinha um prato bem consistente, com massas, salsichas, de que gostava muito", lembra a advogada Beatriz Cecchim. “Tenho certeza de que essa alimentação contribuiu para o câncer, porque era muito errada, já que baseada em gordura, embutidos e alimentos inadequados", comenta. Durante a quimioterapia, Beatriz percebeu como os alimentos eram importantes para reforçar o organismo debilitado. Quando o tratamento mais pesado terminou, a comida virou prevenção. A salada é o prato de quase todas as noites. Ela dispensa o sal: uma pitada de especiarias é o único tempero. É claro que não vive só de salada. A alimentação faz parte do esforço de Beatriz para ter uma vida mais equilibrada, em todos os sentidos. "O papel da alimentação é me manter saudável, para que a doença não volte. Não tenho 100% de garantia de que não possa ter novamente uma doença séria. Com uma alimentação saudável, essas chances diminuem bastante", observa.

FARINHA ENRIQUECIDA.

Grãos que sustentam a raça humana desde a Pré-História. Há dez mil anos o homem aprendeu a moer o trigo e fabricar essa névoa branca que passou a ser o melhor, mais popular e mais barato alimento da humanidade. Fonte de proteína, carboidratos, gordura e minerais, a farinha de trigo pode ser também a fonte de um milagre: o fim de uma das mais cruéis doenças que uma criança pode ter, a anemia, que não deixa crescer, impede o aprendizado, enfraquece o corpo e às vezes até mata. Esta farinha de trigo parece igual às outras, mas os cientistas fazem o teste e revelam a diferença: ela contém ferro. Mas o que isso significa? No laboratório da Embrapa, que mais parece uma padaria, o pesquisador prepara o que chamam de pão de ferro. Parece pouco, cabe na ponta do dedo, mas 32 miligramas de ferro misturados a cada quilo de farinha têm um efeito poderoso nas pessoas que consomem as coisas que podem ser feitas com ela. Bolos, biscoitos, até o pãozinho feito de farinha misturada com ferro é como se fosse uma pilha nova no organismo. “Terá um benefício notável na saúde: melhores condições de trabalho e maior vontade de estudar. Vai ficar muito mais animado que antes, porque a falta de ferro deixa a pessoa muito cansada, sem vontade de fazer as coisas”, explica José Luis Aschieri, engenheiro de alimentos. Para deixar a farinha mais poderosa, alguns moinhos já usam o sulfato de ferro ou o ferro puro mesmo, em pó. Tão fino, que pode ser absorvido na hora pelo organismo. “O gosto é igual, não existirá nenhuma diferença nas características do produto se o processo for feito adequadamente”, revela o especialista. Os moinhos não gostaram da idéia, poucos aceitaram fazer o teste. No início do ano que vem, todas vão ser iguais. Foi preciso uma lei federal para que os brasileiros tivessem a mesma farinha enriquecida que há mais de seis décadas está na mesa dos países desenvolvidos. A alegria na brincadeira de criança é a prova do milagre que a farinha com ferro pode fazer. Há bem pouco tempo, Larissa não conseguia caminhar. Gabriel não tinha forças nem para se manter acordado, dormia a maior parte do dia. Fizeram parte de uma pesquisa da Embrapa e da Fundação Oswaldo Cruz. Durante nove meses, comeram pães, massas e biscoitos enriquecidos com ferro, além da dieta normal da creche. Depois de três meses, o pó de ferro misturado na farinha transformou as crianças. Gabriel, que era sonolento, acordou para a vida. “Começou a ter melhora na concentração, facilitando o aprendizado. E isso foi comprovado no exame. Tinha uma dosagem de hemoglobina de 10.2 e passou a ter 12.8 e uma quantidade de ferro no sangue normalizada”, conta a nutricionista Ana Paula Rodrigues. Uma solução simples para a anemia, que atinge crianças ricas e pobres de todos os cantos do país. “O que chama a atenção são as taxas extremamente elevadas em crianças menores de dois a cinco anos. Por exemplo, em São Paulo há taxa de 50% em crianças; no Nordeste, chega a 80%”, revela a nutricionista. É um problema para o país. O pó de ferro na farinha foi a força que faltava na vida das crianças. Hoje, Gabriel corre no quintal da casa, se diverte com o irmão e agora não gosta quando chega a hora de dormir. A mãe agradece todos os dias a chegada da farinha de ferro na vida do menino. “A farinha o trouxe de volta para mim e para a vida”, comemora.

LEITE, FONTE DE VIDA.

Touca e maiô. Dona Maria da Glória Soares, de 83 anos, nunca perde os exercícios de hidroterapia. Quem vê a aluna dedicada esbanjando bom humor não é capaz de imaginar o sofrimento que enfrentou por causa da osteoporose. O tratamento que deu vida nova à dona Glória é à base de vitamina D e cálcio. E o médico é o pesquisador e endocrinologista pernambucano Francisco Bandeira. O especialista passou dois anos estudando a principal causa da osteoporose nas mulheres: a carência de vitamina D. Examinou e entrevistou 150 pacientes. Chegou a uma conclusão alarmante: 40% das mulheres entre 50 e 80 anos de idade, no período pós-menopausa, têm deficiência de vitamina D. O diagnóstico também foi confirmado em 20% das mulheres entre 20 e 40 anos de idade. “As complicações da deficiência são perda e fragilidade ósseas e pré-disposição a fraturas”, anuncia o endocrinologista. O organismo obtém a vitamina D através de duas fontes naturais. A primeira é uma alimentação rica em fígado de bacalhau, óleo de fígado de peixes e bacalhau e peixes gordurosos, como salmão e arenque. Quem entende de pescado sabe que nossos peixes quase não têm gordura. Outra alternativa é uma fonte que o Brasil tem de sobra: a vitamina D é produzida quando a pele é exposta ao sol. Mas não é tão simples assim: a partir dos 50 anos a pele vai perdendo a capacidade de sintetizar a vitamina, e as mulheres têm se exposto menos ao sol para evitar o risco de contrair câncer de pele. Resultado: em um país tropical, ensolarado por natureza, a falta de vitamina D nas mulheres já se transformou em um problema de saúde pública. A saída para as mulheres que já estão com osteoporose, segundo o pesquisador, é o consumo de alimentos enriquecidos com vitamina D. O estudo sugere que o leite seja enriquecido durante o processo industrial e já chegue às consumidoras com a dosagem ideal para suprir a falta da vitamina. “O que se recomenda é o enriquecimento dos alimentos de uso diário. Como o leite é recomendado por ser um alimento rico em cálcio, a pessoa vai ingerir os dois nutrientes – cálcio e vitamina D. Isso é um procedimento de custo baixo e tem um resultado do ponto de vista de melhora da saúde da população considerado excelente”, analisa o médico. Com as doses de vitamina D e exercícios, dona Glória voltou a ter uma vida saudável. O difícil agora é encontrá-la quieta dentro de casa. “De repente, passou a ser uma pessoa que está vivendo intensamente todos os momentos da vida”, diz a filha, Vanja Soares.

PITADAS DE SAÚDE.

As ervas, que dão sabor aos nossos pratos, também protegem o nosso corpo. É o que descobriram os pesquisadores do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Além do orégano, estudam as propriedades do alecrim, da linhaça, da canela, especiarias que há muito tempo despertam a curiosidade dos cientistas. "Os egípcios, ao embalsamar as múmias, utilizavam a canela, para impedir o processo de oxidação. Se protegia as múmias, protege também o nosso organismo”, diz Jorge Mancini, farmacêutico bioquímico da USP. No século XV, os portugueses foram ao Oriente em busca de especiarias. "Identificaram que as especiarias, em contato com os alimentos, aumentavam a conservação deles, podiam ser utilizados por mais tempo", conta o pesquisador. Protegem os alimentos e o organismo de quem os consome. Foi o que mostraram os testes de laboratório, feitos com ratos. “Pesquisas com seres humanos ainda estão no início. O que se observa é que a forma natural de consumo é a mais benéfica”, diz Ana Vládia Moreira, nutricionista. A nutricionista dá uma dica para quem pretende usar mais especiarias na cozinha: nunca devem ir para o forno junto com a comida, para que o calor não destrua suas propriedades. Quando outra pesquisa estiver concluída nem será preciso se preocupar com isso. Em vez de pôr orégano no ovo frito, como tanta gente gosta, a farmacêutica bioquímica Maria Helena Bernal resolveu encurtar o caminho: mistura as especiarias na ração das galinhas. Primeiro a linhaça, rica em ômega 3, substância que ajuda a combater o colesterol. Depois, em forma de extrato, o orégano e o alecrim. Uma garantia de que o ômega 3 não vai se perder. Mas enquanto o ovo não vem das granjas já recheado, vale a dica das nutricionistas: para ter os benefícios das especiarias, ninguém precisa exagerar. "Não é necessário consumir demais, quantidade culinária é suficiente", orienta Ana Vládia. Uma pitada de saúde no prato todos os dias.

PÃO SEM GLÚTEN.

O pão é sinônimo de comida desde os tempos da Bíblia. Só que para 500 mil brasileiros não é um alimento para ser levado à mesa, mas um veneno, que pode causar doenças graves, como anemia, osteoporose e câncer. Nildes de Oliveira Andrade é uma dessas pessoas que possuem a doença celíaca. O pão não é a única ameaça. A presidente da Associação dos Celíacos está proibida de comer qualquer alimento que contenha glúten, proteína presente na farinha de trigo. Por lei, os produtos com glúten devem trazer o aviso na embalagem. No laboratório da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Botucatu, a professora Marney Cereda tenta isolar o inimigo número um dos celíacos. Da farinha de trigo, extrai uma massa borrachuda. "É a alma do pão. Parece chiclete e é isso que a gente tem que substituir, no caso de desenvolver um produto que seja adequado aos celíacos", diz. A professora mostra os ingredientes que podem substituir o glúten: “clara de ovo em pó, farinha de mandioca moída e refinada e ainda polvilho azedo, que sai da mandioca e vai substituir o coração do pão, o glúten”. Quem testa a nova fórmula é o nutricionista Luiz Fernando Escouto. "O desafio é compreender o papel do polvilho com sua característica tecnológica, na substituição do glúten. A proporção é o segredo”, observa. O pesquisador quer chegar a uma mistura semipronta, que possa ser vendida para os celíacos prepararem o pão sem glúten em casa, ou em padarias especiais. Dona Nildes foi conhecer o projeto de perto. O novo pão de mandioca é preparado em um ambiente esterilizado, sem contato com farinha de trigo. O pão sem glúten foi para o forno e voltou para a avaliação de dona Nildes. “Há anos que não chego perto de um pãozinho com aparência de pão francês. Está gostoso, só a textura deve ser melhorada, lembra um pouco o pão-de-queijo”, comentou.

O PODER DA PALMA.

No chão seco da Paraíba não nasce nem capim. Quem diria que ia brotar ali planta tão nutritiva? Resistente à pior das secas, a palma já é usada há anos para alimentar a bicharada. As cabras adoram. Malaquias Batista Filho, professor da Universidade Federal de Pernambuco e médico do Instituto Materno Infantil de Pernambuco, descobriu que a salvação do rebanho, no auge da estiagem, pode salvar também vidas humanas, em um lugar onde a comida é cara e escassa. “Nosso grande problema nutricional na região é a deficiência em vitamina A, e, em segundo lugar, de ferro. A palma forrageira é rica em vitamina A, bem mais do que os alimentos convencionais com preço elevado, como repolho, couve, coentro, bertalha, com uma vantagem adicional: não tem agrotóxico”, revela. Malaquias trocou o milho e o feijão pela lavoura de palma. A centenária fazenda da família, no interior da Paraíba, virou um grande experimento. Cacto que não tem espinhos, a palma é fácil de manipular e pode ser a grande saída para as deficiências nutricionais das crianças da região. “Há dois problemas imediatos: a anemia e a deficiência de vitamina A. Estamos aproveitando a merenda para acrescentar vitamina A e ferro”, conta Malaquias. Cortada em fatias e picada, em São Sebastião do Umbuzeiro, a palma entrou para o cardápio da merenda escolar e deixou as crianças mais saudáveis e rechonchudas. O professor Malaquias sabe que a falta de vitamina A pode afetar a visão. Mas não é só isso: ela mina a resistência do organismo das crianças, transformando doenças aparentemente inofensivas em um risco para a saúde delas. Conhecimento científico guardado na universidade não vale nada. Sertanejo da gema, Malaquias quer agora vencer o preconceito e a resistência cultural de seu povo. Na região ainda se pensa que palma só serve para alimentar bicho. Convencer o pessoal de que a planta é comida de gente é a nova obsessão do professor. E mesmo alimentando os bichos, a palma estará melhorando a alimentação humana. A cabra que come a planta produz um leite bem mais nutritivo. Os benefícios da palma não se restringem à vitamina A. O professor descobriu propriedades que podem ajudar os diabéticos. “A palma tem valor hipoglicemiante, pode ser um auxiliar no caso de diabetes”, anuncia. Olhar para a terra seca de São Sebastião do Umbuzeiro e enxergar possibilidades infinitas de combinações culinárias. No cardápio de soluções nutritivas do professor, um produto importado: a avestruz. A ave tem metade do colesterol da carne da galinha, um quarto do colesterol da carne de boi, e é plenamente adaptada ao clima do semi-árido. A avestruz africana pode substituir com vantagens as criações tradicionais do Nordeste. “Criando a avestruz, você utiliza o meio ambiente a seu favor, ao contrário do boi”, conta o professor.

INFORMAÇÕES ÚTEIS.   

FEIJÃO E CALDO DE LEGUMES.

- Lucília Caldas, nutricionista.

Telefone: 031-21-2295-5737 - Ramais: 301/302 (Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio).

- Cozinheiras do Abrigo Tereza de Jesus. Telefone: 031-21-2569-0387.

Como preparar o feijão:

- fervê-lo por 2 minutos (a partir da ebulição),

- deixá-lo de molho por 1 hora,

- atenção: não escorrer a água do molho,

- fervê-lo até cozinhar,

- temperá-lo como de costume.

Purê de cenoura com batata:

- lavar e descascar os legumes,

- cozinhar os pedaços de cenoura e de batata na mesma panela,

- atenção: escorrer os legumes e reservar a água do cozimento (caldo),

- amassar os legumes,

- de volta à panela, acrescentar o caldo do cozimento e duas colheres das de sopa de leite em pó,

- sal a gosto,

- mexer bem até incorporar todos os ingredientes.

FARINHA CÍTRICA:

- Wilma Turano e Simone Boekel, nutricionistas. Telefone: 031-21-2295-5737. Ramais: 301/302 (Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio).

Bolo de laranja—Ingredientes:

- 9 colheres de sopa da parte branca da laranja (albedo) e polpa picados (bagaço),

- 150 g de margarina,

- 4 claras batidas em neve,

- 100 ml de suco de laranja,

- 2 xícaras de chá niveladas de açúcar,

- 2 xícaras de chá de farinha de trigo,

- 1 colher de chá de fermento em pó.

Modo de fazer:

- bater no liquidificador o bagaço picado, a margarina, o suco de laranja e o açúcar até formar um creme,

- bater as claras em neve e reservar,

- misturar levemente, na batedeira, o creme e a farinha de trigo,

- envolver as claras em neve e o fermento em pó na massa,

- colocar para assar no forno, pré-aquecido, por aproximadamente 25 minutos, em temperatura média.

Rendimento: 20 fatias médias.

BERINJELA:

- Sandra Derivi e Maria Heide Marques Mendez, doutoras em Ciência dos Alimentos. Telefone: 031-21-2711-1012. Departamento de Bromatologia da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Berinjela espalmada:

- lavar bem a berinjela,

- partir em fatias finas no comprido, sem separá-las (em forma de leque),

- entre as fatias, colocar rodelas de tomate, cebola, sal, queijo e ervas,

- regar com azeite a gosto,

- levar ao forno até assar.

ALIMENTOS FUNCIONAIS:

- Joselaine Stümer, nutricionista. Telefones: 031-51-3311-0514/3222-1387. Endereço: Rua Dona Laura, 87/205 - Bela Vista – Porto Alegre.

FARINHA ENRIQUECIDA COM FERRO:

- Embrapa - enriquecimento de farinhas, nutrição a preços baixos. Endereço: Avenida das Américas, 29501 – Guaratiba – Rio de Janeiro.

Assessoria de Comunicação: Jornalista João Eugênio Diaz. Telefones: 031-21-2410-7488/9424.2162. E-mail: joao@ctaa.embrapa.br 

- José Luis Ascheri, engenheiro de alimentos. Telefone: 031-21-2410-7449 (Embrapa).

- Rogério Germani, engenheiro químico. Telefone: 031-21-2410-7447 (Embrapa).

- Creche da Fundação Xuxa Meneghel, onde foi testada a farinha. Endereço: Rua Belchior da Fonseca, 1025 - Pedra de Guaratiba – Rio de Janeiro. Telefone: 031-21-2417-1252.

- Ana Paula Rodrigues, nutricionista. Telefone: 031-21-2411-5880.

- Elyne Engstron, médica sanitarista. Telefone: 031-21-2598-2525. Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz. Centro Colaborador de Alimentação e Nutrição.

LEITE ENRIQUECIDO COM VITAMINA D:

- Francisco Bandeira, endocrinologista. Telefone: 031-81-3426-8321 (consultório).

ESPECIARIAS QUE COMBATEM DOENÇAS DEGENERATIVAS:

- Associação dos Celíacos do Brasil. Endereço: Rua Loefgreen, 1596 - Vila Clementino – 04040-002/São Paulo – SP. Telefone: 031-11-5579-5834.

- Jorge Mancini, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Telefone: 031-11-3091-3674. E-mails: fcf@edu.usp.br  jmancini@usp.br 

- Orégano, alecrim e mostarda: antioxidantes testados com a comida.

- Linhaça com orégano e alecrim: misturados à ração das galinhas para produção de ovos com ômega 3, menos suscetíveis à oxidação.

PALMA:

- Malaquias Batista Filho, médico do Instituto Materno Infantil de Pernambuco e professor da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe) – pesquisas alternativas alimentares na região do semi-árido brasileiro. Departamento de nutrição da Ufpe. Telefones: 031-81-3271-8474/8470/8471/8475.

Instituto Materno Infantil de Pernambuco. Telefone: 031-81-3413-2119.

GLOBO-REPÓRTER: EMAGREÇA COM SAÚDE—23 DE MAIO DE 2003.

"GORDO NA ESSÊNCIA". 

Picanha irresistível assando na churrasqueira. Parece não existir imagem melhor para explicar por que o ser humano não se satisfaz só com a comida que alimenta. Queremos prazer na ponta do garfo. Na churrascaria, Fernando Ceylão é cliente dos bons. Comer no rodízio mais farto da cidade para ele é rotina. Mas para o restaurante, a chegada de Fernando é sinal de alerta na cozinha. Fernando justifica tanto apetite. “Quem é gordo não come como todo mundo”, diz. Fernando é escritor e humorista. Troca o dia pela noite e passa madrugadas no computador cercado de super-heróis que lhe dão inspiração. “Tem dias que nem saio daqui”, conta. Uma vida sedentária, sem exercícios e recheada de lanchinhos. Fernando diz que o peso está na cabeça. “Na verdade, não sou só gordo porque estou gordo, tenho cabeça de gordo. Quando perco peso, continuo gordo na essência, penso como gordo”, confessa. “Meu peso é igual idade de mulher, não revelo por nada”, diz. Não gosta de falar do próprio peso - quase 150 quilos. Mas as fotos na porta do guarda-roupa revelam outra pessoa. O mesmo Fernando, com 37 quilos a menos. Uma dieta rigorosa lhe deu três anos do que chama de “vida de magro”. “É uma beleza. Você fica mais seguro, acha que todo mundo está a fim de você. E, realmente, dá mais sorte com mulher”, diz. Mas, aos poucos, voltou a engordar e hoje uma ordem do médico obrigou o humorista e pensar de novo em regime. A dieta já foi adiada três vezes. Esta é mais uma tentativa. Em busca de uma solução para o excesso de peso, o humorista foi conhecer a dieta da doutora Jane Corona. Desfilando por um labirinto de pratos apetitosos, foi recebendo sugestões, ouviu conselhos, comeu salada e... “Está muito sem graça”, disse. “É muito difícil começar a fazer dieta porque alguém o convenceu”, afirma. Hoje Fernando vive um dilema: de um lado, o prazer da comida; do outro, uma vida bem mais saudável. “Acho que vou ganhar essa guerra. Já venci uma vez, vou vencer de novo”, declara.

DIETA DO "VALE-TUDO". 

Situação comum para quem tem excesso de peso: o aviso pode vir dos amigos, da família e até dos médicos. E, às vezes, nem precisa de aviso: quem fica gordo acaba percebendo quando chega a hora de começar a emagrecer. É aí é bom saber que dá para trocar a tentação da comida que engorda por alimentos que ajudam a emagrecer de maneira bem mais saudável, sem que necessariamente seja preciso passar pelo sacrifício da fome. Perder peso comendo de tudo é o que promete a nutróloga Jane Corona. Quer que seus pacientes emagreçam de barriga cheia. “A dieta boa é aquela em que se sai da mesa sem fome”, diz a especialista. Comer bastante os alimentos certos sem cortar o que dá prazer. O segredo da dieta do "vale-tudo" é encaixar as peças certas no quebra-cabeças do prato. Os alimentos obrigatórios são divididos em grupos com nomes esquisitos. Os "termogênicos" obrigam o organismo a gastar energia, queimar calorias. Ela recomenda o açafrão e as sementes de gergelim, papoula e linhaça. Os "monoterpenos" reduzem o apetite (hortelã, broto de alfafa, limão, laranja, tangerina, maçã). E não podem faltar os "pré-bióticos" (cebola, banana, trigo), que melhoram a digestão e alimentam a flora intestinal. Quem diria que até uma vilã das dietas está liberada pela doutora. “A batata contém substâncias que diminuem a ansiedade da pessoa que está acima do peso. Normalmente o obeso é uma pessoa ansiosa, tem necessidade de estar toda hora colocando um alimento na boca”, explica. “Se aquilo que dá prazer a uma pessoa é o arroz, como vai conseguir mudar esse hábito alimentar? O arroz tem que ser trabalhado de maneira que a pessoa possa comê-lo. Então, a gente faz arroz de lentilha e de ervilha”, diz a especialista. Ou seja, é possível emagrecer comendo bastante. 

MUSCULAÇÃO DIGESTIVA. 

Os quilinhos a mais não vêm só do prato mal feito. Luciana Alves das Chagas ganhou 15 quilos quando ficou grávida da primeira filha. Procurou ajuda do médico Décio Luís Alves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que receita uma dieta à base de cálcio e fibras. Uma combinação que obriga o estômago e o intestino a trabalharem mais. “Digamos que seja assim, uma musculação digestiva. Isso aumenta o calor do corpo, você queima mais calorias e gasta muita energia para consumir essas fibras. Isso junto, acelerando o metabolismo com o cálcio, é que faz o emagrecimento”, explica o médico. “O melhor é consumir leite, iogurte, caroço de tomate. Essas coisas, que têm muito cálcio, vão ajudar, junto com as fibras", ensina o especialista. Em seis meses, Luciana recuperou a silhueta de recém-casada. Mas não foi fácil. Além da "forcinha" a mais exigida do sistema digestivo, o cardápio também mudou. “Agora tem legumes, frutas, suco, iogurte”, conta ela.

POÇÃO ENERGÉTICA. 

Outra mistura poderosa promete acabar com aquela fome que aparece antes do almoço e estraga qualquer regime. Uma espécie de poção energética. “Maçã, banana, salsinha ou alfafa, gérmen de trigo, semente de linhaça, isso tudo ajuda a aumentar o metabolismo, a queimar gordura”, revela a nutróloga Jane Corona. A receita veio de um antigo livro de nutrição, que Jane adotou e repassou para suas pacientes. O efeito poderoso mudou a vida da psicóloga Graça Souza Leão. Cheia de energia, hoje trabalha como voluntária ajudando crianças de uma comunidade pobre. Mas há seis anos o cansaço tomou conta de um corpo submetido à pior das combinações: vida agitada e má alimentação. Sete quilos a mais e o alarme tocou. A mudança na dieta foi radical. A alimentação baseada em sanduíches comprados na rua foi toda substituída por coisa mais nutritiva. Resultado: não foi só a comida na mesa que mudou. “A vitamina me deu muita vitalidade, outra disposição para viver. A dieta mudou a minha vida, hoje tenho um dinamismo saudável”, afirma Graça.

COMBATE À DIABETE. 

Já faz quatro anos que a auxiliar administrativa Yvette Monteiro toma remédio diariamente, por causa da diabete. A taxa de açúcar no sangue já chegou a 362, considerada um risco. O normal é entre 90 e 110. Com a taxa alta, os sintomas são imediatos. “Coceira nos olhos, muita sede, vontade de urinar e muita fome”, conta. Para controlar a glicose, dona Yvette precisou trocar os doces, sorvetes e salgadinhos por pratos mais saudáveis. “alfacinha, cebola, tomate e pimentão em grande quantidade. Não posso misturar no mesmo dia macarrão, arroz e batata”, ressalta dona Yvette. “Nunca experimentei remédios naturais, mas gostaria. Não custa nada, para poder comer um pedacinho de pudim, um sorvete”, comentou. Se era isso que dona Yvette queria, já tem. Foi uma das primeiras a testar um produto natural, a farinha de maracujá, criada para controlar a taxa de açúcar no sangue. Um teste rápido mostrou que a taxa de glicose estava alta. Mesmo com remédios e cuidados: 175. O quadro é perfeito para a farinha de maracujá. A casca da fruta, que normalmente é jogada fora, na Faculdade de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é material nobre. É rica em uma substância chamada pectina. “A pectina é uma fração de fibra solúvel. No organismo, forma um gel. No caso da diabete, dificulta a absorção de carboidratos de uma maneira geral, inclusive da glicose”, revela o doutor em alimentos da UFRJ Armando Sabba Srur. A farinha já foi testada em ratos, com bons resultados. O preparo é no laboratório. Depois de lavar e retirar toda a polpa e as sementes, a casca é cortada e levada ao forno para torrar. A casca de maracujá é triturada e peneirada. Estava pronta a farinha que dona Yvette ia levar para casa. O professor ensina como a farinha deve ser usada. “Durante as refeições. No café da manhã, almoço, jantar, pode-se colocar uma ou duas colheres de sobremesa no leite ou no suco e beber”. Em casa, dona Yvette cumpriu à risca. Durante quatro dias, três vezes por dia, tomou a farinha de maracujá. O teste de sangue mostrou que a taxa baixou de 175 para 148. Um resultado comemorado por ela. “Nunca tinha chegado a esta taxa depois que descobri o diabete”, diz. “Vou incorporar a farinha de maracujá a minha alimentação”, anuncia dona Yvette. Para o pesquisador, a queda na taxa de glicose mostra que a farinha de maracujá cumpriu o seu papel. Mas alerta que ela não cura o diabete. “Se parar de usar, a taxa volta a ficar como era”, ressalta.

NATUREZA: FONTE DE INVENÇÕES. 

Se depender do professor Armando Sabba Srur, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não vai faltar produto diferente para dona Yvette provar. Ele é uma espécie de Professor Pardal - descobre utilidade para tudo, principalmente para partes de alimentos que costumam ir para o lixo. Foi assim com o sabugo de milho, que até agora só era usado em ração animal. Com a ajuda dos alunos de nutrição, o professor descobriu que o sabugo é riquíssimo em fibra e podia ser uma boa indicação para quem tem prisão de ventre. A palha e os grãos não interessam na experiência. O sabugo é cortado em pedaços e levado ao forno para secar. A farinha do sabugo de milho não é solúvel, não se dissolve na água ou no leite. A melhor forma é usá-la em receitas de bolos, de massas de pizza, por exemplo. O professor Sabba preparou um biscoito com a farinha do sabugo de milho. A experiência foi feita em uma fábrica de biscoitos na Região Serrana do Rio. Leva manteiga, açúcar, farinha de trigo, ovos e a farinha do sabugo. O biscoito é crocante e o sabor não decepciona quem experimenta. A criação do professor foi aprovada no sabor e também como fonte de fibra, para ajudar no funcionamento do intestino. “As fibras, tanto do sabugo quanto da casca do maracujá, são excelentes fontes de fibras, nutrientes e sais minerais. Não podemos abusar deles, mas não há nenhuma contra-indicação”, diz o médico Sérgio Puppin. Uma vitória para o nosso Professor Pardal dos alimentos, que não se cansa de buscar na natureza a fonte de suas invenções.

SUBSTITUTO “LIGHT” DA GORDURA. 

Arrancar mandioca não é fácil, mas o resultado do esforço é recompensado na mesa. “Podemos preparar muitos pratos com ela. Alguns, nem conhecemos”, diz o agricultor Abelardo. Tem razão. O que pouca gente sabe é que a mandioca, tão popular, pode render muito mais que antigas e deliciosas receitas. Quando é retirada da terra e faz o caminho até os laboratórios de pesquisa, a velha mandioca pode se transformar em produto do futuro, virar alimentos, aditivos, complementos, coisas que o povo da roça – e mesmo o povo da cidade – nunca imaginou. A transformação acontece no laboratório de engenharia de alimentos da Universidade de Belo Horizonte (Uni-BH). O gel do amido da mandioca é um produto criado para substituir a gordura. E deu muito trabalho. Foram quatro anos de pesquisas até acertar o ponto. “É difícil, porque a gordura, além de saciar, confere cremosidade, textura, volume e brilho aos alimentos. Tentamos fazer um amido modificado, que conseguisse imitar a gordura na maioria dessas características”, explica a engenheira de alimentos da Universidade de Belo Horizonte Maria Aparecida Teixeira. Na maionese, o risco diminui bastante. Na receita, a pesquisadora substituiu metade da gordura pelo gel da mandioca. A maionese da mandioca passou no teste. O esforço agora é fazer com que o gel que substitui a gordura possa ser usado pela indústria em muitas outras receitas. Trabalhando na roça de mandioca, seu Abelardo comemora a descoberta e pensa no futuro dos negócios. “Depois o preço deve melhorar, porque vai ter consumo. Todos que plantarem vão faturar”, avalia o agricultor.

FIBRA DE LARANJA. 

Pães, bolos, delícias saindo do forno a todo instante. Na padaria da faculdade de engenharia de alimentos da universidade de Campinas (Unicamp), tudo é preparado para agradar ao paladar e melhorar a saúde. “Tem que ser saboroso e ter uma textura adequada, senão vira remédio, que ninguém gosta de tomar”, comenta a nutricionista da Unicamp Maria Aparecida da Silva. E para fazer o gostoso saudável também lá sai a gordura e entram substitutos. Adicionar fibras a todas as receitas também é parte da luta para reduzir a gordura no organismo. A da laranja, qualquer um pode fazer em casa. 

O PODER DOS GRÃOS. 

Analisando o poder do feijão carioca, cientistas constataram que o grão ajuda a eliminar o colesterol. “O maior destaque do feijão é a capacidade que tem de reduzir a gordura sangüínea, especialmente o colesterol”, observa o doutor em química da Universidade de Campinas (Unicamp) Admar Costa de Oliveira. O feijão, a ervilha, o grão-de-bico e a lentilha vêm sendo estudados no laboratório da Unicamp. Transformados em pó, alimentam as cobaias que ajudaram a elaborar a lista dos campeões da saúde. “O grão-de-bico, embora não seja um alimento amplamente divulgado entre a população, possui um valor nutritivo de proteína bem maior que os outros três. Isso foi uma surpresa para nós”, conta o especialista.

YACON.   

A raiz parece batata, tem um leve gosto de pêra e é bem suculenta. É o yacon. “O yacon é uma raiz originária dos Andes que já pode ser encontrada no Brasil, mas ainda é pouco conhecida”, diz a engenheira de alimentos da Universidade de Campinas (Unicamp) Fernanda Ventura. “A raiz tem propriedades interessantes: diminui a absorção de açúcares, de gordura, reforça o sistema imunológico, previne alguns tipos de câncer e aumenta a absorção de sais, como cálcio, ferro e magnésio”, destaca a pesquisadora. Não é à toa que decidiu encontrar um jeito saboroso de aproveitar todos esses benefícios. No laboratório de engenharia de alimentos da Unicamp, Fernanda criou uma supergeléia. “Foram misturados yacon, acerola e goiaba. Essa geléia não tem adição de açúcares, é de baixo valor calórico. Mas a dona de casa pode preparar a geléia com açúcar. Basta misturar a proporção de 50% de frutas e 50% de açúcar tradicional e levar ao fogo para fazer o cozimento como de costume”, explica. E se a idéia é buscar sabor e saúde, por que não experimentar? “Devemos mexer com essas coisas, já que isso faz bem à saúde”, comenta o agricultor Abelardo.

OBESIDADE E CÂNCER. 

Quem está acima do peso corre muito mais risco de morrer de câncer. O alerta acaba de ser divulgado pela Sociedade Americana de Câncer, ao fim de uma pesquisa que acompanhou 900 mil americanos ao longo de 16 anos. Segundo Jill de Marco, porta-voz da organização, o risco é maior para as mulheres. A probabilidade de que elas morram de câncer pelo excesso de peso é mais alta: 60% acima do risco normal. Os homens com excesso de peso também correm mais risco de morrer de câncer: 50% mais que os homens de peso regular. Os números da pesquisa são impressionantes: a cada ano, 90 mil americanos morrem de câncer por estarem acima do peso. Já se sabia que a obesidade pode causar diabetes e problemas cardiovasculares. Agora está provado que também aumenta o risco de vários tipos de câncer. O médico Louis Aronne, do New York Presbyterian Weill Cornell Medical Center, explica por que as pessoas gordas desenvolvem mais tumores que as magras. “É que as células de gordura produzem hormônios como a insulina, que provocam a reprodução desordenada das células, o que pode levar ao câncer”, diz. Isso vai depender, além do peso, do perfil genético da pessoa. Para a maioria, os muitos quilos a mais não vão necessariamente levar ao câncer. Mas como ainda não há como saber quem tem ou não a predisposição genética ao câncer, é melhor prevenir reduzindo o peso. Para os obesos, aqueles com peso 30% acima do normal, o doutor Aronne tem obtido sucesso com um novo enfoque: o controle do apetite através do café da manhã. A dieta é simples: evitar no café da manhã alimentos que contenham amido e açúcar, como cereais, pães, gelatina ou qualquer doce, sucos, refrigerantes e frutas doces como banana e maçã. Tudo isso eleva o açúcar no sangue, produz insulina e abre o apetite. Vai sentir mais fome durante o dia e comer. Segundo o doutor Aronne, os gordos devem comer no café da manhã alimentos ricos em proteína, como queijo, ovos, presunto, frutas ácidas como o abacaxi e limonada sem açúcar. Segundo ele, quem segue essa dieta sente menos fome durante o dia e perde mais peso. Mas o doutor Aronne adverte que só as pessoas que estão muito acima do peso devem fazer dietas rigorosas porque têm a saúde em risco. A dieta rica em proteínas não é saudável para pessoas que têm peso normal.

TRABALHO PREVENTIVO. 

No Brasil, antes que surjam os efeitos devastadores da obesidade, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) está ensinando à população a se prevenir contra a doença. Comida saudável, sem exagero na gordura, passou a fazer parte do currículo escolar. A merenda agora tem pratos bem coloridos, recheados com legumes, e salada de fruta de sobremesa. O que antes era recebido de cara feia hoje é devorado com prazer. Em Cordeiro, na Região Serrana do Rio, a Secretaria de Saúde recebeu treinamento do Inca e repassou aos professores de escolas públicas e particulares. Falar em prevenção é começar a pensar em se cuidar o mais cedo possível. O primeiro alvo do programa é a criançada que nem aprendeu a ler ou escrever, mas já sabe o que a alimentação pode fazer pela saúde. São elas a grande esperança do programa de prevenção. São quase cinco mil alunos empenhados em cuidar da própria saúde e ensinar aos pequenininhos. Uma lição saborosa aprendida rapidinho. “Maçã, abacaxi, banana, pêra faz bem à saúde”, diz Jorge Manoel Júnior, de 3 anos. Mexer na terra e cultivar a horta é atividade que mobiliza a escola inteira. “As crianças, os adolescentes, todos têm uma consciência clara dos fatores de risco de câncer. A mudança virá com o tempo. Acreditamos que isso vai reduzir o quadro de câncer no município”, comenta Gláucia Gonçalves, coordenadora do programa em Cordeiro. Da escola para casa, o programa vai ganhando seguidores. Alessandra precisou se adaptar às novas exigências dos filhos. Plantou alimentos escolhidos pelas crianças. Segundo os médicos, essa mudança de hábitos pode ser o diferencial para evitar o câncer. “No caso do câncer, as pesquisas mostram que a influência do meio ambiente é maior do que a genética. Muitas vezes a predisposição genética dá suscetibilidade maior a determinados agentes cancerígenos do meio ambiente. Se você evita, diminui o risco”, explica a chefe do programa de prevenção do Inca, Tânia Cavalcanti. A ex-ferroviária Sandra Teixeira sabe bem o que é essa sensação. Assistiu à morte da mãe, da tia e da irmã mais nova, todas vítimas de câncer de mama. E não foi poupada pela doença. Um tumor no seio esquerdo foi o primeiro sinal para pedir socorro. Queria saber por que teve tantos parentes com a mesma doença. No Instituto Nacional do Câncer foi encaminhada para o aconselhamento genético, feito apenas nos parentes de pacientes. O exame de sangue confirmou: ela tem uma alteração hereditária no código genético que provoca câncer. O diagnóstico e a história de tragédias da família serviram para que Sandra reforçasse alguns cuidados com a saúde. Segundo os médicos, ela tinha muitas chances de trilhar o mesmo caminho da mãe, da tia, da irmã. A opção foi fazer algumas mudanças e investir na qualidade de vida. Umas das principais preocupações passou a ser a alimentação. “Passei a comer mais legumes, mais verduras, a beber mais suco natural”, conta ela. O cigarro já tinha sido abandonado. Faltava acabar com o estresse, substituído por sessões de crochê. O exercício físico é cumprido levando as netas para a escola. Já são três anos desde que a doença foi controlada. “Faço a minha parte. Procuro me alimentar, fazer o melhor por mim mesma. Resolvi que a saúde é a principal coisa desse mundo. Se a gente não tem saúde, não tem nada”, conclui Sandra.

OS PERIGOS DO ESTRESSE. 

Passos rápidos, suor e olhares determinados. Parece uma procissão em busca do corpo ideal. Vontade de emagrecer que pode esbarrar em um inimigo poderoso: o prazer que existe em um bom prato de comida. “Às vezes o organismo não está precisando de alimento e a pessoa come, por isso engorda. Engorda porque come muito mais do que o organismo precisa. E come por quê? Come por angústia, ansiedade, tensão. O alimento passa a ser uma espécie de alimento do espírito”, observa o médico psicanalista Luiz Alberto Py. Em 2001, o Globo Repórter mostrou o gerente comercial Carlos Antônio Ferreira, um homem ansioso, de vida agitada e com o estresse à flor da pele. Um dia, o médico avisou: Carlos tinha um estilo de vida que desajustou o sistema hormonal e fez disparar o peso na balança. A luta para emagrecer começou na mesma semana, com muitas promessas. Chegou a perder 37 quilos. Dois anos depois, a equipe do programa encontrou Carlos novamente. Abandonou a dieta, engordou de novo e parece mais estressado do que nunca. “Quero morrer, estrangular-me”, diz. “O estresse é, provavelmente, um dos grandes mecanismos de engorda. Algumas pessoas são mais sensíveis a ele do que outras”, observa Amélio de Godoy Matos, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. A solução definitiva para o emagrecimento ainda não existe, mas a ciência já tem pistas. Os cientistas sabem que o intrincado jogo de hormônios e substâncias químicas agem no cérebro, fazendo aparecer e desaparecer a sensação de fome. Já foram identificadas pelo menos 12 substâncias que trabalham assim. O problema são as ordens que o cérebro dá para que se coma mais, ou menos. Dependem também do tipo de vida que cada um leva. A genética humana não ajuda. A natureza nos construiu para acumular gordura. Mas, na vida moderna, não precisamos mais caçar o alimento. O conforto dos equipamentos e da vida urbana nos leva à vida sedentária, ao estresse inevitável. “O estresse aumenta a cortisona, e a cortisona aumenta a gordura na região do abdômen, a famosa barriguinha. As pessoas que tendem a engordar mais na barriga são provavelmente mais suscetíveis à ação do stress”, explica o doutor Godoy. Carlos sabe que compensa com comida o estresse do dia-a-dia. No ano passado, sofreu com a perda do pai. Desde então, sente que só a força de vontade não é suficiente para emagrecer. “Necessito de uma terapia para descobrir a ansiedade que gera essa depressão que me faz comer”, diz o executivo. Todos os dias, Carlos é vencido pelas forças químicas e psíquicas que agem em seu corpo. O bombom dá prazer. "É muito bom para tirar o estresse!", diz. A geladeira o ampara. “A porta da geladeira é uma tentativa de saída da depressão, mas é, ao mesmo tempo, a porta de entrada da obesidade”, ressalta o psicanalista. “Estou perdendo a coisa mais natural que tenho, a alegria. É complicado, como ser humano, admitir que estou deixando de ser alegre para ser triste”, diz Carlos. Mas não desiste. Um novo exame de sangue indicou glicose e colesterol acima do normal no seu organismo. “Pode resolver o problema dele, e vai conseguir”, afirma o doutor Godoy. “Não posso continuar gordo, porque senão vou abreviar minha vida”, ressalta Carlos.

EXCLUSIVO: RECEITAS. 

- Jane Corona, nutróloga - dá as dicas dos tipos de alimentos e faz o drinque para ajudar no regime. Telefone: 031-21-2496-3768 (consultório).

- Divisão dos alimentos da dieta elaborada pela nutróloga Jane Corona:

TERMOGÊNICOS - obrigam o organismo a gastar energia, queimar calorias: açafrão, sementes de gergelim, papoula e linhaça.

MONTERPENOS - reduzem o apetite: hortelã, broto de alfafa, limão, laranja, tangerina e maçã.

PRÉ-BIÓTICOS - melhoram a digestão e alimentam a flora intestinal: cebola, banana e trigo.

COQUETEL PREPARADO PELA NUTRÓLOGA JANE CORONA PARA AJUDAR NA DIETA.

Ingredientes:

1 maçã cortada em pedaços,

1 banana cortada em rodelas,

1 colher de sopa de gérmen de trigo,

1 colher de sopa de semente de linhaça,

1 punhado de salsinha ou de broto de alfafa,

1 copo grande de água.

Modo de fazer:

Bater todos os ingredientes no liquidificador e servir.

- Décio Alves, médico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - fala do cálcio e das fibras. Telefone: 031-21-2496-3768.

- Professor Armando Sabba (Professor Pardal), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - dá receitas para combater diabetes e prisão de ventre. Telefone: 031-21-2562-6449. E-mail: sabaa@nbe.ufrj.br 

FARINHA DE CASCA DE MARACUJÁ PARA BAIXAR A TAXA DE AÇÚCAR NO SANGUE.

Ingrediente:

Maracujá.

Modo de fazer:

Lave bem o maracujá. Tire as sementes e a polpa. Conserve a casca e corte-a em pedacinhos. Seque no forno e depois triture no liquidificador.

Coma 1 a 2 colheres de sobremesa, a cada refeição, misturada na comida ou no suco.

FARINHA DE SABUGO DE MILHO PARA MELHORAR A PRISÃO DE VENTRE.

Modo de fazer:

Limpe o sabugo de milho, tirando os grãos e conservando o sabugo. Corte-o em fatias finas e leve ao forno para secar. Triture no liquidificador e use a farinha para produzir biscoitos.

- Biscoitos James – fábrica de biscoitos de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, onde foram feitos os biscoitos experimentais. Endereço: Avenida Portugal, 880 – Valparaíso. Telefones: 031-24-2231-6612/2231-6630.

- Sérgio Puppin, cardiologista - fala do benefício das fibras. Telefone: 031-21-2543-9666.

- Maria Aparecida Teixeira, engenheira de alimentos da Universidade de Belo Horizonte (Uni-BH) – prepara maionese “light”, que substitui a gordura por amido de mandioca. Telefone: 031-31-3891-3301.

- Maria Aparecida Silva, nutricionista - prepara farinha da laranja na padaria da Universidade de Campinas. Telefone: 031-19-3788-4074.

FARINHA DA LARANJA, RICA EM FIBRAS, PARA AJUDAR NA REDUÇÃO DO COLESTEROL E FUNCIONAMENTO DO INTESTINO.

Modo de fazer:

Descascar a laranja, espremer o suco e conservar o bagaço. Bater o bagaço com água no liquidificador. Coar bem e depois enxaguar o bagaço que ficou no coador, para retirar o excesso da essência de laranja. Tirar o bagaço da peneira, levar ao forno baixo para secar.

Usar como farinha para enriquecer com fibras bolos, pães e biscoitos.

- Fernanda Ventura, engenheira de alimentos da Universidade de Campinas (Unicamp) - fala sobre o yacon. Telefone: 031-19-3788-4006.

GELÉIA DE YACON - PARA AJUDAR NO REFORÇO IMUNOLÓGICO.

Ingredientes:

Polpa de goiaba, acerola e yacon.

Modo de fazer:

Misturar as polpas de goiaba, acerola e yacon (por exemplo, metade goiaba e a outra metade misturar acerola e yacon). Se não tiver goiaba e acerola, pode usar yacon e a fruta que tiver em casa. Misturar 1/2 quilo de polpas de frutas e 1/2 quilo de açúcar. Levar ao forno até dar a consistência de geléia.

- Dr. Admar Costa de Oliveira – faz pesquisa com grãos na Universidade de Campinas (Unicamp). Telefone: 031-19-3788-4077.

- Controle do apetite através do café da manhã – receita do médico Louis Aronne, do New York Presbyterian Weill Cornell Medical Center. Evitar, no café da manhã, alimentos que contenham amido e açúcar, como cereais, pães, gelatina ou qualquer doce, sucos, refrigerantes e frutas doces como banana e maçã. Segundo o doutor Aronne, os gordos devem comer no café da manhã alimentos ricos em proteína, como queijo, ovos, presunto, frutas ácidas como o abacaxi e limonada sem açúcar. Os homens gordos têm mais chance de sofrer de câncer do estômago e da próstata. Entre as mulheres, aumenta o risco de câncer de seio, útero e ovário. Tanto homens quanto mulheres acima do peso estão mais expostos ao câncer no esôfago, intestino, fígado, pâncreas, bexiga e rim.

- Gláucia Gonçalves, coordenadora do programa de prevenção do câncer em Cordeiro, Região Serrana do Rio. Telefones: 031-22-2551-1293/2551-0012 - Secretaria Municipal de Saúde.

- Tânia Cavalcanti, responsável pela campanha do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para prevenção do câncer nas escolas. Telefone: 031-21-3970-7400.

- Dr. Luís Alberto Py, médico psicanalista - fala da influência da ansiedade na obesidade. Telefone: 031-21-2274-7507.

- Dr. Amélio de Godoy Matos, endocrinologista - trata do paciente Carlos Antônio Ferreira e fala sobre os hormônios do apetite. Telefones: 031-21-2266-2553/2579-0291/2579-0292.

GLOBO-REPÓRTER: VIVER MAIS E MELHOR—2 DE OUTUBRO DE 2003.

QUALIDADE DE VIDA.

No mesmo salão, no mesmo ritmo, passam jovens casais e outros, mais vividos. Música e dança diminuem a distância entre eles - unem o que o tempo separa. “Dançar para mim é receita médica”, diz dona Cecilia Gehrard. “Um médico recomendou que dançasse por causa da coluna”. O baile da noite anterior faz o dia amanhecer lento na pequena cidade, a 120 quilômetros de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Protegidos pelas montanhas, estariam guardados na região os segredos da longevidade? Colinas é a cidade brasileira com a maior concentração de idosos. Mais de 21% dos 2,5 mil habitantes - um em cada cinco moradores. O retrato do Brasil nos próximos anos. Nós, que fomos o país do futuro, agora nos descobrimos envelhecendo. Viver mais já é um sonho possível. Hoje, quase 16 milhões de brasileiros já passaram dos 60 anos. Daqui a duas décadas seremos 32 milhões. O desafio é chegar lá com saúde, vitalidade e vontade de viver. Vigor é o que não falta a Eldo Scholler, alfaiate aposentado que não aposentou a tesoura. Hoje, cria esculturas nos jardins que enfeitam as ruas de Colinas. Casado com dona Loiva, com filha e netos morando em outra cidade, Eldo ainda tem disposição para construir brinquedos, reinventar a própria vida. “Quando trabalhamos, estamos felizes”, comenta Eldo. “Também gosto”, diz dona Loiva Scholler. “Ele está mais do que correto e deve viver isso intensamente”, recomenda a biogerontóloga Ivana da Cruz. “Se ao longo de nossas vidas buscarmos com nosso trabalho e nossas relações familiares outros tipos de atividade que nos dêem prazer, quando formos mais velhos, as trocas serão amenas e muito mais um prêmio do que um castigo”, avalia a especialista. A maioria dos moradores de Colinas é de origem alemã e vive no campo. Dona Emília e Carlos Klein já comemoraram 65 anos de casados. Klein tem 88 e não pára de trabalhar. “Tem muita gente que pensa que sou velho, não posso trabalhar mais, mas não sou. Gosto de trabalhar”, afirma Klein. Perto dali, Ilmo Horst e a mulher saem juntos para a lavoura todas as manhãs. Vão cuidar das plantações de mandioca e feijão. Gostam do que fazem. Com o que produzem, conseguem um dinheirinho extra, que complementa a aposentadoria. “Às vezes, sentimos o cansaço, é verdade. Mas depois diminui”, conta Horst. “Não me imagino parado, sem fazer nada”. “A princípio, a atividade física faz muito bem para a saúde. Infelizmente, no Brasil, a expectativa de uma vida saudável é de 56 anos de idade. Com essa idade, 50% da população já tem pelo menos uma doença estabelecida – hipertensão, diabetes, colesterol alto - e isso é muito ruim”, diz Ivana da Cruz.

RECEITA DA LONGEVIDADE.

Na boa alimentação, está a principal receita para evitar as doenças. Ou, pelo menos, fazer com que elas apareçam bem mais tarde. “A gente come feijão, arroz, carne, aipim, batata, tudo o que se colhe em casa”, conta Horst. “Comi coisas como cheesburguer e cachorro-quente uma outra vez”. Ter à mesa um alimento saudável é um privilégio que não atinge a maioria dos idosos brasileiros. Uma pesquisa feita pela Universidade de Campinas (Unicamp) na Universidade da Terceira Idade de São João da Boa Vista, em São Paulo, revelou que os mais velhos não se alimentam bem. O estudo acompanhou 94 mulheres, com idade entre 55 e 83 anos. A conclusão é de que 60% comiam mal. “Comia muita fritura. Adorava um pastelzinho, uma coxinha de galinha”, conta a aposentada Maria José dos Santos Rodrigues. Os olhos de dona Francisca Krause brilham quando fala do torresminho que adora preparar. “Ele fica crocante. Você vai mordendo e fazendo aquele barulhinho gostoso... É uma delícia! Com mandioca cozida, então...”, ressalta dona Francisca. Extravagâncias à parte, o problema é falta de nutrientes básicos, aqueles de que todos precisamos e que nem sempre aparecem nas refeições do dia-a-dia. “Falta quantidade adequada de leite ou derivados, por conta do cálcio. Por isso, temos muitos problemas de osteoporose no grupo de idosos. Foi constatado que somente 6% das idosas consomem carne duas vezes por semana, o que pode causar problemas como anemia, carência de proteínas e outros problemas futuros”, revela a mestre em nutrição da Unicamp Gláucia Navarro Ruga. E qual seria, afinal, a refeição ideal para quem tem mais de 60? Exatamente a mesma de quem tem menos de 60. Deve incluir carboidratos, proteínas e fibras, que ajudam a regular o intestino. “Agora que aprendi a comer, pareço uma menina. Pratico esportes, jogo vôlei, faço mil e uma coisas”, garante dona Maria José.

ENVELHECER SEM ESQUECER.

Corpo sadio, mente lúcida. Na busca desse equilíbrio, os idosos ainda têm de driblar o terrível problema da falta de memória. Quem já não experimentou? No Brasil, 1,2 milhão de pessoas sofrem da mais comum das doenças degenerativas do cérebro: o Mal de Alzheimer. Mas, envelhecer é esquecer? Quando os adultos devem se preocupar com esses lapsos? “Quando notam, por exemplo, a incapacidade de lembrar o nome ou o rosto de pessoas que lhe são importantes - o rosto de um grande amigo ou o rosto do filho”, anuncia o professor titular em neuroquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ivan Izquierdo. Mas, calma: ninguém precisa ficar em pânico quando deixa a carteira em casa, por exemplo. “Quanto mais ocupados sejamos, mas vamos esquecer, temos mais coisas em que pensar e isto não é uma coisa importante”, diz o professor. Conselho de um dos maiores especialistas no assunto: assim como a ginástica é importante para manter o corpo a mente também precisa de exercício. “E a melhor forma de se exercitar é pela leitura, porque a leitura ativa ao mesmo tempo várias memórias”, explica Izquierdo. Feliz de quem pode visitar a memória como se fizesse um passeio pelo porão da casa: reencontrar objetos, cultivar lembranças, misturar passado e presente. “Lembro-me de tudo, recito poesias de quando era adolescente, canto coisas de quando era menina. Desculpem-me, mas não me sinto uma mulher de 71 anos”, diz a musicista Ivone Pacheco. Esta gaúcha de 71 anos casou muito cedo. Teve três filhos e depois de uma separação difícil e muitas angústias deu uma guinada na vida. Com quase 50 anos, passou a se dedicar inteiramente à arte que aprendeu na infância. “Quero esquecer o passado, mas só as coisas ruins. Na memória, guardo as coisas boas, como, por exemplo, a música”, diz dona Ivone. Ivone criou um clube de jazz em Porto Alegre, onde mora. Revirou o baú de memórias e hoje divide o palco com músicos de todas as idades. Eterna, como uma estrela. “A carcaça, a matéria, a forma de caminhar, o tombo, as doenças, isso envelhece. Mas o espírito não”, ressalta a musicista.

CUIDADOS ESPECIAIS.

Para os especialistas, uma velhice saudável é mesmo a eterna juventude tão perseguida pelos sonhadores. Não começa aos 60, nem aos 40, mas aos 20 anos. Alguns conselhos para quem quer chegar lá de bem com a vida: cuidar da pele. Uma vez por mês, faça um exame diante do espelho. “Ver se não tem nenhuma mancha ou feridinha que não está cicatrizando”, orienta a biogerontóloga Ivana da Cruz. Nunca esquecer o protetor solar. Usar óculos escuros em ambiente de muita luz evita a catarata. Consumir pelo menos cinco tipos de frutas ou vegetais a cada dia. Tomar muita água limpa hidrata o organismo. Dormir bem: o sono tranqüilo é um dos segredos da longevidade. Ivana completa: “Pessoas que estão tendo sonos entrecortados e que acordam cansadas devem procurar ajuda”. Mulheres: auto-exame da mama e Papanicolau como rotina de vida. Homens: avaliação freqüente da próstata. “Muito pior do que a vergonha é uma doença. Então, o exame de próstata, que consiste no toque mais o exame de sangue, é fundamental”, diz a especialista. Fundamental, mesmo, é não perder o ritmo e seguir os passos de quem fez do tempo o melhor parceiro.

CORRIDA PARA O FUTURO.

Flexibilidade para tirar o corpo esguio do chão e erguê-lo a 1,2 metro de altura. Massa muscular para suportar a explosão nos cem metros rasos, percorridos em 17 segundos. Nada demais para quem passa a vida treinando os músculos. A diferença é que, no caso de Antônio e Inês Shizimo, "a vida" é algo que já dura há mais de 70 anos. “Tenho 72 anos”, ela conta. “Nasci no dia 12 de setembro de 1927”, anuncia Antônio. Depois dos 50, o doce casal parou de contar velinhas e começou a colecionar medalhas. E tudo começou em uma marcha leve, para envelhecer com saúde, em grupo de vencedores: a turma de cabeça branca das aulas de educação física da Universidade de São Paulo (USP). “Os exercícios não cansam. Pelo contrário, dá mais vontade de fazê-los”, garante o aluno Horácio Gailito, de 67 anos. O exercício é para a corrida de obstáculos da velhice. “Acho que é muito desagradável viver sem qualidade de vida, com dependência”, diz outro aluno, Álvaro do Nascimento, de 76 anos. Objetos do cotidiano viram equipamento para aguçar reflexos. O cabo de vassoura fortalece braços e pernas. "Preciso de força muscular nas pernas para poder levantar da cadeira, do vaso sanitário, subir em um ônibus, subir degraus, abaixar-me para pegar um assado no forno, por exemplo", observa a professora de educação física da USP, Silene Sumire Okuma. O rolinho de areia ensina a fazer força do jeito certo. O alongamento apronta os músculos para a longa jornada vida adiante. Doutora em educação física para a terceira idade, Silene vive correndo contra o calendário. Luta para impedir que o tempo roube a independência desta gente. "O envelhecimento sedentário vai fazer com que se tenha velocidade de perda, que leva à degeneração, muito mais rapidamente do que um corpo que se mantém ativo", explica.

ENERGIA AOS 99.

Pular na piscina duas vezes por semana. Esse é um dos maiores prazeres de um homem que atravessou um século de vida em largas braçadas. "Comecei a nadar aos 18 anos. Vou parar quando morrer”, diz Miguel Graziano. Parar é palavra sem registro no vocabulário deste italiano de 99 anos e três meses de idade. Nos 20 minutos diários de bicicleta, Miguel aproveita para ficar de olho na notícia. O resto do tempo, trabalha. "Há dez anos, desde que veio morar comigo, jamais tive que fazer uma compra. Ele se encarrega de fazer supermercado, feira, vai aos bancos", revela sua filha, Marisa Grasiano Tortamano. Com a idade que tem, Miguel faz ainda mais: prepara com mãos firmes a massa do pão e do macarrão que a família consome. "Quanto menos fico parado, mais a vida alonga", comenta. Mas o que alonga, mesmo, parecem ser as simpáticas sessões semanais de convívio familiar. É quando Miguel preside, orgulhoso, a mesa que reúne quatro gerações de Grazianos. A vida em família parece ser a fonte da vitalidade deste velho senhor, que não come carne desde os 70, mas, até hoje, não dispensa um bom vinho tinto - italiano, de preferência. "Tudo tem que ser moderado na vida. A começar pelo amor, pela comida e pelo modo de viver. Tudo tem que ter um certo comportamento", ressalta Miguel.

TEMPO DE SE MEXER.

Na superfície, o grupo da terceira idade de São Caetano ensaia a coreografia para o campeonato de hidroginástica. No fundo, estes aposentados do ABC Paulista comemoram a descoberta de que exercício e amizade são um santo remédio para envelhecer com saúde. “A gente deixa os problemas de saúde para depois", conta dona Dirce de Matos calvo, de 74 anos. Moço ou velho, no local, são categorias que parecem depender mais da disposição que da data de nascimento. Nos três centros da terceira idade de São Caetano, a energia madura é canalizada para atividades que melhoram a qualidade de vida de quem passou dos 50. A cidade, que tem o melhor índice de desenvolvimento humano do país e um dos melhores atendimentos ao idoso, atraiu a atenção dos cientistas. Todas as semanas, uma equipe multidisciplinar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desembarca em São Caetano com cronômetros e balanças e tenta traduzir para a ciência o bem-estar estampado em cada rosto da turma. "Ando para ir ao banco, à padaria, faço tudo a pé, não vou de carro. Esse é o segredo para me manter bem, além de piscina e hidroginástica duas vezes por semana", revela um dos alunos, João Bernardes, de 68 anos. "Começamos a acumular peso, gordura, a perder flexibilidade, a partir dos 30 anos. Nossa condição respiratória, cardiovascular, o fôlego que a gente tem, também é perdida a partir dos 30. Então, dos 30 aos 60, perdi 30 anos de saúde que poderia ter poupado perfeitamente se tivesse feito atividade física regular", observa a médica esportiva da Unifesp Sandra Matsudo. Foi-se o tempo em que o estetoscópio bastava. Para conferir a saúde desses vovôs sarados, haja fôlego e tecnologia! No Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício da Unifesp, idosos passam por um programa de condicionamento físico de seis meses. O resultado é impressionante: a depressão caiu 30%; a ansiedade foi 70% menor nos grupos estudados; 80% dos idosos tiveram uma melhora de qualidade de vida, com reflexos na memória, raciocínio e humor. O exercício pode não rejuvenescer, mas retarda o envelhecimento e o torna mais saudável. “O exercício físico faz com que o idoso tenha um grande restabelecimento físico e mental”, diz o professor da Unifesp Marco Túlio de Mello.

MENTE EM EXERCÍCIO.

Exercitar os neurônios é outro jeito de driblar o tempo e envelhecer bem. Vovôs e vovós ocupam carteiras nas universidades que abriram suas portas à terceira idade, como a Federal de São Paulo. A hora do intervalo – e do lanchinho – é sagrada, mas as aulas são levadas muito a sério. A freqüência mínima para a pessoa ser aprovada é de 75%. Se não comparecer a pelo menos três quartos das aulas, não recebe o diploma. Em quatro anos de Universidade Aberta à Terceira Idade, nunca houve uma reprovação. Ou seja, o pessoal vai às aulas mesmo. Os estudantes têm aulas de saúde, assuntos contemporâneos, informática, inglês e integração social. Portas que, em muitos casos, se abrem pela primeira vez diante de olhos que continuam a brilhar de curiosidade. "Hoje não sou mais uma analfabeta virtual, antes era", conta a aluna Maria Luiza Vannucche, de 68 anos. Um senhor nunca saiu da universidade. O velho mestre da Escola de Agricultura Luís de Queirós, em Piracicaba, está aposentado há 20 anos e trabalha até hoje. Aos 90 anos, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), o doutor Walter Accorsi é especialista em fitoterápicos, remédios feitos com plantas cuidadosamente cultivadas no horto que leva o nome dele. Diante da placa que diz Horto de Plantas Medicinais e Aromáticas Professor Walter Radamés Accorsi, brinca: “Não sei quem ele é”. O bom humor, a mente ágil, a memória prodigiosa surpreendem a cada frase. “Os americanos chamam a babosa de planta milagrosa. Ela serve para tudo, tem 56 aplicações. É muito importante para o coração e para o fígado”, destaca o mestre. Doutor Accorsi ficou famoso pela defesa do uso medicinal do confrei e pela pesquisa com o ipê roxo, o popular pau d'arco. "Agora estou tomando o extrato. Além de produzir sangue, combate as hemorragias. Os leucêmicos encontram no pau d’arco um tratamento natural. Câncer, então, nem se fala", comenta. Usuário das próprias receitas, o velho professor toma um coquetel diário de fitoterápicos. Ultimamente, anda entusiasmado com um tipo de ginseng vindo do Peru. "Agora vou tomar maca, que impede o envelhecimento precoce. Como já estou velho, sem ser precocemente, não sei se vai fazer efeito. A substância impede o envelhecimento precoce, mas já estou no fim da vida", brinca. Uma vida dedicada à ciência de plantar e colher. Alguém que lançou raízes fortes desde o princípio, continua a semear até hoje. E merece, mais do que nunca, o reconhecimento de várias gerações de discípulos.

APOSENTADOS NA ATIVA.

Quando as rugas desenham a pele, os cabelos perdem a cor e o corpo pede descanso, seria a hora de esperar o tempo passar em um embalo suave. Mas essa é uma imagem que está ficando velha. Ele tem 88 anos e se recusa a representar o papel de velhinho. Heitor Farias prefere vestir o figurino da rebeldia. Nos passeios com um grupo de motociclistas, vai na frente. É um veterano e conhece os caminhos da beleza, do prazer. Heitor não tem dúvida: precisa do movimento para viver. "Ela precisa de combustível para funcionar e é para mim um combustível estar andando, trabalhando. Cheguei a ficar parado um tempo, mas senti tristeza”, conta. Aposentando do serviço público por causa da idade, Heitor virou consultor na área de administração. Entrega os relatórios que faz usando a moto. “Acho que o segredo é continuar ativo e tenho convicção disso. Por isso que estou nessa atividade. Não paro e enquanto tiver disposição estarei em cima da moto. E trabalhando”, garante. Nem tão aventureiros e radicais como Heitor, mas com muita energia para o trabalho. São assim os idosos de hoje. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que quase 60% dos aposentados acabam voltando para o batente. Como a estrada da vida está ficando cada vez mais longa, tem muita gente com disposição para continuar rodando nela. Uma vida inteira de trabalho no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A obra identifica o homem. O nome dele é Orlando Pereira da Silva, mas todo mundo o conhece como Folha Seca. Um apelido da época em que usava folhas secas para desatolar caminhões nas estradinhas barrentas do Jardim Botânico. Hoje, é nome de lago. Aos 80 anos, tem um orgulho: suas mãos ajudaram a embelezar e a cuidar de tudo. "São 20 lagos, quatro cascatas e cinco metros de vala. Aposentei-me em 1977, mas continuei”, diz. Continuou atendendo ao pedido da Sociedade dos Amigos do Jardim Botânico. E também por medo. "Mais de 30 colegas meus que se aposentam morreram. Morreram porque ficavam parados, iam dormir até 14h. Não faziam nada, ficavam jogando dominó. Eu não, faço movimento”, afirma. Entra no lago, cuida das plantas, pedala por toda parte. Folha Seca dispensa as folgas e as férias. Fez do trabalho sua seiva e das árvores centenárias seu exemplo. “A árvore ainda está brotando”, aponta. “É por isso que o velho aqui também está brotando”. Transformar garrafas pet em vassouras. A idéia, revolucionária na época, surgiu da necessidade de um grupo de aposentados de uma grande siderúrgica de Sabará, Minas Gerais. Precisavam bancar o plano de saúde e também não queriam ficar parados. Formaram uma cooperativa. "Tínhamos um capital de R$ 2 mil. Fomos ao ferro-velho e compramos todo o material por um preço baixinho. Um colega tinha uma máquina de costura e começamos a aproveitar essas peças", lembra o aposentado Araken Gomes de Paiva. Assim, foi montada a fábrica, que tem capacidade para produzir sete mil vassouras por mês. As garrafas são doadas pela comunidade. O negócio deu tão certo que foi ampliado. Agora, também fabricam sacos plásticos. Máquinas antigas? Não importa. Ninguém persegue a produtividade a qualquer preço. "Aqui não existe regulamento rígido. As pessoas fazem o que querem, quando querem e como podem fazer. E funciona, porque nosso objetivo é a valorização da vida e não o enriquecimento", revela Araken. Hoje, os 90 aposentados que se revezam no trabalho da fábrica têm plano de saúde. Ganham pouco, mas o orgulho é grande. Não há mais garrafas boiando no rio, e as vassouras deixam a histórica Sabará um brinco.

VIOLÊNCIA CONTRA O IDOSO.

As marcas não são só do tempo. O país que envelhece ainda maltrata quem cruza a barreira da terceira idade. A violência muitas vezes vem da família, como na novela “Mulheres Apaixonadas”. Na vida real, pode ser muito pior. “Ah, meu Deus! Tenho sofrido na minha vida, sabe...”, declara dona Maria Alexandre Rosa. A dança com as amigas é um jeito de espantar tanto sofrimento. Aos 76 anos, dona Maria encontrou o respeito que não tinha em casa. Moradora da Cidade de Deus, um bairro do Rio de Janeiro dominado por traficantes, viveu anos com medo do próprio filho - usuário de drogas.  "Bateu nas minhas costas, deu um soco na minha boca, que levei 20 pontos", conta. Violência sem limites. "Não pude suportar. Fui obrigada a entregá-lo à policia”, revela. Mas o sentimento de mãe pode ser mais forte do que a dor da agressão. "Pedi para que não fosse preso, porque iam bater muito nele. Fiquei com pena. Mãe é mãe, ? Coração de mãe dói", observa. O filho morreu há dois anos. Só então dona Maria começou a viver. Recuperou a auto-estima em um centro de convivência onde os idosos ficam só durante o dia. "Essa alternativa visa evitar que o idoso vá para um asilo desnecessariamente, porque a gente entende que o asilo é a última opção", diz a coordenadora da Casa de Santa Ana, Maria de Lourdes Braz. Em São Paulo, a vigilância no meio da noite. Promotores e técnicos de saúde percorrem asilos particulares e ficam chocados com o que ainda se faz contra os idosos, que pagam para ter atendimento. Em um quarto frio e mal-cheiroso, Francisco, de 69 anos, passa as noites trancado. "Quando o senhor precisa de alguma coisa, bate na porta?”, pergunta um dos promotores. “Não”, responde Francisco. “O senhor fica a noite toda com a porta fechada?”, questiona o promotor. “Fico”, afirma Francisco. Outro asilo, outra forma de exclusão. No local, a responsável pela limpeza faz também o papel de enfermeira. O diretor da Vigilância Sanitária de São Paulo, Ocimar Azzolini, estranha tantos idosos dormindo tão profundamente. Identificou exagero nos remédios. "Dormindo mais à noite, o trabalho para quem está tomando conta é menor", explica o Azzolini. Só 13 anos depois da criança e do adolescente, chegou a vez de o idoso ganhar proteção legal. O Estatuto do Idoso, sancionado na quarta-feira, pune com mais rigor os abusos contra quem passou dos 60. Agora, é a sociedade que precisa ficar mais vigilante, porque o caminho é a denúncia. No Rio de Janeiro, o Ligue-Idoso registrou só neste ano 1,2 mil casos. As ligações são anônimas, e quase todas de vizinhos indignados com o que vêem. Dona Zélia é um caso mais raro. Foi pessoalmente denunciar duas agressoras: a filha e a neta. “Fui agredida pela minha neta, que tem 13 anos. A mãe dela, minha filha, foi quem me segurou. Ela me maltrata”, conta. "Só mesmo quem trabalha no atendimento ao idoso pode ter noção de quanto nossa população é massacrada", constata a assistente social do Ligue-Idoso, Rosângela de Castro Augusto. No fundo da enfermaria, em um hospital do Rio, a mostra de que o Brasil ainda não aprendeu a lidar com seus velhos. Presa a uma cama, dona Maria Lucy recebe mais carinho do que tinha em casa. Ela foi libertada pela polícia depois do alerta dos vizinhos. Aos 87 anos, viúva, perdeu o único filho e morava sozinha em uma casa que parecia abandonada. Um pouquinho de biscoito e leite eram os únicos alimentos dentro de casa. Quem passava pela rua conta que uma porta ficava sempre aberta, mas o contato de Maria Lucy com o mundo externo terminava no quintal. Não podia passar para a rua. O portão permanecia fechado e Maria Lucy não tinha as chaves. Nos últimos tempos, comovidos, os vizinhos resolveram ajudar passando alimentos por cima do portão e até café por um buraco. Era uma prisão dentro de casa. Dona Maria Lucy traduzia a solidão em gritos. "Gritava muito, a noite inteirinha. Quebrava tudo dentro de casa. Acho que era de fome, porque ela gritava que tava com fome", lembra a vizinha Cremilda Almeida. A equipe do Globo Repórter localizou dona Raimunda de Souza Lopes, a irmã de Maria Lucy. Ela não acha que a idosa estivesse abandonada. Conta que, sempre que podia, ia visitá-la e que uma neta mandava dinheiro todo mês. As dificuldades de dona Maria Lucy, diz Raimunda, são as dificuldades comuns de uma família simples do Brasil. "Acho que existem três ou quatro testemunhas dizendo que ela é maltratada. Mas a pessoa ia agüentar três anos, como eles falam, sem morrer?", argumenta Raimunda. Cárcere privado, abandono, maus-tratos. Quem investiga diz que, em mais da metade dos casos as agressões contra os idosos são motivadas por dinheiro. Dona Ruth Giannico, de 80 anos, sofreu um derrame há seis meses. Quando deixou o hospital, foi internada pela filha em um asilo, que também recebe pacientes psiquiátricos. Só conseguiu sair com ajuda do Ministério Público de São Paulo. "Falei que não queria mais ficar lá porque ia ficar maluca também. Minha própria filha falou assim: ‘Olha aqui, se acha que não está bom, vou levá-la para um lugar ainda pior’. Senti como se fosse uma punhalada”, emociona-se dona Ruth. Hoje, dona Ruth está em uma casa de repouso melhor, mas divide um quarto com outras idosas. Poderia estar em um sobrado que já foi dela. Dona Ruth contou aos promotores que, seis anos atrás, transferiu o imóvel para outra pessoa por pressão da filha. "Ela me fez assinar para passar a casa para esse homem, que é amigo deles", revela. Um mês depois, a casa foi transferida de novo: do primeiro comprador para a filha de dona Ruth. Ela queria vendê-lo, mas, por enquanto, a Justiça impede. Por que tudo isso? A filha de dona Ruth não explica e se recusa a gravar entrevista. "Cuidar do envelhecimento de um minuto para outro não resolve. Tem que se preparar, preparar o idoso de amanhã, para enfrentar seu próprio envelhecimento junto aos filhos e à família”, comenta o promotor público João Estevam da Silva.

DE BEM COM A VIDA.

“Parabéns pra você...”. A festa é pelos 74 anos de Jacira. A reunião das amigas é em um edifício em Copacabana, bairro do Rio de Janeiro onde vivem mais de 40 mil idosos - a maior concentração do Brasil. No lugar, velhice não é sinônimo de isolamento e desânimo. Na praia tão famosa se aprende que a terceira idade pode - e deve - ser vivida com disposição e alegria. Prazer ao alcance de todos, em qualquer lugar. A caminhada no calçadão, a praia, o jogo de cartas. Físico e mente sempre ativos. “O cérebro é o que temos de mais precioso. Se a cabeça não funcionar, nada funciona”, avalia Esmeralda Kwaszinsky, de 91 anos. Dona Esmeralda, viúva, mora com a filha e o neto. São 91 anos de pura sabedoria. E um grande senso de humor. Quando perguntada sobre a possibilidade de amar de novo, responde: “Em primeiro lugar, teria de ser um moço. Porque um homem de 91, nem de graça!”. Em um hotel exclusivo para a terceira idade há equipamentos de segurança e serviços de enfermaria. Dona Welza Loyola, de 85 anos, garante que é feliz. “Prefiro morar aqui. Meu filho é muito meu amigo, está sempre comigo, mas vou dar trabalho se morar com ele”, diz. Motivo para reclamar, todo mundo tem. Mas, unidas pela solidariedade, mulheres superam seus dramas. Há 35 anos reúnem-se em um clube de idosas em Copacabana. E trabalham muito, sempre pensando nos outros. “Os vestidinhos que fazemos vão para vários lugares - para casas de saúde, maternidades”, conta Cila da Fonseca, de 77 anos. “O trabalho é maravilhoso”. Dona Rosa Comezzano tem 88 anos e coordena o trabalho das costureiras voluntárias. No peito, um marcapasso dita o ritmo do coração generoso. “O que nos dá saúde é fazer alguma coisa por nossos semelhantes”, diz a coordenadora de costura da Cejuve, Rosa Comezzano. Copacabana ficou lá embaixo. No alto do morro, é a Favela do Cantagalo. Ser aposentado e viver no local é, antes de tudo, um exercício de sobrevivência. Seu João Feliciano é um dos milhões de aposentados brasileiros que trabalham. Aos 73 anos, ainda não pôde descansar. Com a pensão da aposentadoria, o salário de técnico de manutenção e mais alguns biscates, sustenta nove pessoas - filhos, netos e bisnetos. “Considero-me um vencedor porque nunca tive derrota”, garante seu João. “O que tenho é suficiente: uma família consagrada, graças a Deus”, diz. Do alto, Dona Maria Helena Rocha, de 63 anos, vê a cidade dividida. Mora no morro desde os dez anos. E ainda sonha morar lá embaixo. Aos 65 anos, já perdeu a conta de quantos netos e bisnetos mantém com uma aposentadoria de apenas um salário mínimo. “Os pais dessa molecada toda já estão no andar de cima, morreram”, revela dona Lelena. Quem vive no morro conhece a lei do silêncio. Da família toda, só um dos netos concorda em aparecer. Mas nessa luta diária pela vida, dona Lelena não tem tempo para sentir medo. “Tenho insônia. Fico preocupada, pensando no meu pão”, conta. Por mais bonita que seja, a cidade grande é, a cada dia, um lugar mais assustador. É barulho, poluição, trânsito, violência. Com medo, o idoso sai cada vez menos de casa. Alguns poucos têm a sorte de poder deixar tudo isso para trás e ir aproveitar a aposentadoria em uma cidade menor, com direito a um horizonte com muito verde e tranqüilidade. Em Teresópolis, Região Serrana do Rio, fica uma casa adaptada para um casal de aposentados. Apenas uma pequena rampa na entrada. De resto, a casa é toda plana. Portas e corredores largos, as tomadas são mais altas, a iluminação é acionada por sensores. Os tapetes têm antiderrapantes e no banheiro, preocupação redobrada. “Das pessoas que caem dentro de casa, 70% sofrem algum tipo de fraturas. E grande parte dessas fraturas acontece dentro dos banheiros, por causa do piso escorregadio”, revela a arquiteta do Projeto Casa Segura, Cybele Monteiro de Barros. Para evitar acidentes, piso que não escorrega, vaso sanitário mais alto, barras de apoio nas paredes e cadeira no box para ajudar no banho do idoso. “Nunca escorreguei. A gente se sente mais seguro”, observam os moradores da casa.

GLOBO-REPÓRTER: SONO—31 DE OUTUBRO DE 2003.

INSÔNIA EM FAMÍLIA.

O fim da tarde é um momento mágico para Luís Guilherme. Desde criança, é nesta hora que solta o corpo e deixa a imaginação flutuar ao som das ondas da Praia do Arpoador, na Zona Sul do Rio. Quando o sol se for, a paz de Luís Guilherme também vai desaparecer. A noite virou inimiga deste músico de 26 anos. O problema começou na adolescência. "Desde que passei para o segundo grau, quando fui estudar à noite, comecei a ter problemas para dormir. Ficava na Internet acordado o tempo inteiro, sem sono nenhum, tendo problemas para dormir entre 23h e 6h", conta. Desde 1997 Luís Guilherme mudou de vida e de nome. Virou Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas. Mas os problemas de sono dele não mudaram. Aliás, agravaram-se. "Estava trabalhando muito, ficava cansado e tudo, mas quando chegava à noite não conseguia dormir de jeito nenhum. As distâncias entre as cidades onde a gente tocava eram longas e não conseguia dormir no ônibus direito. Comecei a ter problemas na voz. Procurei um médico, que me orientou a tomar um remédio para poder descansar e dormir enquanto estivesse em turnê”, diz Tico. “Fiquei oito meses só dormindo à base de remédio. E isso era horrível porque quando você fica viciado em um remédio o sono fica superficial sem ele". Tico não é o único na família com problemas de sono. A mãe dele, Lúcia Fontenelle, há 25 anos tem insônia e para dormir toma remédios que só podem ser vendidos com receita medica. “Não consigo dormir uma noite inteira tranqüilamente. Durmo umas duas horas, acordo e tomo meio comprimido para ver se adianta. Meio comprimido faz efeito por mais umas duas horas. Aí, acordo de novo. Quando é mais ou menos 6h, fico num mau humor danado, porque o mundo inteiro dormiu e fiquei acordada, o mundo inteiro está acordando e eu querendo dormir”, diz. “Acho que se chegasse um gênio e perguntasse quais são meus três desejos, um deles com certeza seria dormir direito”.

ENQUANTO A MANHÃ NÃO CHEGA.

Uma da manhã no centro de São Paulo. Cada janela acesa marca mais uma madrugada de rolar na cama sem conseguir dormir, de andar pela casa, de ver televisão para passar o tempo enquanto a manhã não chega. Assim como Tico e a mãe dele, outros milhões de brasileiros, nesta hora, em outras cidades, estão lutando para pegar no sono. De 15% a 20% da população sofrem de insônia. São aproximadamente 36 milhões de pessoas. Dessas, 70% são mulheres. A viúva Maria Gomes é uma delas. Sempre dormiu mal, mesmo antes da morte do marido. Mas a insônia se agravou quando perdeu o filho mais velho, vítima de meningite. “Estava viajando para voltar para casa. Mas não cheguei. A viagem de ônibus durou três dias. Esconderam de mim que ele estava internado e aconteceu o pior. Passei a não dormir. Um dia dormia, outro não”, conta dona Maria. “Quando acordo, estou cansada e muito mau humorada”. "Sempre digo que a insônia é a ponta do iceberg. Na verdade, por debaixo desse iceberg existe uma complexidade de fatores. Podem ser fatores físicos, como problemas respiratórios durante a noite, que levam a um sono extremamente fragmentado, ou problemas psicológicos – afetivos, profissionais, familiares, econômicos", revela o neurologista do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luciano Ribeiro Pinto Jr. O que há por baixo do iceberg, no caso de dona Maria, é o que os pesquisadores do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tentaram descobrir. Ela foi submetida a uma polissonografia. Eletrodos ligados a várias partes do corpo registraram, durante toda a noite, a atividade cerebral, muscular, respiratória e cardiológica de dona Maria. Dona Maria demorou quase uma hora para dormir – exatos 58 minutos. A polissonografia mostrou que dormiu um sono leve, que não descansa. Acordou várias vezes durante a noite. E o mais importante: a polissonografia revelou a razão para tantos despertares. "O principal, que chama atenção no exame dela, é que teve movimentos periódicos de perna. A pessoa fica movimentando a perna em um intervalo regular. Então, não é só uma queixa psicológica, ela tem um motivo real para ficar acordando à noite, que são os movimentos de perna", anuncia a pneumologista do Instituto do Sono da Unifesp Lia Rita Bittencourt. Um problema de décadas, finalmente, tem chance de ser resolvido. Pelos próximos oito meses dona Maria vai passar por um tratamento para acabar com a insônia. Nada de remédios para dormir, vai fazer ginástica aeróbica, para cansar os músculos da perna, e tomar uma medicação do mesmo tipo que se dá a quem tem o Mal de Parkinson. “Espero uma melhora com o tratamento, que encoste e durma. É o que mais quero", diz ela.

SONO VIGIADO.

Tico livrou-se da insônia e dos remédios sozinho. Enfrentou crise de abstinência. Ficou quatro dias praticamente sem dormir, mas hoje dorme tranqüilo, sem remédios. Em compensação... Com a vida agitada de shows que tem pelo Brasil, o problema dele agora é outro. “Hoje em dia, sempre que dá para dormir nas viagens, durmo. A dificuldade agora é só tempo mesmo. Durmo seis horas, às vezes cinco, às vezes três, às vezes oito. Então, não existe uma regularidade no meu cronograma de sono”, diz o líder da banda Detonautas. Tico é o único da banda que realmente tem problema de sono. “Tchello é um rapaz que dorme onde bate. É que nem saco de batata: você joga num canto, ele encosta e dorme. Todas às vezes que levanto à noite, para ir ao banheiro, por exemplo, Renato está dormindo. Fabinho ronca para caramba. Rodrigo, o outro guitarrista, também. DJ Clashton é outro saco de batata. Dorme e ronca para caramba”, revela Tico. Tico concordou em fazer um teste para o Globo Repórter. Foi monitorado pelo Instituto do Sono da Unifesp. Durante dez dias, o músico usou um actígrafo – um objeto que parece um relógio, sem ponteiros nem mostrador. Dentro há um chip, como os de computador, que registra os momentos de atividade e de repouso. O Globo Repórter acompanhou a viagem de Tico e conheceu a rotina dele, inclusive o ônibus onde dorme, quando dá. "Este é o Favelão. O ônibus é realmente um favelão, no bom sentido”, diz Tico. Primeira etapa da viagem: a equipe saiu da capital paulista para Barra do Piraí, no interior do estado do Rio. Foram 406 quilômetros de estrada, cansaço e falta de sono.

SINAIS DE NOITES MAL DORMIDAS.

Onze e meia da manhã, sol a pino, engarrafamento. É sexta-feira e muitos paulistanos já começam a sair da cidade, em busca de um fim de semana na serra ou na praia. No meio deles, o ônibus que leva Tico Santa Cruz e seus companheiros de banda ao trabalho. Hoje à noite eles farão um show e precisam descansar. Mas é difícil dormir com o calor, a luminosidade, o barulho. Quatrocentos e seis quilômetros depois, já à noite, a chegada em Piraí. Fãs na porta. Tico se fecha no quarto para tentar dormir até a hora do show, que vai ser à 1h. “Descansei legal no ônibus”, diz Tchello, músico da banda. “Não dormi nada, só consegui dormir meia hora no ônibus. Cheguei aqui ainda com um pouco de sinusite, talvez até por causa do cansaço, que baixa a resistência do corpo”, revela o líder dos Detonautas. Mas vai ter que enfrentar duas horas de show, assim mesmo. Por isso, muito exercício vocal. E o actígrafo no braço. Acabado o show, às 4h, a estrada novamente. Destino: Jaboticabal, no interior do estado de São Paulo. Até lá, serão 718 quilômetros. “Ontem particularmente estava muito cansado. Então deitei no ônibus e só acordei em Jaboticabal. Para mim foi maravilhoso, porque consegui dormir nove horas ininterruptas. Só acordei para ir ao banheiro”, conta o músico. O repouso se reflete no show. Milhares de jovens vibram com a demonstração de energia do ex-insone. E sempre com o actígrafo no braço. Do palco, direto para o ônibus. De Jaboticabal para a capital paulista, onde fará show no dia seguinte, serão mais 373 quilômetros. Já faz três dias que a equipe do Globo Repórter está acompanhando Tico. O actígrafo deve confirmar o que foi presenciado: pouquíssimas horas de sono. Além de perigosa, a privação do sono traz problemas de saúde que muita gente nem imagina. "Se privar os animais do sono por 20 dias, morrem. Então, sono é essencial à vida. Mas, antes de morrer, com poucas privações, começa a dar irritabilidade, a ter problemas cárdio-vasculares, dá uma acelerada no coração, problemas de memória, começa a não guardar mais as coisas. Então, a qualidade de vida cai muito", revela Sérgio Tufik, coordenador do Instituto do Sono da Unifesp. O médico diz que não há nada pior para o organismo do que a falta de regularidade, de rotina. “Comer, dormir e acordar sempre na mesma hora é uma economia grande para o organismo. Em animais, a gente fez experimentos mostrando que quando o ritmo varia perde-se de 20% a 30% do tempo de...

AGITO NA NOITE.

Antigamente, as pessoas obedeciam a seus relógios internos, a seus relógios biológicos. Dormiam quando escurecia e acordavam com o nascer do sol. A invenção da luz elétrica acabou com isso: estendemos o dia noite a dentro e com isso reduzimos as horas de sono. Tudo funciona, tudo está à mão. Mas nosso corpo sofre com essa privação voluntária de sono. “Durmo em média de duas a três horas por noite”, conta a empresária Tammy Kunyoshi. "Gosto de sair e voltar por volta das 4h. Às vezes retorno um pouco mais tarde. Então dou aquela dormidinha de duas horas, acordo e vou para a faculdade. Capengando, mas vou", diz a universitária Melissa Almeida. Tamy e a amiga Melissa são escravas da noite. Tamy, que é dona de uma agência de DJs, vai a festas cinco noites na semana. Chega em casa de manhã, troca de roupa, sai de novo. “Às vezes chego da festa 6h30min, 6h45min. Minha aula começa às 7h20min. Daí, vou para o estacionamento da faculdade, dou aquela dormidinha de 15 minutos, só para dar uma acordada”, conta Tamy. Melissa também trabalha com DJs, também faz faculdade e, além de tudo, tem um filho para criar. Mas não abre mão da noite. “Acho que esse ritmo de vida vai ser duradouro porque sou meio acelerada normalmente. Então, por que parar? Festa é bom, passear é bom, então vamos unir o útil ao agradável”, diz a universitária. “Tenho 27 anos. Se Deus quiser, continuo nessa vida até uns 80”, anuncia Tammy. Só o tempo dirá se Tamy vai conseguir manter esse ritmo - e por quanto tempo. Mas o corpo, com certeza, vai se ressentir. “O indivíduo que dorme mal cronicamente, que tem insônia crônica, pode ter menos tempo de vida. Existem indícios mostrando que processos químicos, relacionados à privação de sono crônica num organismo podem determinar que um indivíduo envelheça mais”.

APRENDIZAGEM COMPROMETIDA.

Dormir bastante pode não garantir juventude eterna. Mas quem dorme melhor, comprovadamente rende mais. No trabalho e no estudo. Uma pesquisa feita com jovens da capital paulista e de um vilarejo no litoral de São Paulo mostrou que não é só Deus que ajuda a quem cedo madruga. O Sol mal começa a brilhar e jovens já estão indo para a escola. Ontem foram se deitar quando anoiteceu - não há luz elétrica na comunidade. O desempenho escolar deles foi analisado pelo professor-adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fernando Louzada. “Em ambientes rurais, as crianças dormem mais cedo. Em função do horário da escola ser quase o mesmo que o da zona urbana, acabam dormindo mais. Então, não apresentam privação de sono, dormem o suficiente”, explica o professor. A pesquisa estudou 620 alunos de 5ª a 8ª séries de comunidades rurais e urbanas e comparou o padrão de sono e o desempenho escolar deles. “Observamos que os alunos expostos ao ambiente urbano, à televisão, ao computador, à possibilidade do uso da Internet, acabam atrasando os horários de sono e dormem menos. Com certeza, se dormissem mais, poderiam ter um desempenho melhor na escola”, revela Fernando Louzada. Thiago Luis Barbosa é inteligente, interessado, bom aluno. Mas poderia ser melhor, não fossem os cochilos nas aulas. “Hoje não dormi na aula, só dei uma descansadinha na aula de História, uma deitadinha básica na carteira. Cochilei um pouquinho”, conta. Depois de um dia exaustivo nas aulas e cheio de atividades esportivas, Thiago está cansado, mas não resiste à sedução do computador - fica na Internet até, pelo menos, uma da manhã. Diz que dorme por volta de 2h30min e acorda às 6h. Sua mãe, Silmara Parise, nem desconfiava das atividades noturnas de Thiago. “Vou dormir antes deles e achava que estivessem dormindo. Às vezes percebo os sinais de cansaço dele: uma irritaçãozinha aqui e ali, um mau humor. Às vezes é complicado para acordar de manhã”, conta a coordenadora pedagógica. “Na aula, principalmente, dou uma cochiladinha de vez em quando. A primeira aula dá aquele soninho... Tem vezes até que durmo numa aula assim ou outra. Como vou bem na aula? Segredo”, diz o estudante. O autor da pesquisa sugere que as escolas mudem o horário de entrada, para deixar os jovens dormirem um pouco mais. “A mudança de horário é algo que muitas escolas norte-americanas já fizeram, atrasando o horário do início das aulas para tentar tornar a duração de sono desses adolescentes maior”, conta o professor Fernando Louzada. Uma horinha a mais de manhã é tudo o que eles sonham. E mais querem.

SONO INCONTROLÁVEL.

O trabalho da analista de contas Helga de Oliveira Bispo exige total concentração. Mas, quatro anos atrás, seria uma tarefa impossível. Não precisava nem ser um trabalho monótono: Helga vivia caindo no sono - um sono irresistível. “A gente acha que é preguiça. Tinha uma vida útil e de repente se tornou um vegetal. Porque só sabia comer, dormir e mais nada. Nem correspondia aos carinhos que o marido procurava, queria dormir. Queria bater nele quando ele supunha a hipótese de fazermos alguma coisa”, conta Helga. “A gente chega em casa cansado, recém-casado, esperando encontrar a esposa, a comida, as crianças. E não tinha nada disso. Isso vai magoando, chateando, criando o afastamento do casal”, comenta o empreiteiro Gislano da Silva Bispo. Há quatro anos as brincadeiras de Gabriel com o irmão mais novo também eram impossíveis. A mãe passava a maior parte do dia na cama: era Gabriel quem arrumava a casa e ainda tomava conta do irmão menor. “Para meu pai não ficar chateado, porque ele trabalhava e chegava cansado, pensava em ajudar minha mãe, para ela ficar feliz comigo. Lavava a louça, e quando via que o chão estava sujo, passava pano”, conta Gabriel. As crises de sono de Helga foram se tornando cada vez mais freqüentes. E cada vez mais perigosas. “Certa vez, estava refogando o arroz e a sonolência foi chegando, chegando... Via que estava incontrolável, mas insisti em fazer o arroz. Encostei na parede, a colher estava pesando, e de repente... Não me lembro de mais nada. Só sei que acordei depois e a casa estava toda tomada por fumaça. Foi quando percebi que não estava mais só afetando a mim, e que não estava só sendo desleixada com a família, estava colocando-a em risco também. Era uma coisa mais séria”, diz Helga. Helga sofre de narcolepsia. A doença era tida como rara há algum tempo atrás. Hoje sabe-se que é muito mais comum do que parece. Uma em cada duas mil pessoas tem a doença. Só na cidade de São Paulo, estima-se que existam cinco mil narcolépticos. Menos de 60 estão em tratamento. “A narcolepsia é difícil de ser diagnosticada porque nem sempre os sintomas se apresentam completamente em todos os pacientes”, observa o pesquisador do Instituto do Sono da Unifesp Mario Pedrazzoli. O doutor Mario Pedrazolli e sua equipe querem chegar a um diagnóstico genético que facilite a identificação da doença. Se um exame assim estivesse disponível na rede pública federal, teria diminuído a angústia da professora Terezinha de Jesus da Silva. “É uma doença incompreendida. Hoje se fala muito em inclusão e eu, como educadora, pergunto-me: ‘Será que a sociedade mudou?’. Porque em relação ao caso do meu filho, tive muitos problemas e não achava apoio em lugar nenhum. Ninguém sabia o que estava acontecendo”, conta a professora. A mãe se angustiava e o filho sofria. Ashley era discriminado, motivo de chacotas dos colegas de escola. Seu único refúgio era a solidão. “Tornei-me um cara um pouco anti-social, porque acabei desenvolvendo uma espécie de paranóia, de que se sair de casa, todo mundo vai achar que sou preguiçoso, que sou isso, sou aquilo. Então, vou ficar dentro de casa mesmo”, diz o professor Ashley Silva Costa. O diagnóstico da narcolepsia demorou e só veio depois que a família, que mora no Maranhão, procurou especialistas em São Paulo. Ashley tem uma narcolepsia do tipo aguda, com todos os sintomas clássicos: sonolência diurna, alucinações e perda repentina do tônus muscular. Uma narcolepsia do mesmo tipo da de uma criança que cai quando é submetida a uma emoção, que pode ser uma simples piada. Cai, porque perde o tônus muscular. É a cataplexia. A cataplexia também atinge os cães. E foram eles que ajudaram os pesquisadores a dar o primeiro grande passo para um tratamento efetivo da doença. Um grupo de cientistas, que incluiu o brasileiro Mario Pedrazolli, conseguiu isolar o gene da narcolepsia. “Com a identificação desse gene no cão, fomos capazes de saber qual o exato mecanismo da doença no homem. Hoje se busca uma droga que tenha uma ação muito semelhante à molécula que está faltando no cérebro do paciente narcoléptico”, anuncia o pesquisador. “Tenho quatro anos de diagnóstico. Para acertar a medicação, foi preciso mais ou menos um ano. É uma luta com nós mesmos. Antes era um desespero por não saber o que era. A dificuldade em seguida foi aceitar a doença. Quando você passa por essas duas fases, consegue ver que sua vida realmente mudou”, comenta Helga. Quem sofre de narcolepsia no Brasil enfrenta outro problema - e grande: os remédios que existem atualmente no mercado custam caro e não são distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Não conseguia importar o remédio”, diz a professora. “A gente é obrigado a fazer uma economia curiosa. Quando não tenho um dia muito puxado nos finais de semana, simplesmente não tomo, justamente para poder economizar, para ter remédio que possa ser aproveitado num momento mais puxado”, conta Ashley.

HORA DE DORMIR.

Ashley Silva Costa é professor de História em uma turma de cegos. Pode até cochilar no intervalo das aulas. Mas o que quer mesmo é se manter acordado sem problemas. O exato oposto de Tico, que gostaria de dormir a hora que bem entendesse. Mas são muitas noites e dias de pouco ou nenhum sono por causa dos shows. Em um deles, em São Paulo, Tico chegou a se jogar na multidão. “Depois dessa descarga de energia, estou bem, muito bem, graças a Deus. Parece que acabei de acordar. Levaram meus brincos”, conta Tico. Sem brincos, sem os sapatos, mas com o relógio - o actígrafo sobreviveu. E registrou os ciclos de vigília e sono de Tico em mais seis dias de viagens. Agora, Tico entrega o actígrafo para os pesquisadores do Instituto do Sono da Unifesp, que recolhem os dados no computador. Vão analisar o quanto o músico dormiu nesses dez dias. “Pequenos movimentos durante a noite”, observa a pesquisadora do instituto Dalva Poyares. Até a pesquisadora se assusta. "Gente, esse cara não dorme!", anuncia. Cada linha do gráfico mostra um dia na vida de Tico Santa Cruz. Os momentos de sono ou cochilos são poucos em relação aos períodos de atividade. Nos dois primeiros dias, por exemplo, Tico praticamente não dormiu. Uma pessoa normal, que dorme e acorda todo dia à mesma hora, apresentaria um gráfico diferente. “No dia seguinte, atrasa o começo do seu sono, e ele encurta. Daí, no outro dia, atrasou um pouco mais, encurtou ainda mais. Acho que está precisando dormir”, diz a pesquisadora para Tico. “Se perder muito a informação do relógio biológico dele, o horário de dormir e acordar, pode daqui a uns anos desenvolver um quadro de insônia”, alerta Dalva Poyares. “Preciso dormir”, constata Tico. É, Tico, precisa dormir um pouco mais.

PROFISSÃO DE RISCO.

Quinhentos vôos por dia. No Aeroporto Internacional de Cumbica, em São Paulo, há sempre um avião que pousa, outro que decola e vários no ar. Vinte e quatro horas sem interrupção. Tudo monitorado do alto da torre de controle, onde não pode haver erro. Uma falha pode causar um desastre. Myron José Coelho, há 20 anos nessa rotina, sabe disso. Ontem trabalhou de dia. Anteontem, à tarde. Hoje começou à meia-noite e irá até às 6h. "Se saio no período da manhã, às 6h, trabalhei no turno da madrugada todinha. Não durmo, para que possa dormir somente no período da noite e não inverta o dia pela noite”, explica Myron. “Nos períodos que tenho de descanso, durmo muito bem”, garante. Mas nem todo mundo consegue se adaptar tão facilmente ao trabalho em turnos, porque quem determina qual a melhor hora para dormir e acordar é o relógio biológico que existe dentro de cada um. “Se encontrasse os vespertinos, que gostam de trabalhar só à noite, e os pusesse trabalhando à noite; e os matutinos, aqueles que gostam do dia, só de dia, teria um rendimento muito melhor. Essas pessoas teriam uma qualidade de vida melhor e conseguiriam um desempenho muito mais adequado do que estão conseguindo hoje, com essa variação de trabalho em turno”, comenta o coordenador do Instituto do Sono da Unifesp Sérgio Tufik. No caso de Myron, o domínio do sono é uma questão literalmente de vida e morte. “É uma profissão muito estressante. Trabalhamos com vidas e, trabalhando com vidas, a margem de erro deve ser zero. E o acerto tem que ser sempre de 100%”, ressalta o controlador de vôo. 

O PERIGO DO COCHILO NA ESTRADA.

A falta de sono é uma das maiores causas de morte nas estradas do Brasil. Em uma delas, no dia 5 de março de 2002, um carro com três policiais voltava de uma investigação, quando de repente o carro cruzou a pista e foi bater em um caminhão que vinha no sentido contrário. Uma carcaça retorcida foi o que sobrou do carro. O motorista, Edmar Guimarães, morreu na hora. O investigador de polícia Rosvaldo Costa, que estava ao lado do motorista, perdeu um pedaço da orelha e só teve ferimentos leves. "Na frente, estava o Guimarães, todo moído”, conta Rosvaldo. “Durante a viagem, a gente conversava com ele, que parecia estar pensando em outra coisa. Não dava para perceber que estava dormindo”. Acredita-se que o motorista tenha dormido ao volante, depois de um almoço farto. “O Guimarães comia bastante. Sempre que almoçávamos em um restaurante comia muito. Parecia um pouco cansado, como também estávamos”, lembra o policial. "Temos um erro alimentar que é freqüente. O Brasil é extremamente rico em churrascarias nas estradas, o que estimula a alimentação pesada", observa o médico especialista do sono Sérgio Barros Vieira. O médico diz que 20% dos acidentes nas estradas ocorrem entre 15h e 19h. Exatamente após o almoço, um período em que o corpo naturalmente já sente sonolência, por causa da queda da temperatura corporal. Dr. Sérgio desenvolveu um programa de medicina do sono pioneiro e patenteado por uma empresa de ônibus. O motorista de ônibus João Alexandre da Silva vai dirigir 10 horas esta noite: do Rio até Vitória. Antes de sair da empresa, é submetido a um teste que avalia a capacidade de reação a estímulos. João completa o teste em 18 segundos. “Acima de 30 e abaixo de dez, não viajaria e seria encaminhado ao Programa de Medicina do Sono, para ser avaliado”, diz o médico. Às 23h10min, o ônibus de João parte da rodoviária, pega a ponte Rio-Niterói e logo está na estrada. Os passageiros adormecem. A segurança deles depende de João, que está alerta. Às 3h, a única parada. Em uma sala construída especialmente, a iluminação é intensa: 5 mil lux. Tanta luz inibe a produção do hormônio melatonina, um dos fatores responsáveis pelo sono. Os exercícios aumentam a temperatura corporal, o que ajuda a evitar a sonolência. O lanche leve não pesa na digestão. “Ao entrar, a gente sente o foco de luz. Nossos olhos já ficam mais alertas. E o lanche é muito bom”, ressalta João Alexandre. João atravessa a noite e chega de manhã a Vitória, sem problemas, nem sonolência. “Estou tranqüilo, firme e forte”, garante o motorista. “Só o ombro dói um pouquinho, mas nada de sono”. Dever cumprido, João vai para o dormitório da empresa. Pegar a estrada, de novo, só amanhã à noite, bem descansado.

DRAMA PARA DORMIR.

Homens se preparam para um sono tranqüilo e reparador. Um aparelho que parece uma máscara de piloto de caça é a arma deles para dormir melhor. Chama-se cepap e é capaz de acabar com o inferno de muitos casamentos: o ronco dos maridos. O cepap é um compressor de ar, ligado a uma máscara, que injeta ar pelo nariz. O fluxo de ar abre a garganta, aumenta a oxigenação e evita o ronco e as paradas respiratórias. Por mais feio e desconfortável que pareça, quem experimentou não quer mais viver sem ele. “O uso do cepap fez uma diferença de 90% na minha vida. Os resultados são rápidos demais. Você dorme normalmente e acorda bem”, diz o corretor Armando Burgatto. "O benefício que traz, o dia seguinte muito melhor, faz com que a gente queira se adaptar, e logo depois se acostuma a essa máscara", garante o administrador de empresas Ronaldo Gelain. O bom humor, por exemplo, tinha sumido da vida deste executivo de multinacional. Hoje não há má notícia que tire o sorriso do rosto dele. A irritação constante foi trocada por uma harmoniosa vida em família. Até a pressão arterial se estabilizou. "Ronaldo tinha um problema com a pressão, vivia sempre irritado, cansado, tudo era motivo para perder muito rapidamente a calma. Isso, ao longo dos anos, vai tornando a pessoa insuportável", observa a advogada Maria Auzinda Gonçalves. "Sentia cansaço e não sabia a razão. Achava, inicialmente, que era pelo excesso de trabalho, pelo esforço físico, excesso de viagens e tudo mais. Depois é que vim a saber que, na realidade, não era excesso de trabalho e sim falta de sono", conta Ronaldo. O diagnóstico preciso foi feito no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, através de uma polissonaografia. Não era ronco apenas. O exame constatou várias paradas respiratórias. Ronaldo sofre de apnéia, um problema que afeta aproximadamente 24 milhões de brasileiros. E a maioria nem sabe da existência dele. Quem tem apnéia possui uma via aérea propensa a desabar. Quando dorme, a língua cai para trás, os músculos da garganta relaxam e ela se fecha, interrompendo a passagem do ar. Esse estreitamento leva ao ronco. Quando a obstrução é total, a respiração fica impossível, aí a pessoa entra em apnéia. "Então, fica bem claro que você tem paradas respiratórias. No caso, de 35, 38 segundos”, anuncia o diretor do Laboratório do Sono do Incor Geraldo Lorenzi Filho ao corretor Armando Burgatto. Armando teve 70 paradas respiratórias por hora de sono. Mais do que uma por minuto. A solução para ele foi o uso do cepap. “Minha pressão voltou aos níveis normais e não preciso tomar remédio para baixar a pressão. Não tenho mais sono ao dirigir, nem sentado. Se me colocassem em uma cadeira por dez minutos dormiria com certeza”, diz Armando. Desde que passou a usar o cepap, Ronaldo também não ronca mais. “Não existiam noites sem ronco, em nenhuma situação”, conta Maria Auzinda. E na vida de Ronaldo, que diferença fez? “Sinto-me muito mais bem disposto, o humor melhorou, o cansaço durante o dia praticamente desapareceu. Minha esposa deve estar bastante feliz, porque o ronco também melhorou muito”, avalia. “Melhorou muito. A essa altura, uma pessoa com bom humor, mais disposição, traz benefício para a família toda, não só para ele”, acrescenta Maria Auzinda. Os médicos lembram que sono não é um luxo. Sono é uma necessidade vital. “Basta dormir pouco por alguns dias que vai sentir o efeito disso na sua qualidade de vida, na sua capacidade de concentração, na sua própria capacidade de trabalho”, constata o diretor do Laboratório do Sono do Incor.

GLOBO-REPÓRTER: DESNUTRIÇÃO X OBESIDADE—28 DE NOVEMBRO DE 2003.

JOVENS OBESOS.

Juventude sem limites. Da infância açucarada à adolescência temperada por sabores proibidos, a cada mordida o corpo vai ganhando muito mais gordura do que é capaz de consumir. Comer tudo, a toda hora, em qualquer lugar, para eles é estilo de vida. Busca pelo prazer. “Cheesebúrger, cheesesalada, cachorro-quente, salsichão, pão-de-queijo, de batata”, anuncia Luíza Guimarães, de 14 anos. Em Santa Catarina há um fogão que não pára. Na cozinha, quem faz o cardápio é Fernanda, de 7 anos. Ela adora macarrão. E também hambúrguer, ovo frito... Desejos da menina, sempre atendidos pela mãe, a qualquer hora do dia. “Às vezes, isso é o nosso café da manhã. Se ela gosta, eu faço”, conta a doméstica Paula da Souza. De gosto em gosto, Fernanda vai construindo hábitos alimentares difíceis de mudar. Ela não troca o prato de macarrão por cenoura, beterraba, nem repolho. “Só trocaria por arroz, bife e batata frita”, diz a menina. Tanto colesterol, tanta gordura no início da vida, ameaça o futuro das crianças. Medindo peso, altura e as dobras da pele dos alunos das escolas de Santos, no litoral paulista, especialistas descobriram: já chegou ao Brasil uma epidemia que se espalha pelo mundo. A pesquisa mostrou que um terço dos estudantes está com peso acima do normal. Para conferir o resultado, é só olhar na praia, no calçadão, nas escolas. O resultado surpreendeu os médicos. Por isso, de cada dez alunos de Santos, três vão receber uma carta – uma espécie de atestado de excesso de peso. Um aviso aos pais de que os filhos precisam de tratamento, são todos vítimas da epidemia da obesidade. “Se nada for feito para reverter esse quadro, 40% dessas crianças serão adultos gordos. E se atingirem a faixa de 14 a 15 anos de idade com este sobrepeso, as chances são de que 80% desses jovens se tornem adultos obesos”, alerta o pediatra Jorge Maxter. Uma força-tarefa foi criada para tentar emagrecer as crianças. Quem recebe a carta vai para lugares como os centros de reeducação alimentar, instalados nas universidades e hospitais. Sensores elétricos para medir a gordura foram espalhados pelo corpo de Bruna. Aos 13 anos, já pesa cem quilos. A corrente elétrica atravessa o corpo da menina. Mas, sensação de choque mesmo, só na hora do resultado. “Deu uma percentagem de gordura muito alta: 38%. É por isso que vai ter que fazer dieta e também atividade física”, anuncia a médica. “Aprendi que devo controlar, ter bastante força de vontade para emagrecer, fazer exercícios, muitas coisas”, diz Maria Borges, de 8 anos. Mariana tem apenas 8 anos, mas já carrega no corpo taxas de colesterol e de açúcar iguais às de um adulto de 25 anos. “Fiquei nervosa, porque nem eu mesmo sabia o que era colesterol”, conta a mãe da menina, a dona de casa Edileusa Queirós. “A culpa de a criança se alimentar errado é da gente. Se a gente não comprar aquilo que não deve ser consumido, naturalmente a criança vai se alimentar de uma forma mais saudável”, observa o pai de Mariana, o metalúrgico Gilson Borges. A médica Jane Santana nunca imaginou que um dia receberia lições de saúde para mudar a vida do próprio filho. Vinícius tem 8 anos e pesa 40 quilos, cinco acima do normal. E já sofre de hipertensão. O corpo respondeu ao excesso de salgadinhos e à falta de exercícios. Foi preciso que o nome do filho aparecesse na lista de alunos com excesso de peso para que a médica percebesse: a epidemia de obesidade atingiu a própria família. Com estímulo dos pais e do irmão, Vinícius descobriu na praia de Santos uma vida equilibrada, cheia de novos sabores. “Comia pouco e comia mais frituras e guloseimas. Agora melhorei, estou comendo rúcula, arroz e feijão. Antes, sentia-me mais cansado, mais pesado, Agora sinto-me mais energético, mais saudável”, conta Vinícius de 8 anos. “Atualmente, vejo que ele está consciente do que o levou a ficar acima do peso”, comenta a mãe do menino, a cardiologista Jane Santanna. “Tem que mexer agora. Quanto mais gordo ficar, mais difícil é voltar atrás”, ressalta o pai do menino, o pneumologista Valmir Nascimento Filho. Os médicos alertam: é na idade de Vinícius que é preciso mais atenção com o que as crianças comem. Eles precisam de regras. A partir dos 7, 8 anos - no início da segunda infância -, as crianças ficam mais horas sentadas na escola. Sobra pouco tempo para as antigas brincadeiras. Quando os amigos não querem nada com a bola, fica mais difícil remar contra a maré. “Meus amigos não gostam de brincar disso, só querem ficar no videogame. Peço para fazerem uma brincadeira esportiva, mas imploram para ficar no videogame, no computador”, diz Vinícius. Como resistir? Em uma rua de Curitiba há comida pesada, de todas as partes do mundo. Desde pequeno, Guilherme Poli vive cercado por tentações. Na feira da gordura globalizada, é o rei da comida mineira. Pais donos de restaurante, filho solto na cozinha. Trabalhando e engordando, Guilherme foi parar em um spa com apenas 19 anos. “Estava pesando 134 quilos”, lembra. Guilherme diz que a culpa é do refrigerante. Aos 10 anos, chegou a beber 18 latinhas em quatro horas. “Os médicos disseram que se não me cuidasse, daqui a 15 anos estaria em uma mesa de cirurgia, fazendo ponte de safena”, conta Gulherme. Hoje, sabe que o peso da juventude impõe sacrifícios. Sem excessos, agora faz dieta rigorosa e promete perder peso. “Até o final do ano serão de 15 a 20 quilos a menos”, calcula.

FISCAL À MESA.

Foi com medo da gordura que Edson Araújo tomou uma decisão difícil até para um adulto. Aos 8 anos, o menino decidiu sozinho parar de engordar. Depois que decidiu aplicar em casa as lições que aprendeu na escola, muitas coisas começaram a mudar. A primeira delas foi no jardim. Os planos da família para um grande gramado tiveram que ser cancelados, porque hoje o que cresce no local não são flores, são as verduras de Edson. Quando voltou de viagem, o pai descobriu sinais das mudanças crescendo no quintal. “Encontrei alface e cebolinha nascendo. Confesso que comer verduras não é o meu forte”, revela Luís Carlos Araújo, gerente administrativo. “Agora estou me habituando ao novo costume do Edson. É o regime do Edson”, brinca o pai do menino. O regime era um pedido de socorro. Edson não queria mais ver os pais só engordando. Na hora do jantar, é ele quem leva as folhas para a salada. Hora de pegar leve no cardápio. Que tal um filé de peixe grelhado? O fiscal está à mesa! “Por um lado é bom e por outro é ruim. Às vezes, a gente quer comer um docinho e ele já fica de olho”, comenta a estudante Priscila, irmã de Edson. “A gente comia muita massa, muita carne vermelha. Hoje, comemos mais saladas, frutas, peixe e substituímos o refrigerante por sucos. O cardápio da família mudou totalmente, e o responsável por isso foi o Edson”, diz a mãe do menino, a dona de casa Rosângela Araújo. “Não quero que  fiquem gordos”, diz o menino. Com a família sob controle, o caçula já fez o pai perder 15 quilos. A mãe, 8. Em casa, quando o assunto é comida, quem dá as ordens é Edson. “Nossa horta vai crescer. E a nossa alimentação vai sempre assim. A cada dia se faz uma salada diferente, um tipo de carne diferente. A verdura não vai sair mais da nossa mesa”, garante a mãe.

FOME QUE EMAGRECE.

Quem come muito engorda. Quem come pouco emagrece. No Brasil de 2003, a lógica é outra. Pesquisas mostram que crianças desnutridas tendem a ser adultos obesos e doentes. Não crescem, mas ganham peso. Mesmo quando comem muito pouco. Camila, de 3 anos, come muito na escola e pouco em casa. Milhares de crianças que vivem abaixo da linha de pobreza no Brasil também são assim. Em São Paulo, uma realidade para moradores das 2.106 favelas. O Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren) tem apoio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No local, as crianças maltratadas pela fome ganham uma chance de viver. Gabriel foi um dos casos mais graves. Prematuro de sete meses, pesava 1.100 gramas e media 32 centímetros. Em três meses, o bebê já engordou dois quilos e cresceu dez centímetros. “Quando vim pra cá, ele era bem miudinho mesmo. Achava que nem ia se criar”, lembra a mãe de Gabriel, Rosileide Farias Silva. Quem chega com risco de morte vai para um semi-internato. A fórmula é simples: os pais deixam os filhos às 7h30min e os buscam às 17h30min. O café da manhã é a primeira de cinco refeições. Depois, um soninho também alimenta. Quando os pequenos começam a despertar, é hora de brincar e ouvir histórias. Eles são crianças em tempo integral. A mistura simples de comida e afeto em doses certas compensa também no custo. O gasto mensal é de apenas R$ 200,00 com cada criança. Uma internação hospitalar custaria dez vezes mais. Cruzar a porta e conseguir vaga em um centro de reabilitação muitas vezes é o que faz a diferença entre a criança continuar viva ou ter a possibilidade de uma morte prematura. O esforço intensivo do centro é para recuperar crianças até que elas atinjam 6 anos, a idade limite para se evitar as seqüelas graves da desnutrição, e para que voltem a ter um comportamento de crianças saudáveis. É preciso também evitar recaídas. A família se torna a parte mais importante na volta para casa. Mães e pais aprendem a preparar comida saudável e barata. “Ensinamos a reutilizar os alimentos. O arroz que sobrou do dia anterior é transformado em nhoque”, explica a nutricionista Mariana Nogueira. Às vezes, é preciso começar do zero. Quem já aprendeu, agora ensina. “Não basta dá só arroz e feijão. Enche a barriga, mas não faz tanto efeito. Elas me ensinaram a preparar sempre um tipo de carne e um pouquinho de verdura”, constata a dona de casa Eunice da Silva. “Fiz bolinho de folha de cenoura”, conta a faxineira Luciana Leal. “Se tiver força de vontade, consegue fazer as coisas. Não deixa a criança passar fome”, observa o auxiliar de serviços gerais Cláudio Oliveira. “É uma mudança que surte efeito, fica para a vida da família. Tanto que temos casos de famílias que têm outros filhos e os caçulas não ficam desnutridos”, diz a diretora de projetos do Cren. As crianças só recebem alta quando já estão sem sinais da desnutrição e já têm vaga garantida na escola ou na creche. David e Dayane têm 7 anos. Quando chegaram no centro, aos 3 anos e meio, mal alimentados, tinham peso e altura de crianças de 2 anos. Eles cresceram e engordaram. Um sinal de que o organismo retomou o funcionamento normal. “Isso significa que ela está ganhando massa magra, os ossos estão crescendo e puxando os músculos. É uma criança recuperada”, explica a nutricionista Paula Martins. Dayane ganhou saúde e um futuro. “Não corria direito, agora estou correndo muito bem. Acho que não tinha força”, conta Dayane Rodrigues, de 8 anos. Agilidade, energia. A desnutrição agora é passado. Se não tivesse encontrado um novo caminho, o destino de Dayane já estaria escrito: seria uma mulher gorda e doente.

FOME QUE ENGORDA.

Um mal que atinge o Brasil de Norte a Sul. Alagoas é um dos estados mais privilegiados pela natureza e também é considerado um dos mais pobres do país. Uma pesquisa feita em Maceió comprovou o que os cientistas já desconfiavam: crianças desnutridas estão se transformando em adultos obesos. A obesidade é uma das conseqüências mais graves da desnutrição infantil, um problema comum em todas as 135 favelas da cidade. O cenário é de pobreza extrema. Tudo é difícil na região. Um cano cortado no meio da rua é a única fonte de água. A sopa doada pela prefeitura uma vez por dia é esperada com ansiedade. A desnutrição já deixou seqüelas no lugar: os homens não são altos. Têm cinco centímetros a menos que a média nacional. Os mais subnutridos na infância não passam de 1,58 metro na idade adulta. Nas mulheres, a média nacional é de 1,60 metro. As moradoras da favela medem menos: 1,54 metro; as desnutridas, 1,47 metro. A escassez de comida que não deixa crescer também provoca obesidade. Um em cada quatro favelados convive com o excesso de peso. “Nosso cérebro entende quando está faltando alimento, quando o alimento não está adequado, em qualidade adequada. Assim, durante o desenvolvimento infantil, o cérebro entende que precisa economizar energia. Então, ele vai mudar todo o seu metabolismo e o corpo vai economizar gordura, deixar de crescer, para a manutenção da vida”, explica Ana Lydia Sawaya, chefe do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O acúmulo de gordura se agrava com a falta de atividade física. Os homens se movimentam mais, saem à procura de emprego. A nutricionista Telma Toledo, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), foi quem primeiro observou: as mulheres de comunidades pobres estavam engordando, e a gordura é a do tipo abdominal, considerada a mais perigosa – atinge o coração. Aos 31 anos, Zoraide de Lira faz uma única refeição por dia, mas o peso não diminui: 111 quilos. “Todo dia como sopa. Só isso. Sempre fui assim, mesmo que não coma”, revela. Maria Alessandra dos Santos tem 23 anos e dois filhos. Também nunca teve fartura de comida em casa. Agora, são as crianças que nem sempre têm o que comer. “Ontem não tinha nada, nem um grão de farinha”, conta. Mas a fome não faz o menor efeito na balança. No posto de saúde da favela, Maria Alessandra descobriu que engordou. Hoje, está com quase 123 quilos. “Todo carboidrato, que é a base da alimentação deles, contribui para manter o nível de insulina alto. A insulina é um hormônio que praticamente proíbe a lipólise, quer dizer, a quebra da gordura”, comenta o nutricionista Haroldo Ferreira. A receita simples do Centro de Recuperação Nutricional de São Paulo (Cren) poderia evitar que as crianças desnutridas de Maceió fossem as próximas vítimas de uma alimentação inadequada. Para os adultos, as conseqüências da desnutrição e da obesidade já chegaram e desenham um novo Brasil - um país menos produtivo e mais doente. “Elas estão adoecendo em uma época muito prematura. Essas pessoas estão ficando doentes com 35, 40 anos. Imagine para o sistema de saúde o ônus causado por milhares de pessoas com idade jovem precisando de atendimento e algumas vezes de internação com diabetes, hipertensão e problemas cardíacos”, alerta a nutricionista Telma Toledo.

MERENDA ECOLÓGICA.

Saúde que brota da terra. No interior de Santa Catarina, em vez de agrotóxico na lavoura, é a enxada que acaba com as ervas daninhas. Inseto é bem-vindo - afasta as pragas. E a couve plantada pertinho da cenoura ajuda a manter a terra cheia de nutrientes. Lá se vão quatro anos desde que Hamilton Voges abandonou os venenos da lavoura e adotou a agricultura orgânica. Nos últimos meses, ganhou clientes especiais: as escolas estaduais de Santa Catarina. Hoje, o que sai do canteiro é servido aos alunos da cidade. Plantar a merenda ecológica também dá sentimento cidadão. “A sensação, para nós, é saber que a gente está no campo, trabalhando com o orgânico, no sol quente, mas que as crianças estão lá na escola recebendo o alimento saudável”, comenta o produtor orgânico. Não é só saúde que sai da horta. Os alimentos orgânicos produzidos na região estão servindo também como uma espécie de material didático, como os livros e cadernos. Nas escolas de Santa Catarina, a merenda ecológica não entra só nos refeitórios na hora do almoço, virou também matéria obrigatória em todas as salas de aula. Enquanto as merendeiras preparam um cardápio mais saudável para as crianças, frutas, verduras e legumes invadem os computadores na aula de informática. Do lado de fora, a horta é real. O professor da escola de Laguna ensina que a dieta de pescador precisa mudar. “É preciso sair do arroz com pirão e peixe frito e passar a acrescentar na alimentação as verduras em geral”, recomenda. Aprender a comer vira uma grande brincadeira. Mas nem todos aplaudem, sempre tem gente do contra. “Se tivesse educação alimentar em casa, seria mais fácil de nós trabalharmos”, diz a professora Daniela Rosa. Hora do almoço, hora do teste. O que os alunos viram na aula, surge no prato. É hora de experimentar o que aprenderam. “Acho que é nota dez para nossa saúde”, elogia Ana Cristina dos Santos, de 16 anos. “Mas não como assim todo dia. Gordura é comigo mesma, batata frita, refrigerante...”, revela a aluna. “Arroz, galinha, salada. Não vai beterraba, porque não gosto”, conta Douglas da Luz, de 15 anos. Como vencer o cardápio de preconceitos levados de casa: sanduíches, doces e salgadinhos escondidos reforçam a preocupação das autoridades com a merenda que engorda. O alerta é dos nutricionistas: o que as crianças comem hoje vai determinar que tipo de doenças elas podem ter no futuro. Em Santa Catarina, a preocupação com a saúde da meninada foi bem além daquela recomendação informal, do conselho para comer melhor. No estado, refrigerantes, salgadinhos e frituras foram banidos das escolas. Está em vigor a “Lei das Cantinas”. Nada escapa aos olhos da nutricionista da lei. Há seis anos, Gladys Milanez inspeciona a comida vendida nas escolas. É a xerife da merenda. “Hoje é proibido vender qualquer refrigerante e sucos artificiais, salgados fritos, salgadinhos industrializados, pipocas, balas e chicletes”, anuncia a nutricionista da Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina. Proibidos na cantina, mas liberados na hora do lanche. Para um grupo, a lei não faz efeito. “Normalmente a bala, o chiclete e às vezes o refrigerante vêm de casa”, conta a coordenadora de uma escola, Luci Ambros. “É um contrabando de lanches”, ressalta a pediatra e nutricionista Marlene Pires, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A médica avisa: acabar com o prazer de comer por decreto não funciona. “Isso é cultural, portanto, vai demorar um tempo até que as pessoas entendam que a alimentação tem duas funções: prazer e nutrição. Usando o bom senso”, diz ela. “Ficam me chamando de gorda, saco de areia, essas coisas. Dá vontade de esganar eles! Fico chateada”, revela Amanda. Idéia da mãe: Amanda entrou em campo para perder peso, recuperar a auto-estima e ganhar o jogo diário contra a balança. A dona de casa Patrícia Pretula, a mãe controladora, confere o sobe e desce do peso. Amanda ganhou um quilo. “Controlo ela para que não seja discriminada na sociedade por ser obesa”, justifica a mãe. A comida da despensa foi para em uma caixa. “Quero que se sinta bem com ela mesma - corpo e mente”, diz Patrícia. O regime de Amanda conta com reforço importante na escola pública de Curitiba. Os professores mudaram a dieta dos alunos. Em vez de giz e quadro negro, liquidificador na sala de aula. A tarefa hoje é fazer e comer torta... de legumes. Na escola, o sonho dos pais vira realidade. As crianças descobrem o segredo para gostar de salada. “Comecei a gostar”, conta uma aluna. “Acostumei-me e agora amo banana”, garante uma coleguinha. “A professora falava bastante de comida. Quando falou sobre feijão, experimentei um pouco e gostei”, diz um menino. Os médicos usam iscas irresistíveis. “Um dia, a criança podia receber um lanche mais atrativo, como um sanduíche ou um cachorro-quente. E no dia seguinte, já fazia uma refeição mais normal, como um prato de arroz com feijão, carnes e verduras”, explica o pediatra Nilo Willrich. O refeitório hoje é a principal sala de aula. “Aconteceu uma transformação de hábitos e atitudes. No início do ano, comiam só arroz e feijão. Hoje, as crianças já comem legumes, salada e frutas”, conta Anicyr Sanches, diretora da Escola Municipal Ulisses Falcão Vieira. Quem vê Carol, de 6 anos, na feira, nem imagina como era o cardápio da menina há seis meses. “De chocolate, bala, bombom, biscoito para fruta, verdura”, conta. “Não vigiava a alimentação dela. A partir do momento que foi para a escola e começou a ficar o dia todo, começou a comer verdura e fruta e a me cobrar isso em casa”, diz a professora Célia Ogeda. Na hora do lanche, Carol se lambuza com as vitaminas. A menina já fala com bom senso de gente grande. “Quando crescer, vou escolher as mesmas coisas de hoje”, garante.

TRANSTORNO ALIMENTAR.

Na adolescência, o descontentamento com o próprio corpo passa a ocupar o universo de meninos e meninas. E a ditadura da estética agrava a obsessão. Por todo lado, fórmulas milagrosas. Como se enquadrar em um padrão de beleza que passa longe dos mais gordinhos? Pode estar começando aí uma batalha dolorosa. Os números da insatisfação surpreendem. Uma pesquisa que ouviu mais de três mil adolescentes revela: três entre quatro jovens queriam um corpo diferente. “A insatisfação leva a um padrão alimentar anormal, que traz sofrimentos para o corpo, doenças físicas que afetam diversos sistemas, como o cardíaco e o renal. Dessas dietas ditas normais, 35% evoluem para dietas patológicas. Então, daqui a 20 anos, teremos 75% de adultos doentes fisicamente também”, explica a psiquiatra Paula Melin. Vanessa Dellapruta tem 19 anos e o sonho que povoa a cabeça de milhões de adolescentes: quer ser modelo de passarela. A altura, 1,73 metro, não seria problema. A questão é a briga com a balança, que começou aos 10 anos. Com 1,55 metro, Vanessa chegou a pesar 70 quilos. Pelo menos dez acima do considerado normal para a altura. Ela cansou de ouvir piadas na escola. A comparação com a irmã era inevitável. “A irmã era meio que um ídolo para ela. Na família, diziam que estava gordinha e ela ouvia as pessoas falarem que deveria ficar como a irmã, que era magra. Diziam que estava gorda e ela respondia: ‘Quero ser aceita’”, conta a mãe de Vanessa, Elyan Dellapruta. Para emagrecer e ser aceita, Vanessa radicalizou: reduziu a alimentação a 250 gramas de queijo branco por dia. Resultado: 32 quilos e um quadro de anorexia nervosa. “Quando me olhava no espelho, achava que estava muito magra, que estava muito feia, mas tinha medo de engordar”, diz Vanessa. Nos últimos nove anos, Vanessa conheceu o pior lado dessa obsessão pela magreza: quatro internações para cuidar da anorexia e de outros transtornos que surgiram. Tornou-se compulsiva. “Teve uma época que cheguei a fazer sete horas de exercício por dia”, lembra. E os longos períodos de jejum também despertaram um desejo descontrolado por comida. “Cheguei a comer 15 pacotes de biscoito de cada vez”, diz Vanessa. Só exagerava porque em seguida vomitava tudo, acreditando que assim não iria engordar. Era a bulimia, um vômito provocado. A doença não ajuda a emagrecer. Ao contrário, provoca retenção de líquido e inchaço. As refeições balanceadas que hoje são servidas em quantidades e horários controlados fazem parte de um tratamento. Vanessa é acompanhada 24 horas por uma enfermeira. Evita os exageros e orienta a jovem em todas as refeições. “Oriento para que coma um pouco devagar, porque faz parte da compulsão comer rápido demais”, diz a enfermeira Damiana Gomes. Vanessa está fora da escola há quatro anos. Ainda luta para controlar a doença. “Se alguém me oferecer um chocolate, não aceito. Mesmo sabendo que tem a mesma caloria que uma maçã, não vou comer o chocolate porque tenho medo de engordar”, admite a jovem. Os pais precisam ficar atentos. A mudança radical nos hábitos alimentares dos filhos é o primeiro sinal de alerta. “Em primeiro lugar, é preciso ver o que o filho mais gosta de comer. Se o filho estiver resistindo muito tempo a isso e estiver emagrecendo muito, fazendo muita ginástica, em caso de dúvida procure um psicólogo especializado”, orienta a mãe de Vanessa. E nessa busca por ajuda, muitas vezes o jovem precisa ser levado pela mão. Poucos têm consciência do problema e procuram tratamento sozinhos. A Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro mantém um serviço gratuito para atendimento de transtornos alimentares, com uma equipe de profissionais voluntários formada por psiquiatra, psicólogos, nutricionistas e endocrinologistas. É cada vez maior o número de adolescentes com preocupação obsessiva pelo corpo. Kamila Ayres, de 12 anos, como a maioria dos pacientes, era obesa quando criança e se sentia discriminada. “Quando era do jardim de infância, todo mundo me chamava de baleia, saco de areia, coisas assim. Sofria discriminação dos colegas. Ninguém me aceitava na hora do recreio. Sempre fui sozinha por causa disso”, conta. Decidiu livrar-se dos 56 quilos. Só parou de emagrecer quando chegou aos 30 quilos e desmaiou na escola. “Comecei a querer emagrecer por conta própria, para as pessoas me aceitarem melhor, para conseguir ter mais amigos”, diz Kamila. “Espero que essa minha história tenha um final feliz”. A anorexia e a bulimia são problemas mais comuns entre as mulheres. A proporção é de dez meninas para um menino. Diego Barbosa, de 19 anos, era o gordinho da turma: tinha 87 quilos aos 14 anos. Nele, a anorexia se manifestou diferente. Achava que ia morrer sufocado se engolisse comida sólida e passou a se alimentar só de líquidos. Acabou ficando com 50 quilos. Segundo os médicos, um medo inconsciente de ser gordo. Hoje, aos 19 anos, está se recuperando do transtorno. “Se ficasse gordinho como antes, ficaria feliz, porque depois de vários anos me vendo magro no espelho nunca mais quero ver essa imagem”, diz. “A anorexia nervosa e a bulimia têm cura. São doenças crônicas, de difícil tratamento, mas em 70% dos casos a remissão dos sintomas é total. O tratamento é difícil, custoso, mas vale a pena”, garante a psiquiatra Paula Melin.

VIDA NOVA PARA EX-OBESOS.

O estudante Bernard Ottoboni, de 19 anos, tem 100 quilos. O professor universitário Renato Ferreira, de 30 anos, tem 94 quilos. Em comum, uma infância e adolescência fugindo da balança. Bernard bateu os 180 quilos. Renato chegou a pesar 186. Separados por 500 quilômetros, os dois percorreram os mesmos caminhos. O estudante Bernard, em São Paulo, e o professor Renato, em Juiz de Fora, Minas Gerais, fizeram todas as dietas possíveis. Freqüentaram spas, conheceram o efeito-sanfona. “Aos 11 anos, fiquei oito meses em um spa. Perdi 50 quilos e depois que saí engordei 100”, conta Bernard. A aparência que chamava tanto a atenção passava despercebida diante do espelho. “Achava que estava um pouco acima do peso, só”, lembra Renato. Para Renato e Bernard, o excesso de peso deixou a vida mais arriscada. “Estava começando a ter apnéia do sono, falta de ar durante o sono, erisipela, em decorrência de má circulação na perna”, revela Bernard. “Era uma pessoa muito agressiva, de contato difícil”, diz Renato. Renato e Bernard pertencem ao chamado “grupo de risco da obesidade”. São os obesos mórbidos. Casos em que a cirurgia de redução do estômago é sinônimo de sobrevivência. Bernard foi o paciente mais novo a fazer a cirurgia no Brasil, aos 13 anos. “Continuo gostando do chocolate, da picanha, mas como em uma quantidade extremamente menor. Antes precisava de cinco bifes para encher o estômago, hoje são três pedaços pequenos”, observa Bernard. O estômago agora só tem capacidade para receber o equivalente a uma xícara pequena de comida de cada vez. Mas Bernard sabe que, para ter o corpo magro, precisa de uma alimentação balanceada, exercícios físicos. O estudante reconhece que ainda faz extravagâncias. Já ganhou cinco quilos. “Mesmo com o corpo magro, ainda tenho pensamentos de um gordo. Quem não gosta de coisas que engordam? As melhores coisas engordam”, constata. O mineiro Renato também não abandonou o prazer pela comida. E é famoso entre os amigos por preparar pratos deliciosos. “Tenho a mesma vontade de cozinhar sabendo que vou comer pouco. Acho que tenho até mais. É uma maneira de ficar mais tempo em contato com a comida”, declara. Bernard hoje dá risada, mas o melhor é saber que ficar encalhado na neve é só uma imagem que ficou de lembrança. “Induzi o Bernard a gostar de comer bastante, porque servia o prato dele. Na parte alimentar, sem dúvida alguma, os pais ditam o que o filho vai ser no futuro”, diz Gisleine Ottoboni, mãe de Bernard. A dona de casa Jaqueline Garcia Barbosa sabe muito bem disso. Filha de mãe obesa, gordinha desde pequena, nunca se privou dos prazeres da comida. Quando se casou tinha 100 quilos e ainda ganhou mais, ficou com 184. “Cada dia você vai fazendo uma coisa e quando vê perde a noção e quase não passa na porta”, observa. Duas semanas depois da cirurgia de redução de estômago, realizada no Hospital das Clínicas de São Paulo, já em casa, os primeiros resultados da cirurgia apareceram: Jaqueline emagreceu 18 quilos. Foi o começo. Mas o cirurgião Arthur Garrido adverte: este é um recurso extremo para quem corre risco de morte. “A cirurgia não é um milagre. É um instrumento poderoso para que a pessoa atinja um objetivo. Quem não atinge um certo grau de obesidade não deve ser operado, porque nenhuma das cirurgias existentes é perfeita”, ressalta. Para Jaqueline, felicidade é voltar aos antigos 90 quilos. “Tem uma coisa que não consigo fazer hoje e quero fazer quando estiver bem mais magra: passar na roleta do ônibus. É horrível! Se Deus quiser, vai ser outra vida. Tudo vai depender de mim, mais ninguém”, garante Jaqueline.

GLOBO-REPÓRTER: MÃE NATUREZA—11 DE DEZEMBRO DE 2003.

VENENO DO BEM.

Um homem chega de branco carregando esperança de cura em uma pequena maleta. Mas Luiz Pereira da Silva, o Tim, não é doutor. Uma vez por semana, sai de Minas Gerais para oferecer medicamento vivo aos pacientes que lotam o consultório improvisado no Rio de Janeiro. Ninguém parece ter medo delas. O veneno das abelhas é o remédio em um tratamento simples e dolorido. Muitos recorrem à apiterapia para combater doenças graves, como a esclerose múltipla, que vai paralisando os movimentos do corpo. Tifany Fiks tem apenas 22 anos. Desde os 14 sofre com a inflamação da medula. Uma vacina contra a meningite provocou o desequilíbrio do sistema imunológico, que passou a agir contra o organismo. Os efeitos são parecidos com os da esclerose múltipla, e os médicos dizem que não há cura. Lutando contra a paralisia, Tifany já tentou tratamentos convencionais, que não deram resultado. Só as ferroadas fazem o corpo reagir. “Dói, mas acho que sou uma das mais resistentes. O que é a dor comparado a ficar curado? A cura não tem preço. Se ele disser que vai me trancar no banheiro com cinco mil abelhas, aceito”, diz a jovem. Foi o neurologista de Tifany que indicou a apiterapia. A medicina já descobriu que o veneno da abelha tem 67 substâncias. Algumas delas ajudam a equilibrar o sistema imunológico e também estimulam o corpo a produzir cortisona, um antiinflamatório natural. Segundo o médico Luís Fernando de Mello Campos, que pesquisa o assunto, o tratamento com o veneno funciona em doenças como a artrite reumatóide, a própria artrite, e principalmente a esclerose múltipla. “Funciona em alguns casos, para algumas doenças, em algumas pessoas, em algumas circunstâncias. Não é um remédio para todo mundo usar em qualquer situação, em qualquer doença, porque pode haver um choque alérgico. Já houve casos de infarto do miocárdio de pessoas usando veneno de abelha”, alerta o médico. Tim recolhe o remédio produzido pela natureza em um laboratório a céu aberto. As colméias ficam em um pequeno sitio, em Juiz de Fora. Não são abelhas agressivas, mas, como no local ninguém precisa de tratamento, ele avisa: é bom proteger a cabeça, pelo menos. “Para paralisar os agressores, elas procuram os olhos, a boca, o nariz, as orelhas e as articulações inferiores”, explica. A intimidade que ele mostra com as abelhas vem de longe. Desde a adolescência, Tim está entre elas. Primeiro como criador, para produzir mel. “Cuido delas como se tivesse cuidando de um filho, de um irmão, de um amigo”, conta. Depois de um acidente em que fraturou três vértebras e ficou seis meses imobilizado, Tim recebeu a dica de um médico amigo: as abelhas poderiam ajudá-lo a recuperar os movimentos. Ele conta que entrou na colméia e se deixou picar mais de 60 vezes. “Não sei precisar, mas acho que depois de 15 ou 20 dias comecei a sentir os movimentos melhores, a sentir mais a perna, que antes estava dormente. Não fiz cirurgia e continuei fazendo o tratamento, que ainda faço toda semana, do contrário a área fica rígida e a perna dormente”, conta. Tim faz isso como se estivesse brincando. Deixa o ferrão no braço e não desperdiça o resto. “Gosto de fazer um lanche apícola”, conta Tim, mordendo uma abelha. “É muito bom, tem gosto de pétalas de rosas com mel”. As cores intensas e o movimento impresso nas telas dependem dos movimentos do corpo, que Otto de Souza Aguiar luta para manter. O artista plástico, de uma tradicional família carioca, construiu a carreira de pintor nos Estados Unidos, onde vive há 30 anos. Mas há dois meses, Otto está morando em um hotel em Juiz de Fora, para ficar perto de Tim e das abelhas dele. Já houve sessões em que Otto levou 60 ferroadas. O homem alto, que na juventude chegou a ser modelo no Rio, tem esclerose múltipla há cinco anos e agora está preso a uma cadeira de rodas. Os médicos americanos não deram muita esperança. Disseram que teria pouco tempo de vida. E o tratamento em outros países também não deu certo. “Fiz um tratamento em Portugal, depois no México e não tive muito sucesso. Em Juiz de Fora, em um mês, senti uma diferença muito grande. Nos movimentos também. Agora me mexo tranqüilamente na cama, sem nenhuma dor na coluna”, diz ele. “As picadas de abelha doem um pouquinho. Elas são russas, e sabe como é – as russas são brabas”, brinca Otto. Enquanto dava a entrevista, Otto continuava com os ferrões nas costas. A bolsa de veneno leva dez minutos para se esvaziar, lançando no organismo as substâncias que aliviam o sofrimento. Ele acredita que a apiterapia vai permitir a recuperação completa. “Está acontecendo, definitivamente”, comemora Otto. Ainda é cedo para saber se as abelhas vão mesmo trazer os movimentos de volta. Mas Otto já esboça as novas imagens que sonha em levar para as telas. “Tenho vários quadros na cabeça esperando meu braço ficar bom. Um deles tem umas abelhas voando”, revela o artista. Foi correndo atrás da cura que o executivo José Gilberto de Melo, de 62 anos, cruzou com as abelhas. Depois de disputar 19 maratonas, foi surpreendido com a noticia de que sofria de arritmia e teve que implantar um marca-passo. Mas, mesmo depois da cirurgia, continuou com o problema, e não suportava os efeitos colaterais dos remédios. “Fiquei meio duvidoso porque nunca tinha ouvido falar em apiterapia. Mas quando a gente precisa, tem que ser retirado do fundo do poço. Aí, acreditei. Comecei com média de quatro ou cinco e agora estou com 35”, conta Gilberto. O executivo, que tem um filho médico, enfrentou barreiras dentro e fora da família quando resolveu fazer o tratamento com abelhas. Mas diz que não se arrepende. “Faço eletrocardiograma periodicamente e nunca mais tive arritmia, nunca mais tomei remédio nenhum”, garante Gilberto. “Quanto às picadas de abelha, o médico diz que sou doido”, conta Gilberto. O corredor voltou às pistas depois do tratamento e hoje já encara os 21 quilômetros da meia-maratona. “Quando vejo uma abelha, tenho um orgulho danado de estar vendo algo que a natureza está dando”, diz o maratonista. 

CALDO DE CANA: COMBUSTÍVEL PARA ATLETAS.

Da natureza e do verde, podem vir soluções surpreendentes. Soluções que muitas vezes sempre estiveram ali, ao alcance das nossas mãos. Os imensos canaviais, que ainda hoje se espalham pelo interior do Brasil, foram trazidos pelos portugueses. No começo, abasteciam apenas as caravelas com o açúcar que seguia para a Europa. Símbolo de uma sociedade desigual, formada por um punhado de senhores e milhares de escravos, a cana-de-açúcar só foi reabilitada no século XX, quando passou a abastecer os carros brasileiros com um combustível verde. Agora, os pesquisadores dizem que, além do álcool que vai para os tanques, a cana pode fornecer combustível também para o corpo humano. O popular caldo de cana faz girar mais rápido o motor de atletas, sejam eles amadores ou profissionais. Para dar conta de tanto exercício, o corpo usa a energia acumulada nas células musculares. É o chamado glicogênio. Sem ele, esportista nenhum consegue fazer seu trabalho. Quando o glicogênio acaba, o organismo começa a queimar massa muscular. Para entender o que acontece com os atletas nessa hora, uma equipe do Laboratório de Bioquímica do Exercício, da Universidade de Campinas (Unicamp), fez um estudo com o time da Ponte-Preta. Os pesquisadores analisaram o sangue dos jogadores logo após o treinamento, para verificar os níveis de uréia. A quantidade dessa substância no sangue é que indica se eles estão perdendo massa muscular. No futebol e em outros esportes, é comum o uso de suplementos energéticos, quase sempre importados. Mas na Ponte-Preta, agora o treino termina com uma roda de garapa. Orientados pela nutricionista Mirtes Stancanelli, os jogadores substituíram os produtos industrializados pelo caldo de cana, que teve aprovação geral. “Se há alguns anos corríamos oito quilômetros durante uma partida, hoje corremos o dobro”, conta o jogador Luizinho Vieira. “Também tenho que tomar depois do jogo para repor minhas energias”, diz o preparador físico Cristiano Nunes. “Os outros produtos que estão no mercado para suplementação são bem mais caros. Não são viáveis para os times de futebol”, ressalta. “O caldo de cana é importante para o atleta porque tem a propriedade de repor rapidamente a energia, por causa dos seus açúcares - sacarose, glucose, frutose. Com ele, o atleta está apto para o próximo esforço. Caso essa reposição não aconteça, no próximo esforço, ele pode estar gastando massa muscular, por ter pouca energia guardada”, explica Mirtes. A pesquisa da Unicamp constatou que, com o uso do caldo de cana, os índices de uréia no sangue dos jogadores baixaram bastante, significando menor queima de massa muscular. “Para uma pessoa que faz um exercício moderado três vezes por semana, a sugestão seria um copo de caldo de cana por dia, após os treinos. Essa quantidade já consegue repor pelo menos de 40 a 50 gramas de carboidrato. Mais do que isso é exagero, porque pode virar gordura”, orienta a nutricionista.

FLORESTA MEDICINAL.

A música que o agricultor Neri Ribas saboreia com os vizinhos fala sempre da natureza e do que ela nos oferece de graça. Mas nem sempre ele teve essa visão. Não gostou quando a mulher, Palmira Hanke, de família alemã, começou a usar receitas da terra para tratar os filhos. Hoje, Palmira é mestre nas receitas de remédios naturais. A pomada de confrei, ela prepara com facilidade. “Essa pomada é boa para cicatrizar ferida, para queimadura. Só deve ser usada na pele. A ingestão de confrei, como chá, não é aconselhável porque é tóxico”, explica. Para falar com esse conhecimento, Palmira primeiro enfrentou a desconfiança do marido. “Com três vidros de xarope de caraguatá curei a bronquite do meu filho. Ele pensou que fosse da farmácia”, conta Palmira. “Hoje em dia acredito nas plantas. Na propriedade, estamos tentando partir para o lado da agroecologia. Começamos a pensar mais na natureza”, diz o agricultor. Na região onde vive o casal, em Guarapuava, interior do Paraná, a relação mais respeitosa com a natureza veio junto com o amparo técnico, levado pela Embrapa e por organizações ambientais, como o Instituto Agro-Florestal. Como outras mulheres da região, a agricultora Ilda Schiffter Conrado e as duas filhas já não vivem à sombra dos maridos. Elas integram o projeto das florestas medicinais. “Aqui trabalho, planto para comer. A vantagem é que não pago aluguel nem água. Na cidade, trabalhava como empregada doméstica”, conta Anilda Schiffter Conrado. “O dinheiro ganho com as plantas medicinais completa minha aposentadoria”, diz Ilda. Com a venda de ervas como a cavalinha, que tem poder diurético, conseguem tirar de R$ 100 a R$ 150 por mês. “Antes, quando a gente só trabalhava na roça, não tínhamos esse dinheiro. Agora, o trabalho é importante tanto pelo dinheiro quanto pela saúde”, diz a agricultora Teresa Bahles. “A floresta medicinal gera renda com a preservação do ambiente e contribui para a melhoria da qualidade de vida do produtor”, destaca a agrônoma Juçara Elza Hennerich. O Paraná, hoje, é o maior produtor brasileiro de plantas medicinais cultivadas, à frente da Amazônia. Já existem até cooperativas para processar e distribuir as plantas medicinais. Os agricultores do estado estão aprendendo a fornecer um produto que é barato e confiável. “Um produto com qualidade impecável, que não perca nenhum princípio. Não ter elementos estranhos nesse material é justamente o que tem dado credibilidade para as plantas medicinais que estão sendo vendidas atualmente no estado”, observa o agrônomo Luiz Roberto Graça. Os produtos que ganham espaço fora do Paraná, já são consagrados no estado. Com a ajuda de Palmira, a agricultora Ana Vieira Coutinho, que também sabe tudo de remédios naturais, prepara a olina, um poderoso coquetel de ervas. “Alecrim branco, camomila, losna, erva de Santa Maria, arnica, catinga de mulata, hortelã, erva-doce e outras”, revela Ana. “A pinga tira tudo que tem de bom das plantas. A olina é muito boa para quem tem problema de fígado, azia, má-digestão, dor de cabeça, de estômago. Existem 16 qualidades de ervas no produto. É forte, amargo. Mas o remédio amargo, que é ruim de tomar, é bom pra curar”, ressalta a agricultora. “Nunca gasto dinheiro na farmácia com remédios, por isso tenho saúde. Não tomo remédio químico”, afirma Ilda. Se de um lado o projeto das florestas medicinais altera a vida de tantas pessoas, de outro ajuda a conservar uma paisagem cada vez mais rara no Paraná. Agora é possível produzir sem acabar com as árvores que são o símbolo do estado. “A idéia é essa mistura. Não vamos precisar derrubar araucárias para tornar a área produtiva. A área está produzindo – espinheira-santa, erva-mate, carqueja, pata-de-vaca – e com ambiente de floresta”, observa a agrônoma Juçara.

VIAGRA NATURAL.

Escondida no meio das florestas, cultivada nos quintais, essa é a maior farmácia do mundo. Oficialmente, as plantas que curam não são consideradas medicamentos no Brasil. Mas já chamam a atenção de agrônomos, biólogos e agora até os médicos querem incluir o conhecimento que vem da natureza no currículo das faculdades. A partir do ano que vem, a fitomedicina já estará disponível como curso de extensão na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Um grupo de professores e estudantes lutam para que ela comece a ser estudada pelos médicos ainda na graduação. “Nosso objetivo é justamente validar a fitoterapia tradicional. Pegar esse conhecimento tradicional que foi passado de geração a geração durante milhares de anos e fazer estudos científicos que comprovem sua eficácia”, explica José Roberto Lazzarini, presidente da Associação Médica de Fitomedicina (Sobrafito). Muitos estudos já foram feitos, e muitos médicos já adotam os tratamentos com ervas. O urologista Enrico de Andrade defendeu este ano tese de mestrado sobre o ginseng vermelho, uma raiz que só é encontrada nas montanhas da Coréia, mas que está disponível em farmácias de manipulação no Brasil. O estudo revelou que em 68% dos casos o ginseng foi eficaz no tratamento da impotência sexual. O ginseng coreano deve ser ingerido sempre na dose recomendada pelo médico. Como fez um advogado, que não quis ser identificado. Ele tinha dificuldades em manter a ereção. Aos 73 anos, com quatro filhos, está no segundo casamento, com uma mulher 28 anos mais nova. “Um mês e meio depois, sentia que funcionava normalmente”, conta o paciente. “O ginseng tem a função de relaxar a musculatura do pênis. Isso aumenta a circulação sanguínea no pênis, facilitando a ereção. A principal diferença em relação aos outros medicamentos industrializados é o uso continuo. Não há mais a necessidade de ingerir a substância antes da relação sexual”, revela o urologista.  Em países como a Alemanha, o uso dos remédios naturais já está consolidado entre os médicos. No Brasil, os que defendem a fitomedicina não querem acabar com os tratamentos populares, à base de chás, mas, sim, aprimorar o conhecimento tradicional, para que ele ganhe base científica. E, quem sabe, possa ser usado também no combate a doenças mais graves. “Quando a gente fala de doenças, precisamos de outro embasamento e de outro tipo de medicamento. Não mais um chá, mas um medicamento feito com o extrato padronizado de princípios ativos. O paciente deve ter certeza de que naquela cápsula há uma quantidade certa de princípios ativos”, comenta José Roberto Lazzarini. “As plantas medicinais não são uma alternativa para o futuro, elas são coisa do presente. Nos últimos cinco anos, a produção cresceu em média 20% ao ano. E essa produção, na maior parte das vezes, não está atendendo o mercado”, comenta o engenheiro agrônomo Luiz Roberto Graça.

GLOBO-REPÓRTER: VIDA SAUDÁVEL—5 DE MARÇO DE 2004.

RECEITA DE BOA SAÚDE.

Para milhões de pessoas que vivem nas grandes cidades do Brasil, o dia começa com correria nas estações e empurra-empurra nas lanchonetes. Quem tem tempo para um bom café da manhã? “Geralmente, não como nada de manhã”, conta a auxiliar administrativo Rosivania Cabral. “Aqui tem presunto e queijo”, revela o marceneiro José da Silva enquanto come um pastelão. Nada mais distante do café da manhã recomendado pelos nutricionistas. “Quando se pensa em café da manhã, estamos pensando na primeira refeição depois de oito horas de jejum. Então, é muito importante dar alimentos saudáveis para o corpo”, diz a nutricionista Andréa Esquível. Mas se o café da manhã precisa ser tomado na rua, a caminho do trabalho, ainda assim pode ser saudável. A sugestão da nutricionista é um pão com ovo, desde que não seja frito, um cafezinho ou café com leite e uma fruta da estação. Barato e nutritivo. Começando o dia bem alimentado, nosso organismo tem mais energia para trabalhar. E mais tempo para queimar as calorias. Uma forma de não engordar. Um bom café da manhã pode ser muito variado, mas é preciso prestar atenção nas combinações. Algumas dicas: Café e chocolate, quando misturados ao leite, impedem a absorção do cálcio. Quem gosta dessa mistura deve comer também uma fruta cítrica ou ácida, como o abacaxi e a tangerina, por exemplo. Elas ajudam a absorção. Café preto deve ser pequeno e tomado um pouco antes do resto da refeição. Isso também vai ajudar o organismo a aproveitar o cálcio dos outros alimentos. Os pães mais indicados são os torradinhos, com a casca mais grossa, os integrais ou com grãos. Eles ajudam o funcionamento do intestino. Uma novidade sugerida pela nutricionista: pão com azeite e tomate. Receita da culinária espanhola. “É uma boa opção para substituir o pão com manteiga ou margarina, gorduras que não são tão saudáveis quanto o azeite. A maneira de fazer é tostar a parte mais clara do pão, que pode ser tostado no forno ou em uma frigideira, sem óleo nem manteiga. Em seguida, os espanhóis pegam a metade de um tomate e esfregam no pão, apertando um pouquinho o tomate para amolecer levemente e dar um sabor de tomate. Ou podemos colocar cubinhos de tomate bem pequenininhos, na quantidade que a pessoa gostar, e um pouco de azeite”, ensina a nutricionista. E quem se vê obrigado a substituir o almoço por um lanche rápido na rua ou num shopping center? A nutricionista Joselaine Sturmer, de Porto Alegre, garante que é possível fazer uma refeição nutritiva e saudável fora de casa. Ela testou uma nova receita entre seus próprios pacientes. Gente que não conseguia viver sem um sanduíche na hora do almoço. “Todos eles tiveram uma diminuição em torno de 15% de triglicerídeos, colesterol e mais ou menos 500 gramas por semana em termos de emagrecimento. Surpreendente”, revela a nutricionista. Surpreendente, mesmo, é a diferença que pequenas mudanças podem fazer no valor calórico dos lanches. “É possível fazer do cachorro-quente, por exemplo, uma refeição saudável. Basta saber o que colocar dentro do pão. Em primeiro lugar, devemos tirar o miolo, assim diminuímos um pouco o valor calórico. A melhor opção é a salsicha de frango. Não devemos colocar molho de tomate e sim tomate cru, que é uma fonte muito rica em licopeno, uma substância boa para evitar o envelhecimento precoce. Em seguida, colocamos uma boa porção de alface, rico em clorofila e fonte de fibras, que fazem bem ao intestino. Milho e ervilha também são ricos em fibras e existem em praticamente todos os fast-foods. Para completar, uma colher de sopa de salsinha, fonte de vitamina C. Para dar um pouquinho mais de graça, podemos adicionar mostarda e catchup”, ensina a médica. A nutricionista também ensina como preparar um cheeseburguer mais saudável. “Devemos evitar o ovo frito, o bacon e a maionese. Primeiro escolhemos um pão não muito grande. Em seguida, colocamos o hambúrguer, que pode ser de frango ou boi. O queijo deve ser, de preferência, mussarela. Completamos com tomate, alface e milho. O resultado é um sanduíche saudável, com uma boa quantidade de carboidratos, proteínas e um percentual pequeno de gordura. Pode ser comparado a uma refeição tradicional e, por incrível que pareça, pode substituir um prato de arroz com feijão”, revela a nutricionista. Mas tem gente que não abre mão do almoço tradicional: feijão, arroz, carne, salada e outros acompanhamentos. Mais uma vez, o segredo está na combinação. O nutrólogo Alexandre Merheb sugere algumas trocas no prato tradicional do brasileiro para quem quer ter mais disposição depois do almoço. “Como fonte de proteína, indicaria para o almoço, principalmente alimentos de digestão mais rápida, como proteínas magras, caso do frango e do peixe”, diz ele. Para acompanhar, no lugar do arroz branco e do feijão, arroz integral e lentilha. A vantagem é que, com mais fibras, o arroz integral não sobrecarrega tanto o metabolismo. E a lentilha é mais nutritiva do que o feijão. Outra opção de acompanhamento é mandioca ou aipim, de preferência cozido, no lugar da batata. Também é mais nutritivo e a digestão fica mais fácil. “Em termos de fibras, recomendaria uma boa salada de verduras e legumes, bem colorida. Quanto mais cor tiver a salada, melhor. Um almoço como este garante um estado de nutrição adequado, que vai preservar o indivíduo de se sentir mal, de sentir moleza, falta de disposição durante a tarde, que normalmente é o período mais produtivo em termos de trabalho”, explica o especialista. E para um país onde o calor prevalece quase o ano todo, o suco é fundamental. “Laranja com salsinha é uma mistura exótica e agradável entre duas fontes de vitamina C. A salsinha tem cinco vezes mais vitamina C que a laranja. Um punhadinho é o suficiente para misturar. Podemos bater bastante. É um suco próprio para o verão. A vitamina C é uma das vitaminas mais importantes, inclusive para combater o envelhecimento. Ela é um bom limpador do organismo, faz parte da formação de uma série de substâncias protetoras do corpo”, ressalta a nutricionista Andréa Esquível. Outro suco já é mais conhecido. É só misturar abacaxi, água e um punhadinho de hortelã. Tudo a gosto. A vitamina C ajuda a absorver o ferro. E esta combinação, em especial, estimula a digestão. “Este suco ajuda muito a quebra da proteína no estômago durante a digestão. A hortelã estimula a produção do suco gástrico. O suco é muito bom para acompanhar uma carne vermelha”, diz a nutricionista.

REVOLUÇÃO NA ÁGUA.

Ramos, Zona Norte do Rio de Janeiro, amanhece com muito sol. Do bairro, se vê bem a agitação da cidade seguindo para o trabalho. Mas no piscinão o movimento é outro: congestionamento na areia, uma fila nem um pouco disciplinada. Quanta gente querendo cuidar do corpo! Na maior piscina pública do Brasil, as aulas são de graça. No espaço, as pessoas fazem ginástica, capoeira e caminhadas. “Venho todo dia. Mas sábado e domingo a caminhada é por nossa conta”, diz a dona de casa Maria das Dores. E depois, hidroginástica. São 120 alunos disputando espaço. Cada um segue a orientação do professor como consegue. Coordenação, ritmo, nada é muito uniforme. O pessoal de Ramos nem imagina que o exercício que eles ensaiam já é considerado o mais completo entre todos. Saindo do piscinão para as piscinas dos mais modernos centros esportivos, descobre-se muito movimento na água. Tem gente levantando peso, pedalando, andando e até correndo debaixo d’água. É a revolução da hidroginástica. Quem diria, logo ela, antes recomendada só para quem não suportava exercícios mais pesados. Nada de exercício leve. Usando pesos e a resistência da água, os músculos são exigidos o tempo todo em exercícios de alta intensidade. “A aula é bastante puxada. Dá para ficar em forma, a gente sente bastante a musculatura”, conta a telefonista Magda Farias Belém. A bicicleta submersa ajuda a aumentar a resistência pulmonar. “O objetivo da hidroginástica mais puxada varia. Pode ser, por exemplo, o emagrecimento e enrijecimento. Por isso, de forma alguma uma pessoa pode participar dessa aula sem autorização médica”, diz a professora de educação física Mercês Nogueira. Pedro Miéle foi nadador profissional e triatleta. Depois que ele abandonou as competições, aderiu à hidroginástica para manter a forma. “Saio da aula cansado, com a musculatura pesada, fatigada. Sinto bem o resultado”, diz Pedro. “Se tivesse que classificar entre todos os exercícios, consideraria esse o mais completo”, revela a professora Mercês. Tanto empurra-empurra debaixo d’água chamou a atenção dos pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (USP). Decidiram estudar os efeitos da ginástica subaquática. A conclusão é surpreendente. “Quando comparamos a esteira na água com a esteira na terra, podemos observar que, apesar do impacto muscular ser muito menor na esteira aquática, o gasto calórico é muito superior: 140% maior do que na esteira terrestre. Por exemplo: se gastar 100 calorias numa esteira na terra, na mesma velocidade na água gastaria 240 calorias”, revela a fisioterapeuta Gerseli Angeli. Mais rendimento e menos desgaste físico. E isso funciona para qualquer exercício. Os especialistas garantem que qualquer movimento dentro da água sempre será mais eficiente do que fora da água porque o peso do corpo diminui, os ossos ficam protegidos de qualquer impacto e os músculos são mais exigidos. O resultado da pesquisa deixa claro: a água pode ser uma grande descoberta para quem não encontrou um caminho na terra. “A atividade de caminhada dentro d’água é indicada desde àquela pessoa que está sedentária há muitos anos, que está obesa, ou que tenha tido algum tipo de lesão em alguma articulação, até a um atleta que a utiliza como complemento para o seu esporte. Na água, fato de não ter dor muscular, de não ter cansaço extremo, a pessoa consegue realizar o exercício alegre e feliz, que é a proposta”, avalia o professor de educação física Fábio Rieser da Silveira. Será essa a explicação para os resultados da hidroginástica no pessoal do Piscinão de Ramos? A teoria, eles não conhecem, mas os efeitos... “Tinha crise de asma e com hidroginástica e caminhada, melhorei totalmente. Estou em forma com 47 anos”, diz a dona de casa Maria da Penha de Lima. “Estimula muito, pois estava mais gordinha e agora estou linda, resultado da hidroginástica”, comemora a dona de casa Erivalda de Souza Martins.

SAÚDE SOBRE DUAS RODAS.

Rio de Janeiro, 7h. Um grupo começa o dia pedalando. Dividindo as ruas estreitas com os carros e os ônibus estão advogados e empresários – gente que passa o dia em lugares fechados. Sobre duas rodas, são todos atletas. Sentir o vento no rosto, respirar ar puro e fazer muito esforço físico. As atividades praticadas ao ar livre têm se tornado cada vez mais comuns. Pode ser bem cedinho, antes do trabalho, ou nos fins de semana. “A gente aqui procura vida”, diz o empresário André Ibeas. “Paz de espírito e tranqüilidade”, acrescenta o comerciante José Francisco Paiva. “Não tem preço”, constata o professor de educação física Michel Hagge. Haja fôlego. Esse pessoal chega a pedalar de 60 a 70 quilômetros em um dia antes de trabalhar. Sob o verde que protege do sol, avançam. A beleza da mata, a temperatura amena, tudo ajuda. Garantem que o esforço da subida é o maior antídoto contra o estresse profissional. Saúde para o corpo e para a cabeça. “Saio correndo para o escritório. Moro aqui perto e desço em 40 minutos. Uma hora depois já estou sentado à mesa, pronto para agüentar o dia. O dia em que não pedalo, sinto-me muito mal”, conta o advogado Rodrigo Madeira. A chegada ao mirante da Vista Chinesa compensa todo o esforço. O suor chega a evaporar do corpo. A vista do Cristo Redentor, a cidade ao fundo fazem parte de uma experiência gratificante para quem se dispõe a romper a rotina com disciplina. “A gente pode se encontrar e curtir a paisagem lá em baixo, o mar, o verde, isso tudo que o Rio de Janeiro nos proporciona”, ressalta o empresário André Ibeas.

PAIXÃO SEM LIMITE.

Pedalar, andar, correr. Nas ruas e nas academias, a maratona é em busca de saúde. Mas encontrar a dose certa também é importante. O que não pode é ter pressa. Exigir do corpo mais do que não consegue dar ou exagerar na carga de exercícios pode significar o fim de um projeto e o começo de um longo e doloroso processo de recuperação. Há três meses a publicitária Regina Malta está de molho. Os exercícios na água tentam recuperar uma lesão séria no joelho. Mas a fisioterapia só foi iniciada quando os excessos feitos por Regina já tinham agravado o quadro. Um tombo de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, foi o começo de tudo. Regina bateu o joelho na quina do meio-fio. Tratou-se sozinha e continuou pedalando. “Não parei porque tenho paixão por exercício”, diz a publicitária. Paixão sem medida que teve um preço alto. Um ano depois, Regina procurou um ortopedista e descobriu que tinha lesão no menisco. Exercícios mal feitos não afetam apenas o coração. “Há risco de contraturas musculares, tendinites, estiramentos, uma série de lesões que acontecem com a sobrecarga da estrutura óssea e muscular do paciente. Geralmente os membros inferiores são os que mais sofrem, porque são os que suportam a carga”, alerta o ortopedista João Maurício Barreto. Sem pedalar, Regina acabou ganhando peso: 15 quilos a mais. Para curar o joelho, precisa emagrecer. Mas exercícios, agora, só com a supervisão de um especialista e longe das pistas, só na academia. “Na verdade, o exercício não tem nada de vilão, só é mal utilizado. E quando isso acontece pode causar um impacto negativo, como algumas lesões sérias”, diz o ortopedista. “O próximo verão vai ser diferente”, garante Regina.

“PROJETO NOÊMIA 2004”.

O dilema da arquiteta carioca Noêmia Caiado já cruzou alguns verões: enfrentar ou não o próprio sedentarismo. O projeto, feito há quatro anos e abandonado logo em seguida, era emagrecer. Separada, mãe de duas filhas, trabalhando em tempo integral, reconhece que é difícil lutar contra a falta de força de vontade e um gosto irresistível por lanchinhos fora de hora. “Sou um pouco comilona, gosto muito de massa. Com isso acabo ganhando alguns pesinhos a mais. A coisa de que mais gosto é de um bom sanduíche”, revela Noêmia. Se o sanduíche já era um problema quando Noêmia praticava atividades físicas, imagine em uma vida sedentária. A ex-bailarina quer agora, aos 46 anos, voltar definitivamente a fazer exercícios. “Várias vezes ela comentou que ia entrar na academia junto comigo para malhar e emagrecer. Mas nunca fez isso”, conta a estudante Bruna Caiado, filha de Noêmia. É orientando gente como Noêmia que o professor de educação física Henrique Piraí ganha a vida. Assim que se conheceram, quis saber por que ela estava parada há tanto tempo. “Preguiça e falta de tempo. Junta as duas coisas e acaba não indo nunca”, justifica a arquiteta. Para começar, basta se mexer. O professor explica que qualquer movimento é uma atividade física, como andar no shopping, subir e descer escadas. Mas exercício mesmo precisa ter ritmo e intensidade definidos. Noêmia já fez a escolha: prefere fazer caminhadas ao ar livre. Mas qual a melhor forma? “Primeiro tem que se preocupar na maneira como pisa. A primeira parte do pé que toca o chão é sempre o calcanhar. O movimento deve ser feito de modo a evitar ao máximo o impacto. Outra coisa é manter a postura ereta e movimentar sempre os braços, porque isso tende a dar edema na mão. As pessoas reclamam de inchaço nas mãos exatamente por isso”, diz o professor. Quarenta minutos, três vezes por semana, é a medida ideal para quem está começando. “O limite vai ser sempre a sensação de desconforto. A pessoa pode começar mais devagar e aumentar a intensidade da caminhada”, ensina Henrique. Depois da caminhada ou de qualquer outro exercício, o professor orienta: é importantíssimo fazer alongamentos. “O músculo é um tecido elástico. Quando fazemos exercício, ele se contrai e, se não fizermos alongamento depois, a musculatura vai se tornando cada vez mais encurtada”, diz Piraí. Beber muita água, mesmo durante a caminhada, usar roupas leves e ter assiduidade são outras recomendações. Práticas de fim de semana, não levam a nada. Noêmia já sabe disso tudo e começa cheia de vontade o projeto 2004. “Quero manter a saúde. Vou começar com freqüência, prometo. A promessa é não parar mais, nem no inverno”, diz a arquiteta.

VIDA EM MOVIMENTO.

Equilíbrio. Reflexo. Força nos músculos. Um corpo saudável, capaz de fazer os movimentos que a vida exige em qualquer idade. Em um grupo todos já passaram dos 60 e cada um tem um motivo para fazer parte da turma. "Atividade física é uma coisa necessária e temos que fazer, gostando ou não. Gostando é muito melhor", comenta a dona de casa Ana Tagliavini. "Tinha muita dor nas costas, na coluna, e depois que vim para cá, com as posturas corretas, melhorei bastante", diz o aposentado Takashi Okuma. "Tinha urgência urinária, uma vontade de correr para o banheiro à noite. Mas isso sumiu com a ginástica do períneo", afirma a dona de casa Maria Helena Carvalho Miranda. Especialista em atividade física para a terceira idade, a professora Silene Sumire Okuma conhece as necessidades e os pontos fracos de cada um. E sabe o que é importante para todos: não deixar o corpo enferrujar, precisa de muito mais que os movimentos do dia-a-dia. "O corpo precisa de desafios. Isso significa ir além do que o cotidiano exige. Por maior que seja a quantidade de atividades que faça no meu dia-a-dia de dona de casa, não supre a necessidade de perda que o envelhecimento traz", avalia a professora. Nem movimento com véu e música, nem os exercícios de musculação. Para algumas dessas senhoras, aquelas que passaram a vida cuidando da família e da casa, o primeiro e mais difícil dos movimentos foi pegar a bolsa e sair em busca do que o tempo levou. Foi com a auto-estima lá embaixo que Eunice Alves Monteiro chegou para quebrar a rotina de uma vida parada e já sem nenhuma graça. "Nunca trabalhei fora, meu marido faleceu e meus filhos têm a vida deles. A solidão é ruim demais. Nem da casa gosto mais. Fiquei a vida inteira lustrando a casa, a casa brilhava e perdi o brilho. É muito triste", lamenta a dona de casa. Sem brilho e sem vontade de se mexer, mas com uma disposição rara de mudar, coisa que a maioria das donas de casa ainda não tem. Em grupos de atividade física são minoria, apenas 22%. Foi o que a professora Silene Okuma descobriu estudando o comportamento de idosos que faziam exercícios na Universidade de São Paulo (USP). Os outros 78% são pessoas que tiveram uma vida ativa, fora de casa. "Em geral, donas de casa muito ativas dentro de casa dão como justificativa exatamente isso: 'Já faço muito dentro de casa'. O que acontece é que com o processo de envelhecimento vamos perdendo nossas condições funcionais, estruturais", observa a professora. O primeiro dia de ginástica foi puxado para Eunice, mas são esses exercícios mais fortes que criam as reservas de que todos precisamos ter para um momento de doença ou na hora de fazer um esforço maior. "Hoje tive dificuldade porque foi o primeiro dia, mas vou conseguir. Vou revirar minha vida", garante Eunice. "Uma das coisas que a gente observa é que, por já terem dificuldades, as pessoas acham que essa é uma condição para não fazer. E é exatamente o contrário, quanto mais dores e pior estiverem mais precisam mudar seus hábitos, não importa a idade, com 82, 83, 91, não importa. O que importa é que iniciem da forma mais adequada possível. Adequado é saber quais são as limitações e fazer um programa a partir delas", diz a professora Silene.

MARCAS DO SOL.

Nos meses mais quentes do ano, o cenário nas praias é sempre o mesmo. Todo mundo querendo um lugar ao sol. Roupa, só o suficiente para garantir conforto. Peles morenas, muita energia no ar. Quem lembra que a luz do verão pode ser desastrosa? O vendedor ambulante Sebastião Nogueira, de 61 anos, nunca pode pensar muito nisso. Há 20 anos ele e os dois filhos, Douglas e Lincoln, vendem suco natural na praia. São sete horas de trabalho por dia. “Sempre uso chapéu, boné, sempre me protejo”, garante o vendedor. “Na verdade, é o mais branquinho da família. De tanto tomar sol, mudou o bronzeado, ficou mais moreno nesses 20 anos”, conta Douglas. Douglas e Lincoln herdaram a pele morena da mãe, que é negra. Um fator de proteção natural para quem pega tanto sol. “Mesmo morenos, nos protegemos com filtro, porque nossa pele é muito exigida”, diz Lincoln. A cor do verão pode seduzir muita gente, mas não a medicina. Lentes poderosas conseguem ver o que existe além da pele bronzeada. No primeiro exame de pele da sua vida, seu Nogueira levou um susto. “Parece uma estátua de bronze”, constatou o ambulante. Foi assim que reagiu ao ver o resultado da foto tirada com raios ultra-violeta. Só ela pode revelar os danos causados pelo sol na camada interna da pele. “Tem risco de apresentar manchas escuras em algumas regiões, que podem se tornar mais espessas, e também um risco maior de desenvolver câncer de pele”, diz a dermatologista Aline Pinheiro. Mesmo sem equipamentos, a médica consegue ver muitos problemas na pele de seu Nogueira. “O que mais chama a atenção é uma mancha enegrecida, irregular. Isso é resultado de um efeito solar cumulativo, ao longo dos anos de exposição freqüente ao sol na praia. É possível observar também na região das bochechas e do nariz uma grande dilatação dos vasos, que também é provocada pela exposição solar de longa data. A pele em redor dos olhos também é mais espessa”, avalia a médica. “Os filhos dele apresentam pele de boa qualidade. Por serem mais morenos,  têm proteção maior em relação à luz solar. Mas isso não os libera de ficar sem utilizar o filtro solar”, diz a especialista. De acordo com os conselhos da médica, seu Nogueira deve usar sempre chapéu de abas largas e aumentar o fator de proteção solar para 60. E Douglas e Lincoln, mais morenos, podem continuar usando filtro com fator de proteção 15. As recomendações servem para qualquer pessoa que goste de tomar sol: cuidado com os excessos. “A exposição deve ser sempre antes das 10h e depois das 16h. O filtro solar deve ser usado continuamente e em camada espessa, ou seja, temos que ser bastante generosos na aplicação”, orienta a dermatologista. Mais cautelosos, seu Nogueira e os filhos estão de volta à praia. Mas agora, sem esquecer a verdadeira imagem de uma pele bronzeada.

GLOBO-REPÓRTER: O PODER DAS FRUTAS—26 DE MARÇO DE 2004.

MAIS FRUTAS, MENOS DOENÇAS.

Elas são símbolo de fartura e de fertilidade da terra, traduzem a riqueza e a diversidade de um país tropical. Desde o tempo dos nossos avós ouvimos falar que comer frutas faz bem à saúde. Agora, a ciência comprova que as frutas são fonte de vitaminas, proteínas, sais minerais, fibras, antioxidantes. Um saboroso coquetel na prevenção e no tratamento de doenças. Mas quem come frutas pensando apenas nas propriedades que elas têm? Cada uma guarda forma, cor, cheiro diferentes. Algumas são tão antigas quanto a história da humanidade, do tempo de Adão e Eva e do pecado original. Uma pode trazer lembranças da infância; outra, um novo gosto a ser descoberto. A aposentada Ernestina Ferreira redescobriu nas frutas o gosto de viver. “A gente compra umas mais durinhas e outras mais verdinhas, para serem consumidos depois”, ensina a aposentada. Ela mora em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, e, como a maioria dos brasileiros, comia frutas só de vez em quando. Há dois anos, com onze quilos a mais de peso, dona Ernestina procurou os médicos do Departamento de Geriatria da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre. Não se sentia nada bem. Estava com o colesterol alto, sofria com dores nas articulações, tomava antidepressivos e tinha problemas de digestão. “Dormia e passava muito mal. Havia noites que achava que até não amanheceria viva. Tinha pesadelos horríveis por causa da janta. Comia feijão, arroz, carne, batata, aipim, enfim, tudo”, conta dona Ernestina. A mudança na vida de dona Ernestina começou no consultório. Estava entre as 350 pessoas com mais de 60 anos que foram alvo de um estudo sobre hábitos alimentares. A conclusão foi surpreendente: “Constatamos que as pessoas que têm uma alimentação saudável, principalmente as que comem mais frutas e verduras, têm até três vezes menos chances de desenvolver uma doença cardiovascular, um câncer, do que uma pessoa que não tem esse hábito”, revela a geriatra Gislaine Flores, da PUC do Rio Grande do Sul. O desafio de geriatras e nutricionistas era melhorar a vida de quem comia de forma pouco saudável. Foi um trabalho minucioso. A nutricionista Josiane Siviero preparou um cardápio especial: reduziu alimentos calóricos, como frituras e doces, e incluiu pelo menos três frutas e dois vegetais por dia, que é a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Esses alimentos contemplam certos nutrientes que só eles contêm”, diz a médica. Aos poucos, dona Ernestina e os outros idosos foram incorporando as frutas à alimentação. Aprenderam a gostar, a variar e a usar as frutas como remédio. “Gosto mais da banana. Todos os dias como uma bananinha”, conta a dona de casa Cládis de Mello. “Emagreci oito quilos depois que diminuí os farináceos e comecei a comer frutas e legumes. A disposição melhorou, a digestão também, e o intestino foi regularizado. Nunca mais tive dor de cabeça. Não tomo remédio nenhum, meu remédio são as frutas”, diz a aposentada Raquel Oliveira Rech. A nutricionista também deu conselhos importantes ao grupo, como comer devagar e várias vezes ao dia. “O ideal são seis refeições por dia. Antes, eles faziam três”, diz Josiane. O resultado da nova dieta foi animador. Em três anos, 75% dos idosos emagreceram e tiveram diminuição do colesterol ruim no sangue. “Perderam bastante peso e começaram a se sentir psicologicamente muito melhores. No exame clínico, a gente observou essa melhora”, conta a geriatra Gislaine Flores. “Sinto que minha vida mudou bastante, minha disposição melhorou muito, meu ânimo de andar, de trabalhar, e a minha mente também. Sinto que sou outra pessoa, não aquela que estava quase com a mente apagada”, diz dona Ernestina.

MAÇÃ: DE FRUTO PROIBIDO A REMÉDIO.

Todos estamos vivendo mais. O segredo que os cientistas buscam incessantemente é como viver mais e melhor. No Núcleo de Alimentos Funcionais da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (PUC-RS), foram analisados os efeitos da maçã no organismo das drosófilas, as mosquinhas que adoram frutas. “Escolhemos a maçã porque é uma fruta bastante consumida pelos brasileiros, não é cara e pode ser consumida de diferentes formas”, diz a bióloga Guendalina Turcato Oliveira, da PUC-RS. Comparando um grupo de mosquinhas alimentadas com uma papinha especial de maçã com outras que receberam a papa sem a fruta, os pesquisadores constataram que as que comeram maçã viveram 30% mais que as outras, e com saúde melhor. “Sabe-se que na maçã existe um conjunto de substâncias que previnem a formação de radicais livres, entre essas substâncias estão flavonóides como a quercetina. São substâncias que diminuem a formação de radicais livres e com isso aumentam o tempo de vida”, explica a bióloga. Mas o que aconteceu com as mosquinhas pode acontecer também com os seres humanos? “Provavelmente, sim. Existem estudos feitos em países da Europa, como a Finlândia, que acompanharam mais de 10 mil pessoas durante 28 anos. O resultado mostrou que os indivíduos que comem maçã têm menos doenças como câncer de pulmão, mama, próstata, doenças cardiovasculares e até mesmo asma. Se fizéssemos um paralelo com os resultados dessa pesquisa, a gente esperaria que as pessoas no Brasil, por exemplo, que hoje vivem 68 anos, pudessem viver em média 80 anos, que é casualmente a longevidade média de países desenvolvidos como o Japão e a própria Finlândia”, revela a biogerontóloga Ivana da Cruz, da PUC-RS. Mas atenção: ninguém deve comer quilos maçã, de uma só vez, acreditando que vai viver mais e melhor. “Uma boa medida para termos qualidade de vida com a contribuição da maçã é comer de quatro a cinco por semana”, orienta a pesquisadora.

MIRTILO, O BLUEBERRY BRASILEIRO.

Uma pequena fruta, uma grande promessa. É em um vale da Serra Gaúcha, em Forqueta, região de Caxias do Sul, que uma família inteira trabalha no cultivo de uma novidade: o agricultor Nestor Soga; a mãe dele, dona Mercedes; a mulher, Maria Inês e a filha Lílian. O nome da fruta é mirtilo. Ela é menor que a uva e, quando madura, fica da cor da jabuticaba. Mas o sabor do mirtilo é único, especial. E a semente é muito pequena. O mirtilo não é apenas uma fruta saborosa. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comprovaram que o mirtilo produzido no Brasil tem as mesmas características do blueberry – a versão original da fruta, cultivada nos Estados Unidos e na Europa – e possui a mesma quantidade de pigmentos antocianos. É este pigmento que age de maneira benéfica no nosso organismo: combate os radicais livres, é antiinflamatório, melhora a circulação e reduz o colesterol ruim. Outro benefício comprovado do mirtilo está ligado à saúde dos olhos. “Estudos científicos têm mostrado que o mirtilo previne doenças relacionados à visão, como catarata e glaucoma, melhorando a capacidade de leitura e o foco da visão. Os antocianos presentes no mirtilo têm a capacidade de reverter ou evitar o problema, prolongando a capacidade visual”, farmacêutico José Ângelo Zuanazzi, da UFRGS. O poder de melhorar a visão atribuído ao mirtilo é uma história que vem desde a Segunda Guerra Mundial, quando os pilotos britânicos comiam mirtilo antes dos vôos noturnos. Eles acreditavam que assim enxergavam melhor os alvos inimigos. Quem enxergou longe foi o padre Darci Bortolini. Há cinco anos decidiu apostar no mirtilo. E como acreditar faz parte da vida dele, padre Darci viu na pequena fruta a prosperidade sonhada pelas famílias da região. De casa em casa, começou a oferecer as mudas, que comprou com as próprias economias. Mas ninguém pôs muita fé na crença do padre. Os produtores, acostumados a cultivar frutas mais populares, tinham medo de arriscar. Apesar do descaso de dona Mercedes, o filho Nestor emprestou um terreno para o padre plantar o mirtilo. Assim mesmo, meio desconfiado. “É difícil chegar com duas plantinhas para alguém e tentar vender. Mas, se entre dez conseguir convencer uma, isso basta”, analisa o padre. A plantação deu certo e se mostrou fácil de cultivar. Aos poucos, a criação de frangos, fonte de renda da família nos últimos 30 anos, foi sendo abandonada. No lugar das granjas, surgiram estufas, onde estão 140 mil mudas de mirtilo, prontas para espalhar a novidade. “Com certeza, vai ser um costume brasileiro, mas ainda vai demorar alguns anos. A fruta é saudável, gostosa e o povo vai aprender a saboreá-la”, avalia Nestor. O sucesso da plantação de Nestor encorajou outros agricultores. Quem orienta os novatos é o agrônomo Alverídes Santos, que, através da Embrapa, trouxe o mirtilo para o Brasil há 21 anos. "Acredito nas pequenas frutas. É a cultura que mais cresce dentro da fruticultura no mercado europeu, no mercado do primeiro mundo. Por que iríamos ficar de fora?", comenta o especialista. Sagrada ousadia. Hoje, o agricultor Nestor e padre Darci reverenciam as virtudes prometidas pelo mirtilo, o blueberry brasileiro. "Saúde, longevidade, juventude perene", ressalta padre Darci.

A FRUTA CAMPEÃ DE VITAMINA C.

Abacaxi, goiaba, manga, uva, maracujá, acerola. O Brasil produz mais frutas do que o brasileiro consegue consumir. Mas isso está mudando. Nas grandes cidades, as frutas estão deixando de ser apenas sobremesa. Aos poucos, estão sendo consideradas um alimento que faz muito bem à saúde. E como faz. Na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal da Bahia, a professora Maria Spínola pesquisa as propriedades nutracêuticas, quer dizer, o poder nutritivo e medicinal das frutas mais consumidas no Nordeste. O estudo derrubou alguns mitos. Por exemplo: quanto tempo dura um suco de laranja sem perder suas propriedades? "A gente verificou que entre três e quatro horas depois pode perder no máximo 6%. E de um dia paro o outro, em torno de 30%”, responde Maria Spínola. Outra constatação: as frutas reforçam a defesa do nosso organismo, ajudam a evitar doenças graves. "Todos os frutos avermelhados, cor de laranja e amarelos possuem carotenóides, principalmente betacaroteno e licopeno. Podem reforçar nossa defesa imunológica, evitando que a pessoa chegue a ter ou desenvolver um câncer ou outra doença degenerativa", revela a professora. A grande novidade da pesquisa surgiu no exame das polpas. A concentração de vitaminas encontrada foi a mesma ou até maior do que a da fruta natural. "Encontramos polpas no mercado com teor de vitamina C acima da acerola, que foi a variedade que analisamos”, diz Maria Spínola. A pesquisa vai examinar todas as propriedades medicinais das polpas. Mais uma revelação: a laranja é sinônimo de vitamina C? Nem tanto. "A acerola tem 40 vezes mais vitamina C do que a laranja. Para um suco de laranja, você necessitaria de um copo de 200ml. E de acerola somente uma pequena quantidade. Precisamos de 60 miligramas de vitamina C por dia, sendo que as pessoas que têm estresse estão submetidas a um estresse muito elevado ou que fumam, essa quantidade pode aumentar", comenta a professora. Na classificação da vitamina C, depois da acerola vem o caju, a manga, a goiaba. A laranja está em quinto lugar, conforme os números abaixo: Concentração de vitamina C: Acerola - 1.500 mg, Caju - 200 mg, Manga - 84 mg, Goiaba - 67 mg, Laranja - 40 mg. Que a acerola tem mais vitamina C que a laranja, isso já se sabia. Mas a manga e a goiaba na frente da laranja foi uma surpresa. E um suco de caju, com 200 miligramas de vitamina C num único copo! O caju é curioso. A fruta mesmo é a castanha, que vira tira-gosto, torrada e salgada. A parte que se come e de onde se faz o suco é uma haste mais cheinha, que tem muito mais do que vitamina. Os pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, que já estudaram a castanha, dedicam-se agora à polpa e ao suco do caju. A nutricionista pernambucana Elma Warta, da Universidade de São Paulo (USP), quer estimular o consumo na população mais pobre. O estudo está mostrando que a polpa do caju é rica em compostos fenólicos, que são antioxidantes, fazem bem à saúde de quem come a fruta. “A pessoas estariam se prevenindo de doenças como o câncer, doenças do coração, cardiovasculares, e até mesmo em alguns processos antiinflamatórios. Sem gastar nada”, explica Elma. O professor Jorge Mancini Filho, farmacêutico-bioquimíco da USP, explica como nosso organismo sofre com a oxidação das células, que provoca envelhecimento e doenças: “Se tiver uma situação de estresse no organismo, um ambiente de elevado grau de poluição ou alguns quadros como viroses, e puder prevenir isso, vai favorecer o organismo ao ter uma condição de vida melhor”. É por isso que o estudo das frutas cresce em todo o mundo. Na USP, até a romã, pouco consumida, está sendo alvo de uma pesquisa. A curiosidade da farmacêutica Fernanda Jardini vem da infância. Será que a romã só serve de enfeite ou para fazer simpatia com as sementes? “Pesquisando a romã a gente descobriu que ela é muito rica em compostos antioxidantes. Ela é rica em ácidos fenólicos e também em flavonóides, que dão uma cor avermelhada ao suco. O consumo de romã pode trazer muitos benefícios. Isso é comprovado cientificamente”, diz Fernanda Jardini.

SUCO CONTRA O ESTRESSE.

Os benefícios das frutas podem ser ainda maiores se forem combinadas. A nutróloga Jane Corona inova nas receitas: diz que é possível misturar as frutas, com indicações surpreendentes. É verdade que existe uma combinação de frutas capaz de prevenir a celulite, uma vilã principalmente para as mulheres? “É verdade. A celulite é uma retenção de água e de toxinas nas células. Então um suco, por exemplo, de abacaxi, maçã e cenoura seria uma maneira natural de prevenir a celulite. O abacaxi, porque tem uma enzima chamada bromelina, que é antiinflamatória. Além disso, é levemente diurético. A maçã, porque é a vassourinha do organismo, ajuda a eliminar todas as toxinas. E cenoura, que é riquíssima em vitamina A, é importante para recuperação e regeneração do tecido celular”, confirma Jane Corona. Contra a depressão - que afeta a mente e o corpo - laranja, manga e banana, juntas. “As pessoas deprimidas, normalmente, têm pouca vitamina C, e a laranja é riquíssima em vitamina C. Essas pessoas também têm pouca vitamina A, e a manga é uma das frutas que tem mais vitamina A. A banana dá mais energia”, ensina Jane. Até as tensões do dia-a-dia podem ser enfrentadas com frutas: é o suco antiestresse! “Vamos usar a banana, que é uma fruta energética, rica em potássio, que é a fruta de escolha para quem pratica exercício, e para quem está cansado. Vamos usar também a pêra, que é uma fruta de fácil digestão, que pode comer até à noite, é uma fruta muito boa para ser consumida. E as pessoas estressadas, normalmente, estão com o nível de vitaminas muito baixo, e as frutas que têm a quantidade maior de antioxidantes e vitaminas são as frutas vermelhas, como o morango, por exemplo. O levedo de cerveja é usado para aumentar os níveis de serotonina, porque tem uma quantidade grande de vitaminas do complexo B e também cromo, que é um mineral importante. As pessoas estressadas têm esse mineral muito baixo”, recomenda a nutróloga. Jane explica como preparar o suco antiestresse: “É só bater no liquidificador uma banana, dez morangos e meia pêra com casca. Acrescente uma colher de chá de levedo de cerveja, um copo de água e pronto. É só bater. Está pronto o suco”.

FRUTAS BRASILEIRAS BRILHAM NO EXTERIOR.

Um imenso jardim no sul do Brasil com 70 quilômetros quadrados só de macieiras. Fraiburgo, em Santa Catarina, fica na região que mais produz maçãs no país. Em época de colheita, atraem 10 mil trabalhadores de outras cidades e dos estados vizinhos. Gente que se encanta com frutas tão bonitas. "Tem a polinizadora, a rainha do pomar. Com o sabor do beijo dela, sinto o peito vibrar", canta o trabalhador rural Domingos Silva. Os colhedores correm o mundo em busca de trabalho. Hoje, estão lá, daqui a pouco... “Parancity, no Paraná. Depois vou para Minas colher café”, conta o trabalhador rural Adão Tibúrcio. Com as maçãs, dizem que o trabalho é mais tranqüilo. “Isso aqui é muito melhor porque não corremos risco de pegar doença. Aqui não tem aquele pó, como a cana, nem abelha. E aqui dá para ganhar dinheiro. Moro em um lugar há mais de 20 anos e nunca vi uma coisa bonita igual a essa”, diz Tibúrcio. Com tanta beleza diante dos olhos, qual maçã tirar do pé? Olho na cor, no tamanho, e só as maduras vão para a sacola. O ofício tem outros segredos, como tratar as maçãs com cuidado, para não machucá-las, e ser rápido com as mãos. Quem colhe mais, ganha mais. Difícil mesmo é ficar longe de casa. Oitocentos quilômetros separam o trabalhador rural Nelson Sabino da família, que deixou no noroeste do Paraná. “O coração fica bem apertado, com saudade de mãe, filho, pai e irmãos que deixei lá”, conta ele. A distância é o preço da oportunidade de um emprego, ainda que temporário. Comida e hospedagem são de graça. O salário pode chegar a R$ 400,00. Nos alojamentos, lavam a própria roupa, cortam o cabelo um do outro e espantam a tristeza nos fins de tarde, quando o pomar também descansa. Um novo dia começa com as maçãs colhidas passando por tanques, esteiras, engrenagens. Só este ano, o Brasil deve produzir 110 mil toneladas – um recorde. É tanta maçã que, em fila, dariam 13 voltas ao redor da Terra. E, como o brasileiro não consome tudo isso, o destino dessas frutas vai mudando aos poucos. Deixamos de ser importadores para exportar cada vez mais. Todos os caminhos da exportação passam pela tecnologia. São máquinas modernas, que lembram uma linha de montagem e asseguram a higiene e a padronização exigidas pelos mercados estrangeiros. Hoje, esses rios de maçãs já desembocam nos Estados Unidos, Canadá, na Europa, na Ásia e na Arábia Saudita. Mas para isso é preciso perseguir um modelo. O modelo da fruta perfeita. Deve ser bonita, saborosa e sem resíduos tóxicos. Com frutas assim, o Brasil já abocanhou 15% do mercado externo. “Hoje, estamos conseguindo tirar os outros do mercado pela nossa qualidade, pelo nosso sabor, pela crocância”, avalia Luiz Borges Júnior, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã. Tecnologia que já consegue até prolongar a vida das maçãs. Em câmaras frias, sem oxigênio, elas se mantêm perfeitas por seis meses. Um retrato de quem antecipa o futuro.

POMAR NA CAATINGA.

A mesma tecnologia que nos permite exportar maçã plantou um imenso pomar nas margens do Rio São Francisco, nos municípios de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco. Na caatinga seca, parreiras, mangueiras, goiabeiras - frutas para o Brasil e para todo canto do mundo, cultivadas no persistente calor do Nordeste. O mesmo sol que maltrata milhões de nordestinos, na região, deixa de ser um problema e vira solução. Porque a combinação de muito sol, terra fértil e água do São Francisco na medida certa é tudo que as frutas precisam para brotar no semi-árido. Este é o único lugar do mundo onde se colhem pelo menos duas safras de uva por ano. Seria isso um milagre? O céu ajuda, mas a tecnologia e a criatividade do homem fazem a diferença. As estações de bombeamento levam a água do Velho Chico para mais de 100 mil hectares de plantação. A uva, fruta da Europa e de climas frios, só vingou no sertão com as pesquisas da Embrapa. Estudos de melhoramento genético usam até a clonagem de plantas. "A gente seleciona um indivíduo, aquele que é melhor adaptado às nossas condições, e clona. Faz de uma planta milhares de plantas completamente idênticas à planta-mãe. E isso é feito no laboratório", explica o agrônomo Natoniel Franklin de Melo. Para os produtores, esse suporte tecnológico é uma ferramenta importante. As novas técnicas ajudam a colher frutas de boa qualidade e permitem competir com países de mais tradição no cultivo da uva, como África do Sul, Chile, Espanha e Itália. "Aqui no Vale estamos usando as tecnologias mais modernas do mundo. Na verdade, agora estão vindo aqui ver o que estamos fazendo. Anteriormente se dizia que uva não dava no sertão, nem nos trópicos. Estamos mostrando que dá. E estão aprendendo isso com a gente”, diz o produtor Luiz Carlos Freire. Os negócios são fechados em dólar. Essa riqueza mudou o rumo de muita gente. O produtor Orlando Castro da Cruz chegou do Sul, na contramão dos retirantes nordestinos. Era motorista de caminhão no interior de São Paulo. Hoje é um pequeno e bem-sucedido produtor de uva. "Graças a Deus, a minha vida hoje mudou muito aqui. Mudou porque hoje a gente já tem um quadro de funcionários que trabalha, e tiro todo o meu sustento daqui. A família vive bem, meus filhos estão estudando. Meu caçulinha está estudando até em escola particular. Tenho um carrinho para passear, uma motinha para andar também. E tenho um caminhãozinho, que transporta o pessoal. Até o momento estou muito satisfeito”, comemora Cruz. A manga do Vale do São Francisco também conquistou o paladar dos estrangeiros. “É uma manga doce, tem um bom sabor, um teor de açúcar alto, uma característica da nossa região. A manga do São Francisco é a melhor manga do mundo, uma manga que tem uma resistência própria, mais durabilidade nas prateleiras para vendas”, relata o produtor José Edival Tenório. “Tem muita polpa, pouco caroço e pouca fibra, você não sente aquele fiapozinho da manga rosa e da manga espada. É uma manga ideal para exportação. A gente manda essa manga para o Canadá, Portugal, Alemanha, França, Holanda", completa Tenório. O Brasil já exporta quase 1 milhão de toneladas de frutas por ano. São US$ 340 milhões que reforçam a balança comercial e geram milhares de empregos. E a tendência é crescer.

UMBU, A FRUTA SAGRADA DO SERTÃO.

Quem visita as capitais do Nordeste descobre uma delícia de sabor bem peculiar, meio azedinho. É o sorvete de umbu. Mas o que muita gente não sabe é de onde vem esta fruta e as muitas histórias que tem para contar. Na dura labuta da caatinga, o umbu é uma bênção para o vaqueiro. Quando a fome aperta, o umbuzeiro, muitas vezes, é a salvação. Sede? Isso a raiz resolve. Na seca, o pé de umbu é como uma caixa d’água. As batatas que ficam na raiz são como caçambas, chegam a acumular até 1,5 mil litros de água. Chova ou faça sol, o umbuzeiro nunca deixa de florescer na primavera. No verão, outra certeza: os frutos brotam dos galhos em grande quantidade. Por isso, é a árvore sagrada do sertão, como disse o escritor Euclides da Cunha. Na época da safra, o sertanejo troca a lavoura por longas caminhadas. Pai, mãe, filhos, todos na trilha dos umbuzeiros. A safra do umbu dura quatro meses: vai de janeiro a abril. A maior alegria para os catadores é encontrar o chão coalhado de umbu. São as frutas maduras que o vento derrubou. Na hora de catar, quanto mais rápido, melhor. Para milhares de nordestinos, o umbu é a única renda. "Se não fosse o umbu, a vida seria ruim, por falta de grana", diz a agricultora Judite Reis. Um dos símbolos da caatinga, o bode é parceiro do homem quando leva os catadores aos umbuzeiros carregados. Mas quando vira concorrente, o animal atrapalha. "Ele chega no pé e cata tudo, se apóia nos galhos e vai subindo. Tem que ter sociedade com os bodes”, comenta a agricultora Celina de Almeida. O agricultor Manoel sabe até o momento em que os frutos começam a aparecer. "Um que nós chamamos de Pereira é o primeiro. Se chegar lá e não tiver, nem precisa ir aos outros, porque não vai achar", garante ele. A sabedoria dele vem desde os tempos de menino. “Éramos oito, e todos catavam umbu. Minha mãe tem 80 anos e ainda cata”, conta o agricultor. Vendo dona Augusta Gonçalves da Silva, com 80 anos e aparência frágil, a gente até duvida. "Subo em qualquer umbuzeiro. Já fiquei pendurada uma vez, mas era baixinho. Aí, dei um pulo. Não me contento com os umbus que caem no chão porque quase não têm valor. Os bons estão em cima", diz a agricultora. Uma fábrica que funciona na cidade de Uauá, no sertão da Bahia, foi criada pelos catadores com a ajuda de técnicos do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa). No local se produzem derivados do umbu, todos baseados nas receitas da doceira Jovita Gonçalves. Descobriu que a fruta beneficiada vale até 50 vezes mais. "Levei 40 anos catando umbu em cima do umbuzeiro e levando para vender para o atravessador. Recebia aquele tantinho de dinheiro. Voltava para casa e não dava para comprar nem o açúcar”, conta a doceira. Os doces de umbu já estão chegando às escolas da região como reforço da merenda escolar. A novidade divide opiniões e paladares. “A tendência é o paladar deles se acostumar com os produtos", diz a nutricionista Érica Borges Gama. Para os nutricionistas, a geléia, o suco e o doce de umbu são os alimentos mais energéticos da merenda escolar na região. As informações nutricionais dizem o seguinte: cada 100 gramas da fruta contém 20 miligramas de cálcio, fósforo, ferro, 30 miligramas de vitamina A, 33 miligramas de vitamina C, além de vitamina B1. Mas qual é o benefício que isso pode trazer para a saúde? A professora Maria Spínola, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), diz que o umbu ainda é uma fruta pouco estudada, mas algumas propriedades medicinais já estão comprovadas. "O umbu possui metade de vitamina C do suco de laranja. Então, é uma contribuição como fonte de vitamina C maior do que da uva e de outros frutos", revela Maria Spínola. Das pesquisas dos cientistas, virão mais informações sobre o umbu e o próprio umbuzeiro. Uma árvore tão sagrada que para dona Jovita, madrinha dos doces, é uma redenção. "Sinto-me bem feliz com a valorização do umbu, como se tivesse subindo um pedacinho do céu", comemora. Do alto do umbuzeiro, dona Augusta já entregou seu destino. "Deus é quem sabe até quando vou subir em umbuzeiro para catar umbu”, diz a agricultora.

O MILAGRE DA BANANA.

Das águas do Açude de Cocorobó, nasceu um oásis. Um bananal de 800 hectares, que sustenta um município do Nordeste: Canudos, no norte da Bahia, sertão de Antônio Conselheiro. As canaletas que correm para irrigar a terra seca fizeram brotar bananeiras carregadas que lotam 30 caminhões toda semana. Agora, corre dinheiro na região. Curto, mas corre. Umbu, cajá, maracujá do mato, mangaba. Essas frutas nativas, o sertanejo conhece bem. Mas banana, na terra da seca, era uma realidade tão distante que para seu Manuel, durante muitos anos, isso não passava de um sonho. “A bananeira está carregada, graças a Deus", comemora o agricultor Manoel da Paixão. "Estou custeando todas as minhas despesas, não devo a ninguém. Minha família tem um certo conforto que não tive. Isso representa muita coisa para mim". Graças à banana, o agricultor João Fereira não só começou a ganhar dinheiro como investiu na profissão do filho. Josmailton Ferreira passou um tempo fora da roça estudando técnicas agrícolas e voltou para trabalhar com o pai. "Quando cheguei aqui, se plantava banana apenas de um pé. Já implementei de dois, de quatro. Aumentou a produtividade em 300%. Se não fosse a banana, no mínimo a gente estaria numa favela em São Paulo ou Salvador, num desses outros grandes centros do Brasil. Esse foi um grande projeto para nós", conta o técnico agrícola. Um grande projeto que apagou, com água, um episódio sangrento da História do Brasil. O Açude de Cocorobó inundou a Canudos de Antônio Conselheiro e seus seguidores. Parte do campo de batalha ainda pode ser vista perto do bananal, as trincheiras foram preservadas. Do alto do morro, o beato parece guardar a nova Canudos, erguida depois da guerra. E lembra um de seus conselhos: a terra é para plantar, colher, prosperar. O chão de onde brota a banana é o mesmo que dá a uva, a manga, o umbu, a maçã... É a terra do Brasil, um pomar que está ganhando o mundo.

GLOBO-REPÓRTER: CIÊNCIA E FÉ—9 DE ABRIL DE 2004.

ORAÇÃO E TRATAMENTO MÉDICO.

“Rezava todos os dias. Pensava: ‘vou ficar curada’. E aí senti uma presença forte do meu lado. Era Frei Galvão. Disso, não tive mais dúvidas‘”, revela a dona de casa Maria do Carmo Zancan. “Tinha uma situação bastante grave. Estava em uma situação de risco de vida”, lembra o oncologista Johnny Camargo. Católica praticante, sempre foi. Mas o encontro com Frei Galvão só veio depois do câncer. A devoção pelo beato, que está enterrado no Convento da Luz, em São Paulo, ajudou Maria do Carmo a enfrentar diagnóstico tão duro: tinha um tumor agressivo alojado no tórax. “Faltou voz. Na hora, é aquela expressão que a gente sempre ouve falar. Perdi a voz”, diz o engenheiro Oscir Zancan. “Chegamos na sala e ficamos quietinhos. E o barulho do relógio, sabe… Aquele barulho… Tic-tac”, conta Maria do Carmo. “Era muito forte mesmo, batendo... A gente estava em silêncio”, lembra Oscir Zancan. “Olhei para o Oscir e falei: desliga esse relógio. O relógio está ali, desligado… Não funciona”, observa Maria do Carmo. Os ponteiros estão parados desde o dia 19 de novembro de 1999. Exatamente às 10h14min. “É como se tivesse um tempo para passar, um tempo de vida”, constata Maria do Carmo. Naquele momento, Maria do Carmo decidiu que iria enfrentar a doença. Começava a etapa mais difícil: contar para a única filha o que estava acontecendo. “Muitas vezes chorava e não queria mostrar para a minha mãe o sentimento que tinha. Se ficasse triste, tinha medo de ela piorar mais ainda”, diz a estudante Cristiane Rodrigues Zancan. “Era difícil ver a sua esposa naquela situação. A perda de cabelos... Ela mudar totalmente, e você estar lá firme e achar que é e continua sendo a mais bela”, comenta Oscir Zancan. “E ele falava aquilo todo dia para mim: ‘você está linda’”, conta Maria do Carmo. A coragem, conquistou com apoio da família, mas também com muita fé e com a confiança incondicional no trabalho dos médicos. “Coloquei para ela que faria a minha parte. Faria a parte dela e o amigão lá de cima faria a parte dele”, declara o oncologista Johnny Camargo. “Tenho certeza de que, quando falou aquilo para mim, foi o maior sinal de Deus na minha vida. Tem que acreditar no médico que Deus coloca para você, em você, e Nele lá em cima”, constata Maria do Carmo. Deu certo para ela. A quimioterapia fez o tumor desaparecer. Cinco anos depois, está saudável, ajudando crianças que vão se tratar de câncer em Campinas. Mas até que ponto a fé de Maria do Carmo ajudou no tratamento? É preciso fazer uma distinção: uma coisa são as doutrinas religiosas, e aí cada um faz seu julgamento. Outra coisa é a fé. Tanto que muitos médicos começam a olhar para ela sem preconceito. O psiquiatra Alexander Moreira de Almeida coordena um núcleo, na Universidade de São Paulo, que estuda as relações entre medicina e fé. Voltou dos Estados Unidos, onde visitou os maiores centros mundiais de pesquisa sobre o assunto. “Existe uma alteração bioquímica no corpo, provocada pelo ato de rezar e orar, de entrar em estado de meditação. Isso produz algumas alterações cerebrais que, a partir daí, vão gerar um melhor funcionamento dos sistemas imunológico e hormonal, e, com isso, trazendo, de um modo geral, uma maior melhoria nas questões de saúde”, explica o psiquiatra. Funciona assim: o cérebro humano é formado por dois grandes núcleos: o sistema cortical comanda os pensamentos, enquanto o sistema límbico é responsável pelas emoções. No momento de oração, esses dois núcleos enviam comandos para o hipotálamo, e também para várias glândulas espalhadas pelo corpo. Isso aumenta a produção de hormônios, que criam uma sensação de bem-estar. “É claro que há situações, há momentos em que a religião também pode trazer malefícios. Muitos pacientes abandonam tratamentos graves, na área da psiquiatria, da oncologia, e têm seus quadros muito agravados, por crenças de que a fé em Deus geraria a cura e que se ele se tratasse com os médicos estariam desacreditando do poder de Deus”, observa Alexander Moreira de Almeida.

APENAS FÉ NÃO RESOLVE.

No caso de Vera Beber, a fé teve um papel no mínimo controverso. Mostra os exames: em 1998, Vera retirou um tumor da membrana que reveste o cérebro. Em 2000, o câncer reapareceu. Os médicos recomendaram remédios para prevenir convulsões e dores. Vera preferiu outro caminho. “Não tomo medicação nenhuma. Só recebo Johrei, ministro Johrei, dedico-me à obra de Deus”, conta. A adesão de Vera ao Johrei é total. Trata-se de uma técnica usada pelos adeptos da Igreja Messiânica, que surgiu no Japão, há 70 anos. Acreditam que, pela imposição das mãos, seja possível canalizar ondas de luz que têm força curativa. Os líderes da igreja acham que Vera deveria também fazer o tratamento médico. Mas ela não se convence. “Conforme recebia o Johrei, as dores passaram. Não tive mais tontura, porque no começo tinha muita dor de cabeça. O tumor não pode avançar porque tenho Johrei. Posso até fazer os exames, mas tenho certeza de que até acabou. Com todas as minhas dedicações, esse tumor não existe mais”, revela. Infelizmente, o tumor continua lá. A equipe do Globo Repórter levou Vera para fazer um novo exame. Olhando a imagem, o médico - que cuidou dela quatro anos atrás – não tem dúvidas: o tumor está presente. “Sinto-me ótima, maravilhosa. Isso está me mostrando que o Johrei funciona. Porque se não funcionasse, estaria – e se ele aumentou - com mais dor de cabeça, com mais tontura, e poderia estar convulsionando”, constata Vera. O médico não soube explicar o que aconteceu. “Pelo que conheço de outros casos, as convulsões normalmente reapareceriam e as dores, acho que voltariam. Precisava, precisa dos remédios. Mas o que a gente pode fazer? Não tem explicação. Tem que tomar o remédio. A gente tem que indicar, o tratamento é esse”, observa o neurocirurgião Gilberto Ferreira de Paiva. “Fé não é remédio. Quer dizer, se um estudo americano mostra que ir à igreja pode melhorar o quadro da sua saúde, não pode prescrever para um paciente que está com pneumonia, digamos, antibiótico e ir à igreja”, adverte o oncologista Sérgio Simon. O oncologista Sérgio Simon trata todos os dias de casos graves, como o da mulher de Roberto Carlos. Nem a competência do médico, nem a fé do rei e de Maria Rita foram capazes de salvá-la. O doutor Simon é cauteloso ao falar de religião, mas reconhece um papel para ela. “Por que uma pessoa jovem, com filhos pequenos, vai ter que morrer daqui a seis meses? A religião dá um sentido. Quem não tem religião fica perdido, realmente”, declara.

O MILAGRE DE NORTON NASCIMENTO.

O ator Norton Nascimento se encontrou na fé evangélica. A conversão aconteceu apenas três meses antes de o ator enfrentar o momento mais difícil na vida dele. Hoje, Norton curte a popularidade nas ruas. Por onde passa, aproveita para pregar a palavra de Deus. Mas os fãs querem é ouvir como ele sobreviveu ao transplante de coração, em situação tão adversa. No dia 15 de dezembro, Norton se internou para uma cirurgia cardíaca. O caso se complicou. Precisava de um transplante. O coração chegou quando a vida de Norton estava por um fio. Foi doado pela família do médico Ricardo de Oliveira, morto em um acidente de carro. “Foi um milagre, porque não tinha nenhuma possibilidade de vida”, acredita o ator. Milagre mesmo talvez tenha acontecido um pouco antes, quando ele passou a freqüentar os cultos evangélicos. Largou o cigarro e fez o que parecia impossível: abandonou o álcool. Tudo por insistência da mulher Kelly. Quando o ator foi parar na UTI à espera do transplante, ela permanecia ali em vigília, orando pelo marido. “O ritmo cardíaco e a pressão dele aumentavam muito. É como se tentasse reagir a uma coisa que não podia, porque estava totalmente sedado. Mas, pela aparelhagem, via que estava sentindo as vibrações dela como se tivesse acordado e sentido aquilo”, lembra a técnica de saúde Rosangela Xavier. A reação não aconteceria sem o conhecimento técnico da equipe, comandada pelo doutor José Pedro. “É difícil de acontecer, mas pode ocorrer, por várias coincidências. Primeiro: achar um doador grande, do tamanho do Norton; e achar rapidamente um paciente do mesmo tipo sangüíneo. Depois, o fato de toda a cirurgia dar certo, de não ter nenhuma complicação, nem rejeição. Então houve vários fatores favoráveis. Isso pode acontecer, explicado apenas pela ciência”, acrescenta o cirurgião cardíaco José Pedro da Silva. “Como cristão, não acredito em coincidências. Não creio que fui parar nesse hospital à toa, com essas pessoas à toa. Não acredito que o Ricardo tenha morrido em vão. Inclusive o pai do Ricardo disse, em uma entrevista, na Ana Maria Braga: ‘esse coração não é do meu filho, Norton. Esse coração é seu, porque a gente não leva nada’. Porque, se fosse assim, o Ricardo teria levado o carro dele, o apartamento, mas não levou nada. O Ricardo salvou seis vidas”, emociona-se Norton Nascimento. Norton diz que foi milagre, mas, os médicos, que foi apenas um caso em que medicina e fé trabalharam juntas. A vitória do ator virou um emblema: as doações de órgãos se multiplicaram nos últimos meses. Norton afia o discurso para se transformar em pastor. “Quando orei, falei assim: meu Pai, me dá um coração novo para voltar e pregar sua palavra”, revela Norton Nascimento.

RECUPERAÇÃO NA TERCEIRA IDADE.

Um carinho especial pela vida que brota do cimento. Lúcida, aos 88 anos, a aposentada Carmen Gonçalves é uma sobrevivente. Enfrentou com energia o tumor maligno que apareceu no abdômen. “Mais ou menos seria um tumorzinho, mas aí começou a crescer e ficou grande”, conta. O caso foi parar nas mãos do doutor Ivan Sandoval. Tinha que tomar a difícil decisão: levar a paciente com quase 90 anos para a mesa de cirurgia. “Dona Carmem era uma pessoa já de idade, portadora de um tumor abdominal, de origem ainda indeterminada, de um volume já considerável. Então, era um caso preocupante”, observa o cirurgião Ivan Sandoval Vasconcellos. “Quando o médico chegou e disse que era um tumor, um câncer, entreguei-me na mão de Deus. Seja lá o que Deus quiser. Falei para minha filha: se morrer, todos temos que morrer. Não tive medo, juro”, lembra dona Carmem. “O medo, na verdade, acaba deprimindo o indivíduo, e a depressão, que é séria na vida do paciente com doenças como o câncer, que é tão grave, piora o quadro”, constata o médico Jorge Teixeira. Quem diz isso é um médico que passou três meses entrevistando idosos durante o tratamento de câncer, no Hospital do Servidor Público de São Paulo. A pesquisa, que virou tese de doutorado na USP, avaliou a importância da fé na recuperação dos pacientes. “Deus estando comigo e mais a equipe médica me ajudando e me amparando, consigo andar mais do que meu vizinho, que acredita só na fé, ou acredita só no tratamento médico”, explica Jorge Teixeira. A cirurgia de dona Carmem foi um sucesso. Prevista para durar oito horas, terminou em duas. E a recuperação também foi rápida. “Para mim, foi um milagre mesmo, com a graça de Deus. Acho que depois de Deus, os médicos, ? Mas os médicos ficaram um pouquinho impressionados”, declara dona Carmem. “Já no momento da cirurgia, a gente pôde observar que esse tumor estava livre de aderências, não comprometia nenhuma estrutura, então saiu com facilidade. Isso é incomum. Pelo tamanho do tumor, é incomum que ele saísse com tanta facilidade. E por essa razão ela diz que foi um milagre. Digo que foi uma situação incomum”, explica Ivan Sandoval Vasconcellos. Além de respeitar a fé da paciente, o médico usou isso como uma ferramenta a mais contra a doença. Essa parceria nem sempre acontece. “O profissional da área de saúde tende a ver, muitas vezes, a religião como um inimigo, algo que vai atrapalhar seu próprio tratamento. É esse tipo de conflito que precisa ser sanado. Já que todos nós, na área de saúde, e os religiosos querem apenas uma coisa: o bem-estar do paciente”, garante o psiquiatra Alexander Moreita de Almeida.

TECNOLOGIA A SERVIÇO DA RELIGIÃO.

Um caso clássico é o das Testemunhas de Jeová. Todo mundo sabe que não aceitam cirurgia com transfusão de sangue, por uma interpretação do que está na Bíblia. A equipe do Globo Repórter pretendia mostrar isso no programa, como um exemplo de fé que atrapalha o tratamento de saúde... Mas será que é simples assim? Nos Estados Unidos - e também no Brasil - muitos médicos têm uma visão diferente: aceitam os limites impostos pela religião e vão buscar técnicas alternativas para evitar transfusões. Essa visão nova permitiu à Gabriela reconquistar a energia, que agora esbanja nas brincadeiras. “Era uma criança de lábios e unhas bem roxinhos. Uma aparência sempre abatida”, conta Ruth, mãe de Gabriela. A menina nasceu com um problema sério no coração e precisava de, pelo menos, duas cirurgias - uma delas antes de completar um ano. O problema: a mãe é Testemunha de Jeová. “Não faria transfusão de sangue de jeito nenhum. Primeiro porque ajo de encontro com meus princípios. Em segundo lugar, existem riscos de outras doenças com a transfusão. Tinha certeza de que encontraria uma equipe disposta a operar Gabriela”, afirma a dona de casa Ruth de Camargo. E encontrou! Na cirurgia de Gabriela foi usada uma máquina que permite reaproveitar o sangue do próprio paciente. “É o aparelho que faz a função do coração e dos pulmões durante a cirurgia cardíaca”, explica o cirurgião cardíaco Walter Gomes. É um recurso a mais, que pode ser posto a serviço das Testemunhas de Jeová. O doutor Walter é professor da Universidade Federal de São Paulo e há três anos utiliza outras técnicas que possibilitam cirurgias delicadas, sem transfusão de sangue. Começou a fazer isso a pedido dos religiosos. “O tratamento dos pacientes Testemunhas de Jeová ajudava a beneficiar outros pacientes, porque, com essa experiência, estamos evitando a transfusão sangüínea em outros pacientes, e, conseqüentemente minimizando riscos”, declara Walter Gomes. O primeiro passo é acabar com os sangramentos desnecessários. Isso é possível com o bisturi elétrico, que cauteriza, ao mesmo tempo em que corta. Outra técnica é dar para o paciente, antes da cirurgia, um hormônio que estimula a produção de glóbulos vermelhos. É uma forma de combater anemias. “Mesmo se tiver uma perda durante a cirurgia, já está preparado para recuperar. O paciente vai para a cirurgia com uma quantidade maior de sangue, fabricado por ele mesmo”, observa o cirurgião Walter Gomes. Gabriela foi operada por outra equipe, comandada pela doutora Luciana da Fonseca - que segue a mesma linha. “É uma satisfação muito grande, porque, na verdade, cumpri o meu objetivo, que foi agradar e respeitar um direito do paciente”, constata a cirurgia cardíaca. Quando se encontra o equilíbrio entre medicina e fé, quem ganha é o paciente. “Agora estou correndo, brincando, pulando...”, diz Gabriela. “Se houver algum acontecimento catastrófico em que o paciente realmente precise de transfusão de sangue vai ser um dilema de consciência. O paciente religioso pede para não tomar a transfusão e espero nunca ter que passar por essa decisão”, comenta Walter Gomes.

FÉ, PARCEIRA DA SAÚDE.

Enfrentar as ladeiras, sob o sol quente do Ceará, não assusta essa mulher. Dona Augusta vem de uma longa caminhada. Em Maranguape, é figura respeitada pelos adultos e adorada pelas crianças. Quase todas já passaram pelas mãos dessa viúva de 72 anos, que aprendeu há mais de meio século com a mãe o ofício de rezadeira. “Sinto emoção quando estou rezando. Ontem foi um dos dias. A criança chegou bem doente. Aí disse: ‘minha filha sabe o que é? É gripe. Começou agora, a garganta dela inflamada e com dor de ouvido’. Porque pressinto na oração. Antes, não sabia, mas quando começo a oração, sinto. Não preciso nem examinar”, explica a rezadeira Augusta de Lima. A placa na parede é uma espécie de selo de qualidade. Como em tantas partes do Brasil, em Maranguape as rezadeiras são uma instituição. Existe uma rezadeira para cada 108 crianças com menos de 10 anos. “Não tenho idéia de quantas crianças já passaram aqui. Tem dia que meu braço só falta de não arribar de cansada de rezar. É muita gente”, constata a rezadeira Dona Paizinha. Será que funciona? Será que não seria melhor levar a criança para o médico? Em Maranguape, fizeram diferente: levaram as rezadeiras para o posto de saúde. Dona Paizinha tem uma sala só para ela. Não ganha nada para dar expediente dentro do posto. A saúde é que ganhou a fé como parceira. Muitas mães passaram a visitar o posto para ver a rezadeira e depois passam também pelo médico. “Trago para o médico e para a rezadeira, porque sempre que venho para o médico, passo na rezadeira, depois vou para o médico. Só o médico não resolve tudo, porque questão assim de mau olhado, por exemplo, o médico não resolve. Aí, sendo a reza, acho que resolve.”, conta Raquel Alves. Se tira o mau olhado, não se sabe. Mas que acalma, isso está na cara do pequeno Jefferson! Depois do treinamento recebido da Secretaria de Saúde, as rezadeiras agora aproveitam a autoridade com as mães para ensinar a receita do soro caseiro. “É reza, mas também precisa do remédio, precisa da médica também. Do médico, se for preciso. Porque não é só a reza que cura, não”, garante Dona Paizinha. A idéia de fazer da cultura popular uma aliada nos programas de saúde partiu dessa professora da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ela mora no Ceará há 15 anos e foi lá que fez a pesquisa, mostrando que as rezadeiras podem formar a linha de frente em favor da vida. “O soro, quando vem desse jeito, é melhor do que quando vem só pela mão do médico. Não tenho dúvida disso. Quando pega aquele sal, água e açúcar - que é o soro caseiro - abençoado pela rezadeira, vira água benta. Aí vem o poder da cura, a fé. É alguém em quem ela acredita”, observa Marilyn Nations. “Tenho 28 anos de médica. A melhor experiência para recuperar as crianças desidratadas é essa: a rezadeira dentro do posto de saúde”, diz a médica do posto de saúde, Antônia Sampaio. Em Maranguape, foram cadastradas 188 rezadeiras. A mortalidade infantil, que era de 30 para cada mil crianças nascidas vivas, em 1999, caiu para 13 no ano passado. “Na nossa área aqui - falo com muita segurança - não temos nenhuma morte por desidratação. Em 2003, nenhuma. Em 2000, 2001, 2003, nenhuma, zero. É o melhor zero que pode receber”, garante Antônia.

FOME: MÃE DE TODAS AS DOENÇAS.

Em muitas regiões do Brasil, o grande inimigo da saúde ainda é a fome. Em Eunápolis, no sul da Bahia, a fome é a mãe de todas as doenças. Medicina e fé juntas estão ajudando a salvar crianças desnutridas. Uma freira reuniu conhecimento científico e terapias alternativas e está conseguindo resultados surpreendentes. Tão surpreendentes que, às vezes, os pais nem reconhecem quando os filhos voltam para casa completamente recuperados. “Meu filho Mateus estava bastante magrinho. Pensava em perdê-lo. Agora está bem, recuperado, graças a Deus”, conta a dona de casa Maria da Silva. Graças também a um trabalho bem feito. Em um bairro de ruas de terra, onde há pouco emprego e muita fome, a casa comandada por Irmã Therezinha é um refugio. Além de oferecer comida, era preciso vencer outros problemas. “Mateus era uma criança muito nervosa. Não tinha sossego, não dormia direito, acordava mais de dez vezes durante a noite. Melhorou bastante. Começou a andar, a desenvolver a fala e dorme a noite toda”, revela a coordenadora da casa de nutrição, Irmã Therezinha. Todos os meses chegam outros. São impressionantes as conseqüências visíveis da miséria. A equipe da Irmã Therezinha oferece o carinho que alimenta, e a comida - que também enche os olhos. A vida volta a ter o sabor que toda criança merece. Os que agora se lambuzam na mesa, também chegaram desnutridos alguns meses atrás. “Dar comida só não adiante. Tem que ter o amor, a dedicação, a fé no que se está fazendo. Como médico, acredito que a fé é fundamental para a gente cuidar de tudo na vida. Se não tivesse fé que ia curar uma criança dessas, ou a irmã não tivesse fé que ia recuperar, não teria nem sentido ela estar fazendo isso”, observa o pediatra Rivamar Marques. A fé sem preconceitos de Irmã Therezinha foi buscar outros alimentos. A freira católica trouxe um terapeuta holístico para dentro da casa. Além de massagem, Carlos Cruz usa técnicas como a radiestesia e o reiki para dar energia às crianças. “A gente nunca deixa suspender o tratamento médico, mas é preciso a reposição energética, ou então a vibração palmar, que é o reiki, como a gente está fazendo”, constata o terapeuta holístico Carlos Cruz. “No começo a gente fica um pouco chocada, mas agora a gente está se acostumando. Acho que uma coisa complementa a outra”, declara Irmã Therezinha. Foi assim que Matheus ganhou peso e recuperou o ânimo. A equipe do Globo Repórter acompanhou os dois últimos dias dele sob os cuidados da Irmã Therezinha. Fica bonito para o esperado reencontro com a mãe. Para quem pesava quatro, agora são nove quilos. A despedida de Matheus é a despedida de um pequeno brasileiro que passou fome e não teria chance nenhuma se não fosse a fé. Pode ser em Deus, na ciência... Mas é, antes de tudo, fé na vida!

REAÇÕES CEREBRAIS.

Velas acesas para Buda, o som puro do metal. É assim que Sophie entra no mundo da meditação. Sofre de esclerose múltipla há 20 anos e estava condenada a viver em uma cadeira de rodas. Mas, com a ajuda da meditação budista, leva uma vida normal. "Quando medito, consigo aliviar os sintomas da doença", diz. O que será que acontece no cérebro de quem medita? Será apenas uma fantasia, uma ilusão? Os budistas descrevem um estado de êxtase, a que chamam nirvana - muito semelhante à união mística com Deus, descrita por freiras e monges cristãos. Na Universidade da Pensilvânia, o cientista Andrew Newberg colocou monges budistas e freiras católicas em uma máquina e fez uma tomografia do cérebro deles. Descobriu que no momento mais profundo da meditação, ou da oração, os cérebros de budistas e de católicos têm a mesma atividade elétrica, característica da experiência espiritual. “O cérebro humano tem a capacidade inata de experimentar a presença de Deus ou de algo que pode ser descrito como puro espírito”, afirma o cientista. Quando a pessoa se concentra para meditar ou rezar, a parte da frente do cérebro – que fica atrás da testa – se torna muito ativa. É a área da consciência, da atenção. Dali saem impulsos que ativam o centro do cérebro, que comandam as reações involuntárias, inconscientes. Em seguida, são ativadas as áreas responsáveis pela visão. E é desativada a região posterior do cérebro que responde pela orientação espacial. A pessoa tem a visão de um mundo sobrenatural e a sensação de perda de limites. O “eu” se confunde com o universo. É a experiência de uma realidade espiritual superior, descrita pelos místicos. Ao mesmo tempo, sinais são enviados para o corpo para acalmar todo o sistema nervoso e criar uma sensação intensa de prazer. Tudo isso acontece nos dois lados do cérebro. Andrew Newberg é um dos pioneiros da neuroteologia - a ciência que estuda como o cérebro experimenta Deus. Essa nova ciência prova o poder da mente sobre o corpo e explica por que a fé pode curar, ou pelo menos ajudar a medicina. O médico Harold Koening é o autor de dezenas de pesquisas sobre fé e medicina, financiadas pelo governo americano. Todas mostram que as pessoas religiosas são mais saudáveis e vivem mais do que as outras. Segundo o médico, nos Estados Unidos uma pessoa branca que assiste a pelo menos um serviço religioso por semana, vive sete anos mais do que quem não é religioso. Se for negro, vive mais 14 anos. Uma das razões da longevidade é o apoio da comunidade religiosa. Outra: pessoas que têm fé levam uma vida mais regrada e saudável. “As pesquisas também mostram que a fé reforça o sistema imunológico e a resistência às doenças”, observa Harold Koening. Está crescendo o número de escolas de medicina que aderem à pregação do doutor Koening. Uma delas é a Johns Hopkins, ligada ao hospital do mesmo nome, onde os alunos são treinados para usar a fé no tratamento médico. O hospital é considerado o melhor dos Estados Unidos e é um dos centros médicos mais avançados do mundo. Mas para muitos pacientes e médicos o coração do hospital fica em uma imagem de Cristo colocada, há mais de 100 anos, na entrada do hospital. Muitos passam para rezar, pedir, agradecer e meditar. Até quem não é cristão se diz reconfortado. O capelão do hospital, o pastor Steven Mann, guarda os livros onde as pessoas deixam mensagens. São mais de três mil páginas por mês, na maioria agradecendo pelo conforto que a fé traz aos doentes. Há dez anos, o hospital foi o primeiro nos Estados Unidos a incluir a espiritualidade no ensino da medicina. Segundo a médica Jeanne Mccauley, o uso da fé no tratamento é uma exigência dos próprios pacientes. Ela já dirigiu dois vídeos para treinar médicos, mostrando como eles podem ajudar os doentes a procurar apoio na religião. Em um deles, aparece a história de Joni, uma tetraplégica que entrou no hospital de maca e viu a imagem de Cristo na entrada. "Senti então que Deus me ama. A partir daí, passei a aceitar a invalidez, e hoje sou uma pessoa inteira", conta. A fé pode não vencer a doença. Mas, segundo a budista Sophie, é preciso acreditar em uma força superior, seja Deus, Buda, ou o que for, mas algo que está dentro da gente. O poder da fé está em você!

MAIS FÉ, MENOS ESTRESSE.

Equipes para comandar. Números, metas a cumprir. Mulheres apaixonadas pelo trabalho, mas atormentadas por tanta responsabilidade. “É imprevisível imaginar o que vai ser seu dia amanhã. O máximo que consegue é colocar na sua agenda o que precisa fazer”, constata a executiva Samia Hannouche. “É muita pressão por resultado. É cobrado diariamente, então não pode perder tempo”, observa a executiva Isabel Araújo. Samia, que é solteira e sem filhos, consegue administrar o tempo para que duas noites por semana fiquem livres. É quando atravessa a cidade para participar das sessões espíritas, que, segundo ela, ajudam a aliviar o estresse. “Dá um equilíbrio, porque acredito que não estamos aqui na terra, ou na vida, só para produzir bens materiais ou riquezas para o mundo”, diz. Casada, uma filha, às 6h Isabel gerencia o dia da família. Católica de formação, namora várias religiões, mas não pratica nenhuma. Quando parte para a jornada de 14h, deixa de lado uma parte da vida, que, para ela, faz falta. “A gente corre atrás do material o tempo todo, do profissional, só que na hora do desespero, sente falta desse espiritual, que abandonou em algum momento da sua vida”, revela. Elas ainda são minoria no mundo dos negócios. E, quando chegam lá, costumam ser mais estressadas do que eles. Uma pesquisa com 1,5 mil executivos mostrou que aqueles que praticam uma religião - e aí tanto faz homem ou mulher - lidam melhor com o estresse. “Ambos têm níveis de estresse alto, porém faz uma grande diferença se a pessoa tem uma religião e a pratica, ou não - exatamente por causa do efeito que a fé, o ritual religioso exerce sobre a mente, sobre o estado emocional, sobre o estado psicológico do indivíduo. E, em conseqüência, também sobre o estado orgânico”, explica o psicólogo Esdras de Vasconcelos. Parece que é um líder religioso. Mas o doutor Esdras fala com a autoridade de quem reuniu os números da pesquisa em um livro ainda inédito. As entrevistas foram conduzidas por um grupo de psicólogas. “As pessoas estão se vinculando a uma religião para fazer um enfrentamento do seu estresse. Tanto é que as religiões estão crescendo, mundialmente cada vez surgem mais religiões”, declara a psicóloga e pesquisadora Samia Simurro. Para Isabel, a falta de uma religião acabou virando uma fonte a mais de estresse. Sente-se culpada. “Na hora do desespero, você fala: ‘pôxa, como é que vou pedir ajuda agora a Deus? Não estou dando nada em troca’. Então tem isso também de só pedir, pedir, nunca agradecer. Realmente cria um conflito”, comenta. “Ter fé é vital. A religiosa é aquela que mais conhecemos, portanto, a que mais pratica. Mas é importante que tenhamos fé em nós próprios também, e fé no outro. Enfim, precisamos ter sempre fé”, conclui Esdras de Vasconcelos.

GLOBO-REPÓRTER: TERAPIAS ALTERNATIVAS—25 DE JUNHO DE 2004.

O PODER DA ASTROLOGIA.

Entre o Céu e a Terra há muito mais do que um imenso vazio. Ao redor de milhões de galáxias, suspeita-se, um mundo infinito e secreto exerce poderes sobre a Humanidade. A energia que equilibra o corpo e harmoniza a mente vem do Universo? Estaria dentro de nós mesmos o remédio para as doenças? A ciência ocidental, que torcia o nariz para esses assuntos, começa a descobrir de que maneira esses fenômenos podem nos ajudar. A começar pela astrologia. Qual seria a influência cósmica sobre nós, os terrestres? São 12 os signos do Zodíaco e todos têm características marcantes. Coragem e iniciativa são qualidades atribuídas a quem nasce sob a influência de Marte, que governa Áries. O libriano tem o dom do equilíbrio, da harmonia. É o signo do ar, dominado por Vênus. Urano governa Aquário e impõe a liberdade, a vanguarda. Netuno teria dado aos piscianos a intuição, a sensibilidade. E os nossos limites? Bom, isso é com Saturno, que tem fama de durão. De acordo com os astrólogos, os astros e os planetas têm o poder de nos guiar. E tudo depende da posição do Sol na hora exata do nascimento. Mas estaria mesmo o destino de nossas vidas escrito nas estrelas? "Existem indícios bem fortes e claros de que a posição dos planetas e dos astros, na hora do nascimento, influencia mesmo. Dá para tirar conclusões quanto à personalidade da pessoa", diz o coordenador da pesquisa, Paulo Celso Gomes. Paulo Celso vivia desconfiando das previsões astrológicas. Mas, depois que coordenou uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), o professor passou a acreditar na influência dos astros. "De todas as afirmações dos pesquisados que participaram, de 0 a 100, a nota média final foi 95", conta o pesquisador. Sem saber os nomes e sem conhecer as pessoas. Foi assim que o astrólogo Francisco Seabra fez os mapas astrológicos dos cem voluntários da pesquisa. Data, local e hora exata do nascimento foram as únicas informações que os pesquisadores passaram para o astrólogo. O professor Flamínio Levy foi um dos pesquisados. O Globo Repórter convidou o astrólogo Francisco Seabra para rever o trabalho que fez há pouco mais de um ano. Não se conheciam na época e, pela primeira vez, conversaram sobre esse assunto. “O índice de acerto foi muito grande, em torno de 96%. Um espanto”, ressalta o professor. É como se o astrólogo tivesse feito uma leitura antecipada de tudo o que aconteceu com ele naquele período. "Fiz duas afirmações. A primeira: do seu último aniversário para cá sofreu algum acidente ou teve alguma notícia desagradável vinda de lugar distante. A segunda: emocionalmente, está abatido por questões de trabalho, irmãos, parentes ou viagem. Gostaria de saber o que ocorreu naquela época?”, pergunta o astrólogo. “Tinha um irmão que residia em São José dos Campos e trabalhava no projeto VLS, o foguete brasileiro. Participou da campanha de Alcântara e foi um dos 21 que faleceram no acidente da plataforma”, revela o professor que participou da pesquisa. Mário César Levy, o irmão do professor Flamínio, operava o sistema de balanceamento dinâmico do VLS, o Veículo Lançador de Satélite. Estava entre os 21 técnicos que morreram na Base de Alcântara, no Maranhão, em agosto do ano passado. "Não sabia exatamente que o acidente era com o irmão dele. Sabia que existia possibilidade do acidente, com ele ou envolvendo seus irmãos", comenta o astrólogo. Outra particularidade: não parece, mas o astrólogo também descobriu que o professor é também um atleta. A psicóloga que entrevistou os voluntários da pesquisa chegou a duvidar. "Pensei: será? Quando acabou de pontuar, só de curiosidade, perguntei qual a luta marcial que praticava. Falou que era faixa preta em caratê", lembra a psicóloga Rosane Gama, da UnB. "Já fui corredor, faixa preta de caratê, recordista de marcha atlética quando estava na universidade. Essa previsão me deixou de queixo caído", diz o professor Flamínio. A vida profissional do músico Kiko Peres também foi vista com antecedência pelo astrólogo Francisco. O guitarrista estava desempregado quando resolveu consultar as previsões dos astros, em 1995. "Deu uma olhada nos meus trânsitos futuros, ano a ano. O ano de 1996 estava bom; 1997 também. Mas o ano de 1998, em especial, seria de muito sucesso", conta o músico. Não deu outra. Em 1998, Kiko era o guitarrista da banda Nativus, o reggae de Brasília que fez sucesso Brasil afora. "A gente chegou a fazer mais de 200 shows naquele ano, viajamos o Brasil inteiro e ganhamos disco de ouro, por 100 mil cópias vendidas, no programa da Xuxa. O ano não poderia ter sido melhor”, avalia Kiko. Para o astrólogo Francisco, os astros são uma espécie de guia da família. Consulta o mapa até para acompanhar os passos das filhas. "Olho o mapa astrológico antes. Se tem um aspecto positivo para uma festa, eu deixo ela sair e me despreocupo totalmente. Se for o contrário, não permito", diz Francisco. Najla tem 16 anos. Mas é Raíssa, de 10, o esteio da casa. A pequena leonina cuida até do dinheiro do pai. "Controla a economia familiar e tira a gente do buraco. O meu mapa astrológico aponta dificuldade em dinheiro e o da Najla também. A gente nunca tem dinheiro e ela sempre tem, porque é organizada”, conta o astrólogo. “Sou uma fortaleza, bonita e poderosa", gaba-se a menina.

TESTE DO MAPA ASTRAL.

Bonita e poderosa. Seria este o perfil da engenheira química Débora Tanayami. Em São Paulo, procurou a astróloga Vicky D'Orey para uma consulta. Queria tirar dúvidas do presente e saber que futuro os astros lhe reservaram. O mapa revela até uma situação que Débora está vivendo no momento. Um desejo, que segundo os astros, está perto de conquistar. “Neste momento, moradia é um assunto extremamente marcante, que vai ter que resolver. Como Saturno está na casa do dinheiro grande, vai ter que fazer um esforço para lidar com o assunto de imóvel”, anuncia a astróloga. "O mapa acertou. Isso me impressionou bastante”, comenta a engenheira. A astrologia teria mesmo o poder de enxergar os problemas, a personalidade e até nossa identidade? O Globo Repórter fez um teste. Foram anotados em um papel a data e a hora do nascimento de uma pessoa conhecida. O programa pediu para que a astróloga Vicky fizesse o mapa astral de uma pessoa para ver se as previsões iam bater. Uma semana depois, Vicky entregou o mapa e, mesmo sem saber o nome, falou do personagem. “É um supertaurino, com seis planetas em Touro”, diz a astróloga. Seria isso mesmo? Só ele poderia confirmar. A interpretação do mapa astrológico foi apresentada ao nosso personagem. “Vejo que é um cidadão de visibilidade, porque tem o meio do Céu em Leão, que é o signo dos reis, dos que comandam o espetáculo, dos que aparecem, como os atores de teatro”, continua Vicky. Mais uma descoberta. “É uma pessoa muito ligada a mato, terra, natureza”, diz a astróloga. Seria um fazendeiro? “Sou um camarada da terra, da montanha, da floresta e dos animais”, confirma o personagem. “Há grandes cozinheiros do signo de Touro”, ressalta Vicky. “Cozinheiro? Se me dedicasse, acho que seria um bom cozinheiro, mas minha especialidade é lavar a louça. Tenho uma técnica incrível”, diz o personagem. Até alguns segredos descobriu: “Ele é muito passional, controlador e ciumento”. “Em alguns momentos, sou bastante ciumento sim”, admite o apresentador do Globo Repórter, Sérgio Chapelin, o personagem do teste. “Acho que o índice de acerto é de 85%”, avalia. Se os movimentos do Sol, da Lua e de todos os outros astros determinam o destino do homem, isso a ciência ainda duvida. Mas para os pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), astrologia é um assunto que merece mais estudos. "Os resultados podem ser conclusivos ou não. Mas volto a afirmar: não validam nem invalidam a astrologia. Mostram que vale a pena pesquisar e dar um tratamento racional, científico à astrologia", constata o coordenador da pesquisa, Paulo Celso Gomes.

AGULHAS QUE ELIMINAM DORES.

Agulhas finíssimas como instrumentos de cura. A técnica, usada pela medicina chinesa há 5 mil anos, está sendo estudada por especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em um laboratório, a médica Ângela Tabosa tenta descobrir se a acupuntura também pode ajudar nos tratamentos das chamadas doenças modernas. O estresse, por exemplo, o pânico e a depressão. Por enquanto, a experiência é feita com ratos. O animal leva 60 agulhadas pelo corpo, em pontos específicos, que supostamente alteram o comportamento. "Esse trabalho científico visa demonstrar se esses pontos podem melhorar a memória, o aprendizado, e diminuir o grau de comportamento, que seria semelhante ao comportamento depressivo do animal", explica a médica. A doutora Ângela testa os efeitos das agulhadas. A grade de metal no fundo de uma caixa recebe uma descarga elétrica fraca, mas suficiente para irritar o rato. Três segundos depois, a luz acende e ele começa a levar choques. O objetivo é saber se o tratamento com acupuntura consegue ativar a memória. O animal pode se livrar dos choques se descobrir a saída. Em um dos lados da caixa não há eletricidade. "Em cerca de 57% das vezes em que foram submetidos aos choques, os animais conseguiram fugir. Enquanto que nos animais estressados que se submeteram à acupuntura essa capacidade de fuga foi aumentada, chegando a 88% das vezes”, revela a pesquisadora. Pacientes que seriam atendidos em uma emergência tradicional estão na fila de espera do Hospital São Paulo, da Unifesp. Aparentemente, nada estranho. A grande novidade é o método do tratamento. Este é o primeiro pronto-socorro do Ocidente que funciona apenas com acupuntura. A dona de casa Maria Gomes de Freitas chegou tão aflita que foi atendida no corredor. "Está em crise de asma. Estou colocando uma agulha para pelo menos aliviar a crise", anuncia a médica Márcia Yamamura. “Cheguei aqui muito cansada, agora já aliviou um pouco", conta a dona de casa, depois de ser atendida. Parece um milagre, dizem alguns pacientes. É como se o médico retirasse a dor com as mãos. "Quando cheguei, estava com muita dor. Não conseguia sequer pentear o cabelo. Agora já consigo movimentar o braço, não está doendo", afirma a dona de casa Ana Lúcia da Paixão. "Em princípio, essas agulhas aliviam qualquer dor, seja funcional ou energética. Só não aliviam dores vindas de algum processo que vai necessitar de intervenção cirúrgica", diz doutora Márcia. De acordo com os especialistas, cerca de 2,5 mil pontos energéticos estão espalhados pelo nosso corpo. Mas apenas 66 são os mais utilizados nos tratamentos. Para a dona de casa Maria do Carmo Freitas, a acupuntura é a esperança da cura. "As agulhas doem um pouco. As dores que sinto vão do quadril até o joelho. Antes eram fortes, agora estou melhorando", conta a paciente. Alguns tratamentos com acupuntura já são reconhecidos pela medicina. Mas os pesquisadores estão otimistas quanto ao futuro da técnica. "As pesquisas apontam o que os chineses falavam há 5 mil anos: a acupuntura tem efeito – curativo e preventivo", diz o médico Ysao Yamamura.

ENERGIA MENTAL.

Outra alternativa, também inspirada na medicina chinesa, está sendo estudada no Hospital São Paulo, da Unifesp. Tendinite, enxaqueca, doenças crônicas, como crise de asma, obesidade e até vitiligo. Os pesquisadores acreditam que a cura dessas doenças, de forma rápida e sem medicamento, é possível. Ainda estão estudando, mas já encontraram várias evidências. O tratamento tem um nome estranho: Qi Mental. "O termo Qi significa energia em chinês. Mobilizamos a energia mental, da mente do paciente, para o tratamento da doença", explica a médica Márcia Yamamura. Segundo os especialistas, a origem de quase todas as doenças está no emocional das pessoas. O médico induz o paciente a buscar na memória, no subconsciente, lembranças do passado, de acontecimentos ruins. É assim que a dona de casa Lindalva da Silva Navarro vem tratando uma doença que contraiu há nove anos, o vitiligo. "Tinha o rosto todo atingido pelo vitiligo", conta a paciente. Vivia se escondendo das pessoas e até do espelho. Sentia-se rejeitada. "Não admitia nem que meu marido me acariciasse. Achava que era porque estava com dó e pedia para que me deixasse em paz”, lembra Lindalva. "Esse caso é muito interessante porque ela relaciona cada mancha a um acontecimento do seu passado", diz a médica. Quanto mais Lindalva sofria, mais manchas apareciam em seu corpo. "O tratamento consiste em falar para o paciente resolver esse conflito emocional, dar a ele o desfecho que gostaria de ter dado e não pôde por vários motivos. O importante é trocar a emoção ruim pela emoção boa", diz a médica. Funcionou como um remédio eficaz. Lindalva seguiu direitinho a orientação da médica e as manchas foram sumindo. "Em 21 dias o vitiligo desapareceu do meu rosto completamente", garante ela. Hoje, o médico João Yokoda cuida de seus pacientes com a mesma técnica que lhe curou: o Qi Mental. Como três senhoras, também sofria de obesidade. Em outubro de 2000, o médico pesava 108,3 quilos. Dois meses depois, em dezembro de 2000, já estava com 89,5 quilos. Perdeu quase 20,5 quilos em pouco tempo. “Esse foi o primeiro experimento do Qi Mental em mim mesmo", diz ele. Marly, Cláudia e Suely. Cláudia, a mais magrinha, tinha 120 quilos. "Já sinto diferença. Estou mais tranqüila e menos compulsiva. Levantava-me durante a noite e assaltava a geladeira. Agora não tenho feito isso", diz Marly Rodrigues, auxiliar de escritório. "À noite não assaltava a geladeira, era de dia mesmo", confessa Cláudia Rocha da Silva, secretária. Começaram o tratamento há uma semana e já perderam peso. Suely está com cinco quilos a menos. "É uma coisa impressionante, porque é um tempo curto e dá essa diferença. Gostei bastante porque não tem medicação", ressalta Suely Marques, metroviária. A receita é comer. Comer muito e tudo o que quiser e der vontade. Mas só na imaginação. "Mentalizo que estou comendo o que tenho vontade. Adoro pão. Então, sinto o aroma, vejo-me cortando o pão, recheando com o que mais gosto e comendo. Comendo mais um, mais um e mais um... Sinto-me saciada só com a impressão. A sensação é maravilhosa. Depois que termina está até enjoado", diz Marly. Enquanto pesquisam, os médicos curam. Em São Paulo, 300 pessoas já deixaram de ser obesas buscando os segredos do subconsciente. O Qi Mental pode ser uma das boas novidades da medicina, dizem os pesquisadores.

IMPOSIÇÃO DE MÃOS.

A força cósmica. As mãos e seus poderes. A cura. A medicina sintonizada nos mistérios do Universo. Nosso corpo é mesmo um canal de transmissão de energia, capaz de acalmar, aliviar dores e combater doenças? Os pesquisadores estão buscando respostas para essas perguntas. Mas já há indícios, algumas comprovações daquilo que muita gente ainda duvida. A técnica é conhecida como imposição de mãos. O biólogo Ricardo Monesi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), defende em sua tese de doutorado que essa prática funciona como tratamento complementar nos distúrbios orgânicos e psicológicos. Há três anos vem fazendo experiências em camundongos. Depois de cinco dias de tratamento, o sistema imunológico dos animais foi examinado em laboratório. Resultado: os camundongos que receberam a energia das mãos apresentaram maior capacidade de destruir células cancerígenas. "Podemos, através desse tratamento por imposição de mãos, aumentar o poder de combate do sistema imunológico de qualquer ser", afirma o biólogo. O reiki é um dos mais conhecidos tratamentos por imposição de mãos. Uma técnica inventada no Japão e que vem ganhando adeptos no mundo inteiro. "Canalizamos uma energia que acreditamos vir do Altíssimo. Essa energia, em contato com o paciente, faz com que se desprenda dele o que está em desequilíbrio. Percebemos isso não por crença apenas, mas pelos resultados", diz a pedagoga Inês Moura. "A pessoa que recebe o reiki responde melhor ao tratamento. Observei que a função imunológica foi ativada pelo reiki em vários pacientes. Isso ajuda a combater a doença", afirma a médica homeopata Dora Luiza Usam. Ajudou a aposentada Vera Lúcia Germano a enfrentar a esclerose múltipla. Já estava desanimada. "Quando cheguei para receber o reiki, estava em cadeira de rodas. Sem andar e até sem vontade de viver”, conta dona Vera Lúcia. Mas quando começou a fazer o tratamento, tudo mudou. "Hoje não uso mais muleta, não uso mais nada. O reiki me trouxe a energia. Sentia-me toda bagunçada interiormente – com baixa auto-estima, sem vontade de viver, sem futuro, sem nada", relata dona Vera Lúcia. É com a energia das mãos que o vendedor Heitor Vicente Sola quer se livrar de uma degeneração progressiva nos músculos. A esperança dele é o mestre Shioda, um especialista japonês. Seu Heitor anda com muita dificuldade e quase não consegue movimentar o braço direito. No exame, a causa da doença é identificada pelo toque dos dedos. Mestre Shioda diz que é um desvio na coluna, agravado por problemas no nervo ciático. Concentrado, começa a transferir a energia das mãos para as áreas afetadas do corpo. É uma espécie de aplicação energética que dura 15 minutos. "Sinto uma diferença para melhor”, diz o vendedor. Quanto ao desequilíbrio das pernas, só andando um pouco para saber. "Sinto mais firmeza, ando mais fácil. Depois da aplicação sinto mais segurança", garante seu Heitor. Hoje, o comerciante Tuguio Furukawa já está quase correndo. Há três meses, mal conseguia se levantar da cama. "Se andasse mais rápido, caía, porque não tinha firmeza. Agora posso descer a escadaria do metrô", conta. Cinco dias depois, seu Heitor foi reencontrado na clínica do especialista japonês, em São Paulo. Era a quinta sessão do tratamento. O mestre Shioda continua trabalhando nos pontos doloridos com a energia, que, segundo ele, vem do Universo. "Sinto um calor fraquinho”, conta seu Heitor. Um novo teste no corredor e seu Heitor se sente mais animado. "Agora senti firmeza. Para quem estava de bengala, é um milagre", ressalta ele. Todas as técnicas conhecidas que utilizam a energia das mãos como terapia estão sendo estudadas. Para Ricardo Monesi, a divulgação dos resultados científicos não vai demorar muito. Os médicos estão otimistas. "Se a medicina já pode receitar esse tipo de tratamento? Isso enxergo como uma possibilidade futura. Não como uma promessa longínqua, mas sim como uma coisa que já poderemos estar utilizando e os médicos podem estar prescrevendo muito em breve", anuncia o pesquisador.

RESPIRAR PARA RELAXAR.

Respiração profunda, cadenciada. Corpo relaxado, olhos fechados. Melhor não pensar em nada, durante 15, 20 minutos, duas vezes ao dia. Esta é a receita da meditação. Mas seria também uma alternativa terapêutica? Há cientistas acreditando que sim. A paz dos templos budistas e o poder de concentração dos monges inspiraram os pesquisadores. Um hábito milenar dos orientais levou a medicina do Ocidente a descobrir um reforço no combate a várias doenças modernas. A meditação pode ser um remédio eficaz contra o estresse, a angústia e os distúrbios emocionais. Sem nenhuma intenção religiosa, o Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) incluiu a meditação em suas experiências científicas. “Os primeiros resultados são animadores”, revela a bióloga Elisa Kozasa. "A meditação reduz os sintomas de doenças como a fibromialgia e a asma, e melhora o sistema imunológico. Também é indicada para pacientes com câncer. E uma pesquisa muito importante está sendo conduzida sobre a redução da hipertensão", revela a bióloga. Dor de cabeça, infecções, um longo período de internação. A psicóloga Márcia Marchiori descobriu que o seu trabalho com pacientes terminais era a causa de todos os seus problemas de saúde. "Foi muito difícil mudar de direção e deixar de fazer aquilo que estava fazendo, porque gostava, tinha vontade de ajudar. Precisei chegar no limite para perceber o quanto aquilo estava difícil para mim", conta Márcia. E foi com a meditação que a psicóloga começou a se tratar. Os efeitos surgiram nas primeiras sessões. "O resultado é imediato na mudança de humor. Levanta de uma sessão de meditação diferente”, garante ela. A resistência e o equilíbrio vão aparecendo aos poucos com os exercícios. Mas tudo depende da respiração. Pesquisadores se reúnem duas vezes por semana. Querem conhecer todas as técnicas de meditação. Uma delas é aprendida com a professora Lívia Giordano, especialista na prática de yoga. "Podemos meditar em qualquer lugar em meio a uma situação estressante, porque é fundamental se conter", orienta a professora.

GRÁVIDAS ZENS.

Controlar a ansiedade com a meditação e enfrentar o parto sem medo. A pesquisa do obstetra Roberto Cardoso é com as gestantes. "A grávida é especial. Tem um psiquismo especial, um funcionamento corporal especial. Será que nessa pessoa especial acontecem os mesmos efeitos diante da meditação?”, questiona o médico. As sessões começam no terceiro mês de gravidez e todas as voluntárias da pesquisa aprendem a meditar com o médico. "Sou um pouco ansiosa e tenho medo do parto. Espero que isso me ajude a ficar mais tranqüila, a ter mais calma", diz a secretária Márcia Morais. Valentina nasceu há sete meses, de parto normal. A webdesigner Beatriz Bacci se preparou para aquele momento com o doutor Roberto. Foi uma das primeiras voluntárias da pesquisa. "Antes de fazer parte da pesquisa, era um turbilhão", lembra a mãe de Valentina. Pode ser apenas coincidência, mas a mãe diz que Valentina é uma criança sossegada. "Acho que de alguma forma a meditação ajudou, porque acabei passando isso para ela", avalia Beatriz. "Caso a meditação também funcione na grávida como importante redutor de ansiedade, como funciona nas não grávidas, a idéia é que possamos atuar na ansiedade da gravidez", anuncia doutor Roberto. As pesquisas ainda não foram concluídas, mas a medicina está comprovando que a meditação e muitas outras técnicas orientais previnem e ajudam a curar doenças. "Somos como a corda de violino. Se estiver muito frouxa, o som é mole. Se estiver muito tensa, a corda pode se partir. Então, vamos nos afinando na meditação. Colocamo-nos no ponto em que o som vai ser perfeito – o som que somos, nossa vida", diz a monja Cohen.

CURA PELO AROMA.

Nos jardins, há muito mais do que a beleza das pétalas. Assim como os pomares não fornecem apenas o alimento. Vem da natureza mais um novo caminho que pode nos levar ao alívio das doenças. Um caminho que percorre os ares exalando perfumes e que recebeu o nome de aromaterapia. Se duvida dos cheiros das flores, das plantas e das frutas como alternativa de tratamento, uma boa notícia: os pesquisadores estão encontrando efeitos terapêuticos em várias essências. Aromas que, em muitos casos, podem substituir os tranqüilizantes. Os testes estão sendo feitos no Instituto de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na primeira etapa, o objetivo é avaliar o efeito dos aromas nos ratos do laboratório, explica o psicólogo José Roberto Leite, coordenador da pesquisa. Em uma peça de madeira, que funciona como um pequeno labirinto, o bicho, em estado normal, tende a se esconder, buscando proteção. "Estamos estudando fundamentalmente duas essências: a de rosas e a de laranja. A de rosas se mostrou bastante efetiva", revela o pesquisador. Depois de passar sete minutos cheirando algodão com essência de rosas, o rato sai explorando o braço desprotegido do labirinto, uma área que normalmente ele evitaria. "Isso é uma indicação de que o efeito é tranqüilizante. Quando está sob esse efeito, perde o medo", diz o psicólogo. Banheira de cedro, ambiente de pouca luz, que transmite paz. Quando o óleo se mistura com a água morna o cheiro logo se espalha. A terapeuta Maria Rosemberg Mizrah prepara um banho em ofurô para uma pessoa resfriada. "Para ajudar a pessoa que está congestionada, coloco óleos de lavanda, alecrim, menta, eucalipto e cedro. Isso faz com que os brônquios se dilatem, a respiração melhore, a coriza pare e o muco seja eliminado. É como um descongestionante", explica a terapeuta. A banheira é coberta com pétalas de rosas. Sozinha no quarto, a empresária Eva Rabinovic vai aspirando o perfume das flores e das plantas. O tratamento dura 40 minutos. "Já respiro melhor”, afirma a empresária, dentro da banheira de ofurô. Para os pesquisadores, faltam as experiências de laboratório em seres humanos. Será a próxima etapa da pesquisa. "A expectativa é que a mesma ação observada em modelo animal seja reproduzida no ser humano e acabe-se concluindo que isso poderia ser útil em tratamento de algumas enfermidades, de alguns problemas humanos, como estresse, ansiedade", diz o coordenador da pesquisa da Unifesp. Quem poderia imaginar que a milenar medicina oriental está a um passo dos hospitais e clínicas do Ocidente? Estava escrito nas estrelas?

GLOBO-REPÓRTER: COMIDA É REMÉDIO—9 DE JULHO DE 2004.

ÁGUA DE COCO EM PÓ.

O velho ditado já avisa: tudo o que é bom dura pouco. Refrescante, saudável em qualquer idade, a água de coco é unanimidade nas praias de norte a sul do Brasil. A bebida é um coquetel de conservantes naturais que reúne sais minerais, açúcares, glicose e carboidratos. Substâncias que, juntas, podem ajudar a prevenir até o câncer. “Existem estudos feitos nas Filipinas que mostram propriedades anticancerígenas importantes, principalmente contra o câncer de colo, de mama e de pâncreas”, diz o professor Geraldo Arraes, da Universidade Federal do Ceará. Mas a água de coco não resiste muito tempo ao ar livre, fora de sua embalagem natural. Por isso, os cientistas da Universidade Estadual do Ceará tentam conservar a bebida de um jeito diferente. Em Fortaleza, a veterinária Cristiane Mello está inventando a água de coco em pó. “Não perde nutrientes e ainda agrega valor, porque esse produto desidratado pode ser conservado em embalagens fechadas hermeticamente por muito tempo até o momento de ser utilizado”, conta a veterinária Cristiane Mello. O líquido quase milagroso se torna um pó de cor esbranquiçada. Com suas propriedades mantidas, a água de coco poderá ser usada, com segurança, na conservação de órgãos para transplantes. As pesquisas já estão sendo feitas com sucesso em córneas de coelho. “Verificamos a fisiologia, a espessura e a transparência da córnea através de métodos de pesquisa. No final, ficou demonstrado que a água de coco tem uma função nutritiva dentro do conservante que pode ser utilizada”, revela o médico Rafael Marques, do Hospital das Clínicas. E com uma grande vantagem econômica: é 90% mais barato do que os conservantes tradicionais.

SEM MEDO DE DENTISTA.

Você já imaginou alguma vez chegar no dentista e descobrir que a broca foi trocada pelo mamão? Pois foi de uma conversa entre mãe e filha que um segredinho de cozinha acabou se transformando na mais nova descoberta da ciência para o tratamento das cáries. Da casca do mamão, que a mãe da dentista Sandra Kalil Bussadori usava em casa para amaciar a carne, veio a papaína, um gel que acabou com o pavor de nove entre dez pacientes na cadeira do dentista. “Se amolece a carne por que não pode remover o tecido infectado?”, indagou a dentista. A pergunta levou a pesquisadora até a fórmula do gel. O tratamento de cáries sem broca não é novidade. O importante é de onde vem o produto. Até agora, o gel usado pela maioria dos dentistas é sintético, caro, importado da Europa. Este é 100% nacional, dez vezes mais barato e está chamando a atenção de especialistas de todo o mundo. Francisca Micaela Neves da Silva, de 7 anos, tem cárie no dente. A menina diz que ouvir o barulhinho do motor dá medo. Não sabia, mas testou a novidade. Em menos de um minuto, o gel da papaína amolece a parte cariada do dente. Depois, é só raspar e terminar a obturação. Tudo sem aquele barulhinho. A doutora comemorou. Ganhou a confiança de mais uma paciente. Francisca garantiu que não teve medo da dentista e que o tratamento não doeu. “Facilita muito porque a criança confia mais. Vem aqui e brinca, só faz coisa legal. E se pode ser legal, por que ser chato? Acho que a imagem do cirurgião-dentista tem que mudar também”, avalia a dentista Sandra.

LEITE MATERNO: FONTE DE VIDA.

De todos os alimentos, um é especial. O mais poderoso, o mais completo, e que não custa nada. Uma mistura natural de comida e remédio que às vezes pode fazer a diferença entre viver e morrer. “Fiquei assustada quando cheguei no berço da Giovanna e ela não respondia”, conta Bárbara Maria Nogueira, mãe da menina. Por causa de um remédio que tomou para conter um sangramento, Bárbara viu o leite do peito secar, e Giovanna teve que receber complemento alimentar. Mas algo estranho aconteceu. A criança apresentava todos os sintomas de envenenamento, problema que os médicos não resolviam. “Eles achavam que ela não ia resistir”, diz Bárbara. Começava uma corrida contra o tempo. A menina passou por sete hospitais, pelas mãos de mais de 20 médicos e chegou a ter uma parada cardíaca. Durante seis meses, o quarto pronto para receber o bebê ficou vazio enquanto a família tentava descobrir o que os médicos não conseguiam. Vendo a menina piorar e perder peso a cada dia, mãe e avó decidiram monitorar a criança, compraram aparelhos para fazer exames, começaram a estudar o assunto e acabaram descobrindo o remédio que salvou a vida de Giovanna: o leite materno. “Esse leite foi a vida da Giovanna”, ressalta Bárbara. Hoje, já se sabe que a menina nasceu com uma doença rara. O organismo dela rejeita alguns alimentos, entre eles, o complemento que recebia no hospital. O leite materno, vindo de doadoras anônimas do Banco de Leite, deu forças para Giovanna reagir e sobreviver. Por causa da doença, hoje precisa de alimentação especial importada. Por isso, o prato de feijão com legumes é uma conquista no cardápio. A alegria de ver Giovanna irrequieta e brincalhona enche a todos de felicidade. “A gente deve a vida da Giovanna a esse leite. Sem ele, não sei o que a gente teria dado para ela”, comenta a mãe da menina. Vitória também foi salva. Na UTI do hospital, ainda luta para ganhar peso. Nasceu prematura, e o estresse vivido pela mãe bloqueou a produção de leite. Depende de doação, e as chances correm contra a menina. Leite materno é raro. Com 6 milhões de habitantes, o Rio de Janeiro tem em média só 250 doadoras por mês. Vanúbia Nogueira é uma delas. O que o filho não aproveita, vai para o Banco de Leite. Cada vidro é especial. E Vanúbia não fazia idéia do que acontecia com suas doações. “Não sabia para onde meu leite estava indo”, conta a doadora. De doação em doação, Vitória passou de frágeis 400 gramas para 1,5 quilo em três meses. “O primeiro dia foi difícil. Foi uma emoção muito grande ver aquela criança pequenininha e não dar nada. Aí vem o leite, que dá essa vida. É uma alegria muito grande”, comemora Zaqueu Tinoco Leite, pai de Vitória. “O leite é símbolo de vida”, diz Vanderléia César Leite, mãe de Vitória. “Doava, mas não tinha idéia do que estava fazendo. Agora vejo que não estou doando só leite, estou doando vida também”, constata Vanúbia. Hoje a medicina já sabe que o poder do leite materno vai bem além do que a alimentação do bebê. A ciência já descobriu, por exemplo, que enquanto a criança estiver mamando no peito, não pega cólera nem dengue. E em um consultório, uma surpresa: a médica receita leite materno como colírio. Substituindo antibióticos, antiinflamatórios e cicatrizantes, o leite materno usado nos olhos do bebê elimina secreções e combate a conjuntivite. A pediatra Isa Yoshikawa de Souza, acostumada a atender centenas de mães que procuram o Instituto Fernandes Filgueiras, no Rio, ensina como funciona o colírio materno. “A mãe pode espirrar o leite materno nos olhos do bebê. Depois, deve fazer o leite entrar no olhinho dele. Vai ficar um pouquinho lambuzado, mas não tem problema. Para o bebê não ficar irritado, a mãe volta a dar o peito. Nessa hora, o leite está agindo contra os microorganismos. Quando terminar a mamada, limpa-se a sujeirinha toda. O resultado é excelente. Em três ou quatro dias não se vê mais a secreção no olhinho da criança”, garante a médica. Nos últimos anos, a ciência já descobriu e comprovou outras propriedades impressionantes do leite materno. Cada gota carrega também uma espécie de herança saudável. “O leite humano constrói uma espécie de memória sócio-biológica. Toda a proteção imunológica que a mulher constrói ao longo de sua vida se transfere para a criança no momento da amamentação”, explica o coordenador da rede nacional de Banco de Leite Materno, João Aprígio Guerra. E sabe aquela esperteza incomum que vários bebês aparentam nos primeiros meses de vida? A ciência tem uma explicação. “O leite é o remédio da inteligência. Estudos mostram que crianças amamentadas por períodos corretos, em regime exclusivo até o sexto mês de vida, em amamentação continuada até o segundo ano, têm um quociente de inteligência maior do que aquelas que são desmamadas precocemente. Esse é o segredo do bebê esperto”, revela João Aprígio Guerra. “O leite humano previne, por exemplo, a obesidade no adulto, e diminui o risco de ocorrências cardiovasculares e linfomas. Estudos mostram que a própria diabetes insulino-dependente pode ter o risco agravado se a criança for desmamada precocemente”, continua João. Para a pediatra Isa Yoshikawa de Souza, a pesquisa do leite materno pode revelar novas propriedades dessa substância quase milagrosa. “Dentro do leite tem de tudo: vacinas, fatores cicatrizantes, antibióticos, nutrientes, e tem amor, coisa que a gente não consegue ver. Tem tudo! É completo, em todos os sentidos”, afirma a pediatra. Com tantos benefícios, o desconhecimento ainda é o principal inimigo de mães e bebês. Uma pesquisa do Instituto Fernandes Filgueiras revelou que 78% das mães disseram que interromperam a amamentação porque consideraram o leite que produziam fraco. Alessandra Abrantes, mãe de Graziela, percebeu que o bebê perdeu peso logo após nascer. Não sabia que era só a perda normal de líquidos que acontece nas primeiras semanas de vida. “Quando começou a perder peso, achei que ainda estivesse com fome e que o leite não era suficiente. Os dias iam passando e via que as bochechinhas estavam diminuindo. Aí, bateu uma certa insegurança”, conta Alessandra. A mãe insegura trocou o peito pela mamadeira com complemento alimentar. O crescimento do bebê foi interrompido. Agora, com ajuda das médicas, ela está tendo que aprender a confiar no poder do pouco leite que sai do peito. “Na verdade, quem está alimentando o bebê é o leite”, diz a pediatra Marlene Roque Assumpção. “O neném cresceu, engordou, está ótimo”, avalia a médica. A dona de casa Solange Marluz César da Silva sabe de onde vem toda essa energia da filha Natiele. Até os 4 meses de vida, a menina era quieta, tinha movimentos lentos, vivia doente no hospital. Mas a saúde de Natiele começou a mudar depois que Solange aprendeu a amamentar no Banco de Leite. “Pegou o meu peito e em uma semana engordou 300 gramas. As doenças acabaram. Vou continuar amamentando enquanto quiser. Você sabe que tem uma coisa em seu corpo que cura seu filho. Isso é inexplicável, sublime”, diz a mãe da menina.

ERVAS PARA OS ALÉRGICOS.

Uma adolescência congestionada, obstruída, marcada por lenços de papel. Caixas e caixas de lenços de papel. “Dependo do lenço de papel!”, conta a jovem Júlia Costa Saturnino Braga. Júlia tem 18 anos e é universitária. Sofre com a rinite alérgica. “O nariz começa a cocar e pinicar, entope e, quando vou assoar, não sai nada. Depois começa escorrer. Dá vontade de assoar o nariz e botar tudo que tem para fora! Arrancar o nariz fora!”, desespera-se a estudante. Para combater a doença crônica mais comum da Humanidade, Júlia já tentou de tudo: homeopatia, medicina tradicional, até injeção antialérgica. Nada funcionou. Na luta contra a poeira, até os companheiros de pelúcia foram condenados ao exílio no alto da prateleira. “Fumaça de cigarro, poeira, um cheiro muito forte me levam à crise. Incenso muito forte em um quarto fechado, por exemplo, me destrói. Muito vento na cara também me faz mal. As pessoas não entendem meu problema. Só entende o problema quem tem a rinite alérgica”, diz Júlia. Hoje, Júlia espirra bem menos. Encontrou alívio usando duas plantas receitadas como remédio pelo fitoterapeuta Alex Botsaris: equinácea e alcaçuz. “A alcaçuz tem efeito antialérgico, mais intenso na mucosa respiratória. A equinácea é um regulador do sistema imunológico”, explica o médico. O médico receitou também um spray que reduz a irritação com fungos e poeira. Uma mistura de óleos essenciais de capim-limão, laranja, tangerina, patchouli e manjericão. As borrifadas eliminam microorganismos no ar. Mais resistente, Júlia já encara de frente o desafio de abrir a janela e ver a luz do sol sem espirrar. E reencontra o velho amigo urso. O pó que solta já não detona mais aquela seqüência de espirros intermináveis. Para o médico que receita plantas, a coleção de plantas medicinais do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, é uma grande farmácia vegetal. Junto com a bióloga Yara de Brito, apresentam o vaso dos primeiros socorros. Em vez de cápsulas e xaropes, plantas conhecidas, como açafrão, gengibre, dente-de-leão, manjericão, carqueja, capim-limão e estévia. Plantas para se ter em casa, na hora da emergência. “Dá para resolver a maior parte dos problemas comuns de saúde, como problemas de estômago, de intestino, problemas respiratórios passageiros – catarro, tosse, resfriado –, dores de cabeça, dores eventuais nas juntas, no corpo, problemas de fígado”, revela o fitoterapeuta Alex Botsaris. Remédios tão poderosos que não precisam passar por nenhum laboratório. Da natureza para pele, a seiva da babosa em forma de gel contém aloína, poderoso cicatrizante usado em cortes e queimaduras. “Alivia o desconforto, a sensação de queimação, protege e evita infecção”, afirma o médico. Uma planta é especial. Trazida ao Brasil pelos jesuítas, a Agnus castus tem poderes que mexem com homens e mulheres. “Ela é um regulador da secreção hipofisária. Por isso, tem emprego na Síndrome da Menopausa e também na Tensão Pré-Menstural, ou seja na TPM. Se o homem tomar, já não é muito bom porque vai causar impotência. Ela foi trazida pelos jesuítas justamente por causa disso. Usavam a planta para controlar a libido. Esse é o segredo deles”, explica Alex Botsaris. Até as plantas têm contra-indicação...

SALADA SEM AGROTÓXICOS.

O perigo está no ar. Para combater as pragas, os agricultores bombardeiam a lavoura com veneno. O comerciante Ruy Mesquita tenta rastrear as frutas e verduras que vende. Consegue descobrir a origem e a época em que foram colhidos. “Não sabemos o que estamos recebendo em termos de veneno no nosso alimento”, diz Ruy. Controle de verdade mesmo é produto tipo exportação. Os europeus exigentes obrigam os produtores de Campinas a fichar o figo que sai do Brasil. A papeleta registra dia e hora da aplicação de qualquer tipo de veneno. Para cada figueira, um formulário. “Não deixamos de aplicar o agrotóxico. Apenas é administrado em dosagem e período controlados. Não fazíamos isso antes porque não tínhamos orientação e nem percepção do mercado”, alega o produtor de figos Olivaldo Belone. Tanto controle tem um motivo: o veneno leva até 15 dias para perder o efeito. Aplicação fora do prazo é risco de contaminação por agrotóxicos. Não têm cheiro, cor, nem sabor. Então, como ter certeza se a cebolinha, o rabanete ou a folha da alface ainda carregam os efeitos perigosos dos venenos da lavoura? Pois agora os cientistas estão tentando criar uma espécie de teste simples que o consumidor pode usar na hora de comprar o produto e descobrir se o alimento que vai comer ainda tem agrotóxico. Por enquanto, só é possível saber se a alface está contaminada depois de testes feitos em laboratório, como o da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A equipe do professor de biologia Mauro Velho tenta simplificar o processo usando a acetilcolesterase, uma enzima produzida no sistema nervoso do homem e que reage na presença do veneno. Usada como teste, poderia confirmar a presença de contaminação em frutas e verduras. “Isso seria a certeza de que ela está ingerindo alimentos que realmente não tem contaminação. Ainda não dá para ter certeza hoje”, diz o professor Mauro Velho. Enquanto o teste não fica pronto, o cientista dá uma receita para purificar a salada. Em uma bacia, coloque água pura. Em outra, água com bicarbonato de sódio – uma colher de sopa para cada litro. E em outra bacia, coloque água com vinagre – também uma colher de sopa para cada litro d’água. Está pronto o sistema doméstico de desintoxicação de salada. “É preciso fazer uma lavagem completa, começando com água, lavando com bicarbonato e depois com vinagre”, ensina o professor. Mas não é tão rápido assim. Primeiro, são cinco minutos de lavagem na água, para retirar a sujeira visível. Depois, 40 minutos de tratamento na bacia com bicarbonato de sódio. É a lavagem mais importante: o bicarbonato remove 90% dos agrotóxicos. Atenção: “Não pode misturar bicarbonato com vinagre, porque reage e perde o efeito”, alerta o professor. Por isso, mais cinco minutos na água, para remover o bicarbonato. Só depois, a verdura vai para a bacia com vinagre. São 40 minutos para eliminar o resto dos agrotóxicos. “Vai demorar um pouco, mais ou menos uma hora e vinte. Tem que ter paciência. No final, a dona de casa vai ter um produto com maior probabilidade de não estar contaminado. Certeza, ninguém tem nunca”, constata o professor Mauro Velho.

FARMÁCIA NO QUINTAL DE CASA.

Montanhas de Minas Gerais. Nas colinas de Ouro Preto, a fumaça que sai da chaminé avisa que é dia de frango com quiabo na casa da especialista em culinária Vânia Amaral, uma brasileira que juntou às delícias da cozinha mineira segredos que aprendeu com monges budistas. Diz que um prato equilibrado pode interferir nas emoções e até no humor de quem come. É a chamada cozinha vibracional. “Receita apenas não basta, é preciso ter o espírito do cozinheiro. É como uma meditação, é muito sério. Se o dia está frio, uma salada crua não cai bem, a digestão vai ser mais difícil. Precisamos de uma comida mais quentinha, mais cozida. É uma sabedoria”, constata a especialista. Vânia diz que o frango com quiabo bem feito ressalta os benefícios de cada ingrediente. A cebola dá bem mais que um gostinho na comida. “Abaixa a pressão sanguínea, o colesterol, inibe reações alérgicas, ajuda a eliminar o catarro, previne resfriado comum. A cebola é poderosa”, ressalta ela. O gengibre dá um toque oriental à tradição mineira. “Cozinhando com ele, pessoas que têm doenças que pioram com o frio, como reumatismos, artrites, vão melhorar”, garante Vânia. Será que funciona? Em uma noite fria de Ouro Preto, o frango com quiabo vibracional dá ânimo, esquenta o corpo. Na feira, Vânia é uma pesquisadora que não pára de perguntar. “Como tem pessoas que adoram ir para o shopping fazer compra, minha diversão é vir para a feira”, conta ela. Hoje, é diversão. Mas um dia, a comida já foi motivo de muita dor, aos 13 anos de idade. “Comecei a ter dores de estômago e minha mãe me levou ao médico. Ele disse que era uma gastrite, em virtude da alimentação e do sistema nervoso. Sentia muita dor, era um incômodo muito grande”, lembra Vânia. Por ordem médica, Vânia trocou refrigerantes, sanduíches e biscoitos por arroz integral, frutas e verduras. A saúde melhorou e ficou impressionada com o poder da natureza. Passou a estudar o que a dona de casa Maria Efigênia de Carvalho já conhece há muito tempo. A 18 quilômetros da casa de Vânia, passa o dia costurando. “Só tem farmácia em Ouro Preto, e o médico demora a chegar”, conta a moradora. Quando a dor aperta, dona Maria se socorre da sabedoria dos seus 73 anos e encontra remédio no mato que cresce no fundo do quintal. “Nossos pais nos ensinavam isso desde criança”, diz ela. As lições que aprendeu com a mãe chamam a atenção de Vânia. O pé de alecrim, por exemplo, serve para quê? “Para fazer chá para quem está aborrecido, porque todos na vida, rico ou pobre, têm aborrecimento”, ensina dona Maria. “É para angústia, porque é uma planta cardiotônica”, completa Vânia. No quintal de dona Maria tem uma planta que faz muita gente correr: urtiga. “Ela sapeca!”, diz ela. Nem todas. A espécie conhecida como urtiga morta virou salada em Minas Gerais. Este é o único tipo de urtiga comestível. “Disse que é boa para diabetes. É um tônico hepático, renal, excelente para a vitalidade”, explica Vânia. Essa sabedoria que não consta em livros de medicina ajudou a curar o operador de áudio Eduardo Rodrigues. Estava há dois dias com dor no estômago. No quintal de dona Maria, Eduardo encontrou o remédio. “É a pruma”, disse dona Maria. É só misturar na água fria. “O que é amargo cura e o que aperta segura”, brincou dona Maria. Alguns minutos depois, quem ria era Eduardo, curado pela experiência de dona Maria.

SOMOS O QUE COMEMOS.

Cada vez que se senta à mesa, a especialista em culinária Vânia Amaral lembra que há 2 mil anos, nos banquetes reais da China, o cozinheiro era o médico do imperador. “Se adoecia, o cozinheiro era trocado. Quem cuidava da saúde do imperador era o cozinheiro”, conta a especialista. Bem longe da China, um médico brasileiro transformou receitas de farmácia em receitas culinárias. Mauro Perine é especialista em medicina chinesa. Trata os pacientes com pratos coloridos. “O famoso caldo verde serve para tratar gastrite nervosa. A couve tem a propriedade de harmonizar o fígado. Se a pessoa é muito irritada, pode se beneficiar desse prato”, ensina o médico. “Já a castanha, serve para aumentar o calor. Não serve para gastrite, mas serve para uma tosse, por exemplo. Associada ao amargo do agrião, beneficia o pulmão”, continua o médico. De acordo com os especialistas em medicina oriental, na mesa da maioria dos brasileiros está um santo remédio para os homens, de sabor doce, cor escura, e que vem da terra. Para a medicina oriental, o feijão ajuda a combater a impotência sexual e até queda de cabelo. Doutor Mauro esclarece que não funciona para qualquer careca, apenas para os que perdem o cabelo por cansaço ou estresse, um problema que atinge os rins. Os chineses diziam que o cabelo é bonito quando o rim está saudável. E o feijão preto é um fortificante para os rins, quando consumido sem exagero, claro. Mauro Perine diz que a preferência gastronômica pode revelar até a personalidade de uma pessoa. Será? A equipe do Globo Repórter fez um desafio e levou o médico a um restaurante onde ele não conhecia ninguém. Confira o resultado em vídeo! “Realmente falou como sou, sem me conhecer”, comentou a assistente de marketing Fernanda Maiorino Uchoa. Vendo a medicina moderna estudar a sabedoria milenar dos chineses e encontrar a dona de casa Maria Efigênia de Carvalho ensinando o que aprendeu no fundo do quintal, chegamos à conclusão de que o ditado popular está certo: somos exatamente o que comemos. 

CAMU-CAMU: PURA VITAMINA C.

Quem vê de longe confunde o camu-camu com jabuticaba, sua prima distante. Usada para sucos, sorvetes e geléias, é uma fruta cobiçada pelas indústrias farmacêuticas e de cosméticos, que a querem para produzir desde xampu até remédio. Camu-camu, ou caçari, como é chamada na Região Norte, tem nome estranho e sabor exótico. "A necessidade de vitamina C para o homem é de 60 miligramas por dia. Então, um frutinho desse já ultrapassa muito. Um fruto por dia é suficiente", diz o agrônomo Kaoru Yuyama. A fruta é originária do Peru, mas existe em toda a Amazônia. Brota em áreas alagadas, ao longo das margens de rios e lagos. No Brasil, o camu-camu só foi descoberto no fim da década de 70. Dá fruta praticamente o ano todo, mas a produção ainda é pequena. O agrônomo Kaoru Yuyama, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), quer mudar esta história. Vem tentando domesticar a planta silvestre, selecionando amostras para plantar em terra firme e aumentar a produção. A meta é exportar. "Tem muita gente que se interessa – dos Estados Unidos, Japão e de outras regiões. Mas eles chegam aqui e não encontram em quantidade grande para utilizarem no país deles. Para abrir um mercado, é preciso pelo menos 500 quilos em uma só colheita. Quer dizer, falta produtor de camu-camu", comenta o agrônomo. "Recebi um pedido de mil toneladas de uma firma japonesa. Impossível!", diz o produtor de camu-camu Jean Dupui. Uma prova de que a oferta é menor do que a procura. O francês Jean Dupui, que vive em Manaus há 30 anos, começou a plantar em 1996. Acredita que o mercado externo é a saída. Aposta na produção do camu-camu orgânico e faz planos para o futuro. "Vou devagar, plantar uns 12 mil pés este ano. No ano que vem, conforme a demanda, vou plantar três vezes mais. E assim por diante, até chegar a 200 mil pés, daqui a cinco anos", planeja o produtor.

ARCO-ÍRIS DE VITAMINAS.

Riquezas da Amazônia. Na beira dos rios, ficam as palmeiras do açaí, do buriti e da pupunha, uma planta de onde tudo se aproveita. Das folhas, a fibra é usada para cobertura das casas e para o artesanato. Do caule, uma espécie de palmito saboroso, que substitui o do açaí, cada dia mais escasso. Nas feiras livres, os cachos chamam a atenção pela variedade de cores. Quase um arco-íris, rico em proteínas e vitaminas. Remédio e alimento em dose única. Desconhecida no resto do país, a pupunha é fruta amada pelo povo do Amazonas. “A pupunha é característica da nossa região. Gostamos dela cozida e saboreada com café”, conta a advogada Arlete Paula. “Tem pupunhas que são oleosas, outras são secas. Tem a amarela, que serve para fazer farinha”, revela o autônomo Marcos Navegante. “Tem creme de pupunha, bolo, sorvete. É uma delicia!”, garante a professora Fátima Silveira. A pesquisadora Lúcia Yuyama, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ensina aos alunos de nutrição como se prepara a farinha da pupunha, que prolonga as propriedades da fruta. A pupunha é uma fruta comum na Região Norte, muito apreciada pela população, principalmente na sua forma mais simples, cozida em água e sal. O gosto é variado. Há quem diga que lembra castanha portuguesa, milho e até batata doce. Mas o mais importante é que depois de transformada em outros produtos, a pupunha conserva as qualidades nutricionais, mantém vitaminas e as fontes de energia. No óleo da pupunha, há um aliado no combate à desnutrição. "A vitamina A precisa do óleo para ser absorvida e utilizada pelo organismo. Essa fração pigmentada, colorida, que se chama betacaroteno, é convertida em vitamina A, um nutriente importante para a visão", explica a pesquisadora. Sob todos os pontos de vista, a pupunha é uma fruta versátil. A farinha pode enriquecer outros pratos – misturada ao macarrão ou à farinha de peixe. Dona Maria do Céu prepara bolo com a farinha da pupunha. No Amazonas, os cientistas procuram alternativas saudáveis e baratas para alimentar as crianças da região. “As crianças adoram a pupunha. A farinha de pupunha adicionada ao leite é uma grande refeição e teve aceitação plena delas. Por que não consumir este fruto fantástico, potencialmente nutritivo, que é a pupunha?”, questiona a pesquisadora do Inpa.

SORO DE LEITE ESPECIAL.

Em um laboratório, cientistas querem mudar os recordes de atletas campeões. Nada de doping. A idéia é mexer só no café da manhã. Por enquanto, quem corre são os ratos, alimentados com um soro de leite especial, que teve as moléculas de proteínas quebradas em laboratório. As cobaias surpreenderam os cientistas. “Percebemos que estávamos na frente de uma coisa importante quando fizemos o teste exaustivo e observamos que o desempenho físico dos ratos que receberam a dieta com a proteína parcialmente hidrolisada tiveram um desempenho 2,6 vezes superior aos que receberam a proteína normal. O fôlego deles foi maior e a recuperação, mais rápida”, revela a nutricionista Fernanda Mota Veiga Pimenta. Se funcionou nas cobaias, por que não nos homens? O teste em humanos é o próximo passo da pesquisa. Os cientistas agora querem colocar os atletas para correr. “Estamos justamente tentando comprovar que as propriedades observadas no animal também são factíveis de ocorrerem no homem e daí resultarem em uma vantagem para o indivíduo comum, principalmente para o atleta”, diz o professor de nutrição Jaime Amaya Farfan, da Universidade de Campinas (UNICAMP). Mas é preciso cuidado. O soro de leite que duplica o fôlego não é o mesmo encontrado à venda no comércio. “O soro de leite que é vendido no supermercado é um subproduto que tem propriedades boas, mas não é o mesmo soro utilizado hoje na indústria farmacêutica para pacientes em estado debilitado ou até mesmo para quem pratica atividades físicas”, distingue a nutricionista Fernanda. As descobertas científicas costumam confirmar o conhecimento popular. Bem antes da criação dos remédios, era a comida que salvava vidas nas sociedades primitivas. De geração em geração, as receitas passaram de mão em mão e ajudaram a Humanidade a compreender que a cura para todas as doenças quase sempre está na natureza.

GLOBO-REPÓRTER: DEPRESSÃO—13 DE AGOSTO DE 2004.

DESEMPREGO, UM DOS VILÕES.

Nada diz que um homem que se prepara para uma grande noite, que se olha no espelho e vê na imagem uma pessoa inteira, tenha vivido anos mergulhado em profunda depressão. Depois de mais de 20 anos trabalhando como gerente em uma grande loja em Santos, São Paulo, José Ademar Denari viu-se desempregado da noite para o dia. “A gente sempre pensa que o valor é o dinheiro. Então, para mim, o que valia na minha vida era o dinheiro”, admite ele. O desemprego foi o estopim para a crise depressiva que durou anos e que o fazia chorar por piedade de si mesmo. No auge da angústia, saiu de casa, sem aviso prévio, sem deixar bilhete. “A doença começou a piorar o relacionamento familiar. Não tinha vontade de conversar com filha, esposa, com vizinho, com irmão, com ninguém. Fiz a mala, cheguei na rodoviária e fiquei olhando para cima, pensando o que eu ia fazer?”, conta José Ademar. Isolamento, apatia, tristeza profunda, desânimo, culpa, sentimentos típicos da depressão, arruinaram a auto-estima de José Ademar. “O difícil foi começar a ver que todo aquele pai que era, aquela casca que existia, aquela máscara de pai, estava desmontando, aquele gelo estava derretendo. Não tinha vontade de trabalhar, de sair na rua, de tomar banho, de escovar os dentes”, relata José Ademar. Sem conseguir expressar o que sentia, envergonhado, sem lugar no mundo, José Ademar foi para São Paulo e passou a vagar pelas ruas. “Onde poderia entrar? Na igreja. Aí, sentava na igreja e ficava. Sentava em uma, em outra, sentava na praça”, lembra ele. Até que José Ademar encontrou quem o levasse a um psiquiatra e passou a se tratar com medicamentos. Fez psicoterapia e participou de grupos de auto-ajuda da Abrata, uma associação que ajuda as pessoas deprimidas e seus familiares. Hoje, já se sente tão bem que trabalha lá como voluntário, apoiando quem ainda está na escuridão. “Meu papel aqui é coordenar a reunião, para que através desse grupo possamos ajudar os outros que estão precisando entender o que é depressão”, diz ele aos participantes. José Ademar já compreendeu que sofre de uma doença crônica, complexa, sem causa conhecida, mas que pode ser tratada. Agora, vive sozinho na casa de campo do irmão, em Diadema, no ABC Paulista, mas não se sente isolado. Descobriu a vida lá fora e um mundo novo dentro de si. “Fui conhecer a Avenida Paulista andando de madrugada. É um país gostoso, devemos parar de analisar as pessoas para analisar a vida. O que tenho é uma doença da alma, uma doença do coração. É uma doença que foi me deteriorando, foi me acabando, fui perdendo minha dignidade, meu nome, meu amor, a expressão familiar, os títulos – de pai, esposo, tio, profissional. Tudo isso fui perdendo”, lamenta José Ademar. Três anos depois, José Ademar já está na fase das reconquistas. Decidiu ser calígrafo – paixão da infância deixada de lado nos atropelos da vida adulta. Dá aulas de graça para idosos e ganha algum dinheiro com pequenas encomendas. “Tenho que me sentir útil profissionalmente e financeiramente. É aí que está entrando a caligrafia. Faço convites de casamento, certidões, diplomas, homenagens”, explica José Ademar. A recuperação de José Ademar veio firme, mas demorou um pouco. Foram três anos até reunir forças para voltar a sua cidade. Lembra que, à beira-mar, curtia a tristeza da depressão. Coisas que ficaram para trás. “Que praia, que coisa mais linda! Parece que o sol veio me receber. Parece que Santos sabia que ia chegar e veio me receber de braços abertos”, exalta ele. José Ademar voltou para enfrentar o maior desafio de sua recuperação: reencontrar a família. Vai levar a filha ao altar. Apreensivo, conversa com o mar. “Estou esperando que todo mundo me receba como o mar está me recebendo. O que aconteceu a gente passa para trás. Estou até pedindo para me ajudar um pouquinho. Tenho que enfrentar, sou importante no casamento, vou ser importante até a hora de entregar a noiva. Depois de entregar a noiva, aí é só alegria, festa, felicidade, muitas emoções. Estão me achando com a aparência boa, e estou me sentindo bem, com o rosto bom, os olhos alegres. Quando você tem depressão, fica com uma cara de triste, e estou me sentindo muito bem. Estou até bonito”, orgulha-se José Ademar.

MULHERES SÃO MAIS VULNERÁVEIS.

Entrar em depressão é como entrar em um túnel sem fim ou cair em um buraco fundo. Daí a velha expressão "entrar na fossa". A pessoa se isola, perde o interesse em tudo. Com tratamento, aos poucos sai do buraco e começa a ver de novo a claridade da vida. O importante é que o doente e os parentes e amigos não vejam a depressão com preconceito, como se fosse uma fraqueza ou uma loucura. É apenas uma doença – muito mais comum do que se imagina. Um em cada dez homens terá pelo menos um episódio de depressão na vida. As mulheres são duas vezes mais vulneráveis: uma em cinco vai sofrer depressão. Elas são mais sensíveis ao estresse e sofrem muito com as alterações hormonais. “O homem não tem correlação com alteração de testosterona. Geralmente a mulher tem depressão por conflito conjugal; o homem é mais por perdas ocupacionais”, explica o psiquiatra Joel Rennó, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). A mulher tem três momentos de grandes alterações hormonais: todo mês, antes da menstruação, logo após ter filho e quando ela se aproxima da menopausa. A tensão pré-menstrual pode ser um sinal de que o período pós-parto será sofrido, a depressão puerperal. Foi assim com a escriturária Maria Aparecida Conde. Antes da menstruação ficava irritada, deprimida e se isolava. “A tristeza era maior, ficava mais agressiva, com o coração acelerado, tinha tontura”, relata ela. Maria Aparecida começou a tomar anti-depressivos. Quando engravidou da filha que tanto desejava, foi obrigada a cortar os remédios e sentiu. “Passei o final da gravidez chorando, muito triste, com uma depressão profunda. Não tinha nem a alegria e a ansiedade de quando vai nascer o neném”, conta Maria Aparecida. Quando a pequena Giovanna nasceu, Maria Aparecida não dominou uma forte rejeição pela filha, não conseguiu amamentar. A tristeza deu lugar a pensamentos distorcidos. “Ficava sozinha com ela, foi terrível. Não gostava dela, achava que não gostava. Sentia uma tristeza profunda e culpa”, lembra ela. Maria Aparecida foi vítima da depressão que atinge 10% das mulheres no pós-parto. “O médico conversou comigo e disse que há muitos casos, muitas mulheres que até dão os filhos”, diz ela. As alterações psíquicas no pós-parto podem levar à psicose, o que é muito raro – atinge uma mulher em mil. Mais comum é a tristeza leve, chamada “blues”, vivida por 70% a 80% das mães. “Através da abordagem de todos os fatores de risco, por meio de grupos de auto-ajuda, de trabalhos de psicoterapia em grupo com gestantes, sem dúvida alguma tem uma chance muito maior de que essas questões possam ser trabalhadas de forma construtiva”, diz o psiquiatra da USP. O tratamento de Maria Aparecida foi simples: bastou voltar aos antidepressivos que tomava antes de ficar grávida. O amor pela filha, que sempre esteve lá, escondido no fundo da alma, desabrochou. “Não imagino minha vida sem Giovanna, é a alegria dessa casa. E é tão carinhosa... Uma criança que beija, abraça, conversa, é uma graça de menina, não tenho palavras para falar dela e do amor que tenho por ela. Só quem é mulher e mãe sabe o que é a maternidade”, emociona-se Maria Aparecida.

CRIANÇAS TAMBÉM SÃO VÍTIMAS.

Aos 8 anos, Kelly Moreira, de tão deprimida, não queria nem ir para a escola. “Quando minha mãe me chamava, ficava deitada, não queria acordar”, conta a menina. Matheus Cavalcanti, antes ainda de completar 5 anos, só pensava em morte, era agressivo com os outros e se maltratava. “Quando ficava muito nervosos, tinha o hábito de bater a cabeça na parede, a mão na cabeça, agredia-se muito. Falava em se matar. Dizia que não sabia por que vivia, que deveria ter nascido morto”, relata a dona de casa Ligia Cavalcanti. Matheus, em São João do Meriti, na Baixada Fluminense; Kelly, em Belo Horizonte. Situações distintas, em cidades diferentes, levaram essas crianças a sofrer – em uma idade que é associada a brincadeiras, alegria, inocência. A depressão é terrivelmente democrática – não distingue rico de pobre, adulto de criança. Kelly mora em um bairro violento. Com a incerteza ameaçando a vida, já teria motivos para se sentir estressada. Mas foi no início deste ano, quando começou a ganhar peso, que entristeceu. Uma mudança repentina. Tereza, a mãe, logo identificou a doença. “Notei que minha filha estava exatamente entrando nesse quadro, de ficar calada, quieta, sem movimento, já não estava no quadro normal”, conta a acompanhante Tereza Lemos Moreira. Matheus era míope e ninguém sabia. Na escola, era agressivo, batia nos colegas, não conseguia acompanhar as aulas e repetiu de ano. “Tinha o problema da vista, só que não era só esse o problema. Os problemas da vista acarretaram outro problema detectado pelo psiquiatra: a depressão”, diz a mãe do menino. Ligia não se intimidou diante da doença. Ao contrário, colocou todo o empenho na cura do filho. “O que pode esperar de uma criança de 6 anos que diz que o mundo não presta?”, comenta ela. Ligia aceitou, sem qualquer preconceito, a indicação médica: antidepressivos e psicoterapia. E ainda fez a parte dela: participou do grupo de pais e ganhou mais segurança para cuidar do filho. “Muitas pessoas avaliam que a pessoa depressiva deve ser tratada como se fosse coitadinha, doente, pobrezinha. Negativo. Era tratado, medicado, orientado pela psicóloga, mas também corrigido, ensinado na hora certa”, diz Ligia. Mesmo com toda essa determinação, sabendo que o filho ia melhorar, emocionou-se com os resultados. “Estava na cozinha, fazendo o almoço normalmente, e ouvi uma pessoa dando gargalhada na sala. Saí para ver quem era. Chorei, porque nunca tinha visto meu filho sorrir daquela maneira. Não imaginava que algum dia ia ser uma pessoa alegre. Dizia para a psicóloga que meu filho não era normal e ela dizia que era, estava passando uma fase difícil, mas ia melhorar”, conta Ligia. Matheus teve alta há mais de um ano. Não toma mais remédios, está integrado na escola e se mistura nas brincadeiras com os amiguinhos. “Normalmente quando chega para um pai e fala, quer tirar o filho da escola, não quer encarar o problema de frente. Deu certo graças à ajuda que a família deu ao nosso aluno Matheus”, avalia a diretora da Escola Vila Jurandyr, Rosane Maia Bicchieri. Em casa, Matheus não desgruda do videogame, a não ser para jogar bola com a garotada na rua. “Esse tratamento ajudou-me a lutar. Agora posso brincar com meus amigos. Estou mais feliz”, garante o menino. Em Belo Horizonte, Tereza encontrou apoio fora do comum na escola da filha. Ao levar a ioga para a Escola Madre Luísa Locatelli, os objetivos eram claros: aumentar a concentração nos estudos, melhorar a auto-estima e diminuir a agressividade das crianças. Mas os resultados foram muito além disso, principalmente na prevenção da depressão infantil. A escola fica no centro de uma região carente da cidade, com as crianças expostas a um ambiente estressante e são poucas as oportunidades de tratamento. A ioga praticada na escola ajudou os alunos a lidar com a realidade do dia-a-dia. “O medo de viver 24 horas por dia inseguro causa um estresse e desestrutura. Então, acreditamos que a ioga ajuda, dá um suporte emocional para que possa conviver com essa situação de violência, de medo, de insegurança”, comenta Irmã Maria do Rosario Caldeira, diretora da escola. Em casa, Tereza notou que o comportamento da filha, silenciosa e sonolenta, começou a mudar. “Agora já estou melhor. Ela me chama, levanto, visto a roupa e vou para a escola. Está legal. Estava triste, não sorria. Agora já estou brincando, alegre”, comemora Kelly. A receita que deu certo para Kelly foi ioga; dieta alimentar sem gordura e açúcar, para diminuir o colesterol; e psicoterapia. Não precisou de antidepressivos.

CUIDADOS NA ALIMENTAÇÃO.

O psiquiatra francês David Servan-Schereiber escreveu um livro que ficou famoso no mundo todo. É um dos maiores defensores dos métodos naturais no tratamento da depressão. Reconhece que, se para algumas pessoas em crise grave, os antidepressivos químicos são indispensáveis, nem sempre são recomendados para todos os casos. “Foram a descoberta mais importante do século 20 na medicina. Mas o que é insano, desequilibrado, é o número de pessoas tomando esses remédios. Especialmente quando sabemos que há métodos naturais de tratamento que são eficazes, podem curar os sintomas”, diz o psiquiatra. Lembra que de 30% a 50% das pessoas que param de tomar remédios antidepressivos têm uma recaída em um ano. Portanto, a cura não é garantida. Em alguns casos, os métodos naturais podem ser aliados poderosos, principalmente quando a causa é a pressão da vida moderna. “Não pode evitar o estresse, é parte da vida. O que pode evitar é a sua reação ao estresse. Pode aprender como controlar sua fisiologia, por exemplo, com métodos, alguns dos quais bem antigos. Ioga, por exemplo, existe há 5 mil anos. Controla sua atenção e respira, controla sua fisiologia”, orienta David Servan-Schereiber. É sabido há muito tempo existe uma relação entre saúde e os alimentos que ingerimos. Nos últimos anos isso tem sido comprovado cientificamente. Mas, e no caso da depressão? Será que é uma doença que pode ser tratada e prevenida com a ajuda de determinados alimentos? O especialista em nutrição Silvio Laganá não tem dúvidas. Para ele, o Omega 3 – uma gordura encontrada em peixes, nas nozes, no agrião, no espinafre – é um remédio natural para a depressão. “O espinafre é a maior fonte vegetal do Omega 3 em folhas verdes, junto com o agrião”, revela o nutrólogo. A ação do Omega 3 nos neurônios, as nossas células nervosas, explica os benefícios. “O Omega 3 faz com que a membrana celular que reveste os neurônios tenha fluidez, não deixa endurecer essa membrana. No caso das gorduras saturadas – as gorduras da carne, do leite e dos queijos –, favorece o endurecimento dessa membrana. Não é bom, vai dificultar a passagem de informação através do neurotransmissor, que fica bloqueado, e isso pode favorecer a depressão”, explica o especialista. Alguns peixes estão no alto da lista dos alimentos campeões em Omega 3. “O melhor é cavala, que tem uma concentração grande de Omega 3. É um peixe barato também. A sardinha vem em último lugar, mas com preço bastante conveniente. É rica em cálcio, que é um mineral bastante importante para a saúde humana. A anchova também é rica em Omega 3. É um peixe um pouco mais caro, mas com um sabor bastante peculiar, que agrada muitas pessoas”, diz o nutrólogo. A linhaça, um grão pouco conhecido do brasileiro, é outra fonte importante de Omega 3. “A linhaça é um dos nutrientes mais antigos conhecidos como benéficos para a saúde humana. Você joga na boca e saliva. Pode tomar um copinho d’água para ajudar a engolir. Duas colheres de sopa de linhaça por dia oferecem uma concentração excelente de Omega 3, que vai ajudar o funcionamento intestinal e favorecer não ter depressão”, afirma o especialista. Uma cápsula de óleo de linhaça depois das refeições e uma nova dieta alimentar mudaram a vida da professora de matemática Ana Lúcia de Moraes. Dois anos de tratamento e os sintomas de depressão que estavam acabando com ela sumiram. “Era muito agitada, a minha ansiedade estava sempre lá em cima. Então, isso estava me prejudicando até profissionalmente no meu dia-a-dia. Resolvi procurar ajuda de um nutrólogo”, diz a professora. Na alimentação, entraram o peixe, as saladas, as nozes. Saíram a gordura e os doces. E foi com sacrifício, ela admite, que cortou algo de que gosta muito. “O chocolate faz bastante falta. Mas sou firme, não como mais”, garante Ana Lúcia.

VIDA NOVA PARA BRUNA.

Se a adolescência é uma fase de reconhecida dificuldade e muitas transformações, imagine se a pessoa é obesa? “Sentia-me muito feia. Achava que se saísse na rua todo mundo ia ficar olhando porque era gorda”, conta a estudante Bruna Aparecida Pereira. Bruna desenvolveu medo de não ser amada. Achava que ninguém ia gostar dela e se isolou. “Então comecei a me trancar no meu mundo. Comia, entrava no quarto e ficava chorando porque tinha comido e ninguém gostava de mim porque que era feia”, diz ela. A tristeza profunda deu lugar à depressão. Os pais não sabiam mais como lidar com o impulso destrutivo de Bruna. “Queria morrer, porque já tinha tentado a primeira vez e não tinha dado certo”, conta a jovem. A virada na vida de Bruna aconteceu quando partiu para um programa de nutrição da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Junto com exercícios físicos e atividades recreativas, passou a conviver com pessoas que têm o mesmo problema. Bruna não se deu bem com remédios. Restou o tratamento natural: além da alimentação, da psicoterapia, do relacionamento com outras adolescentes obesas, os exercícios físicos tiveram papel fundamental. “Esses adolescentes melhoraram muito, não só na perda de peso, como também nos sintomas de depressão e ansiedade, tendo um resultado muito bom com o próprio exercício físico”, explica Marco Túlio de Melo, doutor em psicobiologia da Unifesp. Quanto mais exercícios uma pessoa faz, maior será a atividade cerebral dela. “Há uma produção de serotonina e, conseqüentemente, maior produção de dopamina, que é o neurotransmissor que dá prazer, e também de betaendorfina, que dá o relaxamento muscular”, esclarece o professor da UNIFESP. Os bons resultados foram medidos com precisão: 90% das jovens obesas tiveram melhoras nos sintomas depressivos depois de apenas três meses de exercícios. “Acredito que os melhores exercícios são os feitos em grupo, porque melhora a socialização, a auto-estima, a auto-imagem e favorece o convívio social”, diz a doutora em nutrição Ana Damaso. Sair do isolamento é fundamental para a recuperação de qualquer pessoa deprimida. Bruna encontrou apoio entre os amigos da igreja. “Encontrei uma solução para mim. E não era morrer. dizia antes, muitas vezes, que não era feliz. Mas sou feliz, sou perfeita. Só tenho um pouco de peso a mais, mas sou perfeita”, ressalta Bruna. “Daqui para frente? Quero ficar uns 30 quilos mais magra, fazer minha faculdade, batalhar e deixar tudo isso pra trás”, planeja.

MALHANDO A DEPRESSÃO.

Não existe uma relação direta entre obesidade e depressão. A medicina não descobriu uma causa para a doença. O que se sabe é que existem fatores que funcionam como gatilho. A origem pode ser física, uma disfunção química no cérebro, por exemplo. Ou psicológica, como problemas no casamento, a morte de parentes. Ou ainda social, como trauma de uma situação violenta ou a perda do emprego. Bruno de Souza perdeu o pai na infância. Sofre de desânimo, de falta de prazer e de desejo. O mal dele é um transtorno do humor chamado distimia – uma depressão leve, mas crônica, que, no caso dele, se arrasta há sete anos. “Foi ficando cada dia mais triste, quieto, chorava muito. Achava que era uma coisa que ia passar, mas com o passar do tempo ficou pior”, conta Luzia Ferreira de Souza, mãe de Bruno. “Sentia-me mal, não queria fazer nada”, conta Bruno. A distimia precisa ser tratada porque pode evoluir para uma depressão mais profunda na idade adulta e nos jovens traz grandes dificuldades para a vida social e escolar. “Se não tem prazer para brincar, como vai ter prazer para assistir a uma aula? O transtorno causa dificuldades tanto na escola, que é o meio acadêmico onde está desenvolvendo as relações, como no meio social dela. Aquela criança que não desce para brincar, que o prazer muitas vezes é ficar em casa, jogando videogame, no máximo”, explica Fábio Barbirato, psiquiatria infantil da Santa Casa do Rio de Janeiro. O jovem pode ter sintomas de irritabilidade e pavio curto. De mau humor, como o Zangado, um dos sete anões de Walt Disney – sempre brigando sem conseguir se relacionar. Ou então mostrar apatia, desprazer, sonolência. A distimia tanto pode se apresentar de um jeito como de outro. “Só ficava dormindo. Agora estou melhor, vou jogar bola”, diz Bruno. O maior risco é os pais acharem que a apatia ou a irritação fazem parte do temperamento do filho. É preciso agir. “Para evitar problemas como, por exemplo, o uso de drogas. O jovem vai abusar do álcool, da maconha ou de qualquer outro tipo de droga para tentar se auto-medicar, para amenizar essa sensação de angústia, de irritabilidade”, alerta o psiquiatra infantil. Nos idosos, a depressão quase tem hora marcada: aposentadoria, morte do parceiro, problemas de saúde. Vale tentar tudo para evitá-la. Hidroginástica, boa alimentação e muito bate-papo com os amigos. “Qualquer um nessa idade acima de 60 anos tem essa depressão – pouca ou muita. O camarada não pode é se embutir, ficar fechado”, ensina o aposentado Francisco Infante. O relacionamento com as pessoas e a prática de esportes – esta é a receita apontada por uma outra pesquisa feita pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) com 46 idosos. “O idoso responde muito bem à pratica do exercício físico, que tem uma ação fundamental: melhorar a auto-estima e o metabolismo. Como conseqüência, temos a diminuição da depressão e da ansiedade”, explica Marco Túlio de Melo, doutor em psicobiologia da UNIFESP. Depois de passar por perda de pessoas queridas e por problemas de saúde, ainda há espaço para ser feliz. Na roda de hidroginástica, o aposentado Miguel Angfel Andrada encontrou sua praia. Quem pensa que na terceira idade se perde o interesse pelos relacionamentos se engana. Muitos fazem questão de manter acesa a luz da vida. “Isso aqui é uma escola. Além do físico, ajuda também a cabeça”, avalia o aposentado Zencho Toyano. “Não é só a parte física que melhora. Sexualmente, todos estão 100%”, garante seu Miguel.

O PREÇO DE UM BOM SALÁRIO.

Um estudo começou pouco depois da Segunda Guerra Mundial. O governo Britânico selecionou todas as pessoas que nasceram em uma semana específica do ano de 1946. Fez o mesmo em 1958 e novamente em 1970. A vida delas foi acompanhada minuciosamente e se pôde fazer uma comparação das mudanças que ocorreram de geração para geração. Elsa Ferry é uma das principais responsáveis pela pesquisa. Diz que entre as muitas informações, uma das que chamou mais atenção foi de que, para as gerações nascidas em 1946 e 1958, apenas 2% ou 3% se consideravam infelizes; para quem nasceu em 1970, esse número pulava para mais de 20%. Imprecisas como são as razões para isso, o que se estranha é que a década de 60, do rock n’roll, da pílula e da maior liberdade sexual, deveria ter trazido uma vida melhor e não o contrário. Elsa dá uma possível explicação. “Quem nasceu em 70, de maneira geral, continuou com empregos parecidos com os dos pais. Se era pobre, continuou pobre. A chance de melhorar de vida diminuiu, existe muito menos mobilidade social hoje do que no passado”, diz a pesquisadora. A Grã-Bretanha viu nas últimas décadas setores inteiros de trabalho praticamente desaparecerem. Fábricas, estaleiros e minas deram lugar a uma economia de serviços. O país está mais rico, mas se trabalha muito mais. A vida das pessoas, aos poucos, foi sendo atropelada. Mais competição, mais insegurança, mais estresse. Na Grã-Bretanha é onde se trabalha mais horas por semana na Europa e onde se tira menos férias – em média, por ano, trabalham oito semanas a mais do que os franceses ou os alemães. E, no mundo, só perdem para os coreanos do sul quando se trata de insegurança em relação aos seus empregos. O resultado de tudo isso são níveis altíssimos de estresse e a sensação de que o trabalho suga a vida. A conseqüência dessa crise, que é britânica, mas também comum em grande parte do mundo ocidental, é que se estima que no ano 2020 a depressão será a doença mais comum. Mais da metade dos britânicos se dizem exaustos depois de um dia de trabalho. Os estudos e as discussões começam a reconsiderar o preço que se paga por um salário.

SOFRIMENTO COMPARTILHADO.

Nos Estados Unidos, um programa de computador ajuda adolescentes com depressão. O "teen screen", avaliação de adolescentes, foi criado na Universidade Columbia, em Nova York, por Laurie Flynn. No programa, as escolas convidam os alunos a responderem no computador a uma série de perguntas. Os jovens em risco são encaminhados para aconselhamento e psicoterapia. Laurie acredita que esse questionário, aplicado em muitas escolas em todo o país, já salvou a vida de milhares de jovens. A filha de Laurie sofreu de depressão na adolescência. A depressão é uma doença solitária e silenciosa. Em geral, nem os pais percebem que há algo muito errado com o filho ou a filha. Ela aconselha os pais a agirem assim que desconfiarem que algo não vai bem. Seguir a intuição materna, ou paterna, é o melhor caminho. Afinal, coração de mãe não se engana. A depressão na adolescência é a terceira causa mais freqüente de morte entre os adolescentes nos Estados Unidos. “Sentia-me totalmente isolada, não tinha com quem falar. Ninguém me entendia”, conta a jovem Eva. “Cada vez que entrava em depressão meus pais me internavam durante meses num hospital. Saía pior do que antes”, relata a jovem Dali. Eva e Dali trabalham ajudando outros jovens a enfrentar a depressão. Eva criou um programa que reúne jovens internados por depressão profunda. Nos grupos, descobrem que não estão sozinhos e que podem receber apoio dos companheiros. É o caminho para romper a barreira do isolamento. Foi em um desses grupos que Eva conheceu Dali, uma jovem da República Dominicana de origem muito pobre. Dali entrou em depressão pela primeira vez aos 12 anos. Era internada, mas nem os colegas dela ficavam sabendo do motivo. Falar em depressão é tabu, um segredo que as famílias preferem esconder. Eva e Dali tiveram sorte. Sobreviveram aos momentos mais difíceis da adolescência. Hoje, continuam tomando remédios, sabem que, pelo resto da vida, vão ter que manter a depressão sob controle. Mas encontraram no apoio mútuo, no diálogo com aqueles que sofrem como elas, o caminho da saúde e da vida.

IOGA: AJUDA ATRÁS DAS GRADES.

Quem vê homens em meditação, profundamente concentrados, pode pensar que estão em um templo budista, imersos em orações e embalados por mantras. Na verdade, fazem parte de um grupo que luta contra a depressão com a ajuda da ioga. Um tratamento pouco comum aplicado onde a técnica nunca havia sido experimentada. Se a depressão muitas vezes aprisiona o doente em sensações de tristeza, apatia e desânimo, como libertar-se dela vivendo em um lugar cercado por grades de celas reais, em uma prisão de verdade? Penitenciária de Guarapuava, região central do Paraná. No local, 240 presos cumprem pena em um regime severo de disciplina e trabalho. Nas celas que privam da liberdade os criminosos, como reage a mente de quem jura inocência e garante não ter cometido crime algum? “Choro, tristeza, angústia, rebeldia”, conta o presidiário Admar Maboni. Admar foi condenado a 20 anos de prisão acusado de ter matado um argentino que passeava pelo Paraná. Nega o assassinato e diz que a prisão fez dele uma pessoa depressiva. “Você fica completamente nu dentro de uma cela fria, sem ninguém para estender a mão e tirá-lo do sufoco. Nessas horas é que fica mais difícil”, diz o presidiário. Nas posturas e movimentos da ioga, Admar tem encontrado o equilíbrio necessário para enfrentar a vida em uma cadeia. “Você viaja constantemente, o próprio relaxamento faz com que se torne uma ave e ganhe asas para voar”, comenta ele. Quem um dia fez da prisão de criminosos um ofício se viu do outro lado da cela. O ex-policial Carlos Kutz foi condenado pela participação em um seqüestro. Revoltado, nervoso, passou por um manicômio judiciário, onde foi tratado com drogas pesadas. “Se está estressado, por exemplo, dão uma injeção e você dorme uma semana, 15 dias. Não querem saber como está interiormente”, diz ele. Em Guarapuava, o ex-policial encontrou na filosofia milenar da ioga um tratamento mais suave e de ação mais profunda. “Esse relaxamento surtiu um grande efeito. Extravaso certas coisas que tenho guardadas e saio até mais alegre. Permaneço por um certo tempo com o espírito mais apaziguado, mais tranqüilo“, conta Carlos Kutz. A ansiedade do presidiário Isaías Muller ainda transparece. Aos 12 anos, tornou-se dependente de drogas. Quando entrou na cadeia, enfrentou a abstinência e encontrou na ioga uma força vital. “A ioga ajudou muito na abstinência da droga. Depois do relaxamento, quando voltava para o xadrez, em vez de ficar pensando no cigarro ou na droga começava a fazer as posições, concentrava-me e a vontade de fumar sumia”, conta ele. As mãos agitadas durante a conversa agora pairam firmes em movimentos seguros. A nova terapia também trouxe resultados no ambulatório. Antes, quando a ioga não fazia parte da rotina da penitenciária, todos os dias, 40 presos recebiam medicamentos antidepressivos, principalmente por causa de ansiedade e insônia. Hoje, apenas oito presos são submetidos a esse tipo de tratamento. “Aos domingos, as famílias vinham visitá-los e, às vezes, as tratavam de forma hostil, agressivos, distantes. Às vezes, não queriam nem receber a família. Hoje as famílias nos trazem relatos da mudança: estão mais calmos, tranqüilos, alegres”, revela a psicóloga Luciane Sécula. “Está mais contente, mais calmo. Tem vontade de estudar, de trabalhar, de sair e ir viver a vida lá fora, a liberdade”, confirma Anita Maboni, mãe do presidiário Admar.

GLOBO-REPÓRTER: OS LIMITES DO CORPO—29 DE AGOSTO DE 2004.

REFLEXOS NO CORAÇÃO.

Que o sedentarismo deixa marcas visíveis no corpo, como aquelas gorduras mal localizadas, isso é fácil de perceber. Mas como o coração reage à falta de atividade? A resposta pode estar no desempenho de ratinhos atletas. Durante quatro semanas, pesquisadores do Departamento de Fisiologia da Universidade de Campinas (Unicamp) compararam a performance de ratinhos que se alimentavam de ração normal com a de outros que recebiam uma ração rica em gordura. Um grupo só comia e descansava; o outro, entre as refeições, era submetido a um programa de exercícios - sessões de natação, quatro vezes por semana, durante 50 minutos. O estudo acabou mostrando que o exercício físico é capaz de prevenir a formação de gordura no coração dos ratinhos. “O rato que consome uma dieta normal e treina tem um desempenho, uma resposta cardíaca, vamos dizer assim, muito melhor que o rato que ingere a dieta lipídica e treina também. O animal normal treinado é bem mais vigoroso. O ideal é uma dieta equilibrada, associada a exercícios físicos, pelo menos para os ratos”, avalia a farmacêutica Dora Grassi Kassisse. Mas, e nos homens? O resultado seria o mesmo? A medicina já tem provas suficientes para afirmar que os sedentários correm um risco três a quatro vezes maior de desenvolver doenças do coração. “A pessoa que não se exercita vai perdendo vitalidade, envelhecendo precocemente. Perde habilidade, destreza e em pouco tempo diz assim: ah, ali tem muita escada, não vai dar para eu ir”, diz o cardiologista Cláudio Gil. Há seis meses a dona de casa Cláudia Russo passa a manhã inteira na academia, pelo menos seis vezes por semana. A decisão não foi espontânea. Aos 39 anos e nenhum exame que mostrasse problemas de coração, Cláudia teve um infarto. A ardência no peito veio quando ela se preparava para viajar com o marido e os dois filhos, no sábado de carnaval. “Troquei uma viagem de carnaval por uma semana deitada em uma cama de hospital. Para minha família e meus amigos foi surpreendente mesmo, ninguém esperava”, diz Cláudia. O susto maior foi porque Cláudia não tinha mesmo o perfil de uma pessoa do grupo de risco. Uma dona de casa tranqüila, só um pouquinho acima do peso. Mas não se preocupava em fazer exercícios. O coração mandou um recado. “Não menospreze suas coronárias, porque 50% dos indivíduos que enfartam nunca tiveram sintomas antes”, alerta o cardiologista. “Acho que foi um aviso para eu mudar de alguma forma. Tinha que mudar minha vida, fazer alguma coisa que não estava fazendo. No caso, o exercício”, conta Cláudia. Para indicar o exercício ideal, o médico testa a capacidade do paciente fazendo a captação de oxigênio, um exame considerado mais eficiente que o teste ergométrico. Para o empresário José Antônio Rochedo, será um programa intenso, já que ele teve uma alta de pressão súbita e precisa urgente perder peso e se exercitar. “Acho que vou ter que gostar de fazer exercício. A situação é: tenho que gostar para poder mudar meu estilo de vida”, ressalta o paciente.

GLOBO-REPÓRTER: SAÚDE PARA O CORAÇÃO—24 DE SETEMBRO DE 2004.

OVO NÃO É O VILÃO.

Máquina perfeita, que faz a vida pulsar. Comanda todo o nosso corpo, até os sentimentos. Saudável, funciona como uma usina de força. Mas sem a manutenção adequada, vira sinônimo de risco. As doenças do coração, segundo as pesquisas, matam cerca de 30% da população do planeta. Superam a violência urbana e as guerras. No Brasil, todo dia morrem 436 pessoas. A saúde desse órgão tão vital depende muito da maneira como nos alimentamos. Quanto mais gordura, mais colesterol ruim e mais risco de infarto. Um estudo recente acompanhou os hábitos alimentares de 17 mil pessoas nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal. Resultado: os americanos, amantes do fast food, da refeição rápida, são os campeões do colesterol alto. Nós, brasileiros, ficamos em segundo lugar. Perdemos feio para os portugueses. Temos 13 vezes mais colesterol que os lusitanos. É que os nossos patrícios costumam dispensar a gordura saturada e se entregam aos prazeres da cozinha do Mediterrâneo. "Se imitássemos nossos patrícios, certamente teríamos uma chance muito menor de ter calcificação nas artérias e infarto do miocárdio”, diz o cardiologista Raul dos Santos, do Instituto do Coração de São Paulo (INCOR). O médico fez parte da equipe de pesquisadores no Brasil. Ele é especialista em colesterol e na prevenção de doenças cardiovasculares. Em um passeio por um bufê em uma churrascaria, o cardiologista revelou algumas surpresas. Quem disse que um lombinho de porco faz mal? "Nem toda gordura de porco é ruim. O lombo de porco, por exemplo, é uma carne que não tem muita gordura saturada. Poder ser consumida mesmo por quem tem colesterol alto", afirma o médico. E para ajudar a baixar o colesterol, sugere peixe e azeite de oliva. Diz que esses alimentos concentram gorduras benéficas: a poliinsaturada e a monoinsaturada. "As vantagens dessas gorduras monoinsaturadas e poliinsaturadas é que ajudam a baixar o LDL, o colesterol ruim. E a gordura monoinsaturada, que é a gordura de alimentos como azeite de oliva e abacate, ajuda a aumentar o HDL, o colesterol bom", explica o especialista. Para quem vive falando mal do ovo, uma novidade: "O ovo é um alimento injustiçado. Apesar de conter uma quantidade razoável de colesterol, praticamente não tem nada de gordura saturada. E o organismo tem uma capacidade limitada de absorver o colesterol que está no ovo". Na churrasqueira, vendo gordura escorrendo, espetos de dar água na boca, o médico surpreendeu mais uma vez: carne vermelha, magrinha, duas, três vezes por semana, não é tão desaconselhável como falam, principalmente para as mulheres. "A mulher tem uma chance maior de ter anemia que o homem, por causa da menstruação. Então, é importante comer carne vermelha, porque esta é a melhor forma de absorver o ferro", diz ele.

CAMINHO LIVRE NAS ARTÉRIAS.

Nosso organismo produz 70% do colesterol que circula na corrente sanguínea. Vem do fígado, tanto o bom (HDL) quanto o ruim (LDL). Toda a outra parte, que corresponde a 30%, depende do que comemos. Nas artérias, a gordura vai se acumulando nas paredes e, com o tempo, se calcifica. Formam-se então as chamadas placas duras, que impedem a passagem do sangue. Mas são as placas moles uma das mais recentes descobertas da medicina. Uma novidade perigosa. "Tem sido demonstrada como a principal causadora dos eventos agudos, como infarto agudo do miocárdio”, diz o cardiologista Carlos Eduardo Rochitte. O cardiologista mostrou como elas se alojam nas coronárias. “Observa-se um espessamento da parede, demonstrando uma placa mole, em uma região não calcificada. Mais adiante, começam a ser identificadas as placas calcificadas. São as áreas brancas”, demonstrou o médico na tela do computador. As placas de gordura levaram a dona de casa Maria dos Santos ao centro cirúrgico. Tinha duas artérias obstruídas e sentia dores insuportáveis. "É tão forte que chega a subir pela garganta, parece que vai me sufocar. Deve ser como uma pessoa que quer matar outra enforcada. É horrível", descreveu a paciente, a caminho do centro cirúrgico. O cirurgião Expedito Ribeiro mostrou em uma ilustração como ia aliviar as dores no peito de dona Maria. "Essa é uma situação em que a artéria está completamente obstruída. Um cateter vai abrindo um túnel nessa obstrução, através do qual a gente passa uma corda guia, um fio com um balão para abrir o local. Depois vem o stent, uma mola de aço inoxidável, colocada para alargar o local que estava estreitado", explicou o médico. Dona Maria ficou pronta para se submeter ao tratamento. Só faltava o stent, uma pequena prótese de aço inoxidável, que mede menos de cinco milímetros. Foi instalada pelo cateter na área que estava bloqueada pela gordura. "O balão permitiu que levássemos o stent até o local", anunciou o médico durante a cirurgia. Depois de instalado, o cirurgião mostrou onde fica o stent que passou a fazer parte do corpo de dona Maria. "É como se fosse um tubinho", disse ele. Na artéria que recebeu a prótese, o sangue voltou a circular. "O local que estava estreitado já desapareceu”, contou o médico. Dona Maria disse que o alívio foi imediato. Ela respirou fundo e desabafou: “Uma maravilha. Fazia muito tempo que não respirava assim". Pela reação dela, o médico teve certeza de que a angioplastia foi um sucesso. "Em alguns pacientes que sofreram infarto, por exemplo, essa melhora é muito rápida, imediata", disse ele.

ALERTA PARA O FUTURO.

Vale do Anhangabaú, Centro de São Paulo. No meio da rua, exames de graça para avaliar o coração dos paulistanos. De todos os fatores de risco, o colesterol é um dos mais traiçoeiros, segundo o médico Raimundo Marques, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Uma pesquisa concluída este ano revelou dados preocupantes. "Até 70% da população sabem o que é colesterol, mas 60% não fazem um exame de colesterol", constata o presidente da SBC. Um absurdo: 30% dos brasileiros não sabem nem o que significa colesterol. Os resultados, na grande maioria dos casos, são sempre desagradáveis. É tamanha a desinformação que os médicos estão assustados com as projeções para o futuro. "Hoje, 30% dos óbitos brasileiros são causados por doenças cardiovasculares, o que corresponde uma morte a cada dois minutos. Em 2020, a projeção é que isso atinja 50% da população, sendo uma morte a cada 30 segundos", alerta o médico Raimundo Marques. Uma doença silenciosa, sem sintomas. Pode até matar ou deixar seqüelas graves. A hipertensão atinge quase 24% da população do país. De acordo com uma pesquisa recente realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. A prevenção começa com um simples exame, que dura menos de um minuto. Medir a pressão arterial deve fazer parte das nossas preocupações. A pressão do taxista Valmirio Jacobi deixou uma enfermeira assustada: 24 por 12. “É uma pressão extremamente alta, o senhor precisa de acompanhamento médico”, anunciou a enfermeira. “Não sabia que tinha uma pressão assim. É a primeira vez que verifico”, revelou o taxista. “Uma pessoa com uma pressão de 24, ou 240 como preferimos chamar, tem alto risco de desenvolver derrame, infarto ou alterações renais no prazo de dez meses a um ano”, alerta o cardiologista Dante Giorgi. Segundo os cardiologistas, no Brasil uma em cada duas pessoas que sofrem de hipertensão sabem que têm a doença, mas não faz qualquer tipo de tratamento. “É mais ou menos como o motorista saber que o carro está sem freio e enfrentar uma descida de serra. A chance de cair pela ribanceira é muito alta”, avalia o médico.

RADIOGRAFIA DE UM HIPERTENSO.

O dia do comerciante José Hadid começa na Praia de Ipanema, Rio, com uma caminhada. Exercício físico é um remédio importante contra a hipertensão. Ele é um hipertenso de carteirinha e sabe que os exercícios matinais também ajudam a combater a obesidade. "Não é que coma muito. A verdade é que sou guloso", admite José Hadid. Guloso e cauteloso. O comerciante foi ao médico para uma avaliação. Tem 66 anos, está acima do peso ideal, e ainda sofre de uma arritmia grave. O coração bate acelerado, chegando a uma freqüência cardíaca de 120, 130 batimentos por minuto. Será que a hipertensão, neste caso, pode se transformar em um problema mais grave? "Agora estou sentindo um pouco de cansaço, fadiga, e falta de ar", relata José Hdid. Para os médicos, o diagnóstico mais seguro é feito com o holter, um equipamento amarrado ao corpo capaz de investigar a rotina da freqüência cardíaca. Durante 24 horas o aparelho registrou todas as atividades elétricas do coração de José Hadid. Não pôde se livrar disso em nenhum momento. “O objetivo é que a gente possa fazer um registro de 24 horas do eletrocardiograma dele. Recebe um diário em que anota as principais atividades do dia", disse o cardiologista Roberto Sá. E o dia de José tem momentos de muita tensão. Nada mais estressante do que enfrentar o trânsito do Rio de Janeiro. "Uso o carro por obrigação. Acho que dirigir nesse trânsito faz mal", diz ele. No dia seguinte, José foi devolver o aparelho e entregar suas anotações. No monitor, os médicos examinaram os gráficos do holter. É a leitura de todos os movimentos que fez nas últimas 24 horas. "Houve um momento dirigindo em que ficou bastante estressado. A freqüência cardíaca acelerou a 120 batimentos por minuto", revela o cardiologista. “A partir de hoje tenho que aprender a gostar mais de mim e tratar de obedecer mesmo. Porque o método existe e o medicamento também. É só querer seguir”, concluiu o paciente.

CORAÇÃO EM TRÊS DIMENSÕES.

Hoje, os avanços da medicina já permitem diagnósticos mais precisos para todos os problemas cardíacos e tratamentos muito mais eficazes. O empresário José Mário Castão é um paciente que sofre de hipertensão. O exame a que se submeteu é o que há de mais moderno na medicina cardíaca: a tomografia computadorizada das coronárias. É um exame que mostra imagens nítidas, perfeitas, das principais artérias do coração. Isso sem precisar de nenhum procedimento invasivo, quer dizer, sem precisar de nenhuma cirurgia. É um raio-x bem mais completo que os tradicionais. Tudo é feito por computador. O aparelho mostra imagens em seqüência das coronárias, do músculo cardíaco, de toda a região investigada. O paraense José Mário foi de Belém para São Paulo tentar descobrir por que não consegue, nem com medicamento, combater a pressão alta. "Essa hipertensão se manifesta com dor de cabeça, dormência nos braços e resfriamento no corpo", relata o paciente. O medo dele é que o coração já esteja afetado. O cardiologista examina nas imagens detalhes dos ventrículos, das artérias, das contrações do músculo. "Nesse caso, estamos examinando o tronco da coronária esquerda. A parte verde é demonstrada em dois planos perpendiculares, o que nos permite olhar a artéria em vários ângulos ao mesmo tempo e dizer que a luz está preservada. Não há nenhuma obstrução evidente no momento que precisasse fazer um cateterismo ou um tratamento mais importante", anuncia o cardiologista Carlos Eduardo Rochitte. José Mário só precisou trocar o medicamento que controla a pressão.

ENTRANDO NO COMPASSO.

Quando o problema é sério, o coração de um hipertenso pode disparar de forma descontrolada. Para curar as arritmias, a medicina já conta com um novo tratamento. A técnica é conhecida como ablação, uma espécie de cateterismo que regula a freqüência cardíaca. O coração de um paciente bate 160 vezes por minuto, em repouso. Um quadro grave. Em situação normal, isso não passaria de 60, 70 batimentos por minuto, no máximo. "Essa arritmia ainda acarreta o risco de formar um coágulo dentro do coração. E se esse coágulo se desprender, pode causar um derrame cerebral", explica o cardiologista Eduardo Saad. Os impulsos elétricos que fazem disparar os corações descontrolados agora podem ser contidos. Para isso, a medicina criou uma cirurgia sofisticada. Dá para perceber pelo monitor que o procedimento está começando. O trabalho consiste em isolar um pedaço do coração. Os médicos desligam alguns fios por onde passa uma corrente elétrica que provoca a arritmia. Isso significa cauterizar esse pedaço do coração. “Através da cauterização, procuramos destruir um tecido que é anormal, que provoca a arritmia”, diz o médico. O médico trabalha com quatro cateteres. Um deles, de forma circular, faz o mapeamento da área a ser isolada. "A gente vê o cateter circular ao redor das veias que vêm do pulmão, perto do coração. A ponta preta é o cateter que faz a cauterização, realizando a desconexão elétrica dessa região do coração", acrescenta o cardiologista. Depois de quase duas horas, o médico conseguiu controlar o ritmo acelerado de um coração que não parava de dar sustos. "A gente já pode perceber que os batimentos estão mais lentos e mais regulares. Agora o coração está a 60 batimentos por minuto. A arritmia acabou", anuncia o médico ao final da cirurgia.

UM CORAÇÃO SEM FORÇA.

Tabagismo, hipertensão, diabetes, colesterol alto. Este é o perfil de um candidato ao infarto. A doença – que mata, por ano, 15 milhões de pessoas no mundo – é considerada a mais agressiva. O infarto ocorre com o bloqueio das artérias do coração, por um coágulo que se solta das placas de gordura. "É uma dor característica, porque, além de ser muito forte, você começa a sentir náuseas”, conta o empresário Virgílio Amorim. Ele só não pode se queixar da sorte. Virgílio Amorim já passou por três infartos e quatro acidentes aéreos. No último, estava sendo socorrido quando a porta do avião se abriu em pleno vôo. "Foi um barulho muito intenso dentro do avião. O médico gritava que ia morrer. E eu dizia que quem ia morrer primeiro era eu porque estava infartado", lembra o empresário. Medicamentos e hábitos saudáveis eram tudo de que Virgílio precisava. Hoje, o coração dele bate no ritmo da saúde. Fumante e estressado, o vendedor Adolfo Habrum trabalha 15 horas por dia. Estava em casa almoçando quando foi atacado pela dor forte no peito. "Em cerca de dez minutos fui levado por meu cunhando de carro de casa para a Penha", ele conta. Quanto mais rápido o socorro, maior a chance de escapar da morte, segundo o professor José Antonio Franchini Ramires, presidente do Instituto do Coração de São Paulo (INCOR). "Do total de pacientes com dor no peito, 40% morrem entre a casa e o atendimento. Por isso, não pode demorar. O paciente deve entrar na primeira porta de pronto-socorro que vir", explica o cardiologista. Nem todos os casos de infarto são identificados pelo eletrocardiograma. O médico cardiologista Carlos Alberto de Mendonça, de 71 anos, fez os exames tradicionais, mas não conseguiu descobrir a causa do desconforto que sente no peito. Em situações como esta, os especialistas recorrem à cintilografia cardíaca. "Diria que é um exame excepcional. Pelo menos quanto à doença coronária, é bastante efetivo", constata o cardiologista. A cintilografia é feita com um equipamento de última geração. Os médicos conseguem ver qualquer anormalidade no sistema cardiovascular. As imagens fornecidas pelo aparelho permitem diagnósticos mais precisos. Por uma mancha branca que aparece no coração, o médico descobriu que o cardiologista Carlos Alberto e Mendonça tem uma isquemia, um pequeno entupimento nas artérias. "Fazendo a avaliação, a gente chegou a 3% do músculo cardíaco sob essa isquemia. É um número pequeno”, avalia o cardiologista Cláudio Tinoco Mesquita. Risco grande viveu o ambulante Antônio Francisco da Silva. Foi internado no Instituto do Coração de São Paulo (INCOR) com três grandes obstruções nas coronárias. "Comecei a sentir uma pequena dor e depois foi aumentando mais", conta o paciente. Os exames confirmaram: o coração de Antônio Francisco pulsava sem força. Uma parte já estava comprometida pela falta de irrigação sanguínea. A cirurgia foi para implantar duas pontes de safena e uma artéria mamária. Com a experiência de quem já fez mais de 30 mil cirurgias como esta, o professor Sérgio Almeida de Oliveira teve nas mãos a vida de Antônio Francisco. A veia safena, retirada da perna, estava pronta para ser instalada. Por ordem do cirurgião, os anestesistas começaram a parte mais delicada da cirurgia: fazer o coração de Antônio Francisco parar. Os batimentos vão diminuindo. Por alguns instantes, o órgão vital perde sua função. A máquina faz o sangue circular e ser oxigenado, sem passar pelo coração, nem pelos pulmões. Assume as funções vitais enquanto o médico instala a safena. Depois de implantada a mamária, o coração de Antônio Francisco recebeu 60 milhões de células-tronco, retiradas da medula óssea dele. Os médicos do INCOR também fazem parte da pesquisa que tenta descobrir se essa técnica consegue recompor as áreas afetadas pelo infarto. "A parte que teve o infarto funciona, mas deficitariamente. A expectativa é que essas células aqui injetadas possam dar origem a novos vasos e eventualmente a um novo músculo também", anuncia o cardiologista. Uma semana depois, Antônio Francisco recebeu alta, se sentindo mais disposto e determinado a se cuidar melhor. Para os médicos, os infartados devem levar uma vida normal depois da cirurgia, mas precisam seguir algumas regras para fortalecer o coração. Deixar o sedentarismo de lado já um bom começo. Se quer começar a fazer uma atividade física e já passou dos 40 anos, antes de qualquer coisa precisa fazer um teste ergométrico. É um exame médico que permite avaliar a capacidade que o coração tem de suportar os exercícios. Um exame tão importante que pode salvar sua vida. Em companhia do cardiologista, a esteira leva ao limite do esforço, quase à exaustão. Mas tudo é controlado no computador. A anestesista Wilma Martins se submeteu a uma angioplastia para colocação de stent. Quinze dias depois já estava em um programa de reabilitação para vítimas do infarto. "Tinha falta de ar e não conseguia nem falar direito. Melhorei muito", afirma a anestesista. Os especialistas alertam: praticar exercícios físicos sem avaliação médica é fazer parte de um grupo de risco. "Se chegar a um esforço tal que possa desencadear alguma doença que já tinha sem diagnóstico, a pessoa pode ter um infarto durante uma atividade física", diz a cardiologista Patrícia Alves Oliveira.

INIMIGO DO PEITO.

O órgão mais precioso do nosso corpo vive cercado de inimigos. Um inseto, por exemplo, conhecido como barbeiro, é implacável. Costuma atacar comunidades pobres do interior, no Norte e no Nordeste do país e se esconde entre as paredes das casas de taipa. Carrega um protozoário que transmite a Doença de Chagas. Uma doença fatal que fere e deforma o coração. O agricultor Ailton Cruz Tibúrcio e a dona de casa Clotilde Miranda foram vítimas do barbeiro assassino que tentaram escapar da morte. A esperança deles foi uma pesquisa pioneira no mundo desenvolvida na Bahia. "A indústria não desenvolve drogas novas para curar a Doença de Chagas há mais de 20 anos porque não existe interesse econômico", diz o médico e professor Ricardo Ribeiro dos Santos. No Laboratório da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), em Salvador, Bahia, a equipe comandada pelo professor Ricardo Ribeiro há três anos vem trabalhando em uma descoberta que pode ser a cura da Doença de Chagas. A técnica utiliza células do nosso próprio corpo, as chamadas células-tronco, matrizes genéticas. As primeiras experiências foram feitas em 200 camundongos. Os resultados deixaram os cientistas animados: 90% das lesões cardíacas provocadas pelo barbeiro desapareceram. Nos seres humanos, os testes começaram em junho do ano passado. "Ainda é preciso uma série de estudos e uma comprovação de pelo menos 300 pacientes da eficácia dessa técnica para a gente dizer que realmente é uma solução para o chagásico", pondera o médico. Clotilde foi a 18ª paciente dos pesquisadores. De acordo com a avaliação dos médicos, perdeu quase 70% da capacidade do coração por causa da Doença de Chagas. "Os sintomas eram inchaço nas pernas e na barriga, palpitação e fadiga", relatou a paciente. Amparada pelo carinho do marido, Clotilde se preparou para receber as células-tronco. No centro cirúrgico, médicos e enfermeiros começaram o procedimento. Com uma seringa, retiraram o líquido da medula óssea, a parte do corpo que chamamos de bacia. É lá que fica a maior quantidade de células-tronco. O trabalho em seguida foi no laboratório. É preciso filtrar o sangue para recolher as células. Tudo é feito em uma centrífuga. A esperança de Clotilde representou apenas 1% de tudo o que foi retirado da medula óssea dela. Ficou no meio de um tubo, entre uma parte branca e outra amarelada, onde se concentram as células-tronco. Uma hora depois elas já estavam prontas para voltar ao corpo de Clotilde, mas com uma outra missão: recuperar o coração ferido. Seriam células inteligentes? "Essas células-tronco reconheceriam os lugares que precisam ser tratados da mesma forma que alguém com uma chave na mão vai tentando abrir uma fechadura. Acreditamos que vai buscando até achar", comenta o hematologista Augusto Mota. Os médicos dizem que o procedimento é simples. É necessária anestesia só na virilha, para uma pequena incisão. O primeiro cateter vai levando um contraste. Só assim os médicos conseguem ver onde estão as lesões. O médico cardiologista Augusto Almeida confirmou que as artérias coronárias estavam prontas para receber as células. "Vou colocar um segundo cateter, mais fininho, injetar as células-tronco por ele", anunciou o médico. Devagar, com muito cuidado, o médico foi injetando o líquido retirado da medula óssea. Foram 20 mililitros de células distribuídos entre as três coronárias. "A garantia de que o coração da paciente está recebendo as células-tronco é a posição do cateter, que foi checada antes com o raio-x e com o contraste. As células-tronco mesmo são invisíveis", diz o cardiologista. Clotilde acompanhou todo o trabalho dos médicos acordada e disse que nem o movimento do cateter lhe incomodou. "Estou muito mais do que alegre", comemorou a paciente. Mas como fica o coração depois de receber as células-tronco? Os pesquisadores acompanharam com uma câmera especial várias etapas do tratamento. "Duas horas depois da injeção a gente vê as células-tronco recém-injetadas chegando ao coração. As células-tronco vão se incorporando ao tecido cardíaco", explica o médico Ricardo Ribeiro dos Santos. Aos poucos, vão reconstituindo as áreas afetadas. "Já se confundem um pouco com o músculo e começam a colar nele. Depois de cinco a nove dias, os exames mostram que essas células-tronco se integraram ao coração e transferiram o material delas para a fibra cardíaca, modificando-a", continua o médico. Cerca de 2 milhões de brasileiros sofrem de distúrbios cardíacos provocados pela Doença de Chagas. Taquicardia, cansaço, falta de ar. O agricultor Ailton Cruz Tibúrcio, que vive da agricultura, chegou ao último estágio da Doença de Chagas. Não imaginava que hoje pudesse estar na roça, trabalhando na enxada. "Tinha uma tristeza na minha vida. Cheguei a um ponto em que eu mesmo já estava desenganado. Não falava para ninguém, mas dentro de mim mesmo às vezes chorava sozinho e dizia que ia morrer muito novo", conta o agricultor. O sofrimento de Ailton deixava a família dele desesperada. "Em certo momento me senti abatido. Foi quando o vi num canto, chorando. Falou para cuidar da minha mãe porque a hora dele estava chegando", lembra Amilton de Jesus Tibúrcio, filho do agricultor. Hoje, Ailton está tão otimista que já se sente quase curado. "Aquele período foi muito difícil porque pensava que não teria saída", emociona-se. A saúde de Ailton melhorou muito depois das células-tronco, dizem os médicos. Clotilde não teve a mesma sorte. Morreu um mês depois do início do tratamento. Só quando conseguirem testar a experiência em 300 pessoas os cientistas vão concluir a pesquisa. Até agora trabalharam com 18 vítimas do barbeiro, das quais 17 conseguiram reduzir os efeitos da Doença de Chagas.

O CHOQUE QUE SALVA.

Aos 20 anos de idade e com vigor físico de um jovem saudável, de repente o estudante Anderson Rodrigues desmaiou jogando bola com os amigos. Um acidente parecido tirou a vida, dentro de campo, de dois jogadores profissionais. O húngaro Miklos Fehér, do Benfica de Portugal, e o camaronês Marc-Vivien Foe, foram vítimas da morte súbita. Anderson teve sorte porque o coração dele reagiu durante o desmaio, mas vai precisar passar por uma cirurgia. "A cirurgia é para botar um aparelhinho no coração, que dá um choque para reanimá-lo caso pare", diz o jovem. O aparelhinho a que ele se refere é um desfibrilador interno, única alternativa segura de sobrevivência. "Uma anomalia genética provoca a substituição do músculo do coração por gordura. Com isso, o coração, além de ficar fraco, fica pré-disposto a ter arritmias que podem ser fatais", explica o médico cardiologista Eduardo Saad. Antes da cirurgia, o médico precisa comprovar se a causa do desmaio foi mesmo uma crise de arritmia. Para isso, os batimentos cardíacos são acelerados. "É capaz que fique até sem pulso por alguns momentos, mas a gente tem como resgatar o paciente através de um choque elétrico", tranqüiliza o médico. O coração começa a disparar e chega a 240 batimentos por minuto. Entra em um processo que os médicos chamam fibrilação. A pressão arterial cai, chegando a quase zero. É o momento mais crítico. Tudo é monitorado, controlado pelo cardiologista. Quando o coração pára, o paciente é reanimado imediatamente. A descarga elétrica é violenta. "Um choque de pouco mais de 900 volts. É um choque forte", diz o médico. Quando a cirurgia começa, o coração já voltou a bater na freqüência normal. O aparelho instalado em Anderson pesa 78 gramas e tem mais ou menos 7 centímetros de diâmetro. Uma parte metálica é de titânio; outra é de silicone. Dentro tem uma bateria que dura de 5 a 7 anos. Por uma incisão no peito, o cirurgião instala os eletrodos, os fios que fazem a ligação entre o aparelho e o coração. "A parte mais escura faz parte do circuito capaz de dar o choque. Fica dentro do ventrículo, dentro do coração", diz o médico. Difícil foi encontrar a melhor parte do coração para encaixar os eletrodos. "Colocamos no lugar mais saudável que achei", conta o médico. O momento decisivo da cirurgia é o teste final. O médico cardiologista Eduardo Saad precisava saber se o desfibrilador interno, instalado no peito esquerdo de Anderson, estava mesmo funcionando. Para isso, sofreu mais uma arritmia grave e mais uma parada cardíaca. Os batimentos foram novamente acelerados até o coração não suportar. Anestesiado, Anderson precisou passar por mais uma descarga elétrica. "Deu para perceber que o aparelho está funcionando muito bem. É capaz de reconhecer que o coração está em ritmo capaz de matá-lo, como se fosse morte súbita. E uma vez liberada a energia, o paciente volta ao ritmo normal", explica o médico. Depois de tanta tensão, o médico relaxou, com a sensação de mais uma missão cumprida. "É um momento de muito estresse, de muita angústia. Sempre gosto de passar por esse momento o mais rápido possível", diz ele. Acomodado entre a pele e o músculo do peito, o desfibrilador passou a fazer parte do corpo de Anderson. Diz que não se importa. Pela vida, vale qualquer sacrifício. "Esse marcapasso representa tudo na minha vida agora. Agora e sempre. É muita alegria", comemora o estudante. Quinze dias depois, Anderson voltou para casa. O reencontro com a família foi um momento de muita emoção. A tecnologia a serviço da saúde. Remédios e tratamentos mais eficazes. A medicina não pára de descobrir alternativas para preservar a vida. Mas tudo depende de uma mudança de hábitos: parar de fumar, não comer gorduras, praticar exercícios, combater o estresse, evitar o que não é saudável. O coração agradece.

GLOBO-REPÓRTER: ESTRESSE—24 DE OUTUBRO DE 2004.

ESTRESSE NO PARAÍSO.

Estresse, depressão, pressão alta. Males típicos dos habitantes das grandes cidades. Mas será só deles? Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, é uma pequena cidade de pescadores a 200 quilômetros de Curitiba. Fica perto do Porto de Paranaguá, mas a estrada é tão ruim que o meio mais fácil de chegar é pelo mar. Quem vem das cidades grandes e chega a Guaraqueçaba pensa que descobriu um pedacinho do paraíso: pouco mais de oito mil habitantes, praias lindas, peixe fresco na mesa e muito, muito sossego. Mas esse cenário de sonho esconde uma realidade bem menos poética. Há três anos, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) mandou para a cidade uma equipe de saúde. Foi ela que descobriu: 26% da população têm pressão alta. É quase o dobro da média nacional, que é de 15%. Se houvesse uma lista das cidades mais estressadas do Brasil, Guaraqueçaba estaria entre as primeiras. “Não é só a cidade grande que estressa as pessoas. A pequenininha também. A seu modo, cada cidade, cada vilarejo tem seu problema de estresse. Para os turistas, é muito bonito ver os barquinhos ancorados, saindo para pescar, mas, para os moradores, é a solidão, lugar de isolamento”, observa o coordenador de saúde do programa Pró-Ação, da PUC do Paraná, Ernesto Josué Schmitt. E o isolamento pode apavorar uma pessoa nos momentos mais importantes da vida. O que seria uma expectativa feliz para a arrumadeira Maria Isabel Martins se transformou numa fonte de estresse. O terceiro filho está para chegar. “Agora é que vem a preocupação. Meu maior receio é a hora do parto porque muitas coisas acontecem no hospital por falta de recursos”, diz Maria Isabel. O marido de Maria Isabel não tem trabalho fixo. É ela quem garante o sustento da família com o emprego de arrumadeira. “Desemprego, preocupação com tudo, até com a educação dos filhos da gente. Toda essa beleza não resolve, porque aqui existe desemprego, pobreza, e não só na área de saúde, aqui falta muita coisa”, comenta Maria Isabel. O impensável está acontecendo em Guaraqueçaba. A razão de vida dos homens que nasceram e se criaram na cidade está faltando também. Já não há peixe para encher as redes dos velhos pescadores. A pesca industrial, com os grandes barcos, não deixa sobrar nada para os pequenos. “A quantidade antigamente era dobrada. Saíamos para pescar e pegávamos 80, 100, 150 quilos de camarão. Agora, a gente pega dois, três quilos, quando dá camarão em área boa. A pescaria está fraca”, conta o pescador João Castelar Simão. “Hoje, por exemplo, saí às 4h, e peguei umas duas dúzias de camarão. A gente sofre um pouco para trazer o pão para casa. Não é fácil”. Desde quando foi transformada em área de proteção ambiental, ficou difícil a sobrevivência em toda a região. Na Ilha das Peças, vizinha à Guaraqueçaba, a criação do parque alterou as tradições da cultura local. Agora, é proibido plantar. “A produção da mandioca era tradicionalíssima aqui. Hoje a mandioca foi extinta – não temos mais mandioca, nem as fábricas da mandioca, que eram artesanais. Não temos mais a rocinha de subsistência. Não se pode roçar um terreno para plantar mandioca”, revela o escultor Renato Siqueira. Quanta dificuldade. Até a pesca foi atingida pelas novas leis de proteção ambiental. É bom para a preservação do lugar, mas para quem depende disso para viver, é mais uma fonte de angústia. “De repente, você começa a sair para pescar e tem que cuidar para ver se o barco da fiscalização não está vindo. O pescador não consegue ter paz”, comenta Renato. Quem avalia o drama dos caiçaras é Renato, escultor e descendente de índios guaranis. A alternativa para o isolamento pode ser o turismo, mas ainda não há nada organizado e que aproveite a mão-de-obra local. “A gente quer um turismo ecológico bem feito, que respeite o meio ambiente e a cultura do povo. Esse é o tipo de turismo que a gente quer”.

RECOMEÇO.

Tem uma hora que se percebe que o estresse está ganhando a batalha da vida. Para algumas pessoas, a única solução é o rompimento drástico. Deixar para trás o trabalho, a cidade, a casa, e até a família e os amigos e tentar começar tudo de novo em outro lugar, de outro jeito. Na Ilha do Mel, encontram-se pessoas que fizeram isso e que garantem ter conseguido mais saúde e mais felicidade na nova vida. A ex-gerente de banco Alcione Haus está na Ilha do Mel há quatro anos, morando sozinha, mas sempre cercada de amigos. Deixou o ritmo pesado de São Paulo e do trabalho no dia em que sentiu a saúde em risco. “Muito estresse de tudo, principalmente do trabalho. Depois de ficar de cama, com estresse, deitada, com depressão, pensei bem: ‘O que estou fazendo aqui? Quero qualidade de vida, viver melhor’. E por isso eu vim”, conta Alcione, que pediu demissão quando tinha 28 anos de serviço. “Perdi o direito à aposentadoria integral. O que adiantaria ser uma velhinha aposentada que não poderia descer sozinha de uma escada de avião? Então, prefiro ter uma vida modesta agora, mas tranqüila, com saúde total. A partir do momento que passei a morar aqui não tomei nem mais um remédio”, afirma. Se vai ficar na ilha para sempre ou por quanto tempo ficará, Alcione não sabe. Não faz planos. Mas garante que para tirá-la da Ilha do Mel, só um convite muito especial. “Só por uma coisa muito legal, muito boa. Mas não penso nisso. Por enquanto, não tenho nem uma vontade. Isso aqui é um paraíso”, garante. Simone e Charles Príncipe Oliveira se conheceram há muito tempo. Começaram um namoro, mas ele voltou para o Rio; ela, para Curitiba. E o romance acabou. Reencontraram-se há quatro anos na ilha. Ela, construindo uma pousada; ele, decidido a acabar com a depressão. “Para sair dela, a alternativa é buscar outro lugar. Mudei radicalmente, mas não de graça, aleatoriamente. Preparei-me para vir para cá”, conta Charles. Os dois casaram-se. Mas os dias de sombra e água fresca duraram pouco. Ele, que já era produtor musical, agora acrescentou outras atividades ao seu dia de trabalho: produz um site da ilha, é fotógrafo, participa da associação de moradores e ajuda a promover eventos de esporte e turismo. “Ele desestressou mesmo. Não sei como era antes, lá no Rio. Mas já não trabalha à noite e a qualidade de vida aqui é bem diferente. Hoje é um homem agitado, mas não se estressa”, observa Simone, professora de educação física. Charles acha que na ilha descobriu a receita de viver bem. Uma mistura do que já foi, com o que aprendeu a ser. “Vim para cá justamente para não perder esse espírito carioca e o conciliei com o espírito caiçara de viver”, diz Charles.

POESIA NO TRÂNSITO.

O trânsito se arrasta. Pára. Parece um imenso cortejo, quase imóvel. Faz calor. O ruído dos motores, das buzinas, das sirenes, é o som da impaciência, do cansaço. Dá vontade de chegar em casa. Mas falta muito ainda - até o final da linha são 51 quilômetros, e Armando Correia Filho está nessa rotina há seis anos, dirigindo às vezes mais de dez horas por dia. “Além do trânsito, tem a carga horária que devemos fazer”, diz o motorista de ônibus. De repente, avisa: “Vou dar uma paradinha para um socorro”. Outro ônibus acabava de ser assaltado. Armando parou para oferecer ajuda. Os passageiros estavam assustados. “Estava em pé e comecei a perceber que o senhor sentado na minha frente estava tirando a pulseira”, conta um passageiro. “A gente sempre convive com isso”, diz Armando. “Comecei a ficar nervoso, joguei minha carteira por baixo do assento”, continua o passageiro. “Já fui vitima de assalto duas vezes, até com caso de morte”, revela o motorista. “Eles estavam armados, eram perigosos”, observa ainda o passageiro. “No Rio de Janeiro é normal”. “Você tem que suportar tudo e continuar trabalhando”, diz Armando. Para atenuar a tensão, Armando se vale de um talento que cultiva desde menino. “Enquanto dirijo, crio uma poesia e às vezes a transformo em música. Isso é a minha terapia”, conta. “A inspiração quase sempre vem no meio do caminho. Um dos poemas, fiz vendo um enterro”. Não quero que ninguém chore quando desta vida eu partir. É só isso que imploro a quem vier se despedir. E lá vai Armando, no meio do trânsito, espantando o cansaço, o perigo, com suas rimas e versos. O que importa é ser artista no volante, na pista. E ter talento pra mostrar todo o dom que Deus o dá.

CANSAÇO, ANGÚSTIA E FALTA DE PRAZER.

Devastador. É o Mal do Século. O estresse afeta mais de 90% da população mundial e não poupa ninguém - moços, velhos, ricos ou pobres. No rosto, deixa mais cedo as marcas da velhice. No corpo, é fator de risco para doenças fatais como câncer e enfarte. Outra conseqüência dramática: o estresse pode ser a origem até de problemas sexuais. Quantas mulheres não viram o seu casamento entrar em crise por pura falta de desejo. Uma delas está no auge dos 30 anos. É uma profissional liberal bem sucedida e dona de uma beleza exuberante. Quem a vê, não se dá conta do problema que enfrenta no casamento. “O cansaço mental e as preocupações do dia-a-dia acabam indo comigo para a cama. Durmo pensando nisso, preocupada com as coisas que tenho de resolver e não consigo me liberar, relaxar”, conta a mulher, que não quer ser identificada. E acontece com muita gente. Outra mulher buscou ajuda porque não conseguia se desligar dos problemas do cotidiano, da falta de dinheiro, das dívidas, do trânsito. “A relação sexual é uma entrega e você acaba não se entregando porque tem um monte de coisas para pensar que afetam este momento. Ficava tensa”, diz. “Reverter isso não é um processo difícil, longo. Claro que existem pessoas com traumas ou conflitos que precisam de uma terapia mais profunda. Mas, como estamos falando em estresse, é preciso aprender a lidar com o dia-a-dia, a estabelecer prioridades, a falar não”, orienta a psicóloga do Instituto Kaplan Cristina Romualdo. No caso dos homens, o problema ainda é agravado pelo fator cultural, a necessidade do desempenho espetacular que todos se cobram. “O homem sempre quer dizer que dá duas, três, dez, vinte, quando, na verdade, para dar uma tem dificuldade”, diz um homem, que não quer ser identificado. Ele faz parte de um grupo que é atendido no Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro. Todos foram buscar ajuda para problemas sexuais. “A gente não vai a um cinema, porque o dinheiro não dá, não tem diversão. O mínimo que a gente pode esperar da vida é exatamente...”

DRIBLANDO AFLIÇÕES DO TRABALHO.

O mundo das finanças: elétrico, nervoso, instável, tensão ininterrupta. Foi nesse cenário que a equipe do Globo Repórter conheceu Carmem Gonzales há seis anos. Executiva de um banco, corria sem parar. Viajava três vezes por semana. Um drama. Em casa, o filho sofria com a ausência da mãe e apresentava os primeiros sinais de vitiligo, doença de pele que, já está provado, ocorre sempre ligada a uma forte situação de estresse. Agora, a equipe reencontrou Carmem no novo emprego, aparentemente mais tranqüila. Não viaja tanto e acredita que recuperou o equilíbrio. O segredo não está no trabalho, mas em casa. Organizando melhor sua vida profissional, conseguiu tempo para cuidar dela mesma e da família. “A família é muito importante, é o centro. Tenho dois filhos maravilhosos, meu marido, isso é muito importante”, destaca a executiva. “Acho que hoje escuto muito mais e isso foi uma mudança. Hoje respeito mais o limite das pessoas, principalmente daquelas que estão ao meu lado”. “Gosto mais da minha mãe de agora. Ela está menos estressada e mais feliz. E estando feliz me deixa feliz”, diz Camila, filha de Carmem. “Era muito agitada, não conseguia ficar parada”, lembra Bruno, filho da executiva. Sem estresse, com a família reunida e apaziguada, a doença de Bruno já está quase desaparecendo. “Diminuiu muito, praticamente acabou. Exatamente por isso, por causa dessa relação. Estamos muito mais juntos, somos mais parceiros, mais amigos. A gente vive muito mais junto e isso é extremamente importante, até porque essa doença é uma doença psicossomática”, observa Carmem.

VITILIGO: UMA VIDA SEM COR.

Foi um trauma de infância que levou a massoterapeuta Maria Emília Feijó a conviver mais de 40 anos com vitiligo. A doença apareceu quando tinha apenas seis anos e foi dada pelos pais para outra família, para quem deveria trabalhar. "Sentia-me muito só. Davam-me alimento e tudo, mas não tinha carinho. Então me fechei muito. Era o que mandavam e ponto. Não tinha direito de dizer gosto disso ou gosto daquilo”, conta Maria Emília. Solitária, silenciosa, Maria Emília cresceu sob estresse e constrangida com sua grande mancha branca na barriga. “Incomodava-me muito. Era horrível botar uma roupa, vestir-me na frente das pessoas. Tinha vergonha, mas não falava, ficava só para mim”, diz. A vida seguiu seu curso. Maria Emília deixou a casa onde trabalhava, casou, teve filhos, encontrou uma profissão. Faltava tratar o vitiligo. Um tratamento que soma cuidados clínicos e psicológicos. Esta é a proposta do Ambulatório de Dermatologia Sanitária de Porto Alegre. “Há uma diferença muito grande entre o paciente que faz o tratamento integrado - médico e psicológico. O aspecto de repigmentação é muito maior em menos tempo do que naquele que só faz o tratamento médico”, diz a psicóloga Marisa Campo Muller. A psicóloga tem certeza. Há uma relação muito próxima entre situações de estresse, como a perda ou a separação de uma pessoa querida e o aparecimento do vitiligo. “É como se a pessoa não desse conta de administrar aquilo e de alguma forma o corpo manifesta a dor da alma”, explica a psicóloga. Maria Emília encontrou, assim, a resposta que tanto procurava. “Por que essa mancha na minha barriga? É falta de cor. O que é falta de cor? É falta de colorido na vida”, constata. Transformar a vida, ganhar espaço, vencer a marca que o estresse deixou. Uma nova Maria Emília começa a surgir. “Acho que conquistei direitos para mim, achava que só tinha obrigações. Quanto à mancha, está diminuindo bastante. Estou feliz. Ao menos sei que estou colorindo minha vida”, conclui Maria Emília.

CÂNCER: RELAXAR É O MELHOR REMÉDIO.

Duas mulheres se concentram no exercício do relaxamento. Para a dona de casa Rosilda do Sacramento Leal, sons e movimentos do ambiente vão aos poucos desaparecendo. É como um suave mergulho no escuro e no silêncio. E dali a partida para uma viagem mágica. “Fui direto para Aparecida do Norte. Cheguei lá e fui para a igreja. Em pensamento, vi o lugar onde Nossa Senhora fica. Do alto, abençoou-me a todo momento”, conta dona Rosilda. Com 58 anos, dona Rosilda descobriu um tumor no seio esquerdo. Era câncer, foi o desespero. “No meu caso, não foi nem medo da morte, mas de deixar meu filho sozinho. Já vivi bastante, mas ele depende muito de mim. Minha preocupação é meu filho”, diz a paciente. “É importante estarmos sempre relaxados, porque dá mais força, mais fé e confiança. E essa força cura. Precisamos estar com a cabeça bem relaxada, ter muita fé em Deus para vencer a batalha”, destaca Fabiano, filho de dona Rosilda. Casos como esse são a rotina da enfermeira Maria Helena Amorim. Foi ela quem criou no Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, no Espírito Santo, um atendimento especial para pacientes com câncer de mama, com grupos de relaxamento e meditação que ajudam a equilibrar o violento estresse causado pela doença. A técnica parece simples, mas com ela é possível fortalecer as chamadas células assassinas, capazes de atacar e eliminar as células dos tumores. “Ao mesmo tempo que são extremamente potentes para eliminar uma célula tumoral, são extremamente sensíveis ao humor do indivíduo. Então, numa situação de estresse, essas células tendem a decrescer no seu poder de atividade. Se a gente consegue - e tem conseguido, como estudos já comprovaram – fazer uma intervenção, no caso, utilizando a técnica de relaxamento, a gente consegue modular essas células, ou seja, aumentar a atividade delas em mulheres com câncer de mama”, explica a enfermeira. A advogada Marilene Ferreira ia fazer uma plástica quando foi surpreendida por um tumor. “Uma pessoa vaidosa como eu, pensando em ficar melhor, de repente vê a possibilidade de ficar somente com um seio. Nossa, aquilo doeu muito”, diz. O estresse foi tão grande que ela perdeu a razão. “Fiquei tão desesperada que pensei em pagar a alguém para me dar um tiro na cabeça. Estava destruída”, conta a advogada. “Não saía da minha cabeça que ficaria mutilada”. De tão tranqüila, ninguém diria que ela tinha acabado de chegar do centro cirúrgico, onde tirou o nódulo para a biópsia. O segredo, garante, foi o relaxamento. “Fiz tudo aquilo que aprendi com ela. Estava viajando num dos afluentes do Rio Amazonas, aquela tranqüilidade, vendo a natureza. Adoro a natureza e quando me vi naquelas águas tranqüilas, relaxei como me ensinou. Passei a conversar tranqüilamente, não senti nada”, diz. “Agora, estou vivendo, viva e vou viver muito mais. Vou ficar linda, maravilhosa”. Disposta, alegre, nem parece que há apenas 28 dias Sônia de Paula retirou totalmente o seio esquerdo. Dona de um restaurante, cozinha, atende aos clientes e ainda acha tempo para pintar. Mas nem sempre sentiu-se forte assim. Ainda se lembra do impacto com que recebeu o diagnóstico. “Você fica sem chão, desorientada. Chora, acha que acontece com todo mundo, menos com você. Também pensa se merece estar passando por isso”, comenta Sônia. Enfrentou com garra o longo ritual de exames, a cirurgia e até a perda do cabelo, causada pela quimioterapia. As sessões de relaxamento no grupo deram ainda mais força a essa guerreira. O que faz um homem entre essas mulheres? Também teve câncer no seio. É raro, mas a doença atinge também os homens. O aposentado Pedro Rossini igualmente não sabia disso. “Nunca soube. Jamais me preocupei com isso. Então, o nódulo foi retirado e feita a biópsia. E era câncer mesmo”, conta. Pedro e dona Lecy têm 43 anos de casados, dois filhos e duas netas. Moram no interior do Espírito Santo. “Era bem estressado, mesmo morando em uma cidade pequenininha, aposentado, com filhos criados e netos maravilhosos. Ninguém sabe explicar o porquê do estresse”, diz Pedro. “Agora melhorei. Estou 100% bom mesmo”, garante. Hoje, os dois passeiam como namorados à beira da praia, em Vitória. Pouco mais de um mês depois da operação, contam como esse sofrimento serviu para enriquecer a vida deles. “Nossa vida mudou completamente depois dessa cirurgia, porque antes a gente não dava importância”, constata o aposentado. “Hoje a gente vive mais unido. Primeiro, meu marido não gostava de sair, de participar das atividades. Agora está mais feliz. Estamos mais unidos, valorizando mais a nossa vida. Antes a gente não tinha a afinidade de ficar junto, de correr junto para todo lado”, conta dona Lecy. “A doença traz a perspectiva de uma nova vida, mas isso também foi aprendido durante os encontros com as outras pessoas. Com a perspectiva da morte, tudo melhorou”, diz Pedro.

PAZ ACIMA DE TUDO.

Hoje o empresário Lionel Blanchet só usa camisa esporte. Anda a pé ou dirige o próprio carro, modelo popular, no trânsito caótico de São Paulo. É dono de três pequenas lojas de biquínis e roupas para ginástica. O negócio começou há três anos, quando Lionel decidiu dar um novo rumo à vida. “Tinha 35 anos na época, não tinha filhos, o apartamento estava pago, o carro também. E tinha uma certa reserva financeira, ou seja, havia condições de a gente tomar a decisão de mudar radicalmente de vida, tentar um negócio próprio, porque, se não desse certo, daria para voltar para o mercado de trabalho”, conta o empresário. O trabalho que deixou era nada menos que o cargo de diretor-financeiro de uma multinacional. Uma área de extrema pressão. “Para atender àquela expectativa, você se supera. Quando vê, está acumulando funções no trabalho, trabalhando de domingo a domingo, 14 horas por dia, para tentar dar o resultado que esperam de você. O estresse que tive foi mais ou menos isso. A gente vai entrando nisso sem querer, sem perceber”, constata Lionel. Do estresse à úlcera, às noites mal dormidas, às dores de cabeça, o excesso de peso, tudo isso foi uma seqüência. Mas Leonel hesitava. “Quando chega ao topo, como cheguei, tem a questão financeira, o status, o conforto, e essas questões começam a pesar também: será que vou abrir mão disso?”, diz o empresário. Nessa hora, a opinião da mulher foi decisiva. “São bens materiais, que não são a essência da vida. Essas coisas - status e carro zero – você conquista de novo, vêm com o tempo”, observa Mira Blanchet. De grande diretor a pequeno empresário, Lionel diz que hoje organiza melhor seu tempo, mas que na verdade trocou um estresse por outro. “Há o risco de tomar decisão errada, gerar desemprego para as pessoas que dependem do seu negócio. Você tem o capital de 15 anos de trabalho aplicado ali. Então, esse tipo de estresse continua”, ressalta Lionel. O casal cuida da parte administrativa das lojas no escritório improvisado em casa. Sempre preocupado com as contas, Lionel admite que é ansioso. “Um pouco de estresse é bom. Você tem um ritmo de crescimento, é um líder e tem que puxar. Então, esse pequeno estresse é bom, importante, estimula”. Para o advogado Guilherme Morais não deu tempo de mudar de vida. O estresse levou-o em janeiro deste ano até à mesa de cirurgia. No coração, um enfarte e vários aneurismas. Estava entre a vida e a morte. Conseqüência de um trabalho sem limites. “A empresa me trazia o problema, vivia o problema da empresa, levava para casa, queria resolver, perdia sono, aquele problema todo do estresse”, conta o advogado. “Nem repousava. Por causa dessa guerra de concorrência, sendo sempre um bom prestador de serviços, procurava fazer o melhor”. Percebeu, da forma mais assustadora, que deveria ter respeitado os limites do corpo. “Descobri meu limite e agora preciso respeitá-lo, afinal, sou um safenado”, destaca Guilherme Morais. “Agora falo para todo mundo se cuidar”. Vencida a batalha pela vida, a primeira medida foi uma reorganização do trabalho. “Dividi um pouco o trabalho, passei uma parte para meus filhos. Deixei os clientes se conscientizarem de que não era a forma como eles queriam as coisas e sim como posso fazê-las. Fui deixando no escritório o que é daqui, e ia embora com a cabeça mais tranqüila”, diz. Mudança também de endereço. Na nova casa, o advogado tem lugar e espaço para praticar exercício e manter a forma. E o mais surpreendente: tira o terno e a gravata e veste roupa de jardineiro para cuidar da terra. “Tenho um pouco mais de tempo para mim. Agora tenho tempo para chegar em casa, cuidar de alguma coisa, ver as sementinhas que tenho plantado crescer. Está melhor”, garante. Com suas plantas e sua família, doutor Guilherme aproveita esse recomeço, agora mais cuidadoso e mais feliz.

ESTRESSE BIOLÓGICO.

A vida sob tensão antecipa a velhice? O Instituto de Geriatria e Gerontologia do Hospital São Lucas, de Porto Alegre, faz o teste que revela o estresse biológico. A ciência começa a estudar o efeito da angústia e do cansaço no organismo de quem tem mais de 50 anos. No teste da saliva que idosos fazem o que se mede é o nível do hormônio cortisol, que o organismo produz em situações de estresse. Se o nível se mantiver alto por muito tempo é sinal de problemas sérios. “Quando o estresse é crônico, vai deteriorando uma série de sistemas orgânicos e biológicos que trazem prejuízo para a saúde do indivíduo. Por exemplo, a cognição, a memória, pode levar à depressão e também a alterações no sistema imunológico, causar infecções bacterianas e até mesmo o câncer”, revela o imunologista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) Moisés Bauer. Os níveis de cortisol de dona Alvina e de dona Maria de Lourdes estão altos, mas o pior de todos é o do seu Altino. Ele tem motivos para isso. Há dois anos sofreu uma grande violência e perdeu seu meio de vida e sua realização. “Tive que abandonar minha chácara porque fui assaltado. Não era uma área grande, tinha em torno de três hectares, mas era meu paraíso”, conta o aposentado Altino João Bergmeier. “Para mim isso foi o que mais me abalou e me levou à depressão”. “Sempre gostei da terra. Transformei a chácara com muito trabalho, e ela me ajudou”, conta o aposentado. “O que marcou foi o fato de a gente não poder mais viver naquele lugar que a gente preparou para ficar, para colher as frutas quando ficássemos velhos”, comenta a esposa, Maria de Lourdes. Seu Altino e dona Maria de Lourdes hoje moram na cidade e a pouca terra de que dispõem só permite uma pequena horta. “Sinceramente, não gosto de morar na cidade”, admite. Sempre procurando um pouquinho de terra para plantar, seu Altino tentou trabalhar numa plantação de flores, mas não foi aceito pela dona. “Quando descobriu que era aposentado por causa de problema de saúde, depressão, descartou-me. Tenho uma dificuldade muito grande para conseguir outra coisa”, conta. “Agora, caminho, esperando o tempo passar”.

GLOBO-REPÓRTER: PLANTAS MEDICINAIS—12 DE NOVEMBRO DE 2004.

PESQUISA NA MATA ATLÂNTICA.

Uma floresta mais rica do que a Amazônica. Um fiapo do que já foi um dia. A Mata Atlântica inaugurou o machado do colonizador. Hoje, seis em cada dez municípios brasileiros crescem sobre restos da floresta, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo. Mas o que sobrou da Mata Atlântica guarda um tesouro ainda por descobrir. Um desafio para pesquisadores que correm contra o relógio da devastação. Hoje a Estação Ecológica Juréia-Itatins é território exclusivo de pesquisadores, cientistas e estudantes. Na área estão preservados 80 quilômetros de Mata Atlântica ao longo do litoral sul de São Paulo. Em alguns pontos são até 100 quilômetros em direção ao interior. É a maior mancha contínua preservada de Mata Atlântica em todo o país. A mata é feita de formas e cheiros surpreendentes. “Testamos os óleos essenciais para verificar se têm atividade antiinflamatória, antitumoral e antimicrobiana”, diz o farmacêutico Paulo Roberto Moreno, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisar é verbo obrigatório onde ainda há tanto por desvendar. Uma força-tarefa reúne biólogos e farmacêuticos da USP e do Instituto de Botânica de São Paulo. Os cientistas juntam forças em uma bioprospecção, uma investigação para mapear o potencial da Mata Atlântica. A botânica Inês Cordeiro, do Instituto de Botânica, corre os olhos pela vegetação. Em um instante, localiza uma fonte para suas pesquisas. A fruta-de-anta é uma planta parente do café. Muito comum nestas florestas, é rica em alcalóides, uma toxina que age como estimulante nervoso e cardiovascular. “Esses alcalóides podem vir a ter algum emprego medicinal. Foi descoberto que populações dessa espécie, principalmente em São Paulo, têm alta toxidade”, revela a pesquisadora. “Plantas que têm alcalóides são potencialmente utilizadas em terapias tanto para câncer como para os sistemas nervoso e circulatório”, acrescenta o farmacêutico Paulo Roberto. Um leigo entra na mata e só enxerga plantas. Um pesquisador vê fórmulas em cada folha. “Cada plantinha dessas é uma indústria química produzindo vários fármacos para interesses do ser humano”, constata Paulo Roberto. Encontrar remédios no meio do verde exige espírito de detetive. Às vezes, a planta mais castigada é maravilhosa aos olhos do cientista. "Quando as plantas estão sendo atacadas por insetos, começam a produzir alguma coisa para sua defesa. Se for uma substância simples, podemos tentar mimetizá-la ou sintetizá-la em laboratório”, diz o farmacêutico. A Mata Atlântica guarda pelo menos 2 mil espécies vegetais que não se repetem em nenhuma outra parte. Um número ainda mais impressionante quando se pensa no que o homem já devastou: desde a chegada de Cabral já caíram mais de 92% destas florestas. Muita coisa desapareceu antes mesmo de ser estudada. “Existem áreas na Mata Atlântica com mais de 400 espécies de árvores em um só hectare. É uma diversidade muito grande, e em boa parte disso ainda não se conhece a química dessas espécies. Muitas delas podem fornecer substâncias muito importantes para a saúde do homem. Seria uma ignorância jogar fora toda essa riqueza e utilizar, por exemplo, a madeira, que é o produto mais óbvio de uma floresta, mas que acaba rápido e não promete nada para o futuro. Simplesmente, quem ganha com isso é a madeireira e ponto final. Todos perdemos”, conclui a botânica Inês.

POMADA DE JACA.

Cada espécie perdida apaga uma possibilidade. Quem diria, por exemplo, que a jaca, uma planta importada, mas muito popular, poderia produzir um poderoso cicatrizante para queimaduras? A professora Maria Cristina Roque Barreira, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto (USP-RP) começou a testar o uso de substâncias da semente da jaca como antiinflamatório. Teve uma enorme surpresa ao descobrir o KM+, uma proteína que estimula uma impressionante regeneração de queimaduras. “A partir do estímulo com a proteína KM+, os glóbulos brancos contidos na corrente sangüínea vão para os focos de inflamação. Foi uma surpresa. Diria que é melhor do que uma cicatrização mais rápida”, avalia a professora. Muito melhor, descobriu o cirurgião neurologista Ricardo Oliveira, quando ainda fazia o segundo ano de medicina. Pesquisava os efeitos da jacalina, uma das proteínas da jaca, sob a orientação da professora Maria Cristina. A experiência foi feita com cobaias anestesiadas. O animal sofria uma queimadura controlada, provocada por água a 60ºC durante um minuto. Em seguida, os ratos eram separados em dois grupos. Um recebia um pouco de vaselina com o derivado da jaca. O outro tinha a queimadura tratada apenas com vaselina. Vinte e quatro horas depois, o então estudante voltou ao laboratório e viu nos ratos uma reação totalmente inesperada. A equipe do Globo Repórter também voltou ao laboratório 24 horas depois de as cobaias sofrerem as queimaduras para ver o que tinha acontecido. Seria possível repetir ainda hoje aquela experiência de anos atrás, quando o professor viu os animais melhorarem com a pomada feita a partir da semente da jaca? “A gente percebe que existe uma grande área enegrecida, caracterizando necrose, ou seja, morte do tecido. O animal também está bastante quieto, sem demonstrar muita atividade no seu ambiente. Enquanto isso, no outro animalzinho, a gente observa que não existe área de necrose de tecido tão evidente. E o animal está muito mais ativo que seu colega vizinho”, avalia o cirurgião neurologista. A professora continuou os estudos e percebeu que outra proteína da jaca, batizada de KM+, acelera a reposição das células destruídas pela queimadura. “É melhor do que cicatrização porque a cicatrização forma um tecido fibroso, que não é um tecido funcional e que esteticamente tem problemas. Com o uso da proteína isso não acontece. Temos um tecido com aspecto e funcionamento absolutamente similares ao do tecido anterior”, ressalta Maria Cristina.

PRÓPOLIS VERDE.

Por sorte, existem casos em que a natureza entrega o remédio pronto, como a raríssima própolis verde, uma exclusividade nacional. Própolis verde só existe no Brasil porque só aqui existe a planta que fornece a matéria-prima usada pelas abelhas para produzir esse tipo especial de própolis. É a vassourinha-do-campo, chamada também de alecrim brasileiro, encontrada no nordeste do estado de São Paulo, na região de Franca, e também no sul do estado de Minas Gerais. Os cientistas conhecem bem o poder da própolis. A substância é produzida pelas abelhas com a resina que protege algumas plantas. Usada para vedar as frestas da colméia, funciona como um antibiótico natural e evita que a superlotação provoque infecções e epidemias entre os insetos. Criadores como Abdala Dagher Neto perceberam que as abelhas que produzem própolis verde têm colméias muito mais saudáveis. Abdala revela o trabalho frenético dos insetos. O mel escorre do favo como ouro líquido, mas a verdadeira riqueza é outra. “A própolis está no coletor, onde estão todas as substâncias interessantes para o uso do ser humano”, explica o apicultor. Tão interessante que a própolis brasileira é disputada por importadores internacionais, especialmente na Ásia, para consumo direto e para a produção de medicamentos. E pensar que, não faz muito tempo, os produtores jogavam tudo isso fora. “Própolis dá mais dinheiro que mel. Nossa média nacional fica em torno de 50 quilos de mel e dois quilos de própolis por ano. A quantidade é muito menor, mas o valor agregado é maior. Dependendo da qualidade do própolis, um quilo pode custar até R$ 140,00”, revela o apicultor. Empresas japonesas já descobriram que a própolis verde contém ácidos muito eficientes na prevenção e tratamento do câncer. No Brasil, o antibiótico das abelhas também é estudado. A farmacêutica Raquel Jamil, da Universidade de Franca, confirmou que a própolis verde é mais poderosa que as outras variedades. Conseqüência da origem da resina: a vassourinha-do-campo, planta chamada pelos cientistas de Baccharis dracunculifolia. “Essa própolis tem princípios ativos muito valorizados. Pesquisei e encontrei os três princípios ativos dela na própolis. Obtive resultados excelentes contra bactérias gran-positivas e gran-negativas. Ela é eficiente. Se tivermos a presença de organismos patogênicos, vai destrui-los”, explica a pesquisadora.

FLORESTA: FONTE DE VIDA.

No Vale do Ribeira, tirar remédio da Mata Atlântica é costume antigo. Mais que tradição, é opção de trabalho – uma das poucas existentes na região mais pobre do estado de São Paulo. Pobre por falta de informação, garante o mateiro Carlos Novi, um homem que tem tanta intimidade com a riqueza da floresta que chama as plantas por nome e sobrenome. Esse conhecimento de Carlos Novi é disputado pela indústria farmacêutica. Conta que recebe encomendas de laboratórios do Brasil e do exterior. “Não contam para o que é, e não tenho interesse em perguntar. Se for uma coleta programada, não corremos o risco de destruir a mata”, garante o mateiro. O olho treinado do mateiro vê dinheiro brotar nas pedras. A mata é como a galinha dos ovos de ouro, diz Carlos Novi. Quem colhe com critério tem sustento para toda a vida. Cuidadoso, não conta tudo o que sabe, pois tem medo de que a divulgação provoque a destruição de alguma espécie. “Nem tudo que se tem na mata é conhecido. Por exemplo, a rubiácea. É da família do café e é mentolada. Serve para as mesmas coisas para as quais usamos o mentol. Se os laboratórios descobrirem isso, vão sair matando. Em uma área grande, temos um único pé. Vão cortar tudo isso aqui e não vão replantar”, diz Carlos Novi. As trilhas da Mata Atlântica têm plantas poderosas. Nos ramos da capa-homem, por exemplo, há venenos capazes de intoxicar uma pessoa. “A planta é venenosa, se a pele absorver, intoxica a pessoa porque ataca o sistema nervoso”, explica o mateiro. O mateiro conta que, no Vale do Ribeira, muitas mulheres usam o chá de capa-homem para controlar maridos infiéis. “O chá é dado para pessoas que têm uma ‘sede fantástica’ e as mulheres não sabe como amansar, daí o nome popular, capa-homem”, revela. Plantas poderosas atraem interesses igualmente fortes. No mercado internacional, há laboratórios dispostos a pagar centenas de dólares por um vidrinho de seiva de determinadas plantas brasileiras. Só até setembro deste ano o país exportou US$ 4,5 milhões em compostos para fabricar cosméticos e medicamentos. Esse é o número oficial, mas Carlos Novi mostra como é fácil extrair a matéria-prima. Usa uma seringa para extrair a seiva. “Um vidrinho de 5ml vale US$ 300. Isso vai para laboratórios de fora”, denuncia o mateiro. Despachar um vidrinho para o exterior só exige uma visita ao Correio mais próximo. Isso é biopirataria, crime difícil de conter e punir. Mas os cientistas brasileiros começam a criar conhecimento capaz de aproveitar aqui mesmo o potencial das nossas matas.

MAMICA-DE-CADELA.

Há cada vez mais pesquisadores brasileiros investindo nisso. Dois professores universitários do interior paulista, por exemplo, dedicam seu tempo a uma espécie do Sul do país conhecida como mamica-de-cadela. Surge como fonte de remédio para duas doenças gravíssimas e sem cura: o Mal de Chagas e a esquistossomose. A planta possui um princípio ativo também encontrado na pimenta-do-reino, a cubebina. A atividade contra a esquistossomose foi descoberta de forma inesperada, resultado da manipulação das moléculas de cubebina. “Não foi uma coisa planejada, mas aleatória”, diz Márcio Andrade, professor de Química Universidade de Franca. “Poderia tanto dar certo quanto errado. E conseguimos um ótimo resultado nas atividades com essa modificação aleatória”, comenta a doutoranda em Farmácia Vanessa de Andrade Royo. “Em uma simples modificação como essa pode estar o futuro da cura ou do tratamento da esquistossomose”, acrescenta o professor Márcio. A esquistossomose, ou "barriga d’água", é uma doença fatal, contraída em águas contaminadas. “Quando a droga mais potente entra em contato com o parasita, começa a dissolvê-lo. Precisaríamos fazer um estudo pré-clínico dessa substância para confirmar. Mas as chances de não ter toxidade são de 95%”, adianta o professor. Além disso, a mesma planta, a mamica-de-cadela, pode fornecer uma substância chamada metilpluviatolido: uma forte esperança de tratamento para o Mal de Chagas. A doença atinge cerca de 6 milhões de pessoas só no Brasil. É causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, que destrói os músculos do esôfago e do coração. O único remédio no mercado é altamente tóxico e só consegue frear o avanço da doença. Uma droga feita a partir da mamica-de-cadela poderia ser muito mais eficiente, diz Jairo Kenupp Bastos, professor de Farmácia da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (USP-RP). “O parasita realmente morre, principalmente a forma circulante. E isso pode parar a doença”, explica o professor. O professor acredita que, no futuro, as vítimas do Mal de Chagas poderão ter uma recuperação total. Ele aposta na associação do medicamento tirado da planta a outra técnica em desenvolvimento: o tratamento com células-tronco. "Liquidaríamos o parasita e, em seguida, as células-tronco regenerariam o tecido cardíaco. O paciente passaria a ter uma vida normal", adianta Jairo Kenupp.

CHAZINHO DE VOVÓ TEM PODER.

Faz tempo que a ciência estuda as plantas que o povo usa. Mas a Universidade de Campinas (UNICAMP) foi mais longe: levou a sabedoria da terceira idade para dentro da academia. Toda sexta-feira, um grupo de veteranos da vizinha cidade de Paulínia arregaça as mangas e bota a mão na terra do viveiro do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA). Sem se intimidar com tanta letra, vovós e vovôs plantam mudinhas, aprendem novidades e, em troca, deixam brotar o que sabem sobre os remédios da natureza. “Quando a mulher está na semana da TPM, toma chá de losna e não tem mais dores nem calores”, conta a aposentada Alaíde Evangelista. “Falam o que sabem, embora a gente não possa abusar do que sabemos. Um remédio caseiro ingerido em excesso pode prejudicar em vez de fazer bem. Tudo tem um meio termo”, pondera a aposentada Elza Tiziani. “Uso erva baleeira porque tenho artrose na articulação coxa-femural. Tira a dor mesmo”, afirma a aposentada Marilene Bergamini. A erva-baleeira é um santo remédio para os caiçaras do sul do país. Nos laboratórios da UNICAMP, a plantinha provou seu poder. “Seria um antiinflamatório”, revela o biólogo Benício Pereira. A planta pode curar, mas custa a virar medicamento. Para começar, precisa ser domesticada – adaptada para o cultivo comercial. É a missão do centro de pesquisas. A erva-baleeira já cresce na plantação experimental. Os pesquisadores retiram seu princípio ativo em uma espécie de destilaria. O extrato vai para uma indústria farmacêutica que quer desenvolver um produto com o poder da plantinha do litoral. “Usamos 400 quilos de folhas frescas para fazer um copo de óleo. É usado em concentração de 1% para fazer o medicamento. Com esta quantidade, daria para fazer 300 frascos de remédio”, calcula a agrônoma Glyn Figueira.

ERVA-MATE: ESTIMULANTE E DIGESTIVA.

Chimarrão na cuia do gaúcho não é tratamento. É quase um vício! Mas, sem saber, brasileiros do Sul podem estar bebendo da fonte da juventude. “Teoricamente, quem toma erva-mate fica mais jovem. Porque os radicais livres formados no organismo são responsáveis pelo processo de envelhecimento, e esses compostos têm habilidade de seqüestrar esses radicais livres”, explica a agrônoma Deborah Markwicz Bastos, Faculdade de Nutrição da Universidade de São Paulo (USP). Os índios já usavam a erva-mate como estimulante e digestivo. E faziam muito bem, dizem duas pesquisadoras da Faculdade de Nutrição da USP. Confirmaram que o chimarrão é rico em cafeína, estimulante do sistema nervoso, e possui também muitos compostos fenólicos – substâncias antioxidantes, boas para evitar o envelhecimento e controlar o mau colesterol. Além disso, a erva-mate possui saponinas. “As saponinas aumentam a defesa do organismo e, portanto, o mantêm mais preparado para combater as infecções”, diz a agrônoma Deborah. A sempre-viva é outra planta que o povo botou no armário de remédios. Agora, freqüenta também os tubos de ensaio. “Estudamos o potencial antiulcerogênico da planta, ou seja, a capacidade de combater as úlceras gástricas”, explica a pesquisadora de farmacologia Maíra Cola Miranda, a Universidade de Campinas (UNICAMP). Nas mãos de estudantes de mestrado e doutorado da UNICAMP, a flor da sempre-viva é seca, pulverizada e misturada com diversos solventes. Transformada em extrato, mostra uma de suas maiores riquezas: os flavonóides. “Os flavonóides têm atividades antiulcerogênica e antiinflamatória e poder de cicatrização das lesões gástricas”, revela a pesquisadora. Os flavonóides são defesas da planta que podem defender a saúde do homem. A capacidade de curar úlceras rapidamente foi comprovada em cobaias, que desenvolveram úlceras induzidas pelos pesquisadores.  “A cicatrização é de quase 100%”, anuncia a pesquisadora. Jovens cientistas semeiam suas carreiras com o estudo de plantas medicinais. Eles querem ver o país colher mais medicamentos da natureza. “Em países desenvolvidos, os laboratórios pagam para ter a pesquisa e a droga. Aqui não acontece isso”, comenta o pesquisador Anderson Luiz Ferreira. “Em alguns modelos de indução de úlcera, nossas drogas são até melhores que as já consagradas pelo mercado”, ressalta a pesquisadora Fabiana Pimentel. “Temos muitas substâncias na nossa vegetação que não foram descobertas ainda. Se a gente não estudar, as pessoas de fora vão fazer isso”, alerta o pesquisador Victor Barbastefano. As florestas, o Pantanal e o cerrado brasileiros têm mais de 55 mil espécies de plantas. São 22% de todas as variedades do mundo. Uma riqueza vegetal tão grande que talvez nunca se chegue a conhecê-la por inteiro. Nossa única chance nasce do trabalho de cientistas, pesquisadores e mateiros. Que eles tenham tempo e apoio para fazer germinar todo esse potencial.

SEGREDOS DO PANTANAL.

No Pantanal, a vida exibe seu poder logo cedo. Na imensidão verde, o homem se rende à força da natureza. O isolamento estica as distâncias. Na região não há médico, não há hospital. São as plantas que curam. A vida segue no passo da boiada. Peão de comitiva passa semanas, meses no campo, tocando o rebanho. O cozinheiro também é o curandeiro do grupo. “Quando alguém fica doente no meio do mato tem que apelar para raiz de taiuiá. Uso para dor no estômago e para água ruim. Limpa a água e o estômago também”, diz o cozinheiro Luís do Espírito Santo. Albuquerque é povoado antigo, tem quase 300 anos e 2 mil moradores. A farmácia mais próxima fica a 60 quilômetros, em Corumbá. O médico vai duas vezes por semana. Pantaneira de nascença, a dona de casa Ramona leite é cria do cerrado. Aprendeu cedo os segredos das plantas. Conhecimento antigo, herança de família. “Quando fico doente, vou ao quintal e colho as ervas para tomar. Vou ao médico para certas doenças, porque às vezes somos obrigados. Mas, do contrário, não vou”, conta ela. A farmácia natural tem muitos segredos. “Aqui tem bacaiúva. Fervo água, apago o fogo, coloco a planta dentro e abafo. Sai uma cor meio esverdeada. Coloco um pouquinho de açúcar e tomo para pressão alta”, ensina a dona de casa. Para dor no rim, o segredo é outro. “Caninha-do-brejo. Coloco na água quente junto com o mate. Tira a dor e desinflama o rim”, garante a pantaneira. A caninha-do-brejo é um diurético de uso comprovado pela ciência. Já o broto da bocaiúva ainda não foi estudado. Em São Gabriel do Oeste, no Mato Grosso do Sul, remédio natural já é vendido no posto de ervas medicinais. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural ajudou a transformar as receitas caseiras em medicamentos. Usar plantas medicinais para curar os males do corpo é um hábito que veio dos índios. Isso é muito comum entre as pessoas que moram no campo. E por que não levar esse costume para a cidade? Foi isso que fizeram mulheres em São Gabriel do Oeste. “Um xarope expectorante é feito com o broto da bananeira. Qualquer um pode fazê-lo em casa. É bom para tosse, gripe, rouquidão, bronquite”, diz Laci Motta, chefe de produção do posto. Cobre a panela com açúcar mascavo. Vai alternando camadas de açúcar com broto de bananeira, agrião, mil em ramas, hortelã gordo. “É só açúcar e plantas, não contém água”, ressalta Laci. O xarope fica quatro horas no forno. Leva própolis e um pouco de mel. Uma bioquímica supervisiona o trabalho. “Uso nas minhas crianças, em mim, na minha família toda, e funciona”, garante a bioquímica Vânia Vasques. Por mês, quase 200 pessoas vão ao posto comprar remédios e atrás de tratamentos curiosos. “Minha audição estava fraca e por isso vim limpar o ouvido”, conta o diretor de escola Sérgio Ferreira. Meia hora depois... “É cera de ouvido”, anuncia a enfermeira. “É assustador saber que tem tudo isso dentro do nosso ouvido. Não doeu nada e estou ouvindo melhor”, afirma Sérgio.

FARMÁCIA VIVA.

Em Campo Grande, remédio popular é vendido aos quilos no Mercadão de Ervas. Mas em uma infinidade de raízes e cascas, é bom ter cuidado. “Muito conhecida em todo o Brasil, a buchinha-do-norte é usada para fazer inalação para sinusite. É um medicamento que funciona, mas uma buchinha deve ser cortada em quase oito pedaços e usar uma parte pequena para fazer a inalação. Se for feita com uma dosagem um pouco maior, a inalação provoca queimaduras e até hemorragias, podendo levar o paciente à morte”, alerta o bioquímico Ronaldo Abrão. As embalagens também são um risco – criam fungos se as plantas não forem bem secas. Ervas colhidas perto de rios poluídos, lavouras com agrotóxicos ou lixões podem estar contaminadas. “O ideal seria ter uma horta de plantas medicinais em casa. Cura uma dor de barriga, uma dor de cabeça”, orienta o bioquímico. Nem todas as pessoas têm o privilégio de ter canteiros com ervas medicinais no quintal de casa. Mas, a cada dia, muita gente quer buscar a simplicidade e resgatar a tradição de usar plantas para se curar. E por que não levar pequenas mudas e ter uma farmácia viva? Não é preciso muito espaço. Basta um lugar com luz natural, como uma janela na cozinha da psicóloga Elizabeth Raquel, no 10º andar de um prédio. “Chego em casa cansada e relaxo tomando um chazinho de camomila. Alfavaca é bom pra gripe e boldo para o estômago. O cuidado é mínimo, mas nada que exija muito de você. Já o benefício que a horta traz é imenso”, ressalta a psicóloga.

MAGO DA FAMÍLIA REAL BRITÂNICA.

Na terra dos remédios à base de flores, a medicina alternativa é cada vez mais popular. Mas não é só uma crença do povo. A família real também acredita no poder da natureza. Nos anos 80, o príncipe Charles chegou a revelar que falava com as plantas. Debochado pela imprensa, hoje ganha uma fortuna fabricando produtos naturais orgânicos. Quem é o Rasputin do Palácio de Buckingham, o mago que alivia os males da família mais famosa do mundo? O nome dele é Mosaraf Ali, um médico indiano que cura seus famosos pacientes com uma boa massagem e uma simples xícara de chá. Políticos, duques, sultãos e reis procuram este médico, que olha o passado para curar as doenças de hoje. “Fiz medicina na Índia e ganhei uma bolsa de estudos para estudar na Rússia”, conta doutor Ali. “Em Moscou, descobri que os médicos estavam fazendo pesquisas – a portas fechadas – em acupuntura, telepatia, fotografia da aura e remédios à base de ervas.” Hoje, na sua clínica em Londres, analisa o paciente, observando o pulso, a língua, as unhas e o cabelo. Dieta, ioga e meditação reforçam as massagens e os remédios à base de ervas indianas e européias. “As ervas são muito poderosas”, explica doutor Ali. “Todo mundo sabe o efeito do alho e do gengibre no corpo, mas existem muitas outras. Agora, por exemplo, todo mundo está falando sobre o taxol – um remédio feito com o extrato da árvore ‘teixo do Pacífico’, que inibe as células cancerígenas, principalmente as de câncer de ovário. Doutor Ali acha que usar as ervas na medicina exige muito conhecimento. “Toda planta tem o ativo e o antídoto. Se tira apenas o ingrediente ativo da erva, pode ter efeito colateral”, alerta ele. Doutor Ali conhece poucas ervas brasileiras porque não são encontradas facilmente na Europa. Na farmácia da mais famosa clínica de medicina alternativa de Londres, a Clínica Hale, é possível encontrar o guaraná, o pau d'arco e a unha-de-gato. Mas, o própolis verde, por exemplo, não. O mesmo acontece em drogarias comuns, onde os remédios à base de ervas são vendidos juntos com os químicos. “Na Floresta Amazônica existem milhares de ervas, mas como fazer para patenteá-las? Antes de tudo, os cientistas precisam conhecer as plantas e saber como usá-las”, conclui doutor Ali. Acredita ainda que a cura do câncer sairá da floresta e que o povo deveria saber mais sobre as ervas. Mas, de acordo com ele, a medicina prefere manter este conhecimento apenas para ela porque senão todo mundo vai usar ervas do jardim e parar de ir ao médico. “Quem pode argumentar que uma xícara de chá de gengibre não reanima? Ou que um chá de hortelã fresco não relaxa e alivia a acidez do estômago?”, questiona ele. Doutor Ali se despede para ir ao Palácio de Saint James sem revelar que erva usa no chá do herdeiro do príncipe de Gales.

GLOBO-REPÓRTER: EXCESSOS NO ESPORTE—19 DE NOVEMBRO DE 2004.

PELADEIROS DE FIM DE SEMANA.

Meia, chuteira, camisa. Uniforme completo. O assistente técnico Lúcio Fernandez está pronto para entrar em campo. É a grande força da defesa, tarefa que pede preparo físico e muito fôlego. Desafio para quem tem 48 anos e confessa ser um bom fumante. E ainda tem uma barriguinha que revela: Lúcio está longe de ser um exemplo de atleta em plena forma. Também pudera! O jogo é só no domingo. “Só uma vez por semana. O serviço não dá tempo, é muito agitado”, diz Lúcio. Atletas de fim de semana como Lúcio correm um grande risco. O professor de educação física Roberto Carneiro acompanhou as reações de jogadores de futebol society em quadras de São Paulo. Todos são gordinhos e têm, em média, 41 anos. Lúcio passou pela mesma avaliação. Recebeu um medidor de freqüência cardíaca para usar em campo. O relógio registrou quantas vezes por minuto seu coração batia enquanto estava jogando. Antes mesmo de começar, o marcador mostrou batimentos altos: 103 por minuto. Lúcio entrou em campo e o relógio começou a marcar. A partida pegou fogo. Lúcio correu, chutou forte, se esforçou. E o relógio, a cada cinco segundos, gravava tudo. No banco de reservas, outros jogadores esperavam a vez de entrar. No aquecimento, um golinho, uma tragada! E chegou a hora da substituição. Depois de 20 minutos em campo, Lúcio encerrou o teste, cansado e curioso. “Está bom ou ruim?”, perguntou ele. “Teve uma média de freqüência cardíaca durante esse período de 160 batimentos por minuto e um pico máximo de 175 batimentos por minuto”, revelou o professor Roberto. O coração bateu forte demais. Mesmo assim, deu tudo certo. Mas há pouco tempo Lúcio sentiu o peso da vida sedentária. "Quando cheguei na quadra dei dois piques e já senti a coxa. Não teve mais jeito de continuar. Passei remédio e melhorou. Estou de novo na ativa", conta Lúcio. No estudo que fez com outros jogadores para uma tese de mestrado na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o professor Roberto chegou a dados preocupantes: 90% deles forçavam tanto o ritmo que corriam o risco de ter problemas no coração. A maioria tinha batimentos altos, como os registrados no teste de Lúcio. “É como um carro que pode andar a 150 quilômetros por hora e fica forçando-o a andar a 180, 200 quilômetros por hora. Chega um momento em que vai reclamar, não vai suportar”, compara o professor Roberto. “Isso pode ser modificado. Se começar a aumentar o número de atividades físicas por semana, pode ter um condicionamento físico melhor e até preparar o coração para suportar esse tipo de trabalho”, orienta o professor. Bom, mas na hora que o jogo acaba, ninguém quer pensar nisso. É hora do melhor da festa: lingüiça, cerveja, farra com o pessoal. E alguém quer ouvir falar em exame médico? "Nunca fiz. Não tenho medo, não acredito que vá acontecer alguma coisa”, comenta o representante comercial João Vicente de Campos. E foi o futebol também, esse amor que parece que nasce com todo menino brasileiro, que acabou levando Daniel Lutfi para a mesa de operação. Dono de uma loja de roupas em São Paulo, jogava nos finais de semana e fazia musculação. Tudo sem orientação e com um certo exagero. Resultado: o joelho não agüentou. “Chegou uma hora em que a dor estava insuportável, e fui procurar um médico. Houve um desgaste na cartilagem e por isso tive que operar”, conta o comerciante. No ano passado, quis retomar a vida de atleta. Escolheu musculação e boxe, mas repetiu os erros. “Fazia um peso, achava que estava leve e, em vez de chamar o orientador profissional, aumentava por conta própria. Achava-me o fortão. Só que depois, no dia seguinte, não conseguia andar”, lembra Daniel. E lá foi ele, de novo, para a mesa de cirurgia. “Tentei enganar o professor, mas, na verdade, enganei a mim mesmo. Aprendi a lição, agora tomo jeito”, afirma Daniel. Essa obsessão por treinos, marcas e corpos cada vez mais perfeitos, fica ainda maior nesta época do ano. A hora é agora. O verão está aí e todo mundo quer ficar com o corpo em forma para usar pouca roupa, ir à praia e desfilar no carnaval. Mas é preciso muito cuidado. Os mesmos exercícios na academia que podem modelar músculos podem também causar lesões muito sérias. O objetivo está claro: é perder, em pouco tempo, os quilos e as dobrinhas acumuladas no inverno. E dá-lhe peso, suor, esforço. Dobra a perna, estica o braço, encolhe a barriga. A ordem é queimar calorias. Mas sem descuidar do jeito certo de fazer cada exercício. O ortopedista Rene Abdalla, especialista em medicina esportiva, diz que para modelar o corpo nos aparelhos, é preciso atenção. Um exercício simples, feito de forma errada, pode ter graves conseqüências. “Dobrar muito os joelhos aumenta a pressão da rótula contra o fêmur. A médio e longo prazo, começa a dar dor nos joelhos”, diz ele. “Todo mundo acha que o músculo tem que ser forte. O músculo não tem que ser forte, tem que ser equilibrado. Não é só fortalecer – é alongar, fortalecer e balancear, que é a palavra-chave quando se trata de exercícios envolvendo grupos musculares.”

DANOS À SAÚDE.

O exagero nunca faz bem a ninguém, muito menos quando se trata de mulher e esporte. Malhar demais pode resultar até em uma doença conhecida como Tríade da Mulher Atleta. A professora de educação física Elaine Pinto conhece bem as conseqüências do excesso de treinamento. Disputava campeonatos de aeróbica. Chegava a treinar de manhã, à tarde e à noite. “Acaba não tendo limite, acha que tudo é muito pouco. Fazia e queria mais e mais. Não parava”, conta Elaine. O corpo começou a reclamar. Primeiro veio a insônia. Depois, a falta de apetite. Por último, o sinal dos hormônios: falhas na menstruação. “Começou a atrasar 15, 20 dias. Teve um mês que parou, não veio. Foi quando disse que havia alguma coisa errada. Mas nunca associei que o erro era a atividade”, diz Elaine. Mas era. Além de distúrbios alimentares como anorexia e bulimia e problemas na menstruação, a Tríade da Mulher Atleta também pode provocar doenças como a osteoporose, o enfraquecimento dos ossos. “Até uma certa intensidade – adequada e prescrita de forma gradual e progressiva –, o exercício é extremamente benéfico para fortalecer os ossos. A partir de uma certa intensidade, começa a seqüestrar cálcio dos ossos e provocar fragilidade”, explica Turíbio de Leite Barros Neto, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (CEMAFE–UNIFESP). Mas não pensem os homens que estão livres dessa doença. “Assim como a mulher pára de menstruar, se o homem fizer exercício em excesso, a produção de espermatozóides diminui e muitas vezes é até interrompida. Então, há quadros de queda de fertilidade no homem que pratica exercício em excesso”, alerta o coordenador do CEMAFE. A Tríade da Mulher Atleta tem cura, mas é preciso pisar no freio – diminuir o ritmo dos exercícios ou, às vezes, até parar por um período – tempo necessário para que os hormônios voltem aos níveis normais. Foi o que Elaine fez. Hoje, formada em educação física, treina, dá aulas, está em plena forma. Tudo na medida certa. “A estética não pode falar em primeiro lugar. Primeiro vem a qualidade de vida e depois a estética. Porque se faz uma atividade visando à qualidade de vida, obviamente a estética vai vir, não tem jeito”, conclui Elaine.

ATLETAS COMPULSIVOS.

Quanto mais suor, melhor. É assim que a funcionária pública Karla Cândido Pessoa se sente feliz. O corpo precisa estar trabalhando, se exercitando. Mas o turno de atividades passa longe do normal: quatro horas por dia, a semana inteira. Começa com musculação. Peso logo cedo! Depois, uma hora de esteira. Mas em um pique de dar inveja a muito atleta. E com um detalhe: o pé direito está torcido. E não acabou. Ainda falta ginástica localizada, com 12 quilos em cada perna. É como se o corpo fizesse hora extra e depois reclamasse. "No final do dia estou totalmente acabada, um bagaço", conta Karla. "Sinto que estou errando, mas cadê a solução? É uma coisa mais relacionada à cabeça do que ao corpo.” O cansaço muitas vezes já minou a resistência, trouxe doenças. Mas ainda assim, o exagero foi levado às últimas conseqüências. "Dois anos atrás peguei meningite. Mesmo doente, vim correr. Fui parar no hospital e a doença foi detectada", lembra Karla. Karla já percebeu os sinais do corpo, mas não consegue se controlar. "Acho que é uma doença mesmo, uma coisa meio compulsiva. Uma coisa de dentro e que não consigo parar”, diz ela. "Considero-me compulsiva. De uma coisa emendo na outra, passo o dia inteiro assim." E é esta ansiedade desmedida que as mãos da terapeuta acupunturista Paula Gribel Mansul tenta diminuir. Karla buscou ajuda na medicina chinesa. “A compulsão por exercícios pode trazer sintomas desagradáveis porque vai sempre ir além do que seu corpo permite, vai trabalhar indiscriminadamente sem ter uma consciência corporal, sem ter uma visão voltada para seu corpo especificamente", avalia a terapeuta. "Estou tentando controlar e vou conseguir, tenho certeza”, afirma Karla. “Minha meta é sempre menos.” Exagerar na carga é muito mais comum do que se imagina. E é fácil perceber quando se está passando do limite. “A pessoa tem mais dificuldade para dormir, em alguns momentos, sofre de tonteira, náuseas, tem excesso de cansaço para realizar as atividades diárias, a capacidade intelectual também cai, a pessoa fica mais irritada", descreve o mestre em biociências André Leta. Mas ninguém está livre de achar que pode suportar mais do que está habituado. O risco de extrapolar é tão tentador que mesmo quem é disciplinado, às vezes escorrega. O publicitário Hugo Lamberg Mendonça, jogador de futebol americano, só treina musculação acompanhado por um profissional. Sempre achou que sabia a hora de parar, de descansar os músculos. Até se esquecer dessa regrinha básica. "Fui a uma festa em uma boate e fiquei dançando em pé. No dia seguinte, acordei cedo e fui jogar bola com meu pai. Entrei sem aquecer. No primeiro pique que dei, meu músculo estirou, e fiquei com um hematoma enorme na coxa. Levei dois meses para me recuperar”, conta Hugo. Mas qual é a medida exata, o tempo ideal de malhação? A regra é seguir sempre a individualidade: o que serve para um nem sempre faz bem ao outro. Todos os especialistas concordam que é preciso ter equilíbrio, bom senso, estar atento aos sinais do corpo para não pagar um preço alto demais. O professor universitário Ricardo Vigna conhece bem a tabela de preços cobrada pelo corpo. As lesões na coluna lombar e no joelho restringiram a vida do ex-maratonista, ex-jogador de vôlei de praia, ex-capoeirista e ex-jogador de tênis. “Não tinha orientação profissional, era mais por paixão de ver as outras pessoas praticando e pela idéia que está no ar de que a gente deve praticar esporte”, conta o professor. Foram mais de 30 anos praticando esportes dessa forma. Depois de acumular contusões, não teve jeito, Ricardo precisou abandonar todas as suas paixões definitivamente. "Estou pagando um preço, que é olhar os outros e ficar na vontade”, lamenta. Hoje, enquanto dá as braçadas na piscina, único exercício autorizado pelo fisioterapeuta, o professor universitário se lembra de todos os enganos que cometeu desde a adolescência. "Muitas vezes estava chegando na praia sem nenhum aquecimento. Os colegas me chamavam para formar uma dupla e entrava sem nenhuma preparação. Não pensava que isso iria prejudicar meu corpo”, diz Ricardo. "É muito arriscado e não é recomendável agir dessa maneira. Sempre é importante buscar um profissional na área de educação física que seja especializado na área do treinamento desportivo”, orienta o professor de treinamento desportivo César Couto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O EXEMPLO DE FERNANDA KELLER.

Se equilíbrio é fundamental, o corpo de Fernanda Keller agradece o cuidado. Em 18 anos de competições pelo mundo afora como triatleta, não houve um só momento em que ela precisasse parar por causa de lesões ou por ter cometido exageros. E em triatlo, o próprio limite já parece um exagero. "Normalmente pedalo de três a quatro horas de manhã. Em seguida, faço uma hora e meia de natação. Faço musculação de duas a três vezes por semana e corro três horas, de três a quatro vezes por semana”, conta a triatleta. E isso é só a preparação normal. Em épocas de competição, chega a treinar oito horas por dia. Mas se o corpo pede descanso, Fernanda respeita. "É fundamental saber parar, saber qual é a hora de descansar. O organismo precisa de um tempo para assimilar o exercício. Saber dosar o descanso com o esforço faz o organismo obter um resultado muito melhor”, avalia. Entre as triatletas mais famosas do mundo, Fernanda é a que permanece por mais tempo entre as dez mais bem colocadas do ranking e, aos 41 anos, ainda tem a melhor performance na competição de Iron Man, uma das modalidades mais exaustivas entre todos os esportes. Para quem olha de fora, parece quase impossível que alguém consiga correr uma maratona de 42 quilômetros, pedalar 180 quilômetros e ainda nadar quase quatro quilômetros, tudo em uma mesma competição, que chega a durar 10 horas seguidas. Em 18 anos, Fernanda só não subiu ao pódio duas vezes. E sempre com um rendimento de impressionar. "Graças a Deus, concluo uma prova inteira. Nunca cheguei em uma prova cansada demais ou me arrastando. Tenho essa facilidade desde o início”, conta. Desde o começo da carreira vem sendo treinada pelo ex-colega da faculdade de educação física Marcelo Borges. O entrosamento entre eles é tanto que os dois aprenderam juntos, e hoje em dia sabe exatamente o que fazer para que Fernanda tenha um bom desempenho. "A gente começava com um volume grande de treinos e, com medo de errar, fazia mais. Com o tempo, a gente teve estudos e a ciência do esporte melhorou muito. A gente veio diminuindo o treino para melhorar a qualidade de vida dela e diminuir o desgaste fisiológico e muscular”, revela o treinador. O resultado de tanta disciplina, de tanto cuidado, é que o tempo não trouxe desgaste. É a certeza que Fernanda tem de ter agido da forma correta. "Nada na vida que é compulsivo é bom. Temos que procurar o equilíbrio. Sei que é muito fácil falar, mas acho que é a grande procura. Hoje em dia as pessoas estão procurando ter esse balanço para conseguir curtir a vida, praticar esporte, trabalhar, namorar”, comenta a triatleta.

CAMPEÕES DA VIDA.

Quem poderia imaginar um brasileiro no pódio de uma maratona olímpica? Para o ex-bóia-fria Vanderlei Cordeiro de Lima, era um sonho inatingível. Até se transformar em realidade, nas passadas certeiras do atleta. Maringá, norte do Paraná. Na cidade, o rapaz que chegava de Tapira, um município com apenas 6 mil habitantes, ganhou uma chance para mudar seu destino de lavrador. Um vestiário em precárias condições, pouco iluminado, quase sem ventilação. Um alojamento modesto. Vanderlei enfrentou dificuldades, passou noites de frio. Para o bóia-fria que foi para a cidade, o emprego de zelador já era uma grande conquista, mas foi ali que as portas se abriram para outros sonhos. Vendo atletas treinando todos os dias, competições sendo realizadas, o zelador Vanderlei percebeu que podia ir longe. E foi. “Minha cama sempre ficava no cantinho. Hoje está bem melhor, tem forro. Antes, não tinha e por isso ventava muito. No inverno era muito frio. Mas passei por essa, graças a Deus”, diz o maratonista. Hoje, na casa do atleta Vanderlei, medalhas e troféus estão por toda parte. O primeiro, que ganhou aos 15 anos, divide a estante com os mais importantes. “No começo da carreira, ganhar troféu era a coisa mais importante. Minha última conquista foi o bronze em Atenas, a mais importante de todas”, comemora Vanderlei. A rotina de treinamento começa cedo, na varanda de casa. Rotina de campeão, marcada minuto a minuto. Odair José Fernandes, assistente e amigo, está sempre ao seu lado. É aprendiz de corredor. São 35 quilômetros por dia, todos os dias, na cidade e fora dela – em estradas de chão, entre lavouras de café. Para Vanderlei, é uma volta ao passado, quando as corridas no meio das plantações ainda eram brincadeira de criança. Odair também já passou dessa fase. Aos 20 anos, corre com os olhos no futuro. “Quero ser um vencedor. Quero lutar, ser um maratonista. Se Deus quiser, vou ser um maratonista”, afirma. Repete os sonhos que um dia já foram do mestre. “Estou seguindo os passos dele. Fala que só depende de mim, tenho que treinar”, diz o jovem. “Acho que vale a pena ter um sonho na vida. A gente vai em busca dele e acaba realizando”, conclui Vanderlei.

APLAUSOS PARA A VIDA!

A cada gol marcado, o centro-avante Washington Cerqueira, do Atlético Paranaense, bate a mão no peito e comemora muito mais que um novo gol. Há dois anos, a trajetória do atual artilheiro do Campeonato Brasileiro quase chegou ao fim. Uma artéria do coração estava entupida, conseqüência do diabetes, descoberto seis anos antes. A sobrecarga de esforço físico poderia levá-lo à morte repentina. Mas como convencer um atleta de 27 anos e no auge da carreira a abandonar a profissão? “Propusemos para ele fazer um tratamento que seria uma alternativa de possibilidade para jogar futebol. Mas que requeria confiança, paciência e disciplina”, conta o médico Constantino Constantini. Confiança nos médicos, disciplina para seguir à risca o tratamento e paciência para esperar pelos resultados. Usando as mais avançadas técnicas cirúrgicas do mundo, uma finíssima malha de aço foi implantada por dentro da artéria e o entupimento removido.  “Em seis meses o atleta estará em perfeitas condições. Não tem nenhuma alteração funcional no coração. Como proibir sua prática esportiva?”, comenta o médico. Quem vê Washington na convivência com os companheiros de time não imagina que durante um tempo ficou longe disso. Viveu momentos de extrema solidão. Treinou sozinho, tentando provar para si mesmo e para os outros que ainda era capaz de jogar. Liberado pelos médicos, Washington retomou os treinos lentamente. Uma recuperação do corpo guiada pela força da alma. “Tive muita fé em Deus e acreditei muito em mim mesmo. Só eu conseguiria superar aqueles problemas, ninguém mais”, ressalta o jogador. “Isso faz a gente acreditar que, quando temos perseverança, constância e confiança, podemos chegar longe”, diz o médico. Passado o susto, o coração do guerreiro sai fortalecido. Para os médicos, muito mais do que o da maioria dos torcedores. “De nada adianta continuar falando de Washington e outras pessoas famosas se não falarmos de prevenção, porque ele não é como muitas outras pessoas que estão com problemas coronários e estão morrendo, e não sabemos porque não têm a exposição do jogador. Temos que educar, que o jovem também pode ser um portador de hipertensão, de diabetes, de colesterol e que isso vai ser descoberto com 40, 50 anos, quando o indivíduo já tem uma catástrofe no organismo", alerta o médico. Vencendo dificuldades, driblando contratempos. Quis o destino que nos caminhos de Washington e do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima tivesse tanta pedra. Não contava que a vida do atleta é feita da busca pela superação. “Acho que o esporte abre as portas para tudo. Não só do ponto de vista competitivo, mas também para o bem-estar”, avalia Vanderlei. “Acho que é importante não perder a esperança e acreditar.” “Que vejam não só no meu exemplo como em vários que existem que tem muitas coisas maiores e piores que muita gente consegue superar”, conclui Washington. “Depois desse problema, aprendi muita coisa, a dar valor à vida.”

RECEITA DO EQUILÍBRIO.

Envelhecemos a cada minuto desde que nascemos. Mas quando somos pequenos, parece que o tempo demora a passar. Há pressa apenas para as brincadeiras. O que as crianças têm de curiosas têm de agitadas. E assim elas se exercitam, sem cansaço, nem dores musculares. Energia é o que não falta. Mas quando amadurecemos, as brincadeiras, muitas vezes, são substituídas por ocupações rotineiras e sedentárias. E toda a energia da infância quase desaparece. "Pura preguiça. Achava que o meu trabalho era muito mais importante, então dedicava-me exclusivamente ao trabalho e à família", conta o engenheiro eletrônico aposentado Jaime Szajner. A escolha pesou na coluna e no coração. “Resolvi que precisava pensar um pouco mais na minha saúde, de tal forma que pudesse viver mais para conhecer meus netos e, quem sabe, meus bisnetos”, diz Jaime. Hoje, três vezes por semana, nada ou caminha. "A diferença é bastante grande, Hoje, tenho condições de andar cinco quilômetros e sair vivo. A primeira vez que comecei, consegui andar 300 metros e saí quase morto", lembra. Para cada um de nós o tempo passa em um ritmo diferente. Na corrida para retardar o envelhecimento, vence quem se cuidar melhor. E, segundo especialistas, isso implica em movimentar o corpo. Mas para quem ficou um longo tempo parado, qualquer corridinha parece uma maratona. É... Chegar à fase adulta sedentária sobrecarrega o coração. Homens e mulheres com mais de 40 anos descobriram as atividades físicas em um programa de treinamento desenvolvido pela Universidade de Campinas (Unicamp). Durante três meses, praticaram exercícios localizados e aeróbicos. "Todos os voluntários que participam dos projetos têm melhora na função cardiovascular, ganham resistência muscular localizada, especialmente força para as atividades de rotina", revela a pesquisadora Mara Patrícia Mikahil. Não precisaram esperar o resultado dos testes para perceber as mudanças. "Tinha muita dor no ombro, que ia até o cotovelo. Agora, depois do fortalecimento com os aparelhos, não tenho mais dor", afirma a dona de casa Rosa do Espírito Santo. "Você não vê os anos que passaram e sim o que quer atingir lá na frente. Se chegar aos 90 anos assim, está muito bom", comenta a enfermeira Alaíde Autran. Ivo Magnani foi além. Deixou o sedentarismo e a hipertensão para trás. Aos 55 anos, o ex-técnico industrial se tornou maratonista. "Tem tudo a ver com sua própria auto-estima. Descobri a forma de gostar de mim praticando esporte. Sinto-me bem, tenho bom humor, trato melhor os outros, coisa que não fazia até então”, conta. Nosso organismo funciona como uma máquina complexa. Se não movimenta, enferruja. Se usa demais, desgasta as peças. A recomendação dos médicos para manter o corpo saudável é evitar excessos, encontrar o equilíbrio. O rendimento e as vitórias conquistadas em quadra exigiram que a ex-jogadora de basquete Paula treinasse até seis horas por dia. "Foram 28 anos agredindo bastante o corpo, porque quando fazemos um esporte de alto rendimento, de alto nível, estamos sempre buscando ir além do limite do corpo", comenta Paula. A despedida do basquete há cinco anos foi também um adeus à musculação. O condicionamento físico agora é mantido com aulas de pilates, além de caminhada e corrida. "Hoje sei o que é qualidade de vida, o que é bom para mim", diz ela. Mas no caso do ex-jogador de futebol Chicão, foi justamente a vida de atleta que ajudou na recuperação do infarto, seguido de derrame, há cinco anos. "Sem dúvida nenhuma, pegar um organismo adaptado ao exercício facilita. Além disso, a perseverança dele, a vontade de recuperação, o costume de fazer exercícios a vida toda, facilitou e muito”, ressalta o médico Alberto Liberman, cardiologista de Chicão. “Perguntava para o médico se iria jogar bola, correr, porque não queria parar de forma alguma. Falou que na seqüência ia poder fazer tudo. Então, estou feliz”, comemora Chicão. O atacante, medalhista olímpico em Los Angeles, leva hoje uma vida normal. E não deixou de praticar exercícios todos os dias ao lado da mulher, a gerente de loja Maria de Fátima Vidal. "A gente cultiva tanto andar quanto amar. Não podemos deixar nada morrer", diz ela. A paixão também faz bem para a saúde? “Com certeza”, afirma o casal. A história de Chicão virou exemplo para os alunos da escolinha de futebol onde dá aula. "Se ficar muito tempo parado, seu corpo vai perdendo energia”, diz o estudante Júlio. "Não pode desistir da vida, tem sempre que seguir em frente", acrescenta Felipe. E se for um caminho saudável, dá até para resgatar o que ficou lá atrás, perdido no tempo. "A gente sai daqui como criança. Eu, pelo menos, saio com um pique que nem me reconheço, cheia de energia", garante a dona de casa Benedita Maria Sontag.

ACERTANDO O PASSO.

Quinze, dezesseis horas por dia. E eles, presos, equilibrados, apertados! Por necessidade ou vaidade, é o tratamento que a maioria dá aos pés. Logo eles, que são fundamentais nesta época do ano, quando uma multidão caminha rumo ao mesmo destino: um corpo saudável e em forma para exibir no verão. É tempo de andar pelos parques e praças da cidade. Mas muitos não se dão conta de que o caminhar, uma atividade que parece tão simples, tem segredos que, se não conhecidos, podem provocar problemas à saúde. Então, é preciso acertar o passo. Foi no começo de um verão que Romano Botin começou a sentir dores. O empresário aposentado, que tinha passado a vida dentro de um escritório, descobriu que precisava de preparo nos pés para enfrentar os dias de folga. "A dor começava no calcanhar. Na parte dianteira da sola do pé, junto aos dedos, era insuportável. Quando colocava no chão, parecia que dava choque", conta Romano. A palma do pé é um retrato da saúde do corpo. Um exame detalhado mostrou que Romano sofria de encurtamento dos tendões. Era tanto aperto provocado pelos sapatos que os pés dele perderam a mobilidade. "Faltaram exercícios", constata o médico que avaliou o resultado do exame. Pontos que piscam mostram a pressão que os ossos dos pés fizeram sobre os sensores da esteira. Mesmo parados, movimentaram-se o tempo todo. É por isso que pés que passaram um longo tempo trancafiados têm os músculos fracos e podem sofrer muito com a chegada do verão. Para Romano, a cura veio com o reforço da musculatura dos pés e muito alongamento. O médico Celso Gomes, doutor em ortopedia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), observou duas jovens caminhando. “Estão caminhando relativamente bem, nota-se que uma delas está um pouco mais solta que outra”, avaliou o especialista. “Estou começando agora”, contou a jovem menos descontraída. O médico Celso Gomes explicou-lhe que a caminhada com amigos é a melhor forma de começar, mas os mais experientes é que devem baixar o ritmo. "Não force sua maneira, vai aumentando gradativamente. Com isso, vai ter o prazer e vai entrar para o clube dos caminhadores e corredores”, orientou. O médico tem o olho treinado para identificar excesso ou falta de movimentos que podem trazer problemas futuros. "Membros superiores com movimentos muito rápidos podem provocar cansaço e dor", alerta. E andar de mãos dadas com o cachorro na guia? "A pessoa perde a harmonia da movimentação do corpo", diz o médico. "A caminhada perfeita é a que a gente executa todos os movimentos não forçados, absolutamente espontâneos e soltos. Esse é o melhor andar." O médico sugere alongamento para o corpo fora de forma. Camila tem apenas 10 anos e já sabe disso. "Faço exercícios para não doer depois da caminhada. Minha mãe me ensinou”, conta a menina. Sábia Camila. A caminhada não pode se resumir a um verão. O empresário Eugênio Machado já passou por muitos. Sempre no passo certo. "Caminho 45 minutos, em média, por dia. Sinto-me muito bem – durmo bem, faço tudo bem", garante ele. Com alguns cuidados, dá para praticar sem problemas esta atividade física que é a mais antiga e a mais completa. E se faz bem para o coração, para os pulmões, imagina o que não faz para a cabeça.

GLOBO-REPÓRTER: SAÚDE COM PRAZER—26 DE NOVEMBRO DE 2004.

COMBATE AO ENVELHECIMENTO.

Na praça, na feira-livre e no laboratório de pesquisas. A melancia é uma fonte de vida fresca e doce. No corte afiado, mãos delicadas revelam mais um avanço científico. Em um laboratório da Universidade de Campinas (UNICAMP), a engenheira de alimentos Kathleen Fullin acaba de descobrir novas fórmulas extraídas da generosa fruta, que brota nas quatro estações das terras brasileiras. Além de gostosa, o que tem? Madura, viva, cor de sangue. Sangue novo, capaz de proteger milhões de células! "Esse vermelho é exatamente o licopeno!", conta Katlhleen. Encontrado nos frutos vermelhos, o licopeno é cada vez mais admirado pela ciência. Pode ser na melancia, no tomate. O licopeno é mais do que uma dose de esperança. Por que será? "Atua no combate aos radicais livres. É bem interessante para prevenção de câncer, especialmente o câncer de próstata", revela a pesquisadora. “Experimentei com iogurte natural, sorvete de morango, iogurte de frutas vermelhas. É possível aplicar licopeno não só em produtos com o gosto característico da melancia como também em papinha de bebê.” "Todo paciente é um agente da sua própria cura", comenta a empresária Clarice Shein, enquanto saboreia sua sopinha de tomate. Clarice provou e gostou. Agora testa o tomate como remédio no tratamento do câncer de mama. "Precisava reforçar meu organismo porque sabia que passaria por uma cirurgia e, depois, por uma quimioterapia. Tive que fazer a retirada total da mama", conta a paciente. "Senti muitas mudanças. Meu cabelo cresceu muito rápido. Haviam me dito que levaria quatro meses depois da última quimioterapia para que começasse crescer, e já cortei duas vezes. Não tive enjôo, não tive nada", afirma. "A gente observa que, quando as pessoas começam a ficar mais conscientes da sua alimentação e dos seus hábitos de vida, passam a ter outra atitude perante a vida. Aproveitam o histórico do câncer para dar uma grande virada. Não é incomum as pacientes dizerem que a vida é melhor depois do câncer", conta a mastologista Maira Caleffi. "Encontramos licopeno basicamente no tomate. No tomate cru, a absorção é muito pequena. É melhor no tomate cozido ou colocado no forno, não frito. Se colocarmos um pouquinho de azeite de oliva, damos um toque especial”, ensina a médica. “Acredito que o licopeno, sendo ingerido de forma muito maior do que estamos fazendo, pode ajudar a diminuir o risco de câncer de mama e de outros cânceres também. Porque é um anti-radical livre potente que, se ingerido de forma correta, ajuda na diminuição de risco. Todos os cânceres estão aumentando hoje em dia em função do nosso hábito de vida, principalmente por causa da alimentação. Precisamos mudar alguns hábitos, para favorecer toda essa energia que a terra e os alimentos podem nos dar." O supertomate. A ciência também se aproxima do tomate perfeito. Um fruto bonito, firme e carregado de licopeno. O interesse cada vez maior das pessoas em consumir alimentos que previnam doenças fez do tomate biofortificado um sucesso. A novidade mal saiu do laboratório e já foram plantados 1 milhão de pés. Agora, o supertomate está virando produto de exportação e começa a ser vendido para o México. Somos testemunhas do nascimento do supertomate brasileiríssimo, gerado em uma estufa, em pleno cerrado de Brasília. "A gente prepara a fêmea para receber pólen que vem de outra planta", explica Leonardo Giordano, engenheiro agrônomo e geneticista da Embrapa. "Fizemos o cruzamento de um tomate rico em licopeno e pouco resistente a doenças com outro, bastante resistente. Fizemos o cruzamento desses dois tipos de tomate e obtivemos um material com resistência a doenças e com alto teor de licopeno." Esta é a razão de tanto empenho dos cientistas da Embrapa. Dez anos de pesquisa e eis que nasce o filho pródigo: o supertomate, mais resistente a doenças e mais rico em licopeno. "Como antioxidante, previne câncer de ovário e próstata e também reduz o colesterol, tendo ação em doenças cardiovasculares", revela a engenheira agrônoma da Embrapa Maria Esther Fonseca. "Hoje é muito importante que o tomate tenha qualidade de tomate, sabor de tomate e cor do tomate", ressalta Leonardo Giordano. "Já experimentei. É saboroso”, garante o produtor de tomates Altair Mattos. Bala em forma de coração, papinha de neném, sorvete, iogurte, melancia sozinha, com ameixa ou com frutas vermelhas. Nada de corante e muito licopeno concentrado. "A melancia tem mais licopeno do que o tomate comum encontrado no mercado. Além disso, a gente faz um processo de concentração. Nosso produto é muito mais concentrado", diz a engenheira de alimentos Kathleen Fullin. Melancia ou tomate? Que tal os dois? Nunca é demais em se tratando de saúde. "Nossa preocupação nos últimos anos é colocar alimento saudável na mesa do consumidor brasileiro”, diz Leonardo Giordano. Depois do supertomate, nossos incansáveis cientistas estão buscando agora o tomate do futuro. "O tomate do futuro vai combinar licopeno, betacaroteno e vitamina C. Vai ser uma salada em um só fruto. Em cinco anos vamos ter este tomate", anuncia o engenheiro agrônomo da Embrapa Leonardo Boiteux. "Todo mundo está querendo conservar a saúde. Então, vamos comer tomate”, sugere Altair Mattos. Tomate e melancia de todas as formas!

CAFEZINHO: INSTITUIÇÃO NACIONAL.

Na casa de Benedita Noronha, um cafezinho é sempre bem-vindo. Ela e os filhos são apaixonados por café. A cada rodada, faz um litro. “Sou um alcoólatra do café”, brinca o autônomo Dario Traversin. Na casa de Benedita, no bar ou no balcão da padaria, o cafezinho é uma instituição nacional. Simples ou sofisticado, tem lugar garantido entre os hábitos do brasileiro. E bebemos cada vez mais café. O consumo anual é de quase quatro quilos de pó por pessoa. Isso quer dizer que, em média, cada um toma 60 litros de café por ano. O aroma é tão sedutor que a gente começar a apreciar o café antes mesmo de sentir o gosto que tem. Quentinho, servido na hora, quanto prazer cabe em uma xícara! Além de saboroso, o cafezinho é também estimulante, ajuda a nos manter acordados, bem dispostos. O que nos tira o sono são os estudos que relacionam a bebida a algumas doenças. Mas, agora, os pesquisadores estão descobrindo que, em doses moderadas, o café pode até fazer bem à saúde. A pesquisa foi feita pelo Serviço de Nutrição da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal do Estado de São Paulo (UNIFESP). Durante três meses, 60 pacientes que precisam controlar o colesterol foram submetidos a um tratamento especial. Todos os dias, tomaram a mesma quantidade de café: seis copinhos, o que equivale a 300 mililitros. Na primeira etapa, o café foi preparado com filtro de papel; depois, com coador de pano. A boa notícia para os participantes do estudo é que nenhum deles teve aumento nos níveis de colesterol. “O cafezinho à moda antiga, feito pela vovó, é melhor do que o café de máquina porque este não consegue filtrar nem reter substâncias”, diz a nutricionista da UNIFESP Rosana Perim Costa. As substâncias do café que fazem mal ao coração são conhecidas como cafestol e kahweol. São gorduras que resistem ao processo que torra e mói os grãos. De acordo com a pesquisa, só o filtro de papel e o velho coador de pano conseguem retê-las. Nem por isso o estudo condena as outras formas de preparo, desde que não haja exagero no consumo. “As pessoas que tomam um ou dois cafezinhos por dia de outros modos de preparo não têm tanto problema porque a quantidade é pequena. Mas pessoas que tomam mais do que cinco xícaras, e que têm o colesterol elevado, devem filtrar ou coar o café, para que não haja interferência e o colesterol não consiga ser reduzido”, orienta a nutricionista. Outra boa nova do estudo foi revelada por acaso. O alvo dos pesquisadores era o colesterol, mas descobriram também os efeitos do café em pessoas obesas. As cinco xícaras diárias de café coado ou filtrado deixaram os pacientes mais magros. Perderam peso e também massa corpórea. A dona de casa Benedita Noronha, que fez parte da pesquisa, ficou mais leve e cheia de satisfação. “A pesquisadora dizia que minha cintura era a mais fina entre todos os pacientes. Emagreci dois quilos”, comemora. “Não podemos dizer que café faça exatamente bem. Acho que o café não pode ser considerado uma substância protetora do coração, mas pode contribuir para uma discreta perda de peso e pode ter alguns benefícios sobre o indivíduo. Fica mais alerta, tem atividade maior. Talvez aí resida uma pequena perda de peso”, diz a cardiologista da UNIFESP Francisco Fonseca.

BISCOITO FORTIFICANTE.

"A criança não tem discernimento para escolher o que é bom para ela. O papai e a mamãe é que devem insistir nos alimentos saudáveis", diz a nutricionista Eliana Vellozo. “Uma alimentação saudável contém frutas, legumes, verduras e carnes. Mas deve ser colocada no cardápio da criança a partir do sexto mês, de forma gradativa.” Fartura no cardápio, saúde para dar e vender desde o sexto mês de vida. Esta é a receita da nutricionista, responsável por programas de nutrição e saúde da prefeitura de São Paulo. "Acredito que não dê para competir com os alimentos mais atraentes, aparentemente mais gostosos. Acho que, a partir de certa idade, dá para negociar. Por exemplo, dar uma alimentação saudável durante a semana e uma vez na semana ir a um fast food", orienta Eliana. É de pequeno que se aprende, porque, quando estão mais crescidos, querem as mesmas coisas. Uma pesquisa da Universidade Federal do Estado de São Paulo (UNIFESP) descobriu um fenômeno entre os adolescentes. O estudo foi feito durante seis meses na cidade de Guararema. Guararema é cercada por montanhas. A área urbana é bem pequena e a cidade espalha sítios e chácaras onde quase todo mundo encontra alimento de qualidade no quintal das casas: legumes, verduras e, principalmente, leite. Mas será que toda essa riqueza garante hábitos alimentares saudáveis para as crianças que moram na cidade? Peso, medida, entrevistas. Confissões de adolescente, e constatações da pesquisadora, a biomédica Regiane de Paula: "O questionário foi surpreendente. Estamos em uma cidade a 75 quilômetros da capital, com 21 mil habitantes, onde basicamente existem muitos sítios e a oferta de leite e derivados lácteos é muito grande. Para nossa surpresa, essas crianças não têm o hábito de ingerir leite e derivados”. "Faz parte do adolescente. Primeiro, acreditam que o leite infantiliza. Quando entram na adolescência, o primeiro ato é deixar de consumir leite”, explica a pesquisadora. "Bebia bastante leite antigamente, mas agora não bebo muito", conta Riane Calixto, de 12 anos. "Consomem metade das necessidades diárias de cálcio. Isso é preocupante. As meninas consomem menos cálcio ainda, o que nos deixa mais preocupados. Essas meninas tendem, na pós-menopausa, a ter um aumento da osteoporose, não vão ter um osso sadio”, alerta a biomédica. "No caso dos homens, a osteoporose vem crescendo também."

AS PESQUISAS AVANÇAM E NÃO HÁ TEMPO A PERDER.

“Escolhemos o biscoito porque faz parte do hábito alimentar do adolescente. Tem 30% a mais de cálcio do que os outros biscoitos", revela Regiane de Paula. Só biscoito? Não. A garotada de Guararema passou 180 dias mudando os hábitos. "Estou mudando devagarzinho, por causa do cálcio. Tenho que crescer", diz Anderson Maciel Siqueira, de 15 anos. "Meu café da manhã era refrigerante, porque não gostava de leite”, conta Renata Oliveira, de 13 anos. "Quando descobri que as crianças estavam com carência de cálcio, fiquei preocupada, mas também não tinha consciência", admite a mãe da jovem, Ana Angélica Oliveira. "Nossas refeições eram uma mistura de arroz com feijão e fritura. Agora, comemos alface, brócolis, couve, repolho." "Podem encontrar cálcio no leite e derivados lácteos, como margarinas, manteiga, iogurte, requeijão. Algumas folhas verdes, como espinafre, brócolis, feijão vermelho e feijão branco são fontes alimentares naturais de cálcio", explica a biomédica. A pesquisa sobre os hábitos dos adolescentes revelou que faltava qualidade naquilo que comiam. Um exame mais profundo avaliou como estavam os ossos dos adolescentes antes e depois dos seis meses de tratamento com o reforço de cálcio. "Houve pequena melhora em função de uma incorporação maior do cálcio proveniente dos biscoitos", revela a biomédica. “Quanto mais incorporarmos cálcio aos ossos, por volta dos 14, 15 anos de idade, melhor vai ser a qualidade desses ossos. Automaticamente, preveni-se a osteoporose. Este é um dos processos. Existem outros, como a atividade física, que também é necessária." "Troquei fritura, hambúrguer e refrigerante por chuchu, abobrinha, quiabo, queijo, leite, requeijão. Emagreci e fiquei com mais disposição. Agora jogo vôlei, gosto de basquete", conta Renata. "O importante é que a gente possa educar e conscientizar não só os adolescentes mas os jovens e a população em geral da necessidade de consumir cálcio. Isso passa pelos pais e professores", comenta Regiane de Paula.

PAPINHA IDEAL.

"O processo de alimentação, de conscientização, se inicia no nascimento. Hoje meu filho tem 8 aninhos e negociamos idas à lanchonete, se o cinema vai ser acompanhado de pipoca com manteiga ou não", conta a nutricionista Eliana Vellozo. "A criança tem rejeição àquilo que é novo. É muito importante a formação porque os hábitos alimentares começam logo cedo. Essa é mais uma razão muito forte para insistir em determinados tipos de alimentos.” E a nutricionista dá a receita: "Até o sexto mês, é fundamental fazer o aleitamento materno. A Organização Mundial de Saúde recomenda o aleitamento materno até os 2 anos. Nos intervalos das mamadas, utilizamos maçãs, inclusive como sobremesa. Após a refeição salgada, deve ser muito bem higienizada com uma escovinha. Depois, deve-se parti-la ao meio e ir raspando com colherinha". "Para fazer papinha, uso cenoura, rica em betacaroteno e vitamina A; batata, para aumentar a densidade energética, e brócolis cozidos. Depois, o ideal é amassar os legumes com um garfo e não passá-los no liquidificador, nem peneirá-los", ensina a nutricionista. Os mestres em saúde mostram que, no bê-á-bá da boa alimentação, a lição de casa, feita pelos pais, pode ser a mais importante. Saúde para toda a família!

CHOCOLATE ANTI-RADICAIS LIVRES.

Fascínio que encanta os olhos. Prazer que derrete na boca. É inegável a atração que o chocolate exerce na maioria das pessoas. Mas, por ser rico em gorduras e ter muitas calorias, também é considerado o vilão das dietas. Fama que vai mudando aos poucos. Estudos científicos vem dando ao chocolate um julgamento mais justo. E o principal motivo é a presença dos chamados flavonóides. “As pesquisas sobre os flavonóides no chocolate têm mostrado benefícios como a diminuição do risco de doenças cardiovasculares, diminuição do colesterol e melhoria no sistema imunológico”, revela a engenheira de alimentos Priscila Efraim, da Universidade de Capinas (UNICAMP). Os flavonóides são compostos fenólicos que funcionam no nosso corpo como antioxidantes. Neutralizam os radicais livres, famosos por apressar o envelhecimento e provocar câncer. A novidade é que os pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos da UNICAMP estão desenvolvendo agora um chocolate muito mais rico em flavonóides. Foram dois anos de trabalho em laboratório até que os pesquisadores encontrassem uma forma de preservar os antioxidantes naturais que existem no cacau. Na prática, fizeram com o alimento o que tentamos fazer com nosso próprio corpo: manter uma reserva de substâncias protetoras que nos torne pessoas mais saudáveis. Um trabalho difícil. Mais de 80% dos flavonóides do cacau são perdidos na etapa de fermentação. Uma enzima oxida e destrói esses componentes. O desafio dos pesquisadores era inibir a ação da enzima. E eles conseguiram, usando um processo que elimina o oxigênio presente na fermentação do cacau e com a ajuda de um aditivo químico. “Não faz mal à saúde. Essa pesquisa teve, obrigatoriamente, que passar pela Comissão de Ética da UNICAMP, e foi totalmente autorizada porque a concentração não afeta o produto final”, afirma o engenheiro de alimentos Horácio Pezoa Garcia. O segundo desafio foi manter o sabor doce e gostoso do chocolate. “Pega um pouquinho mais na boca”, diz Priscila Efraim. Será que as pessoas vão saber a diferença entre um e outro? A atriz Tissa Valverde gosta muito de chocolate. A estudante Helen Mazarakis é compulsiva. E o produtor musical Luciano Malheiros come demais, sem culpa. “Não vivo sem chocolate. Em qualquer lugar, a qualquer hora, está valendo”, diz Luciano. Os três tiveram nas mãos o novo chocolate especial, com mais flavonóides. Será que notaram diferença? “Achava que ia comer um chocolate tipo remédio, mas não é isso, é bom”, comenta Tissa. “Dá para comer. Talvez o comprasse pelo fato de ser mais saudável, porque hoje qualquer ajudinha está valendo”, diz Luciano. “Acho que o gosto poderia melhorar”, sugere Helen. Segundo os pesquisadores, a vantagem do chocolate com mais flavonóides é que estaríamos ingerindo mais substâncias protetoras, sem precisar comer demais. “Quarenta gramas de chocolate convencional teriam mais compostos fenólicos que uma maçã ou uma taça de vinho tinto. Com esse processo, não seria necessário comer essas 40 gramas. Talvez fossem suficientes 20 ou 25 gramas de chocolate para ter a mesma concentração de compostos fenólicos”, avalia Horácio Pezoa Garcia.

FOME OCULTA.

Aos olhos da química e fisiologista Rebeca de Angelis, da Universidade de São Paulo (USP), o mercado é um misto de jardim e laboratório. Aos 78 anos, a especialista em nutrição tem uma indiscutível intimidade com os alimentos. Foi a primeira estudiosa no Brasil a dar o alerta sobre a fome oculta. “A fome oculta é uma fome silenciosa porque não se sente, não se manifesta. É a necessidade de protetores nutricionais que não estão chegando porque a gente não está comendo tudo isso”, explica ela. A fome oculta não apresenta sintomas específicos, mas é traiçoeira. Quando aparece, já se transformou em doenças como osteoporose, câncer, hipertensão, problemas cardiovasculares, envelhecimento precoce. A fome oculta é a carência que o corpo tem de certos nutrientes que previnem essas doenças. O problema pode estar escondido por uma aparência de normalidade ou de exageros. Aí é que está o perigo: além de não comermos o que é necessário, comemos em excesso o que não é preciso. “Infelizmente, o ser humano, além dessa fome que é visceral, tem principalmente a fome que chamamos de apetite. E um apetite descontrolado por algumas coisas que não são necessárias e que a gente acaba comendo. Por exemplo, se o indivíduo vai a uma festa, para que comer docinho? Docinho não é necessário, não há necessidade de açúcar, porque tudo o que comemos vai formar açúcar. Não precisamos comer açúcar”, diz a especialista. A receita para matar a fome oculta é uma só: comer aquilo que nos faz bem, como frutas, verduras e legumes em quantidade. A professora rebeca dá um exemplo: uma salada feita com brócolis, tomate, almeirão e cenoura, temperados com vinagre, azeite e ervas aromáticas. Um prato cheio de fibras, vitaminas e substâncias protetoras que ajudam a prevenir doenças. O ideal é comer assim desde criança, mas sempre é tempo de mudar. “Mudar para melhorar. O indivíduo vai ter menos doenças e correr menos riscos. Se conseguir convencer a cabeça dele, muda”, garante Rebeca de Angelis.

DIETA DO FUTURO.

“Meu nome é Hussei Hatem, sou de origem libanesa”, diz o empresário. “Sou Julieta Harui Hayachi”, diz a estudante de traços orientais. “Meu nome é Alexandre Ferrari”, diz o jovem de origem italiana. São os primeiros voluntários de um estudo que está começando no Sul do Brasil. A pesquisa envolve uma nova ciência: a nutrigenética, que relaciona a nutrição com os genes – a herança que recebemos de nossos ancestrais. O passado, o presente e o futuro da nossa saúde. “Todos os estudos têm levado ao entendimento de que muitas das doenças que nos afetam depois da velhice podem ter um começo ainda quando estamos na barriga da nossa mãe”, diz a geneticista Ivana da Cruz. Os cientistas gaúchos escolheram a pequena Ijuí para aplicar a pesquisa por uma razão muito especial: a cidade é conhecida pela diversidade de imigrantes que chegaram no final do século 19. Onze etnias diferentes formam hoje a população de 78 mil habitantes. Os pesquisadores querem saber quem está mais exposto a algumas doenças e tentar evitá-las usando os alimentos com receitas feitas especialmente para cada pessoa. É a ciência botando a colher no prato nosso de cada dia. Um prato de doces ou de frituras teria o mesmo efeito sobre pessoas com características genéticas diferentes? “Na medida em que estamos conhecendo o nosso mapa genético, também podemos identificar pequenas alterações metabólicas que podem ser corrigidas através da nutrição, como é o caso dos genes associados ao metabolismo do colesterol. Esta molécula, às vezes, está associada a muitas doenças, como as cardiovasculares, o câncer e até mesmo a demências”, revela a geneticista. Os pesquisadores já sabem que pelo menos um em cada cinco gaúchos tem pré-disposição genética para ter colesterol alto. O jovem bioquímico Matias Frizzo faz parte da equipe de pesquisadores. E foi por acaso, nos testes que antecederam os estudos, que descobriu, no próprio sangue, o gene que aumenta em 30% a chance de ter colesterol elevado. “Acho que saber foi a melhor escolha, porque hoje sei que tenho uma tendência a aumentar os níveis de colesterol. Então, posso ter hábitos de vida mais saudáveis para não correr o risco de ter um colesterol mais alto”, comenta o pesquisador. E Matias começou logo. A nutricionista Loiva Dallepiane, que também faz parte da pesquisa, deu-lhe a primeira aula sobre o que comer e o que não comer a partir de agora. “Vamos escolher alimentos que têm menos possibilidade de aumentar o colesterol e, ainda, escolher alguns que tenham a propriedade de diminuir o colesterol”, diz a nutricionista. A idéia é começar sempre pelas saladas. Matias se serve das folhas, da couve-flor, do brócolis, da cenoura, da beterraba e do kiwi. “São ricos em antioxidantes, que agem sobre os radicais livres e impedem ou dificultam a adesão do mau colesterol, que é o LDL, nas veias”, explica a nutricionista. Na hora de temperar, o coração agradece. Matias é orientado a usar azeite de oliva, que contém as gorduras saudáveis, que fazem bem. Uma porção de arroz, outra de feijão, e uma novidade: a dica de um alimento bastante popular, com propriedades que pouca gente conhece. “A farinha de mandioca, tão tradicional, possui fibras solúveis que teriam propriedades para diminuir o colesterol”, revela a nutricionista. Na escolha do prato principal, o indicado é reduzir as carnes vermelhas. Consumir frango sem pele e comer peixes, de preferência, grelhados. “Não precisa ser apenas salmão, serve qualquer outro peixe que possa ser grelhado. Os peixes do mar são os que mais têm Omega 3, como atum e sardinha”, orienta a nutricionista. “Desse novo prato, a fruta, que não costumava comer com a comida, e a farinha são novidade. Nunca tive o hábito de comer farinha de mandioca junto com a comida, a não ser em alguns churrascos. A mudança não foi nenhum sacrifício, foi um prazer”, diz Matias. Descobrir que tem o gene do colesterol alterado fez Matias mudar. Adaptar o cardápio em busca de um futuro mais saudável. Mas será que os voluntários da pesquisa estão preparados para saber o que dizem os genes? “É o que eu quero saber”, diz Julieta. “Tenho muita curiosidade e um pouco de medo também”, admite Hussein. “A gente acredita que conhecer o mapa genético vai ser tão comum quanto fazer um exame de pressão. Conhecer nosso mapa genético é nos auto-conhecermos antes de mais nada. E não temos nada a temer em nos conhecer, somente a ganhar, se pudermos trabalhar com essa informação a nosso favor”, constata a geneticista Ivana da Cruz.

TABELA DE ALIMENTOS.

O jaleco branco identifica dois cientistas que vão às compras. Como qualquer brasileiro, buscam qualidade. Verduras frescas, legumes coloridos, frutas da estação e carnes. Começando pelos peixes, conservados no gelo. Uma maratona para o engenheiro agrônomo Dag Mendonça e para a estudante de economia Mariam Stenger. Os dois trabalham no Núcleo de Pesquisas em Alimentação da Universidade de Campinas (Nepa-Unicamp). O feijão e o arroz também estão no prato da investigação científica. Ao todo, são 198 produtos analisados na maior pesquisa nacional sobre a comida que chega à nossa mesa. O resultado de sete anos de estudos está na primeira Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (Taco). Em 42 páginas a tabela mostra o que cada alimento tem de bom, como vitaminas, minerais, fibras, e também o que tem de ruim, como gordura e colesterol. Na hora de escolher a carne, a tabela mostra que preço nem sempre indica o melhor. O músculo, por exemplo, é uma carne de segunda, mas é tão magrinho quanto o filé mignon, que custa bem mais caro. Os dois têm, em média, 140 calorias em cada cem gramas. A pesquisa também comprovou o que se imaginava: a mais gordinha de todas é a costela. As mesmas cem gramas estão recheadas com 358 calorias. Para saborear ainda mais a receita dos cientistas, precisamos entender que todas as experiências são comprovadas em testes intermináveis. No Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), em Campinas, começa a ser preparada a segunda tabela. Ainda mais variada, vai ter 150 novos produtos. Outra tabela genuinamente nacional. A diferença está na origem da informação. Hoje, a maioria dos produtos traz no rótulo composições baseadas em alimentos produzidos nos Estados Unidos e analisados em laboratórios americanos. Mas, como temos outro tipo de clima, solo e espécies de plantas diferentes, os cientistas estão certos de que nossos alimentos também não são iguais – podem ter mais ou menos vitaminas, fibras, gorduras. Só agora o consumidor vai saber disso. “O rótulo tem algumas informações que são adequadas e outras, não. Primeiro, a gente usou os alimentos mais consumidos. Agora, a gente está pegando os alimentos regionais", diz a coordenadora do NEPA, Elizabeth Salay. O regional vatapá, a regional feijoada, e por aí vai. O banquete da ciência promete despertar nosso paladar e revigorar nossa saúde! “A gente espera que o ITAL continue a dar para a população o que precisa ter para se alimentar de forma correta, se manter saudável e feliz, que é o que todo mundo espera”, diz a engenheira de alimentos do ITAL Ana Maria Rauen.

CAPÍTULO III.

RESUMO DAS INDICAÇÕES FEITAS PELOS NUTRICIONISTAS.

ADOÇANTES:

Adocyl, Assugrim, Dietyl, Doce Menor, Doçura, Finn, Gold-fructo fibras, Holda, Stevita (natural), Sucaryl, Sucralose, Tal e qual, Zero-Cal.

NOTA: O stevita foi, por grande margem de votos, o adoçante mais indicado pelos NUTRICIONISTAS, por ser natural. Em Salvador, por exemplo, é encontrado no “Shopping Center” Iguatemi, loja da Mundo Verde, 2º Piso, próxima à Livraria Civilização Brasileira e à Loja Arapuã. O seu fabricante é a Steviafarma Industrial S. A., de São Paulo. Cuidado com os “laboratórios de fundo de quintal”! Acha-se o stevita, também, nas melhores lojas do ramo de alimentos naturais.

ALIMENTAÇÃO EQUILIBRADA SEMPRE CONTÉM:

Açúcares, água; carboidratos (glicose): cereais (arroz, aveia, batata, centeio, cevada, milho, trigo) e seus produtos (biscoitos, farinhas, macarrão, massas, pão, pipoca) e tubérculos (batata inglesa, batata-doce, cará, inhame, mandioca); fibras vegetais; gorduras: frutas oleaginosas (amêndoas, amendoim, avelãs, castanhas, nozes), margarinas, óleos vegetais; proteínas: aves, carne de boi, coalhada, frutos do mar, iogurte, leguminosas (ervilhas, feijões, grão-de-bico, lentilha, soja), leite, ovos, peixes, queijos; sais minerais, vitaminas.

ALIMENTOS CUJOS CONSUMOS DEVEM SER EVITADOS:

Açúcar (refinado ou mascavo), alimentos fritos, ameixa seca, arroz branco, azeitonas (em conserva), balas, bebidas alcoólicas (cerveja, champanha, uísque, vinho doce, etc), biscoitos salgados, bolo, bombons, café, carnes gordas, castanhas, chá-mate, chocolate, doces em geral, leite condensado adoçado, leite tipo C, maionese, manteiga com sal, margarinas, mel, pão doce, queijos (amarelos), rapadura, refrigerantes, sardinha (em lata), sorvetes, sucos (concentrados), tortas.

ALIMENTOS FUNCIONAIS:

Cereais integrais, ervas naturais, frutas, verduras.

ALIMENTOS INTEGRAIS:

Arroz integral, biscoitos integrais, grãos (ervilha, grão-de-bico, lentilha, milho), legumes, pães integrais, verduras.

ALIMENTOS MONOTERPENOS. Reduzem o apetite:

Alfafa (broto), hortelã, laranja, limão, maçã, tangerina.

ALIMENTOS OLEAGINOSOS:

Amêndoas, avelãs, castanha-do-Pará, macadâmias, nozes, pistache.

ALIMENTOS PRÉ-BIÓTICOS. MELHORAM A DIGESTÃO E ALIMENTAM A FLORA INTESTINAL:

Banana, cebola, trigo.

ALIMENTOS QUE AUMENTAM O METABOLISMO E AJUDAM QUEIMAR GORDURA:

Alfafa, banana, linhaça (semente), maçã, salsinha, trigo (gérmen).

ALIMENTOS RICOS EM FIBRAS:

Aveia (farelo), cereais integrais (arroz, aveia, pão), ervilha (fresca), feijão, frutas com casca e bagaço, grão-de-bico, legumes, lentilha, soja, verduras cruas.

ALIMENTOS TERMOGÊNICOS. Obrigam o organismo a gastar energia e queimar calorias:

Açafrão, alfafa, banana, gergelim (semente), linhaça (semente), maçã, papoula (semente), salsinha, trigo (gérmen).

CHÁS:

Abajeru, banchá, camomila, capim-santo, capim-limão, chá verde, erva-cidreira, erva-doce, funcho, hortelã, jasmim, maçã (feito com a casca), maracujá (feito com a casca), melissa, pata-de-vaca, verde.

NOTA: Os fabricantes de chás mais conceituados do mercado são a Leão e a Vemat.

FRUTAS. Os números colocados entre parênteses representam a quantidade de calorias de cada 100 g da fruta:

Abacate (168), abacaxi (58), acerola (60), ameixa preta seca, com casca (190), ameixa vermelha (54), amora (61), banana: d’água (ou nanica), caturra e maçã, esta branca ou preta (105, em média), cajá (46), caju (37), caqui (86), carambola (29), cereja (97), figo (136), framboesa (60), goiaba vermelha (43), groselha (40), jabuticaba (94), jaca (90), kiwi (85), laranja pêra ou lima (50), lima (51), limão (32), maçã (66), mamão, com as sementes (68), manga (70), maracujá (90), melancia (31), melão (30), morango (39), nectarina (64), pêra (64), pêssego (52), pitanga (50), romã (62), tangerina, ou mexerica (50), uva branca (78).

FRUTAS COM BAGAÇO:

Laranja, lima, mamão (com sementes), manga, mexerica, tangerina.

FRUTAS COM CASCA:

Ameixa (fresca), caqui, goiaba, maçã, pêra, pêssego, uva.

LEGUMES E VERDURAS. Os números colocados entre parênteses representam a quantidade de calorias de cada 100 g do alimento:

Abóbora (40), abobrinha (30), acelga (34), agrião (28), aipo, alface (20), almeirão (28), aspargo, berinjela (28), bertalha (20), beterraba (49), brócolis (37), cenoura (50), chicória (21), chuchu (92), couve-flor (41), couve-manteiga (55), endívia, ervilha fresca (39), escarola, espinafre, jiló (38), maxixe, moranga (19), mostarda fresca (80), nabo (35), palmito (27), pepino (25), quiabo (40), rabanete (16), repolho (25), rúcula (21), taioba, tomate (20), vagem (42).

ÓLEOS VEGETAIS:

Agodão, arroz, azeite doce, azeite puro de oliva, azeite-de-oliva extra virgem, canela, canola, extra-virgem, gergelim, girassol, milho, soja.

TEMPEROS NATURAIS DE VERDURAS E DE OUTROS ALIMENTOS. SÓ DEVEM SER ACRESCENTADOS APÓS O PREPARO DOS ALIMENTOS:

Açafrão, alecrim, alho, baunilha, canela, cebola, cebolinha verde, cheiro verde, coentro, cominho, hortelã, limão, louro, manjericão, manjerona, noz moscada, orégano, pimenta (malagueta), pimentão, salsa, salsão, sálvia, tomilho.

TUBÉRCULOS E RAÍZES:

Aipim, batata baroa (mandioquinha), batata doce, batata inglesa, cará, inhame.

RELAÇÃO DOS “FABRICANTES” DE PRODUTOS NATURAIS IDÔNEOS E MAIS CONHECIDOS:

MUNDO VERDE “FRANCHISING”.

Site: http://www.mundoverde.com.br/inicio.asp

E-mail:  franquia@mundoverde.com.br

Telefones: 0800-222528/031-24-237-2528.

“Fax”: 031-24-231-4690.

LOJAS EM SALVADOR:

1ª LOJA. Mundo Verde—Max “Center”.

Avenida Antônio Carlos Magalhães, 846, lojas 1/2, Edifício Maxcenter, Itaigara,

41825-900/Salvador, BA.

Telefone: 031-71-359-0976.

E-mail: maxcenter@mundoverde.com.br 

2ª LOJA. Mundo Verde—“Center” Lapa.

Rua Portão da Piedade, 155, loja 229, “Shopping Center” Lapa, Barris/Piedade, 40070-900/Salvador, BA.

Telefone: 031-71-328-1308.

E-mail: mvcenterlapa@mundoverde.com.br 

3ª LOJA. Mundo Verde—“Center” Barra.

Avenida Centenário, 2992, 3º piso, loja 340/1, “Shopping Center” Barra, Barra/Chame-Chame, 40140-902/Salvador, BA.

Telefone: 031-71-264-0392.

E-mail: mvshoppbarra@mundoverde.com.br 

4ª LOJA. Mundo Verde—Iguatemi.

Avenida Tancredo Neves, 148, Quadra “P”, 2º piso, loja 22, “Shopping Center” Iguatemi, Caminho das Árvores/Pituba, 41820-908/Salvador, BA.

Telefone: 031-71-460-3293.

E-mail: iguatemi@mundoverde.com.br

5ª LOJA. Mundo Verde—Centro-Mercês.

Avenida Sete de Setembro, 147, Dois de Julho/Rosário, 40060-000/Salvador, BA.

Telefone: 031-71-329-0279.

E-mail: mvmerces@mundoverde.com.br 

MÃE TERRA.

Site: www.maeterra.com.br

E-mail: maeterra@maeterra.com.br

Telefone: 031-11-5686-3406.

Representante em Salvador:

Eduardo. Telefone: 031-71-346-1644.

NOTA: Os produtos da MÃE TERRA são encontrados nas melhores lojas do ramo.

JASMINE COMÉRCIO DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA.

Site: http://www.jasminealimentos.com.br/

E-mails: sac@jasminealimentos.com.br  jasmine@jasminealimentos.com.br

Telefones: 0800-7018003/031-55-41-286-7871.

“Fax”: 031-55-41-286-3378.

Representantes em Salvador:

ERNANI FRANKLIN. Telefone: 031-71-363-5208.

KI NATURA. Telefones: 031-71-321-4316/322-1687.

NOTA: Os produtos da JASMINE são encontrados nas melhores lojas do ramo.

PRÓ-VIDA ALIMENTOS INTEGRAIS.

Site: http://www.providaonline.com.br/

E-mail: provida@providaonline.com.br

Telefone: 0800-7074355.

Representante em Salvador:

Segundo Comércio Representações—César.

Telefones: 031-71-230-6933/9955-9423.

TELEFONES IMPORTANTES E ÚTEIS:

1.Alfredo Halpern. Endocrinologista.  031-11-3167-1449.

2.Aline Arouca de Castro. Nutricionista. 031-19-3251-1670.

3.Amélio de Godoy Matos. Endocrinologista. 031-21-2266-2553/2579-0291/2579-0292.

4.Ana Paula Rodrigues. Nutricionista. 031-21-2411-5880.

5.Ari Lopes Cardoso. Médico Pediatra e Nutrólogo. 031-11-3069-8610.

6.Eliana de Carvalho Gomes. Nutricionista. 031-71-322-8037.

7.Daniela Ricco Pinheiro/JASMINE. Engenheira de Alimentos. 0800-7018003.

8.Fernanda Ventura. Engenheira de Alimentos. UNICAMP. 031-19-3788-4006.

9.Fernando. 031-11-3884-1731/3884-4575/5533-3861.

9.George Guimarães. Nutricionista. 031-11-3884-1731/3884-4575/5533-3861.

10.Jane Corona. Nutróloga. 031-21-2496-3768 (consultório).

11.José Luis Ascheri. Engenheiro de Alimentos. 031-21-2410-7449 (Embrapa).

12.Joselaine Stümer, Nutricionista. 031-51-3311-0514/3222-1387. 

13.Lucília Caldas. Nutricionista. 031-21-2295-5737 (Ramais: 301/302. Uni-Rio).

14.Maria Aparecida Silva. Nutricionista. UNICAMP. 031-19-3788-4074.

15.Maria Aparecida Teixeira. Engenheira de Alimentos. Uni-BH. 031-31-3891-3301.

16.Mauro Fisberg. Médico Nutrólogo. 031-11- 5575-3875.

17.Míriam Najas. Médica Geriatra e Nutróloga. 031-11-3842-5144/3841-9497.

18.Regina. 031-11-5013-1240/1241.

19.Sandra Derivi e Maria Heide Marques Mendez. Doutoras em Ciência dos Alimentos. Universidade Federal Fluminense. 031-21-2711-1012.

20.Sandra Veloso. Endocrinologista. 031-71-353-5953.

21.Sílvia Regina. Nutricionista. 031-11-5013-1240/1241.

22.Wilma Turano e Simone Boekel. Nutricionistas. 031-21-2295-5737 (Ramais: 301/302.  Uni-Rio).

23.Walmir Coutinho. Endocrinologista. 031-21-2493-5764.

CAPÍTULO IV.

CARDÁPIO DE JOSÉ CARLOS DUTRA DO CARMO.

Por causa do diabetes (tipo II, o menos grave), em razão de uma pancreatite crônica, eu mesmo fiz uma revolução em minha dieta alimentar e me impus, espontaneamente, este cardápio. Tenho 67 anos, 1,70 m de altura e peso 92 kg. Portanto, estou com 22 kg de excesso de peso. Tive LABIRINTITE recentemente.

DE MANHÃ.

—Ao acordar, entre 8h30min e 9h, tomo meio copo médio de água mineral, sem gás, em jejum.

9h20min:

—Bebo uma xícara média de chá “branco” (camomila, erva-cidreira, erva-doce, ou hortelã), com 3 gotas de adoçante natural (stevita).

9h40min:

—Como um pouco menos de uma fatia de pão integral de soja com meio copo pequeno de leite desnatado (puro, sem café, açúcar, sal ou adoçante artificial). Ambos ficam 7min no forno elétrico.

9h45min:

—Como 1 copo pequeno cheio de salada de frutas (geralmente abacaxi, goiaba, maçã, mamão, melão, pêra, mais ameixa vermelha, kiuí, morango, quando há na “feira”).

12h:

—Como 1 banana prata média ou 2 bem pequenas.

ALMOÇO.

12h50min:

—Arroz ou macarrão integrais (nunca os dois juntos). (No equivalente a um copo grande de arroz e igual quantidade de macarrão, é colocada meia colher grande de azeite de oliva extra-virgem em cada parte, com 3 dentes médios de alho bem amassados, mais pequenas poções de cebolinha verde, cebola branca, coentro, pimentão, tudo picadinho).

—Feijão de soja. (No equivalente a um copo grande de feijão, é colocada meia colher grande de azeite de oliva extra-virgem, com 3 dentes médios de alho bem amassados, mais pequenas poções de cebolinha verde, cebola branca, coentro, pimentão, tudo picadinho).

—Peixe, em pequena quantidade (2 pedaços pequenos), assado no forno elétrico. (No equivalente a 250 g de peixe, é colocada uma colher grande e meia de azeite de oliva extra-virgem, com 5 dentes médios de alho bem amassados, com maiores poções de cebolinha verde, cebola branca, coentro, pimentão, tudo picadinho).

—Frango, em pequena quantidade (2 pedaços pequenos), assado no forno elétrico. (No equivalente a 500 g de frango, é colocada uma colher grande de azeite de oliva extra-virgem, com 3 dentes médios de alho bem amassados, mais cebolinha verde e coentro, em pouca quantidade, meia cebola branca, meio pimentão, tudo picadinho e com uma colherzinha de corante).

—1 colher grande de SUPER salada de verduras cruas: beterraba, cenoura, chuchu, pepino, trituradas em pedaços bem pequenos.

—Pequenas poções de verduras refogadas: chuchu, couve, quiabo e repolho. (Cada “preparo” leva uma colher média (de sopa) de azeite de oliva extra-virgem, com 3 dentes médios de alho bem amassados).

—Um ovo cozido, sem gema.

OBSERVAÇÕES.

—Na hora da refeição espremo um limão médio em cima da comida e espalho uma colher grande cheia de sementes de linhaça dourada.

Não tomo qualquer tipo de líquido durante o almoço, nem mesmo água. Tomo água mineral, sem gás, somente duas horas após.

—Quantidade de comida: Um prato fundo quase cheio até as bordas.

À TARDE.

16h às 16h30min:

—Bebo 2 xícaras médias de chá “branco” (camomila, erva-cidreira, erva-doce, ou hortelã), com 3 gotas de adoçante natural (stevita) em cada uma.

16h50min:

—Como 2 bananas pratas bem pequenas ou 1 média.

17h10min:

—Como duas fatias de pão integral de soja, com 1 copo médio de leite desnatado (puro, sem café, açúcar, sal ou adoçante artificial). Tudo fica no forno elétrico durante 11min. Em cada fatia de pão coloco 4 rodelas “grossinhas” ou 6 mais finas de um tomate médio maduro, em cima das quais acrescento 4 folhas pequenas ou 2 maiores de alface “manteiga”.

À NOITE.

19h30min:

—Como 1 copo médio cheio de salada de frutas (geralmente abacaxi, goiaba, maçã, mamão, melão, pêra, mais ameixa vermelha, kiuí, morango, quando há na “feira”), com 2 colheres médias (1 de cada) de farelo de aveia e farinha de castanha do Pará.

—Tomo meio copo médio de água de coco verde, natural, pura.

21h30min:

—Como duas fatias de pão integral de soja com 1 copo médio de leite desnatado (puro, sem café, açúcar, sal ou adoçante artificial). Tudo fica no forno elétrico durante 7min. Em cada fatia de pão coloco 4 rodelas “grossinhas” ou 6 mais finas de um tomate médio maduro, em cima das quais acrescento 4 folhas pequenas ou 2 maiores de alface “manteiga”.

23h30min:

—Chupo 1 tangerina pequena ou média, engolindo os respectivos bagaços.

—Todos os dias, às 22h30min, como 5 balas de banana, sem açúcar, de fabricação caseira.

—Durante o dia e à noite tomo uma média de 5 copos médios de água mineral, sem gás.

—Antes de dormir, entre 1h a 2h, tomo meio copo médio de água mineral, sem gás.

IMPORTANTÍSSIMO.

—Eliminei, completamente, o uso de açúcar, sal e gordura animal do meu cardápio, bem como de carne vermelha, refrigerante, bolo, doce, ou sorvete.

—Mesmo tendo sido acometido de LABIRINTITE, tenho feito o maior esforço do mundo para manter minhas atividades físicas, que julgo fundamentais e imprescindíveis, pelo menos de segunda a quinta-feira, na parte da manhã.

—Freqüento uma Clínica de Fisioterapia, terça e quinta-fera, de manhã, onde faço uma série bastante grande de flexões e musculação.

—Pratico pingue-pongue comigo mesmo, lançando a bolinha da mesa contra a parede, tocando-a 200 vezes.

—Dou 60 voltas, alternadamente de 20 em 20, andando de maneira bastante acelerada num compartimento equivalente a uma sala grande, no total de 2100 passos, aproximadamente.

—Faço dezenas de flexões de maneira leve.

—Faço bicicleta ergométrica, equivalente a 1000 pedaladas, com rotações um pouco aceleradas.

—Dou o equivalente a 1000 passos numa esteira elétrica, de forma um pouco acelerada.

—Fico 30min no sol, só de “short”.

CAPÍTULO V.

Mensagens (e-mails) emocionantes que recebi de pessoas portadoras de diabetes, e de nutricionistas, com informações importantíssimas e preciosas, inclusive relativas a uma alimentação nutritiva e saudável. São seres humanos com atributos excepcionais, que encarnam o bem em toda a sua plenitude, enfim, amigos sinceros, leais, autênticos e verdadeiros. A eles, o meu imenso e eterno agradecimento.

1. Sou diabética há 11 anos e só pude ver seu e-mail hoje, pois estava viajando. Posso, desde que me seja possível, tirar algumas dúvidas suas sobre diabetes. Meu e-mail é debma@sti.com.br  e meu telefone 0XX-11-9179-2608. Assim que quiser ligar-me, pode. Prefiro que me ligue de noite, porque durante o dia fica difícil atendê-lo. Meu nome é Débora.

2. Olá. Lembro-me quando estava na sua situação. Descobri meu diabetes no carnaval do ano passado; logo, tenho-o há 1 ano e pouco. Não sabia de nada na época, então comecei a procurar na Internet... mas só encontrei coisas muito genéricas. Aí encontrei o site da ADJ: http://www.adj.org.br/default.htm Lá eles me informaram de um “monte” de coisas. Passei a me sentir muito melhor e a aprender a conviver com minhas "novas tarefas". Terei o maior prazer em ajudá-lo no que for possível. Qualquer dúvida, pode contar comigo. Forte abraço, Chrystiano de Castro, chrystiano@brturbo.com 

3. Li seu email. Você, como marinheiro de primeira viagem, está preocupado por ter pouca experiência.  O seu diabetes é diferente do meu, pois tomo 4 injeções de insulina diariamente. Portanto, muito mais difícil de controlar do que o diabetes tipo 2, que é o seu. Faça dieta, exercícios e use medicamentos que com certeza controlará seu diabetes. Use margarina becel, que é boa, e vá ao médico e ao nutricionista em uma cidade com mais recursos. Aliás, conheço Ilhéus e gosto muito dessa parte da Bahia. Tenha fé em Deus e em você, que viverá por muito tempo. Um abraço, Nelson.

4. Olá, “Zé” Carlos. É um exemplo de paciente diabético que deveria ser seguido e levado a sério por milhares de diabéticos no Brasil. Pelo que podemos perceber, já toma, por conta própria, uma série de providências que são altamente recomendáveis no caso do diabetes. Podemos dizer que, certamente, está no caminho certo. No entanto, colocamo-nos à sua disposição. Fique à vontade para entrar em contato conosco pelo telefone 0XX-61-328-8277, em horário comercial. Caso não seja possível atendê-lo no momento, peça para agendar um horário no telefone para conversar com o nutricionista Mário Júnior. Ele terá prazer em atendê-lo. Atenciosamente, By Corpus-Nutrição, Personal Training e Fisioterapia, bycorpus@bycorpus.com.br  

5. Caro José Carlos, meu nome é Gelson Schmitt, tenho 31 anos e sou proprietário de duas drogarias e uma farmácia de manipulação. Há 2 meses começamos um trabalho sobre diabetes e estamos muito empenhados, pois temos um objetivo e vamos atingi-lo. O “slogan” da campanha é: "como viver bem mesmo sendo diabético".   É muito importante que tenha um monitor (aparelho para monitorar diabetes) para que acompanhe diariamente sua taxa de açúcar no sangue.   De imediato, o que posso fazer é indicar-lhe alguns sites, muito bons: www.lowcucar.com.br, www.tiojuliao.com.br, www.diabete.com.br, www.diabetenet.com.br    Caso queira falar comigo, ligue para: 0XX-69-321-3305 ou envie-me mais e-mail. José Carlos, um abraço muito forte. Espero que possa ser seu parceiro nesta luta.

6. Oi! Meu nome é Margarette, tenho 32 anos e 1 filho de 10 anos. Desde os 3 é diabético. Faz uso três vezes ao dia de insulina aplicável. Foi muito difícil para mim, pois nem imaginava que existisse diabetes, ainda mais em crianças. Faz sua dieta de 6 refeições diárias normalmente, e acha até bom, porque não quer ficar gordo. Aplica sozinho a insulina e faz os testes também. Tenho participado de cursos na Associação e existem outros sites com bastante informações: www.adj.org.br www.anad.org.br www.bdbomdia.com  www.diabetesnoscuidamos.com.br  www.lowcucar.com.br  que possuem endereços e telefones para eventuais dúvidas, ou, então, mande-lhes um e-mail e, com certeza, responder-lhe-ão. Qualquer coisa que puder fazer para ajudá-lo, é só informar-me. Boa Sorte! Margarette.

7. ”Zé” Carlos, como vai? Meu nome é Sabrina, tenho 21 anos e há dois estou com diabetes. No começo fiquei tão confusa e preocupada quanto você. Mas acredite: com fé e responsabilidade superará tudo isso e verá que muitos momentos da vida são mais doces que o que deixamos de comer. No momento, estou na faculdade e daqui a pouco tenho que entrar para a aula, portanto não posso escrever muito, mas assim que possível mandar-lhe-ei um e-mail com a minha história. Se der, liga-me. Sou de Vinhedo, SP. Meu telefone é 0XX-19-3876-4706. Tenho muita amizade e contato com vários diabéticos, até de 6 e 8 anos de idade. Tudo de bom e pode esperar que entrarei em contato com você. Qualquer coisa, envie-me mais mensagens. Feliz Páscoa, só com chocolate “diet” (logo acostuma!) e que Deus nos abençoe. Um abraço, Sabrina, smcayres@bol.com.br 

8. Olá, José Carlos, sou Karol, tenho 20 anos e há 13 sou diabética! Vou explicar-lhe a importância das 6 refeições diárias para um diabético evitar complicações.Tanto a hiper quanto a hipo nos fazem mal! Não sou nutricionista, mas com o pouco que conheço, vou passar-lhe umas dicas:   CAFÉ DA MANH×8h: 1 pão francês, 1 copo e meio de leite com café e adoçante (poucas gotas). LANCHE—10h: Uma fruta, ou suco, ou uma barra de cereal, pois ajudam você não sentir tanta fome no período da manhã e poder alimentar-se adequadamente no almoço e não sentir hipos. ALMOÇO—12h: Legumes e verduras á vontade. Arroz: uma escumadeira média.   Feijão: uma concha média, de preferência com bastante caldo.   Carne: coma a que mais gosta, desde que seja frita com pouco óleo, de preferência 2 pedaços. Sobremesa: uma fruta. LANCHE—15h: O mesmo cardápio do lanche da manhã. JANTAR—18h: O mesmo cardápio do almoço. CEIA—22h: O mesmo cardápio dos outros lanches.   Faça somente caminhadas ou pedaladas, porque ajudam a queimar gorduras e reduzir a taxa de glicose mais rápido e beba um copo de água a cada uma hora.   Quaisquer dúvidas, entre em contato comigo: 0XX-16-3331-4674.

9. Olá, “Zé” Carlos, tudo bem? Meu nome é Marcelo, tenho 31 anos, 17 de diabetes e moro em Curitiba. Ficarei imensamente feliz em ajudá-lo. Seu e-mail foi longo e vou fazer apenas comentários gerais. Se tiver alguma dúvida específica, escreva-me novamente. Sua alimentação é interessante. Acho que meio radical. Com certeza sua fome no fim da manhã é porque não está fazendo uma alimentação mais estruturada. DEVE fazer pelo menos 6 refeições por dia. Sobre as fraquezas, só pode ser uma hipoglicemia (taxa de glicose baixa no sangue) por não fazer as refeições de maneira correta. O certo é verificar com um monitor de glicemia como ela está. Comer bolacha à noite até terminar a fome é muito errado. Tem que ter um planejamento alimentar e saber quanto vai comer. Se não tem nutricionista em sua cidade, tente agendar uma consulta a cada 6 meses em outro local. Com certeza, em Salvador encontrará bons profissionais. Sobre os sites na internet, tome cuidado com as fontes. Muitas vezes os jornalistas tendem a aumentar as coisas. Mas é uma referência para pesquisar mais e validar com seu médico. Bom, escreva-me com mais detalhes sobre suas dúvidas. Abraços, Marcelo Bellon Ferreira, marcelo@bellon.com.br 

10. ”Zé” Carlos, recebi seu e-mail, entre dezenas de outros. Vou tratá-lo como coisa séria.  Sou diabético há 4 anos e pouco e tenho 57 anos atualmente. Levo uma vida absolutamente NORMAL com meu diabetes. Claro, corro pela manhã, mas é a única coisa que faço para me manter dentro dos limites aceitáveis de glicose no sangue. COMO?! Perguntará você.  Obviamente, fazendo várias medidas de glicemia por dia, 5 ou 6, e ajustando-a com doses de insulina de ação rápida.  Essa técnica, desenvolvida pelo meu endocrinologista, e ajustada por mim (sou engenheiro) me permite comer, literalmente, de TUDO, exceção feita às feijoadas, rabadas e similares, que nunca comi na vida por não gostar. Mas bolinho de bacalhau com chope, queijos, sorvetes “sundae” do “McDonalds”, etc, como de tudo e, uma ou duas horas após, meço a glicemia e tomo insulina para reduzir a glicose. Meus níveis de hemoglobina glicosilada e frutosamina se mantêm BONS e meus outros exames regulares (4 vezes por ano), também. Com o passar do tempo, desenvolvi um sistema gráfico de acompanhamento dos meus números, usando a planilha eletrônica EXCEL, que muito me tem ajudado a determinar as minhas tendências. Enfim, PODE-SE viver BEM com o diabetes, desde que se tenha consciência e se aceite a doença como  parte da vida. Não é preciso dietas especiais, mas apenas um acompanhamento RACIONAL. Se desejar saber mais, responda este e-mail. Abraço.

11. Oi, “Zé” Carlos. É com enorme alegria que recebo seu e-mail e respondo-lhe. Explico-lhe: não estou alegre por você ter uma doença chata, mas, sim, por estar procurando cuidar-se. Isso, sim, é muito importante. A sua dieta é um “show”. Se souber a minha... Hoje mesmo comi 1 “hot dog” e um “sandwich”, por absoluta falta de tempo para jantar. Bom, deixa-me apresentar-me. Meu nome é Janaína, tenho 26 anos, trabalho e estudo à noite, então deve imaginar como é a minha vida! Moro, trabalho e estudo em três lugares diferentes. Infelizmente, o diabetes não é um probleminha que leve numa boa; ao contrário, sofro muito, com todas as conseqüências que a doença traz. Vivo cansada, com a glicemia muito alta e com as pernas super inchadas. Há dias que não sinto os dedos dos pés, afora todos os outros sintomas que o diabetes juvenil causa. Tomo insulina de 4 a 6 vezes por dia e faço exames de destro mais ou menos 4 vezes diariamente e mesmo assim tem dias que quero morrer de tanta dor nas pernas. Não lhe digo estas coisas para desanimá-lo, muito pelo contrário, cuide-se. Não que não me cuide, mas o meu caso é mais complicado. Fiquei mais de 5 anos enfiada dentro de hospitais, em UTIs, sem trabalhar ou estudar. Então pensei: se vou morrer disso, que seja de outra maneira, aí voltei a estudar, arrumei um emprego no qual não sabem que sou diabética (se soubessem, me mandariam embora!), passei no vestibular e estou fazendo engenharia. Meu coração está feliz, mas o meu corpo: COITADO! Bom, vou ficando por aqui. Se quiser, ligue-me. Estarei em casa domingo: 031-11-4351-2087. Abraços, Jana. janainaluana@hotmail.com

12. Prezado “Zé” Carlos, vi que suas dúvidas são muitas e precisarei de um pouco de tempo para responder-lhe uma a uma. Fui diabética por 10 anos e graças a Deus há 8 meses estou transplantada de pâncreas. Tomava insulina 5 vezes ao dia, um horror! Ainda bem que não toma insulina! Acesse o site do diabetenet.com.br  Irei responder-lhe com calma após a Semana Santa. Saiba que toda fruta tem frutose, o mesmo que açúcar, logo, comer jaca, uva (a mais doce), abacate, não o ajuda em nada. Para um bom controle, precisa se alimentar 6 vezes ao dia; café às 7, lanche às 10, almoço às 12, lanche às 15, jantar às 18 e ceia às 22h. Aí, sim, começará a não ficar louco de fome. Por outro lado, o leite tem lactose, sendo ele desnatado ou não. O exercício físico é ótimo para você e indispensável para qualquer pessoa, mesmo completamente sadia. O bom humor também. Em São Paulo existem  excelentes médicos. Procure um bom nutricionista. A minha médica em Salvador é a Dra. Sandra Veloso, tel. 031-71-353-5953. O tal chá não seria pata-de-vaca? Tomei muito e não vi muita mudança. Procure alimentar-se de saladas, mas não é somente cenoura, que é doce. Beterraba também. Eu, por exemplo, tomava 1 xícara de leite desnatado, com nescafé, 2 fatias de pão integral e 1 fatia pequena de queijo minas frescal. Lanche, 1 fruta; almoço, 1 concha pequena de feijão, 3 colheres cheias de arroz, 100 gramas de carne, frango, salada no lanche (180 calorias), fruta ou suco ou 2 biscoitos; no jantar, tirava o feijão; na ceia, 3 torradas bauducco sem açúcar, 1 fatia de queijo branco. É mais ou menos isso. O que quiser me perguntar, envie-me e-mail. Boa sorte e nos falaremos dentro em breve. Boa páscoa e que Deus o proteja. Cuide-se bem. O diabetes é uma doença que, se controlada, você chega lá. Um grande abraço, Jane Miranda, advjanem@hotmail.com

13. Caro “Zé” Carlos, não sei como seu e-mail veio parar no meu endereço, no entanto gostei de recebê-lo. Gostaria de ter mais tempo para analisar suas dúvidas e tentar ajudá-lo em alguma coisa. Sou nutricionista e professora de nutrição na Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, MS. Trabalho com saúde coletiva e o diabetes é uma das doenças mais comuns em nosso consultório. De início gostaria de dizer-lhe que me pareceu um pouco ansioso de mais com o problema. Acho que poderia viver de forma mais natural e conviver bem com a doença. Se já pratica atividade física e controla a alimentação, sua vida pode ser perfeitamente normal, apenas com alguns cuidados, é claro. Quanto ao número de refeições, não necessariamente  precisa ser 6 ao dia, desde que não tenha hipoglicemia e nem coma grandes quantidades de alimentos após um longo intervalo sem se alimentar. Em relação ao consumo de frutas, elas são ricas em um açúcar chamado frutose (têm pouca glicose), que é absorvido no sangue como frutose e só se transforma em glicose no fígado. Sendo assim, não aumenta muito a taxa de glicose no sangue após a absorção, exceção feita às uvas, que possuem uma quantidade maior de glicose que as outras, por isso é bom consumi-las com muita moderação. O único alimento que realmente não pode consumir é o açúcar e os alimentos que o contenham. Coma com moderação as massas e abuse de verduras e legumes. Outra opção muito boa são os alimentos integrais: pão, arroz e biscoitos integrais, que são ricos em fibras e diminuem e velocidade de absorção da glicose no sangue. E nada de comer bolachas até matar a fome. Prefira, pois, as comidas integrais, com bastante moderação. Parabéns pelo bom humor e valorização de Deus e da vida. Certamente, com Deus em primeiro lugar, todas as outras coisas serão alcançadas. Um abraço. Espero tê-lo ajudado um pouco. Osvaldinete Oliveira, olinete@ucdb.br

14. Caro “Zé” Carlos, inicialmente parabenizo-o pela maneira positiva como está cuidando de sua saúde. Gostaria de enfatizar-lhe alguns pontos referentes ao diabetes mellitus, sobre muitos dos quais demonstrou já ter conhecimento. O fundamental é que procure ter um estilo de vida saudável, o que pressupõe, além da dieta, da prática de exercícios regulares, não fumar e evitar bebidas alcoólicas, combater o stress, ter lazer e também um sono adequado, e também cultivar uma vida espiritual. Em relação a sua dieta sugeriria que procurasse realmente ter 6 refeições diárias para evitar a hipoglicemia e picos sanguíneos de insulina. A dieta fracionada ajuda a balancear nossa alimentação e deve ser adotada por todas as pessoas, independentemente de ter ou não problemas metabólicos como o diabetes. Sugiro-lhe que faça uma avaliação com um nutricionista que irá avaliar seu peso, altura, atividade física, etc, e prescrever-lhe uma dieta que deverá ser adequada aos seus hábitos alimentares, bem como a sua disponibilidade de alimentos em Ipiaú. Enquanto não faz a avaliação, aconselho-o a substituir o cafezinho do período da manhã e da tarde por uma fruta ou 1 copo de iogurte desnatado. A sua atividade física me parece  interessante, ficando a seguinte sugestão: praticar pelo menos 1 hora de exercícios por dia, a maior parte dos dias da semana, de preferência, se possível, todos os dias, pois o exercício é o melhor remédio para nossa saúde. No que tange a medicamentos, seria interessante que avaliasse com seu médico a introdução de aspirina e que ele também avaliasse a necessidade de medicações para controle de lípides (gorduras) sanguíneas e da pressão arterial, pois no diabetes costuma coexistir estas alterações. Gostaria de orientá-lo para que faça uma avaliação cardiológica com teste de esforço e outros exames, o que ficará a critério médico. No mais, referendo-lhe o Dr. Luiz Leite, médico clínico e gastroenterologista de grande capacidade que poderá acompanhar-lhe com avaliações periódicas. Cordialmente, Roberto Dultra. Coloco-me à sua disposição, em Ubaitaba, onde exerço minha atividade em Medicina Clínica e Cardiologia na Clinicor. Telefone: 031-73-230-1990.

15. Olá, José Carlos. Recebi seu e-mail, mas estava sem tempo para respondê-lo. Perdoe-me a demora. Bom, sou de São Paulo e diabética desde os 5 anos de idade, portanto faz 24 anos. Na ocasião me foi muito difícil e penoso, pois era raro casos de crianças com diabetes. Meus pais não aceitavam a doença (na verdade, ninguém a aceitava). As condições financeiras do meu pai não eram muito boas e o mercado não oferecia os tratamentos e as modernidades de hoje. Mas, graças a Deus, tudo teve um jeito, passei por bons médicos e conheci pessoas maravilhosas que souberam cuidar bem de mim e da minha saúde. Hoje temos a ADJ (Associação de Diabéticos Juvenil) e a ANAD (Associação Nacional de diabéticos). Ambas contam com serviço de bons profissionais, orientação, dicas, cursos de culinária, auto aplicação de insulina, contagem de carboidratos (para uma dieta melhor) e cuidados com os pés, mãos, olhos, e exercícios físicos. É muito útil e proveitoso, porém quase não faço parte, pois essa aula sei de cor e salteado e a aprendi no dia-a-dia. É uma pena que a sua cidade é distante e deve ser pequena, com poucos recursos. Tente se educar e pesquisar sobre o assunto para orientação e diálogo. Pela minha experiência, aconselho-o a tomar a medicação recomendada pelo médico direitinho, não abusar de massas, doces, gorduras e açúcares (sejam eles carboidratos, como arroz, massas e suco de fruta natural que contêm a frutose). Nunca misture duas massas. Se, por exemplo, comer arroz, não coma batata, ou vice-versa. Suco de fruta, apesar de natural, contém frutose, que é o açúcar da fruta que também altera a glicemia. Quando tomá-lo, misture-o com água, pois nossa dieta pode conter duas ou até três frutas e se tomarmos o suco estaremos ingerindo 4 ou 5 laranjas de uma só vez, por exemplo. Quanto aos chás, ajudam no bom funcionamento do rim e a eliminar excesso de açúcar na urina. Isso não quer dizer que vai ficar curado do diabetes. Se fosse assim, já teria me curado, pois quando era pequena minha mãe me deu chás de: pata-de-vaca, unha-de-vaca, confrei, abacate, caju, jambolão, além de simpatias com cana-de-açúcar, mamão papaya e tomei até vinagre (foi uma das simpatias), tudo o que pode imaginar. Penso que meu organismo tem uma deficiência (alguma coisa não funciona), por isso o fato de tomar remédios e fazer dieta, mas para quem pensa diferente tudo é válido, não acha? Não deixe que o problema faça sua vida desandar para “caminhos tortuosos”. Todas as precauções que tomarmos valerão a pena, porque retardaremos a chegada das moléstias mais graves e até fatais (falência dos rins, cegueira e amputação). Sou super saudável e feliz. Minha dieta é tão boa quanto dos demais. Fique dentro do peso. Faça bastante exercícios físicos, principalmente hidroginástica. Coma a cada 2 horas (em pequenas quantidades). Tome a medicação recomendada pelo médico e viva feliz. Vou pesquisar os endereços e sites na Internet e livros para me familiarizar com os riscos e tratamentos. Escreva-me. Beijos. Luciana, lucianakora@ig.com.br

16. Olá, “Zé” Carlos. Foi com muita satisfação que li seu e-mail.  Também sou portadora de diabetes e sei o quanto é difícil no começo.  Pelo visto tem o diabetes tipo 2 e o trata com comprimidos.  Ótimo!  Descobri há 1 ano e meio que tenho o diabetes tipo 1 e preciso tomar insulina 6 vezes por dia.  Hoje a encaro de forma tranqüila, mas no começo... Peço desculpas por não lhe telefonar, mas é que moro em Paranaguá, PR, e sairia muito caro um interurbano, porque tenho certeza de que ficaria muito tempo falando com o amigo, pois senti que é uma pessoa muito especial. Por isso fica mais fácil corresponder-me com você por e-mail. Quanto àquela  "fraqueza"  que disse sentir em intervalos da manhã e da tarde, chama-se  HIPOGLICEMIA.  É quando a taxa de glicose baixa além do normal.  No começo também não sabia o que era e ficava desesperada.  É uma sensação horrível.  Sentimos que vamos desfalecer e o corpo não reage.  Realmente é só ingerir um pouco de açúcar que mais ou menos 15 minutos depois já melhora.  A quantidade pode ser: uma colherinha de cafezinho de açúcar em meio copo d’água, ou uma bala (normal), ou um pedaço de chocolate, etc. No começo, passei muita fome.  Tinha medo de comer qualquer coisa, porque minha taxa de glicose era de 380 mg/l e não abaixava de jeito nenhum.  Em três meses perdi 14 quilos.  Cheguei a pesar 36 (hoje estou com 48).  Naquela época parecia um cadáver ambulante.  Eu, meu marido e meus filhos ficamos desesperados.  Depois que iniciei o tratamento com insulina comecei a recuperar meu peso. Você falou no lado emocional da doença e é verdade.  Afeta mesmo.  Creio que a adquiri por motivos emocionais. Há cinco anos perdi meu pai (que adoro) de câncer.  Minha mãe, devido à morte dele, sofreu inúmeros derrames, e ficou vegetando na cama por quatro anos e meio.  Faleceu também. Tenho duas irmãs e uma delas também está com câncer. Tinha certeza de que estava reagindo bem a tudo isso, mas aí apareceu a doença e o médico me explicou que meu organismo reagiu desencadeando o diabetes.  Fazer o quê, não é?  Dos males, o menor.  Agora procuro controlar mais o meu emocional e estou conseguindo.  Há dois meses uma amiga minha me indicou um remédio natural que está fazendo "milagres" para mim e para quem indico.  É totalmente natural.  O laboratório é de Minas Gerais.  Chama-se JAPADI.  Vou dar-lhe o telefone deles, que é gratuito. Liga para lá e pergunta-lhes aonde pode encontrar o remédio aí na sua cidade.  O telefone é 0800312903. Meu querido amigo (não se importa de chamá-lo assim, não é?) mas é que senti um grande carinho por sua pessoa, não sei se lhe ajudei muito, pois ainda estou aprendendo também com a doença.  De qualquer forma, adoraria corresponder-me com você e trocar idéias, conhecimentos, mensagens, piadas, etc. Para me conhecer um pouco melhor: tenho 41 anos, sou casada, com dois filhos lindos (“hehehehehe”) e me sinto muito feliz.  Sigo a doutrina espírita kardecista e participo de reuniões semanais.  Acredito, incondicionalmente, no Pai Celestial e sei que tudo que nos acontece é para o nosso bem. Desejo-lhe, e a sua família, uma FELIZ PÁSCOA e que a paz de Deus esteja sempre com vocês. Beijos carinhosos, Kátia, kpm@brturbo.com   

17. Boa tarde! Legal receber seu email. Muito bom mesmo. Pois é, minha estória é muito parecida com a sua. Sou casado, tenho 2 filhos lindos e maravilhosos: o Eric, com 18 anos (fez aniversário em dezembro passado ) e o Emílio, com 16 anos. Resido em Volta Redonda, RJ, mas meus pais e parentes estão em São Paulo, enquanto minha esposa é mineira de Leopoldina. Aqui mesmo, tenho poucos parentes, mas, graças a Deus, muitos amigos. Tenho 48 anos e fiquei sabendo que era diabético há 3 anos. Tive uma série de infecções de pele, sede excessiva, perda de peso violenta, ou seja, uma série de anormalidades, todas num intervalo muito curto de 2 a 4 semanas. A coisa ficou preta. Todo médico que me atendia perguntava: “é diabético”? A resposta: “claro que não, nunca tive isso”, etc. Mas, após um simples exame de sangue, veio a evidência que temia: 486 de glicose. Mesmo assim, na época, não admitia o fato. Para mim era uma crise passageira que sumiria em pouco tempo. Sem nunca ter nenhum sinal, de uma hora para outra a surpresa. Meu diabetes é do tipo 2. No início, comecei o tratamento com 2mg de PRANDIM + 2mg de AMARRIL. Abandonei o carro, só ando a pé (e bastante), doces, e nunca mais ingeri açúcar direto. Recomecei a praticar natação e futebol com os amigos e tenho me saído bem nessa brincadeira toda. De 2+2mg, hoje estou usando - regularmente - o PRANDIM de 0,5mg. Mas, para chegar até aqui, foi uma batalha que tive que vencer internamente. Atualmente, todos os familiares e amigos me ajudam no que podem, no dia-a-dia. No serviço, todo mês tem festa de aniversariantes e - antes - era bolo doce, confeitado e com recheio maravilhoso. Hoje, continua o bolo doce, mas incluíram torta e bolo salgado, refrigerante “diet”, etc. Como pode observar, isso mudou os meus hábitos e dos familiares e amigos com os quais convivo. Bem, resumindo: O diabetes é uma deficiência do pâncreas em produzir insulina em quantidade suficiente para metabolizar o açúcar (transformá-lo em energia ). Assim, em vez do açúcar ir para as células (levado pela insulina) fica no sangue (onde é prejudicial) e causa bastante transtorno. Pode acarretar coisas muito desagradáveis, chegando a comprometer outros órgãos e levar - em última instância - à morte. Mas, hoje em dia, ninguém mais morre de diabetes, se estiver bem informado e monitorado. O excesso de açúcar no sangue tende a deixá-lo magro, com muita sede, aparecimento de infecções, etc. A falta de açúcar no sangue o deixa tonto, com a vista embaçada , vendo estrelinhas. Sugestão: Não coma mais do que gasta em energia (isso é fácil). Comeu pouco, gaste pouco. Comeu muito, gaste muita energia. Infelizmente, só os exercícios não resolvem de imediato. Procure ajuda médica e se medique conforme orientação do profissional. Procure medir periodicamente sua taxa de glicemia (compre um bom aparelho). Gordura gera açúcar. Evite comidas e alimentos gordurosos. Faça exercícios moderados e contínuos. Valem mais que exercícios pesados e eventuais. Não ingira açúcar direto, evite sempre açúcares indiretos (pães, massas, batatas). Use e abuse de verduras. Consuma frutas regularmente, coma as cascas e o bagaço, se possível. Evite “stress” e confusão. Viva tranqüilo e sossegado. E o mais importante: mantenha-se alegre e usufrua da vida da melhor maneira possível. Esteja sempre de bem com ela. No mais, abraços, carlos.rocha@csn.com.br

18. Olá, “Zé” Carlos! Por que decidiu escrever-me? Como descobriu meu e-mail? Bem, sou nutricionista e tenho alguns comentários a fazer. Você perguntou a real necessidade de fazer várias refeições ao dia, não é mesmo? Normalmente, oriento meus pacientes dessa maneira para que não entrem em hipoglicemia (ou seja, glicemia muito baixa), quadro bastante comum em diabéticos que fazem uso de hipoglicemiantes (no seu caso, Daonil). Quando isso ocorre, o corpo dá sinais: tremores, tontura, mau hálito, fraqueza, formigamento, palpitação e, às vezes, até desmaio. Você vem apresentando esses sintomas exatamente porque concentra sua alimentação no almoço e nas refeições noturnas. Como faz exercícios regularmente, DEVE comer carboidratos (massas ou frutas) várias vezes ao dia. Em vez de comer 2 pães à noite e, ainda, biscoitos, coma um pão pela manhã e outro à noite, ou deixe o pão para a noite e, logo cedo, coma o biscoito. Mas, cuidado! Biscoitos têm muita gordura e sal. Evite comer mais de 6 biscoitos de uma vez. Nos intervalos, coma uma fruta. Não é preciso mais do que isso. Não dá trabalho, pode levar para o trabalho (não sei se é o caso). Mas, atenção: é importante comer a fruta, e não tomar o suco. Os sucos, principalmente os naturais, têm muito açúcar. Não é que o açúcar da fruta faça mal, mas a quantidade que come em uma fruta é bem menor (e sacia mais) do que a que tem em um copo de suco natural, pois ele leva muitas frutas. E o suco ainda nem enche tanto. O melhor é misturá-lo com água em vez de tomá-lo puro. Faz bem em comer muita verdura e não abolir o arroz (ou o macarrão) e o feijão da alimentação. Quanto à margarina “light”, a melhor opção é a Becel, e tem também a Milla. Não acho esta é a principal correção da sua dieta. Que tal um plano? Café-da-manhã: Leite, café, pão com margarina ou queijo branco, fruta. 10 h: fruta (basta uma unidade ou uma fatia). Almoço e jantar: 1 tipo de massa - arroz, macarrão, batata, mandioca, milho, purê de batata, nhoque, angu... (preencha 1/4 do prato com o carboidrato, nome científico das massas); feijão (1/4 do prato, também); carne (uma a duas porções, dependendo do tamanho). Nada de exageros! Ninguém precisa tanto de carne a ponto de comer muita quantidade. Carne demais pode afetar os rins, que já são muito sensíveis nos diabéticos. Coma bastante salada, verdura cozida ou refogada. Não precisa abolir o óleo, que é extremamente necessário: é só usar pouco e evitar frituras. Lanche: fruta. Jantar: almoço ou sopa ou igual ao café-da-manhã. Antes de dormir: leite (ou queijo ou iogurte) e um pouco de massa (1 pão ou 6 biscoitos ou 1 fatia média de cuscuz). A grande mudança é: café da manhã com algo além do café preto e, nos intervalos, uma fruta! Vai ver como seus tremores e formigamentos vão melhorar! Como toma o remédio pela manhã, precisa comer pela manhã muito bem, senão acaba sentindo aquela fome agressiva à tarde e à noite. Não é isso o que acontece com você? Acaba engordando porque come muito à noite, depois vai dormir e corre o risco de sofrer com a  hipoglicemia durante o dia. Caso sinta o problema, pode chupar uma balinha ou tomar um copo de suco com açúcar. Melhora na hora, pois quando isso acontece é porque o corpo tem pouco açúcar circulando no sangue. O caramelo que perguntou é bem vindo nessa hora. Por fim, como tem mais de 60 anos, não precisa exigir tanto do seu peso. Pode pesar até 78 kg, que é perfeitamente saudável. Outro detalhe importante: café demais faz a pressão subir e, se for coado em coador de pano, pode aumentar o colesterol. Assim, beba-o menos ou, caso não consiga diminuir a quantidade, passe a coá-lo em filtro de papel (acho mais fácil beber menos!). Sei que é muita informação, mas não é nada demais ser diabético. É uma doença que só o prejudica se deixar, e não é difícil controlá-lo, basta comer a cada 3 horas (é imprescindível), tirar o açúcar e comer muita fibra (frutas, verduras, saladas, feijão devem fazer parte de sua alimentação diariamente). Procedendo dessa maneira, fica até mais fácil emagrecer! Espero tê-lo ajudado um pouco. Sempre que quiser, pode escrever-me. Abraços, Heliênia, Brasília-DF.

CAPÍTULO VI.

PESQUISA FEITA NA INTERNET SOBRE DIABETES, CUJAS INFORMAÇÕES TAMBÉM ABORDAM ASSUNTOS LIGADOS À ÁREA DE NUTRIÇÃO.

NOÇÕES GERAIS SOBRE O DIABETES.

O diabetes mellitus, popularmente conhecida por DIABETES, é um distúrbio do metabolismo que afeta primeiramente os açúcares (glicose e outros), mas também tem repercussões importantes sobre o metabolismo das gorduras (lípides) e das proteínas. Muita gente pensa que o diabetes é uma doença simples e benigna, um probleminha banal de "açúcar alto no sangue". Na verdade, infelizmente não é bem assim. O diabetes é uma disfunção que, se não tratada e bem controlada, acaba produzindo, com o correr do tempo, lesões graves e potencialmente fatais, como o infarto do miocárdio, derrame cerebral, cegueira, impotência, nefropatia, úlcera nas pernas e até amputações de membros. Por outro lado, quando tratado e bem controlado, todas essas complicações crônicas podem ser evitadas e o paciente diabético ter uma vida perfeitamente normal. Recentemente, foi concluído um grande estudo, nos Estados Unidos, que demonstrou que o controle adequado do diabetes é, realmente, o único caminho para se evitar as complicações mencionadas. Essa foi a conclusão do Diabetes Control and Complications Trial.

DIABETES TIPO 1.

No diabetes tipo 1, ou insulino-dependente, as células do pâncreas que normalmente produzem insulina, foram destruídas. Quando pouca ou nenhuma insulina vem do pâncreas, o corpo não consegue absorver a glicose do sangue; as células começam a "passar fome" e o nível de glicose no sangue fica constantemente alto. A solução é injetar insulina subcutânea (embaixo da pele) para que possa ser absorvida pelo sangue. Ainda não é possível produzir uma forma de insulina que possa ser administrada oralmente, já que ela é degradada, no estômago, em uma forma inativa. Uma vez que o distúrbio se desenvolve, não existe maneira de "reviver" as células produtoras de insulina do pâncreas. O transplante de um pâncreas sadio ou, apenas, o transplante de células produtoras de insulina de um pâncreas sadio já foram tentados, mas ainda são considerados em estágio experimental. Portanto, a dieta correta e o tratamento com insulina ainda são necessários por toda a vida de um diabético. Não se sabe o que causa a destruição das células produtoras de insulina do pâncreas ou o porquê do diabetes aparecer em certas pessoas ou em outras. Fatores hereditários parecem ter um papel importante, mas o distúrbio, praticamente, nunca é diretamente herdado. Os diabéticos, ou as pessoas com diabetes na família, não devem ter restrições quanto a ter filhos.

DIABETES TIPO 2.

Embora não se saiba o que causa o diabetes tipo 2, o fator hereditário tem uma importância bem maior do que no diabetes tipo 1. Também existe uma conexão entre a obesidade e o diabetes tipo 2; embora a obesidade não leve, necessariamente, ao diabetes. O diabetes tipo 2 é um distúrbio comum, afetando 5 - 10 % da população. Todos os diabéticos tipo 2 produzem insulina quando diagnosticados e, a maioria, continuará produzindo-a pelo resto de suas vidas. O principal motivo que faz com que os níveis de glicose no sangue permaneçam altos está na incapacidade das células musculares e adiposas de usarem toda a insulina secretada pelo pâncreas. Assim, muito pouco da glicose presente no sangue é aproveitada por estas células. A ação reduzida da insulina é chamada de "resistência insulínica". Os sintomas do diabetes tipo 2 são menos pronunciados e é a razão para considerar este tipo de diabetes mais "brando" que o tipo 1. O diabetes tipo 2 deve ser levado a sério, embora seus sintomas possam permanecer desapercebidos por muito tempo, pois pode ser um sério risco à saúde do indivíduo.

SINAIS DO DIABETES.

Uma pessoa com diabetes mellitus não tratada apresenta os sinais da hiperglicemia que nada mais é do que a tentativa do organismo em eliminar o excesso de glicose, que produz muitos sintomas. Os mais freqüentes são: Aumento do volume de urina (poliúria); sede (polidipsia); fadiga, fraqueza; perda de peso; aumento do apetite (polifagia). Algumas vezes os sintomas são tão discretos que o indivíduo pode ficar anos sem perceber estas alterações. Por isso o diagnóstico de diabetes freqüentemente é feito através de exames de rotina, sem que houvesse uma suspeita anterior da doença.

NÍVEIS DE GLICOSE NO SANGUE.

Para diagnosticar apropriadamente o diabetes, o médico deve saber a quantidade exata de glicose presente no sangue do paciente. A quantidade é expressa em milimols por litro (mmol/1), referindo-se ao número de moléculas de açúcar por litro de sangue. Outra maneira de expressar o valor é em miligramas de açúcar por decilitro (mg/dl). Em indivíduos não diabéticos, o nível normal de glicose no sangue é, aproximadamente, de 5 mmol/1 (90mg/dl). Logo após uma refeição, o nível aumenta para, talvez, 7 mmol/1 (126mg/dl). 0 nível raramente cai abaixo de 3,5 mmol/1 (63 mg/dl). Em geral, não se encontra açúcar na urina se o nível de glicose no sangue for menor que 10 mmol/1 (180mg/dl).

MONITORIZAÇÃO DO DIABETES. 

Quando se fala em automonitorização, sempre pensamos nas implicações que ela representa e no fato de que a pessoa deve tratar do diabetes a partir de controles metabólicos. Existem estudos e pesquisas que já demonstraram a importância da manutenção dos controles metabólicos (glicemia capilar, glicosúria e cetonúria) em taxas ideais, como maneira de prevenir ou retardar as complicações crônicas do diabetes mellitus. Os objetivos da automonitoração é chegar a valores mais próximos do normal para glicemia capilar, glicosúria e cetonúria. Os valores para glicemia capilar em jejum vão de 60 a 120 mg/dl. Após a alimentação, o valor normal da glicemia chega a 160 mg/dl. Antes de dormir a glicemia deve estar entre 120 a 160 mg/dl. Nos casos dos valores de glicosúria e cetonúria, o ideal é que estejam sempre negativos. Cada tipo de controle tem suas vantagens e desvantagens. Contudo, é preciso considerar que a glicemia capilar oferece uma vantagem significativa que é a avaliação direta da glicemia. Através do teste de ponta de dedo, é possível saber no momento o valor da taxa de açúcar no sangue, o que possibilita a detecção de uma hipoglicemia ou de uma hiperglicemia. Em alguns casos é possível fazer uma leitura visual do valor da glicemia. Apesar do pequeno desconforto da picada e do custo mais elevado para se fazer a glicemia capilar com freqüência, é o tipo de teste mais indicado. É necessário que o exame seja efetuado com a técnica adequada, caso contrário os valores resultantes estarão incorretos. Há que se considerar ainda que as pessoas com problemas de visão poderão ter dificuldades de ler o exame. Portanto, quem tem algum problema visual deve estar acompanhado na realização do teste.

HIPOGLICEMIA.

O principal objetivo do tratamento do Diabetes é normalizar sua glicemia (açúcar no sangue). Para conseguir um perfeito equilíbrio metabólico, é preciso um equilíbrio entre dieta, exercícios físicos e medicação (insulina ou hipogliceminantes orais). Caso não ocorra esse equilíbrio, poderá apresentar hipoglicemia ou hiperglicemia). A hipoglicemia é a queda excessiva de açúcar no sangue. A aparição dos sintomas é rápido e os níveis de glicose no sangue estarão abaixo de 70 mg/dl. Causas da Hipoglicemia: Excesso de exercícios físicos; falta de uma refeição regular ou fora do horário; pouca quantidade de alimentos; vômito ou diarréia; administração de alta dose de insulina ou ingestão de maior quantidade de hipogliceminantes orais; consumo de bebidas alcoólicas. Sintomas da Hipoglicemia: Fome súbita; fadiga; tremores; tontura; taquicardia; suores; pele fria, pálida e úmida; visão turva ou dupla; dor de cabeça; dormência nos lábios e língua; irritabilidade; desorientação; mudança de comportamento; convulsões; perda do conhecimento. Em caso de suspeita de hipoglicemia, vai perceber um ou mais desses sintomas. Ao detectar os sintomas, deve-se proceder da seguinte forma: O objetivo é elevar o nível de açúcar no sangue. Se possível, verifique sua glicemia com tiras reagentes. O teste quantifica o açúcar no sangue. Não é aconselhável fazê-lo através da urina, pois o resultado não é confiável no momento da hipoglicemia. Deve ingerir algum alimento, como um copo de leite, suco de frutas ou refrigerante. Se, após 10 minutos, os sintomas não melhorarem, beba água com açúcar, coma chocolate, uma bala ou tabletes de glicose. Seu médico pode ainda indicar para estas situações o medicamento Glucagen injetável. O Glucagen libera glicose no sangue. O alimento deve ser dado quando o diabético estiver consciente e for capaz de engolir, nunca quando inconsciente. Se estiver inconsciente, deve ser feito o seguinte: Colocar na boca dele, do lado interno da bochecha, açúcar ou mel e friccionar a parte interna da bochecha para facilitar a absorção. As medidas devem ser imediatas e as pessoas que convivem com o diabético precisam ser informadas do problema: colega de escola ou trabalho, familiares e amigos. Eles podem salvar sua vida. Se, após as medidas, o diabético continuar inconsciente, leve-o imediatamente ao Pronto-Socorro mais próximo, informando ao médico plantonista o antecedente de diabetes, os sintomas da hipoglicemia que a pessoa apresentou e o que foi feito até o momento. Seguramente, o médico administrará Glucagen ou glicose endovenosa e verificará a glicemia. Quando a reação terminar, o diabético deve ingerir algum alimento de absorção lenta, como um sanduíche, bolachas, uma fruta ou outro alimento que tenha costume de comer normalmente. Como evitar a Hipoglicemia. Programe suas atividades físicas; ingira alimentos extras antes de exercícios físicos; cumpra o plano alimentar: horário, quantidade e qualidade dos alimentos. Em caso de vômito e diarréia, informe seu médico imediatamente. Utilize a medicação prescrita nas doses e horários indicados pelo médico. Evite bebidas alcoólicas. Em situações especiais, como viagens, festas, entre outras, intercale sua alimentação regular com lanches extras, de acordo com a situação. IMPORTANTE. Use sempre um cartão de identificação de diabético, que pode salvar sua vida. Leve sempre consigo Glucagen, que, em caso de hipoglicemia severa, poderá salvar sua vida. Tenha sempre consigo balas ou tabletes de glicose. Reconheça os sintomas e trate-os prontamente. Hipoglicemias noturnas podem se manifestar com pesadelos, gritos, além dos sintomas mencionados. Pode acontecer hipoglicemia sem sintomas e sua detecção só é possível ao fazer o exame de glicemia no sangue. Por isso, é muito importante realizar autocontrole domiciliar e informar seu médico.

HIPERGLICEMIA.

Taxas de glicose elevada (acima de 140mg/dl em jejum ou acima de 180mg/dl após a refeição). Se ocorrer a hiperglicemia, significa que o diabetes está fora de controle e se assim permanecer durante um período prolongado, poderá causar circulação de sangue deficiente, implicando num risco maior de complicações crônicas, como: problemas no coração, cegueira, amputações de pés ou pernas e enfermidades nos rins. No diabetes tipo 1, a hiperglicemia pode conduzir à cetoacidose, onde a taxa de glicose no sangue geralmente está muito elevada, acima de 240mg/dl, ocorrendo a liberação das cetonas na corrente sanguínea e na urina. Portanto, quando há presença de cetonas na urina, a glicemia está extremamente alta. A cetoacidade é uma emergência médica muito importante. Causas: Excesso de alimentos; medicação insuficiente; doença ou infecção; tensão emocional; pouco exercício físico. Sinais e Sintomas: Muita sede; garganta seca; urina freqüente; visão turva; muito cansaço e sonolência; cetonúria; inconsciência, nos casos graves. Tratamento: Verifique a glicemia ou a glicosúria e a cetonúria. Se a glicemia estiver acima de 240mg/dl procure o médico. Quem se esforça para manter um adequado controle da glicemia (açúcar no sangue) sabe que isso nem sempre é fácil. Muitas vezes, pensamos que estamos fazendo tudo certinho, da melhor forma possível e tomamos um susto enorme quando pegamos o resultado dos exames. Uma boa indicação para prevenir a hiperglicemia é fazer 5 ou 6 pequenas refeições bem equilibradas todos os dias. Não importa se vai almoçar em Belém, Salvador, Porto Alegre, ou fazer sua refeição na rua, no trabalho ou em casa: escolha sempre um bom prato de salada para começar, uma porção de carne (de preferência frango, peixe ou carne vermelha magra) e uma pequena porção de arroz e feijão, ou macarrão, ou batata. Para a sobremesa, prefira as frutas. Deixe as preparações tipo “diets” para a hora dos lanches. Lembre-se de que a maioria dos produtos dietéticos ou mesmo as receitas “diets” feitas em casa, preparadas sem açúcar, podem ser bastante calóricas e, portanto, também aumentam a glicemia. Isso não significa que não pode nunca mais comer os produtos “diets”. Só que tem que aprender a escolher qual é o melhor horário do dia para consumi-los, sem que interfiram ou façam sua glicemia subir demais. OUTROS SEGREDINHOS. Utilize alimentos integrais ricos em fibras. Beba bastante líquido ao longo do dia. Água, chás, refrescos e sucos de frutas como limão, maracujá ou caju são muito bem-vindos. Deixe sucos como laranja, manga e uva para beber quando estiver com hipoglicemia (glicemia abaixo de 70 mg/dl) ou tiver feito algum tipo de atividade física. Sempre que possível evite o uso de doces ou açúcar para corrigir as hipoglicemias. Freqüentemente, com o uso de doces e com o excesso de zelo, acaba indo da hipo direto para a hiperglicemia (acima de 180 mg/dl). Lembre-se de que numa emergência deve usar o que estiver à mão. Se não tiver uma pastilha de glicose ou o lanche que utiliza com freqüência, aceite qualquer outra coisa para poder elevar sua glicemia.

A IMPORTÂNCIA DO TRATAMENTO.

Os diabéticos que raramente monitoram seus níveis de glicose no sangue podem estar controlando muito mal o distúrbio sem se darem conta disso, porque os sintomas não são sempre óbvios. Porém, muitos diabéticos se sentem melhor quando monitoram o nível de glicose no sangue. Não é fácil definir exatamente qual é o nível ideal de glicose para todos os diabéticos. Naturalmente, o nível normal de glicose no sangue é o ideal, embora talvez seja muito difícil obtê-lo. Existem indicações fortes de que um bom controle da glicose no sangue retardará ou prevenirá o desenvolvimento das posteriores "complicações do diabetes". As complicações que podem levar anos para aparecerem incluem: Aumento dos riscos de um ataque cardíaco; circulação sanguínea deficiente e a perda de sensibilidade nas pernas e pés; olho diabético e doenças renais. Os diabéticos não precisam, necessariamente, apresentar todas estas complicações e alguns jamais as experimentarão. Porém, não é possível predizer quem as apresentará ou não.

EXERCÍCIOS.

Os exercícios físicos aumentam a sensibilidade do corpo à insulina e, portanto, tendem a diminuir o nível de glicose no sangue. Para o diabético, qualquer tipo de atividade física (trabalho em casa, caminhar, correr) deve ser considerado como exercício. Exercícios regulares e programados são melhores porque impactos súbitos, de exercícios mais intensos, podem trazer problemas para o controle da glicose no sangue. Se pratica esportes, pode continuar a fazê-los com toda a segurança, desde que o seu diabetes esteja razoavelmente bem controlado e que tome as precauções necessárias para evitar níveis extremamente baixos de glicose no sangue. Durante os exercícios que não façam parte de sua rotina diária, especialmente os pesados, provavelmente necessitará de um lanche prévio ou diminuir a dose de insulina injetada, sempre com a orientação do seu médico.

DIETA.

Os alimentos podem, a grosso modo, ser divididos em duas categorias: os que contêm açúcares "rápidos" (carboidratos de absorção rápida) e os que têm açúcares "lentos" (carboidratos de absorção lenta). Os alimentos com açúcares "rápidos" contêm açúcar refinado e incluem geléias, doces, balas, frutas, sucos de frutas e leite. Estes açúcares "rápidos" produzem altos níveis de glicose no sangue (dependendo da quantidade consumida), porque o açúcar chega à corrente sangüínea em um curto período de tempo. Portanto, é melhor combiná-los com açúcares "lentos", que são encontrados em alimentos como batatas, vegetais e arroz. Os açúcares "lentos" são mais seguros para o diabético porque chegam à corrente sangüínea mais lentamente e dão ao corpo a chance de absorvê-los antes que se "acumulem" no sangue. As fibras dos alimentos retardam a absorção de açúcares. Pode, também, reservar o consumo de açúcares "rápidos" para os períodos onde o seu controle mostrar que o seu nível de glicose no sangue está muito baixo. Quando isso acontecer, sentirá os efeitos e deverá consumir açúcares "rápidos" para corrigir esse estado. Terá mais informações sobre essa condição na parte relativa ao tratamento com insulina. Algumas regras gerais devem ser sempre lembradas: Coma de 4 a 6 pequenas refeições e lanches por dia; mantenha horários rígidos para as refeições; não "pule" refeições; não coma além da conta; coma apenas as quantidades recomendadas pelo seu médico, nutricionista ou educador em diabetes; coma pães de fibras ou de grãos inteiros e evite o pão branco; coma verduras e legumes diariamente; evite gorduras, açúcares e o álcool.

COMO DEVO COMER?

Uma alimentação equilibrada é aquela que contém todos os nutrientes: carboidratos ou açúcares, proteínas, gorduras, sais minerais, vitaminas, fibras vegetais e água. O equilíbrio nas refeições garante boa nutrição e melhor controle da glicemia. Fracione os alimentos em várias pequenas refeições. Os alimentos que têm fibras são: Leguminosas (feijões, ervilhas, lentilha, grão-de-bico e soja), cascas e bagaços de frutas, legumes e verduras. Inclua aveia e cevada em sua alimentação. Prepare os alimentos com óleos vegetais, como os de soja, arroz, girassol, gergelim, canola ou oliva. Evite carnes gordas, queijos gordurosos, creme de leite, maionese e manteiga.  Reduza a adição de sal no preparo de alimentos. Não coloque sal no alimento já preparado. Não use temperos, molhos e alimentos industrializados. Abuse de ervas aromáticas, como alho, cebola e cheiro verde. Use moderadamente adoçantes e outros produtos dietéticos. Produtos dietéticos devem ser consumidos sob orientação do nutricionista ou médico. Verifique na embalagem se o produto é indicado para diabéticos.

DICAS PARA UMA DIETA SAUDÁVEL.

Tenha força de vontade. Não adianta começar uma dieta e abandonar logo na primeira dificuldade. Coma as frutas com o bagaço, pois contêm fibras que ajudam a saciar a fome e a melhorar o funcionamento do intestino. Pedale, nade, corra ou ande pelo menos três vezes por semana. Quando precisar subir dois ou três andares, evite o elevador. Subir pela escada ajuda a queimar algumas calorias. Troque os sorvetes cremosos pelos picolés de frutas, porque são bem menos calóricos. Não pule o café da manhã para não exagerar no almoço. Não pule o almoço para não exagerar no jantar. Se tiver fome entre as refeições, fuja dos doces e salgadinhos. Prefira uma fruta. Não use só roupas largas. Pode pensar que cabe mais um pouquinho e acabar comendo em excesso. Aproveite as claras de ovos para fazer omeletes e suflês. É proteína pura, não contém colesterol e têm apenas 45 calorias cada. Prefira alimentos integrais em vez dos refinados. Contêm mais fibras, são mais nutritivos e acabam com a fome mais rápido. Em vez de se pesar, tire as medidas das coxas, da cintura, do quadril e do busto. É um recurso mais eficiente para saber se está perdendo gordura. Use e abuse dos chás de erva-cidreira, erva-doce, etc. Evite os que contêm cafeína, como o preto e o mate, já que estimulam o sistema nervoso central, deixando-o mais ansioso. Não adianta ficar magro e flácido. Um programa de exercícios deve acompanhar a dieta. Esqueça as frituras. Prefira assar, grelhar, refogar ou cozinhar os alimentos, de preferência sem óleo. A cervejinha, o uísque e a caipirinha não são proibidos para sempre. Mas evite-os no dia-a-dia. Qualquer bebida alcoólica é extremamente calórica. Coma sempre sentado à mesa, nem que seja uma fatia de queijo. Fica mais fácil para criar uma disciplina. Não faça as refeições ouvindo música alta e agitada. Pode entrar no mesmo ritmo e acabar comendo rápido demais. Descanse os talheres no prato entre uma "garfada" e outra. Esse truque o ajudará a comer devagar. Antes de repetir o prato, dê tempo da mensagem de saciedade chegar ao cérebro. Comece a refeição com uma salada variada. Ao partir para os pratos quentes, já vai estar com menos fome. Não reprima suas emoções. Grite quando estiver com raiva e chore quando estiver triste. Assim, não desconta na comida. Programe sua geladeira. Tenha sempre iogurtes, frutas e legumes em vez de tortas, bolos e sorvetes. Nunca faça jejum. Além de não emagrecer, vai deixá-lo fraco e com mais fome. Saboreie realmente os alimentos. Do contrário, comer tornar-se-á um gesto automático que fará sem pensar e sem sentir o gosto da comida. No final da refeição, não fique na mesa fazendo hora. Não tenha pressa para emagrecer. Perder os quilos extras aos poucos não o deixará entrar no efeito sanfona (engorda-emagrece-engorda). Cuidado com a fome psicológica, aquela que é provocada pela ansiedade e não pela fome verdadeira. Se já acabou de almoçar, nada de ficar beliscando. Fuja das confeitarias! Quando chegar o inverno, use e abuse das sopas que não levam creme de leite. Não repita o chavão: "Preciso fechar a boca". Em vez de fazer greve de fome, reeduque os seus hábitos alimentares. Quando fizer algo perto de casa, prefira ir a pé. Deixe o carro na garagem. Evite os carboidratos no jantar. Durante o sono, o metabolismo é mais lento e o gasto energético menor. Não substitua as refeições principais por sucos. Apesar de poucas calorias, não saciam a fome e não contêm todos os nutrientes de que precisa. No verão, fique com os alimentos leves. Abuse das saladas. Os pequenos excessos ficam para o fim de semana. No dia-a-dia, controle-se! Beba dois litros de água por dia, no mínimo. Depois do jantar, espere duas horas para se deitar. Isso evita o risco de armazenar gorduras. Evite fazer as refeições sozinhas, pois acaba comendo mal e com pressa. Aprenda a dizer não para si mesmo quando sentir vontade de repetir o prato. A segunda rodada é quase sempre gulodice e não fome. Não vá com fome ao supermercado para não atacar as guloseimas. O iogurte “diet” pode substituir o creme de leite. Use-o para engrossar molhos e cremes. Se não resistir a um churrasco, fique com as carnes mais magras, como picanha ou alcatra (sem gordura!). Fuja do cupim, da carne de porco e da lingüiça. Não vá para uma festa com fome. Lá vai encontrar bolo, coxinha, brigadeiro... Por isso, é melhor comer uma salada ou tomar uma sopa antes de sair. Evite os “fast-foods”. Sempre que estiver nervoso ou ansioso, deixe para comer mais tarde. Caso contrário, acabará não prestando atenção na quantidade e no sabor dos alimentos. Evite os alimentos enlatados, principalmente os conservados em óleo ou açúcar e o excesso de sal, que retém líquido no corpo. Uma opção mais “light” quando for comer fora é a comida japonesa (não confunda com a chinesa, que é super gordurosa). Se adora massa, coma logo após se exercitar. Assim, o carboidrato servirá para repor a energia que gastou e não será armazenado na forma de gordura. Quando quiser um sanduíche, opte por itens leves: pão integral, ricota, peito de peru ou frango, alface e cenoura. Evite o açúcar direto, calorias "vazias", sem nenhum valor nutritivo; prefira o açúcar indireto, contido nas massas, no pão, etc. Substitua o pão comum pelo pão integral e o açúcar pelo mel. Quando partir para um pequeno luxo alimentar, vá até o fim, em qualidade. Compre o melhor chocolate e coma pouco. Aprenda a reconhecer o paladar. Se já comeu muito jantando com os amigos, não faça um drama, cuide-se no dia seguinte e lance como perdas e ganhos. Para sua salada, reduza levemente o óleo: uma colherada em lugar de duas, já é uma vitória. Continue a caça à gordura, deixando suas frituras descansarem sobre um papel absorvente. Um truque para ovos estrelados: substitua o óleo ou manteiga por água. Os ovos não grudam e economizará uma boa centena de calorias. Não se deixe enganar, nove torradas fazem em calorias o mesmo que seis pãezinhos. No restaurante, sempre que possível, utilize a regra do prato único, seguido de uma fruta. Coma lentamente: no fim de vinte minutos, depois do começo da refeição, o organismo desencadeia mecanismos de saciedade. Adquira o hábito de mastigar bem os alimentos. Terá uma digestão melhor e comerá menos. É importante pesar-se regularmente. Uma vez por semana é suficiente. Reaja ao primeiro quilo a mais. Deve-se emagrecer antes de correr e não correr para emagrecer - é o que dizem alguns especialistas em corrida. Quando chegar em casa telefone para um amigo, ou beba um copo d'água, assim evitará os petiscos do fim da tarde. Só use adoçantes. Elimine totalmente o açúcar do seu chá, café e dos iogurtes. Descobrirá o autêntico sabor. Se o seu regime elimina o prazer de comer é porque qualquer coisa não funciona. Consulte um endocrinologista. Fruta faz bem, mas cuidado - nunca mais do que uma ou duas por dia, porque também tem açúcar. Privar-se do sal nunca fez ninguém emagrecer, mas seu abuso excita o apetite. Seja prudente com os regimes aconselhados nos produtos dietéticos: as recomendações são freqüentemente contestáveis e perigosas para a saúde. O pão integral é aconselhado por ser rico em vitamina B e em germe de trigo, que possibilita o perfeito funcionamento dos intestinos.

A IMPORTÂNCIA DAS FIBRAS NA ALIMENTAÇÃO DO DIABÉTICO.

Fibra alimentar é o material da parede celular vegetal que resiste à digestão das enzimas e demais secreções digestivas do homem. Seu uso melhora o controle metabólico com a redução dos níveis plasmáticos de carboidratos, glicose e insulinas pós-prandiais através do retardamento da absorção dos carboidratos, reduzindo a dose de insulina necessária para o controle. A fibra, quando ingerida crua, desempenha melhor suas funções, pois após cocção, fervura ou espremedura, rompem sua estrutura, diminuindo os efeitos benéficos. Classificam-se em solúveis (aveia, feijão, leguminosas secas, abóbora, couve-flor, couve, cenoura, batata, maçã, frutas cítricas, morango) e insolúveis em água (trigo, cereais, grãos integrais, leguminosas, favas, brócolis, couve de Bruxelas, casca de pepino, rabanete, beterraba, berinjela, hortaliças, pimenta, maçã, pêra, morango). Apresentam como efeito: Retardam o esvaziamento gástrico; aumentam o tempo de trânsito intestinal; tornam mais lenta a absorção de glicose; retardam a digestão do amido; reduzem os níveis elevados de colesterol; aumentam o volume fecal, melhorando o funcionamento do intestino; aumentam a sensibilidade do músculo à insulina e a sensação da saciedade. Dicas para aumentar o consumo de fibras na alimentação. Dê preferência ao consumo de frutas e verduras cruas. Inicie sempre a refeição com uma salada e, na sobremesa, prefira uma fruta aos doces ou preparações “diets” em geral. Coma frutas, verduras e leguminosas com casca e bagaço. Prefira comer as frutas em vez de beber seu suco. Consuma alimentos à base de grãos integrais. O aumento do consumo de fibras deve ser acompanhado de um maior consumo de líquidos, que ajudam a determinar a quantidade de fibra ideal para cada indivíduo. Tome diariamente 2 a 3 colheres de sopa de farelo de trigo (com água, leite desnatado ou na comida). Poderá encontrá-lo nas lojas que vendem produtos para diabéticos e supermercados em geral.

PÃES E MASSAS SEM EXAGERO.

É falsa a idéia de quem tem diabetes não pode consumir massas e pães (carboidratos). A alimentação de qualquer pessoa deve ser equilibrada, contendo alimentos que forneçam quantidades suficientes de nutrientes (proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas, sais minerais, fibras e água) para o bom funcionamento do organismo. Não existe nenhum alimento que, sozinho, contenha todos os nutrientes necessários ao organismo. Por isso, devemos ter sempre uma alimentação variada, consumindo nas refeições principais alimentos que forneçam nutrientes variados e em quantidades diferentes. Os carboidratos são importantes porque fornecem energia para que nosso organismo possa se manter em bom funcionamento e, com isso, exercer todas as nossas atividades diárias, como andar, trabalhar, estudar, praticar esportes, ginástica e outros afazeres. Portanto, o consumo de carboidratos, como os contidos nas massas e pães, não causa nenhum dano à saúde. Os alimentos ricos em carboidratos são: arroz, milho, batata, macarrão, pão francês, pão de centeio, mandioca, polenta, bolachas, farinha de trigo, farinha de mandioca, aveia, inhame, entre outros. Podemos consumir qualquer alimento desse grupo, desde que não ultrapassemos nossa ingestão calórica. Hoje contamos com uma grande variedade de pães ricos em fibras, cuja ingestão ajuda a controlar a glicemia porque as fibras tornam mais lenta a absorção da glicose presente nos alimentos. Mas lembre-se de que os pães também são calóricos e fonte de carboidratos. Portanto, seu consumo deve ser igual ao dos outros tipos, dependendo do valor calórico diário de cada pessoa. De maneira geral, no valor calórico total da alimentação, os carboidratos deverão representar de 50 a 60%, as proteínas de 10 a 15% (não ultrapassando 20%) e as gorduras até 30%, sendo recomendado menos de 10% de gorduras saturadas. A ingestão de alimentos ricos em fibras é fundamental para auxiliar o bom controle glicêmico. Uma recomendação importante: naquele almoço de domingo preparado pela "mama", a pessoa com diabetes pode consumir alimentos de todos os grupos. Deve iniciar a refeição com um bom prato de saladas cruas e em seguida saborear uma porção de massa, outra de carne magra, legumes ou verduras cozidas e de sobremesa uma fruta.

DIFERENÇAS ENTRE “DIET” E “LIGHT”.

Por muito tempo, o único alimento a que o diabético tinha acesso eram os produtos “diets”, direcionado as dietas com restrição de açúcar. No entanto, apareceu há alguns anos no mercado um novo produto: o “light”. Isso acabou provocando muitas dúvidas, principalmente nos consumidores. Não se sabe se o “light” é mais saudável que o “diet” ou se quem tem diabetes só pode comer produtos “diets”. Por isso, é importante compreender algumas diferenças entre os dois tipos de produtos. “DIET”: É um dos termos estrangeiros permitidos na rotulagem dos alimentos para fins especiais e se relaciona aos alimentos dietéticos. Alimentos dietéticos são produtos para dietas com restrição de açúcares, de sódio, gorduras, proteínas, entre outros. “LIGHT”: São os alimentos modificados que devem ter somente uma redução de no mínimo 25% de alguns de seus componentes, como açúcar, gorduras, proteínas, etc. Utilizados para controles de peso, dislipidemia, em alguns casos de pessoas com diabetes e até quem quer ter uma alimentação saudável.

MUITO AÇÚCAR NO SANGUE AFETA A MEMÓRIA.

Altos níveis de açúcar no sangue podem estar ligados à memória ruim, de acordo com pesquisadores da Universidade de Nova York. A descoberta pode ajudar a explicar porque as pessoas podem sofrer problemas de memória quando ficam mais velhas. Segundo os cientistas, a memória pode ser melhorada com exercícios e perda de peso, que ajudariam a controlar os níveis de açúcar no sangue. A glicose é necessária para dar energia ao corpo. Acreditava-se que o suprimento para o cérebro estaria protegido, mas agora se sabe que isso não é verdade quando se trata de diabéticos ou de pessoas com alto nível de açúcar no sangue. Os pesquisadores afirmam que tentar relembrar fatos põe muita pressão no suprimento de energia das pessoas que têm níveis mais altos de glicose, causando problemas de memória.

CUIDADOS COM OS DENTES.

IDENTIFICAÇÃO. Obturações, extrações ou cirurgias dentárias ou de gengivas freqüentemente causam angústias nas pessoas com diabetes. O QUE FAZER. Deve-se ter certeza de que os seus níveis de glicemia (taxa de açúcar) no sangue estão controlados antes de tratar-se. Avise ao dentista que tem diabetes. ATENÇÃO. A pessoa com diabetes pode fazer qualquer tratamento dentário, desde que seu diabetes esteja bem controlado. Gengivites (infecções de gengivas) aparecem freqüentemente em pessoas com mau controle (taxas altas de glicose mantidas por algum tempo). Deve-se procurar o dentista, quando aparecerem. Como em qualquer outra infecção, podem elevar as taxas de glicose e, por isso, às vezes é necessário aumentar as doses de insulina ou hipoglicemiantes orais. Procure seu médico se tiver esse problema.

CUIDADOS COM OS PÉS.

Os diabéticos têm motivos muito especiais para cuidar dos pés. Níveis elevados de glicose no sangue por um longo tempo podem levar à perda de sensibilidade e dificuldade na circulação do sangue nos pés do diabético. Com isso, pode não sentir queimaduras, cortes e machucados, facilitando o aparecimento de infecções. As infecções interferem no bom controle do diabetes. O cuidado diário e meticuloso dos pés e a escolha de um calçado adequado podem ajudar a prevenir esses problemas. Olhe para seus pés, procure calos, cortes, rachaduras, bolhas e mudanças na cor da pele. Use um espelho ou peça a ajuda de outra pessoa se tiver dificuldade para ver seus pés. Examine cuidadosamente entre os dedos. Lave os pés diariamente com água morna e sabão neutro. Não deixe os pés de molho e não use bolsas de água quente. Seque bem os pés, principalmente entre os dedos e ao redor das unhas. Passe creme hidratante nas pernas e nos pés, mas nunca entre os dedos. Não use talco, “spray” ou esparadrapo nos pés. Não corte os calos e não use produtos para retirá-los. Corte as unhas em linha reta e nunca as deixe muito curtas. Não retire as cutículas e os cantos das unhas. Não use canivete, gilete ou faca para cortar as unhas. Informe à pessoa que cuida de seus pés para seguir esses cuidados. Use calçados fechados e macios e meias confortáveis. Não use calçados apertados, abertos, de bicos finos e de saltos altos. Antes de calçar meias e sapatos, verifique se não há nada dentro deles que possa machucar seus pés, como pregos, pedras, ou furos. Não ande descalço, nem mesmo dentro de casa. Quando indicado, use palmilhas diariamente, durante todo o tempo. Ao fazer exercícios, use calçados adequados e a palmilha. Use meias de algodão sem costura e sem elásticos, trocando-as diariamente. IMPORTANTE. Quando houver qualquer alteração nos seus pés, procure o médico ou a enfermeira do local em que faz o acompanhamento do diabetes. Peça ao profissional para examinar seus pés durante a consulta. Cuide bem deles. Um passeio diário estimulará a circulação sanguínea e o fará sentir-se muito melhor. Lembre-se de caminhar e fazer exercícios diariamente, para que o hábito possa contribuir para evitar as complicações tardias do diabetes.